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Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O meu entrevistado é sabidamente uma figura prolífica no campo literário. E dizer isso não se alinha a uma ideia de que há em seu modus operandi uma busca desenfreada pelo volume das coisas, ou seja, por uma maquinação que, a qualquer custo, grafe palavras no corpo dos livros. Há nele o interesse aguçado na matéria que emana da vida, vislumbrando cenários, objetos e personagens diluídos naquilo que tanto denominamos de realidade. Acima de tudo, é um alguém confessadamente imbuído de confeccionar seus escritos através de um engenho esmeradamente arquitetado, mesclando estudo e pesquisa, dentre outros importantes atributos.

Falar de Marcus Vinícius Rodrigues, a quem já entrevistei noutras oportunidades, é também pensar o quanto sua obra, largamente situada no terreno da prosa, reflete uma predileção criativa que trata a própria Literatura como uma entidade organizadora de tudo, quiçá o que ele mesmo chama de mistério da criação, esse algo que provavelmente convoca autores a lidarem com os chamados do mundo que os abraça e constitui. É assim que esse autor vai nos envolvendo em livros como 3 vestidos e meu corpo nu (2009), Cada dia sobre a terra (2010), Café molotov (2018), A eternidade da maçã (2016),  O mar que nos abraça (2019), dentre outros que engendram sinais de nossas humanas idades.

Mas a conversa que travamos agora para a Diversos Afins, em meio a uma entusiasmada troca epistolar de e-mails, coloca no centro o mais recente rebento de Marcus, o instigante Motel Mustang (2024), livro de contos que elabora, a seu modo, narrativas marcadas pelos efeitos de uma tragédia ocorrida em Salvador no fim da década de 1980. Nesta entrevista, é possível perceber o quão compromissado está o escritor em estruturar o seu ofício a partir de um projeto literário consciente e maduro, revelando pormenorizadamente ao leitor algumas estratégias que mobilizam e formulam suas criações. Mostra-se, pois, um alguém profunda e gentilmente disposto a compartilhar o universo que o faz seguir adiante, cultivando não somente palavras, mas também inquietudes.

 

Foto: Danilo Alves

 

DA – Partindo de uma tragédia real, você constrói o seu Motel Mustang. E é interessante perceber ali que a ficção ocupa um espaço privilegiado quando oferta aos leitores visões sobre personagens que perfeitamente poderiam ter existido, todas elas com trajetórias singulares, mas entrelaçadas pelo destino comum e fatídico. Na sua perspectiva de autor, a realidade também clama por alguma espécie de reinvenção?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Você inicia sua pergunta assumindo que eu parti de uma tragédia real para produzir um livro que privilegia a ficção. Na verdade, o processo foi o inverso e talvez eu possa dizer que tenha sido um acidente, um acaso, ou, quem sabe, um sopro de uma musa em meus ouvidos. Espíritos? Apenas o mistério da criação. Em maio de 2023, eu me dirigia à sede da Editora P55 para uma reunião. Já há algum tempo eu dizia a André Portugal e Marcelo Portugal, os editores, que eles deveriam fazer um livro coletivo (antologia ou coletânea). Vários escritores. Propus um livro erótico, que acabou sendo lançado e se chama Eros sobre os abismos, com Clarissa Macedo, Dênisson Padilha Filho, Kátia Borges, Rita Santana, Suênio Campos de Lucena, Victor Mascarenhas e eu. No caminho, no carro, me veio a ideia de fazer um livro sobre o Motel Mustang. Cada autor escreveria um conto que se passasse na noite da tragédia. Imediatamente, achei a ideia muito boa e resolvi escrever. Na reunião, apresentei os dois projetos. Na semana seguinte eu estava no centro de documentação do Jornal A tarde fazendo pesquisa.

Eu lembrava da tragédia ocorrida em 1989. É uma lembrança de ouvir dizer, de conversas das pessoas. Não lembro de ter visto as matérias nos telejornais. Devo ter visto, mas não lembro. Era uma lembrança sem imagens. A partir de 1991, eu passei a trabalhar na Avenida Suburbana. No trajeto, eu sempre lembrava do motel. Eu não sabia onde exatamente tinha sido e ficava imaginando onde ele ficava. Outra lembrança marcante foi que uma professora minha do ensino médio tinha perdido o marido na tragédia. Evidentemente, ele estava com uma amante. Essa é uma lembrança que também ficou enevoada. Não lembro se foi ela mesma quem falou ou se alguém falou dela. Com o tempo, eu passei a duvidar da história porque outras histórias semelhantes surgiram. Se todo mundo que dizem ter morrido no motel em situação de adultério tivesse mesmo morrido, teria sido muito mais que nove vítimas. Essa história de minha professora inspirou o último conto do livro (“O que se vê do alto”), primeira história pensada, já com a ideia de ir limpar a igreja para vender. Enfim, respondendo a sua pergunta: desde o começo eu pensei em usar a ficção para me aproximar dos acontecimentos. A minha pergunta íntima era: como as pessoas se sentiram. Eu quis entender o que é viver uma tragédia dessas; como é descobrir uma traição nessas circunstâncias; como é ver gente morrendo, como é morrer… e o que buscavam os clientes, quais suas histórias. Ao longo do processo de escrita e pesquisa, eu fui me aproximando mais e mais da realidade. Falo escrita e pesquisa, e não pesquisa e escrita porque, sim, comecei com ficção e fui adentrando aos poucos na realidade. Eu só consegui achar o inquérito policial no meio do processo. Mas eu já tinha o livro planejado e já sabia que a realidade, a tragédia em si, seria retratada no conto “O peso de tudo”. O livro foi escrito na ordem em que foi publicado, embora as duas histórias finais tenham sido as primeiras a serem pensadas. Na primeira pesquisa em jornal, eu li a frase “toalhas foram encontradas nas casas da vizinhança”, e essa notícia gerou o penúltimo conto, “A maciez da vida”.

 

DA – Interessante saber desses detalhes do processo de criação de Motel Mustang, pois eu já ia lhe indagar sobre como foi exatamente a pesquisa histórica que ele evoca, ainda mais em razão da obra apresentar trecho do inquérito policial, bem como o recorte de jornal que noticiava, em matéria de capa, a tragédia. Isso confere também certo reforço documental ao livro, uma sinalização ao leitor do seu embasamento na realidade. Ao mesmo tempo, é libertador saber que a Literatura não precisa ter compromisso com uma ideia de verdade comprovável?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Como você pôde ver, minha aproximação com o fato real foi quase por acaso. Ela não começa com uma pretensão de lidar com a realidade. Apenas aconteceu. Eu estava vasculhando na minha cabeça uma ideia sobre erotismo. A lembrança do motel foi um acidente. Uma pedra no meio do caminho. Peguei a pedra e transformei em uma direção a seguir. A escrita deste livro foi um processo único. Lá estava eu diante de um material real a ser trabalhado com minhas próprias realidades internas. Eu digo na orelha que é um livro escrito sob o signo da compaixão. É verdade. Aos poucos, eu fui me aproximando das pessoas reais que morreram, dos sobreviventes, das histórias íntimas vislumbradas nos depoimentos. Isso me fez olhar para minhas personagens com compaixão porque elas representam aquelas pessoas reais e todos sabemos o final trágico. É isso: eu tinha uma moldura trágica, ou seja, um destino inexorável, o desabamento. Quem entra no livro sabe disso. Então, coube a mim ficcionalizar, não a tragédia, mas os dramas particulares de cada um. Trabalhei muitos anos naquela região de Salvador, o Subúrbio ferroviário, como advogado de empresas de transporte coletivo. Naqueles anos, aprendi que, quando a tragédia chega, ela é obrigada a dividir espaço com dramas anteriores. Uma pessoa atropelada não é uma pessoa que vivia feliz e foi atropelada, é uma pessoa que antes já tinha seus dramas e suas infelicidades. Eu queria, no Motel Mustang, mostrar esses vários universos particulares que foram atingidos por aquele soterramento: o jovem e sua primeira vez; a mulher insegura do amor de seu namorado; o homem que quer ser aceito no trabalho; o casal gay que enfrenta a homofobia e o medo da AIDS; a mulher com seus conflitos religiosos; o menino que deseja se impor aos colegas; a mulher que redescobre sua libido; a mulher que descobre a hipocrisia da religião. Em meio a tudo isso, vislumbres da realidade: o garçom que ia se casar; o motorista e seu desamparo; o heroísmo do faz tudo; a camareira que não consegue salvar os hóspedes; o gerente que se sente impotente para resistir à opressão econômica. Até mesmo a dona do motel e sua crença em seres extraterrestres me interessa.

Eu fiz uma pesquisa extensa. Há muitos fatos reais interessantes e há, também, muitos fatos ficcionais. Eu lidei com aqueles que se me apresentaram inteiros, aqueles que acenderam primeiro, as primeiras cintilações de ideias. Ah! Se eu tivesse tendência à mistificação, diria que as personagens me escolheram. Muitas histórias reais e inventadas ficaram de fora. O fato de serem seis contos naturalmente exercia uma pressão para mais um, o sétimo, o tal número cabalístico. Resisti porque, desde o começo, tinha um desenho claro, uma partitura: a chegada ao motel, sua apresentação; os casais nos quartos na busca do amor no sexo; o momento do desabamento com todos os seus problemas reais e todos os sentimentos de morrer ou ver a morte; os saques do dia seguinte e o luto dos que perderam alguém. Não caberia mais nada além disso.

 

DA – Qual foi a sua maior sensação depois do livro ficar pronto?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Nossa! Deixa eu pensar. Vou elaborando enquanto escrevo. Sabe, tem uma coisa que estão falando ultimamente. As pessoas criticam quem diz que o filme ou o livro é baseado em fatos reais porque todo fato é real. Eu discordo e já mencionei isso acima. Existem fatos ficcionais, eventos inventados que são tão fortes que jamais poderão ser mudados em uma adaptação. Capitu tinha olhos de ressaca. Isso é um fato. Quando eu terminei o livro, eu tive essa sensação. Tudo que estava ali inventado era fato. Ou seja, eram pessoas e acontecimentos imutáveis. Alguns morreram outros sobreviveram. Eu sei quem são, embora não conte. E isso é um fato.

Essas personagens eu as vou descobrindo durante a escrita.  Esta semana eu estava numa oficina de escrita para romance de Davi Boaventura e o exercício era dizer tudo da personagem, criar a personagem. Eu me dei conta que a personagem vai me aparecendo com o tempo de escrita. O próprio ato de narrar é quem me faz entender a personagem. Quando tudo dá certo, a personagem fica completa e viva. Elói, Iranice, Marta, Torres, Jackson, Terêncio, Luciane, Dinho, os pais de Dinho, Dona Mira, o pastor, Janaína… todos são reais para mim. As pessoas reais também se cristalizaram. Eu tive muito cuidado em retratá-las. Omiti os nomes e as mencionei pela função. Ao mesmo tempo, fiz um tratamento ficcional. Eu queria que o leitor sentisse a dor que eu senti com a morte do motorista e do garçom, por exemplo. Eu queria que houvesse uma conexão com eles. A dona do motel era uma personagem pronta. Sua crença em ETs declarada à imprensa jamais poderia ser inventada. Soaria inverossímil, mas a realidade é assim, não é?

As pessoas reais: sei que familiares do motorista compraram o livro. Foram à editora pessoalmente para isso. Não tive contato. Localizei um filho de minha professora. Ele não quis falar sobre. Foi educado e distante. Ouvi muitas histórias de pessoas que frequentaram o motel, tive notícias dos donos. Até meu irmão conhecia o dono porque as contas do motel eram da agência bancária em que trabalhava. É um evento conhecido pela cidade. Muita gente lembra. É estranho lidar com um material tão sensível, uma responsabilidade ainda maior.

Do ponto de vista literário, Motel Mustang é um livro que resume minha escrita. Estão lá todos os temas, todas as preocupações, os meus modos de fazer e algumas descobertas. É um livro com tantos assuntos: sexo, amor, morte, descobertas da juventude, a pobreza de Salvador, as crianças, o homoerotismo, a AIDS dos anos 1980. Há um olhar a respeito da mulher; há a crítica à religião, assunto que me interessa. E há os assuntos que interessam às caixinhas das pautas atuais. O livro já foi resenhado a partir do ponto de vista da catástrofe ambiental. As pessoas falam da crítica social. Enfim, tem de tudo.  Mas para mim são pessoas.

 

Foto: Danilo Alves

 

DA – Essa sua última resposta é de uma profundidade significativa, pois trata dos seus mergulhos genuínos no engenho criativo. E não há como deixar de falar do modo como as suas personagens ganham vida ali no livro especialmente pela construção dos diálogos, pois você poderia apenas escolher ter narrado as histórias. Qual a dimensão do potencial que essas interações produzem na sua escrita na medida em que os protagonistas falam?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – É tão bom falar de literatura assim: os modos de fazer, os truques de escrita. Gosto de falar truques e não técnicas, concepções, poéticas. Apenas truques. Hoje em dia as falas de escritores ou são o marketing do livro ou são os grandes temas da pauta contemporânea: a emergência climática, o racismo, a violência contra as mulheres, os lugares para as mulheres pretas, a visibilidade trans, a visibilidade lésbica (homens gays estão fora de moda), a periferia, “O tal Brasil profundo”, a discussão se existe “O tal Brasil profundo”. Dei muitas entrevistas no lançamento do Motel Mustang. O soterramento é um evento que desperta a atenção. Um bom marketing. Mas eu não pensei nisso quando tive a ideia. Já disse acima que eu estava vasculhando a cabeça atrás de uma ideia para livro erótico e acabei tropeçando na lembrança da tragédia.

Depois do lançamento, o livro encontrou a caixinha da tragédia climática e está ali perto da onda de histórias reais que vem junto com a autoficção. As histórias particulares reais. Toda a indústria da narrativa está voltada para histórias com um tempero de real. Eu chamo isso de “Literatura Gourmet”. Explico. Cozinha gourmet é assim: o cozinheiro (ou chef) diz no cardápio que aquela é a receita de sua avó italiana, que está na família há gerações, ou que aprendeu com sei lá quem. O caderno de receitas de minha mãe tem isso: umas receitas que levam o nome da amiga que lhe passou. Aí eu aprendi que tinha a Torta de Dona Nereida e sei lá mais o quê. Um dia a gente descobre que aquela receita é só um pavê igual a tantos e que não tem nada de especial. Mas ser de Dona Nereida, ser da avó italiana do cozinheiro “agrega valor”. A avó italiana é um clichê clássico e, claro, ser descendente de italiano nesse país parece ser alguma coisa. Ai, meu Deus, estou aqui arrumando inimigos. Deixa eu arrumar mais alguns: pra competir com a avó italiana, temos agora a avó filha de escravizados ou ela mesma escravizada. É importante uma memória mais palpável da escravidão. Acho justíssimo. Se os italianos e os judeus podem, por que não os descendentes de povos africanos? E são histórias nunca contadas.

Um parêntesis: acho que toda essa onda de literatura não urbana está ligada, também, a essa reconstrução da história perdida das pessoas descendentes de africanos. São histórias apagadas. Dou um exemplo da minha família: minha mãe, negra, sabe muito pouco de sua família biológica; sobre a família de meu pai branco tem um livro caseiro de um primo que recupera a história a partir do final século XIX. Acho muito estranho ser a partir do final, já depois da abolição. Como há muita lacuna, as narrativas de escritores negros e negras acabam se voltando para gêneros que estavam esquecidos. Não é por acaso os romances de sagas e de formação que passam por histórias rurais com ar de romance de 30. São essas narrativas construtoras que são necessárias agora. No futuro, os escritores negros também vão entrar na desconstrução. Antes que alguém me aponte o dedo, eu sei que há literatura desconstruída agora. O tempo todo tem de tudo acontecendo. Estou falando do que está em evidência. Só para que não me acusem de coisas, repito que são literaturas necessárias e de excelente qualidade. O que estou falando é outra coisa. Estou falando da recepção dessa literatura que leva em conta elementos externos ao livro. É isso que chamo de “literatura gourmet”.

O Motel Mustang caiu nessa. Ele interessa por fatos externos ao livro. A tragédia real agrega valor. Ainda são poucas as pessoas que querem conversar comigo sobre literatura, sobre a linguagem que eu usei… essas coisas que escritores gostam de falar, mas que pouco falam em público porque nas festas literárias querem que a gente fale das pautas do dia, com o agravante de falarmos — nós os escritores não tão conhecidos — para pessoas que não nos leram e jamais lerão. Eu quero falar das personagens falando. Os diálogos. Eu tinha narradores mais distantes, mais neutros, e acho que minhas personagens também eram mais introspectivas. Falavam pouco. Com o tempo, fomos ficando mais extrovertidos, eu, os narradores e as personagens. Se antes o jeito lacônico dos narradores contaminava as personagens, acho que agora são as personagens que, extrovertidas, contaminam o narrador.

O livro tem narradores em terceira pessoa. Ou melhor, tem um narrador em terceira pessoa que vai se contaminado pelas personagens. No primeiro conto, “O sol no meio da noite”, o narrador Elói e Miguel se misturam, às vezes na mesma linha de texto. Tudo muito coloquial. Há um vai e vem no tempo. Elói e Iranice, estão no presente, na entrada do motel. Miguel está com Elói no passado e em sua cabeça o tempo todo. Há quem diga que são três pessoas naquele casal. Enfim, tudo misturado e nervoso como é próprio da juventude das personagens. No lado oposto do livro, no final, o conto “O que se vê do alto”, tem personagens evangélicas. A linguagem, do meio para o final, é muito contaminada por isso. Quem cita trechos inteiros da Bíblia? O narrador, Dona Mira ou Dona Neide? É um conto com um final melodramático. Sofri muito para escrever a cena da vassoura. Na primeira versão ela batia no pastor com o cabo. Achei demais. Estava muito Walcyr Carrasco. Limpei, limpei, mas ela precisava varrer a cara do homem. Ainda acho muito melodramático, mas Dona Mira é assim. Esse é outro momento em que o escritor diz que a personagem tomou as rédeas. Na verdade, é a constatação de uma lógica interna da personagem. Dona Antônia, personagem do conto “A fresta”, que eu escrevi para a Diversos Afins, também é evangélica, cita a Bíblia, mas não faria esse gesto tão largo de varrer a cara de alguém. Bem, ela não perdeu o marido no soterramento de um motel. Ele está dormindo em sua cama com a barriga ocupando todo o espaço.

Outro conto que merece destaque é “O peso de tudo”, em que o narrador está próximo a Luciene, uma funcionária do motel muito católica e que tem aversão ao pecado do lugar. É a partir do ponto de vista dela que vemos a tragédia. Quando é preciso mostrar a encosta desabando, o conto é interrompido e entram alguns minicontos que mostram o desabamento por um ponto de vista objetivo, além de detalhes que aconteceram com as pessoas reais. Depois, o conto retorna de onde parou. Neste momento, o livro assume que não é um mero livro de contos, mas, sim, uma grande narrativa fragmentada em que o motel é o protagonista. Ainda sobre diálogos: o terceiro conto, “A face encoberta”, com o casal de homens, é todo em diálogos com um narrador quase inexistente para que o leitor descanse. Ele vem de dois contos de estilo muito enrodilhado e vai, depois, ler o conto sobre o desabamento, o mais pesado. Então, um conto em estilo simples dá um descanso. E ainda tem humor, apesar do tema ser homofobia, AIDS, morte. Pensei o livro como uma unidade. Por isso o terceiro e o quinto conto são mais suaves; o terceiro, suave na forma; o quinto, suave no tema. “A maciez da vida” é um conto esperançoso, um amortecedor entre “O peso de tudo”, com sua tragédia, seu horror, e “O que se vê do alto”, que é sobre luto e decepção.

 

DA – Bem sabemos que um motel é também um lugar de vivências clandestinas, tanto na questão do adultério quanto no explorar de horizontes libertários do desejo sexual, dentre outras possibilidades. Como é que você lidou com essa perspectiva na sua criação?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Neste momento em que escrevo, Salvador acaba de passar por três dias de chuvas muito fortes. Ontem uma pessoa morreu num deslizamento de encosta. Imediatamente, algumas pessoas próximas lembraram do Motel Mustang. Um repórter da TV lembrou do episódio ao vivo. Digo isso como quem prova que a camada de tragédia climática e social é bem evidente no livro. Mas, como já dito, é um livro de muitos temas, dentre eles, também como já dito, o sexo. O sexo é aquela centelha, aquele grão de areia que entrou na ostra e em torno do qual, camada por camada, se formou a pérola. Afinal, trata-se de um motel. Motel leva a sexo; ou melhor, sexo leva a motel, literalmente e do campo das ideias. Eu investigava sexo e a memória do motel se acendeu na minha cabeça.

Você falou de vivências clandestinas, do adultério e de outras. Sim. Há um adultério no livro e na história real. Ele não chega a ser encenado na página. O leitor é exposto apenas às suas consequências. Há um casal de homens gays que evidentemente se encontram às escondidas. Um deles, pelo menos, tem uma vida sexual hétero. Mas há outras dimensões de clandestinidade ligadas ao sexo. Escondemos nossos reais desejos dos parceiros e de nós mesmos. O sexo é soterrado pela religião, pelo moralismo, pelos traumas particulares da infância, pelo descompasso do que se é e do que se pensa ser… e, às vezes, apenas a clandestinidade objetiva do motel é que é capaz de revelar a real forma de uma pessoa viver sua sexualidade. Motel Mustang é sobre sexo e talvez seja o aquilo que ele mais é. Vamos por partes.

A primeira personagem masculina que que me ocorreu foi Torres, do conto “O amor movediço”. Vi no jornal que, no sábado posterior ao acidente, haveria uma Corrida da Infantaria. Foi assim que me ocorreu a personagem. Um homem que vai correr e não quer transar antes, mas precisa ir para o motel com a namorada. E o que ele faz? Aquilo que nunca fez. Dedica-se a dar prazer à mulher até que ela fique satisfeita. E quem é essa mulher? Marta está acostumada a não sentir tanto prazer, está acostumada à frustração, acha que a transa acaba quando o homem goza. Quando ela se vê recebendo sexo oral de uma maneira tão intensa, todas as suas inseguranças afloram. Eu queria que o momento de perplexidade e insegurança de Marta fosse durante o sexo. Eu queria uma cena de sexo absolutamente necessária. Normalmente, as cenas de sexo aparecem simplesmente por seu apelo. Os conflitos que as envolvem geralmente ocorrem antes ou depois. A maioria das cenas de sexo podem ser uma mera elipse. Mas a verdade é que, quando a gente está transando, a gente pensa em mil coisas, outros problemas, os sentimentos contraditórios sobre o parceiro. Acontece muita coisa durante. Eu queria Marta assim, conflituada enquanto tem prazer.

Outras mulheres do livro vivem seus conflitos. Luciene, de “O peso de tudo”, é muito católica e se incomoda de trabalhar em um motel, que considera um antro de pecado. Ela está dividida entre, na semana seguinte, assistir missa de Corpus Christi celebrada pelo Cardeal Primaz ou viajar com o namorado para Pojuca. Ela sabe que o namorado pretende transar com ela na viagem. O que decidir?

Em “O que se vê do alto”, Dona Mira, viúva do marido adúltero, relembra como ele a reprimiu quando ousou revelar desejo. “Ele disse que não gostava de mulher oferecida”. Submissa ao marido pastor, Dona Mira se recolheu. Na cama, esperava a iniciativa dele. Agradar o homem, sentir-se aceita por ele, esses são conflitos que as mulheres ainda vivem.

A mãe de Dinho, no conto “A maciez da vida”, tem um momento mais feliz. A chegada de uma toalha resgatada dos escombros do motel reacende sua libido. É ela quem toma a iniciativa de seduzir o marido novamente. Ele se deixa conduzir.

Em “O sol no meio da noite”, Elói é o jovem inexperiente que leva a namorada pela primeira vez ao motel. O conto não foca nela, mas é possível perceber como Iranice está mais segura que o namorado. Os leitores veem alguma atmosfera homoafetiva entre Elói e o amigo Miguel, principalmente na cena do carro. Eu acho que, se houver algo, isso aparece mais forte no fato de a voz de Miguel estar o tempo todo na cabeça de Elói.

Por fim, Jackson e Terêncio, em “A face encoberta”. O casal vive os problemas dos homens gays da década de 1980, o que não é muito deferente do que é hoje, a não ser por um aspecto. A Aids acabara de surgir e, exatamente naqueles dias, a Revista Veja publicou a famigerada capa com Cazuza: “CAZUZA, uma vítima da Aids agoniza em praça pública”.  A presença da doença é o que provoca o afastamento do casal. O medo. O zíper emperrado é o símbolo óbvio. Há muita reflexão sobre sexo em Motel Mustang, sexo e morte, Eros e Tanatos. Pulsão de vida e pulsão de morte. No meio, toda a experiência humana. O livro se faz nessa tensão.

 

DA – Diria que, observando o conjunto da sua obra, você é uma espécie de “cronista” do cotidiano, escavador dessas minúcias que nos tornam demasiadamente humanos. É sempre desafiadora essa perspectiva?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Já algumas vezes, nos últimos anos, quiseram me relacionar com escritores cronistas da Bahia. Menções vagas. Isso ocorreu por causa de O mar que nos abraça. As pessoas se contentam em ver o que está mais aparente. No caso desse livro, havia uma Bahia na superfície. Para mim, entretanto, um aspecto menos importante que as pessoas retratadas. Serem baianas para mim foi um acaso. Aliás, no caso desse livro, a encomenda exigia que as histórias se passassem em bairros de Salvador. Acontece que, vencido esse requisito, eu quis mergulhar no íntimo daqueles adolescentes. Eu me aproximo das histórias a partir do que entendo que as pessoas estão sentindo. Foi assim que, em A eternidade da maçã, cheguei ao tema da ditadura. Ouvindo a música In the Hot Sun of a Christmas Day, de Caetano Veloso, eu me deparei com um eu poético que dizia que estava sendo perseguido, que eles já tinham matado outra pessoa. Foi essa sensação que me fez entrar neste universo. Aí eu fui tratar da ditadura, pesquisei, puxei pela minha memória, mas sempre para retratar aquelas pessoas que eu vislumbrei nas músicas de Caetano. Esse é meu método.

Eu tenho muita dificuldade de me explicar para as pessoas (ou de ser entendido por elas). Esses grandes temas sociais, políticos (que aparecem muito nos meus textos), eu não entre neles pela porta da frente, mas pela dos fundos, pelas janelas, pelas frestas. Eu não sou um escritor que se diz: oh, precisamos falar da ditadura, precisamos falar da violência, precisamos atacar a homofobia! Não. Eu miro na pessoa, na história íntima, no potencial romanesco do tal grande tema. Eu procuro a boa história e a boa personagem. Os grandes temas aparecem naturalmente, afinal não sou nenhum cretino. Mas — olha só que legal — os cretinos dão personagens incríveis. Eu não sou óbvio.

Me cobraram em Motel Mustang uma menção ao Candomblé. Eu respondi que não era o caso porque não é uma religião que tem problemas com sexo. Falei de cristianismos católico e neopentecostal. Sobre o Candomblé, acho que o nome da filha de Dona Mira foi suficiente. É um nome que aparece e se torna o estopim de uma cena forte no final do conto. Dona Mira não teria reagido como reagiu se o pastor não tivesse feito uma insinuação racista religiosa contra o nome da menina Janaína. É um livro inteiro com várias personagens negras e pretas e em apenas um ponto há um comentário sobre racismo, no caso, racismo religioso. Quem poderá saber por que um pastor chamaria sua filha de Janaína e não por um nome da Bíblia? Eu até sei, mas o leitor não precisa saber. É uma história íntima de Dona Mira.

Mais uma vez parece que não respondo sua pergunta. Respondo. Você fala de “cronista” do cotidiano, eu concordo. Cronista do particular e não da cidade. Eu olho para os pequenos acontecimentos, os pequenos gestos. Outro dia, falando na FLICA sobre algo próximo disso, dei um exemplo: “aqui desta cena, os escritores no palco e a plateia de estudantes, se eu fosse criar uma história, eu escolheria a intérprete de Libras, que está ali no canto fazendo a tradução. O que ela pensa? O que ela sente? Os braços doem? Ela tem alguém esperando? Ela acha essa conversa chata? Será que ela se atrapalhou em um gesto e disse para si mesma que não importa porque não tem nenhum surdo aqui? Ela certamente fala deficiente auditivo, mas nos próprios pensamentos deve dizer surdo, ‘os meus surdinhos’, ela dirá.” É claro que não usei essas palavras, contar uma história já é inventar. Mas que personagem rica pode ser uma intérprete de Libras, melhor que escolher um escritor. Escritores como personagens para mim são chatos. Cronista do cotidiano? Sim, talvez. Cronista do sentimento, quem sabe. Eu quero saber o que as pessoas pensam e sentem sobre o que vivem. Cronista de mentalidades.

 

Foto: Danilo Alves

 

DA – A Literatura pode ser o engenho em que o autor está para além dos domínios de certas especialidades, ou seja, ele pode discorrer sobre campos diversos do conhecimento, até mesmo inventando uma teoria a ser defendida por seus personagens. Tal prerrogativa lhe soa atraente em alguma medida?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – No meu livro Cada dia sobre a terra, no conto “Segunda-feira”, a personagem protagonista, uma jornalista branca já com alguma idade, tem um discurso em que se pode perceber o seu racismo; em “A alma do diabo”, do livro A eternidade da maçã, o Major Andrade fala da necessidade de torturar subversivos e de como entregou sua alma a Deus. São personagens com pontos de vista bem definidos. Eles defendem suas posições racistas e ditatoriais, enquanto os contos existem justamente para criticar seus comportamentos. Não aparece ninguém com uma fala antirracista ou com um discurso contra a ditadura militar. São as histórias e os jeitos como são contadas que permitem que o leitor, no processo de interpretação, perceba o quanto aquelas condutas e formas de pensar são deploráveis.

A palavra tem um poder muito interessante. A gente consegue colocar uma imagem dentro da cabeça de uma pessoa. A fotografia mostra e o observador tem de aceitar aquela imagem. A palavra faz diferente. Ela inocula uma semente na cabeça do leitor, que criará a imagem a partir de seu repertório. O mesmo acontece com a ideia, a teoria, a ideologia. A história semeia e o leitor cultiva seu pensamento. É preciso repertório. É preciso confiar no leitor. Aqueles livros de ficção que produzem discurso pronto entregam para o leitor a árvore inteira sem opção de um pensamento a ser cultivado. Ok, a pessoa aprende. Pode funcionar. Mas é como se deslocar levado por um carro. Você chega ao ponto final, mas não desenvolve músculos. Melhor é que a história faça o leitor refletir. É como andar de bicicleta. Você chega ao ponto final com mais dificuldade, mas ganha musculatura.

Na maior parte das vezes, minhas personagens são incapazes de produzir um discurso organizado sobre qualquer coisa. Elas estão experimentando a perplexidade de viver. Estão perdidas. Elas não poderiam ajudar ninguém. Não sabem as respostas e, às vezes, nem a pergunta. Eu até quero dizer certas coisas, mas entre mim e o leitor tem um narrador e suas personagens. E meu processo de escrita é um processo de sedimentação. Eu vou colocando camadas em cima da ideia inicial. É um meticuloso processo de recalque. Eu vou empurrando as coisas para baixo e amassando com os pés. Tem de cavar muito para chegar àquilo que era antes de o conto ser o que se tornou.

 

DA – A quantas anda o Marcus Vinícius poeta?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Eita, uma reviravolta na trama. A resposta é: não sei. Deve estar adormecido. A última vez que escrevi poemas foi há alguns anos. Era uma encomenda para uma antologia. Escrevi e gosto muito do que fiz, mas, na hora de publicar, me mandaram um contrato em que, praticamente, eu cedia os direitos dos poemas definitivamente. Me tiraram da antologia, amizades se desfizeram e eu escrevi um poema chamado “Quiseram roubar o poema”. Alguns desses poemas foram publicados na revista Poesia sempre, da Biblioteca Nacional. Há um livrinho pronto. Um dia lanço. Meu último livro de poesia foi o Manual para composição de vitrais, que foi escolhido para sair pelo Selo João Ubaldo Ribeiro. Eu não penso muito sobre poesia. Ela não me ocorre do nada como acontece com a prosa. O tempo todo eu tenho ideias de livros de contos e romances. Poesia, não. Se me encomendarem alguma coisa, eu acho que sai. Em algum momento vou me debruçar novamente sobre a poesia. Ou não. Ou talvez. Quem sabe?

 

DA – Nos últimos anos, você tem experimentado a faceta de entrevistador, conversando com autores de diferentes estilos, e parece estar bem à vontade com isso. Essa escuta e troca de ideias lhe ajuda a pensar também sobre sua própria trajetória?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Quem me levou à função de entrevistador foi minha amiga roteirista Carollini Assis. Ela me convidou para mediar algumas mesas do Festival SSA-ADAPTA e as pessoas gostaram muito, e eu gostei muito. Não fiz meras mediações, fiz entrevistas. O formato do festival ajudou porque era um evento sobre adaptação literária para o audiovisual. Então, estavam ali, por exemplo, dois entrevistados falando da mesma obra: o escritor e o adaptador. Entrevistei Milton Hatoum e Maria Camargo sobre o livro e a série Dois Irmãos; Marcelo Quintanilha e Heitor Dhalia sobre o quadrinho e o filme Tungstênio, entre outras entrevistas com escritores. Depois dessa experiência, peguei gosto. Fiz e faço o programa Palavra & ponto, no YouTube da Academia de Letras da Bahia; o programa Letras da Bahia, na Rádio Excelsior. Atualmente, além do Palavra & ponto, apresento o programa Livros à mão cheia, na TV ALBA.

Sobre pensar a minha trajetória a partir das entrevistas com outros escritores, a resposta é: não pensei. São posturas muito diferentes. Opostas. O escritor acaba se voltando para si mesmo. Não porque fale de si, nada disso, ainda que ocorra bastante. Vou dizer melhor. O escritor acaba se isolando na própria literatura. Ainda não está claro. É que o escritor, aos poucos, vai criando um espaço em torno de si. A cada livro, um mundo de coisas. Um mundo de mundos. Mitologias particulares, recorrências, autorreferências, estilo… essas coisas terminam por isolar o escritor. Ele vive lá dentro da própria loucura e nós, leitores e entrevistadores, os visitamos.

O entrevistador, já adiantei, é aquele que deixa o próprio mundo para olhar o do outro. Ele quer entender as leis daquele novo lugar. Claro que o entrevistador tem uma história, um repertório, mas sua postura é antinarcísica. Ele quer ver o outro, e não um reflexo. É só assim que funciona. Entrevistar é ouvir, ouvir ativamente, ajudando o entrevistado a se organizar na fala. A gente procura entender e embarca na loucura do outro. Eu estou falando de entrevistar escritores, não políticos. Com políticos a gente não pode embarcar na loucura, é preciso denunciar as incoerências. Do escritor o que se quer são justamente as incoerências e os atos falhos, senão como é que os teóricos da literatura vão ganhar pontos no Lattes? Tem de dar trabalho pra esse povo.

Eu gosto muito de ouvir. Não por acaso, no começo da vida, dos 20 aos 28 anos, fui voluntário do CVV, Centro de valorização da vida, uma instituição de prevenção ao suicídio, que se baseia na escuta. A pessoa liga e fala. O plantonista escuta sem julgar, sem aconselhar, apenas se fixando na emoção da pessoa. É um trabalho de apoio emocional. Já faço a propaganda. O número nacional é 188. Basta ligar. Minhas entrevistas têm um pouquinho desse jeito de voluntário do CVV. Só um pouquinho porque eu provoco, brinco, direciono a conversa aqui e ali, mas sempre ouço atentamente. Uma vez, um entrevistado usou uma palavra típica de uma religião e, depois que ele acabou o raciocínio, eu voltei à palavra de maneira bem discreta para ver se ele queria falar daquilo. Ele falou e isso ajudou muito a entendê-lo. Ele não falaria se eu não tivesse percebido o tipo de discurso.

Minhas entrevistas não têm um roteiro exato, fechado. É como faço na minha escrita. Eu chamo de estrutura de corrida de rally. Eu tenho uns pontos de controle, locais por onde quero passar, mas o caminho até eles é incerto, depende de muitas variáveis. Hoje, no Livros à mão cheia, esses pontos são os livros do entrevistado. O programa pretende passar por todos os livros para entender obra e autor. Às vezes, há desvios enormes e alguns livros não são tão explorados. É um programa de televisão com tempo certo. No Palavra & ponto, a conversa pode ser mais verticalizada. É isso: O Livros à mão cheia, panorâmico, visa o horizonte; o Palavra & ponto é um mergulho. Eu os concebi assim desde o título.

O que essa experiência contribui para eu pensar minha literatura? Acho que conheço ainda mais o que se produz hoje porque li livros que eu não teria lido se não fossem as entrevistas. Deve haver consequências, mas não sei dizer quais.

 

Foto: Danilo Alves

 

DA – De todo o seu tempo com a carreira literária, qual percepção você tem hoje de como ela se construiu? O autor e a pessoa mudaram muito em tal caminhada?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Agora vou ter de cair no clichê e dizer que é um processo de aprendizado. Eu queria ser escritor e não sabia nada. Não estou dizendo “hoje eu olho para trás e vejo que não sabia nada”. Não é isso. Eu sabia que não sabia. Na poesia, talvez não. Talvez eu tivesse essa sensação de saber. Poesia é tão abstrato. Quando eu escrevia poemas eu tinha certeza do que estava fazendo. Talvez não seja um acaso minha poesia ser irregular. Foi o que me fez estrear, é verdade, mas, olhando retroativamente, aquele não é um grande livro. Ingênuo. Na prosa é diferente. Eu sempre tive dificuldade de escrever. Escrevi poucos contos antes dos trinta. Nenhum foi publicado. Escrevi pouco porque era difícil — uma dificuldade de não saber como e uma dificuldade física, é cansativo. Eu brinco que, se não tivessem inventado o computador, eu não seria prosador. Continuaria nos poemas curtos.

O fato é que efetivamente eu estudei para ser escritor. Fiz todo tipo de oficina. Hoje noto que, embora eu seja fascinado por Lygia Fagundes Telles, meus primeiros contos publicados — e os anteriores — pareciam mais influenciados por Clarice Lispector. E falo isso no mau sentido da expressão. Sabe essas pessoas que não sabem contar uma história e ficam emulando Clarice com filosofices? Contos curtos. Eu não tinha uma noção de como fabular, inventar histórias e personagens. Acho que, aos poucos, fui melhorando. Eu não sabia fazer diálogos e não fazia porque tinha medo de fazer diálogos ruins. O conto “A omoplata”, todo em diálogos, surgiu de um exercício a que me obriguei. Eu me disse: vou fazer um conto só com diálogos.  E deu certo. O conto ganhou um prêmio nacional e fez as pessoas me notarem. Outro grande momento para mim foi o conto se tua mão te ofende, que foi publicado como uma novela. Em arquivo word tem apenas trinta e três páginas. Levei quatro anos para escrever. Eu queria que ele tivesse uma extensão suficiente para figurar sozinho num livro da Coleção Cartas Bahianas (livrinhos de 48 páginas em forma de envelope). Foram quatro anos tentando ampliar a história e construir as motivações da personagem para a cena final melodramática. Tenho voltado para esta cena ultimamente porque Dona Mira, de Motel Mustang, age de maneira melodramática contra o pastor do mesmo modo que Lúcio agiu contra a imagem de Jesus.  Não é por acaso que tema e forma reapareçam juntos. Deve ter algo aí que não me cabe investigar. Os contos, as personagens, eu, estamos todos nos abrindo mais.

A um contista sempre fazem a pergunta: e o romance? Aliás, não. As pessoas não perguntam assim de maneira sintética. Só um contista pergunta assim. Quem dá mais valor ao romance pergunta: quando você vai escrever um romance?

A eternidade da maçã e Motel Mustang são livros de contos que cumprem a função de romance. Eles estabelecem um painel social como os romances fazem. E numa época em que os romances estão sendo desconstruídos até virarem fragmentos, eu posso ser confundido com romancistas descontruídos. Talvez estejamos no mesmo lugar, mas os movimentos são no sentido inverso. Eu estou caminhando para um romance e os outros estão se afastando. Mas eu acho que meu romance, se vier, vai ser um romance de contista. A narrativa longa de quem só escreve romances é diferente de quem escreve contos. Eu não sei explicar com muitos exemplos, nem quero me comprometer. Mas há livros de contos que a gente lê e pensa: isso devia ser ampliado para um romance. E há romances que têm uns detalhes e umas estratégias que só o conto nos ensina. Não estou fazendo juízo de valor (qual o melhor). São características que eu percebo. Posso estar enganado, mas é esse engano que está na base da minha escrita.

O autor e a pessoa mudaram muito em tal caminhada? Mudei, estou mudando, tentando me parecer cada vez mais com o que sou.

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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145ª Leva - 05/2021 Drops da Sétima Arte

Dedos de Prosa III

Marcus Vinícius Rodrigues

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

EU NUNCA ATRAVESSEI O RIO

 

Eu nunca atravessei o rio Almada. Estive sempre em sua margem brincando no raso enquanto meus irmãos se aventuravam mais fundo, onde meus pés não alcançavam. Um fundo ainda raso porque, embora maiores, eles eram, como eu, crianças. Mas podiam nadar e mergulhar por baixo das canoas. Penso que poderia, também, fazer aqueles mergulhos. Uma vez eu tentei, mas parecia tão larga aquela canoa. Não tive coragem.

Minhas brincadeiras eram naquela beirinha em que o cobre do rio ficava mais transparente, como se um pouco de mel tivesse sido dissolvido na água. Eu sentava sentindo o sol nas costas e a água fresca nas pernas.  Ali as piabas chegavam bem perto. Eu tentava cercá-las como quem pastoreia vacas no curral. Elas eram mais rápidas. Escapavam como as galinhas do quintal de minha avó, mas sem algazarra. Espantadas e silenciosas. Escorregavam pelos meus dedos como a água do rio talvez escorresse para o mar. Sim. Talvez. De meu raso eu não percebia a correnteza do meio do rio. O único movimento eram as ondas do mar no horizonte, onde o rio finalmente despejava suas águas castanhas no azul espumoso do oceano. Eu achava um mistério aquelas ondas que não terminavam na praia como acontecia na praia do Malhado. Que sabia eu, tão criança, sobre o movimento dos rios? O rio Almada não corria à porta da minha casa. Para mim ele estava parado. Eu não conhecia o rio Cachoeira do outro lado daquele grande ilhéu que era minha cidade. Sabia da ponte que atravessava para o Pontal, onde morava minha avó. Mas aquela era uma água vista de longe, de dentro de um carro. No Pontal, havia a praia salgada e os navios encalhados na areia. Nada que lembrasse um rio. O Almada, na porta da minha casa, era aquele rio que parava antes do mar. Imóvel. Para sempre.

Sentado no meu raso, descansei as mãos no fundo, espalmadas para cima como se, em posição de ioga, esperassem a energia do mundo penetrar por elas. Minha calma atraiu, enfim, algumas piabas. Uma nadou por sobre minha mão e, de surpresa, consegui agarrá-la. Que delicado o toque daquele corpo minúsculo e saltitante. Fiz das minhas mãos duas conchas que se fecharam suavemente em torno. Ela pulsava ali dentro como um coração. Gelado, escorregadio. Fazia cócegas. Eu me senti poderoso por conquistar aquela vida para mim. O peixinho não pertencia mais ao rio.

Era meu.

Quis mostrar para meus irmãos. Chamei os dois. Procurei entre as canoas. Não estavam mais na água. Já subiam o barranco para a nossa casa ali em frente, na vila militar. O almoço. Eu queria ficar com a minha piaba, mas eles, parados no meio do caminho, gritavam a ordem de subir. Não podiam ir sem mim. Eu não podia ficar.  Fui atrás, resignado. Era um dia de domingo. Eu sabia que poderia descer no meio da tarde. Eles voltariam para o futebol e mais mergulhos. Eu voltaria com meus carrinhos para a beira da água, para os peixes, para o meu peixe. Bastava guardar o meu tesouro em um lugar seguro, para que ninguém pegasse.

Não contei a ninguém do meu tesouro. O almoço foi lento. As conversas em volta da mesa. Eu quase não falei. Tinha um segredo. Qualquer palavra que dissesse poderia deixar escapar o peixe de minhas mãos em concha. Ele saltitava dentro de mim como uma alegria. Brincava na minha imaginação dando saltos de um lado a outro da água. Eu fazia túneis com as mãos, barreiras com as pernas… a piaba nadava veloz pelos labirintos do meu corpo, mais água do que peixe. Bastava esperar a tarde. Bastava guardar o segredo. O silêncio.

Mas aquela não seria uma tarde de domingo silenciosa. Antes de acabar o almoço, vieram gritos do rio. Alguém veio chamar meu pai. Um alvoroço se espalhou pela rua. Minha mãe nos proibiu de sair. Ela saiu. Meus irmãos cuidariam de mim. Ficamos a tarde inteira sozinhos vendo a televisão com seus chuviscos dissonantes. Era meu pai quem movia a antena até a imagem estabilizar. Da rua não vinha nenhuma notícia. Todos estavam na beira do rio. De casa não podíamos ver. O barranco. Dali, nossa visão do rio era a outra margem, onde havia um grupo de pessoas observando.

Alguém se afogou, meu irmão mais velho disse. Aquela frase instaurou uma realidade de medo em mim. Alguém tinha ido para a parte funda do rio e tinha se afogado. Eu sabia que aquilo podia acontecer. Minha mãe sempre nos prevenia para não nadar para o fundo, onde não dava pé. Podíamos nos afogar. Disso eu sabia. Eu não sabia exatamente o que era se afogar, mas não era algo bom. Eu sabia o que era fundo. Era onde meus irmãos nadavam quando brincavam nas canoas. Com a revelação, meu corpo tremeu. Meus irmãos podiam se afogar. Vocês já se afogaram? Eu perguntei preocupado. Eles riram de mim. Claro que não. Fiquei com raiva das risadas e da gozação, mas aliviado porque eles não se afogaram. Eu nunca tinha me afogado. Não ia nunca para o fundo. Voltei a pensar na minha piaba. Ela também não se afogava. Estava sempre no raso como eu.

Passamos toda tarde em espera. A noite chegou e minha mãe voltou. Eu procurei o medo em seus olhos, aquele de quando ela avisava do afogamento. Mal consegui ver. Ela nos disse que estava tudo bem, que nada tinha acontecido. Meu pai? Estava resolvendo alguma coisa de trabalho. O quê? É verdade que alguém se afogou? Não era assunto de criança. Nós devíamos fazer os deveres da escola. Meus irmãos não tinham feito. Eu já tinha pintado os desenhos do meu livro com o cuidado de não sair das linhas. Era preciso dormir para a escola cedo.

Eu já estava na cama quando ouvi a história toda entre os meus sonhos. Eram vozes de meu pai e mais alguém — minha mãe ouvia entre soluços. Depois, meus irmãos repetiram a história no quarto. Havia um menino no fim da rua, na primeira casa da vila. Já era grande… três pescadores… a rede se enroscou em alguma coisa no fundo do rio… a mão dele estava presa… os amigos tentaram salvar, mas não conseguiram… gritaram. Só à noite conseguiram tirar o menino de lá. Os peixes já estavam começando a comer. Meu irmão disse aquilo muito assustado. Eu quis acordar e perguntar como o menino estava.  As feridas doíam? Foi então que ele falou respondendo a pergunta que não fiz: morreu.

Eu nunca tinha imaginado que, se alguém se afogasse, morria. Morrer era ir para debaixo da terra. Mas o rio…? Fechei muito os olhos para não ver o menino dentro da água sendo comido pelos peixes. Não queria ver a cara dele faltando pedaço. Os olhos abertos. Em algum momento eu dormi e senti a água acobreada do rio me envolvendo. Cobrindo minhas pernas, avançando pela barriga, pelo peito, pelo pescoço. Eu estava completamente mergulhado — as piabas em volta. Abri a boca e a água entrou. Bebi muito, sem querer, sem poder resistir. A barriga ficou cheia. Eu pensei que era daquele jeito que a gente se afogava. Achei que ia morrer, mas tinha vontade de fazer xixi. E fiz.

Minha mãe não me deixou ir à escola naquele dia. Tinha acordado no meio da noite gritando e chorando. Era melhor ficar em casa. Ficamos sozinhos os dois. No meio da manhã a casa se encheu das mulheres da rua. Elas começaram a conversar sobre o afogado. Eu queria escutar as conversas, saber dos detalhes, mas minha me mandou brincar no quintal. Nada de ir para a rua.

Foi a primeira coisa que fiz. Desci o barranco e fui atrás da minha piaba. Por sorte, tinha deixado atrás de uma pedra. Mesmo com toda a confusão, eu tinha certeza de que ninguém tinha encontrado.

Ela estava lá.

Mas não estava saltitante como antes. Nem molhada. Estava seca e dura. Peguei com cuidado em minhas mãos e levei para a água. Ela afundou como uma pedra. Imóvel. O rio também não se movia naquele meu raso.

Não entrei na água naquele dia, nem depois. Ficamos proibidos de nadar no rio e, quando o ano acabou, nós nos mudamos. Saímos de Ilhéus e nunca mais.

Adulto, voltei à vila, ao rio, mas sempre passei apenas de carro. Nunca mais desci o barranco que, na verdade, era apenas uma descida muito curta.

O rio Almada. Ele vem do interior muito mais ao norte, mas deságua no oceano. Vira-se para a direita e percorre um longo caminho paralelo à praia. Ele resiste a entrar no mar, ele não quer morrer se misturando às águas claras e salgadas do atlântico. Na frente da minha casa, enfim, dobra-se para a esquerda, contorce o corpo desenhando uma interrogação de cabeça para baixo. É ali, em frente à casa da minha infância, que ele morre — todos os dias — murmurando seu porquê sem resposta.

 

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Publicou, entre outros, os livros O mar que nos abraça (contos, Ed. Caramurê, 2019); Manual para composição de Vitrais (poesia, Selo João Ubaldo Ribeiro da Fundação Gregório de Mattos, 2019); Café Molotov (contos, Editora 7Letras, 2018); A eternidade da maçã (contos, Editora 7Letras, 2016) — vencedor do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia de 2016; Arquivos de um corpo em viagem (poesia, Editora Mondrongo, 2015) e Cada dia sobre a terra (contos, EPP Publicações e Publicidade, 2010). É membro da Academia de Letras da Bahia.

 

 

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140ª Leva - 07/2020 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Marcus Vinícius Rodrigues

 

Foto: Cristiano Xavier

 

UMA CONVERSA DE BANHEIRO

 

— Eu tenho fita dupla face aqui. Quer?

Antes de falar, a mulher afastou a escovinha do rosto. Retocava o volume dos cílios com uma máscara preta. Eriçava-os para cima enquanto o olhar verde observava a moça que, há pouco, tinha entrado no banheiro. Ela tentava manter os seios dentro de um decote vermelho que insistia em mostrar demais.

— Você anda com fita na bolsa?

A moça lhe dirigiu os olhos castanhos muito brilhantes e esperançosos. Eram olhos juvenis contornados por uma maquiagem alegre.

A mulher enfiou a escovinha no frasco e o deixou em cima da pia. Vasculhou a bolsa de pedrarias pretas, que combinava com seu vestido também preto, bem fechado na frente e com um longo decote nas costas, até a cintura. Costas nuas.

— Já me vi em cada situação. Tenho linha, agulha, alfinete de segurança…

— Você é bem prevenida.

— Uma vez quase fiquei nua em um casamento, minha filha. Essas roupas são uma armadilha. Toma.

Tirou da bolsa a fita e a entregou à moça. O ar distraído. Sacou novamente a escovinha do vidro e se observou no espelho. A mão em suspenso sem saber se recomeçava a tarefa de avolumar os cílios que já estavam eriçados, negros e curvados para o alto. Daquela vistoria os olhos escorreram para a outra.

— Acho que tem de fazer uma tirinha mais fina. Deixa eu pegar uma tesourinha.

— O decote é muito aberto.

A mulher cortou um pedaço de fita e depois o dividiu ao meio.

— Tenta agora.

A moça agradeceu. Parecia atrapalhada com a operação, tentava a todo custo evitar que os seios ficassem à mostra.

— Coloca a fita mais pra dentro para manter o franzido do tecido. Ninguém nem vai notar.

Continuava olhando através do espelho e se colocou em um ângulo em que não podia mais ver a moça enquanto perguntava.

— Gostando da festa?

— Animada. Tem gente famosa.

— Ah! Sempre tem um ou outro… e muito famosinho arroz de festa. Você vai ver.

— Ai. Grudou tudo. Vou fazer outra. Você não se chateia, não, né?

— Olha… eu… a fita? Nada. Pode usar à vontade.

— Não está gostando da festa?

— Maçante. São todas iguais. Mas tem de vir, né. Quando fico entediada venho retocar a maquiagem. Adoro. Já teve vezes de eu mudar a cor da sombra no meio de uma festa… Ninguém notou. É a vida.

A frase a fez pegar o estojo de sombra. Decidida, enfiou o pincel no dourado.

— E não tem como escapar, né?

Empurrava o seio para dentro do decote enquanto falava. Parecia arrependida das escolhas que tinha feito. Os tamanhos.

— Agora é ir até o fim. Paciência. Estou acostumada a esperar as coisas acabarem. O que não é pra vida toda a gente aguenta. Noblesse oblige.

Murmurou para si mesma o noblesse oblige e descartou o dourado. Limpou o pincel e procurou uma outra cor. Decidiu-se pelo bronze fosco. Começou a retocar os olhos, que até então tinham uma maquiagem mais suave.

— Uma festa de caridade…

A mulher teve de parar a maquiagem para rir.

— Olha meu vestido. Uma festa de caridade. Ele não me avisou de nada.

— Não tem motivo para você se preocupar.  Aqui…

— Quem ia imaginar uma festa de…

Voltou-se para a moça. Até então só a tinha visto pelo reflexo do espelho. O cabelo era muito loiro e liso. Alisado. O vestido era mesmo muito justo. O decote deveria ser natural com várias dobras, mas como era um número menor, faltou tecido.

— Deixa eu lhe ajudar.

Cortou novas tiras da fita e começou uma nova operação. Tinha de tocar nos seios. Não havia outro jeito.

— Não tem problema.

— E você nunca veio numa festa…

— De caridade?  Nunca nem imaginei…

— Espera. Não se mexe… o bom é que é firme. Vai segurar.

— Me custou muito.

O decote se acomodou nos seios. Não corria mais para os lados.

— Tenho medo de escapar se eu me mexer muito.

— Por enquanto você não vai ter de se mexer. Vai ficar sentada… ereta… vai sorrir suavemente e esperar acabar a festa.

A moça riu.

— Obrigado. Vai ficar o final de semana?

Foi a vez da mulher rir.

— Não. Domingo de manhã tem culto.

A risada da moça congelou num espanto. A mulher se voltou para o espelho. Não se decidia a retornar para a maquiagem.

— O fim de semana inteiro, né?

A moça já não ria. Jogava os restos de fita na lixeira.

— Você é mesmo muito prevenida. Tenho de aprender essas coisas.

A mulher guardou a fita e a tesourinha na bolsa e tirou de lá um estojo pequeno. Dois comprimidos surgiram em sua mão. Um azul e outro branco.

— Toma.

A jovem recebeu os comprimidos em sua mão pela inércia da surpresa.

— O que é isso? Eu não curto…

— Eu vi você mais cedo. Acho que vai precisar. Não é pra você.

— O azul… eu acho que não vai precisar.

— Pelo que eu vi, vai. Amassa e coloca na bebida. Funciona bem.

— Mas não é perigoso?

— Pra você, não.

A moça olhava para os comprimidos sem saber o que fazer. Estava presa em um momento em que a compreensão de algum mistério está prestes a se relevar. Aquele momento em que se tira a venda e a luz da visão primeiro cega antes de deixar aparecer a paisagem. Ela estendia a mão como uma pergunta.

— Com o outro você faz a mesma coisa. Amassa e coloca na bebida. Esse é pro caso de você correr perigo.

Os comprimidos foram postos na minúscula bolsa prateada. A jovem tinha, agora, os olhos mortiços, olhos que enxergavam melhor.

— Obrigado. Não vem para a festa?

— Vou depois.

A moça saiu do banheiro e a mulher retomou a sua maquiagem. Decidiu-se novamente pelo dourado e o passou com generosidade furiosa. Tudo se iluminou em torno de seus olhos muito verdes e muito escuros.

 

 

ESCREVENDO UM CONTO

 

As primeiras frases deste conto surgiram-me durante uma entrevista que dei a Suênio Campos de Lucena, em junho de 2019. A entrevista ainda está inédita. No meio de uma longa resposta sobre meu processo criativo, eu disse:

“Ou mais: que tal pensar outros contos que tenham como ponto de partida objetos ou produtos usados apenas por mulheres? Sutiã, salto alto, cílios postiços, a antiga anágua… já imagino uma mulher no banheiro de uma festa bem chique dizendo à outra: “Eu tenho fita dupla face aqui. Quer?” “Você anda com isso na bolsa?” “Já me vi em cada roubada. Tenho linha e agulha, alfinete de segurança… Já fiquei nua na rua, minha filha. Essas roupas sexies são uma armadilha”…  acabo de escrever esse diálogo e já quero saber como foi a história de ter ficado nua. Mas interessante mesmo deve ser a outra que, certamente, tem uma roupa que está mostrando demais e talvez nem tenha se dado conta. Quem são essas mulheres?”.

Esse diálogo ficou guardado no meu computador.

Em setembro de 2020, fiz uma oficina de dramaturgia com Marcos Gomes. Um dos exercícios pedia uma cena entre dois personagens que se referisse a algo fora da cena. Voltei às duas mulheres no banheiro e fiz uma cena curta.

Agora, Fabrício Brandão me pediu mais um conto para a revista. Poderia ser qualquer conto que eu tivesse nas gavetas. Eu lhe pedi uma encomenda: um tema. Já tínhamos feito isso antes: O sabor dos anjos  e A fresta foram feitos sob encomenda. Pecados capitais: gula e inveja. Desta vez, Fabrício me pediu com o tema “cidadão de bem” e sobre hipocrisia. Usei as mesmas personagens. Mudei o rumo da conversa entre elas e aí está. Talvez seja um conto ainda em processo. Não sei. Deixemos descansar, desta vez não na gaveta, mas em praça pública.

 

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Publicou, entre outros, os livros O mar que nos abraça (contos, Ed. Caramurê, 2019) Café Molotov (contos, Editora 7Letras, 2018); A eternidade da maçã (contos, Editora 7Letras, 2016) e Cada dia sobre a terra (contos, Ed. Caramurê, 2010). É membro da Academia de Letras da Bahia.

 

 

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126ª Leva - 04/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marcus Vinícius Rodrigues

 

Foto: María Tudela

 

A FRESTA

 

— “O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano”.

A voz ecoou majestosa, como se amplificada pelo vão de uma catedral gótica, a abóbada central da nave se esticando para os céus entre a devoção e a afronta. Soberba, diria Dona Antônia com a mesma voz tonitruante que tinha agora no alto da escada. Não estava em uma catedral gótica, nunca mesmo tinha entrado em uma, nem mesmo aquela no Largo dos Mares, imitação moderna e que achava vulgar. Gosta da sua. O pastor transformou um antigo galpão em templo. O teto era altíssimo. No lugar de janelas para a rua, as paredes eram pintadas como um céu azul. Quando se apagavam as luzes e se deixava apenas a iluminação nas paredes, era como se já estivessem todos no céu. Ela se sentia abençoada por estar ali. Cantava o louvor com fé e força, a voz enchendo toda a amplidão.

Mas Dona Antônia não estava no templo. A voz soava amplificada porque metia a cabeça para dentro do armário de mantimentos. Acabava de limpar quando falou.

— O cedro cresce lento, menina, mas cresce alto e forte. Tem de ter fé.

— Ah! Don’Antônia, às vezes eu desanimo. Não vou mentir. Nem sei mais o que…

— Passa as latas.

Luciana passou algumas latas de milho e extrato de tomate para a mulher, que, do alto da escada, foi incisiva.

— Mas precisa ser um rapaz da igreja. Nada de homem do mundo. Esses não dão futuro pra mulher nenhuma. O primo de Nalva?

— Quer nada comigo, não.

— O macarrão, não. Deixa aí fora. Vou fazer uma sopa pra de noite… levar pra Dona Almira.  A filha está de plantão hoje.

— Domingo? Vida de enfermeira é pesada.

— Ela não chega a ser enfermeira. É técnica. Limpa os pacientes. Ganha pouco. É outra que devia ter casado logo. A mãe viúva, doente…. se eu não ajudo, nem sei. Tem de ter caridade, minha filha… e casar bem.

— A senhora casou cedo.

— Casei. Barreto me viu no culto e falou com meu pai. Era bonito, bem vestido. A oficina era pequena, mas tinha jeito de crescer. Já tinha o dobro do tamanho quando a gente casou.

— Que bênção.

— Você sabe em que o primo da Nalva trabalha?

Luciana fez um gesto de negativa enquanto entregava o pacote de macarrão. Dona Antônia recebeu o pacote com impaciência. A menina não percebeu o olhar e continuou passado pacotes e latas.

— Luciana, você precisa prestar mais atenção. Tem de se interessar pelas pessoas, saber o que fazem, onde trabalham. Você não conversa com ninguém depois do culto. Como é que alguém vai se interessar por você?

— Fico com vergonha.

— Ter vergonha é bom… ser recatada. É uma boa qualidade numa moça, mas converse, seja mais alegre.

— Vou me esforçar.

— Bem. Aqui já acabou.

Dona Antônia desceu a escada com o pacote de macarrão na mão. Colocou na mesa e recolheu a escada para levar para o quintal.

— Vamos tomar um cafezinho agora.

— Eu preparo.

— Obrigado, minha filha. Sem barulho. Não acorda Barreto.

No quintal, colocou a escada encostada no muro e subiu a outra escada, a de concreto, para a laje. Dois lances. A casa tinha dois pavimentos e, no alto, uma área coberta onde ela estendia a roupa lavada e o marido fazia churrascos. De lá de cima podia ver todo o bairro com suas casas baixas. A torre da Igreja dos Mares aparecia de costas. Não dava pra ver a Igreja do Bonfim dali. A ostentação dos católicos, dizia o Pastor. “E destruirei do meio de ti as tuas imagens de escultura e as tuas estátuas”. Pegou as roupas na corda e desceu, desta vez, por dentro da casa. Passou pelo andar dos quartos e ouviu o ronco do marido. A porta do quarto estava aberta. Encostou um pouco, sem fechar totalmente. Fazia calor. Desceu com as roupas para a sala de estar.

— A água está esquentando.

— Obrigado. Vou dobrar essas roupas, mas não vou passar hoje, não. Fiz muito pra um domingo. Amanhã eu passo com calma.

— A senhora é tão jeitosa.

— Gosto de minha casa arrumada.

— Quero a minha assim quando casar. Aqui no bairro não tem casa mais bem cuidada.

— Você vai ter sua casa. É direita. Deus recompensa.

Luciana olhava pela janela. Apenas três crianças brincavam perto.

— Aqui é bem calmo. Lá na rua tem pagode o final de semana todo.

— Fui abençoada. A vizinhança é boa.

— E essa moça aí do lado, como é mesmo o nome dela?

Dona Antônia dobrava uma camisa do marido. Um dobrar que deveria ser displicente — ainda ia engomar —, mas começou a acertar o vinco do colarinho com a mão. Forçava o lugar da dobra com a unha.

— Deixa a vida dos outros, menina. Essa é uma ovelha perdida.

— Dizem que ela tem um monte de homem. Será?

— Eu não fico me metendo na vida dos outros, não. É policial. Anda com homens por causa disso.

— Será que já atirou em alguém?

— Mulher policial… É coisa que não concordo. Profissão de homem. Mora aí sozinha. Que futuro pode ter? Trato bem, não tenho preconceito, mas não acho que seja boa amizade.

— Mas é importante a mulher ter uma profissão, Don’Antônia. Acho a farda bonita.

Dona Antônia suspirou fundo.

— Você fica aí pensando besteira… vai acabar solteirona.

— Mas tem mulher policial casada. Tudo direitinho… Don’Antônia, espia. É ela? Esse é o namorado?  Um rapaz bem apessoado… parece direito. Vão passear.

— “Não tenha teu coração inveja dos pecadores; antes sê no temor do senhor todo o dia”.

— Oxe, Don’Antônia. Né isso não. Acho bonito passear domingo de tarde, um sorvete na Ribeira. Eles passeiam sempre?

— Deixe de ser fofoqueira. Vai ver a água do café. Anda.

Luciana sumiu para a cozinha. Dona Antônia ficou olhando para a janela. Do sofá via apenas o céu. A tarde começava a cair. Demorou-se um tempo e foi até a janela. Não chegou a olhar para fora. Apenas murmurou enquanto fechava a janela: “porque da janela da minha casa, olhando eu por minhas frestas”. Voltou às roupas. De lá de dentro, Luciana perguntou se tinha falado alguma coisa. Ela respondeu que estava relembrando uma passagem da Bíblia: “E eis que uma mulher lhe saiu ao encontro com enfeites de prostituta, e astúcia de coração.” Ela recitava provérbios 7.

— Que passagem?

Luciana voltava com o café em uma bandeja.

— Aquele salmo que eu estava lhe dizendo.

— O 92.

— Muito bem. Vejo que está estudando. “Os que estão plantados na casa do Senhor florescerão nos átrios do nosso Deus.” Lembre bem disso, Luciana. Só assim você encontra a graça. Fora da palavra só existe danação.

A moça concordou de cabeça baixa.

— Pega uns biscoitos?

A moça saiu da sala e Dona Antônia voltou à janela. Decidiu que não valia a pena passar calor e a abriu novamente. Luciana voltou com biscoitos salgados.

— Pega aqueles amanteigados. São mais gostosos. Tem uns chocolates no armário. Pega também.

— Mesmo?

— Só um pouquinho não é gula. Vai. Vou guardar a roupa no quarto.

Dona Antônia pegou as roupas e subiu as escadas. Mal chegou ao andar, já podia ouvir o ronco do marido. Abriu a porta devagar. O homem dormia de lado. Estava sem camisa. A barriga grande e peluda avançava para o lado em que ela dormia. Sobrava pouco espaço, caso ela quisesse deitar. As coisas se acomodam, respondeu para uma pessoa imaginária que lhe perguntava como ela fazia para dormir. Deixou a roupa sobre uma cômoda e foi para a janela. Abriu uma fresta e avançou o olhar para a casa vizinha. De sua janela, no alto, podia ver a janela do quarto da vizinha. Dali podia ver parte de uma televisão. Às vezes vinha ver o que a mulher gostava de assistir. Achava que policiais viam filmes policiais, mas não era verdade. A mulher via os mesmos programas de todo mundo. Nada demais. Podia ver, também, um pedaço da cama. O lado vazio. A mulher costumava dormir do outro lado.  Aquele vazio era sempre ocupado por homens. Não eram tantos como diziam as fofocas. A mulher de fato já tinha tido muitos namorados, mas com esse estava já há algum tempo. A cama estava vazia naquele instante, mas Dona Antônia tinha bem viva a memória da noite anterior. Tinha visto os dois se amando. Ficou com vergonha de ver a nudez tão franca daquele homem, a maneira como se curvava para amá-la, lento, carinhoso. Quase uma devoção. Fechou a janela pra não ver, mas não conseguiu fechar tudo. Uma fresta. Por ali entrou a imagem da mulher, o rosto de contentamento durante o gozo — “o meu amado pôs a sua mão pela fresta da porta, e as minhas entranhas estremeceram por amor dele”. Depois do gozo, vieram as risadas frouxas. A felicidade. Fechou a janela, fechou os olhos. A cama vazia ainda rescendia a amor naquela tarde de domingo. Olhou para a própria cama. O marido ocupava quase tudo. Não havia lugar para mais nada.

Desceu para a sala. A mesa para o café estava posta. Louvou a arrumação que a moça tinha feito.

— Uma casa arrumada é convite para o amor, Luciana. Parabéns.

A moça corou. Não se decidia entre a vergonha e o orgulho enquanto servia os cafés, os biscoitos e o chocolate.

— Depois do café, vamos fazer a sopa. Vou lhe ensinar uma receita muito boa.

Dona Antônia, antes mesmo de tomar um gole de café, numa ânsia disfarçada, enfiou um pedaço de chocolate na boca.

 

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Tem sete livros publicados, entre os quais “A eternidade da maçã” (Contos, Ed. 7Letras, 2016), vencedor do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia de 2016; “Arquivos de um corpo em viagem” (Poesia, Editora Mondrongo, 2015)  e “Cada dia sobre a terra” (Contos, Editora Caramurê, 2010). Seu oitavo livro, “Café molotov” (Contos, Ed. 7Letras, 2018) será lançado em agosto/2018.

 

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120ª Leva - 05/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marcus Vinícius Rodrigues 

 

“Gato” . Ilustração: Bárbara Tércia

 

TINTA NEGRA SOB AS UNHAS

 

Para Bárbara Tércia,
inspirado em um desenho seu.

 

— É melhor ser órfão de pai morto do que órfão de pai preso.

A frase veio de muito longe, lá da infância, assim que a janela se fechou. Marcelo não teve como reclamar que as janelas é que devem ser abertas quando as portas se fecham. Não pensou isso nem lembrou de Deus, mas se arrependeu de ter dito aquilo ao primo. O fato é que eles não tinham pai, não importava se um estava preso, o de Tiago, ou se estava morto, como o de Marcelo.  Aquela frase, no meio das disputas normais de criança, ficou esquecida. Eles brigaram outras vezes, competiram por tudo, amigos e adversários, primos e irmãos. Agora, no meio da queda, Marcelo queria que o primo o tivesse visto correndo da polícia; primeiro pela avenida, entre os carros; depois, já dentro da favela, entre as casas, subindo muros, por cima das lajes. Era o gato, como gostava de dizer, quando criança, sempre caindo de pé e ileso fosse das árvores, fosse dos muros.

Gato. Foi esse o bicho que viu no rabisco aleatório que fez na aula de desenho. Depois, treinou várias vezes em casa escondido, ensaiou o gesto para parecer o mais espontâneo possível e fez dele sua assinatura. Primeiro nos desenhos da escola, depois nos muros da rua. Todo mundo pichava naquela época. Ele e o primo se uniam naquela vontade de marcar territórios. Iam cada vez mais longe pelo bairro. E fora dele também. Naquela aventura de ultrapassar limites, ampliar horizontes, Marcelo foi além. Dos rabiscos frenéticos, das marcas da galera, passou a se aventurar em outros desenhos. E mais que as pernas ágeis e compridas, descobriu que as mãos eram capazes de fazer quase tudo que imaginava. As imagens na sua cabeça aos poucos iam passando para os muros na tinta negra do mais barato spray. Eram apenas as formas. Vieram, a seguir, as cores, multiplicadas rapidamente. Uma explosão de cores, diria o menino, ainda desacostumado de criar imagens com palavras. Como os desenhos falavam mais, ele não insistia nas palavras. Foi assim, em silêncio, que respondeu uma tarde quando o primo o chamou para mais um desafio de pichação.

— Vamos?

A mão de Marcelo apontou um olho inacabado em um muro. E para a próxima pergunta, nem mesmo um gesto.

— Vai ficar de mariquinha, é?

Eles se separaram.

Marcelo queria que o primo tivesse visto seu salto entre um prédio e outro, queria que tivesse visto o gato pichado naquele lugar tão difícil, os truques pra se livrar do segurança, o portão arrombado, a tinta negra sob as unhas, aquela prova de que não era veado.

— Homem tem tinta preta na mão. Nada de verdinho, vermelhinho, amarelinho.

Marcelo tinha medo de ser visto como menos homem do que era, mesmo que até já tivesse mostrado isso algumas vezes. Pegava mulher. Não era fácil, era tímido, mas a força do corpo e suas exigências empurravam o menino para frente. E tinha Rai.

— É um peixe?

O peixe estava visivelmente voando, havia nuvens embaixo para provar. Ele se entrelaçava com um pássaro que visivelmente estava dentro d’água, havia ondas em cima para provar. Eram muito coloridos e pareciam voltear um em torno do outro, asas e barbatanas se uniam passando suas cores de uma para outra. Entre tantas, havia apenas um filamento azul que saía da cabeça do peixe, abraçava o pássaro e terminava formando a pena mais longa de sua cauda. Foi o que mais chamou a atenção da menina.

— Que azul lindo. Nunca vi um azul assim. Chega dói.

Marcelo tinha misturado vários tons até chegar àquele azul. Ele se orgulhava do que tinha conseguido.

— Eu chamo de azucrinante.

Ela riu. Para ele, azucrinante era algo incrível, legal. Ele não sabia que os dicionários pensam diferente. Ela sequer pensou. Seu olhar estava além das palavras, além da explosão de cores, além da magreza juvenil e morena dele. As meninas chegam primeiro a um entendimento do que querem e de como devem fazer para ter. Ela sorriu admirada.

— É tão bonito!

Rai era linda. De um beleza que todos sabiam. Tiago sabia.

Ela se intrometeu entre os dois como se alguém usasse uma ferramenta de metal para alargar uma pequena rachadura. No começo, sem se dar conta, mas logo percebeu, pelo jeito esquivo de Tiago, que havia ali um desejo. Ela não resistia à tentação de atiçar o rapaz e rejeitar. Tinha o gozo de, estando com um, saber que o outro de longe invejava.

Marcelo não percebia. Não via relação entre a nova namorada e o primo. Sentia apenas o afastamento, e se ressentia de Tiago não ter nenhuma admiração pelo que ele fazia. Nenhum elogio de quem quer que fosse fazia o primo sentir como uma vitória de Marcelo. A marca do gato pequena embaixo de uma paisagem colorida não significa nada.

— Melhor é quem vai mais longe, mais alto. Isso é que é coisa de homem.

A voz do primo gritava nos ouvidos de Marcelo durante a queda. A mesma voz que ouvia enquanto invadia aquele prédio. No silêncio que fazia para enganar o segurança, a voz estava lá dentro, alta. E mesmo depois, na fuga — seguranças, polícia, carros —, nada era mais alto do que ouvir o primo gritando a superioridade de quem vai mais alto, de quem coloca sua marca no lugar mais difícil. Ele correu pela ruas, pela favela, por sobre as lajes das casas. Sabia que por ali chegaria em casa facilmente. Tantas vezes os dois tinham feito aquele caminho. Da última laje viu a janela do quarto aberta. Eles moravam numa encosta, uma casa em cima de outras três casas, um prédio construído aos poucos, uma invasão para o alto, que outro lugar não havia por ali. Tanta gente. Dormiam no mesmo quarto, juntos e, agora, afastados, um afastamento que doía em Marcelo.

A janela estava aberta. Era só pular e estaria salvo. Pulou. Tiago estava lá dentro. Ele sorria. Marcelo, como um reflexo do primo, sorriu satisfeito. Eles se aproximavam, juntos de novo, Marcelo vitorioso e aceito pelo primo.

Então, Tiago, como um Deus ao contrário, sem nem mesmo abrir uma porta antes, fechou a janela.

 

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010),  “Cada dia sobre a terra” (Contos, EPP Publicações e Publicidade, 2010), “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014),  “Arquivos de um corpo em viagem” (Poesia, Editora Mondrongo, 2015) e “A eternidade da maçã” (Contos, Ed. 7 Letras, 2016), vencedor do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia de 2016.  

 

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112ª Leva - 06/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Uma indelével e tortuosa via chamada memória

Por Fabrício Brandão

 

Capa de A Eternidade da Maçã

 

Existem coisas que deixam nossa mente impregnada de perspectivas. Quando elas nos sugerem imagens e sensações as mais variadas possíveis, é porque algo efetivamente aconteceu dentro de nós a ponto de estimular vontades criativas. Estas tais coisas vão maquinando outras tantas e logo nos percebemos diante de um produto materializado sob a forma de um livro, espaço de projeções, arremates e de livres invenções, sejam elas labirínticas ou não.

Mesmo quando não desejamos, somos acometidos pelo mundo que se anuncia em torno de nós. A partir daí, decidimos se avançamos ou recuamos, mas deixar de perceber as externalidades é graça um tanto improvável de nos ser concedida. Talvez por isso tamanhos conflitos se operem no pulsar desritmado da dimensão mais íntima que guardamos.

A razão para as linhas iniciais deste texto serem assim construídas está diretamente ligada à experiência de leitura proporcionada por “A Eternidade da Maçã” (Ed. 7 Letras), livro de contos do escritor baiano Marcus Vinícius Rodrigues. Nele, irrompe bem vivo um paralelismo de sensações narrativas que demarcam uma válida opção por relacionar aquilo que está fora e dentro dos domínios humanos.

Tendo como fagulhas marcantes de inspiração canções de Caetano Veloso, “A Eternidade da Maçã” apresenta todo um território de ficções contidas num dos períodos mais assombrosos da história do Brasil – a ditadura militar. E possuir como contexto o forte cenário de tensão sugerido pela repressão ditatorial acaba sendo uma espécie de armadilha quando um autor não sabe se livrar dos apelos fáceis do tema. Para a recompensadora constatação do leitor mais atento, Marcus Vinícius foge desses ardis criativos.

O fato é que estamos diante de sete contos marcados por uma menção temporal explícita a histórias compreendidas entre os idos dos anos 60 e 70 do século passado. Ainda assim, isso é apenas um recorte do tempo para situar quem se debruça sobre suas linhas. O destaque maior está em perceber que se trata de narrativas que seguem uma cronologia interna, desvinculada, portanto, de uma sequência ordenada de acontecimentos. Nesse contexto, importa ressaltar o viés notadamente psicológico dos personagens, cujas existências são alvejadas pela ambiência plúmbea dos anos em curso. O tempo psicológico é como um grande personagem central que abraça todos os demais personagens, fazendo-os desfilar suas dores, anseios, hesitações, contradições e desejos contidos.

Marcus Vinícius é hábil em posicionar num mesmo front da consciência de seus personagens tanto as dores de um coletivo (e aqui ressaltemos a mão obscura do regime militar por sobre toda uma sociedade) quanto aquelas individualizadas. Nesse contraponto entre o externo e o interno, as narrativas ganham uma conformação especial na medida em que intercalam cenários difusos de vida. O autor manipula a dinâmica entre passado e presente, utilizando acertadamente recursos de flashback como uma estratégica ferramenta de posicionamento de seus personagens diante da percepção da realidade na qual estão densamente mergulhados.

She has given her soul to the Devil/but the Devil gave his soul to God, canta Caetano numa de suas mais vigorosas composições do período em que amargou seu exílio em paragens londrinas. Esse trecho da música Maria Bethânia, utilizado por Marcus Vinícius como epígrafe de “A Alma do Diabo”, conto que abre o livro, por si só é emblemático e sugere um caminho através do qual o contista segue a seu modo, tornando-nos intrigados observadores. Diante disso, cabe uma pergunta: quais os humanos resultados do encontro, num hospital, entre um doente major e sua enfermeira cujo irmão foi torturado por aquele mesmo militar?

Em “Barco vazio”, as noções de integridade física e moral são postas em xeque ante a extrema necessidade de sobrevivência a qual está submetido seu protagonista. A escolha narrativa aponta que num estado de exceção lógicas tradicionais se invertem a tal ponto que também é permitido ao oprimido utilizar-se dos mesmos expedientes do seu algoz. De modo intermitente, na cabeça do personagem central ecoa a frase: “Às vezes é preciso fazer alguma coisa errada para fazer o que é certo”.

É interessante perceber como o contista foge de lugares comuns, subvertendo expectativas óbvias em alguns de seus personagens. É, por exemplo, o que ocorre em “A flor e a estrela”, trama que tem por curioso arremate a ingênua visão de mundo do seu protagonista, até então alheio a tudo o que representava viver num país subtraído em liberdade. O jovem enamorado que atravessa a cidade sitiada para levar uma rosa a sua amada é a demonstração de como uma suposta alienação política deu margem a algum tempo de delicadeza e poesia.

Mais à frente, no conto “Longe daqui”, subsiste um espaço para o desejo, que em meio a toda sombra circular da traição, encontra algum mínimo abrigo diante da ausência de liberdade plena. O beijo entre amigos do mesmo sexo, parceiros de experiência de vida desde a infância, carrega em si toda uma simbologia, algo que transcende qualquer noção de sexualidade e que se norteia pela consciência de que o corpo é também um receptáculo de gratidão e lealdade.  Estamos diante de uma amizade posta à prova por vias nada usuais.

Aos poucos, vamos percebendo que os personagens são pessoas normais que, mesmo diante dum amplo cenário de repressão, cultivam uma espécie de felicidade clandestina. Esta fugidia, é claro, mas o suficiente para recriar cenários da memória, através dos quais passam vívidos flashes de saudade ou de alguma distante tentativa de reparação. Quando encarcerados ou torturados, os protagonistas das histórias recorrem a lembranças que tanto significam uma válvula de escape para a dor presente como também uma tentativa de vislumbrarem o que seria deles se tudo fosse diferente, ou seja, se suas escolhas fossem outras.

Vencedora do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia 2016, “A Eternidade da Maçã” é uma obra que prima pela riqueza de suas narrativas. Seu criador lança mão de bem elaborados recursos descritivos, tecendo um painel que agrega o físico e o imaterial. Assim, não entrega respostas prontas ao leitor. É como se as histórias ficassem em suspensão, sem um arremate derradeiro e prontas para continuar sob a dinâmica de outros olhares.

Terminada a leitura do livro, fica a sensação de que Marcus Vinícius Rodrigues não quer que esqueçamos uma das páginas mais cruéis de nossa história. Na medida em que um autor como ele concretiza isso sem nos impor desgastadas formulações ideológicas, o saldo é por demais positivo. Quiçá a luz ideal posta sobre as coisas seja aquela realmente capaz de proteger a memória, e não usurpá-la repetindo frases perdidas ao vento num desatino sem propósito.

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.   

 

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109ª Leva - 03/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

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Arte: Helena Barbagelata

Anda nas bocas ultimamente a palavra democracia. E ficamos a refletir em que medida o exercício da liberdade de pensamento encontra real abrigo nesse estado de coisas. Nossas mazelas são históricas e remontam à origem da nação? Está tudo tão definitivamente entranhado em nossas práticas cotidianas a ponto de ser difícil extirpar os equívocos? Afinal, temos verdadeiramente um rosto? São indagações que permeiam o momento presente da nossa conturbada nação de proporções continentais. Embora um sistema democrático não esteja livre de falhas e imperfeições, ele ainda parece um caminho bastante razoável no que se refere ao perseguido equilíbrio entre direitos e deveres. Nesse ambiente, a não uniformidade das posições é um elemento que impulsiona o funcionamento das relações. O antagonismo de opiniões é necessário na medida em que nos auxilia na busca pela afirmação de uma identidade. Do mesmo modo, determinismos em nada parecem contribuir para a evolução de uma dada sociedade. Nada é absoluto, nem mesmo os tão consagrados direitos que se pretendem fundamentais. Do convívio com nossos pares é que se materializa a necessidade dos equilíbrios. É quando as diferenças afloram e só são realmente valiosas se aproveitadas num sadio debate de ideias. Eis o melhor combate: o das palavras. No território das ações culturais, pensar diferente também encerra sua devida contribuição. Vejamos, pois, quantas são as mais diversificadas acepções de conteúdos. Seja na literatura e nas artes em geral, criadores e receptores podem se entender mesmo quando adotem modos opostos de vivência das obras. E é justamente essa não conformidade que faz com que as experiências tidas, a partir das searas culturais, sejam tão importantes. No seu ideal de diversidade, nossa revista sempre procurou, dentro da percepção de critérios de qualidade, conceder espaço às mais distintas e variadas vozes. O resultado é notadamente significativo, tendo em vista que hoje agregamos um vivo coletivo de expressões. Tudo isso posto, os caminhos editoriais aqui continuam a perseguir a pluralidade. Assim sendo, vêm à baila as intervenções poéticas de José Carlos Brandão, Adriana Versiani, Yasmin Nigri, Rodrigo Melo e Patrícia Laura. Expondo um pouco de sua trajetória entre a prosa e a poesia, o escritor baiano Marcus Vinícius Rodrigues é nosso atual entrevistado. Renato Tardivo escreve sobre o novo livro de poemas de Valerio OliveiraLarissa Mendes traz até nós o resultado das escutas do mais recente disco de Clarice Falcão. Nas alamedas da prosa, estão os contos de Tom Correia, Priscila Merizzio e Herculano Neto. Para falar sobre a mais nova investida cinematográfica do diretor Quentin Tarantino, o filme “Os Oito Odiados”, Guilherme Preger divide conosco sua aprofundada análise. É o texto de Sérgio Tavares quem nos apresenta o romance de estreia de Caco Ishak. E em meio a tantas rotas por aqui agora apresentadas, a arte da portuguesa Helena Barbagelata harmoniza espaços feitos de realidade e imaginação. Por tudo isso, vale a pena lutar. O ambiente democrático que se deseja no prisma cultural é todo aquele universo no qual faça morada a multiplicidade de epifanias. Feita especialmente para você, caro (a) leitor (a), eis a 109ª Leva!

 

Os Leveiros

 

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109ª Leva - 03/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

Por trás dum universo de cenários a compor as tramas da literatura, um criador maquina suas investidas. E o faz com o desejo da permanência, urdindo estratégias, escolhendo caminhos, atirando-se no labirinto da palavra. Quem escreve intenta ser alvejado pela percepção do leitor, este ser capaz de reorientar certos roteiros antes traçados. Quem escreve deixa sua marca no mundo na medida em que suas letras efetivamente saiam ao encontro do outro.

No jogo sugerido pela alteridade, o tácito pacto entre emissor e receptor aponta para além de uma suposta cumplicidade quando as coisas orbitam pelo complexo terreno da interpretação. Nesse ínterim, há revoluções internas, guerras contidas, alguns lampejos de êxtase e, sobremaneira, visões postas à prova. Então, seria o leitor uma espécie de destemido desbravador a quem é dado um status de total autonomia?

Acharemos estranho se alguém puder responder a isso com absoluta margem de certeza. Afinal, uma obra não é tão aberta assim na medida em que necessita pontuar rotas que fazem parte naturalmente do contexto estrutural da criação. E é bom poder ouvir escritores, saber deles o motor fundamental de seus ímpetos.

No caso do autor baiano Marcus Vinícius Rodrigues, que transita com preciosa fluidez entre as zonas da poesia e da prosa, as motivações criativas evidenciam uma tentativa de estabelecer um laço com o mundo. Também é, como o próprio escritor confessa, construir a ilusão do eterno.

Autor de obras como “Pequeno inventário das ausências” (poemas – 2001), “3 vestidos e meu corpo nu” (contos – 2009), “Eros Resoluto” (contos – 2010), Cada dia sobre a terra (contos – 2010), e tendo participado de várias antologias, Marcus Vinícius utiliza a memória como valiosa ferramenta de criação. É, na verdade, uma instigante manipulação das lembranças, espécie de distanciamento do real, através da qual o esquecimento protagoniza a elaboração da palavra. Um curioso fluxo de esquecer para escrever.

Na entrevista de agora, testemunhamos um Marcus Vinícius cada vez mais comprometido com o curso natural de seu caminhar literário, algo que se apoia marcantemente por um sentido especial de perenidade. O momento requer que falemos de seu mais novo livro de poemas, “Arquivos de um corpo em viagem” (2015), obra que enaltece a capacidade do autor em demarcar esse verdadeiro receptáculo de epifanias que é o corpo. Também na ótica da dinâmica do corpo, é de sua autoria uma série de poemas criados para o espetáculo de dança “Vous Doux”, cuja plaquete será lançada em Salvador, na Bahia, brevemente. O diálogo presente também visitou outras paisagens, a exemplo da ótica do desejo humano, das inquietudes contemporâneas e das estratégias criativas. Quem divide conosco um pouco de si é um alguém na plena percepção de que sua obra está sendo construída no processar das horas. Tudo isso sem a pretensão das certezas.

 

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Marcus Vinícius Rodrigues / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Tanto na prosa quanto na poesia, seus escritos têm um apelo muito ligado aos percursos do corpo. “Arquivos de um corpo em viagem”, seu mais recente livro de poemas, evidencia tais trajetos. O que dizer do nosso corpo enquanto receptáculo de memórias?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Essa história do corpo começa meio que por acaso mesmo. Olhando pra trás é que dá pra ver que tem essa unidade toda, mas não foi algo pensado. Quando eu comecei a montar o livro “Arquivos de um corpo em viagem”, foi que vi realmente a recorrência e aí organizei a obra toda em cima disso. Eliminei os poemas que não tinham a ver. Acho que o corpo é o lugar de todas as coisas. É onde nós estamos. Então, tudo acontece dentro do corpo, mesmo que seja a experiência mais metafísica. Até a experiência de sair do corpo é uma experiência em relação ao corpo, se você quiser ser místico. Eu continuo fazendo isso. Vou lançar agora um livro, inspirado no espetáculo de dança do meu irmão, “Vous Doux”, e, novamente, há a experiência do corpo, ou seja, os corpos se relacionando com os outros. É uma recorrência, mas não é pensada.

DA – É sedutor pensar que os idiomas do corpo são infinitos?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Não existe isso de infinito tanto em relação às experiências humanas quanto em relação à literatura. Talvez infinitas sejam as formas de fazer sempre as mesmas coisas. O tempo todo encontramos formas de fazer a mesma coisa, de irmos para o mesmo lugar, de conseguirmos as mesmas sensações. O infinito está nos caminhos, pois os lugares aonde chegamos são sempre os mesmos.  Não tenho certeza de nada.

DA – Você acredita que a memória é algo que pode nos trair?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Eu escrevo na esperança desta traição. Escrevo tentando lembrar e já participando dessa noção de que vai haver uma invenção. Isso é um aprendizado com a Lygia Fagundes Telles, com Maria da Conceição Paranhos. Acho muito importante viver, deixar passar o tempo, esquecer, e relembrar para poder inventar. Esse processo, tenho consciente na minha literatura. Eu vivo primeiro as coisas e vou escrever muito depois. Tenho coisas anotadas de 2008, 2009, de uma viagem que fiz, e ainda quero fazer o diário de viagem, mas aí quero esquecer para depois escrever. Não quero fazer um registro real do que aconteceu. Isso para mim é um método. Esqueço para reinventar. E não é nenhuma originalidade. Já aprendi com as duas mestras que mencionei. O que eu escrevo, principalmente na prosa, tem todo um processo de apagamento. Tem uma experiência real, biográfica, lá no fundo, numa das camadas. Na prosa há pelo menos duas camadas obrigatórias: o fundo biográfico e a intertextualidade. Por cima disso, faço todo um processo de apagamento, vou eliminando todas as pistas de biografia e de intertextualidade. Claro que quando a gente apaga uma coisa, outra aparece, muitas delas que a gente nem tem noção, pois entram inconscientemente. O divertido é isso. Apago as pistas do que de fato aconteceu, seja de leitura de outros textos, seja de aspectos biográficos meus.

DA – Diante de um mundo que nos oferta confrontos em abundância, os arremessos são necessários?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Não. Acho o contrário. Penso que temos de mirar um caminho e seguir exatamente ele. O confronto é muito perigoso porque quando você entra em qualquer conflito você se desvia. Tudo bem que as pessoas entrem em conflito com você. O perigoso é quando você quer entrar em conflito com as pessoas, pois terá de ir até onde elas estão e talvez elas não estejam no seu caminho. Caso elas estejam no seu caminho, aí, sim, é possível ter conflitos ideológicos, estéticos, é possível se confrontar. Mas quando as pessoas não estão no seu caminho, o importante é você construir o seu próprio e fazê-lo alargar e alargar. Quando você estiver com o caminho bastante estruturado, certamente surgirá algum conflito, mas é bom que seja o conflito do outro com você e não de você com o outro. As estéticas, políticas e os movimentos afirmativos têm que fazer mais isso: seguir em frente, e não buscar confrontar o outro diretamente. Naturalmente, o outro que se por acaso está nos atravancando o caminho é que se vai confrontar com a gente. Mas aí nós não nos desviamos, porque o perigo do conflito é a gente se perder nesse desvio e viver as ideologias dos outros, sermos reativos a eles. Ser reativo ao outro não é bom nem em arte, nem em estética. Não é mais tempo da gente reagir à forma do outro fazer. Eu faço as minhas coisas, exatamente o que sei, posso e gosto de fazer. E realmente não me interessa como os outros fazem, se fazem bem, se fazem mal. Mas não pretendo discordar, ir contra o outro, porque senão eu paro de fazer o que tenho de fazer, que é de fato o que sei fazer: as minhas coisas, minha escrita, minha vida.

DA – Não te assusta o patrulhamento ideológico ao qual estamos submetidos atualmente?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Estou em relação a isso absolutamente recolhido. Eu me espanto com as opiniões tanto de um lado quanto do outro. E não consigo me sentir parte de nenhum dos dois grupos. É possível conviver muito bem com quem é diferente de você. Tudo isso me assusta. Não me envolvo e não tomo partido porque acho que há coisas ruins dos dois lados, e é preciso refletir muito. Tenho muito medo de pessoas que têm certezas, talvez porque eu não tenha realmente certeza de nada. Já há muito tempo que não tenho certeza de muitas coisas e também não tenho certeza de que devíamos estar todos aqui no planeta, vivendo. Acho tudo muito estranho. Penso tentando encontrar uma solução, mas não há. E há muitas coisas que não sabemos. Aos poucos, fui me acostumando a não saber as coisas, a não ter curiosidade. Por exemplo, em religião, já procurei muitas coisas, quis saber muitas coisas, e hoje em dia me contento em não saber. Aceitei o mistério.

DA – Vez por outra, vem à tona um debate sobre a divisão da literatura em nichos de gênero. É como se as vozes ficassem reduzidas a guetos. O que pensa sobre isso?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – É uma questão que sempre retorna. A má literatura é que fica em guetos. A boa literatura ultrapassa tudo. Tem os guetos óbvios (gays, mulheres, negros), mas tem um gueto muito menos óbvio, que se impõe por causa de uma força política, mas não pela qualidade literária, que é o gueto masculino, macho, heterossexual e branco. Há um tipo de literatura que só interessa a esse tipo de gente e que não escapa disso. A gente não percebe porque esse macho, adulto, branco, como diria Caetano, está no comando. E quem está no comando é quem decide o que é o certo, o standard, o padrão. Mas, se você for reparar, há mesmo uma literatura que não interessa às outras pessoas, que é muito particular porque é má literatura. Quando escapa desse gueto, não interessa a ninguém. As pessoas discutem, veneram porque este gueto é o gueto que está no poder, mas não deixa de ser um gueto. A boa literatura pode discutir questões raciais e interessar a todo mundo. Pode discutir questões gays e interessar a todo mundo. Pode discutir questões femininas e interessar a todo mundo. Pode discutir questões do machão, hétero, branco e também interessar a todo mundo.  Tudo isso porque é boa literatura e se preocupa muito com a estética. A má literatura não interessa a ninguém. Só interessa àquele grupinho e serve para um gozo imediato daquelas pessoas, para uma função fisiológica rápida. Fisiológica não somente nos sentidos básicos, normais, mas também no sentido de servir como uma aceitação, um reforço do que determinada pessoa sente ou quer sentir. São literaturas que lidam com emoções básicas. Veja, por exemplo, a saga “Crepúsculo”, a qual não li, apenas vi os filmes. Ela tem um apelo muito grande com os adolescentes porque mostra a depressão que eles vivem naquela época. É muito chato para quem não está mais naquele período de depressão, de se pensar no que é, no existencialismo, de se viver uma vida sem grandes aventuras sexuais. É tudo tão casto ali porque é isso. Já “Harry Potter” é infantil, mas o tempo todo está lidando com outras questões e há várias camadas de leituras que se pode fazer além de um mero divertimento. Interessa a mais gente do que um “Crepúsculo”, que vai desaparecer em breve. Ninguém mais vai falar sobre isso. “Harry Potter” tem chance de sobreviver por muito tempo e interessar muito mais gente.

DA – No território da prosa, seus trânsitos criativos deixam um legado especial, sobretudo em se tratando de obras como “Eros resoluto” e “Três vestidos e meu corpo nu”. A ótica do desejo humano é uma trincheira de despertar para o mundo?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – O “3 vestidos e meu corpo nu” e o “Eros Resoluto” são livros tirados de um mesmo livro. Era um livro ainda incompleto, que até não tinha alguma unidade. No “3 vestidos”, eu coloquei três contos que têm uma visão feminina, são endereçados na questão feminina e em escritoras e têm uma intertextualidade expressa, flagrante e franca. E o “Eros resoluto” é mais específico de contos homoeróticos. Eles, a princípio, estavam todos num livro. Claro que os contos com a questão feminina não entrarão nesse livro futuro que um dia eu vou reunir, pelo menos com os contos homoeróticos. Talvez eu faça um livro só com os vestidos porque há mais uns três contos esparsos com visões femininas também. Essa vontade de organizar eu tenho muito. E tem, sim, sempre o desejo. Eu sempre estou prestando atenção no desejo que está por se realizar, porque é o momento que realmente importa. Uma vez que se realize, acabou, morreu. Até na minha pesquisa de mestrado o meu interesse era com o surgimento do desejo. Acho que o momento em que surge é o momento em que a gente tem mais plenitude de vida. Depois é ladeira abaixo, degradação, as coisas vão se acabando. É a pulsão de vida. O erotismo mesmo como pulsão de vida. É isso que me interessa tratar. Então, esses dois livros que vão se separar, e vão se chamar “Café Molotov”, trarão contos homoeróticos que tiverem unidade. E o “Três vestidos” também vai se formando aos poucos. Estou o tempo todo escrevendo uns três ou quatro livros temáticos e vou espalhando pelos livrinhos que tenho conseguido publicar. Às vezes, me pedem histórias específicas e vou tentado adequar aqui, ali, vendo onde se encaixa no projeto. Tenho uma planilha com as coisas que pretendo fazer. E vou recebendo os estímulos, produzindo e tentando encaixar. Eventualmente, alguma coisa é descartada ou outra acaba abrindo o caminho para novas possibilidades de livro que vou organizar no futuro. Mas a questão do desejo certamente perpassará todos os livros. Sempre é algo que aparece. Quando vou produzir um conto, eu trabalho sempre com várias unidades para que ele possa se encaixar num livro, em outro, e esses livros ideais estão sendo montados aos poucos. Quanto tiver a oportunidade de lançar um livro inteiro com isso, eu lançarei. Não tenho pressa porque é aos poucos que a gente vai fazendo. Assim que eu tiver oportunidade, sai essa antologia de contos chamada “Café Molotov”. Tenho o blog justamente com esse nome para assegurar o título como meu. Há um conto já escrito que trata disso, o qual permanece inédito para nomear o livro. Então, o meu desejo é de ordem, mais do que qualquer outra coisa. Meu desejo é apolíneo, e não o dionisíaco, que todo mundo busca. Eu quero ser apolíneo porque no caos eu já estou. Quero caminhar até a ordem.

DA – O caos também pode ser uma rota para a libertação assim como o desejo?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Para mim, não. A libertação está na ordem. Eu acho que já estamos no caos, e penso que a tendência da natureza é a ordem. Qualquer desarrumação que você faça na natureza em qualquer nível, seja nos moleculares ou sociais, a tendência depois é as coisas se organizarem, encontrarem um lugar, uma ordem. A pacificação está, para mim, na ordem e não no caos. O caos pode vir para explodir alguma estrutura e depois se buscar uma nova ordem, mas o caminho é a ordem. O fim é a ordem. O caos é uma desorganização momentânea. E ele é efêmero. As pessoas que falam do dionisíaco estão querendo trabalhar no registro do efêmero. Mas isso pode até servir para outras artes, teatro, performance, mas a literatura, stricto sensu, busca a perenidade. Então, você vai produzir alguma coisa que fique. Essa deve ser a intenção, pois o que não fica não é literatura. Literatura é o que vai acontecer depois, na leitura lá no futuro. Se você depende da presença das pessoas para o contato imediato, já não é mais a literatura stricto sensu, é arte cênica, música, performance, qualquer outra coisa. Depois surgiu a palavra escrita que vai comunicar para o futuro, para o distante. E aí você precisa de mais ordem. Hoje, as pessoas com todas as possibilidades de comunicação audiovisual estão dando muita ênfase ao momento da performance, ao contato próximo, ao texto que é dito em voz alta. Mas tudo isso é efêmero. É literatura dramática? É drama? É performance? Ok, mas não é aquela literatura que vai comunicar com o futuro, o distante, aquilo que nós não sabemos o que é ainda. Para essa literatura, precisamos de alguma ordem, de algum parâmetro para que a comunicação possa se estabelecer no futuro. Estou interessado no fato de que uma pessoa que não saiba quem eu sou, pegue um texto meu, até com a autoria apagada, e até se comunique de alguma forma com o que eu disse, sem depender de mim pessoalmente para que isso aconteça. E isso só se faz com ordem. Você não vai conseguir fazer isso com o caos. O caos é um caminho, um processo, uma etapa, mas não é o fim em si das coisas.

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Espetáculo “Vous Doux” / Foto: Aldren Lincoln

DA – Ao longo do tempo, suas estratégias de criação mudaram muito?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Na poesia, eu acho que mudou alguma coisa. Tem um momento em que eu ganho mais consciência da forma. Depois também quero esquecer essas consciências, voltar a ser intuitivo. Na verdade, poesia eu comecei imitando. Em algum momento vou fazendo intuitivamente, aí publico o primeiro livro. Depois não consigo fazer mais nada que acho que seja interessante, paro um tempo e vou para a prosa. Mais adiante, volto a fazer poesia e aí ganho mais consciência. Até estudo métrica, forma, e depois esqueço. O que achei realmente após lançar o primeiro livro foi que, embora não tivesse uma preocupação formal, eu tinha estruturas que se repetiam. Depois, cansei, parei, e comecei a pensar nisso melhor. Acho que hoje em dia eu tenho mais consciência da forma, de como lidar com algumas estruturas. Umas se repetem, mas vejo que ninguém repara e então vou deixando. Tem alguns truques que se repetem, mas ainda está funcionando. Poesia é preciso descansar para depois fazer de novo. Recuperar, esquecer e depois aprender de novo.

Eu demorei muito a escrever prosa. Já tinha um primeiro livro publicado e nunca tinha escrito um conto e queria escrever. Os primeiros são muito intuitivos, muito poéticos e com pouca ação e história. Depois é que acho que fui aprendendo a fazer contos. O romance ainda estou aprendendo a fazer. Qualquer dia sai um, não sei. Mas o conto eu fui aprendendo e o meu modelo de escrever é com muita estrutura por debaixo. Tem sempre muita coisa por debaixo de um conto. Um monte de histórias que não são contadas, de truques. Há estratégias, às vezes até bobas, tipo “eu vou escrever e só vai acontecer a história em determinado lugar ou hora do dia”. Vou criando alguns obstáculos que depois acabam não aparecendo.  Por exemplo, o conto “A omoplata” era um mero exercício, pois o objetivo era fazer um texto apenas com diálogos porque tenho uma repulsa em fazer diálogos. Sempre escolho não fazer. Então, me obriguei a fazer um conto só com diálogos. Agora já faço contos só com diálogos, alterno melhor. Posso eventualmente não escolher fazer diálogo algum ou não deixar as pessoas conversarem. Todas essas estratégias, algumas muito bobas, circunstanciais, tipo escrever sob encomenda, dentro de um determinado tema, são interessantes porque criam camadas de histórias, narrativas e temáticas. Acho que isso melhora um pouco a minha prosa. Isso eu fui aprendendo depois e cada vez faço mais. Vou construindo subtextos, subtramas, coisas escondidas para construir um conto curtinho às vezes. E sempre fazendo com que de alguma forma se relacione com outro conto que eu escrevi para montar uma malha, uma rede em que haja um diálogo entre eles. Toda vez que escrevo um conto, ou penso que ele vai se relacionar com algo que já escrevi ou ele abre um caminho para uma outra vertente, alguma coisa que devo fazer depois. Aí eu prevejo e deixo lá. Vai se montando uma teia. Quero que tudo se relacione de alguma forma. Isso acaba sendo uma estratégia, coisa que eu não fazia antes. Foi acontecendo aos poucos.

DA – O trabalho de resistência das editoras independentes inaugura uma nova era para as publicações?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Acho que todo mundo quer entrar nas garras do mercado tradicional. Ser um produto tão bom que possa ser consumido, circular bem, todo mundo quer isso. Mas isso não vai acontecer mais com todos. Não existe mais esse mercado para a literatura, a não ser aquela de entretenimento. A grande literatura não vai ter esse mercado todo e vai ser mesmo uma coisa pequena. Não vai ter mercado, vai ser arte simplesmente. Uma arte de alcance no momento reduzido, que depois vai esperar um alcance maior no tempo. No momento em que você publica, acho que cada vez menos vai haver circulação, pois mesmo quando circula, a boa literatura, essa literatura preocupada mais com a estética, circula num subterrâneo, num gueto. Não é uma coisa acessível a todo mundo. Por quê? Porque, claro, as pessoas não precisam mais da literatura para se divertirem, a não ser da literatura de entretenimento simplesmente.  As pessoas vão assistir cinema, televisão, internet e não precisam ler. Não precisam gastar quinze, vinte anos aprendendo a ler bem, a interpretar um texto. Então, esse vai sendo um interesse de um número cada vez menor de pessoas. Mesmo que circule, sempre será uma circulação subterrânea, clandestina, que não chega ao grande público. As editoras pequenas, como as da Bahia agora, dão um fôlego. Isso é bom porque essa tribo das pessoas que leem, gostam de literatura e, na maioria, também escrevem acaba consumindo. Vai ser uma coisa pouca. Acho que não tem mais porque ter ansiedade. Todo mundo sonha, algumas pessoas até produzem obras com essa finalidade do grande público, mas você tem que fazer algo específico para esse grande público. E talvez não seja o caso nem de escrever um romance, mas sim um roteiro para cinema, televisão, que também é uma coisa muito interessante. Mas não é pra todo mundo e alguns escritos são para poucos mesmo, pois não há hoje em dia mais tantas pessoas com capacidade para ler e interpretar um texto literário. É um público muito reduzido. Com pouco dinheiro, você publica um livro. A questão das pequenas tiragens é uma saída, um respiro, um tipo de sobrevivência. Mas é só isso, mera sobrevivência. Não vai além.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Pós-modernidade pode ser tudo. Se pode ser tudo, o que faço também é pós-moderno. O que eu não admito é que queiram que pós-moderno seja alguma coisa que ainda continue o Modernismo, as vanguardas lá do começo do século vinte. Isso não me interessa, essa agonia com o novo, essa vontade da novidade. Eventualmente, há coisas muito boas, mas há muitas que já nascem datadas, velhas, e que não se sustentam. Como o que eu acredito, penso e quero é algo que dure, o experimentalismo não me interessa. Claro que faço exercícios, mas não publico querendo que seja algo que vai ficar. Sei que é um exercício, é efêmero e não vai se sustentar. Mas alguma coisa da vontade de novidade fica. Não será tudo. Não tenho ansiedade do novo. Não me preocupo com isso. Quem quer fazer, que faça. A característica da pós-modernidade é a diversidade, a fragmentação. Então, cada um pode fazer o que quer. Eu faço o que eu quero, simplesmente, e pronto. E quem quiser fazer o que se diz como pós-moderno em oposição ao que faço, tranquilo. Não tenho ansiedade pela novidade pura e simplesmente. Tenho ansiedade pelo texto que fique tão bem acabado que não se possa dizer aquilo de outro jeito, a não ser daquele que foi dito. Não estou interessado no efêmero e no que vai se acabar a qualquer tempo. Claro que eu sei que tudo pode se acabar daqui a pouco, mas não trabalho com isso. Sei que tudo é assim, que tudo se acabará, mas o meu movimento de produzir é no sentido da perenidade. É um método. É o meu método.

DA – Por que escrever?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Pelo mesmo motivo que as pessoas bebem, fazem sexo, amam. Não tem motivo, pois ou é isso ou nada. E o que vem depois do nada a gente não sabe. É gostar de se expressar, de criar histórias, de construir um mundo particular, de construir a ilusão do eterno. É pra isso. Se a gente começa a pensar o porquê das coisas, todas elas não têm muita razão de ser, não têm muita necessidade. Nem viver, não é? Mas a gente vive porque não sabe o que vem depois, vamos aproveitando o que se tem. Eu comecei a escrever porque gostava de ler o clássico, o clichê do clichê, e gostava de estar nesse lugar. E tem uma hora que você tem que criar esse próprio lugar. Tem gente que bebe e vive para isso. Tem gente que gosta de futebol. Há pessoas que fazem outras coisas e apenas preenchem o tempo. Acho que pelo menos a literatura ou a arte de um modo geral têm essa sensação de que está se construindo alguma coisa. Esse é o grande lance. É isso que aproxima talvez as artes da religião. A religião também é isso. Ela é a aposta num depois, aposta no que a gente não vê, no sobrenatural. A arte também é uma aposta no sobrenatural. A aposta na comunicação com uma pessoa que você não sabe quem seja é uma esperança. Escrevemos por esperança, simplesmente. Em quê é que é o problema. O bom da esperança é que ela não é em nada. Esperar nesse sentido é intransitivo. Simplesmente, esperamos uma coisa, uma transcendência, um além. Claro que você pode escrever poesia, prosa para objetivos mais específicos, mais circunstanciais, mas quando a gente começa a se perguntar o porquê das coisas, vai dar em nada, que ao findar vai dar em nada, nada, nada do que eu pensava encontrar, como se diz na música do Gil. Mas é isso. Se você começa a pensar, a gente vai acabar no nada. Então, eu escrevo porque me preenche de alguma forma. Se não escrevesse, talvez eu bebesse.

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.  

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

O ano de 2016 começa aqui na Diversos Afins com um repertório de possibilidades. A primeira delas é a de celebrar a continuidade dos caminhos, empreendendo esforços para que outros renovados encontros continuem a alimentar nosso trabalho. É também o ano em que completaremos dez anos de estrada. De fato, um marco temporal se assinala, mas o verdadeiro lado especial disso é constatar que alcançamos um patamar de trajetos através dos quais pudemos consolidar ainda mais o projeto. A revista tem servido como uma plataforma de potencialização de discursos, olhares e distintas formas de percepção da vida. E mesmo com as múltiplas individualidades mescladas num só caldeirão de expressões, o arranjo de textos e imagens consegue trilhar uma estrada harmônica e equilibrada. Somos um organismo vivo por natureza, tendo em vista as marcas humanas essenciais a tudo o que fazemos. Nesse início de ano, nada melhor do que elencarmos as vozes que agora chegam e que compõem uma nova investida editorial. Uma delas está diluída em toda a 107ª Leva. Trata-se de Deborah Dornellas, que com seus desenhos desperta por aqui reflexões em torno de sua valiosa capacidade de abstração. Em matéria de contos, há o atravessar de pungentes territórios por parte de autores do quilate de Kátia Borges, Claudio Parreira e Cristiano Silva Rato. Apresentando-nos uma recente experiência de leitura, Orlando Lopes compartilha suas sensações sobre o mais novo livro do poeta Jorge Elias Neto. Percorrendo um instigante caminho de indagações, Sérgio Tavares entrevista o escritor Julián Fuks. As vias da poesia são contempladas com versos de Alex Simões, Fernando Naporano, Ellen Maria Vasconcellos, Marcus Vinícius Rodrigues e Tanussi Cardoso. As linhas de Marcos Pasche estão voltadas para a obra poética de Alexei Bueno. No caderno de cinema, Guilherme Preger escreve sobre as sensíveis abordagens do filme brasileiro “Boi Neon”. Há também espaço para considerações acerca do disco de estreia do cantor e compositor Liniker. Tudo isso posto, caros leitores, sejam bem-vindos ao nosso novo painel de expressões!

Os Leveiros

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107ª Leva - 01/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Marcus Vinícius Rodrigues

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

Depois de nós

 

nada ficou

depois de nós

só este pássaro que atravessa a cidade

depois de nós dois

todas as ruas vazias
nada sobre o asfalto gasto

depois de nós dois feridos

nem isso de saudade
nem um aviso

nada

só este pássaro perdido
que ainda insiste suas asas.

 

 

 

***

 

 

 

Uivo

 

Já não escuto o que é agudo ou grave
Mesmo as aves são mero voo obscuro.
Ouço apenas os mudos,
estes lobos de olhares ocos
a percorrer bosques de fome,
onde tateio uivos.

 

 

 

***

 

 

 

De como morder

Meu amor não me beija os pés.
Ele morde meus calcanhares.

Eu nunca escapo, embora tente,

e quase sempre engasgo
de também o ter entre os dentes.

 

 

 

***

 

 

 

Tudo que sei

 

Posso saber do mar distante
Pelo barulho longe

e do sol que brilha
pela sombra que o esconde.

Posso saber que a terra gira
só de olhar para o alto

e, tonto, olhos fechados,
ainda o sangue em correnteza

pela erosão do corpo gasto
na marcha da vida,

sei o que você não disse
na hora da despedida:

– Somos nossa única certeza.

 

 

 

***

 

 

Mensageiro

 

Era como um guerreiro
por entre as farpas do destino,

ia perdido e em seu caminho
colhia espadas que caíam,

o fio cortante de uma lembrança,
a lâmina cega de uma paixão,

o corpo em talhos de quem curar-se
sempre e em vão ainda tenta,

nesta sina de mensageiro
que em si leva a sentença.

 

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA e vive em Salvador. Escreve ficção e poesia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010), “Cada dia sobre a terra” (Contos, Ed Caramurê/EppPublicidade, 2010), “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014) e “Arquivos de um corpo em viagem” (poesia, Editora Mondrongo, 2015). Seu conto “A omoplata” venceu um dos concursos Newton Sampaio, edição 2009, promovido pela Secretaria de Cultura do Estado do Paraná.