Uma centena é muito mais do que um mero marco numérico. Em se tratando de caminhos editoriais, significa um avançar teimoso ante as curvas do tempo. Há quem resuma esse conjunto de ações que agregam literatura e artes como sendo uma prova irrefutável de resistência. Tal atributo é positivo na medida em que a valorização do presente seja a tônica central das considerações. A revista Diversos Afins tem passado, tenciona um futuro, mas volta seus olhos especialmente para o agora, pois este representa a confirmação de apostas e expectativas múltiplas. É difícil mensurar com precisão como um projeto dessa monta pode vir a se consolidar. Quem vasculhar nossa história perceberá quão diferente estamos hoje para aquela primeira Leva de escritos e expressões. O ano era 2006 e tudo começava de modo bastante incipiente, quiçá até pueril. Mas o fato de maior relevância é saber que não havia um produto fechado em nossas mãos. Quando se fala em desengavetar expressões, não se pretende apenas idealizar colaborações, mostrá-las ao mundo, mas, sobretudo, aprender com elas. O caminho de publicações até aqui trilhado mostra um permanente desejo de seguir adiante por meio do experimentar de novos saberes e sabores. Não há verdades hegemônicas, apenas um processo de intercâmbio de manifestações através das quais se constrói uma valiosa rede de encontros. Cada autor traz em si sua própria epifania, maneira particular de vislumbrar o mundo. Com isso, opera-se um vasto painel de sensações e leituras, todas elas estabelecendo sinais espontâneos de convergência. É quase impossível definir o quanto todo o numeroso contingente de colaboradores impactou o perfil da revista. Diga-se de passagem, entendemos que pomos em prática um projeto em permanente construção. Portanto, nada está esgotado em si, pois é sempre tempo de olhar ao redor. Ao longo de todas as edições, presenciamos também outras tantas investidas editoriais que nos auxiliaram no entendimento do nosso papel enquanto suporte cultural. A via digital rompeu barreiras e aproximou-nos de pessoas dos mais diferentes lugares do mundo, todas elas com sua importância peculiar. Para nós, está claro que avançar é preciso. O atual momento de celebração contempla a poética presente nas fotografias de Gabriel Rastelli Quintão. Deparamo-nos com os arremates narrativos de Marcus Vinícius Rodrigues, Natália Borges Polesso e Sérgio Tavares, especialmente selecionados para a ocasião. No território da poesia, emanam os fluxos líricos de gente como Wesley Peres, Demetrios Galvão, Adriano Scandolara, Francisco S. Hill e José Carlos Sant Anna. Com o olhar sensível sobre o mundo e a vida, a poeta Neuzamaria Kerner concede-nos uma entrevista, na qual aborda principalmente as energias emanadas do seu mais recente livro. São de Larissa Mendes as percepções a cerca de “1977”, novo disco do cantor e compositor Wado. O escritor Marcos Pasche chama-nos atenção para obras de quatro autores contemporâneos: Maíra Ferreira, Juliano Carrupt do Nascimento, Leandro Jardim e Anderson Fonseca. O novo filme dos irmãos Dardenne é tema das anotações de Guilherme Preger. Fabrício Brandão ousa penetrar nas veredas do mais recente livro de Dênisson Padilha Filho. É tempo de centésima jornada, caros leitores! Celebrem conosco!
Por trás da vitrine, o olhar e o doce. O sonho brilhava encoberto em açúcar, minúsculos cristais faiscantes sob a luz da vitrine. Abel, ainda pequeno, com os olhos na altura do doce, uns olhos arregalados para o recheio de goiabada que escorria, olhos de quem adivinha um sabor nunca experimentado. Do outro lado, além do sonho, o filho do padeiro, um pouco mais alto, um pouco mais velho. Eles se viram aquela vez e, por muitos anos, não se conheceram.
*
— Oi! Me vê aquele quindim ali?
— O maior?
A resposta foi um sorriso entre as bochechas gordinhas.
— Você eu não conheço.
— Meu pai é o dono.
— Ah! É verdade. Tinha um garoto aqui quando eu era criança.
— Eu.
— E…
O outro sorriu.
— Eu morava com minha mãe.
Abel sorriu um sorriso de compreensão. Agradeceu o doce e foi saindo.
— Meu nome é Amaro.
Abel se virou da porta interrogativo e apontou para o alto. Amaro fez um gesto conformado. Padaria Santo Amaro.
A padaria ficava numa esquina e o letreiro se repetia para cada uma das ruas. Letras vermelhas sobre um fundo amarelo claro. Há muito já não tinha a imagem do santo, de quem Abel tinha uma lembrança apenas vaga.
**
— Já pensou se fosse Santo Expedito?
— Ou São Basílio.
— Santo Antão.
— Sabia que tem um São Frutuoso?
— Nossa! Ia ser muito pior.
— Eu não gosto é do José.
— Eu também tenho José.
José Amaro e Abel José. Eles riram da coincidência e se reconheceram ainda mais como amigos.
— Uma prima me chama de Belzebu.
— Por quê?
— Bel, Zé, ela foi juntando e lembrou do danado. O apelido pegou.
— E você é assim endiabrado?
Riram. Amaro estendeu um doce para o novo amigo. Abel sequer perguntou do que se tratava. Colocou o doce inteiro na boca. Um gosto de amêndoas lhe invadiu a boca.
— Beijinho de freira.
— Humm!
— Gostou?
— Acho que comi o papel junto.
— Não é papel, não. É uma hóstia.
Amaro falou para o novo amigo do desejo de colocar novos doces para vender. Pensava em recuperar o ar de padaria portuguesa que tinha no tempo do avô. Estava experimentando receitas.
— Eu gostei. Vou querer experimentar todas.
— Vou querer que você experimente.
Quem acompanhasse a conversa dos dois jovens poderia perceber que havia ali um encontro. Eles eram tão diferentes. Amaro era alto e magro, uma pele levemente morena, uma morenice mediterrânea, coberta por longos pelos negros. Abel era mais branco, uma brancura também mestiça, sem os avermelhados dos brancos do norte. Tinha os cabelos também muito pretos, mas não tinha pelos. Era gordinho. Braços e pernas roliços escapando das camisas e das bermudas. Amaro tentava disfarçar, mas quase sempre seu olhar escorregava para aquelas partes do amigo em que a carne forçava os tecidos das roupas. Tinha sido assim desde que o tinha visto saindo da padaria com um quindim. Abel tinha as pernas grossas sustentando uma bunda volumosa. As gorduras sem exageros doentios faziam curvas sinuosas e pareciam dançar quando ele andava. Amaro quis chamá-lo, retê-lo um pouco mais, mas não sabia como. Foi assim que gritou o próprio nome para o rapaz.
Depois daquele primeiro encontro, não viu a hora de ver o rapaz de novo. No dia seguinte, mesmo sem estar previsto, fez mais quindins. Escolheu de propósito formas maiores. Abel retornou, mas não quis o quindim. Preferiu uma tortinha de limão. Depois, no outro dia, quis um brigadeiro. No fim de uma semana, já tinha experimentado todos os doces da vitrine. Um por dia. Amaro percebeu seus olhos procurando alguma novidade. Lembrou-se do sonho.
— O recheio desse é de creme de baunilha.
Abel mordeu o doce num prazer genuíno. Logo depois, entretanto, o brilho nos olhos diminuiu. Não havia mais novidade. Ele comia o doce com avidez ainda, mas uma avidez tensa, de quem apenas se deixa levar.
— Você tem tempo?
— Hum?
Amaro foi para a cozinha. Uma rápida mistura: açúcar, manteiga, farinha de trigo, baunilha. Um forno quente, um pouco de conversa. Logo, os biscoitos ficaram prontos.
— O que é isso?
— Areias de Cascais.
— Bom!
— É o que há de mais simples em doces.
— Nunca tinha experimentado.
Amaro sabia. Abel gostava da novidade, sabores novos, mesmo que fossem simples. Foi assim que ele começou a seduzir o amigo. A cada dia fazia um doce diferente. De simples biscoitos de natas a bocas de damas. Fez os mais diversos manjares, ambrosias, madalenas, pães-de-ló. Não faltaram os pastéis de Belém e outros doces de convento. Amaro seguia as receitas de um livro antigo do avô. Abel vinha todos os dias para experimentar a novidade. A cada dia, Amaro se mostrava mais próximo. Abel já não era um mero cliente. Era convidado para a cozinha onde podia ver os doces sendo feitos. Lambia as massas cruas das panelas, provava cada etapa até o doce estar pronto. Ele se perdia num labirinto de sabores às vezes tão iguais, mas sempre apresentados de maneira diferente. E enquanto o menino guloso se lambuzava nas delícias, Amaro se deliciava de ver as bochechas gordinhas, os braços roliços que pegava com as mãos cheias para mostrar ao amigo alguma panela fervente. Ele degustava o corpo do rapaz aos poucos, em esbarrões casuais, em gestos fraternos. As coxas de Abel eram tocadas na espontaneidade de uma piada. O corpo todo do jovem se debruçava sobre Amaro numa tentativa de alcançar um doce que lhe era negado. Eles viveram essa dança por semanas. Um encontro de desejos. Encontro? Assim pensava Amaro.
— Hoje à noite vou fazer papos de anjo.
— Hum. Eu gostei desses.
— Mas vou fazer diferente: papos de anjo na hóstia…
— Quer me ver fazendo?
Abel voltou à noite quando a padaria estava fechada. Amaro lhe abriu a porta dos fundos, apenas o suficiente para o rapaz passar roçando no outro. Amaro sentiu a bunda inteira do rapaz passar por seu corpo. Chegou a estremecer.
Abel perguntou dos doces, os papos de anjo de que já tinha gostado tanto.
—Antes você vai experimentar esse bolo dos anjos.
Era um bolo de claras, muito leve. A forma estava de ponta cabeça equilibrada no alto de uma garrafa.
— O que é isso?
Abel estava maravilhado.
— É um bolo tradicional americano. Tem de deixar esfriar assim, se não murcha. Tinha de aproveitar as claras, né.
— Podia ter engomado umas roupas.
— Da próxima vez traga suas camisas.
— Prefiro experimentar esse bolo.
Amaro desenformou o bolo. Era levíssimo. Abel comeu aos bocados.
— Parece mesmo comida dos anjos.
Falava de boca cheia. O bolo era tão leve que logo já tinha comido a metade. Enquanto isso, Amaro colocava a massa dos papos de anjo em hóstias, fechava-as como um pastel, besuntava de gemas e passava em açúcar.
— Agora experimenta os papos de anjo desse jeito.
Pegou um dos doces e ofereceu a Abel diretamente na boca. O rapaz mordeu o doce no meio. A Hóstia partida deixou escorrer o creme pelo braço de Amaro. Num gesto instintivo, o rapaz lambeu o braço do amigo. Junto com o doce, os pelos longos e negros do braço foram sugados. O suor se intrometeu no meio do doce. Uma mistura alegre e inusitada.
Amaro percebeu o maravilhamento do outro. Então, espremeu mais creme no braço e ofereceu. Abel hesitou. Antes, tinha lambido por reflexo, dominado pelo desejo do doce. Agora, sentia que não devia. Lamber um homem? Nunca tinha querido isso. Não gostava. Mas aquele gosto? O sal misturado ao açúcar e às gemas? Ficou uns instantes parado olhando para o amigo. Entre eles, o doce. Amaro rasgou outro envelope de hóstia e espalhou mais creme. O braço estava todo lambuzado de papo de anjo.
Abel não resistiu. Dessa vez, talvez porque já não era um ato impensado, talvez porque sabia do passo além que dava, lambeu o braço devagar. Assim, o gosto lhe veio mais calmo, mais definitivo. Parecia que experimentava uma revelação. Depois daquilo, sentia que não se contentaria com nada menos.
Lambia o braço peludo do amigo. Lambia meticulosamente. Lambia o creme e lambia o braço sem creme. O doce e depois o sal. Abria a boca para sentir ambos na língua. Os olhos fechados. Deleitava-se.
Amaro extasiava de sentir aquela boca suave na própria pele. Sentia-se beijado. E, vendo na bochecha do outro um pouco de creme, não resistiu. Sentia que também tinha o direito de provar o doce e provar o outro. Avançou sua boca, primeiro no creme; depois, direto nos lábios de Abel. Não lambia. Beijava.
A reação foi susto e rejeição. Abel o empurrou com força quando a língua já lhe entrava pela boca a dentro. Não teve sabor, não teve prazer. Ele não saberia, depois, descrever o que sentiu. Não sentiu nada. Talvez, bem mais tarde, chegasse a compreender que era simplesmente isso: não gostou, não se sentiu atraído, não desejava. Aquela ausência de querer, para alguém que era movido pelo desejo de experimentar, era assustadora. Talvez porque fosse um homem? Talvez porque nunca tivesse pensado a respeito? Talvez porque fosse além do paladar e esse era o único sentido que importava para o rapaz. Abel fugiu.
Amaro se sentiu perdido. Até aquele momento achava que vivia um perfeito encontro de desejos; o seu pelo amigo, um desejo de pele e de amor; e o do amigo, um desejo talvez mais difuso, mas ainda assim um desejo por si. Ele acreditava nesse encontro, nesse ponto de chegada de dois caminhos. Só depois de ser empurrado com força — e Abel era forte—, é que se deu conta de que os desejos apenas se cruzavam e se atravessavam. Ele via a gula de Abel como um reflexo de seus desejos. Não era isso. Descobriu não um reflexo, mas uma refração. Um desvio, um trágico desencontro. Abel fugiu e ele ficou só em meio aos doces com nomes de anjo.
***
Abel saiu da padaria assustado. Pensou que talvez tivesse culpa pelo que tinha acontecido, mas repetia pra si mesmo: eu não imaginava, eu não imaginava. Dizia e não conseguia apagar as imagens do amigo tocando em seu braço, em sua perna. E no meio das imagens, os doces; tantos sabores delicadamente diferentes e iguais, como um contínuo crescente. Amaro tinha lhe seduzido com aquele desfile sem fim. Ele se deixava levar feliz, guiado pelo desejo de mais um novo sabor; e, então, o sal no braço do amigo, o suor nos pelos. Aquela incrível descoberta. Abel seguia pela rua meio tonto. Resolveu sentar numa escadinha de tijolos de uma casa abandonada. As mãos sujas de açúcar apoiadas no degrau descarnado. O açúcar, a gordura, o barro. Abel sentiu aquela textura. Olhou aquela nova mistura nas mãos. Um comando de aventura na cabeça. Será? Pensou uma última hesitação antes de lamber as pontas dos dedos.
Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA e vive em Salvador. Escreve ficção e poesia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010), “Cada dia sobre a terra” (Contos, Ed Caramurê/EppPublicidade, 2010) e “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014). Participou de várias antologias poéticas, além de figurar no volume “Anos 2000 – Coleção Roteiro da Poesia Brasileira” (Global Editora, 2009). Mantém o blogCafé Molotov.
Diante de 82 Levas, a avidez por novas conquistas faz-se cada vez mais presente. E tudo se traduz numa espécie de motor do crescimento, desejo incessante de firmar caminhos através daquilo que se tem de mais especial: o potencial da descoberta. Importante mesmo é constatar que não há nada definitivo nessa busca, principalmente porque as criações que intentam algum reconhecimento, além de não se conformarem a regramentos meramente cartesianos, necessitam de certa dose de ousadia. Carecem sempre de mexer com nossas estruturas e percepções, lembrando-nos que vivemos num mundo onde a inércia e a apatia devem ser combatidas com toda a gana que pudermos. Ao mesmo tempo, cabe lembrar que o universo de coisas que nos rodeia já é, por si só, capaz de nos trazer algumas válidas reflexões e, consequentemente, ações. Por isso, o inconformismo com ditames vazios. Por isso, vale a luta contra as amarras do pensamento, quiçá o pior dos inimigos de quem se propõe a criar. A quem interessaria, por exemplo, a elitização do saber e dos feitos culturais? Em nome do quê atravancar caminhos e vias de acesso ao ato de experimentar a arte sob suas mais variadas formas? Para um autor, a maturidade é joia rara e, em muitos casos, chega a beirar o inatingível. Haveria, então, uma resposta pronta para a dúvida sobre o momento certo de se executar as coisas? Muito se questiona sobre quando alguém estaria definitivamente pronto para tomar as rédeas de si em matéria de criação literária. Apesar de presenciarmos um momento de múltiplas intervenções em torno da escrita, com toda a sorte de expressões a surgir, nosso refúgio maior e melhor aponta para o deus leitura. Nele, encontramos alimento para pensar, agir e, tendo propriedade para tal, expelirmos algo sob a forma de palavras. Hoje, operemos no campo das escutas, emprestando dotes para a alteridade. Talvez assim encontremos um ponto exato de ajuste, de diálogo. Pensando nisso, podemos desbravar as searas poéticas de gente como Leonardo Chioda, Rosana Banharoli, Pedro Du Bois, Maria Quintans e Carina Carvalho. Do mesmo modo, penetrar na prosa cotidiana e densa de José Geraldo Neres, Ieda Estergilda e Marcus Vinícius Rodrigues. Marcando seu momento inaugural entre nós, o jornalista e professor Fernando Marques promove uma verdadeira viagem pela obra “História Mundial do Teatro”, de Margot Berthold. Numa boa conversa sobre literatura e seus afins, entrevistamos o escritor baiano Rodrigo Melo, que também estreia no caderno Gramofone ao conduzir nossas escutas pelo disco de Jair Naves. O poeta Jorge Elias Neto apresenta-nos o mais novo livro de W. J. Solha. Larissa Mendes reflete sobre o filme “Antes da Meia-Noite”. E para coroar todo o coletivo de expressões aqui disposto, expomos, por entre todos os nossos recantos, os sensíveis registros fotográficos de Milena Palladino, artista que mergulha no universo da simplicidade. Uma nova edição surge inteiramente voltada para celebrar sua presença entre nós, caro leitor. Boas incursões!
Quando.. bateu a porta atrás de
si,. …..rolaram….pela …escada
algumas.... lantejoulas verdes na
mesma..direção,..…como… .se .quisessem. alcançá-la.…………
Lygia Fagundes Telles
Os dedos percorreram o tecido verde jogado sobre a cômoda, numa lenta observação. A larga camisa era feita desse tecido sintético, imitando a leveza de uma seda, porém mais resistente. Os tons de verde brilhantes sobre um fundo multicor, as várias cores, tão diferentes e iguais, fazendo uma trama confusa. Como marca definida, apenas o desenho de uma pata de lagarto no ombro. Aqui, o brilho do tecido ficava inteiramente ofuscante, como se a pata fosse bordada de lantejoulas verdes. Tatisa acariciou aquele desenho com seus dedos brancos, as unhas curtas e sem vaidade, dedos de uma velha. Ela procurava o tato familiar das lantejoulas. Esperava nos dedos a confirmação daquele brilho tão conhecido. Nada. Apenas o toque suave de seda falsa. Mesmo o brilho, ela sabia, era falso. Com certeza não chegaria aos pés do brilho de uma lantejoula. Aquelas faíscas que via sair do verde do tecido eram efeitos de sua vista embaçada. Uma catarata se formava em seu olho. É preciso esperar, disse o médico de cabelos louros, tem de amadurecer primeiro. Era preciso que a cortina descesse completamente para só então descerrá-la. Descer ao fundo do poço, ela chegou a dizer. O médico sorriu seu sorriso de jovem. Mas ele é tão jovem, disse Tatisa à sua filha. Mamãe! Ela agarrou seu braço numa reprimenda discreta. Ele é o melhor nessa área, ela completou entre os dentes. Tatisa queria dizer que conheceu muitos médicos em sua vida, todos iguais. Eles olham pra gente um instante, perguntam se tomamos algum remédio, perguntam se temos alergia a alguma coisa e mandam a gente pra casa. Amadurecer? Eu já estou madura demais, doutor, caindo do pé, ela quis dizer também, mas se calou. O pudor de falar de sua velhice com aquele jovem de pele tão fresca. Calou-se na obediência que os velhos aprendem, engoliu a frase durante a consulta inteira e mesmo depois, enquanto atravessava a cidade naquele dia extraordinariamente quente, o calor exorbitava como que para confirmar a chegada do verão. Chegou à casa exausta. Tantos médicos nos últimos dias, tantos exames, as suspeitas de um mal invisível. Desabou no sofá e as palavras transbordaram. Não viveria para ver a catarata amadurecer. Ia morrer quase cega. Ora, mamãe, a senhora ainda vai enterrar todos nós. Vai ver quando os exames chegarem, a saúde de ferro. A filha falava animada, sem permitir uma palavra em contrário. Tatisa calou-se mais uma vez. Os exames.
O neto lhe tirou das mãos o tecido verde. Já era um rapagão o menino. Rodou pela sala com o pedaço de pano. Enrolou-o de qualquer jeito, como se fosse arremessar num cesto de roupas sujas e meteu no fundo da mala, enfiando a mão por entre as roupas que já estavam lá, o gesto vigoroso.
— Abadá, Vó. O nome disso é abadá. Há muito tempo que não existe mais mortalha nem fantasia. Nesse calor quem vai usar fantasia?
Ele respondia a uma pergunta lançada à neta. Cadê a fantasia de carnaval? A menina magra ficou ainda mais fina com a pergunta. Era anêmica de vontade, uma sílfide pálida. Estava ajoelhada perto de sua mala, dobrando pedacinhos de pano cor-de-rosa. Blusinhas. Arrumava a viagem como uma folha que se deixa levar pelo vento, sem querer ir, sem querer ficar, os pais já acostumados com aquela inapetência pela vida. A Avó não se conformava. Gostava de perguntar o que a neta queria, o que pensava das coisas. A resposta era quase sempre um dar de ombros. Quer dizer, de ombro, pois ela só levantava levemente o ombro direito e estendia os lábios uns poucos milímetros para frente, num muxoxo. Era nessa hora que os olhos caíam em diagonal para o ombro, como se vigiassem a execução do gesto.
A filha de Tatisa também estava às voltas com as malas. Arrumava a dela e a do marido. O genro tinha uma última reunião antes da viagem, a filha dizia a todo instante. Ele chegará a tempo, ela dizia com voz firme, afastando para longe a suspeita que nasceu junto com as novas reuniões. Tantas ultimamente. Foi com essa voz firme que ela anunciou a viagem. Vamos para a Bahia, mãe, quinze dias, praia descanso e, depois, o carnaval. O marido não teve argumentos para ser contra, tentou desculpas fracas, vagas, até ceder vencido. A neta sequer se manifestou. Só o neto ficou animado, queria ir atrás do Trio Elétrico, como naquela música: atrás do Trio Elétrico só não vai quem já morreu …, cantarolou Tatisa, lembrando da invasão dos baianos na televisão, As roupas exuberantes, a música tão nova e vigorosa. O carnaval da Bahia devia ser assim. Foi o neto quem lhe esclareceu tudo. Os cantores eram outros. O bloco carnavalesco da moda chamava-se Camaleão — o lagarto da camisa, ou do abadá, o que quer que seja isso. Era um carnaval para jovens. Não tinha lugar para velhos. O convite da filha demorou para vir. Antes ela ouviu o neto falar da exaltação da festa, os números de trios, de blocos, de pessoas, mais de um milhão, talvez dois. Muita confusão. Não, os baianos que Tatisa conhecia não cantavam nas ruas, nem os velhos nem os novos baianos. Só os novíssimos. Todos os anos, surgiam outros mais novíssimos ainda. Apenas quando o quadro se desenhou totalmente é que veio o convite da filha. Tatisa sabia que não era uma viagem para velhos. Só iria atrapalhar. Que é isso, mamãe, a senhora nunca atrapalha, a filha lançou a gentileza. Tatisa aceitou o gesto e manteve seu papel na farsa. Continuou recusando. O genro também insistiu para que ela fosse e o gesto pareceu-lhe até sincero! Ela não soube como reagir. Ele chegava de uma reunião e de repente a companhia da sogra ganhou tanta importância!
— Deve ser nome africano, o neto continuava sua explicação sobre o tal abadá. Só não sei o que significa. É feita assim: larga. Se quiser, a gente pode cortar, diminuir.
Tatisa alisou sobre a cômoda o paninho de crochê, feito com minúsculos pontos, ponto baixíssimo. Empurrou mais para o fundo o envelope que estava embaixo do pano. Aproveitou para empurrar para o fundo as lembranças de um outro carnaval. Aquela roupa verde, tão brilhante, lhe lembrou um outro tempo. Quase podia repetir o gesto de molhar os dedos no pote de cola, enfiar nas lantejoulas e espalhá-las em sua roupa verde. A fantasia estava sendo improvisada em cima da hora. Tão mais difícil conseguir um pouco de brilho naqueles tempos. O baile seria temático. Um baile verde. Lu, a empregada, ajudava na montagem apressada. O carnaval rodeava a casa com suas músicas alegres e inocentes, tão perto. Por que, então, o baile? Pensou Tatisa. Logo lhe veio na memória o Pierrô verde. Precisava ir a seu encontro, o namorado. Ela já tinha a certeza. Era um namorico apenas, mas ela já tinha a certeza. Ela via a filha e sua força e lembrava daquele Pierrô. Tão firme no convite. Vamos ao baile verde, está decidido. Ela quis falar do pai doente, mas não teve coragem. Nem quando rodopiava no salão pôde dizer: o pai. No entanto, a frase da empregada se lhe cravara na cabeça: ele não passa dessa noite. As previsões da Lu. Ela já errara tanto! Era como um corvo voando em torno da doença do pai, sempre prevendo sua morte. Mas já errara tanto! Era um corvo equivocado. E o pai não morreria no dia do baile. Tão importante o baile, ele sabia. Não foi isso que a empregada tinha dito? Ele sabia que o baile era importante pra ela. Estava se fazendo de forte, dizia Lu em sua cabeça enquanto rodopiava nos braços de seu futuro marido. Eles iam se casar e ter essa filha decidida que cuidaria da mãe velha e viúva. A vida assim resumida. Tatisa não pensava que os anos todos de seu futuro poderiam ser resumidos assim num passado tão curto. Ela não sabia disso e, naquela hora, afastava os agouros da empregada. Hoje não papai. E ria para encobrir com a risada a imagem da porta do quarto fechado, onde o pai…
— Mamãe!
Tatisa é acordada mais uma vez de suas lembranças.
— Vamos ter de sair antes da hora.
Tatisa já ouviu pela metade. Demorou a entender o que a filha dizia. O genro estava atrasado. Iam todos direto para o aeroporto. Ele podia seguir direto. Tatisa quis aconselhar. Não seria melhor ligar pra ele, lembrar da viagem uma reunião não demora tanto assim? E essa ausência constante? Tatisa lembrava de seu próprio pai. Só adulta percebeu que, quando criança, havia umas ausências diferentes. Havia um silêncio negro no rosto da mãe. Longos períodos de silêncio. O pai oprimido por aquela voz que não era dita. A mãe engolia as palavras e junto com elas mastigava as entranhas do pai. Um doloroso silêncio para os dois. Tatisa também teve seus dias de silêncio com seu Pierrô verde. A ela parecia um ritual inevitável. Os homens aprendiam as pequenas ausências, os pequenos atrasos. Eram pequenos tremores na vida. Às mulheres cabia silenciar e esperar. O mundo se recompunha então. Tatisa tinha passado por isso. Não era possível desviar desse caminho. Nada podia ser alterado. As pequenas ausências, todas, podiam ser logicamente explicadas. Tudo se encaixava milimetricamente. Não podia ser diferente. Imaginar que algo acontecera era impossível. Por isso o silêncio. Uma palavra errada poderia desmontar aquele equilíbrio delicado. Tatisa aprendera aquele jogo. Toda a vida de uma mulher se paralisava à espera do marido. Ela se arrumava, punha um belo jantar na mesa e esperava. Sua vida ficava em suspenso até que a chave girasse na porta. Ele então entraria e acenderia a luz e tudo estaria claro.
A filha de Tatisa não parecia entender por completo essa lei. Algo do silêncio ela aprendera, mas não podia esperar. Ela seguia em frente. Carregava o que pudesse levar, os que fossem fortes para a jornada.
— Minha filha, não é melhor esperar?
— Mamãe, Mamãe. Ele sabe os horários. Saberá chegar lá.
— Não é melhor irem todos juntos?
A filha olhou séria. Não, não. Ela estava disposta a seguir com seu plano. Ir a Bahia, ao carnaval. O marido que fosse direto para o aeroporto. Se perdesse o voo, pegaria outro. Se não fosse, que comprasse roupas, pois quase nada ficara em casa. Ia ter de usar paletós todo dia. As reuniões, tantas. Aprendesse a administrar as reuniões, dizia a filha. Havia uma tensão naquela família, Tatisa sentia em sua carne. Admirava a filha por sua mão firme. Era ela quem controlava o filho cada vez mais rebelde, tão perigosamente próximo do gesto agressivo. E essa menina tão diáfana, o que fazer com ela. Tão ausente, tão anêmica, sem apetite para vontades, sem vida nas veias. A filha tinha mão firme com ambos. Com uma refreava o filho e seus impulsos, com a outra empurrava a filha adiante. Não se preocupava verdadeiramente com o que ia dentro de seus corações, apenas seguia em frente, fazendo sua família caminhar nos trilhos, como um trem, uma estação por vez, até vir o final do caminho de ferro, ou até o abismo da ponte interrompida, todo o comboio lançando-se no vazio. Era assim que ela pensava que devia conduzir sua família, todos juntos, a família inteira, ainda que cada parte fosse um amontoado de cacos de vidro. As almas se destroçavam diante daquela força aglutinadora que era a filha. Iam todos para a Bahia. O carnaval. O bloco verde. Tatisa ficaria. O último vagão, já velho demais, ia se desprendendo do comboio. Ela já fora assim, uma locomotiva seguindo em frente, os vagões desprendendo-se no caminho. O pai. A porta fechada no corredor escuro, as marchas de carnaval lá fora. Uma verdadeira locomotiva naquela noite verde. Umas poucas lantejoulas caídas no chão tentaram acompanhá-la. Mas para onde, Tatisa?
— Não chegaram os exames? Pensei ter visto um envelope no meio da correspondência. Mamãe?
Tatisa gesticulou um sei lá com os ombros, um leve muxoxo nos lábios. A neta teve uma professora, isso era certo. Só não aprendera a ter o segredo por trás do gesto evasivo. Seu gesto era só isso, uma evasão, um esvaziamento. Tatisa sabia o segredo. Esse, o seu grande aprendizado na vida.
— Mamãe!? A clínica não ficou de mandar?
— Ficou sim. Não chegou?
— Eu pensei ter visto, mas acho que me enganei.
— Procure, querida, pode estar por aí.
Tatisa fez a sugestão como uma provocação. Conhecia bem a filha.
— Meu bem, não está em cima da cômoda?
Muita coisa estava em cima da cômoda, sempre tão atulhada de objetos. E agora, naquela arrumação de viagem? A filha vasculhou com pressa os objetos e nada achou.
— Deixe que eu procuro depois, filhinha, vá fazer sua viagem, descansar.
— Mamãe, é importante, a senhora sabe.
— Minha saúde está ótima!
Os netos apenas observavam aquele impasse entre mãe e filha. Havia uma luta se desenrolando diante de seus olhos. Eles não entediam verdadeiramente, apenas sentiam o embate, como um surdo percebe as vibrações do som em seu corpo. Eles sentiam e reagiam cada um a seu modo. A menina afinou-se ainda mais, foi ficando delgada. Mais um pouco e sumiria por entre as malas. O garoto apenas murmurava palavras inaudíveis. Ele represava uma torrente de violência que poderia explodir a qualquer momento. Era quem mais precisava da Bahia. O que aconteceria com esse menino solto numa cidade como aquela? Tatisa tinha medo de imaginar. O que quer que fosse, a filha certamente teria força para segurar tudo. Ela sempre teve. Agora mesmo era capaz de vencer uma avalanche de impossibilidades contra seus planos. E fazia tudo com um simples olhar. Apenas com ele ela era capaz de afastar todos os problemas. O marido ausente em suas reuniões voltaria a tempo? Quanto tempo poderia conter o filho explosivo? E aquela menina se adelgaçando através da adolescência, ela chegaria a ser adulta? Tudo parecia desmoronar em sua volta. Ela, no entanto, inventava forças novas a cada novo problema. Viajar. O carnaval. Ela ia se divertir e seguir em frente. Nunca foi tão chegada ao carnaval. Algumas festas em criança, as farras de adolescente, apenas o que era esperado de uma moça. E, agora, aquela viagem. Ela corria como uma corsa que sente cheiro de fogo na floresta. Corria para se salvar. Não do marido que escapava de seus braços, não dos filhos que escapavam de seu útero. Tatisa sabia do que ela fugia e o quanto de força ela usava para fazer isso. Ela sabia que a filha seria capaz de vencer tudo que lhe acontecesse, todas as tragédias. Mesmo uma catástrofe natural ela venceria com os filhos nos braços. Apenas uma força poderia destruí-la. Tatisa sabia. Em meio ao embate, falou mais alto a natureza. Tatisa tocou o braço da filha e disse:
— Eu estou bem, querida. Os exames ainda devem estar chegando. Amanhã, depois. A qualquer momento eles chegarão. Não adianta você se preocupar agora.
A filha pôs uma expressão preocupada no rosto.
— Mamãe, você vai me prometer que vai me ligar assim que os exames chegarem, viu. Aliás, assim que eu me instalar no hotel eu vou ligar pra senhora.
Prometeu. Adiantou-se nas despedidas. Pra que prolongar mais aquela agonia? Já não havia dúvidas demais no ar? O genro não dera notícias. Ele iria ao aeroporto? A filha aceitou aquela gentileza da mãe. Eles começaram os abraços, todo um ritual de separação. Recomendações de ambos os lados. O afeto demonstrado como que na obediência de um protocolo de Estado. Tatisa via a filha partir em sua fuga, quase livre. E então, quando tudo parecia resolvido, a neta deixa escorrer da boca uma voz fina, quase um fiapo.
— Vovó, hoje de manhã não chegou um envelope branco com uma faixa azul e cinza? Não é esse o envelope da Clínica?
A reação da filha foi imediata. Queria ver onde estava, queria ver se eram os exames. Ela já se dispunha a trazer as malas para dentro, quando Tatisa atalhou.
— Não, minha filha, aquele é o envelope da catarata. Eu estava olhando ele esta manhã. Você sabe que eu não me conformo. A ciência tão avançada e eu tendo de esperar isso amadurecer. Não me conformo de ficar cega, mesmo que seja só por um tempo. Uma coisa tão simples. Não entendo.
— Mamãe, antes do fim do ano a senhora vai estar ótima, enxergando tudo.
A filha ria tranqüila, inteiramente compreensiva. Podia ser generosa agora, já estava em pleno voo para a liberdade. Repetiram as despedidas, um resumo rápido.
A porta se fechou e Tatisa finalmente ficou só. Foi sentar-se no sofá. O envelope ardia embaixo do paninho de crochê. Não precisava abri-lo para saber o veredicto. Lá não estaria a data final, apenas a ameaça. Por que lê-lo, então? Lembrou de como ele chegou pela manhã, a empregada empilhando todas as cartas na cômoda. Lembrou de como rondou em volta do móvel a manhã inteira, como se já beirasse a vida pelo lado de fora. O pequeno retângulo branco com uma faixa azul e cinza. Bastaria abri-lo e todos os planos da filha estariam desfeitos. No meio do dia, decidiu que ele deveria desaparecer. Precisava escondê-lo. Aproveitou um momento de distração da família e foi à cômoda. As cartas estavam mexidas. O envelope, displicentemente enfiado embaixo do paninho. Ela compreendeu a mensagem. Ele estava fechado. A filha o empurrara para baixo, como se fosse uma poeira que se deve esconder embaixo de um tapete, como uma porta que não se deve abrir. Quer dar uma espiada, Tatisa? Ela ouviu a voz de Lu ecoando do passado. Aquela porta não foi aberta naquela noite de carnaval, o baile verde esperando. Tatisa jamais abriu aquela porta. Nunca mais. Hoje, apenas, toda uma vida depois, diante do envelope fatal, é que ela teve coragem de encarar o que lhe reservara o destino naquele dia. Sentada no sofá, fechou os olhos embaçados. Ela estava de novo no topo da escada de sua antiga casa. Apenas o barulho do relógio quebrava o silêncio. A porta estava fechada. Tatisa aproximou-se com cautela. Investigou os ruídos de dentro. Não pode distinguir nada. Girou suavemente a maçaneta antiga. Um retângulo negro foi se expandindo. Os olhos de Tatisa, agora, podiam ver tudo. O mundo estava incrivelmente claro. Lá dentro cintilavam pequenas estrelas. Algumas lantejoulas pareciam convidá-la a entrar. Ela se sentiu inexplicavelmente calma. E então, depois de tanto tempo, tantos anos fugindo, ela entrou.
(Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus, na Bahia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (poesia), Prêmio Brasken/Fundação Casa de Jorge Amado – 2001, “3 vestidos e meu corpo nu” (contos) – Editora P55, 2009, “Eros Resoluto” (contos) – Editora P55 e, mais recentemente, “Cada dia sobre a terra” (contos) – EPP Publicações e Publicidade, 2010. Participou das antologias “Concerto lírico a quinze vozes: uma coletânea de novos poetas da Bahia” (Ed. Aboio Livre, 2004), “Os outros poemas de que falei” (Prêmio Banco Capital, 2004) e “Tanta poesia” (Prêmio Banco Capital, 2005), dentre outras)
Criar é estar diante de um espelho e mirar detidamente nossos próprios mistérios. Mesmo o plano da imaginação, gênese de um tudo, por vezes se defronta com aquilo que podemos chamar de angústia da criação. A sensação é a de se estar diante de um marco divisor de tempos: um da inquietação pelo algo a dizer; o outro, da efetiva e consistente materialização do objeto pretendido. O desafio inicial do autor parece ser o de atravessar precipícios sem se deixar intimidar pelas profundezas contornadas. Em boa medida, a obstinação serve de virtude ao criador, sobretudo porque instaura um salutar estado de alerta em torno dos rumos a serem percorridos. E foi pensando em questões como esta que travamos uma conversa com o escritor W. J. Solha, cujo novo rebento literário, intitulado “Marco do Mundo”, pontua precisamente as legiões de desafios que se agigantam diante da missão de um autor. Entrecortando as expressões de agora, está o traço sensível dos desenhos de Felipe Stefani, alvo preciso das reflexões de Hilton Valeriano. Em matéria de poesia, somos conduzidos pelos densos signos de Edson Bueno de Camargo, Elizabeth Hazin, Ronaldo Cagiano, Mar Becker e Wender Montenegro. No quadro Jogo de Cena, o ator Rafael Morais mergulha com propriedade no fascinante universo dos palhaços. O escritor Geraldo Lima nos convida à leitura do novo livro de minicontos de Anderson Fonseca. As linhas de Marcus Vinícius Rodrigues, Homero Gomes e Priscila Miraz tecem as tramas contistas dos Dedos de Prosa. O cinema argentino é, novamente, tema da devoção cinéfila de Larissa Mendes. No Gramofone, reproduzimos em alto e bom som alguns percursos sobre o primeiro disco solo de Gui Amabis. Através das trilhas da 67ª Leva, uma nova lavra de publicações se anuncia. Evoé, caro leitor!
Eu não sabia o que fazer e abri a blusa
mais tarde eu ia dizer foi sem pensar
ele me achou desnorteada, confusa
como acharia qualquer mulher que abre a blusa
e faz tudo que fiz só pra agradar.
Bruna Lombardi
Flash!
Qual a pose que ficou? Eu de olhos lânguidos pra ele? Eu de taça de champagne na mão? Podia ser whisky? Essa dor de cabeça é whisky, tenho certeza. Mas quando foi que eu desci do champagne protocolar para o porre? Quem mandou beber em público, sua alcoólatra, no meio de um monte de jornalistas? E olha que eles foram convidados. Nós não somos nada sem a imprensa, querida. Até vocês decidirem nos destruir, eu devia ter completado. Amanhã vai sair a pior foto no jornal. Nada da minha arte, só a fofoca. Você está namorando alguém? Eu ainda estou casada, querida. Ele está filmando no Xingu, um filme ma-ra-vi-lho-so, co-produção com a França, querida.
Flash!
Eu não vou te contar, querida, que acordei com seu flash nos meus olhos, quase cega, querida. Você não vai saber que eu não dormi em casa. Tá! Eu ainda não sei bem onde estou e nem quem é esse cara deitado na cama. Você ia gostar de me ver agora, de quatro, debaixo da cama, à caça de uma calcinha. Eu estava com uma, tenho certeza. A manchete podia ser assim: uma noite vadia com Bruna Bianchi. Muito literário pra você, não é? Você ia preferir algo mais direto nas bancas de revista: flagra! Bruna Bianchi pula a cerca. A foto de meu traseiro nu, mal coberto por esta camisa de homem. Não, querida. Esse gostinho eu não lhe dou. Pode falar mal de meus quadros, pode dizer que sou péssima atriz. Você não é crítica de arte mesmo. E novelas? Aquilo não é arte, é corrida de obstáculos. Como você explica sua arte? Você perguntou. Como você explica sua ignorância, meu bem? Eu não virei artista plástica do nada, benzinho. Você não sabe que eu fazia Belas Artes, quando aquele fotógrafo me descobriu? O dinheiro era tão bom, entrei no mundo da moda. As novelas? Uma coisa leva à outra. Não! Isso não é meu eu interior. Minha arte pretende outra coisa. Nem pense que você vai fotografar minha alma. Contente-se com meu corpo. E não, eu não estou fazendo isso para aparecer. Se eu quisesse aparecer, seria melhor ter um câncer. Tão na moda, hoje em dia. O sucesso seria garantido. Atriz vence luta contra a doença. Eu, belíssima e orgulhosa com minha cabeça raspada, uma Nefertite vitoriosa. Tenho certeza que você ia escrever algo assim: o sofrimento deixou Bruna Bianchi mais próxima de sua personagem. Ela consegue viver a dor da heroína. Que dor? Pura técnica. Cristal chinês. As lágrimas falsas.
Flash!
Os quadros? Eu só pinto o que vejo. Por isso os cães de bocas ávidas, de olhos arregalados, brilhantes como o sol; os homens abobalhados, os mesmos olhos acesos. E os quadros só com olhos, dezenas de olhos, objetivas de câmeras, binóculos, isso não lhe lembra nada? Você ainda não se identificou, meu amor? Não entendeu nada, hein? Bote lá na sua manchete: Atriz impressiona em sua primeira exposição. Não foi isso que a TV mandou dizer? Enquanto eu estiver no ar, tenho imunidade diplomática. A TV não vai deixar nada me acontecer. Todos nós sabemos quanto vale o meu rosto. E a novela está nos seus momentos decisivos, audiência absoluta. Eu tão comportada. Já faz um tempo que não dou escândalo. Estou limpa, querida. Sem calcinha, na casa de um estranho, é verdade, mas você não tem provas. Vai sair uma foto dele me abraçando? O nome, a profissão. Modelo? Olhando daqui, pode ser. Tem estampa. Minha avó diria que ele tem apresentação, moço bonito. E tem tamanho, Vó. É magro. Deve ser mesmo modelo. Amanhã vai estar famoso. Eu sei, Vó, eu deveria me preservar mais. Vou tentar da próxima vez. Agora só me preocupa a calcinha que não acho. Isso eu aprendi, Vovó. Uma mulher não deve deixar vestígios. São nossas intimidades, minha neta. Mas como, Vozinha? Eu sou uma fábrica de pistas. Meu cabelo cai por onde passo. E essa tintura é única. Outro dia achei um fio na calcinha. Imagina quantos homens que apenas me cumprimentaram foram flagrados com cabelos meus na cueca. Esses fios são assim. Entram em tudo. Também sempre se solta um vidrilho do vestido. O batom, então? E os cheiros. Não dá pra recolher tudo isso. Pelo menos a calcinha! Eu sei,Vovó, eu sei. E se ele pegou de souvenir? Afinal, é uma calcinha de Bruna Bianchi. Um troféu! Ele tem de mostrar pros amigos. Não, não parece que seja isso. Eu devo ter perdido. A cueca dele está aqui, o nome da grife no cós. Ei, dela eu lembro saindo da calça, toda branquinha, embaixo da camisa transparente, a barriga absurdamente malhada, a virilha quase à mostra. Imprensa amada, Vovó querida, Bruna Bianchi é uma vadia. Está explicada a perdição em que me meti. Aquela saliência que começa na cintura e vai até lá embaixo, os pêlos começando discretamente, foi por ali, foi por ali … Veio tudo como um flash. Eu gostaria de me justificar, sabe? Foi uma tentação audiovisual, como nos melhores métodos de aprender línguas. Tinha aquele corpo atrás da transparência e uma voz dizendo algo como puxa, é como se você colocasse um espelho na frente das pessoas que lhe rodeiam, os fãs, os jornalistas. Este é o mundo que você vê. Viu, Ricardo, eu lhe traí com alguém que entende minha arte, ao contrário de você. Tá, isso que ele disse tava no release que mandei pra imprensa, mas eu estava bêbada. E você? Você não pareceu capaz de tirar uma folga deste filme idiota para ser o par de sua esposa. Já está há três meses neste fim de mundo. Ciúmes das índias, eu?. Elas não me preocupam com seus peitos caídos, suas barrigas inchadas. Acho que nem se interessam por um branquelo como você. O que me preocupa são essas atrizinhas de quinta, fazendo papel de índias, os seios duros de silicone, lhe chamando para um mergulho no rio. Não me volte com doenças, Ricardo. Se voltar, que seja malária. Vou me deliciar com as febres de fim de tarde. Ah! Meu amor, o que você me faz fazer? Lembra quando nos conhecemos, eu já estava muito bêbada. Você disse alguma coisa que não entendi, mas terminou me chamando de docinho. Eu não sabia o que responder, nem sabia a pergunta, mas aquele docinho sussurrado no ouvido .. eu não sabia o que fazer e abri a blusa. Você deve ter me achado uma louca. Depois eu ia dizer: foi sem pensar. Ia dizer que foi você quem me tirou a razão. Não foi nada disso. Eu apenas não sabia o que fazer. E uma mulher, assim perdida, assim sozinha numa noite mais triste que as outras, essa mulher, só porque não entendeu uma pergunta, é capaz de abrir a blusa, mostrar-se desafiadora. Foi só isso, Ricardo. Toda minha vida em suas mãos só porque você disse docinho no final de uma pergunta. Não sei se você queria ir ao banheiro ou se queria me pedir um beijo. Eu apenas abri a blusa e você ficou maravilhado com minha ousadia. Um botão pode decidir nossas vidas.
E agora, aqui estou eu neste chão de um apartamento estranho. Veja, vozinha, amigos jornalistas, registrem este momento. Podem fotografar. Eu não estou lá na melhor forma. Este camisão não me valoriza, estou com a maquiagem borrada, mas gostaria de aproveitar a oportunidade para falar de meu próximo projeto de teatro, um recital: Brutalmente Bruna. Eu completamente sem glamour, assim como estou agora. Sempre funciona. Se a ex-modelo se enfeia para o papel, já sobe de patamar, vira atriz. É o pedágio. Vou virar atriz, querida, e você vai ter de deixar suas ironias de lado nessa sua colunazinha de fofocas. Agora só vou aceitar críticas da Bárbara Heliodora, fofa. E eu também vou fazer o cenário e a luz. Veja essa fresta de sol sobre meus seios. Se eu me inclino pra frente, a luz ilumina meu rosto. Já dá uma chamadinha na TV, não é Ricardo. Sei, Vó. Pernas fechadas. Tenho de lembrar sempre de fechar as pernas na televisão. Mas eu vou usar calças. Uma mulher sempre está de pernas fechadas, minha neta, esteja usando o que for. Mesmo sem calcinhas, bêbada, usando só uma camisa de homem? Eu devia levantar e ir ao banheiro recompor este rosto. O que fazer sem maquiagem na bolsa? Só um batom. Água e sabão. E se o batom é rosa, pode ser o blush e a sombra. Uma mulher nunca deve estar inteiramente de cara limpa, principalmente nos momentos mais dramáticos. Esse prédio deve ter porteiro que certamente me conhece. Os porteiros conhecem todo mundo que é famoso. As revistas têm sempre de passar por eles. E quando você está na novela … Tenho de descer com toda a pose, roubar estes óculos do rapaz, esse dinheiro para o táxi. Melhor deixar um bilhete dizendo que peguei emprestado e vou devolver. Não. Nada de vestígios, não é Vó? Ele que pense o que quiser. Depois mando um pacote anônimo devolvendo tudo. Desfaz-se a impressão e ele vai ter certeza de que não é pra me procurar. Vou levar este casaco pra disfarçar o brilho do vestido. Estou uma gatuna. Se eu fosse uma princesa europeia, ia ter um batalhão de assessores pra esconder meus deslizes. Um telefonema e o serviço secreto invadiria o apartamento, depois de minha discreta saída, e sumiria com todos os vestígios. Se o rapaz não colaborasse, jamais trabalharia neste país. Um caso de segurança nacional. Mas eu só tenho minha Vozinha pra zelar por mim e um marido ausente. Ricardo não está nem aí. Ele ia adorar me pegar no pulo. É muito difícil para uma mulher não ser uma princesa. A calcinha? Vejamos uma resposta. Voz natural, enfado: Nossa, ela marcava muito através do vestido. Tirei e joguei no banheiro da galeria. Lembra que Carmem Miranda fez isso uma vez? Eu não podia imaginar que existissem pessoas tão doentes como esse rapaz. Roubar a calcinha de uma atriz como eu. Certamente um fã, mas um fã muito doente. E eles leiloam de tudo nessa internet. Como as pessoas são solitárias hoje em dia. Esse rapaz certamente só quer chamar atenção. Dada minha última entrevista, passo os olhos no apartamento. Simpático até. Desço pela escada os dezoito andares. Elevadores são perigosíssimos. Muita intimidade. É quase promíscuo. Lá pelo nono ouço uma ópera. Alguém ouve ópera de manhã cedo. Ainda bem que não moro aqui. Ópera? Eu quero a Gal aos berros, você me entende. A Gal rasgando a garganta. Saio sem olhar o porteiro na cara e caminho para uma rua transversal. Bairro agradável, nem estou longe do meu. Desvio do jornaleiro que abre sua banca, a rua deserta. Meus saltos são o único barulho nas pedras portuguesas. Não é tão fácil como estar numa passarela, mas coloco um pé em frente ao outro, ombros para trás, mãos nos bolsos do paletó, fixo o olhar num fotógrafo imaginário no horizonte e vou.
Flash!
(Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (poesia), Prêmio Brasken/Fundação Casa de Jorge Amado – 2001, “3 vestidos e meu corpo nu” (contos) – Editora P55, 2009, “Eros Resoluto” (contos) – Editora P55 e, mais recentemente, “Cada dia sobre a terra” (contos) – EPP Publicações e Publicidade, 2010. Participou das antologias “Concerto lírico a quinze vozes: uma coletânea de novos poetas da Bahia” (Ed. Aboio Livre, 2004), “Os outros poemas de que falei” (Prêmio Banco Capital, 2004) e “Tanta poesia” (Prêmio Banco Capital, 2005), dentre outras)