(Ditado por um cavaleiro à sua amada distraída em despetalar uma rosa)
A rosa, palpitando em meus dentes, ornasse
a cortina mais densa de brasa em meus beijos!
Mas, escrínio e mudez, tu te envolves em seda,
enquanto, com a cravelha, procuro o cadeado.
Imagino em minha boca o sabor mais desperto,
engrossando minha febre, num alcance de enlevo
– melhor é deslembrar esse enlace gozoso,
e bebê-lo no dia, a pascer horizontes.
Te imagino no leito, sonho ou devaneio,
eu, besta grave e lenta, libando teu peito,
para te oferecer cascatas de deleite.
Mas que importa! Rasguei, em incalculáveis horas,
com o desejo em fervor de adentrar a tua cona,
a concha de tua mão, roçando a língua morna.
***
O NOVO TORSO DE APOLO
Eu só vi tua cabeça e a percebi inteira.
Quando as pupilas amadureciam, eu vi
teu torso a brilhar mais do que uma tocha acesa,
na qual o teu olhar, de si mesmo saído
detém-se e reverbera. Ou então não poderia
teu mamilo cegar-me, e nem a doce curva
dos rins teria mãos de abrir o meu sorriso
até este teu centro, donde o sexo uiva.
Diversa vejo a carne densa e inaugurada
sob a curva de seda – nos ombros, a imagem.
Meu ser não fremiria, na pele selvagem,
e nem te deixarias além de suas raias
qual astro que se mira – nele não há quina
que não me toque, lenta, e diga: dá-me a vida!
***
SONETO DA PREMONIÇÃO
A ciência de saber que a vida segue
não diminui a dor de te perder.
Foste tu que bateste à minha porta,
abri-a par a par, e sem temer.
Entraste deslumbrado, eu, generosa –
vivera mais que tu, sempre a me ter,
doesse a corda louca e uivasse a rosa,
eu me esmerava em ser como mais ser.
Sei que um dia essa febre vai passar,
e vou lavar meu corpo com cuidado,
apagando o roteiro do desejo.
Espera e agora escuta: há um alarme no ar.
Em nossa porta, foi estilhaçado
o cadeado azul de nosso beijo.
***
APOSTA À DERIVA
Perdi. Perdi o jogo. Esvai-se a vida,
em si, presa paixão de intenso gesto.
Jamais pensara ser, cada partida,
aposta já perdida, sem ciência.
Não pressentira, então, o desabrigo
de cada dia, luto tão absorto,
rude bocejo a esfumaçar o rito
de prosseguir, sem pátria no alvoroço.
Estanca a desistência da miragem –
que se faz e refaz, futura imagem
do desarrimo, embora tão presente.
Tarja de luz, suspensa a esmo, aclara
espectro de aura torva, que deambula
ao susto vesgo de carta marcada.
***
ORFEU QUÂNTICO
Fragmentos de corpo destroçado
espalham-se pelo tempo.
a história infinita,
ali inscrita.
O difícil é escrever essa história,
com o corpo bípede profanador
em sua vaidade assassina.
***
QUINTA-FEIRA
Corpo meu tão gentil, minha alma ardia,
viajando em teu mastro – n’ alma o vejo,
e mantenho minha flama: é meu desejo,
conservar a tua luz lume em meus dias.
Ao mirar o teu sono, se esbraseiam,
o meu corpo e a minh’ alma, e é tão sobeja
a impaciência a singrar por teu beijo
em naves de paixão – que se encandeia,
presa, minha vida – em uma só cadeia!
Ditosa aquela sina, que se atreve
a apagar ardentias e tormentos
em momentos que a tinta não transcreve!
Possuem-me, Senhor, teus elementos,
enquanto gelo em fogo e fuljo em neve.
***
VISITA
Apenas isto: andar, buscando a vida.
Sem carregar consigo nenhum tempo.
No céu, é tarde. A voz não pressentida
emite um grito vão, irmão do vento.
Andar assim, o corpo numa lágrima,
indagando um destino de demência,
a contemplar estrelas: só, em pânico,
e este silêncio frio, e esse silêncio…
Viste a louca mudez da estátua fria?
Já o dia se cumpria, e o abismo abria-se,
nos meus olhos vendados e vazios.
Talvez a ida seja breve e pura
ao suspiro letal em hora túrbida,
mas visito a paisagem cada dia.
Maria da Conceição Paranhos nasceu em Salvador e escreve desde os 4 anos de idade. Formou-se em Letras pela Universidade Federal da Bahia, onde também fez mestrado. Concluiu seu doutorado na Universidade da Califórnia, Berkeley, em Literatura Comparada, e seu Pós-doc. Na Universidade de Viena, em Estudos de tradução. Tem vários livros publicados, entre os quais “Dr. Augusto chegou” (contos, relatos e sonhos), “Chão circular”, “Os eternos tormentos, “As esporas do tempo”, “Minha terra e outros poemas”, “Delírio do ver” (poesia). Recentemente, lançou “Poemas da Rosa” (Ed. Mondrongo).
Realizações e projeções fazem parte de qualquer trajetória. Não é diferente com o projeto levado a cabo pela Diversos Afins. Hoje, perfazer a marca de 80 Levas é uma conquista que se deve a inúmeros fatores. De todos eles, talvez a persistência, travestida em teimosia, seja um atributo mais adequado. São 7 anos de uma jornada trilhada especialmente pela reunião de desejos e expectativas harmonizadas em torno de um propósito: descobrir e propagar vozes. Durante esse tempo, chegamos à conclusão de que tudo aponta para um exercício de aprendizado constante. Certezas são questionadas e outras visões de mundo se apresentam. Atestar a qualidade desse ou daquele autor, tanto no terreno das palavras quanto no das imagens, não vem necessariamente de pontos de vista cristalizados. Sem deixar de lado os aspectos que robustecem, de fato, uma determinada obra, tentamos privilegiar o modo como ela pode ser interessante aos olhos dos leitores. É algo complexo de conduzir, mas a experiência tem demonstrado que temos conseguido aproximações importantes. Para quem edita, é recompensador, vez ou outra, ser surpreendido por alternativas diferenciadas de criação. O universo de colaboradores que estão dispersos por todas as edições da revista é nosso maior legado. Sem eles, não seria possível falar em continuidade. A Leva de agora é marcada pela reinvenção de territórios trazida pelos olhos do fotógrafo Peterson Azevedo. Em matéria de poesia, juntam-se a nós as expressões de Neuzamaria Kerner, Leonardo B., Ana Peluso, Edson Bueno de Camargo e Maria da Conceição Paranhos. Nossa sabatinada da vez, a poeta, atriz e professora Rita Santana, tem muito a dizer de suas andanças literárias e da sua lúcida condição de mulher. Os contos de Jorge Mendes, Márcia Denser e José Aloise Bahia chacoalham nossa zona de conforto. Em suas pesquisas musicais, Larissa Mendes descobre o disco do cantor e compositor Baia. O escritor Marcos Pasche nos convida a conhecer o novo livro do poeta cearense Assis Lima. Em meio ao panorama teatral de Brasília, Geraldo Lima destaca a trajetória do Grupo Cena. Noutro ponto, uma leitura para o aclamado “O Som ao redor”, filme de Kleber Mendonça Filho. Como todas as outras, essa edição comemorativa de aniversário celebra o desejo de se prolongar caminhos. É com muita alegria e disposição que agradecemos a todos, leitores e colaboradores, por nos ajudarem a construir essa história. Sejam sempre bem-vindos!
¡Ay, qué larga es esta vida! ¡Qué duros estos destierros, esta cárcel, estos hierros en que el alma está metida! Sólo esperar la salida me causa dolor tan fiero, que muero porque no muero.
“Vivo sin vivir en mí”. Santa Tereza D’Ávila.
É o planger desse som e o breviário,
odor de incenso percorrendo o ar:
joelhos macerados no calvário
e a visão dos mistérios no olhar.
Que segredo se esconde entre essas linhas?
Falo? Quem ouve? Para quem falar?
Ó Deus, se escutais, por que tão longe?
Por que estais ocluso nesse altar?
Procuro Vossa face na cidade,
Vossa voz nesse canto (ouço cantores),
mas outros, que não eu, têm santidade,
isentos de pecados – e eu, Senhor?
E nós? De que matéria somos feitos,
nosso corpo é errado, esse errador?
O que fazer do corpo, então, Senhor,
tão dúbio na vertigem e desespero?
Mas os santos, tão puros, que segredos?
Pureza é que convive com Amor –
então, Senhor, um corpo para quê,
casa de tanto erro e tanta dor?
O amor, rito de vestes e metais,
entrevisto ao sopé desses altares,
na bela e poderosa liturgia,
nos proíbe do Santo e nos exila!
Nosso espírito se abre à voz dos monges,
e nós, neste desterro, neste adro.
O canto que sabemos vem do corpo,
mas, esta alma de carne e dor e sangue?
E tangem os sinos e sinos só tangem,
e ver, então, que nada nos desdoura,
pois tudo é Cristo em corpo, amen, amen,
é o Corpo de Jesus em nosso corpo.
…que estamos a naufragar,
que soçobra nossa nave
nas profundezas do mar!
Todos silentes, todos tão ordeiros,
dentro das igrejas, e esta capela
e esta roupagem então? É esta, a que tenho,
joelhos tenros postados no lenho,
expiar. Mas o quê? Que mal fizemos?
Nascemos já marcados para o nada:
nada sabemos, nada consentimos –
ébrios de Deus, mas prestes a pecar.
Sangue de Cristo, vinde e revertei-nos
a Vós. Sem Vossa mão, não há salvar-se
do pecado insensato – não saber
das dores da Paixão de Vosso amar.
Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dominus Deus Sabaoth. Pleni sunt caeli et terra gloria tua. Hosanna in excelsis. Benedictus qui venit in nomine Domini. Hosanna in excelsis.
***
2. REMEMORARI
¡O lámparas de fuego, en cuyos resplandores las profundas cabernas del sentido que estava obscuro y ciego calor y luz dan junto a su querido!
San Juan de la Cruz.
Da rua vinham vozes e segredos,
as aulas matutinas, mas o medo –
as grades e essas ruas, deslumbrando,
a visão de vitrines – quê comprar?
Passam freiras no pátio dos canteiros
(os da infância, tão bons nos seus sossegos,
mas, estes, de formosos e esmerados,
confrangem a alma, tão desacordada).
As mãos cheias de terra, já me lembro
daquele cheiro denso e do vapor
das horas tênues no fragor do tempo,
ah, se me lembro, e quanto é o pensamento
da terra, terra, terra – tu es pó,
e ao pó reverterás em dia a vir,
tão próximo, a pulsar nesta carótida –
e estes ventos lunares, ventanias,
as mortes antevistas nas gravuras
nas paredes da casa, nas fissuras
do tempo consumido, ah, ainda ontem
olhávamos os rostos das pessoas!
Sem despedidas partiam a mirar-nos
perenes, altas, mãos de tochas frias,
e das ruas revinham vozes fartas:
manhã a pino, ouviam-se cantigas.
A morte assim não se assemelha à outra,
na Paixão vislumbrada, luz de fogo,
porque o Filho do Homem abriu a porta,
a porta estreita e a dor por nos salvar.
Soluçam e gemem no verão de tons
flavos no amanhecer de resplendores
e o tempo trota tonto em seu tropel
de sibilos e sustos, seus ginetes.
Visitando os filósofos, tão cedo,
ingressando nos templos, a buscar
os nexos em suas rimas, rumas, remas
de sons provocativos, solfejar.
Os ouvidos se apuram, e o verbo ausente,
dos dicionários. Uns mínimos verbetes
permitiriam o humano soletrar
e sempre mais e mais, sempre cantar
aos ouvidos cerrados dos incrédulos,
a tudo o que se ouvisse e se quisesse
em folha de papel, essa hora branca
(soluça essa memória, agora estanca).
Ouviu-se um som fulgente, e ledos versos
que se escreviam e iam, sem parar,
beleza movediça – levantando
dilatados espaços – nas procelas.
Desejo de partir, entrar na esfera
de um mapa-múndi ileso. Os oceanos
plenos de água mortal, gelo e punhal
atravessando o ser que freme e geme.
Em momentos assim, por que poesia?
Rumor aceso, sempre, recorrente –
esta lâmpada, em fogo, alumiando
as profundas cavernas do sentido.
Anima mea, e esta voz em surtos
desde a primeira ação – tirar do caos
um outro mundo, e deste, mais e mais,
descortinando vidas, tão ocultas,
com o poder que me destes de plasmar
com estes barros e lamas esquecidos,
escondidos, mas fartos no pulsar
de uma artéria recôndita. Ó vida,
que estás a nos chamar, doces esquinas
de onde se vê o coração sangrando
de um ser imaculado, a nos pedir
para darmos à luz coros de anjos.
A limpeza dos dias, os mais puros,
qualquer que seja a força desses luas,
que podem nos lançar em noite obscura,
pedra e limo na boca de recursos
muito cedo entrevistos, mas atados
a esta escassez humana. Ah, que voos
privados de umas asas, em alar-se
para abrigo ou canção, um nosso porto,
que estava obscuro e cego o meu farol.
E os estranhos primores descerraram-se,
no calor e na luz dos meus amores
a face rutilante como sol.
Mas existem as âncoras suicidas
e mergulho pesado para o orco,
ralentando o fadário de uma vida
sem tempo e espaço – é hibernal tesouro.
Ó barca, vida desmemoriada,
ilhas do Amor, além do navegar!
***
3. AS VOZES
Amago de la humana arquitectura, ejemplo de la vana gentileza, en cuyo ser unió naturaleza la cuna alegre y triste sepultura.
Sor Juana Inés de la Cruz
Cidade, teu recorte sem postais,
repele os estrangeiros da baía
de fulgores azuis – e nossos ais,
e a serpente nos pés, Santa Maria!
A emoção no rosto, a criatura mira:
ali contempla os céus, o seu segredo,
brancas mãos de aleluias invadidas,
e palavras na boca, redizendo.
Que já doem os caninos, a tez sangra
neste ranger tenaz, a ouvir as vozes,
e o ditado abismado nunca estanca
nos ouvidos antigos dos consortes
na dor, na dor da luz, e é só silêncio,
e solidão, silêncio, quem me ouve?
Os sóis se esparramam nesta ausência.
nesta falta de haveres, só os sons
são destino e guarida, desertores,
se se os deixa sem boca, sem contorno.
Ah, que quero outros mares, mais azuis,
que a traição se faz além da Cruz –
na qual o vulto imenso se abateu
em Gólgota. Te vejo, e ali estou
ao teu lado direito, aonde vou
após vasto mergulho – mar Egeu,
além destas iradas geografias,
num tempo de titãs, aonde Atlântida
há muito foi tragada. Geofagia
de terracota ingente no meu cântaro,
todavia partido. E há viagens
no tempo amarroadas e sem espaço,
de onde já descortino essas imagens
de mártires e heróis, daqueles santos.
Oh, miragem suprema, estar ali,
despedida do corpo penitente,
tão castigado e só e tão doente,
fitando largos céus vistos daqui,
dessa pequena greta de angustura.
***
4. AS AULAS
Ultima hominis felicitas est in contemplatione veritatis. Summa Contra Gentiles, III, 37.
Santo Tomás de Aquino
– Por que me procuráveis, pai e mãe?
O meu destino, então, não pressentistes?
Não pertenço a família, terra ou raça,
concerne ao Pai a estrada do meu fado.
– Mas nos afadigamos e choramos,
ó Filho que sois nosso aqui na terra,
não será crueldade nos deixares
pranteando e buscando nessa esfera
em que nos foi legado o dom de ter-Vos
no calor de um abrigo, nosso lar,
seu pai, na sua oficina, a abastecer-nos,
trocando dia e noite em Vosso amar?
Mas que amor é esse amor, que só retira
o fruto de meu ventre, a mim entregado
pelo Deus de Moisés e de Davi,
nossa casa em palácio transformada,
com o filho de Javé? Assim soubemos,
e assim os nossos passos Vos seguiram..
O Arcanjo me exortou fosse serena
em laborar na fé dos já ungidos
por palavra de nosso Pai eterno.
Ó filho meu, tamanho que sejais,
sede pequeno. Aonde, a humildade
que nos disseste ser das propriedades
gratas a Vós, a Vós, Filho de Deus?
– Reflete, amada mãe, pois não sabeis
das coisas de que devo me ocupar?
Por que me procuravas? Vai-se o dia,
e há uma Cruz já talhada para mim.
Naquele alto aonde irei morrer
padecerei na dor em morte humana,
sê forte, Mãe, meu espaço é o infinito.
***
É a pregação da Lei, da lei do Amor,
proclamada no espaço em que vivemos.
Três dias se passaram e os doutores,
ali refletem, atônitos, e só ouvem
o ensinamento sábio do Menino.
Eis o modelo grato, esse tesouro,
e o Senhor, ressurreto, neste altar –
feito carne o seu verbo, e este verso.
Contemplar a verdade é ser feliz,
mesmo se a vida é acre no conforto
num mundo sagitário e que não diz
dos olhos que se voltam para o outro.
Antevê-se, na fé, a recompensa
das horas amargadas em exíguo tempo.
A visão do antevisto banha os dias
em dissabor do sal dessa alegria.
(Maria da Conceição Paranhos Pedreira Brandão nasceu em Salvador, Bahia. Poeta com vários livros publicados. Exercita outros gêneros, nos quais também tem livros publicados (ficção, crítica de literatura e outras linguagens, teatro, vídeo, tradução, outros). Doutorada em Literatura Comparada pela Universidade da Califórnia, Berkeley. Professora aposentada da Universidade Federal da Bahia. Seu mais recente livro publicado de poesia é “Delírio do Ver” (Rio; Salvador: Imago Editora, 2002). A maioria de sua obra é inédita (nove livros prontos e três em elaboração). Promotora cultural, fundou a Divisão de Produção Literária da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Os poemas aqui publicados fazem parte do, ainda inédito, “Poemas Místicos”)