Categorias
116ª Leva - 01/2017 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Mariel Reis

Foto: Antonio Paim

Lego

Para minha mãe

1.

A primeira vez na cozinha comendo biscoito enquanto a minha mãe preparava o jantar não havia nada de diferente de outras cozinhas ou de outras mães que preparam o jantar enquanto o filho come biscoitos, sentado à mesa, na cozinha. A cozinha tinha armários, potes de conserva, fogão, geladeira, mesa e quatro cadeiras. Não tinha nada de diferente de uma cozinha em que se senta para lanchar, conversar, almoçar, cear e jantar como todas as demais cozinhas em todo o mundo.

A minha mãe não parecia diferente de qualquer outra mãe que prepara o jantar para a família: o avental, o cabelo com uma rede, os sapatos de solado rasteiro, os olhos atentos às instruções dos manuais de receita, o fogão aceso com as panelas brilhantes, a pia com louça para ser lavada, o santinho no caramanchão da parede sobre a porta, o rádio tagarelando incompreensivelmente e eu sentado, comendo biscoito na lata de alumínio amassada, herdada de minha avó como todas as outras latas herdadas de antepassados por todas as mães de todas as casas de minha rua.

As pastilhas das paredes brilhantes como pequenos sóis despontavam por toda a cozinha, encimadas por uma listra azul que percorria todo o perímetro; o pequeno pinguim com fraque e o paliteiro e a cesta de frutas, o pequeno capacho para limpar os pés para quando se entra pela área de serviço, com os sapatos enlameados ou com detritos grudados em suas solas. Como toda outra casa deve ter igualzinha, sem tirar nem por, só que esta mais especial, por se tratar de minha mãe na cozinha, enquanto prepara o jantar para a família como todas as outras mães preparavam, a essa mesma hora, o jantar.

Para os maridos famintos vindos do trabalho, de pasta na mão, com o semblante grave e o jornal enrolado embaixo do braço, como o meu pai chegava e acredito que todos os pais chegavam com a mesma gravidade em seus lares, sentavam-se nas poltronas, ligavam a tevê, despindo o terno, a gravata, os sapatos, apoiando os pés na mesinha de centro, beijando os filhos, conversando amenidades como fazia o meu pai com a minha mãe e comigo, e todos os pais e mães comportavam-se da mesma maneira, porque era o rito, nada poderia ser alterado e se fosse alterado seria afetado o equilíbrio de toda aquela paisagem – a que meus olhos estavam acostumados – e tudo ruiria, o que seria uma temeridade, uma infelicidade e ninguém quer ser infeliz.

E em todas as casas todos tinham um modo de chamar pela felicidade e em nossa casa tínhamos o nosso que não deveria ser especial porque todas as outras residências deveriam ter método semelhante, e ser feliz é muito melhor do que ser triste. E ser triste é algo que todos queriam esquecer, porque não prestava para coisa alguma. Aliás, os meus pais acham que existe muita coisa triste, enumerá-las é um meio de se tornar triste também e as condenam ao silêncio como todas as outras famílias que não pronunciavam palavra sobre a tristeza. A minha mãe era bonita como qualquer outra mãe bonita e me amava como deve amar uma mãe. Ela me dizia que nem sempre as mães amam e me mostrava no jornal a notícia de uma mãe que havia matado o próprio filho. Era uma exceção, pois toda mãe amava ao seu filho e o filho amava a sua mãe como em toda a família, especialmente aquelas de propaganda de televisão.

Toda a família quer ser como a família da televisão. É assim que deve ser toda a família e ninguém duvidava de que aquele modelo era verdadeiro, porque se não fosse não estaria na televisão e aquela família não seria uma família, a mãe não seria a mãe e o pai tampouco ele seria. Eu comia biscoito sentado à mesa, esforçando-me em ser um garoto como o daquela família que era igual a todas as outras da minha rua, que era uma rua igual a todas as outras do mundo.

2.

A minha casa era igual a todas as outras e os meus colegas todos eram muito parecidos. As casas todas tinham dois andares, três quartos, sala, cozinha, banheiro, churrasqueira e piscina. Todas as casas tinham o mesmo gabarito. Os meus amigos todos se pareciam tão profundamente que passariam por irmãos, e se errassem de casa, uma noite, os pais não ficariam preocupados ou perplexos.

Os pais vestiam-se iguais para ir ao trabalho, tomavam o mesmo ônibus e voltavam no mesmo transporte, sempre a mesma hora, sem atraso, sem imprevistos, sem sobressaltos, seja em que parte da cidade trabalhassem. Talvez nem trabalhassem, talvez o ônibus ficasse dando voltas no quarteirão enquanto estávamos na escola. Talvez nossas mães soubessem de tudo isso e nos escondessem para a nossa felicidade. Porque não há nada mais importante do que a felicidade. Todas as portas tinham pregada a tabuleta com os dizeres que não há nada mais importante que a felicidade. Em todos os canteiros havia homenzinhos verdes sorridentes, cães felizes, gatos simpáticos, varredores satisfeitos, lixeiros contentes.

Não havia discórdia alguma ou maledicência. Todos pactuavam com o lema não há nada melhor que a felicidade. A minha família era partidária extremista da palavra de ordem. Bastava acordar um dia com uma leve indisposição orgânica para ela ser considerada uma ofensa ao manual de viver bem daquele lugar. Um leve mau humor situava o indivíduo à margem dos eventos, quando não era encaminhado a uma junta, que decidiria como restaurar a boa vontade, o arejamento e a abertura de espírito necessária à convivência democrática FELIZ. Às vezes tudo isso soava monótono e a única fuga era a prática hedonista dos esportes: o único momento em que o silêncio era respeitado não pelo que significava de reflexão, interiorização ou balanço interior, nada disso.

O silêncio, ali, era um apetrecho da atividade narcísica: quando os olhos percorriam regozijados os músculos torneados, as curvas boleadas como o aço e não valia por si mesmo, por seu valor intrínseco.  Eu passava a maior parte do tempo na academia para ficar em silêncio e eliminar barriga. Eu comia muitos biscoitos. Tudo isso seria normal se a minha vida não fosse afetada de modo irreversível naquele dia de muitos outros dias em que se pratica as mesmas coisas de todas as vezes, sem alteração alguma do cotidiano e que me tornaria marcado para sempre dali em diante em minha comunidade em que nada fugia ao comum.

Eu voltava da academia e me sentava à mesa da cozinha em minha casa para comer biscoitos. A trivialidade do gesto já me escapava por repeti-lo inúmeras vezes, que despido de importância, se me substituíssem o biscoito ou se acrescentassem escorpiões à lata ou que me sugestionassem comer anchovas tudo daria na mesma coisa. E talvez fosse melhor que uma das coisas descritas ocupasse o lugar do que me aconteceu, porque o extraordinário não era bem-vindo e se o extraordinário viesse seguido de incerteza, bem menos. E se fosse seguido de infelicidade, era o caos.

O caos, meu pai dizia, é um menino segurando um balão de ar vermelho em uma chuva de cometas. O caos, dizia a minha mãe, era um exército tomar a sua cozinha e acampar sob a mesa. O caos, descobriria, era o mundo escorrer entre os meus dedos e eu não saber montá-lo. Mas quem acreditaria que o mundo se desfaria?

3.

Cheguei em casa e meu pai não estava sentado na poltrona para assistir ao noticiário. Estava no banho. Minha mãe, estática na pia da cozinha, limpava peixe. Quando fui abraçá-la esbarrei em seu avental que se desfez em milhões de pequenas peças espalhadas por todo o chão. Caía em cascata. Minha mãe parecia não ter notado o avental desfeito. Milhões de pequenas peças escorriam da cintura e do enlace da vestimenta. Uma delas saltou para pia, intrometendo-se na carne limpa do peixe. Minha mãe suspendeu a tarefa para retirá-la com cuidado – como a uma impureza. Quando me desculpei, ela, com o olhar bondoso, parecia dizer não foi nada.

Meu pai saiu do banho, enrolado em uma tolha.  Ao olhar para os seus pés, percebi: estava quadriculado. Sentia fortes dores na sola e passou a massageá-la. Ao realizar o gesto, desprendia-se uma parte ou outra que formavam os dedos. Não dói? , perguntei. Deveria ser um mal passageiro, um problema de pele como as micoses e com tratamento, logo estaria resolvido. À hora do jantar, sentados à mesa, percebíamos uma tensão em nossa conversa. Minha mãe tranquilizou-me, prometendo buscar um médico. Meu pai renovou a promessa e reforçou que aquilo, naquela época do ano, era comum. Não era. Nenhum dos vizinhos tinha pés quadriculados ou roupas que se desfaziam em cascatas de pequenas peças.

O meu pai, para ir ao trabalho, passou a vestir um longo sobretudo que lhe cobria os pés, para não ser importunado pelos colegas dentro do transporte para a firma. Minha mãe tomava um excessivo cuidado para não ter os vestidos desfeitos por um movimento brusco ou por um acidente de percurso. Eu procurava uma explicação para tal acontecimento e não a encontrava. A cozinha, como todas as outras, lentamente se modificava. E não era mais como tantas outras da vizinhança. A minha mãe não era mais igual à mãe dos meus amigos, apesar de bonita e simpática.

O meu pai não era como todos os outros pais. Ele chegava em casa e fechava as cortinas para não ser visto. Chamava de lepra aquela anomalia. Triste, retirava-se mais cedo para o quarto e lá fazia também as refeições. Minha mãe tinha pernas de que se podia orgulhar, no entanto, com a metamorfose, passou a usar saias compridas ou calças jeans. O cabelo não precisava mais ser penteado, os sapatos trocados ou qualquer outra coisa alterada. Os meus pais passaram a me evitar. E logo toda a rua passou a ser como os meus pais e os filhos permaneciam como eram – pareciam divertidos.

À noite, espiei o namoro de meus pais, pela fechadura. Viam-se multiplicadas milhões de peças quadriculadas: encaixavam-se e se desencaixavam ao sabor das emoções experienciadas por ambos. A predominância por peças vermelhas, azuis e amarelas e as inúmeras paisagens formadas por seus esforços amorosos enchiam o quarto de uma poesia única. A minha mãe, na manhã seguinte, irreconhecível, porque parecia desfigurada por um programa de computador para ocultar testemunhas de crimes brutais, dirigiu-se a mim, perguntando o que queria para o café da manhã e instantaneamente transformava-se em um microondas. Segundos depois, avisava que os ovos estavam prontos. Meu pai descia para trabalhar e poderia ser confundido com um quadro cubista. Ele e todos os outros pais que tiveram suas formas alteradas no decorrer da semana do surto. Os médicos não tinham resposta para a epidemia, nem ideia de quanto tempo duraria.

4.

A casa não suportava mais o meu peso. Desfazia-se, quando me apoiava contra os móveis. Eu não dormia mais em minha cama. Acordei várias vezes no piso da sala com fortes dores nas costas por ter caído indefinidamente pelos andares da casa. Minha mãe me servia comida de plástico, montada por aquelas milhões de pecinhas.

Ela e meu pai não encontravam problemas em mastigá-las ou eliminá-las. Eu não suportava mantê-las durante muito tempo na boca e corria para vomitá-las. Todos os meus colegas das casas seguintes pediam pizza e coca-cola para quase todas as refeições. O dinheiro escasseava, porque ninguém mais trabalhava. E os poucos que ainda aventuravam-se, tinham o soldo pago em dinheiro de banco imobiliário, portanto sem nenhum valor. Os meus pais cada vez me reconheciam menos.

Eu não tinha o cheiro, o aspecto ou o rosto deles. Portanto, em suas cabeças, não deveria ser seu filho. Folheava álbuns de fotografia para lembrá-los de quem eu era. Todas as fotografias quadriculadas e ali, entre eles, aquele estranho. A minha mãe, com a voz modificada, sugeriu que me adotassem. O meu pai parecia não achar um negócio direito. O melhor era chamar a polícia e me encaminhar ao juizado de menores. Em cada uma das casas, parado à porta, estava um ônibus das autoridades, confiscando crianças normais de pais quadriculados. Vigiados por policiais, que se desfaziam e se refaziam instantaneamente, como se as milhões de pequenas peças fossem organismos vivos e independentes.

A expressão idiotizada não dizia nada a respeito dos sentimentos das autoridades ou dos pais, apenas o gesto de minha mãe encostar a cabeça no que parecia o ombro de meu pai demonstrava a sua consternação. De nenhuma outra maneira ela poderia ser percebida. Quando me despedi dos dois, alisei o rosto de minha mãe que se desfez em minhas mãos como areia, e as suas feições, se assim posso chamá-las, condoídas pela separação, pareciam revelar a verdade a meu respeito.

Entretanto, o cérebro parecia recusar-se a lhe dar crédito sobre o parentesco entre nós, e a natureza, contradita em minhas linhas, provava ser impossível. Aquilo que lhe pareciam os olhos, em misto de dor e de ansiedade, fez que o restante de voz humana escapada de sua garganta, soasse como a palavra filho. Depois se tornou um incompreensível glamerô – para nós que éramos retirados das casas, e levados para campos de concentração em que médicos estudariam a nossa faculdade estacionária.

Os pais de outros colegas olhavam estupidificados do portão para os ônibus lotados e suas mentes de plásticos não alcançavam o motivo de tantos de nós termos invadidos os seus lares e as suas vidas. Por que éramos tão diferentes? Não saberíamos nunca a resposta. Os médicos não trabalhavam mais em cura alguma. Não havia enfermidade. Ou a enfermidade éramos nós com nossas aparências monstruosas: redondas e angulares. A contradição vivida por nós era que a liberdade era fácil; arrebentar-se-ia com facilidade as paredes e se escaparia daquele lugar. Mas para onde se iria? Eu tinha saudades de minha mãe e de meu pai, lembrava de suas feições de areia ou de peças plásticas articuláveis e remontava com pedaços da parede de minha cela os retratos de ambos. Descasquei com tanta severidade a parede que abri espaço para o meu corpo atravessá-la sem dificuldade. Não tinha vontade ou coragem de ir embora. Os planos de fuga eram diversos. Construíam-se aviões, submarinos e outros transportes para se dar o fora e se voltar para aquela rua. Restava a dúvida de que seríamos ou não aceitos e a imobilidade decorrente da dúvida.

Mariel Reis é contista, poeta e ensaísta.

Categorias
95ª Leva - 09/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

Rebeca Prado
Ilustração: Rebeca Prado

 

Do lastro da imaginação, emanam cenários, personagens, espectros emblemáticos de nossa condição sobre a Terra. Divisamos o que foi e o que será em tênues fronteiras de percepção. Cada um sabe de si no complexo desafio de apreender os caminhos da arte. Interpretar é, antes de tudo, viver o que está sendo ofertado aos nossos olhos e sentidos difusos. É banhar-se em águas que já não são as mesmas de quem criou. É trazer a si mesmo para um território antes estrangeiro. Ao cruzar os acessos, traduzir-se como protagonista de enredos por vezes inusitados. Ler é aceitar convites, embora nem sempre tal ato represente um sinal de concordância com o que nos é proposto. E também as recusas e negativas podem encerrar alguma espécie de reinvenção. No hiato que constitui a alteridade, cruzamos bem mais do que desertos. Ali, podemos também estabelecer aproximações como quando alguém nos sugere trilhar veredas nunca antes forjadas de alguma coragem. E o termo coragem vem dotado de um ato de se permitir experimentar o que está situado além de domínios certeiros e controláveis. Diante desse ponto específico e à medida que caminhamos, parecemos buscar algo que seja capaz de proporcionar algum arrebatamento em termos de originalidade e emoção. Sob a ótica do receptor, indagamos se a visão autêntica das coisas não estaria na percepção de quem lê ou observa os produtos artísticos. Caberia tão somente ao criador o ímpeto do novo? A questão só não se perderá embalada por algum vento aleatório caso alguém ouse também a aceitar que, sob a pele de um leitor, habitam camadas passíveis de criação autônoma. Assim sendo, vamos cruzando novas zonas de vivência no que tange à articulação de conteúdos. Para saber se poderemos de fato manipulá-los conforme nossa conveniência, só a fluidez dos enredos será capaz de atestar. Acima de tudo, esse caráter, digamos assim, libertário funda instâncias potencialmente criativas, redimensionando os tradicionais papéis de criadores e receptores. E a arte com seu movimento constante de signos nos revela entendimentos sobre nós mesmos, desses muitas vezes revestidos de instigantes descobertas. É tal como ocorre com as narrativas de Mariel Reis, Helena Terra e Yara Camillo, a nos mostrarem cenários alternativos de vida. Num caminho sedimentado em sutilezas, a arte da ilustradora e desenhista mineira Rebeca Prado abre passagem por todos os recantos dessa nova edição. Num trabalho de refinada pesquisa musical, a escritora Daniela Galdino chama atenção para o disco “Acorde”, registro precioso da cantora baiana Roze. Entre versos e destinos, os poetas Patrícia Porto, Willian Delarte, Lourença Bella, Jorge Augusto da Maya e Cleberton Santos. Numa entrevista que promove reflexões sobre o fazer literário, o poeta Roberval Pereyr é o centro dos questionamentos de Clarissa Macedo. O mais novo livro de contos de Anderson Fonseca é tema das apreciações de Sérgio Tavares. A inusitada produção “Boyhood”, novo filme do diretor Richard Linklater, aparece marcada pelas percepções de Larissa Mendes. O poeta Gustavo Felicíssimo recorda seu último encontro com o saudoso escritor João Ubaldo Ribeiro. Atingimos 95 levas, certos de que você, caro leitor, é nosso principal protagonista. Boas leituras!

Os Leveiros

 

 

Categorias
95ª Leva - 09/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Mariel Reis

 

Ilustração: Rebeca Prado

 

O Invasor

 

Para Anderson Fonseca, o fabulista fabuloso

 

O homem parado no quintal veste roupas sóbrias. O chapéu largo, a capa de chuva e os sapatos impermeáveis protegem-no do frio e da chuva.  Ele mantém-se imobilizado durante todo o tempo. Uma vez ou outra é possível percebê-lo fazendo anotações. Escreve compenetradamente. O bloco e a caneta, escondidos sob a capa de chuva, são retirados com rapidez. E, ali, é registrada alguma informação preciosa. O semblante sério não o deixa mentir quanto a isso, embora não se possa vê-lo totalmente. Os olhos, sob a aba do chapéu, faíscam durante a noite. Vasculham-na inutilmente, em busca de não se sabe qual segredo. Frustram-se por não encontrá-lo. Não desanimam, repetem insistentemente a operação. Quando o dia amanhece, ele, o homem, está lá. De pé. Permitindo-se um alongamento discreto dos braços e das pernas. As cãibras, as malditas cãibras. A família acostumou-se à presença dele, embora, no início, se sentisse incomodada com o relatório das atividades de cada membro da casa.

Quando completava um dos blocos, encerrava-o em um envelope pardo e o remetia para um destinatário desconhecido. A família, receosa por sua segurança. A atitude quebrava o protocolo da imobilidade – o único conhecido daquele homem. E, portanto, a salvaguarda de seu caráter. O deslocamento até a agência dos correios representava alta traição. Passaram a ignorá-lo. Não lhe serviam água ou o almoço. Nenhuma gentileza a mais foi praticada. Sempre que era visto com o bloco de anotações passara a ser ridicularizado. Os membros da família saíam e conversavam todos ao mesmo tempo. Tornava-se impossível o registro do que quer que fosse. O homem parado no quintal redobrava sua concentração. Percebia-se seu esforço para a realização de seu trabalho, mas era inútil. Acentuaram a confusão ainda mais: da arrumação dos cabelos às roupas. Vestiam-se de modo extravagante ou saíam nus para as atividades fora do lar. A situação parecia sair do controle. Ele desesperava-se. Desfazia-se.

A traição do estatuto da imobilidade e da vigilância contínua atentou contra a reputação do homem parado no quintal. A instituição que o havia incumbido da tarefa, indispôs-se. Ele não tinha permissão para deixar o posto. Fariam chegar a ele todo material necessário para o cumprimento de sua tarefa. Retirariam a documentação produzida. Porém, a precipitação atentou contra a credibilidade junto à família. Ele deveria passar a impressão de que estava ali para protegê-los. E não espioná-los. E se os espionava, era por motivo de segurança. A alta cúpula admitiu despedi-lo. A cogitação de dispensa o abalara. Outro protocolo foi quebrado. O homem mais velho da família entrou em contato com a organização que colocara o homem parado em seu quintal para a resolução do impasse: sugeriu que o transferissem. E outro viria para o seu lugar. A agência não apenas negou a sugestão, mas reforçou uma decisão tomada de última hora em mantê-lo no quintal. Tudo isso foi comunicado num exíguo bilhete, que em suas linhas finais dizia: Espero que aceitem e entendam. Seguido da assinatura com as misteriosas  iniciais  J.K.

 

Mariel Reis é contista, ensaísta e editor. Publicará, pela editora Oitava Rima, no 1º semestre de 2015, o livro Bordel de Bolso (narrativas).

Categorias
87ª Leva - 01/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Vera Lluch

A primeira Leva de 2014 assinala a reunião de novos personagens ao redor da mesa que partilha os feitos culturais. Como não poderia deixar de ser, a busca por outros atores que movem o surpreendente mundo das palavras e imagens é tarefa das mais complexas, porém jamais algo desanimadora. À medida que nos aproximamos de artistas e autores das mais variadas orientações, percebemos que as possibilidades de diálogos formam um rico painel de renovação. Nesse intervalo, pensamos caminhos, tentando promover um frequente exercício de escutas. Todo esse trajeto remonta a mergulhos necessários no microuniverso contido em cada voz que tenciona estar conosco desfrutando dos anseios comuns da arte. Sem as diferenças trazidas pelas peculiaridades de cada um, não seria possível vislumbrar um painel de diversidade pretendido desde sempre pela revista. É justamente através dos traços da individualidade que cada autor encontra morada no meio de nós. Sendo assim, é impensável tencionarmos qualquer espécie de avaliação preliminar das expressões que dê força a aspectos meramente objetivos. Pelo contrário, interessa-nos perceber o quão estimuladoras e sensíveis podem ser as criações, sobretudo que tipo de aproximação efetiva elas podem gerar junto aos leitores. Arte e palavra precisam muito mais do que uma couraça hermética e superficial a lhes adornar a face. Necessitam de alma, de algo que faça parte de um universo notadamente amplo de apreensões. Daí não ser nada fácil tentar definir o comportamento imprevisível da subjetividade.  Autores como Carina Castro, Ana Elisa Ribeiro, Danilo Gusmão, Fernanda Pacheco, Caio Carmacho e Beatriz Bajo, que por aqui desfilam agora seus versos, são a prova viva dessa jornada rumo a outras paragens literárias possíveis. Em meio a estes e outros verbos dispersos nesta edição, as ilustrações de Vera Lluch inundam com sua vastidão de cenários os espaços habitáveis pela sensibilidade. No terreno dos contos, Mariel Reis, Jorge Mendes e Larissa Mendes nos apresentam suas visões particulares de mundo. Numa entrevista, a cantora Selmma Carvalho fala sobre o seu novo disco e de como o tempo tem sido seu aliado na evolução da carreira. O escritor Sérgio Tavares apresenta suas impressões sobre “A condição indestrutível de ter sido”, primeiro romance de Helena Terra. O mais novo disco da banda carioca Tono roda em nosso Gramofone. Em mais uma de suas investidas cinéfilas, Larissa Mendes percorre as vias da produção “Her”. O ano que se inicia reafirma os impulsos editoriais da Diversos Afins, cuja missão maior é a de promover encontros. Que você, caro leitor, possa trilhar conosco mais uma caminhada pelos ventos da arte e da literatura. Boas leituras!

 

Os Leveiros

Categorias
87ª Leva - 01/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

 Mariel Reis

 

Ilustração: Vera Lluch

 

O Peixe


Ele tinha transtornos. Os transtornos impediam que se relacionasse com mulheres. As mulheres evitavam-no a todo custo.

O custo era alto. Alto porque contratávamos prostitutas. As prostitutas tinham que ser louras. Louras e peitudas. Louras, peitudas e altas. Altas, altas, depois de tanta bebida. Bêbadas, elas começavam a olhar para o meu amigo. Ele tinha transtornos. As prostitutas eram fadas.

Ele não notava o desprezo, o nojo, o desconforto. As prostitutas depois de rodadas de bebida esqueciam por um tempo o desprezo, o nojo e o desconforto. Permitiam-lhe tocar nos seus seios.

Ele tocava, agarrava e mordia as prostitutas. Prostitutas lindas, louras, altas. O atlas do mundo dele. Torto, na cadeira de rodas.

O dinheiro comprava toda aquela felicidade. As prostitutas passeavam em sua cadeira de rodas elétrica, dançavam com ele, colavam os ouvidos à sua boca para escutarem a sua voz fraca.

Tudo custava dinheiro, muito dinheiro.

Eu bebia uísque nacional. Uísque falsificado. Ele, lá, na pista de dança, com as prostitutas altas, louras e peitudas. O meu dinheiro escasseava. Toda vez ele me pedia as prostitutas louras, altas e peitudas. Agora queria prostitutas louras, altas, peitudas e de olhos azuis.

Chamei as mesmas da festa anterior. Comprei lentes de contato para todas. Todas tinham agora olhos azuis.

O médico dele deu-lhe mais três meses. Ele repetia O PAI , O FILHO E O ESPIRITO SANTO. Repetia. Repetia. Três meses. Ele se apaixonou pela prostituta alta, peituda, loura e de olhos azuis. Queria casar com ela. Casou bêbada. Era um casamento de mentirinha. Dormiu com ele a primeira noite. Cobrou alto. O meu dinheiro acabando. Fiz um pacote de uma semana.

Ele não queria mais as festas com tantas louras, peitudas, altas e de olhos azuis. Só queria ela. Eu bebia litros de uísque, trabalhava pelo computador, saía pouco de casa. Descansava na piscina. Ele ria. Os cabelos afagados por aquele sonho comprado caro.

Começou a me pedir coisas impossíveis. Viagens a lugares distantes, sagrados ou não. Ele me pediu para morrer em um submarino. Havia aquele parado no velho cais do centro que servia para a visita de estudantes. Ele não sabia quando morreria. Morrer fora de um submarino estava fora de cogitação.

A prostituta–esposa me pedia mais dinheiro, mais bebida. Eu me enojava de tudo aquilo: Por que ele não poderia levar uma vida normal? Por quê? Os médicos não se mostravam satisfeitos. Suspendi os remédios. Quer dizer, ele suspendeu.

Morávamos no velho submarino do cais da cidade. Todo vivente que o visitasse nos encontraria por lá.

As garrafas de uísque vazias boiavam ao redor do casco do submarino, repletas de cartas.

Um dia, acordei tarde, de ressaca. Ele estava vendo o nascer do sol. Levantou-se com esforço da cadeira, a prostituta-esposa molhava os pés delicadamente n’água. Escorregou até o mar. Nadou de costas uns duzentos metros.

Afundou.

Reapareceu, mais à frente.

Ele queria ser um peixe. Despedi a prostituta. Consultei o saldo de minha conta bancária. Deveria comprar um barco. Vendi o que me restava. E me tornei um pescador.

Mariel Reis é escritor, publicará em 2014 o livro de narrativas  “Bordel de Bolso” pela Editora Oitava Rima. Escreveu os livros: “Linha de Recuo” (contos), “John Fante Trabalha no Esquimó” (contos), “Vida Cachorra” (contos), “Cosmorama” (poesia), “Cidade Tomada” (crônicas políticas), “A Arte de Afinar o Silêncio” (contos) e “A Fábrica” (narrativas – inédito).

 

 

 

Categorias
85ª Leva - 11/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Arte: Julia Debasse

O flerte com a inquietude nos toma de tal maneira que tudo parece nela se fundar. Por vezes gentil, noutras tenebrosa, esta senhora se espraia de modo mais intenso do que supomos. E vais mais além, cria ramificações ao ponto de notarmos que, sem ela, muita coisa em matéria de criação não sobreviveria aos mínimos lances do tempo. Basta um simples gesto e logo estamos dependentes de seus comandos, todos eles a ditar o modo como gestar as obras. Ao pensarmos na construção de uma nova Leva da revista, raramente nos vem em mente a presença absoluta e centralizadora de um tema qualquer. Pelo contrário, buscamos aquilo que emana das criações de então, estabelecendo uma via de mão dupla, ciclo constante a retroalimentar nossos ímpetos editoriais. Mas até mesmo esse desejo de sempre impulsionar a aproximação de novos colaboradores e seus feitos deriva dos arremates da inquietude. O termo vem a calhar diante de manifestações criativas como as da artista plástica Julia Debasse que, com seus desenhos e pinturas, opera um efeito de diálogo com o mosaico de textos que ora apresentamos. É possível perceber isso na convergência tida em torno dos poemas de Gustavo Petter, Mar Becker, Fred Matos, Marcantonio e João Filho. No caminho que exala densidades, os contos de Állex Leilla, Sérgio Tavares e Lara Amaral nos falam de coisas entranhadas nos recônditos humanos. O escritor e editor Floriano Martins partilha conosco uma conversa com a cantora Elaine Guedes. Aos olhos de Silvério Duque, o novo livro de poemas de Heitor Brasileiro Filho é verdadeiro convite à leitura. As impressões sobre o filme “Frances Ha” estão registradas nas linhas de Larissa Mendes. Evocando a obra do escritor Whisner Fraga, Anderson Fonseca e Mariel Reis assinalam seus olhares. No girar de nosso Gramofone, as escutas estão voltadas para “Recanto”, trigésimo disco da vigorosa carreira de Gal Costa. Assim, pautamos a construção de mais uma edição, certos de que ao menor esboço de ausência da inquietude, saberemos que algo está fora da ordem natural das coisas. Sendo improvável tal falta, nasce e resiste uma 85ª Leva. Boas leituras a todos!

 

Os Leveiros

 

 

Categorias
85ª Leva - 11/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Whisner Fraga: um fundador de mundos

Por Anderson Fonseca e Mariel Reis

 

Whisner Fraga / Foto: divulgação

 

Fernando Gabeira, escritor e político, escreveu Sinais de Vida no Planeta Minas, contando as peculiaridades desse estado da federação repleto de causos e personagens curiosos. O endosso de que Minas Gerais é mesmo outro planeta vem de outro escritor Humberto Werneck, no livro Os Desatinos da Rapaziada, onde elenca a rica e longeva vida intelectual da Belo Horizonte dos anos vinte. No livro de Werneck encontramos nomes respeitáveis das letras nacionais como Pedro Nava, Murilo Rubião e Carlos Drummond de Andrade. E acrescente-se a informação de que tanto Fernando Gabeira e Humberto Werneck são mineiros, afirmando os sinais de Vida do planeta Minas.

Os sinais de Minas logo se tornam visíveis nos céus brasileiros. Não se pode ignorar um mineiro por muito tempo por sua tenacidade. E se ele tiver talento será impossível. E tenacidade nesse país pode ser tomada como sinônimo de teimosia e o mineiro é um ser teimoso ou tinhoso. De lá, desse planeta, Whisner Fraga, de Ituiutaba, tem enviado à literatura brasileira sinais inequívocos de que quer marcar sua passagem por ela. Empenhando-se em concursos literários e tornando-se vencedor dos mais ilustres, aumentou sua notoriedade e alcance. Mas não precisaria se valer do recurso, se quisesse. O livro de contos Coreografia dos Danados, elogiado por Dionísio Silva, garantia o lugar do ficcionista nas estantes dos leitores mais exigentes.

Whisner Fraga é um escritor fluido, plástico e poético. Não é um criador rendido às técnicas narrativas que preconizam as orações curtas como meio de enredar o leitor. É um autor caudaloso, porém exato, porque é um rio que não transborda as próprias margens. O contista talentoso detectado nos concursos também não escapou do olhar arguto da brasilianista Marlen Eckl que o catapultou para a Feira de Frankfurt, juntamente com outros autores brasileiros, para brilhar na maior feira literária européia onde o Brasil era o país homenageado. E não há dúvida do acerto em sua escolha para integrar o casting de escritores levados para as terras alemãs.

A errância, o não-lugar e a consciência fraturada das personagens constituem a danação explicitada na coreografia ensaiada pelo autor para as suas criações. O romancista Whisner Fraga radicaliza as experiências do contista, espiralando o universo deste e ampliando em um jogo de esconde e revela que atravessa as sombras que a sua criação traz. Na literatura brasileira, Fraga pode ser situado como descendente de Raduan Nassar, embora sua descendência não indique uma devoção castradora.

Em seu romance O Abismo Poente se entrelaçam diversos registros para construir o efeito desejado sobre o não-lugar de seus personagens. Obra considerada experimental, o autor equilibra o conteúdo e a forma na linguagem.  Em sua obra percebe-se o signo da errância do estrangeiro como painel do destino daqueles que ajudaram a construir o país.

O estranho estrangeiro

 

Fraga é um poeta encerrado dentro do prosador. No espírito de sua narrativa misturam-se amargor, ternura e raiva. Descreve quadros intensos em que a condição humana é explorada minuciosamente e parece requerer para si o título de indisciplinador de almas. A danação de seus personagens é constante, debatem-se nas teias perversas de seus próprios destinos como Helena e Afif, e as linhas que os conduzem pendentes dos dedos de seu criador não transparecem em momento algum.

A literatura de Whisner Fraga é uma literatura que investiga aquilo que Caio Fernando Abreu denominou como o estranho estrangeiro. O homem exilado em si mesmo ou de si e de sua terra, cruzando o território inóspito do humano em busca de si mesmo e de sua identidade, construindo-se com os cacos que espelham a sua cultura natal ou tentando conformá-la às exigências circunstantes que nem sempre o favorecem.

E também não é apenas uma literatura de exilado, ou de mera observação antropológica sobre o olhar do estrangeiro ou daquele que está no não-lugar para a terra que por ora habita. O escritor não reedita somente a noção do errante, há nela uma fratura que impede o homem de ligar-se a si mesmo, uma danação que consome os personagens como estava prenunciado em seu primeiro livro de contos, um bailado macabro de intenções que se não se confirmam, enchem o espaço, entre a intenção e a realização, de alegrias e estertores, de desejo e proibição, do claro e do escuro, do permitido e o interdito.

Whisner Fraga, mineiro de Ituiutaba, escritor brasileiro é outra das apostas de um novo caminho no cenário da literatura atual. É outro sinal do planeta Minas para o qual o futuro terá que estar atento, porque, em sua precipitação, pode achar que se trata de um cometa, quando, na verdade, é um sol, não poente, mas à pino, ardendo sobre um novo mundo constituído.

TRECHO:

 

sob o gesso dos olhos o desespero coagulado, o mistério  rastejando nas barras da sua sobrancelha, um comício de dúvidas revestindo o vitoriano manto da incompreensão, mas são assim as coisas não sorvidas pela goela da vista, as invisibilidades tardias, mesmo o vento só é plenamente vento quando se revela por meio da poeira, ah, tomes, ah, helena, este nosso mundo é uma espessa cratera de inexistências, da qual nos desviamos com as córneas empoladas de medo e arrogância.

(Abismo Poente, Ed. Ficções, 2009).

(Anderson Fonseca é autor dos livros Notas de Pensamentos Incomuns (2011) e Sr. Bergier (2013). Vive em Brejo Santo, Ceará)

(Mariel Reis é autor dos livros Vida Cachorra (2011) e A arte de afinar o silêncio (2012))