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86ª Leva - 12/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Bruno Kepper

 

Na transição de um ano para outro, é inevitável a feitura de algumas reflexões. No caso da Diversos Afins, não poderia ser diferente, tendo em vista a grande quantidade de pessoas que caminham por aqui traçando as linhas de suas mais difusas expressões artísticas. De novos a experientes, não foram poucos os autores que compartilharam conosco suas visões de mundo. Seja na construção de palavras, seja na composição e concepção de imagens, vislumbrou-se muito além do que um mero exercício do ato de criar. O que cada um traz em si é a tal perspectiva de despertar em nós lugares adormecidos ou ofuscados pela névoa dos dias. E é tão significativo quando um criador nos surpreende com viagens a espaços inimagináveis e nunca dantes habitados. Por vezes, a racionalidade excessiva ofusca-nos a possibilidade de darmos força aos rumos mais promissores da subjetividade, afastando-nos do mergulho no lago íntimo das coisas que são deveras especiais. Nesse sentido, a arte e a literatura são capazes de nos resgatar do marasmo encerrado na rotina aborrecida do mundo, promovendo encontros e engendrando vias diferenciadas de percepção. Com o findar de 2013, um ciclo importante de publicações se completa e a busca por outros caminhos se torna verdadeiro desafio. A edição atual corrobora com tal sentimento ao procurar mesclar um conjunto de vozes expressivas da seara cultural. Em toda a sua extensão, a 86ª Leva aparece entrecortada pelas imagens do fotógrafo Bruno Kepper, jovem artista que nos apresenta seu traço de leveza ante os densos contornos propostos pela vida. Saberemos também um pouco sobre histórias que nos atravessam ao pisarmos o solo dos contos de Anderson Fonseca, Yara Camillo e Pedro Costa Reis. As paisagens poéticas de Leonardo Mathias, Lou Vilela, Inês Monguilhott, Nydia Bonetti e Marília Miranda Lopes evocam odisseias intimistas. O escritor Marcos Pasche traz à tona algumas observações sobre as Novas Cartas Chilenas de José Paulo Paes. Rogério Coutinho celebra escutas em torno do primeiro disco de , Rodrix e Guarabyra. O olhar inquietante do fotógrafo Silvio Crisóstomo é tema de uma virtuosa entrevista. Larissa Mendes aposta suas fichas em “A Grande Beleza”, novo filme do diretor Paolo Sorrentino. O poeta Jorge Elias Neto reflete sobre alguns lampejos da pós-modernidade. Tomados pelo sentimento de continuidade dos percursos, compartilhamos com você, querido leitor, essa celebração de vida. Que em 2014 outras tantas alamedas se configurem sólidas. Boas leituras!

 

Os Leveiros

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86ª Leva - 12/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Marília Miranda Lopes

 

Foto: Bruno Kepper

 

Posso entornar
raiva
desmesura de medos contidos
sem que me prendas
dentro das tuas sílabas de aço

Posso aliviar
o chumbo dos ombros
nos passeios e becos onde tropeças
embriagado…embriagado.

A dor é uma rua anônima
onde já não mora ninguém

Guardamos tanta inutilidade

Ainda haverá espaço
nos silos da memória?

Posso dizer-te a poesia que faço e desfaço
nas minhas viagens
Sem que me leias
Na distância das tuas margens

Assim estou só e não espero nada
A não ser o espanto…a não ser o espanto.

 

 

***

 

 

Não lhes dês acesso ao teu estado
vigilante ou adormecido, inquieto ou sereno
nenhum sopro de vigilância
onde a pele se queime de píxeis

Não lhes dês réplicas e cerimônias de caixões de vidro
ou a face pálida, diante do melodrama da história

Dá-lhes o cerne desse gosto natural
onde o romper do caminho é o nascer de uma ovelha
e o seu primeiro berro

Esta estrutura de ferro e betão tem-nos mendigos
em tecidos quase rotos

A caligrafia social é uma tragicomédia
Encenam-se códigos de conduta
liberdades adulteradas
escritas com revolta e humor forçados

Tudo está viciado e iminentemente caótico
Terreno fértil e propício
à serpente fascista
subliminarmente esperta

Há um gélido pavor
onde o rastejo espreita.

 

 

***

 

 

Quanta discussão
argamassa
e betão

Nos compartimentos
pesam lajes
Dor
neste cimento

Sem térmica a pele
Sem vigamento
metálico

Quase sufoco no pó
neste resto de dia gris

As plumas azuis bailam alto
Tangem
como acordes
a fluidez do sangue

Há uma paixão inexplicável

Ouço um Bach de prelúdios
e fugas.

 

 

***

 

 

Está frio e rebentam ecos
arquitectados
outonos

As folhas tremem
Os pássaros recolhem-se

O abandono é esta ausência velada

A terra húmida das chuvas
o caminho multiplicado
por gotas inteiras
sobre a curva dos ombros

Está frio e continuo a olhar
Estremeço
Como árvore despida

Abrigo-me: pássaro
Vertigem
em nenhum solo.

 

 

***

 

 

A cidade é um disco compacto
fervilhante
titânico
Os corpos de ipad editam
cada trajecto mínimo

A nave da Web
é uma barca antiga
atracada no precipício do tempo

Cruzam-se chips
entre nós, passantes em catálogo

Nas radiofrequências
um cibercéptico manipulado
um antibiónico em deslumbre
um hologrâmico
poema

Colapso

Já não funcionas
Sozinho

Colapso

Tens entranhas vigiadas
webcams na cama onde imerges
sem gotas de orvalho reais.

 

(Marília Miranda Lopes nasceu no Porto, em Portugal. Formou-se em Línguas e Literaturas Modernas (variante de Estudos Portugueses) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Escreveu, entre outras obras, “Poesis em Oásis” (poesia, 1994), “Framboesas” (Teatro, 1996), “Aqua” (conto, 2012 – incluído na antologia Pegadas com autores portugueses e espanhóis – de A Porta Verde do Sétimo Andar) e “Castas” (Poesia, 2012 – Cadernos Q de Vien de A Porta Verde do Sétimo Andar – Galiza, Espanha). Tem participado, com poesia e prosa, em algumas revistas literárias e antologias (Portugal, Espanha, África e Brasil))