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90ª Leva - 04/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Nelson Alexandre

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

Paciência ou das efemérides aos desejos não realizados

 

Leva-se tempo. Para tudo. Sim, mas nem sempre estamos pacientes para compreender isso. Para apurar isso como um ourives diante de uma peça rara. Paciência é um adjetivo que supostamente todos diagnosticam como um elemento raro, porém de suma importância para nossas miudezas cotidianas. Paciência é algo que, como eu havia dito antes, requer a habilidade cirúrgica do médico comprometido com seu paciente mais terminal. Nas efemérides, ou mais popularmente no nosso memorial do dia a dia, a paciência, inquestionavelmente, vai se imiscuindo no lampejo de um raio cortando uma nuvem roxa e carregada de chuva e trovões explodindo os tímpanos mais desavisados. Mas raivas à parte, tudo deve ser deitado, repousado nos braços elegantes dessa senhora de idade inquestionável que resolvi chamar de paciência. Eu mesmo nunca a dominei, e, desesperadamente, de alguns meses para cá, muito me reivindica essa bela senhora que jamais me responde quando grito. Quando espero uma advertência por ser tão insistente em testar sua incomensurável leveza com o meu revés de seu silêncio plácido. Às vezes, imagino que a paciência é como Arvo Pärt… Como um lago escondido em algum lugar do Canadá inglês, e por que não do francês? Em sua leitura profunda, nas águas mais inóspitas, está lá a dama agarrada em algum galho olhando até quando seus pulmões aguentam. Até quando seus olhos poderão ficar arregalados como um baiacu pronto para explodir como uma granada viva e cheia de escamas letais ao entrarem em contato com a pele, os músculos e membros alheios. Eu nunca saberia morrer com a paciência do peixe pescado e mantido vivo no samburá para depois ser abatido, destrinchado e saboreado com algum vinho branco de nome com som inaudível em português. Quando vou ao supermercado, meu carrinho é constantemente carregado de impaciência: Miojo ao invés de uma boa pasta italiana, molho enlatado ao invés de uns bons e vermelhos tomates bem maduros, uma garrafa de qualquer refrigerante ao invés de laranjas amarelas e radiantes como os raios do sol visto do fundo do lago congelado… A senhora paciência que me perdoe, mas como sou testado para me enquadrar em seu comportamento de céu infinito e iluminado visto do telhado de algum prédio abandonado. Em meu carrinho também entram os sacos de batatas prontas para serem fritas e não as que precisam ser descascadas enquanto servimos mais uma taça de vinho para alguém que ainda não chegou, que provavelmente deve estar em um ônibus cheio, ou quem sabe retornando para casa de táxi lendo algum livro ou achando engraçado algum “dejavi” com o personagem do filme de 1976 de Martin Scorsese. O mundo é um moinho… Mas minha conversão ao estado de espírito dessa senhora desenha-se em pão feito na hora, quente, com manteiga derretendo em seu interior cáustico, vulcânico e até mesmo erótico. Sempre fui erótico e não pornográfico. Não sou um desqualificado, nem maldoso, nem vingativo, mas um sem teto do acalanto dessa senhora que me vê como um autista/anarquista que gosta de fazer compras às terças-feiras chuvosas e melancólicas. É do meu feitio considerar as partes antes do todo, pois de finitude sou um ginasiano que ainda ama platonicamente aquela moça meiga que agora é uma mulher que também empurra carrinhos de compras e sempre fica indecisa na hora de acertar as contas, se ainda falta alguma coisa para completar o grande buraco negro das despensas da alma, mas de uma alma sadia e que preserva ainda algum resquício de boa vontade em descascar as batatas e cozinhá-las para fazer um purê com molho de amor… Pois essa cozinha está completamente desprovida dos temperos do amor e da paciência. Como o mundo que Cartola, se estivesse vivo, ainda haveria de chorar com seu violão em notas aquosas e cheias de cebolinha e cheiro verde. Odeio truco, e jamais tive paciência para aprender, observar e muito menos jogar esse jogo oriundo de butecos mal ajambrados e cheios de sujeitos que passam longe do vício que Dostoievski dedicou num livro inteiro e que, óbvio, nada tem a ver com o joguinho brazuca que tanta gente gosta para subir em mesas ou cadeiras e alavancar a voz aos mais detonantes decibéis que sua pobre alma pode suportar. Às vezes, e muitas vezes, já sonhei que era o conde Vlade para decretar o empalamento em praça pública aos amantes dessa inhaca chamada truco… Desejo… Mas… Enfim, prefiro lembrar sim das continuidades existentes do meu amor platônico por essa senhora que me resigna apenas a ler e ver minhas mensagens mandadas de setores nobres do sentimento humano, mesmo que por certos momentos diluvianos eu perca a fé e a esperança de um dia tê-la em meus braços e dizer, sem empolamentos parnasianos, que quero descascar as batatas e servi-la de mais uma taça daquele vinho inaudível se pronunciado em português. Quero te levar ao cinema numa quarta-feira também chuvosa, à tarde, clandestinamente, como amantes que fogem do trampo e dão uma esticadinha ao motel, mas acho motel broxante, prefiro uma casa isolada numa chácara com riacho e com cachoeira no fundo. Dois rios caudalosos, o da cachoeira e do meu bom mocismo induzido pelos seus carinhos de menina abandonada à própria sorte na selva de pedra. Eu também quero lembrar que de tudo um pouco nessa vida precisa do auxílio dessa senhora que acalanta estressados e estressadas para um caminho mais brando, suavizado pelo amor, e, claro, por uma boa comidinha feita na hora, pois amor de barriga vazia é sinônimo de picaretagem em aula de mantras em Nova Délhi. Incursões em partes para chegar-se ao todo, senão a vida idealizada e maravilhosa, que tanto mora em efemérides e desejos, vira: “fuck you!”.

Nelson Alexandre nasceu em Maringá – Paraná. É autor de “Paridos e Rejeitados” (Contos, 2012) e “Poemas para quem não me quer” (Poesia, 2013), ambos publicados pela editora Multifoco – RJ. Em 2005, recebeu menção honrosa no prestigiado Concurso de Contos Newton Sampaio, onde viu seu trabalho ser publicado pela primeira vez em uma coletânea. Teve textos publicados também pelas revistas: Literacia, Outras Palavras, Flores do Mal e Diversos Afins. É graduado em Letras pela Universidade Estadual de Maringá.

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

A casa Azul

Nelson Alexandre

 

 

Foto: Catharina Suleiman

 

 

Eu apoiava a cabeça no ombro de Helena todas as vezes que ela chegava de mansinho. Seu toque era meigo e delicado. O meu toque era possuído por uma leva de palavrões e atitudes irracionais. Era como se o mundo inteiro explodisse e eu não pudesse recolher seus pedaços por causa da confusão. Quando a explosão iluminava meus olhos, eles pegavam fogo e eu cuspia morcegos cegos em voos malucos. Rasgava os próprios intestinos e não podia aguentar o meu próprio cheiro.

Alguém pode comer a própria merda e falar em nome da bondade e honestidade sem mandar merda na cara de quem está prestando atenção? Será que isso é possível?

Eu recolhia a cabeça e deitava novamente em seu ombro, enquanto ela lia e me fazia perguntas sobre aquilo e isso… minha cabeça dormia sobre o amor em forma de mulher. Cantava numa frequência pirata a música da carência, enquanto o céu vinha pra cima de mim, como os destroços de um avião desgovernado caindo em cima da minha falta de vontade, bem em cima da minha total ignorância sobre o assunto.

Eu olhava pro tênis encardido e sentia a podridão. A sujeira encarando meu olhar com reprovação. Eu não queria levantar a cabeça do seu ombro, do meu conforto, por nada desse mundo, mas nós não temos sempre o domínio da situação, por isso, eu não gostava muito quando ela se levantava de forma rápida e sem me avisar. Minha cabeça levantava como um morto retirado das ferragens retorcidas de um carro detonado. Sem muito jeito, sem muita delicadeza.

Ela partia e eu ficava hipnotizado com seus passos, sempre apressados, em direção a todos os cantos da casa. Parecia uma grande atriz atarefada, vagando pra lá e pra cá na sua pequena atmosfera ornada por enormes margaridas empalidecidas como fantasmas gigantes.

Você sabe o quê é o amor?

Eu, até aquele dia, não tinha muito conhecimento, como pensava que tinha. Eu pensava que dominava o amor, mas confundia complacência com amor, enquanto as feridas brotavam no meu coração como plantas carnívoras. Eu colocava as mãos no rosto e pensava: “mais um dia”.

Quando você está morto, você perambula por aí, sem muita preocupação, nem aí com o mundo ou com as pessoas que também perambulam por ele. No estágio da morte, seus pés são facas fazendo cortes, deixando pra trás profundos abismos de você mesmo.

Nós olhávamos pra nossa casa, e aquele era o nosso céu. Era o nosso lugar dentro do que é perfeito. Helena gostava de ficar sentada fazendo seus desenhos, fumando um cigarro que soltava uma fumaça que dançava na minha garganta como uma serpente.

A morte, às vezes, bate à sua porta mais cedo do que o esperado. O azul da casa salvava os olhos cansados, a mente perturbada, a carnificina pronta pra brotar no peito. O azul era a cor da purificação, e por alguns instantes, a cor de uma plenitude desconhecida e aceita.

“vamos pintar de amarelo, minha querida?”

“Não… o azul é o mar repetindo-se sobre nossas cabeças”.

Então ficava azul, sempre o mesmo tom de azul…

Foi numa noite de chuva que a casa azul ficou triste como um peixe fisgado pelo anzol. Tomado por uma dose de toxinas e assuntos mal resolvidos que viviam saltando na frente da minha paciência como fantoches de discórdia, peguei uma vassoura e girei o cabo sobre minha cabeça dominada por um milhão de vozes dizendo “esmague”, e desferi vários golpes contra a luz que iluminava a garagem. Ela se fez em vários pedacinhos, da mesma forma como se encontrava o coração de Helena, que chorava sozinha no quarto principal da casa azul, na periferia de Space City.

Outra vez, foi a toalha esquecida em cima da cama. O terror do colchão encharcado por um líquido extraído com o aperto dos braços delicados da inocência.

“Foi você que esqueceu ela aí, não eu”.

Não adiantava argumentar, minha “razão” cega e sem preocupação com a inocência se desmanchando em lágrimas, tampava os ouvidos e abria a boca, apenas, para emitir o rugido da barbárie.

Por isso, hoje, digo e defendo que, antes de você emitir um som ensurdecedor e se transformar num macaco violento, lembre-se… o cristal se rompe a qualquer toque sem amor.

Outra vez, foi o puro descontrole unido a uma dose sadomasoquista de cólera, que mandou o pobre do nosso gatinho fazer uma viagem ao redor do ódio. Metáfora pura. Coisa que vem em primeiro lugar na cabeça cheia de um rancor exasperado.

Às vezes você está acompanhado com o diabo e não percebe… ou será que o diabo pode ser uma alegoria que produzimos em nós mesmos para não deixar brotar uma flor de bondade, mesmo que pequenina e tímida?

É o cão… sem dúvida, diz uma das vozes dentro da minha cabeça. É apenas um distúrbio de comportamento, retruca uma outra.

Com isso, posso dizer que, não deixe a estrutura do cristal ir à tona toda estilhaçada. Não deixe esse maldito ódio (digo isso lutando desesperadamente para não ser contaminado novamente) pegar você pelo dedão do pé. Recuse suas carícias em seu corpo.

Vamos dançar?

Vamos entrar no esplendor do azul?

Você despertou meu lado Cérbero… o quê realmente você quer, meu senhor?

Quer que eu saia do meu buraco, depois de alguns anos, metralhando o ódio ou o amor?

Meu coração quer ficar azul. Não tem mais a cobertura do manto vermelho. O quê estou dizendo?

Entende de vozes, meu senhor?

O sol nasce como no cinema, morno, cheio de uma luz artificial, onde, de mãos dadas, nos iludimos e voltamos a ser seres humanos novamente.

“Será que amarelo é bom mesmo? Você quer imitar o sol? Amor, você vai acabar com as mãos queimadas”.

“Vai ser a nossa obra prima, baby, vai ser a nossa passagem para a eternidade, isso eu juro pra você”.

Quando ela ia dormir, eu ficava ainda algum tempo na sala, sentado no sofá, ouvindo música clássica, sentindo minha cabeça ser comprimida pelas vozes da minha consciência. Eu tinha vontade de gritar até a garganta explodir. Queria ter uma bomba na fala… confidenciar explosões nucleares com os dentes. Sentia o negrume feito coisa podre bem no meio da minha cara, olhando a consciência dentro de uma vala comum, apodrecendo, definhando, sendo devorada por uma grande demanda de vermes asquerosos.

Na madrugada, sobressaltava dos sonhos mais mesquinhos e sentia demônios colocando seus dedos sobre o meu ombro. De joelhos, pedia a Deus o azul. Pedia o supra-sentimento para a redenção de uma alma escura e lodosa.

Eu era um monstro que um dia foi um peixe dourado.

 

 

(Nelson Alexandre nasceu em Maringá – PR. Já disseram que seus contos parecem com os de Charles Bukowski, John Fante e até mesmo uma mistura de William Burroughs e David Cronenberg, mas o autor descarta todas as possibilidades e afirma que seus escritos pertencem a ele mesmo e mais ninguém)