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130ª Leva - 02/2019 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Mariza Lourenço

 

Foto: Almir Bindilatti

 

Cara Edinalda

 

Cara Edinalda,

Estou velha, você sabe, minha memória é traiçoeira, mas posso lhe afirmar com absoluta certeza que a menina morava no Morro das Virtudes, aquele lugar lindo, rodeado por uma mata perigosa. Muitos corpos foram enterrados lá, é o que se diz, naquela época de… Ah, você sabe, Edinalda, o Tuninho mesmo nunca mais voltou para a casa de meus pais. Infelizmente, sobre a menina, não sei quase nada, a não ser o que era do conhecimento de todos, de que era bem bonitinha e educada e não costumava adentrar qualquer lugar sem convite ou permissão. Aliás, mal saia de casa, a coitadinha. A família frequentava uma igreja, a Clara me disse. Lembra da Clara, Edinalda? Enviuvou, está ótima. O marido era uma peste e foi tarde, desta para pior, espero. Bem fizemos nós, Edinalda, não casamos, não criamos filhos, tampouco netos. Pois bem, a Clara foi algumas vezes a tal Igreja frequentada pela família da menina. Ela não gostou, viu, Edinalda, não gostou nadinha do que presenciou por lá. Os fieis caindo no chão, orando pro capeta não tomar conta do corpo, esse tipo de coisa absurda e horrenda que a gente sabe que existe, mas prefere ignorar. Segundo Clara, a menina desapareceu após um culto de desobsessão. Investigaram, procuraram em todos os lugares e não a encontraram. Tempos depois a família informou que a menina estava morando com parentes em uma cidade distante. E as conversas, fofocas e investigações pararam por aí. Muito triste, Edinalda, foi perceber o alívio que tomou conta das pessoas quando encerraram o caso. Sempre foi assim, não é? Desde aquela época…

Ah, você sabe, Edinalda, você mesma nunca mais voltou para a casa de seus pais.

Com todo o meu amor,

(e esta saudade doída)

 

 

 

***

 

 

 

Corte

 

ele a trinta centímetros de seu corpo. o corpo dela. sobre a frágil mulher. as palavras desconexas protegidas pela respiração pesada do pesado homem sobre seu corpo. de gestos primitivos como convém à estúpida natureza humana. ele tem medo. e ela teme que ele saiba o que ela realmente sabe. de que sempre esteve a mil metros da paixão que mata. da paixão que lhe mete horror. e das facas e seus fios certeiros e nervuras expostas. do sangue escorrendo pelo alvo piso assentado perfeitamente pelo homem que respira sobre seu corpo. o horror a tudo aquilo que não se cumpriu. e da felicidade, esse sonho que ficou para trás, perdida em algum lugar, um minúsculo ponto impossível de encontrar entre o corpo dele sobre o dela. ele arfa. e ela está longe. a gazela livre brinca. ele sabe que ela foi embora há muito tempo. e ela sabe que sob o pesado corpo seu frágil corpo já encomendou a alma.

 

 

 

***

 

 

 

uma tristeza qualquer

 

não se sabe o motivo, mas num dia qualquer de novembro ela resolveu desfazer o coque baixo e deixou soltos os cabelos finos e mal cuidados, que cruzavam a linha da cintura.procurou desesperadamente pelos cacos que guardara do espelho quebrado havia dez anos. arriscou um batom, presente de sua irmã, a ovelha desgarrada.

─ você está diferente, mamãe, mais bonita.

─ não gostei, vá refazer esse cabelo e não se esqueça de limpar a boca.

ela olhou para ambos ─ seus amores, seus algozes, seus patrões ─ e deu meia-volta. refez o coque, lavou a boca e deitou-se.

nunca mais voltou.

 

Mariza Lourenço é advogada e coeditora da Germina – Revista de Literatura & Arte e das Escritoras Suicidas. e-mail: marizaclourenco@gmail.com

 

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91ª Leva - 05/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Arte: Marcantonio

 

Com o tempo, fica a marcante impressão de que as coisas precisam seguir um curso natural, sem a geração de expectativas demasiadamente projetadas. Vontades existem, isso é fato inegável, mas o bom mesmo é fazer delas uma peça favorável à instigante engrenagem das descobertas até mesmo involuntárias. Em que medida a palavra resistência pode representar o principal mote dos caminhos que norteiam a Diversos Afins? De modo especial, o convívio e, por conseguinte, o aprendizado estabelecido com as pessoas que se aproximam de nosso projeto à frente da revista torna a trajetória um tanto mais serena. A busca pela qualidade é uma meta editorial que não sofre os efeitos de regramentos limitadores da criação. Entendemos que critérios pautados no bom senso, razoabilidade e, sobretudo, sensibilidade são definitivamente aspectos fundamentais em nossa jornada de pesquisa e seleção de materiais publicáveis. E é sempre bom frisar que, nesse ponto, o apego a verdades universais nada contribui para que novos diálogos se consolidem. Então, é preciso rechaçar a imutabilidade do pensamento, principalmente quando ela impede que o entendimento sobre os fenômenos que nos cercam possa se efetivar. Talvez aqui o termo resistência possa ser empregado, tendo em vista a importância de combatermos a mediocridade do pensamento. Sem dúvida alguma, o grande lado benéfico dessa reflexão é sustentar a amplitude da busca pela diversidade sem perdermos os referenciais indispensáveis a uma adequada análise e difusão dos conteúdos. O comprometimento maior que se opera a cada nova publicação está na perspectiva de estreitar laços entre criadores e o público almejado. A partir do momento em que uma obra se lança ao mundo, já não é mais a mesma, pois seus leitores e apreciadores, com suas esferas interpretativas próprias e quiçá singulares, conferem a ela um status de renovação sem a perda do seu ímpeto originário. Nesse exercício permanente e dinâmico de aglutinações, traçamos percursos dotados de certa autonomia quando, por exemplo, contemplamos e também internalizamos as sensações tidas a partir da expressão de Marcantonio, artista que expõe entre nós a espinha dorsal de sua epifania mundana. Compartilhando também desse sentimento libertário, apreendemos as vivências poéticas de gente como Juliana Krapp, Dheyne de Souza, Zeh Gustavo, Madjer de Souza Pontes, Winston Morales Chavarro e Pedro Du Bois. Na entrevista com a escritora Helena Terra, os densos caminhos da palavra atravessam a vida de uma autora que veio fazer morada entre nós. Na seara da música, o mais recente disco dos pernambucanos da Nação Zumbi vira alvo dos apontamentos de Larissa Mendes. Os diferentes modos de usar a vida enredam os contos de Paulo Bono, Thays Berbe e Mariza Lourenço. O mais novo livro do poeta Zeh Gustavo é tema das precisas observações de Leonardo D’Avila. No caderno de cinema, todas as atenções estão voltadas para o intenso Tatuagem, filme dirigido por Hilton Lacerda. O espírito reinante na Leva que agora surge rende homenagens ao saudoso escritor e parceiro Nilto Maciel, autor que dedicou imensa parte de sua vida à sua cumplicidade com as palavras. Com ele, aprendemos, dentre outras coisas, a cultivar a continuidade dos caminhos editoriais. Assim, fundamos mais uma especial edição.

Os Leveiros

 

 

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91ª Leva - 05/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Mariza Lourenço

 

Arte: Marcantonio

A HERANÇA

Os pequenos olhos de Lúcio ficaram ainda menores quando viu a mulher pendurar cuidadosamente na parede, e em lugar de honra, o enorme retrato de seu tio-avô Aurélio, morto recentemente.  Feio demais, pensou o marido. A boca, no entanto, salivou, quando pensou que a feiúra nada significava se comparada à fortuna do velho.  Após a leitura do testamento, que foi presenciada por meia dúzia de gatos pingados escolhidos a dedo, a mulher não deu um pio. Ele esperou pacientemente por uma boa notícia, mas o tempo passou e nada. A conta bancária continuava da mesma maneira. E ele em queda vertiginosa rumo a mais absoluta miséria. Rico jamais havia sido, é bem verdade, mas nunca, como agora, precisara tanto de dinheiro. Questão de vida ou de morte, mais de morte, se computadas as ameaças dos agiotas a quem devia uma boa quantia. Resolveu perguntar a ela o que, afinal, o velhote lhe deixara. “Ora, o retrato e a coleção de armas brancas. Ele sabia que eu adorava polir suas facas.” “Estúpida! Em que mato sem cachorro fui me meter!” Ela não deu um pio. Em homenagem ao tio, escolheu as segundas para polir as armas. Lúcio observava a mulher desembainhar as facas, limpá-las e, novamente, guardá-las dentro das bonitas caixas de madeira. O ritual exasperava Lúcio. Ela sabia. E gostava. Ela sabia dos jogos, das mulheres, das dívidas, da ganância, do desprezo. E do coração fraco, além do caráter. Ela sabia. Tão pequena e serena. Tomou gosto. Todas as segundas desembainhava e polia. Todas as segundas experimentava o fio e o corte. Às vezes, nos dedos, outras, nas coxas. O sangue ralo gotejava como uma mísera torneira sem conserto. E a tudo ele espreitava. Com irritação, de início. Depois, com pavor. Pior era a calmaria dos olhos de Emma, a placidez medonha da satisfação. O coração era fraco, ela sabia. Mais fraca e providencial, porém, foi a veia partida, esmigalhando a razão. Melhor tivesse morrido. “Adonaldo, por favor, apronte Lúcio, vista-lhe um terno bem bonito. Hoje, às dez, vem aqui um retratista argentino, o mesmo que pintou o quadro de meu falecido tio. Não sei se já lhe contei, Lúcio, mas conheço muitos artistas e o retrato de titio foi um presente meu, pouco antes de sua morte. Ficou tão feliz, o pobrezinho. Tão vaidoso.” “Senhora, será que ele a compreende?” Ela não respondeu. Colocou-se cara a cara com o homem na cadeira de rodas. Olhou-o demoradamente e, com satisfação, percebeu os olhinhos apequenarem-se ainda mais.

 

 

***

 

 

TERROR NOTURNO

 

Acordou suado à hora de sempre. Nessa noite, no entanto, além do suor, sobreveio o sufocamento. Não aguentou, cutucou a mulher. Ela abriu um olho.

— Na festa do nosso casamento você me perguntou quem era aquele ‘cara estranho e triste’, e eu respondi que não sabia, lembra?

— Não…

— Mas eu sabia, ele era bacana demais. Bem mais do que um amigo. Inseparáveis: cama, mesa e banho. E eu sacaneei. Arrependimento, se matasse…

Ela abriu o outro olho. Não fez questão de conhecer o resto da história.

— Peça desculpa a ele, ué.

— Nem sei por onde ele anda.

— Peça perdão a Deus, dá no mesmo.

— Você sabe que eu não acredito em Deus.

— Então não encha a minha santa paciência.

Voltaram a dormir. Pela manhã, à mesa do café, ele estava recomposto e ela, absolutamente encantadora, enfiada num vestidinho lilás.

Mariza Lourenço, advogada e escritora, é coeditora da Germina – Revista de Literatura & Arte e do site Escritoras Suicidas.

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74ª Leva - 12/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Catharina Suleiman

VI

Tudo vive em mim. Tudo se entranha
Na minha tumultuada vida. E porisso
Não te enganas, homem, meu irmão,
Quando dizes na noite, que só a mim me vejo.
Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passam
Nas manhãs, carregados de medo, de pobreza,
O olhar aguado, todos eles em mim,
Porque o poeta é irmão do escondido das gentes
Descobre além da aparência, é antes de tudo
LIVRE, e porisso conhece. Quando o poeta fala
Fala do seu quarto, não fala do palanque,
Não está no comício, não deseja riqueza
Não barganha, sabe que o ouro é sangue
Tem os olhos no espírito do homem
No possível infinito. Sabe de cada um
A própria fome. E porque é assim, eu te peço:
Escuta-me. Olha-me. Enquanto vive um poeta
O homem está vivo.

(Hilda Hilst em Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)

***

Mais um ano se prepara para desferir seus últimos golpes. Em seu derradeiro canto, quiçá traga até nós o gosto pelo saber e sabor das coisas fugidias. Não pelo curioso prazer de sermos tentados pelo efêmero que nos espreita permanentemente, mas sim pela ideia através da qual somos impelidos a acreditar que a única coisa que existe de fato é o presente. Já que nos são caros os efeitos da passagem do tempo, convém evitar desperdícios e marcar o solo do mundo com a marca indelével de nossas epifanias. Por isso, necessitamos enxergar além do óbvio. Por isso, urge seguir adiante mesmo com os equívocos que nos assolam os sentidos. Se ainda assim a devastação for sombra constante, é porque uma suposta normalidade nos conduz à margem de precipícios edificantes. Quem serão os arautos das novidades amanhecidas entre nós? Talvez todos aqueles que ousem perpetrar os caminhos pouco convencionais da existência. Qual um balançar de águas que nunca mais tornarão a ser as mesmas, viver pode representar a revelação de notícias pouco confortáveis e, por assim dizer, incompatíveis com nossas minicertezas. E como é bom não brigarmos pela patente da razão. Quem sabe os poetas, muitas vezes tidos como delirantes e loucos, possam nos servir de guia nessa delicada jornada rumo ao centro de nós mesmos. Onde a nostalgia do futuro a nos sorrir em toda sua tirania? A arte, então, vai prolongando nossa espécie, fazendo-nos tatear cada vez mais as paredes pelas quais imaginamos algum resquício de liberdade. Que sejamos, pois, perpetuados pelos ecos incontidos nos versos de gente como Nina Rizzi, Marcelo de Novaes, Helena Terra Camargo, Dheyne de Souza e Marcus Groza. Entre palavras e outros tantos destinos por aqui lançados, há espaço inconteste para os sensíveis registros fotográficos de Catharina Suleiman. Noutro ponto, interpelamos o escritor André de Leones numa conversa sobre suas travessias literárias. No Jogo de Cena, Geraldo Lima promove incursões no teatro de Arthur Miller. Outros enlaces de vida nos são contados por Mariza Lourenço, Rodrigo Novaes de Almeida e Nelson Alexandre. A escritora Adriana Zapparoli nos convida à leitura de Nagasakipanema, livro de poemas do uruguaio Victor Sosa. O olhar atento de Larissa Mendes atravessa a delicada temática de Amor, novo filme de Michael Haneke. Sob a agulha de nosso Gramofone, gira a sonoridade da banda mineira Transmissor. Fecha-se mais um ciclo na Diversos Afins e o gosto por novas descobertas se agiganta. Que 2013 revele-nos, como versificava Hilda Hilst, o escondido das gentes!

 

 

Os Leveiros

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

A Filha da Cidade

Mariza Lourenço

 

Foto: Catharina Suleiman

 

O nome não importa e não creio faça diferença a essa altura do campeonato. Nem a idade. Ou a cidade onde morava. Pequena o bastante para que todos soubessem de sua vida e a recontassem, com certo exagero, a esta que escreve por mera curiosidade. Chamemo-la, portanto, de senhorita A., já na casa dos quarenta, relativamente agradável à vista, filha única entre nove irmãos. A sexta, para ser mais exata. E a única que restou naquela casa construída com o esforço de seu pai, militar reformado. Os irmãos partiram para cidades maiores. E só os viu novamente no enterro do pai, época da partilha. Deixaram para ela a casa e as parcas rendas que recebia mensalmente a título de pensão.

Senhorita A. não gostava de televisão, mas tinha verdadeiro apego ao rádio de mogno e às notícias. E às músicas que o aparelho retransmitia dia e noite. A inversão das horas era detalhe miúdo. Noite e dia. Salsa, merengue, fuga de Bach, Vicente Celestino. Ora, quem passasse em frente à casa saberia. A resistência do aparelho era impressionante. E sua sonoridade, quase pura, também. Para o mundo, ou pequena vila, era música o tempo inteiro. Para ela, supõe-se… Ah! Suposições, afinal, sempre serão especulativas. Então, que fosse somente música para ela. Todos já haviam se habituado ao som do rádio e à ausência da senhorita A. nos eventos mundanos. Ela não saía de casa. Mas escutava rádio o tempo todo.

Um dia a música calou. Acharam estranho, mas não deram tanta importância àquele silêncio repentino. O rádio, talvez, tivesse se quebrado de tão velho. Ou ela, a senhorita A., estivesse cansada de tanta música. Não se sabe. Até que um cheiro nauseabundo tomou conta de tudo. Um cheiro estranho e aterrorizante, como se todos os segredos e pecadilhos daquela cidade, ou o que ela escondia, pairassem no ar. As pessoas começaram a evitar umas às outras. A desconfiança, agora, era sentimento comum. Um dia a música retornou, baixa a princípio. Mais alta com o passar das horas. Belas músicas encheram o ar de certa esperança. Somente, então, se deram conta dos dias de ausência da senhorita A. e da música que, enfim, estava de volta, encobrindo o cheiro ruim, a desconfiança, os pecados. Bateram à sua porta. Ninguém atendeu. Arrombaram a porta. Ela não estava, mas, em sua cama, uma criança recém-nascida mexia as mãos. Fecharam a porta, levando embora o pequeno segredo.

Da senhorita A. nunca mais se soube.

(Mariza Lourenço (Valinhos/SP) é escritora e advogada. Integra as antologias: “Saciedade dos Poetas Vivos”, Vol. VI, organizada por Leila Míccolis e Urhacy Faustino (2008); “Dedo de moça – uma antologia das escritoras suicidas” (2009); “Coisas de Mulher”, organizada pelo Conselho Estadual da Condição Feminina (2010); “A poesia é para comer”, organizada por Ana Vidal (2011) e “Amar, Verbo Atemporal”, organizada por Celina Portocarrero (2012). É Coeditora da Germina – Revista de Literatura e Arte e das Escritoras Suicidas. Contato: marizalourenco@uol.com.br )