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137ª Leva - 04/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Elizabeth Hazin

 

“A insustentável leveza da rosa”: Claudio Parreira

 

MORTE

 

Morte não é quando se morre apenas
quando os dias já não tornam
e a música cessa:

morte é sempre
ou de repente
é vez por outra

morre-se para tantas coisas
não só para a vida que escorre em fios
(por vezes entrelaçáveis)

também morre a palavra
se não diz o novo
se ao atingir a forma cristalizada
não a dissolve.

 

 

 

***

 

 

 

ENIGMA

 

O poema não chega à mão
quando se quer
movido pela fria
aragem do pensamento

mistura de nuvem e armadilha
tampouco nos salta do coração:
as palavras têm seu preço
e muitas vezes só nos resta
o sonho da noite anterior
fragmentado e mudo.

 

 

 

***

 

 

 

NOTURNO

 

Noites, a difícil travessia:
são manhãs escuras
compridas de silenciosas
e vazias. Vazias de tudo.
Sobretudo de sonhos
única possível alegria
em tempos de miséria.

De tanto não dormir
começo a discernir no escuro
o cinza das horas
matizes do tempo
e cavalgo a noite de pouca lua
adivinhando a cada instante
a manhã salvadora.

Acompanho no céu o percurso de Júpiter
ou dos resquícios da lua minguando sempre
e sei:
a de hoje não é a de ontem
e a de amanhã será menos
(uma ambulância rasga o espaço da rua).

Como não durmo, descubro:
as noites não são iguais
cada uma tem seu nome
e o traz no dorso
impresso
( por que não o leio?)
Do lado avesso do sono
resta-me apenas meu verso.

 

 

 

***

 

 

 

SILÊNCIO

 

Fio de silêncio o meu amor
(só o silêncio é permitido)
e aturdida escuto o eco
do silêncio mesmo – ó castigo –
reabrindo sempre a ferida
– a mesma – em que ponho o meu dedo
ó sangue esse rio corrente
em que – de medo – afogo o medo
de excluir para sempre o silêncio
com que fio o amor e desfio
as cordas que batem no peito
essa canção afogada no rio.

 

 

 

***

 

 

 

EU E BORGES

 

A cada noite
repito o gesto
de abrir os olhos
………………no sono
e – pelo avesso –
olhar e ver
– por dentro da noite –
do outro lado
o descomeço.

 

 

 

***

 

 

 

URGÊNCIA

 

sempre escrevendo
alguma coisa mentalmente
sem coragem de mergulhar a cara no papel
e me perder no emaranhado de linhas
sempre
essa vaga necessidade de escrever
(de dizer algo
terrivelmente essencial à minha vida)
jamais concretizada

preciso anotar
todas as minhas lembranças
todos os meus sonhos
todos os livros que li
todas as brincadeiras da infância
todas as receitas de minha avó
todas as luas que vi
antes que tempo e pó
tornem ilegível a página.

 

Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.

 

 

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129ª Leva - 01/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Elizabeth Hazin

 

Ilustração: Joana Velozo

 

CURVA DE SAN MARTINO

 

Para que a pressa
se a vida inteira se tece de acasos?
chove sobre as ruínas do castelo
como outrora terá chovido
sobre as pedras recém-erguidas
para que a pressa
se apenas lento
…………………………..lento
………………………………………….lento
o cinzel do tempo
nivela e repara?
À minha revelia
todo ponto é feito e desfeito:
sou um detalhe que passa
assim como – vista do trem –
toda a paisagem.

Como arrancar das pedras
a verdade que encarnam?
tudo agora é anódino e pálido
(até mesmo o pálio
no centro da praça
que de graça se oferece
a nossos olhos desarmados).
Onde o esplendor medieval
que colorimos de bandeiras e de cavalos?
levianamente
pisamos as pedras há séculos dispostas
e nosso coração nem sabe
dos suspiros e das noites
nem sabe da beleza
nem sabe.

 

 

 

***

 

 

 

Deixa sentar a poeira do tempo
debruça-te sobre mim.
Foi de conviver com a luz e com a água
essa minha lucidez esse lodo
esse gosto amargo demais
esse meu lado avesso e morto.
Não tenho margens nem porto
não possuo uma única ilha
mergulha em mim
não mais que tua mão
e acompanha minha vigília.

Velar é preciso
(é como navegar)
teu rosto impermeável
Não se molhará.

 

 

 

***

 

 

 

INVENÇÃO

 

Para que mais do que já temos?

nossas roupagens humanas
nossa fragilidade
o areal que atravessamos
nossos parcos segredos:

tudo é a vida que vivemos
deveria ser suficiente.

Para que inventarmos
o Amor e seu desassossego?

 

 

 

***

 

 

 

NO ESPELHO (II)

 

Eu te acendo
e me vejo:
sonhos de infinito
esse jeito tosco
meu andar comprido
meu olhar tão fosco
o amor perdido
– não vivi de todo.

Perdi minha ambição
(lembrança antiga)
já não brinco de poemas
algo se desfez
perdi – razão da vida –
o meu canto.
Já não me comovem sonhos
nem sonhos há que me movam.
Sobra a noite
e em teu vidro – aceso –
o meu espanto.

 

 

 

***

 

 

 

HOMO LUDENS

 

Lúdico animal o homem
e esse ludismo o transforma
em carta marcada embora
ele nunca saiba a hora
certa xequemate (o rei
morreu? outro rei é posto)
nada se mostra em seu rosto
que não esse jogo vário
de mil nomes – estuário
de todos os seus desejos.
Que mar, que mar os espera?
Não há. O que existe é mera
ilusão – regra do jogo:
pensa-se tirar a sorte
porém morre-se no fogo.

 

 

 

***

 

 

 

Uma
duas
três taças
e o poema se derrama
– vermelho e ácido –
queimando minha garganta

toda palavra é um pássaro escarlate
que voa sempre
(ainda quando me calo)
no tempo escasso da tarde

 

Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.