Categorias
134ª Leva - 01/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Romério Rômulo

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

se amo o teu olho dilatado

 

o anjo da morte me chega, olho de cobra
sua pupila ardente me retalha
meu foro íntimo é um corte de navalha

o mundo por inteiro é uma dobra.

 

2.
nasci agora e o meu amor nasceu
da tua pele feita madrugada.

quando eu escrevo é que a emoção morreu.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

aqui, eu, jovem cão, enclausurado
bebi da fonte amarga do pecado

meu barco torto, bêbado, ardente
cortou a minha alma de indecente

em tudo fez-se a dura melodia
aguada do meu corpo que fugia

no fel dos candelabros dos infernos
ardi no fogo de 40 invernos.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

que eu fosse a mulher do meu espanto

a minha alma fêmea destravada
a minha alma rígida se encanta
com a minha alma vivida de espanto
quando a paixão caminha sobre o nada

se a paixão que bebo no meu canto
forjar a minha mão enclausurada
eu mulher vívida que peso cada pranto
relato bêbada a paixão que me embriaga

tomada da miséria e do quebranto
que pisa a minha alma depravada
eu verto sobre a carne o meu encanto

que eu fosse todo o corpo em que eu levanto
que eu fosse a paixão mais do que vaga
que eu fosse a mulher do meu espanto!

 

 

 

 

***

 

 

 

 

ítaca e áfrica

 

de ítaca roubei helenas tantas
em áfrica montei os sete mares
casei-me com mulheres todas santas

cobri meu corpo gasto de alamares.

as vidas são mais tantas e mais quantas
em muros e desejos sacripantas
castrados e vertidos pelos ares?

poetas são delírios bem vulgares.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

a língua de camões

 

1.
mais amaríeis meu cortado canto
se mais soubésseis como sois amada
e navegásseis pelo meu espanto.

 

2.
se me amásseis tamanho eu vos diria
da dura solidão dos precipícios
da falsa imensidão dos sodalícios
da cortada razão dos meus ofícios

se me amásseis por certo eu vos diria

e a minha voz em voz por todo canto
decerto iria quebrar-vos em espanto.

 

3.
senhora, eu vos amei por tanto, em tudo
que de camões busquei o meu primeiro
estado de um estado verdadeiro
e vos cantei canções que são veludo.

 

4.
se os arcabouços meus em vós levásseis
e se dormísseis no meu louco porto
e mais amásseis o meu antro torto
e se acordásseis meu poema morto

faríeis meus duelos bem mais fáceis.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

“eu que já fui cavalo e cavaleiro”

 

eu que já fui cavalo e cavaleiro
rangi os trapos num cerrado chucro,
pavoneei às feras meus intentos,
sofri imensidões como se gotas.

cavalo e cavaleiro que já fui
por anos repisados de novilhos
brandi os versos como fossem trilhos
de intensa solidão. agora rui

o meu intento de quixote e sancho
ter uma dulce, marília, o que me leva
a ser cavalo, cavaleiro e treva
pelos adros das ilhas que não sei.

eu que já fui cavalo e cavaleiro
de tronos abissais em que entorpeço
arranco os estilhaços de um berreiro
e me destravo, nu, no meu avesso.

cavalo e cavaleiro fui.
cavalo, cavaleiro e rei.

 

Romério Rômulo é professor de Economia Política da Universidade  Federal de Ouro Preto, MG. Poeta e editor, tem publicados os livros de poesia “Bené para Flauta & Murilo” (1990), a caixa “Tempo Quando” (4 livros, 2 volumes, 1996), “Matéria  Bruta” (2006), “Per Augusto & Machina” (2009), “Si yo fuera Maradona”(bilingue,português/espanhol, 2015), entre outros. Tem uma coluna semanal de poesias no Jornal GGN, editado pelos jornalistas Lourdes e Luis Nassif. É um dos fundadores do Instituto Cultural Carlos Scliar, com sede no Rio de Janeiro.

 

 

Categorias
112ª Leva - 06/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Romério Rômulo

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

sinto, marília, dizer

 

se eu caminho, marília
nas estradas de ouro preto
sinto teu olho rasgar
o lacre da minha carne

sinto o duro e permanente
viés com que interrogas
meus estratos seminais
que só pulsam do teu lado

sinto, marília, dizer
que no teu olho apagado
acabo de anoitecer

num mundo vitrificado
na morte mais indizível
de que alguém quer morrer.

 

 

***

 

 

fragmento de desarmar a morte

 

se todos morremos na estrada
o que fazer dos caminhos?

vou desarmá-los, amada.

 

 

***

 

 

tão bêbados de tudo, estes poetas

 

poetas são malditos e no espanto
de revelar limites se martelam
há um poeta assim em cada canto
no redemunho do espanto que revelam.

poetas são em pétalas, cruéis
com tintas destiladas pela mão
seus dedos se arrebentam em pincéis
drogados pela cor da solidão.

tão bêbados de tudo, estes poetas
de ansiedade e insônia vão tomados
ao percorrer a noite pelas frestas
poetas são destroços renegados.

 

 

***

 

 

equação

 

eu sigo puto.
reajo em fogo:

viver é bruto.

 

 

***

 

 

Fragmentos, 12

 

1.
trago comigo
uma batalha solta
uma revolta puta
uma babel envolta.
2.
um anjo me parece pouco e lento
pra todas as batalhas que sustento.

 

 

***

 

 

chame qualquer coisa que me caiba

 

se eu brotar do silêncio
chame a vida
chame qualquer coisa
que me caiba

seja poesia, mulher ou desavença.

 

 

***

 

 

quando as tripas da noite me inventam

 

quando as tripas da noite me envolvem
sou um homem retinto de pavores:
30 colunas perdidas me comovem

quando as tripas da noite me arrematam
e sou um peso morto das palavras
30 colunas tortas me chibatam

e se as tripas da noite me embriagam
30 vozes me ardem o sossego
pelas 30 colunas que me vagam

quando as tripas da noite me arrebentam
e 30 corvos me roem a carcaça
são as tripas da noite que me inventam.

 

Romério Rômulo é professor de economia política da Universidade Federal de Ouro Preto, UFOP, MG. Poeta e editor, publicou vários livros de poesia, entre eles “bené para flauta & murilo” (1990), a caixa “tempo quando” (4 livros em 2 volumes, 1996), “matéria bruta” (2006),”per augusto & machina”, 2009, “i ah, si yo fuera maradona!” (bilíngue português/espanhol, 2015).Escreve semanalmente uma coluna de poesias no Jornal GGN, editado pelos jornalistas Lourdes e Luis Nassif. É um dos fundadores do Instituto Cultural Carlos Scliar, com sede no Rio de Janeiro.

 

 

Categorias
96ª Leva - 10/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Luciana Marinho

 

Foto: Tomás Casares

 

à margem do caminho

 

vieram de onde o tempo é aragem funda nos olhos.
trouxeram o despenhadeiro ao fim dos pés.
a luz os percorreu e pôs, em suas bocas,
rios afundados em vozes, amuletos.

a terra sangrou os confins de seus corpos,
suas mãos peregrinas dos sargaços de um vento.

 

 

***

 

 

linha do tiro

 

ela caminha na linha do tiro.
sete anos de pesadelos escoados pelo corpo.
ata o ar, com arame, aos fossos de seu vestido.

martelo de pele e cartilagem,
o tempo a trai quando não a envelhece.

ao largo do sorvedouro,
ela resta antiga.

 

 

***

 

 

matéria bruta

 

no fundo das mãos há o ponto cego
em que ninguém pode tocar.
por onde passa a corda usada pelos presos
para a fuga.

posso começar pelo fosso.
pela sombra em que éramos a vertigem do pai.
a luz golpeada nos pés ao nascer.
ao nascer
e não estar na vida.

a água toma o fôlego restante dos dias.

 

 

***

 

 

uma só terra

 

desce-me como uma sede
a réstia do que sou, amortecida, fundida em pedra.
dálias ladeiam os vergões do corpo,
as frestas da casa na abertura dos olhos.
há uma voz que não pronuncia o dia seguinte.
água de minhas mãos
despenhadeiro rodeando
meu pescoço.

 

 

***

 

 

houvera

 

o tempo não se lembra de nós
nem os girassóis nos conhecem mais.
a nossa mão é uma lenda para o fogo
a água
o ar
a terra que não mais nos habita.

desde que as asas morreram no pulmão dos homens,
a esperança migrou para a placenta dos rios
onde seres se curvam às suas fontes
de calcário, erva, peixe, nuvem.

 

Luciana Marinho nasceu em Recife, onde atua como professora universitária e psicóloga clínica. Participou da antologia “Desvio para o vermelho: treze poetas brasileiros contemporâneos” (2012), organizada por Marceli Andresa Becker, em uma produção do Centro Cultural São Paulo.