Após nove anos de trajetória, percebemos que os caminhos culturais são definitivamente recompensadores. E o mais relevante disso tudo está representado nos encontros que aqui ocorreram. Nem de longe foram poucos e estão dispersos por todas as frentes da revista. Aos poucos, poetas, fotógrafos, contistas, artistas plásticos, músicos e outras tantas vozes foram nos ajudando a compreender melhor o significado de tocar adiante um projeto editorial. Agregar pessoas em torno de um objetivo comum é algo bem mais valioso do que um mero inventário numérico de feitos expostos. Não está na quantidade de palavras e imagens o impacto maior, mas sim na intensidade com a qual nossos sentidos são surpreendidos pelos arremates dos criadores. Durante toda a nossa jornada, as janelas poéticas têm sido importantes veículos de divulgação de autores das mais diferentes estéticas e estilos. No que se refere à prosa, há também uma imensa gama de contistas que, com suas visões de mundo, constroem múltiplos modos de se erguer histórias. Um dos cadernos mais valiosos do nosso trabalho é o de entrevistas, pois ali se insere um amplo espectro de escutas, fomentado pelo diálogo com criadores dos mais variados campos artísticos. E todas as conversas servem notadamente para compreendermos os elementos motivadores do trabalho de cada autor. No quesito resenhas, a adesão de colaboradores se multiplica vigorosamente nos campos do cinema, música, teatro e literatura. Num propósito de harmonizar textos e imagens, o papel de artistas plásticos e fotógrafos é fundamental para a completude de um projeto que pretende ser também visual. E, para que os caminhos continuem, outros encontros são necessários. Por agora, as veredas da poesia trazem versos de Susanna Busato, Ricardo Paião, Carla Diacov, Matheus José Mineiro, Camila Charry Noriega e Michelle Mendonça. Numa entrevista conduzida por Sérgio Tavares, a escritora Nara Vidal faz importantes considerações a cerca do ofício literário. O escritor Anderson Fonseca destaca importantes obras de Franz Kafka, Pascal Bruckner e Augusto Monterroso. Quando o assunto é construir narrativas, presenciamos as instigantes linhas de Rodrigo Melo, Priscila Lira e João Bosco. Dando seguimento às suas investidas cinéfilas, Larissa Mendes convida-nos a assistir o filme húngaro Deus Branco. No terreno da música, acolhemos o esmerado texto de Graccho Braz Peixoto sobre o mais novo disco do cantor e compositor Mário Montaut. Dialogando com as expressões de agora, a fotógrafa Ana Pérola Pacheco expõe imagens marcantes de seu trabalho com a luz. Assim, uma outra edição surge, plena em descobertas e gratidão. Eis a 102ª Leva!
a vida manuseia a gente com foice e facão, fervoroso boia fria.
Sabe que o coração
é material corrosivo o qual exige-se luvas para tocá-lo.
Desembestada, a vaca erupção. …………………………esmaga verduras e hortaliças, …………………caniveta a carótida, lesiona a panturrilha , ………………………..gás propano no olho da faísca.
Contudo ……………………………..cotidianamente …………uma força resistente, com ímpeto de búfalos e bisões,
prossegue subindo a minha cabeça ………………………esta ladeira com o calçamento de terra e bloquetes de pedras.
O medo a insegurança são substâncias tóxicas no fígado da gente.
Entre o suflê e a fuzilaria entre o mudra e a lâmina da serraria …………………………………..aturamo-nos.
amor, rapé alucinógeno no meio do coma e dos transtornos do alumínio. ………………….o poema é aquele que oxigena o sangue ………………………..quando encontra-se esmagado ……………entre os ferrões de aço inoxidável da formiga saúva …………………….que mede o tamanho de uma cidade. ……………….o poema é o analgésico o poema é o sedante. …………………..vida, diária colheita de jiquiris e urtigas.
carreta que transporta querosene tombando numa rodovia . …………………………..Com esta sensação prossigo
sensação de barranco e chuva
diante do galpão da indústria de material bélico; …………………esfregar de folhas de cansanção nas mãos ; ………..fogos de artificio chuva de raios piruetando na sobrancelha ; ………………………..uma outra espécie de horizonte ………………………mais cor mostarda no nascer do sol …………………………mais cor beterraba no por do sol …………………mais cor de jabuticaba estelar na madrugada …………………….chovendo debaixo dos seus supercílios.
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FULIGEM ESMURRA AS SAMAMBAIAS
..o operador da retroescavadeira, a caixa de e-mails ..o fuzuê de bytes o pau a pique eletroeletrônico
sondas radiofônicas, quilohertz & farmacologia no furdunço cotidiano
maquinário industrial na beira das nascentes do meu rio;
atrito, abrupto abutre …………………….no silêncio vermelho do pós parto de uma rinoceronte branca.
Como o sossego do minério encrustado no intestino do rochedo .o estresse almeja …….milhões de volts, noventa mil cavalos, trinta mil gigabytes …que há no tráfego calmo sanfonado cor de cores fantásticas da lagarta .
Arco íris apresentando-se na Terra com o seu formato que rasteja. ..enquanto a vida trata a alma e o coração da gente ……………………usando movimentos de um açougueiro . …………………………Disso o estar-se sempre ensopado ……………………….com a alucinação de um carvoeiro ………………….encantado ao ver o canário chover amarelo ………………………e o azul babar verdes maritacas no céu. ..locomotiva movida a vapor e euforia fumegando dentro da espinha.
solda durex durepox
naquelas coisas que já não aproximam-se mais por meio de um abraço. ………………implante de tártaros e arames farpados na boca ………………..e luxações em algum tendão da silaba mão . ……………..retorno a missa de beatificação da palavra Ânimo ……………….este analgésico, este sedativo, este entorpecente ……………….em meio a massoterapia e o alicate de pressão. …..Pretendo ser medido por um sextante e ser visto por telescópios
e mesmo com esta tarântula de bário …………………………………..metal alcalino ………………………cuja picada causa febre e delírio …………………..é corte no supercílio do meu horizonte.
sobrevivo,
momento de estalo que a nuvem descarrega uma chuva de raio ………………ou mão que desfolha um galho de manjericão.
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PARTÍCULAS DA GALÁXIA PUPILA
relâmpagos, raios e trovoadas se hospedando no céu da minha boca.
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aqui por dentro de mim
está tão luminoso
que até mariposas me sobrevoam.
*
dentro do pão sovado não se passa mais manteiga de Minas,
depositam fios de gilete e navalhas.
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estou no quadril de uma zebra, e sinto
pressionado pelo maxilar de uma onça parda inoxidável.
*
um rinoceronte branco entra pela axila
para ir rugir no castanho das pupilas
*
ouço um rottweiler apelidado de cidade
com seu metálico ranger de ferro
milimetricamente mira um bote na minha coxa.
*
às vezes
o verde musgo do meu peito
fica comprimido dentro da mandíbula de um jacaré do papo amarelo.
*
que as verduras e as estrelas nos usem como vastidão.
*
já que o silêncio, enfermo e abandonado no branco sujo
cirúrgico do mundo
deita agonizando sobre a maca hospitalar.
*
procuro uma bicicleta Poti
para pedalar dentro da palavra afeto.
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TODO DIAMANTE BROTA NO ESCURO E PERPASSA O ESMERIL
todas estas inquietações e apreensões, ……….cromado tatu canastra que escava a região do pescoço ………………………..Máquina triturando nossa calma.
dentes de titânio de um labrador
e a mandíbula de brita da moreia
disputam a primeira mordida na textura deste coração crocante.
ser cãibras ..na mecatrônica pata deste javali que pisoteia nossos alfaces e nossas rúculas. …………………….embutir o sono de um carrinho de bebê ………………….e a procissão de um jabuti nas vias públicas ……………………..onde o sossego é desossado por hienas ………………………..e olhos são arrancados por abutres . …..Toda vez que sangro ou me queimo junto com o diesel de um caminhão …………………………o Poema aproxima-se de mim ………………………………….me coloca na garupa da sua bicicleta …………….e pedala pelas estradas de terra da palavra Ânimo;
velotrol colidindo com um tanque de guerra israelita; …………………………………….desengordurante;
enxada roçando este terreno íngreme que é a vida;
água mineral lençol freático escorrendo do tórax diante da aridez dos dias;
proteína esmurrando a enfermidade; …………..embrião fervido nas caldeiras da Usina da Jatiboca.
Até aquele momento de não sentir mais a sua altura, …………………comprimento e nem espessura no Planeta, ………………ver o corpo como propulsão de um jato de luz ………………………………………………………………………….de calor de cor parda. …………………………Em meio a anemias e toxinas ………….abocanho a vida com ímpeto de maxilar de hipopótamo. ……………….Nuvem que pela primeira vez relampeja. ….dentes empolgados de cabra diante dos grãos desta ração que é viver.
Matheus José Mineiro é autor do livro A Cachoeira do Poema Na Fazenda Do Seu Astra (2013, Selo Petrópolis Inc.). Produz os fanzines Estrondo Na Bolsa Fetal, Galáxia Pupila, Apologia Poética, Mais Um Cadim de Poesia Aí, Costelinha Com Quiabo e Poesia.