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146ª Leva - 01/2022 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A trajetória de um artista não se mede apenas pela quantidade de feitos construídos em sua caminhada, mas principalmente pela capacidade que seu trabalho tem de impactar a audiência que lhe interessa. Ao longo dos anos, as vivências pela arte vão engendrando saberes e sabores, moldando os ímpetos criativos, impulsionando novas ideias. E quando falamos especialmente de teatro, supomos de imediato a força que se estabelece na relação entre obras e o público.

A arte teatral prima pela captura do instante, momento em que as atenções do espectador se voltam para todo o conjunto que lhes é ofertado. Seu efeito é instantâneo, um gozo do efêmero em quem está experimentando a recepção da mescla entre texto e encenação. Assim, o legado maior desse múltiplo território de sensações busca abrigo na memória, sua relevante aliada. Sobretudo agora, no período pandêmico que nos acomete, nunca fez tanta falta vivenciar o ato de estar diante de um espetáculo teatral.

Não são poucos os nomes que historicamente edificaram o teatro brasileiro, fizeram desta nobre arte um território rico em possibilidades e, acima de tudo, ideias que movimentam sensações das mais diversas. No contexto baiano, é impossível falar de teatro sem lembrar de alguém como Paulo Atto. E falar desse dramaturgo é reverberar sua potência criativa para além dos espaços regionais e brasileiros, posto que sua contribuição para a arte cênica encontra também abrigo em paragens internacionais.

Mas o teatro a que Paulo Atto se propõe fazer perpassa a reflexão pungente sobre a condição humana em suas variadas formas de acepção. Interessa ao artista apresentar em seu trabalho a visão multifacetada que a humanidade pode sugerir. Combinando elementos oriundos da poesia a um forte eixo filosófico, Paulo marca sua obra com o signo da inquietude diante de um mundo que nos oferta mais dúvidas que certezas. Para mencionar apenas alguns aspectos, vemos brotar em seu ofício o traçado da sofisticação textual, a agilidade e inteligência dos diálogos de seus personagens.

Seja como diretor, dramaturgo e produtor cultural, dentre outras atribuições, Paulo trilha seu caminho na seara artística há quase 40 anos. Em sua trajetória, dirigiu mais de 30 espetáculos, muitos deles também apresentados nos Estados Unidos, América Latina e Europa, além de ter participado de inúmeros festivais, seminários e programas em vários países. São de sua autoria os livros “Até Delirar”, “Desmontando Shakespeare” e, mais recentemente, “Atto em 3 atos & memórias da censura”, este último assinalando pontos marcantes de sua carreira. Pelo texto dramático “A Travessia do Grão Profundo”, foi agraciado com o Prêmio Selo João Ubaldo Ribeiro – Ano III. Seu engajamento como diretor artístico do Núcleo Caatinga da Cia de Teatro Avatar e do Festival Internacional de Teatro da Caatinga revela um espírito incansável em seus propósitos. E é este personagem mobilizador quem protagoniza agora uma conversa com a Diversos Afins. Nela, fica registrado um recorte sensível e inteligente sobre a caminhada de Paulo, esse artífice que, principalmente a partir das exposições contidas no seu mais recente livro, fala de suas experiências, percepções do presente, além de dar sentido renovado ao ato de resistir através da arte.

 

Foto: Waldson Alves

 

DA – Para além de uma nuance autobiográfica, “Atto em 3 atos & memórias da censura” é um verdadeiro recorte histórico do teatro baiano. Ali estão relatos pessoais, matérias jornalísticas e três peças fundamentais de sua carreira. A predileção pelo registro dessa memória vem também marcada por um impulso de sobrevivência da arte?

PAULO ATTO – O teatro é uma arte milenar, que já sobreviveu a revoluções tecnológicas, a guerras, a pestes, mesmo com seu caráter eminentemente fugaz e efêmero. Em parte, pela força do encontro essencialmente humano que promove tocando em muitos aspectos da vida e da alma humanas; por outro lado, pelo registro que dele ficou, primeiro em livros, os textos dramáticos gregos são um grande exemplo disso; também pelos registros e memórias que muitos artistas de teatro nos legaram. Acredito que tudo isso me mova no sentido de produzir esse registro  num país que despreza a memória em geral e a arte em particular, sobretudo neste momento constrangedor, obscurantista, no qual a ignorância ganha espaço. É um projeto ambicioso de, nos próximos anos, quando completarei 40 de ofício, poder deixar registrada toda a memória do meu trabalho e o contexto no qual ele aconteceu, na medida do possível. No Brasil estamos passando por um momento terrível para os artistas. Em geral, é necessário primeiro que os artistas sobrevivam para que a arte seja produzida e permaneça. Então, nesse sentido, sim, é também um impulso para a permanência da arte. 

 

DA – Um aspecto importante do seu livro é a reprodução integral do texto de algumas de suas peças, produções naturalmente marcadas por um determinado contexto criativo e temporal. Em que medida esse gesto pode ser entendido como um estímulo à produção de sentidos por parte do leitor de hoje? 

PAULO ATTO – Totalmente. E esse é o meu desejo como autor,  que o leitor  desempenhe um papel ativo com suas inferências e percepções, com seu entendimento sobre a obra. Portanto, cada leitor tem um papel relevante na ampliação de seus significados, gerando novos sentidos no momento desta interação leitor/autor. Considerando ainda que juntamente com os textos, que por si só já representam um universo a ser desvendado com seus personagens e enredos, eu publico um memorial de imprensa, todo o material gráfico das montagens com os programas, convites, cartazes e diversos outros registros que denomino de memorial afetivo. Onde também se encontram uma carta que Paulo Autran me escreveu sobre “A Confissão”, certificados de censura, um bilhete da atriz Andreia Elia no encerramento de uma temporada, um texto que escrevi para a Diversos Afins quando Paulo Autran morreu, anotações sobre minhas ideias e vivências sobre as montagens. Acredito que o leitor fica ainda mais estimulado a construir novos sentidos sobre os aspectos relacionais entre a obra literária, a montagem produzida naquele tempo/lugar e a memória que trago através de todos estes registros. Além de oferecer a minha contribuição para a  construção de uma memória do teatro na Bahia, acredito que levo o leitor a entender estas produções no seu tempo e a imaginá-las com todos estes estímulos e registros,  produzindo significados para si mesmo neste nosso momento, nessa nossa atualidade. Assim, falamos de hoje através do registro sobre a nossa vivência naquele tempo. Nossa, digo, minha como dramaturgo/diretor, com meus atores e equipes de criação.

 

DA – Por falar em produção de sentidos pelo leitor, ao lermos, por exemplo, o texto de “A Confissão”, sentimos que o eixo temático da peça não se desbota, pois vemos ali assuntos que se perpetuam no tempo. Um deles é perceber os aparatos de poder atuando para limitar as liberdades individuais no nível do corpo e dos desejos. O fato é que nossa sociedade não deixou de efetuar tais controles e não tem como não pensar em Foucault numa hora dessas. O que dizer sobre essa atmosfera? Alguma vez passou pela sua cabeça remontar esse espetáculo e ofertá-lo ao público dos dias atuais?

PAULO ATTO – Acredito que “A Confissão” seja um texto atemporal pois toca exatamente na questão do Poder e seus mecanismos de controle, seus aparatos de vigilância e punição, afinal a última fronteira que o poder quer chegar é ao nível dos corpos, do controle da relação dos corpos na interação social, cultural, biológica, com uma profunda carga de sexualidade e religião. “A Confissão” é o resultado de uma imensa pesquisa, de muitas leituras, de muitas fontes. Foucault foi, sem dúvida, de fundamental importância, fizemos também uma leitura psicanalítica do texto norteada pelas ideias e visões de Freud e Lacan.  Há uma influência, ainda que em segundo plano, do chamado Teatro do Absurdo em sua linguagem. A atmosfera do espetáculo traduziu a claustrofobia do texto, o jogo de espelhos dos personagens, o vazio da retórica dos discursos de dominação, a tortura como estratégia da verdade a qualquer preço, a desumanização das relações e a morte como destino inescapável para todos. Eu tinha 24 anos quando escrevi, e hoje, lendo o texto, às vezes penso: “O que se passava na cabeça deste jovem?” (risos). É um texto muito forte com um traço clássico, o que inclusive foi apontado na época pelo jornalista e crítico Marcelo Dantas. Jamais pensei em remontá-lo. Na verdade, chegamos a trabalhar num projeto audiovisual com nossa saudosa atriz Regina Dourado, no papel de A Morta, e um elenco maravilhoso. Infelizmente, por uma série de razões de produção e recursos o projeto não avançou apesar de termos gravado praticamente 70% das cenas no Castelo Garcia D’Ávila à noite. Agora pensando no nosso momento, percebo como este texto é atual, ele não envelheceu mesmo depois de 34 anos. Acredito que ele possa falar da realidade brasileira hoje e toda a sua estupidez, seu atraso, essa pretensa moral tenebrosa, essa postura retrógada e obscurantista. Acredito que hoje ele teria uma repercussão imensa. Acho que “A Confissão” hoje causaria muito mais incômodo porque tocaria fundo na essência do nosso engano.

 

Foto: Waldson Alves

 

DA – Esse mesmo jovem que foi capaz de criar um trabalho importante em “A Confissão” também era reconhecido num determinado momento como alguém dedicado à poesia. Diga-se de passagem, o texto de “Até Delirar” e “O Banquete” evidencia esse caráter poético de sua escrita. Há ainda um Paulo poeta em torno do qual podemos esperar algo em matéria de versos?

PAULO ATTO – Realmente eu comecei a minha aventura com as palavras pela poesia. Eu continuo cometendo poemas embora não os venha publicando. Digo que o dramaturgo é um poeta ao avesso. A poesia exige síntese e a dramaturgia  o excesso. Mas o dramaturgo não deixa de ser um construtor de poéticas. Tenho vontade de voltar a publicar poemas depois de tantos anos, na verdade essa vontade me perseguiu durante todo esse tempo e acho que o canal da poesia verteu no oceano do drama, mas continuo sim experimentando a poesia na construção de poemas sempre. Acredito que avançando nesse projeto editorial de lançar toda a minha obra dramática, que já é um esforço imenso,  haverá espaço para publicar sim um novo livro de poemas, quem sabe até mais de um (risos). Na verdade, foi o meu primeiro livro de poemas chamado “Até delirar” que originou um roteiro cênico que veio a se constituir no espetáculo “Até delirar” e também na obra teatral “O Banquete”, como está apresentado no livro.

 

DA – Um outro ponto importante de seu novo livro são os relatos das suas experiências com a censura. Na sua impressão, os censores eram figuras totalmente apartadas do conhecimento sobre a arte ou pairava alguma espécie de cinismo ideológico que correspondia meramente aos ditames do regime vigente?

PAULO ATTO – A censura de que eu falo no livro é uma censura institucional onde funcionários públicos eram pagos com o dinheiro dos nossos impostos para cercear a liberdade de expressão, impedir a realização de qualquer atividade artística ou cultural que, na cabeça dos censores, fosse uma ameaça ao regime, à ordem instituída ou a algum valor moral. Os critérios eram muito nebulosos porque, quando você tinha uma censura ou um corte, os censores explicitavam os motivos e quando você examina as razões dessas ações de censura verifica que são muito difusas,  que não são critérios objetivos, ao contrário, depende muito da impressão daquele indivíduo, então são as razões mais disparatadas e absurdas. De um lado, você tem uma falta de critérios objetivos e do outro tem a extrema ignorância desse corpo de censores, que eram pessoas sem absolutamente nenhum conhecimento nem de cultura nem de arte, nem de nada. Eram às vezes funcionários de carreira colocados naquela função ou mesmo contratados para exercer o papel de censor. Portanto, você tinha a união de dois fatores muito ruins: de um lado, um temor infundado e quase sempre paranóico e, do outro, a total falta de conhecimento, chegando muitas vezes à incapacidade de interpretação de texto. O que de outro modo às vezes era positivo,  porque como eles não conseguiam entender o que se apresentava, passavam coisas que, pela sofisticação da construção poética ou da linguagem empregada na cena, eles não conseguiam apreender o sentido real do que se queria dizer, e em alguns casos era uma crítica direta ao regime ou à situação política daquele momento. Acho que para as novas gerações de artistas do teatro essa seja uma experiência que eles não consigam nem mensurar, embora nós vejamos nesse momento uma volta, um ensaio de retorno de uma censura, ainda que não seja totalmente institucional, digo claramente institucional, mas uma censura velada com orientações sobre programações. Isso tem acontecido e tem sido noticiado pela imprensa, inclusive espetáculos de teatro que haviam sido programados para espaços geridos por órgãos ligados ao governo e que foram impedidos de entrar em cartaz por causa de alguma temática. Isso é censura. Vemos também o movimento de algumas pessoas da sociedade, cidadãos que se arvoram em defensores da moral e dos bons costumes. Isso é um asco. E justamente empregam os mesmos termos que foram muito utilizados nas alegações dos censores daquele período. Sem dúvida, nós temos aí um retrocesso imenso.

Foi quase impossível para mim falar desse período de início da minha trajetória teatral sem tocar no ponto da censura, porque ela esteve muito presente. As peças eram submetidas à Polícia  Federal, pois existia dentro do ministério da justiça uma divisão de censura de diversões públicas, o famigerado DCDP, e nós tínhamos que enviar com muita antecedência o texto que era lido por algum censor, que já poderia determinar cortes ou mesmo a proibição do texto.

Depois eles iam assistir ao ensaio antes da estreia, e novamente poderiam decidir por novos cortes ou mesmo a proibição daquela peça em todo território nacional. É uma coisa inconcebível para os artistas de hoje, os jovens sobretudo, imaginar que você teria que fazer um ensaio para um censor ou uma dupla de censores que poderiam decidir que isso aqui não vai poder ser apresentado ou que você tem que cortar uma cena inteira.  Eu não cheguei a ter peças proibidas, mas tive entraves e narro isso no livro, os problemas que enfrentei com a censura que foram complicados de administrar. Pense que eu estou falando no período de redemocratização. Em 1988, foi promulgada uma nova constituição onde a censura institucional foi extinta com todos os seus departamentos. Por isso, mesmo falando de algo que aconteceu há mais de 30 anos, eu termino falando do nosso momento atual, como um alerta para essa situação de obscurantismo imenso que a gente está vivendo e de uma tentativa de censurar os meios de comunicação e a expressão artística. Então, infelizmente o meu discurso foi atualizado pelos fatos que estamos passando, a realidade brasileira atualizou o meu discurso de 30 anos atrás. O que é lamentável e extremamente perigoso. Inclusive porque conta com o apoio e a anuência de uma parcela significativa da nossa sociedade que se sente representada em sua ignorância, em seu atraso e em sua estupidez. Poderia ser apenas um documento histórico, um retrato daquele momento, mas infelizmente estou falando também da nossa realidade hoje.

 

DA – Nosso teatro também carece de uma atenção para o quesito formação de plateia?

PAULO ATTO – Aí está uma pergunta simples de resposta complexa. O teatro enquanto linguagem precisa de uma aprendizagem, de uma vivência, de ser experienciado. Há gente que diz que não gosta de teatro sem jamais ter visto uma peça (risos). Eu trabalhei em algumas oportunidades com crianças, tanto ministrando oficinas, em projetos infanto-juvenis como em espetáculos infantis que dirigi, não foram muitos, acredito que uns sete espetáculos. Escrevi três textos para crianças: Colombo, A incrível viagem do Curupira e a Aventura da Descoberta. As crianças naturalmente se expressam através da mimesis, constroem muito de sua expressividade através de jogos teatrais, ainda que sem perceber. Falando tudo isso, deveríamos pensar que o teatro teria um público imenso. Entretanto, isso não acontece. Acredito mesmo que nas últimas décadas houve uma perda substantiva deste público que incluía o teatro naturalmente em seu cardápio cultural, devido a uma série de fatores: a violência nos centros urbanos gerou uma insegurança, o enfraquecimento da imprensa escrita que sempre foi o principal veículo de nossa divulgação e diálogo com o público; por outro lado, a perda de espaço para divulgação nas redes de televisão, os serviços de streaming cada vez mais sofisticados e disponíveis a preços baixos, o fechamento de vários teatros, a migração de artistas para fora do estado, que é um fenômeno que, acredito, ainda não foi totalmente compreendido e mensurado. E ainda temos um tripé perverso que vem do distanciamento do teatro do público, a qualidade do que é apresentado, o amadorismo de diversas produções e os editais públicos em que houve e há um certo dirigismo cultural, onde muitas vezes o resultado do trabalho está muito aquém do discurso e da proposta do projeto. São espetáculos de qualidade bem questionável com um discurso lindo. Em todo este processo houve uma dissociação do espetáculo teatral com o seu público. Tudo isso como introdução para responder a sua pergunta “Nosso teatro carece de uma atenção para o quesito formação de plateia?” A resposta é sim. Mas não podemos imaginar que um programa de formação de plateia, ainda que seja amplo e bem construído, será suficiente para fazer o público retornar aos teatros. Sem ser saudosista, sou de um tempo em que ficávamos em cartaz de quarta a domingo, na temporada de Morangos Mofados na Sala do Coro do TCA, em 1988, tínhamos filas para comprar ingresso e cambistas, um espetáculo baiano com cambistas, a direção do TCA chegou a  limitar a venda de ingressos por pessoa. Ficamos três anos em cartaz, realizamos uma turnê nacional por Belém do Pará, Fortaleza, Goiânia, Aracaju, Recife, Maceió e ainda uma temporada de um mês em São Paulo com casa cheia todos os dias, na última semana foram duas sessões por noite para dar conta do público. Não tínhamos edital e nem financiamento público, a bilheteria nos mantinha. Fiz outros espetáculos com propostas para um público mais restrito como KAO, mas o espetáculo nos levou para o mundo em sucessivas turnês e apresentações em festivais em mais de 10 países por 16 anos. Foram muitas outras questões que deixaram esta relação teatro x público extremamente complexa.

Nós temos uma experiência incrível de formação de plateia com a realização, desde o ano de 2012, do Festival de Teatro da Caatinga, na cidade de Irecê, sertão baiano. Cidade onde existe um movimento teatral pequeno, mas significativo, cidade que não possui teatros, e está distante da capital (500 km). Nosso festival é realizado através do edital setorial de Teatro da Funceb há seis edições e conta com apoio da Prefeitura Municipal de Irecê. Em 2018, tornou-se internacional e tem um público cativo, que foi sendo construído ao longo dos anos. É uma mostra de teatro a portas abertas que tem superlotação todos os dias com imensas filas na porta do Auditório do Colégio Modelo, adaptado para converter-se numa sala de teatro. A repercussão é tão grande que o prefeito Elmo Vaz, atualmente no segundo mandato, em 2018 anunciou no palco do festival que iria solicitar junto ao governo do Estado da Bahia a construção de um teatro. Este ano o governador Rui Costa assinou a ordem de serviço para construção e provavelmente em 2022 teremos um teatro na cidade. Outro lado é o investimento na formação e qualificação profissional dos atores e técnicos. Muitos dos atores que participaram dos projetos de formação do festival buscaram se aprimorar em cursos acadêmicos de teatro na UFBA e na UNEB e mesmo em outros estados. Nosso programa de formação de plateia está consolidado e apresenta resultados. Acredito que este seja um bom exemplo, mas muitas outras iniciativas vêm acontecendo neste sentido em outras regiões da Bahia. Formar o público é fundamental, mas oferecer um trabalho de qualidade também.

 

Foto: Waldson Alves

 

DA – Agora nesse período de pandemia, testemunhamos experiências de espetáculos online, sem público nos espaços. Até certo ponto esse gesto é compreensível, pois estamos falando também de formas de sobrevivência para artistas e suas companhias. Há quem veja essa alternativa se perpetuando mesmo após as restrições pandêmicas. Não seria nocivo ao fazer teatral, em condições de normalidade, ter isso como alternativa já que a arte é feita muito fortemente da proximidade com sua audiência?

PAULO ATTO – O chamado teatro online, telepresença, web encenação, teatro digital ou qualquer nome que se queira dar, dada a falsa importância de um rótulo na nossa “desmodernidade”, não é Teatro. Não foi uma opção que nós, realizadores, tivemos dentre outras, foi a única possível. Não havia outra saída. Há quem defenda que sim, apenas pelo gosto de dizer que é Teatro e ponto. Vi coisas interessantes e lamentavelmente produções pavorosas, recheadas de antigas ideias modernosas. Temos um audiovisual com uma linguagem teatral, porém há uma câmera por intermédio, direcionando nosso olhar, temos as edições, a seleção de cenas, os cortes, algo que não existe no Teatro, ainda que se alegue que a montagem teatral e a iluminação possam de alguma forma dirigir o olhar do espectador.  E isso pode realmente acontecer. Entretanto, a liberdade do espectador no teatro é total para estabelecer os focos e os centros de sua atenção. E ainda poder ler os diversos planos, camadas, signos e sentidos que coexistem  no palco, sem mediação nenhuma a não ser a sua, ainda que tentemos fazer isso, nada supera a presença e o encontro de dois seres humanos, máquina nenhuma, tecnologia nenhuma, pode suplantar ou oferecer isso. Falta a sensorialidade.  Aqueles que defendem o tal “teatro digital” estão sem saber desejando o seu fim, a perda de sua autonomia e de sua essência. Pode ser que esta “defesa” seja por interesse próprio, para promover algo que possa parecer uma moda, ou pela incompetência em realizar o teatro de fato.  Já ouvi com muita arrogância a frase: “é teatro porque eu estou dizendo”. Sim, mas quem é o interlocutor para dizer isso ignorando mais de 2 mil anos de história? Ignorando o que é a linguagem do teatro. Cada linguagem foi sedimentada por séculos, possui cânones, possui memória e técnica especifica. No final é muito barulho por nada. Eles serão superados pelo próprio Teatro, que não sucumbiu ao cinema, nem a TV, nem às guerras, e nem sucumbirá à tecnologia. Se não se encaixam em nada disso, é apenas imbecilidade pueril (risos). Os perdoo: eles não sabem nem o que fazem, e fazem mal. Não pretendo desenvolver este tipo de proposta como teatro. Como audiovisual, acho interessante. Porém, é certo que ganhamos uma ferramenta de divulgação, de interação com o público, de novas possibilidades de reunião, de estudo, de comunicação. Devemos aproveitar isso ao máximo, mas o que mais fez falta neste período pandêmico é justamente a  ausência do humano, do contato entre as pessoas, e é sobre isso, em sua essência, que trata o Teatro.

 

DA – Voltando a seu livro, o texto de “As Máquinas” parece dialogar muito com o que notamos hoje nessa era de excesso de informações e também de reprodução padronizada de comportamentos. Podemos perceber muito disso a partir do “eu” espetacularizado que brota das redes sociais, por exemplo. Como é que você observa esse sujeito contemporâneo?

PAULO ATTO – Quando eu escrevi o texto de As Máquinas ou A Tragédia em desenvolvimento, era aluno do curso de Filosofia da UFBA e estava profundamente influenciado por temas ligados à Lógica da linguagem. Meu professor João Salles, atual reitor da Universidade, além de professor excepcional, era um amigo com o qual repartia tardes em animadas conversas, das quais também participavam o meu querido e saudoso mestre professor Ubirajara Rebouças e meus colegas e alunos Sandrinha Santana e Ricardo. Eram papos interessantíssimos regados à cerveja num boteco ali da Federação. Tenho muitas saudades dessas conversas. Ali foi gerada a semente desse texto. Quando fui convidado para abrir o projeto de leituras dramáticas da Escola de Teatro da UFBA, o  Contexto Cênico, escrevi o texto muito rápido quase como se fosse um ensaio sobre aquelas ideias. Outra influência foi novamente o chamado Teatro do Absurdo, por excelência um teatro sobre a incomunicabilidade humana. Certamente me assombra a atualidade do texto, é atualíssimo. Muitos leitores do livro já apontaram isso para mim. O filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman, o qual admiro muito as ideias e reflexões, fala de uma “náusea da informação” e acredito que estamos vivendo isso de maneira muito profunda. Os algoritmos, as chamadas “fake news”, o grau de desinformação com o paradoxo de tanta informação disponível, o obscurantismo, os retrocessos políticos, talvez tenham como raiz essa náusea e o perverso jogo dos algoritmos dominando as nossas escolhas. Outra ideia muito interessante está presente no livro de Bauman “Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria”. É incrível como ele nos traduz nesta obra. Chegamos ao ponto em  que a principal mercadoria, diria até a mais comum disponível no mercado agora,  são as pessoas. Nos tornamos o principal produto do mercado de consumo, somos enfim a mercadoria. Isso vai desde os sites de encontros, de grupos, até as redes sociais onde as pessoas vendem a farsa de uma vida ideal,  utópica, irreal. Fonte de angústia e de frustração. A cultura das artes também sofre muito com isso. Tudo é cultura, há uma vulgarização das artes, Arte e indústria cultural de massas estão perigosamente sendo confundidas. Enfim, estamos vivendo apenas para o consumo. Acho que no texto essas ideias vão se desenhando a partir da falência da comunicação, dos modelos repetitivos e sem sentido do trabalho, das convenções mais absurdas, do sectarismo generalizado e da dissociação entre a vida e a sociedade.

 

DA – O fazer teatral em que você acredita tem algum compromisso?

PAULO ATTO – O Teatro, sempre digo, é a vida mesma, é um ensaio vivo sobre o humano por excelência. Existem muitos teatros. O teatro no qual acredito, aquele que me dá prazer em fazer e justifica a existência dele nas minhas trajetórias pessoal e profissional,  é aquele em que eu possa falar para as pessoas do meu tempo, para esta humanidade, para este momento histórico e social. Nada para mim está dissociado deste mundo no qual vivemos. Quando encenei Shakespeare, nos espetáculos “A Tempestade”, logo depois “A Terra de  Caliban” (inspirado na mesma peça), “A Herança de Macbeth” (a partir de Macbeth), com a Cia de Teatro Avatar,  e ainda “Antônio e Cleópatra: o desencontro do olhar”, na Espanha, com a Cia Quasar Teatro de Astúrias, em todos esses espetáculos estava dialogando com meu tempo através das histórias de Shakespeare. Me nego a fazer um teatro museológico, desligado da nossa realidade. Quando escrevi e dirigi “A Travessia do Grão Profundo”, meu último espetáculo, mergulhei no sertão e sua realidade, sua simbologia, sua riqueza, seu imaginário, para falar de nossa diversidade cultural, da riqueza que a caatinga apresenta e esta história de perda do pai, também ainda presente nessa dimensão sertaneja. Apresentar o humano em suas múltiplas faces é o que me interessa, e é com isso que estou comprometido.

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Kátia Borges

 

Desenho: Geometria da palavra

 

A aerodinâmica dos pássaros

 

Parece inacreditável hoje, mas na infância participei de uma caça a passarinhos com estilingue. Fomos, eu e Silverinha, no sítio de um tio no Litoral Norte. Não recordo com exatidão todas as circunstâncias, mas lembro que caminhamos dentro da mata até bem longe de casa e que, após atingir as aves com as pedras que levava nos bolsos, ele espetava os corpos dos pássaros caídos no arame farpado.

Fiquei vendo Silverinha fazer aquilo e, confesso, o horror me tomou inteira. Decidi voltar sozinha para a sede do sítio, mas acabei perdida no caminho. Distraída desde sempre, andei uns poucos metros entre árvores que pareciam surgir pela primeira vez na minha frente. Era apenas o sítio de meu tio, onde tantas e tantas vezes brinquei com os primos, e não a floresta misteriosa de As Brumas de Avalon.

Sabia que os adultos da casa não sentiriam logo minha ausência. De vez em quando eu me aventurava no rio que ficava no terreno ou desaparecia por algumas horas, catando licuri para encher o tonel que ficava na varanda, isso quando não estava escalando árvores, para sentir de perto o cheiro das folhas, arrancar as frutas no galho ou simplesmente ter, do alto, a visão do verde das coisas.

Minha mãe bem que tentava acompanhar tanto movimento. Para colocar um freio em minhas aventuras no sítio, fez com que toda a família reforçasse as lendas de que havia um jacaré dentro do rio. O bicho ali representava o “homem do saco” das ruas de Salvador, sempre pronto a levar as crianças desobedientes para uma espécie de limbo.  Mal sabia que aquela história teria em mim um efeito contrário.

Localizar o jacaré do rio passou a ser a minha obsessão nas férias — aumentaram ainda mais, os meus sumiços no sítio. Só não sei até hoje como me meti nessa caça a passarinhos com Silverinha. Ele era bem mais velho e penso que me desafiou a mostrar coragem. Mas a verdade é que a coragem de matar as aves, eu simplesmente não possuía. Muito menos a habilidade necessária para armar a pedra no badogue.

Naquele dia, como se cumprisse um itinerário de tortura, engolindo a raiva e a vergonha, precisei esperar durante horas até que Silverinha ficasse cansado de acertar as aves com as pedras. E tudo aquilo pesou bastante nas decisões que tenho tomado desde então. Me refiro aos desafios aceitos só por orgulho. Aos amigos que pedem conselho, sempre falo sobre a queda que antecede o voo dos pássaros. Eu os observo da varanda do apartamento onde moro, no décimo-segundo andar de um prédio.

Gosto de tê-los perto por alguns segundos, como se não se incomodassem com a minha presença. É com certo prazer que me aproximo o quanto posso e deixo que sintam que nada desejo, nem mesmo capturar sua beleza. Nada nessa vida se compara à confiança de uma ave em sua queda. Um pássaro desconhece os princípios básicos da aerodinâmica.  Ele apenas confia em seu instinto.

Fico surpresa ao saber que cientistas ainda pesquisam de que modo os pássaros enfrentam as correntes de vento. Fico pasma com a perenidade de alguns mistérios. Como as aves dormem enquanto voam? Alemães estudaram uma espécie conhecida como Fragata de Galápagos e descobriram que ela plana quando adormece, usando apenas um dos hemisférios do cérebro. E até sonha (até sonha!) durante cinco minutos.

Cientistas, sempre eles, divulgaram uma pesquisa em 2017 sobre a adaptação das asas das aves às correntes de ar. Pretendem usar esse conhecimento nos cada vez mais detestáveis e invasivos drones. O mundo é um lugar horrível? Tá certo. Mas, ao mesmo tempo, ele é repleto de beleza. Na internet, por exemplo, alguém perguntou outro dia por que os pássaros não voam até a Lua em um site de buscas.

 

Kátia Borges é autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012), São Selvagem (P55, 2014) e O exercício da distração (Penalux, 2017). Escreve crônicas no jornal Correio semanalmente desde 2018. A teoria da felicidade (Patuá, 2020) é o seu sétimo livro.

 

 

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124ª Leva - 02/2018 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Daguito Rodrigues

 

Foto: Tati Motta

 

Falaria da saudade, se pudesse

 

Menino é menino, menina é menina. Vinicius sempre soube. O timbre da criança confundia um pouco. Fino, agudo. De garota, diziam. Libertador, contestava o pai. Era nos acordes do violão que Vinicius concordava com ele. Quando se derramava pela música ao pé da sucupira branca, na noite ao lado da fogueira. Ninguém negava. Quem poderia? E todo mundo aplaudia, pedia mais. Era uma voz bonita a do garoto, por mais que fosse feminina.

Ubiratan, o homem de dedos grossos e pele seca, do corpo contorcido e recurvado, a paisagem do cerrado, cresceu com as canções que amansavam as noites de um passado duro como aquela terra. Cresceu com a arte. Aprendeu a transformar as cordas em poesia de curioso. E desde que Vinicius nasceu embalou os sonhos do menino com harmonia musical. E tantos outros de tanta outra gente. Um inquieto.

Doze anos e lá estava o pequeno nas festas das fazendas. Microfone na mão e amor no peito. A mãe achava esquisito, gostava mesmo era do dinheiro a mais no fim do mês. No começo, Ubiratan tocava junto, levava o garoto no colo, mas a idade já não permitia a jornada dupla no campo e nas cerimônias. As reuniões até altas horas também ocupavam o tempo do velho pai. Encontros gritados, de braços erguidos e porradas na mesa. Batidas de portas. Vinicius acompanhava quando podia. Ou quando Ubiratan deixava. Era assunto sério.

Menino bonito. De cabelos longos e ondulados. Pele mais clara que o comum. Quase um filho de fazendeiro. Talvez por isso oferecessem tantos palcos a ele. Além da voz, claro. Dos sorrisos. Dos olhos pretos e lacrimosos, como se chorasse. E chorava, dependendo da música que ecoava na boca. Uma menina.

Quando as noites eram princesas, e Ubiratan preparava o fogo, com o violão ainda adormecido, quando o sol riscava o horizonte, Vinicius ouvia do pai as palavras de um mentor. O dedo escuro de unhas apodrecidas apontava para a vegetação rasteira, para as árvores esparsas no campo, e esse mesmo dedo se voltava para o peito do menino, para a testa do garoto, para a Lua no céu. A criança ouvia e entendia. O canto de mulher eram as asas da seriema, o sabor do araçá, o vento na cagaita. Somos. Escutava e memorizava. Um só. Mirava a enorme máquina no descampado e discorria sobre justiça e progresso, com exemplos que envolviam balas de menta e bombons de chocolate. Falava dos fazendeiros e de suas próprias leis. Tocava as folhas grossas com os mesmos dedos que tirava sons das cordas de aço. Segurava um punho de terra na palma das mãos. E discorria mais. Sobre o homem e o corpo. A separação cega do um e do todo.

A noite chegava com as pessoas, que iam se sentando, perguntavam de brigas e discursos, e Ubiratan levava o dedo à boca. Não ali. O palco sob a árvore e a luz da brasa não era o casebre das reuniões. O momento era da poesia, não de lutas. Os problemas e perigos que ficassem para lá, para além do cercado. Ao menos naquelas noites, que tudo parecesse simples e pequeno. Que fosse como deveria ser. Com respeito e união. E como era.

Hoje, se pudesse, Vinicius falaria da saudade. Falaria do tempo e do pai. Voltaria ao cerrado, à casa, à sombra da sucupira branca. Se ela ainda estivesse lá. Recolheria uns galhos, acenderia a chama. E apontaria também para o horizonte, para o peito e para a testa. Apontaria para o céu e teria a certeza de que somos sim um só.

Na tarde em que Ubiratan não voltou do campo, o garoto cortava batatas na cozinha. Sussurrava uma canção e a mãe estendia roupas no varal. Esperou na porta, com o sol já baixo. Não ouviu o som pesado dos pés na terra, que chiavam cada dia de um jeito. Macios no verão, duros no inverno. Os sapatos num ruído seco roçando as gramíneas e as ervas que rodeavam a casa. Eles não vieram.

Foi com a mãe que viu o corpo no casebre. Já sem reunião nem gritos. Só o silêncio. O sangue escuro no piso. Os olhos abertos para o nada. Foi com a mãe que tentou entender. Com o tecido da saia dela no rosto e as mãos apertando as coxas cansadas. Não pôde explicar para o garoto. Apenas lamentar. Os anos ensinaram. As conversas com os outros. As leituras dos textos. Só depois, o garoto de voz fina finalmente conheceu o pai e compreendeu seu fim. Só depois, o timbre agudo cumpriu a vocação para libertar.

Se soubesse antes, jamais teria cruzado os pórticos com partituras debaixo dos braços. Não teria versado canções entre taças de vidro e risadas insossas. Se soubesse antes, teria se agarrado aos braços do pai todo fim de tarde antes das reuniões. Teria implorado como um mimado para que abandonasse os grupos e as discussões. Rasgado pôsteres e papéis. Teria? Vinicius concorda com o pai. Hoje sabe, hoje entende.

E solta a voz em outras terras, distante das plantações de soja e milho. Por mais que se estendam por todo lado, não chegam onde o canto do garoto adulto chega. Tão longe. E com versos e rimas, com trovas e poesia, Vinicius repete as palavras do pai, transformando a luta em notas, desfilando baru, buriti e mutamba, galito, anhuma e irerê, abotoado, piapara e taguara, João, Maria e José. Espalhando o cerrado e seu povo pelo Brasil, como a água dos rios que nascem naquele solo. Terra rica, terra pobre. Povo sofrido, povo feliz. O progresso, a tradição. O dinheiro, a natureza. O masculino, o feminino. A voz de menina do garoto é também a voz grossa do pai sonhador.

E Vinicius levanta a bandeira. Como cantor e poeta. Ele, filho de Ubiratan, filho do cerrado brasileiro. Somos, canta e universaliza, um só. E é assim que seguiremos em frente.

 

 

 

***

 

 

 

Menino nas caixas

 

 

 

“O amor roeu o menino esquivo,
sempre nos cantos, e que riscava os livros,
mordia o lápis, andava na rua chutando pedras.”
(João Cabral de Melo Neto)

 

Fui o menino dos cantos. Calado, nos bancos das quadras de esporte. Escondido nas quinas das festas. Metido nas frestas dos clubes. Era medo das palavras, dessas faladas. Preferia o silêncio. As páginas dos livros. Ou aquelas em branco das papelarias. Um novo pacote de sulfite. Rasgava com a mesma vontade que as outras crianças rompiam os de bombons de chocolate. Mais que o cheiro do papel moço, eu gostava do vazio.

Fui o menino das viagens à praia, mas sem pés na areia. Escolhia a sombra da sala vazia, ao som das cigarras e dos gritos dos vendedores de sorvete. Distantes. A vida no verão era do lado de fora, mas não a do menino. Com as janelas fechadas e as cortinas cerradas, mordia o lápis e arranhava o papel, sentado no chão frio de uma casa alugada.

O menino não jogava bola como o pai. Não contava piadas como a mãe. Nem era cercado de amigos como a irmã. Fui esse menino esquisito. Um único. Desses que os adultos desconfiam, falam um para o outro. Não era normal, ficar assim de lado, perdido em livros e papéis. Tão longe do comum. Vai ser escritor, brincavam. Vai ser é louco. Queriam mesmo é que o menino fosse mais um.

O castigo era ir à praia. Mas mesmo lá, desenhava na areia, erguia muros e projetava rodovias que carregavam o menino para onde não havia nenhum outro, nenhuma voz. As pessoas assustam.

Mas fui também o menino cercado de amor. Um amor desses protetores, que mimam, impõe regras e conceitos. Só o amadurecimento consegue destruir tudo depois. Tarde demais. Um amor repleto de boas intenções, mas também de medo. Porque os pais, adultos como eram, sabiam que a vida não é amiga do estranho. A vida quer mais do mesmo. Os iguais com quem a gente cruza o tempo todo. O mundo não abre as portas para o diferente. Esse tem sempre que arrombar. Mas que menino tem força para arrebentar um cadeado?

Pois foi esse amor que roeu o menino. Matriculou no judô, no futebol, no vôlei. Jamais num curso de leitura ou escrita, muito menos de desenho. Roeu. E ele, tímido e com medo de se tornar igual a ninguém, fugiu dos papéis rabiscados e dos lápis mordidos. Vestiu a beca e carregou o diploma. Bateu cartão, usou o vale refeição, recebeu o décimo terceiro. Fez e refez o currículo. Entrou em reuniões, participou de happy hours e quando viu já não era mais menino. Sumiu nas mesmas roupas, na mesma rotina, nas mesmas frases de tantos outros. E se tornou igual a todo mundo. Como o mundo todo sempre quis.

Cadê o menino que riscava os livros, mordia o lápis e andava na rua chutando pedras? Cadê? Tiro o paletó, tiro a gravata, tiro a camisa. Arranco tudo e me assusto com o vazio. Bem o vazio, que eu tanto amava, hoje me arrepia. No espelho, não vejo nem homem nem menino. Não me vejo ali.

Cruzo as ruas como o menino virava as páginas dos livros. Histórias ficam para trás. A casa onde o menino morou, a escola, a praia, hoje é tudo apenas imagem no retrovisor. E com as mãos no volante, finjo que estou no controle. Que posso encontrar o menino. Mas, cadê?

Eu sei, não vou mentir, eu sei. Eu sei onde o menino está. Está jogado em caixas no alto do armário. Em papéis amarelados e duros, estampado em frases e rascunhos. Enterrado na dispensa. Escondido e isolado. Calado. Roído pelo amor. O menino são restos perdidos em papelões de leite desnatado.

Não há praia, não há areia. Não há pai nem mãe, apenas mudez. Não há amor, também. Nem luz. Mas não me venham falar de amor. Já li tanto sobre amor. Quem tem coragem de falar o quanto ele corrói meninos e meninas?

Não há resposta. Não há perguntas. Não há menino. Apenas caixas.

Apenas caixas. Ainda que essa verdade chegue a doer, ainda que venha a vontade de gritar, melhor mesmo é lembrar que um dia houve sim um menino. E que ele queria viver e sentir. Chorar e sorrir também. E se deixar levar pelo tempo, para que no tempo certo, um dia pudesse voltar.

 

Daguito Rodrigues é escritor e roteirista. Foi repórter da Folha de S.Paulo, Diretor de Criação na agência Publicis Brasil e dirigiu e escreveu o curta O Santo Salvador e o Demônio, entre outros. Acumula prêmios nos principais festivais de criação do mundo, como Cannes Lions, Prêmio Abril e Clube de Criação. Quer muito que você leia o primeiro romance dele, “Vozes na rua” (Kazuá, 2016).

 

 

Categorias
83ª Leva - 09/2013 Destaques Olhares

Olhares

Fluxos virtuosos da liberdade

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

Como num álbum de memórias, a vida se expande no alongar do tempo. Aquilo que chamamos de passado não necessariamente fica retido numa experimentação de outrora. Nesse deslocamento, recortes da existência parecem não se exaurir por si próprios, algo que reproduz a sensação de que os instantes, mesmo já consumados, ainda sugerem a presença ativa das coisas e seus inalienáveis sentimentos.

Diante desse painel a agregar estratos pormenorizados da alma humana, surge como testemunha a arte de Denise Scaramai. Suas ilustrações transitam, de modo sensível e delicado, por entre o ambiente das reminiscências.  Dos gestos aparentemente mais simples do cotidiano até aqueles mais complexos, seus personagens têm em comum a densa perspectiva da subjetividade. Ali, o caráter da liberdade surge bem delineado pelo exercício amplo da individualidade dos sujeitos retratados. É quando a consciência de se estar no mundo confere sentido à diversidade de situações vivenciadas por cada um.

Na profusão de cores e formas, Denise extrai um resultado poético para os cenários escolhidos, fazendo com que cada lampejo humano extrapole a dimensão física das situações. Nesse ponto, a artista redimensiona o ato de existir para esferas que sugerem o estreitar de laços entre o vivido e o imaginado. Aqui, a dualidade entre o concreto e o abstrato denota a harmonização de dimensões paralelas. Diga-se de passagem, o mundo, tal como o apreendemos em sua inteireza física, já não é mais capaz de comportar as projeções de toda ordem, tornando a via onírica um acesso deveras significativo.

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

Paulistana por nascimento, Denise Scaramai possui uma predileção por observar detidamente a manifestação das coisas, bem como suas formas e aspectos singulares. Confessa-se uma obstinada pela inatingível perfeição. Formada em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, a artista mantém uma especial relação com a via digital, algo que contribuiu para a experimentação de novas possibilidades de criação.

Sem estar necessariamente ligada a um viés artístico específico, Denise professa a independência de suas formas. O conceito de autonomia presente em seus trabalhos permite à criadora reinventar modos de agir e sentir. Diante da passagem do tempo, pouco importa saber dos momentos consolidados ou até mesmo presos num átimo qualquer da existência. Fundamental mesmo é constatar que a vida é algo incapaz de ser domado.

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

* As ilustrações de Denise Scaramai são parte integrante da galeria e dos textos da 83ª Leva.

 

 

Categorias
81ª Leva - 07/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Mônica Mello

 

Ilustração: Mario Baratta

 

 

METAMORFOSEANDO PEDRA

 

Aqui
o sonho virou água
sombras e dia.

Uma sombra devora uma outra sombra
metamorfoseando pedra.

E um desejo mergulha
suas verdes mãos
na correnteza do sol.

 

 

***

 

 

O HOMEM QUE MORA NO MENOR QUARTO DA CASA

 

Ele é o homem que mora no menor quarto da casa.
Suas mãos contorcem os fios e
soldam as memórias dos computadores que conserta.
Mas não conectam seus elos com o passado.

O homem que mora no menor quarto da casa
lava roupa suja dentro do armário e
não se olha no espelho. A água derrama
a sujeira da roupa dentro do armário,
que a esconde.

O homem que mora no menor quarto da casa
faz arroz na leiteira e não toca na louça suja.
Ele pensa que não vai ficar livre.

O homem que mora no menor quarto da casa,
não está sozinho.
Ele é o mais inteligente entre cinco irmãos.
Ele é diversos pedaços entre o parto e a maturidade.
E conserta computadores.

O homem que mora no menor quarto da casa
desenha estórias em quadrinhos.
Adora futebol.
E vê a bola, e sonha bola nos pés
dos super-heróis que consertam computadores.

O homem que mora no menor quarto da casa
tranca a porta.

 

 

***

 

 

ÓDIO OCULTO

 

Danem-se os conceitos do mundo!
Vou para a Amazônia, lá onde meu coração está,
traduzir a água na poeira das horas,
ouvir o uirapuru de Vila-Lobos
e qual esta lâmina que me corta os pulsos,
arrancar o ódio nos dentes
e repousar na terra úmida que cheira à vida oculta.

E tocar o ódio,
………………………e saborerar o ódio,
……………………………………………………e transmutar o ódio
em fina seda que, bordada pelas mãos de muitas mulheres,
reveste a alma gloriosa.

 

 

***

 

 

MEMÓRIAS

 

Em brasa, o véu de seda
………………………………….revela
imagens vermelhas que eriçam
………………………………….Memórias
Surpresa da selva no limiar da
…………………………………….noite.
Será dia?

Seca a escuridão na fogueira
queimando estórias. Fragmentos
de mata atlântica replicam:
acabará em cinzas?

A imaginação se arvora
no sonho rubro da noite.
O tempo lapida a alma
…………………………..inquieta.

 

 

***

 

 

ADEUS

 

O tempo se afoga nas pedras
moendo grãos da memória
Adeus
…………um deus
……………………….se desgoverna.

Teço seu nome no barro
por onde escorrem
…………………………meus olhos.

 

Mônica Mello é formada em Letras pela Universidade Gama Filho- UGF e Especialista em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Participou da exposição de pintura do Centro Cultural da UERJ – Coart, em 2014.