Marte Um é um filme brasileiro dirigido e roteirizado por Gabriel Martins. Foi o vencedor do Festival de cinema brasileiro de Gramado de 2022, ganhando nas categorias de melhor filme de júri popular, júri oficial, direção e roteiro. A produção esteve indicada para representar o Brasil na premiação do Oscar de 2023, porém acabou cortado da seleção final. Gabriel Martins é um premiado diretor da cidade de Contagem, MG, diretor e roteirista dos excelentes Temporada (roteiro e parceria com André Novais, 2019) e No Coração do Mundo (como diretor), entre outros. Marte Um teve ampla repercussão e podemos dizer com tranquilidade que, na exclusão para a premiação do festival americano, quem saiu perdendo foi o próprio festival.
O roteiro aborda a vida de uma família de classe média baixa em Contagem. Há Wellington (vivido pelo ator Carlos Francisco), o pai de família, zelador de um condomínio de classe média alta, onde mora entre outros o ex-jogador argentino Sorín. Wellington é um ex-alcoólatra que frequenta o AAA. É torcedor apaixonado do time Cruzeiro (onde jogou Sorín) e sonha para seu filho Deivinho a carreira de jogador profissional no seu time preferido. Há Tércia (Rejane Faria), sua mulher, doméstica. Tércia fica traumatizada por ser vítima de uma pegadinha televisiva. Ela acredita que esse incidente lhe trouxe uma aura negativa que recai como infortúnio para aqueles com quem se relaciona; Há Eunice (Camilla Damião), a filha mais velha, que já tem um emprego de salário modesto numa escola e que sonha sair da casa dos pais para viver com seu súbito novo amor libertário, Joana, porém teme a reação preconceituosa de seus pais. E há finalmente o garoto Deivinho (Cícero Lucas), adolescente que se esforça no futebol para agradar seu pai, mas que sonha mesmo em participar da expedição Marte Um, projeto que pretende realizar a primeira viagem ao planeta vizinho. Deivinho é apaixonado por astrofísica e gosta de assistir pela internet os vídeos do divulgador negro Neil deGrasse Tyson.
Cena do filme Marte um / Foto: divulgação
A narrativa de Marte Um é toda tecida em torno dessa família de quatro personagens. Uma das grandes virtudes do filme é o equilíbrio de tratamento entre os quatro protagonistas. Cada um vive a sua vida de forma bastante autônoma, mas há um cruzamento complexo das expectativas e dos afetos. Assim, o sonho de Wellington em ver o filho como jogador profissional de seu time de coração se cruza contraditoriamente com o sonho do filho em estudar astrofísica. A busca de liberdade existencial e amorosa de Eunice se cruza com a luta de seu pai contra o alcoolismo. E há também uma conjugação entre os sonhos utópicos de Deivinho em participar de uma missão espacial e as suspeitas de mau agouro de Tércia, após o episódio da pegadinha.
O pano de fundo, o contexto histórico, é a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. A história se passa nos meses entre a eleição e a posse presidencial. É justamente esse fato que surge como sendo de mau agouro sobre a vida dos personagens: a certeza que num regime de extrema-direita a situação dos moradores das periferias urbanas iria certamente piorar. Assim, a eleição de um presidente funesto é um sinal de azar e pesa sobre a vida de Tércia que, após a pegadinha, se acha vítima de poderes nefastos sobrenaturais. É assim que a Grande História recai sobre as pequenas estórias dos personagens. Como o poeta paraibano Augusto dos Anjos, os personagens de Marte Um também poderiam dizer que “Um urubu pousou sobre a minha sorte”. Tanto os personagens como todos os trabalhadores das regiões periféricas brasileiras tinham razões de sobra para preocuparem-se com a chegada do bolsonarismo ao poder.
Cena do filme Marte um / Foto: divulgação
Uma das curiosidades marcantes do filme é que ele foi filmado naqueles mesmos meses de 2018 e, no entanto, só está sendo lançado e apresentado ao grande público quatro anos depois, exatamente num momento histórico ao reverso daquele, com a derrota histórica do movimento de direita então vitorioso. Essa diferença temporal entre a produção do filme e sua recepção influi de sobremaneira na sua interpretação. Assim, se por um lado as marcas pessimistas do mau agouro estão presentes nos infortúnios e conflitos que se abatem sobre os personagens, também está presente um fio de sonho e de esperança que os conduz. Um elemento utópico se configura no sonho de Deivinho de participar da missão espacial marciana (projeto que existe de fato sob a direção de Elon Musk, o bilionário americano que comprou o Twitter). Mesmo que essa missão científica seja ela própria signo de uma grande catástrofe (a promessa de colonização de Marte se liga às condições cada vez mais inóspitas da existência no planeta Terra), ao se tornar objeto de desejo de um adolescente pobre da periferia capitalista seu lado negativo é invertido e o pesadelo se torna então sonho.
É este sonho que leva Deivinho a se colocar existencialmente e a construir, com seus próprios dotes de experimentador e com o material recolhido em ferro velho, um telescópio artesanal. Como disse seu diretor Gabriel Martins numa entrevista, Marte Um é sobre a “resiliência” do povo pobre e trabalhador das periferias brasileiras, colocados diante da severa adversidade histórica. É dessa resiliência que vem a força do sonho e do desejo. E é desta mesma resiliência que vem a força do cinema da cidade de Contagem, especialmente aqueles da produtora Filmes de Plástico. Já mencionei aqui em outro ensaio que o cinema de Contagem é um verdadeiro acontecimento, o maior da cinematografia brasileira desde o Cinema Novo. Contagem não produz filmes sobre a periferia com o olhar de fora. É periferia falando e retratando a periferia. Como diz Wellington ao final do filme: “a gente dá um jeito”. http://(https://diversosafins.com.br/diversos/dropsdasetimaarte-6/Os filmes de Contagem são também fruto da luta por sobrevivência periférica, e mesmo com o governo Bolsonaro, a produtora conseguiu produzir muitas obras. Marte Um é um desses “jeitos” estéticos que agora nos restitui o direito de sonhar com outro país.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.
Toda vez que nos deparamos com alguma espécie de observação, decidimos primeiro entre desvendar as formas aparentes do visto ou dissecar seus labirintos internos. De súbito, a alternativa inicial nos parece cômoda por sugerir algum deslocamento pelas fronteiras da superficialidade, quiçá um caminho apartado de considerações mais voltadas para uma lapidação. No outro polo, agarrar as entranhas da coisa apreciada pode demonstrar um interesse ancestral pela sondagem dos mistérios que nos acometem.
Mesmo para aqueles que optam pela primeira perspectiva de contemplação, a via interna e que pulsa densa jamais se qualifica como um bem alienável. Pelo contrário, estará ali a rondar os territórios de quem desbrava o mundo e seus correspondentes paralelos percebendo a matéria em estado bruto. Nesse sentido último, o componente diferencial que aponta para a consolidação dos caminhos vai encontrar abrigo ideal no aporte imaginativo de quem cria. E exemplificamos tal ponto de vista com o trabalho de pessoas como Neuza Ladeira, artista que funda o primado de suas acepções visuais no sedutor universo da liberdade conceitual.
Não são poucos os aspectos que podemos enfatizar como sendo cruciais na abordagem de Neuza. E talvez o maior deles seja baseado na capacidade que ela tem de exprimir a atmosfera emotiva que povoa intensamente seus traços de pintora. De posse dum olhar genuíno sobre o mundo, a artista se nega a uma representação orientada e previamente definida das coisas. Suas pinturas evocam uma visão sintética da natureza em seu estágio mais puro, cuja deformação da realidade sugere o modo como percebemos a tudo sem vãs interferências.
Fazendo uso intensivo das cores, Neuza não nos furta um ritual de exaltação à vitalidade e à espontaneidade do gesto. E é justamente isso que delineia a expressividade dos tipos humanos que compõem suas telas. Nesse ínterim, a artista concebe um dinamismo que flui desde a matriz intrínseca e pessoal até o diálogo mais próximo aos fenômenos mundanos.
Pintura: Neuza Ladeira
Num ponto de transição entre referências fauvistas e derivadas da arte bruta, Neuza Ladeira sedimenta três estruturas fundamentais à sua obra: as séries Personas, Natureza e Abstratus. Em todas elas, estão os componentes imprescindíveis para a compreensão dos universos de elaboração da artista. Sem se prender a determinantes canônicos, a criadora confere um especial poder aos componentes intuitivos que permeiam o seu olhar sobre a existência.
Nascida em Belo Horizonte, Minas Gerais, Neuza também se move pelos territórios da poesia, tendo participado de recitais e publicado os livros “Opúsculos” (Anome Livros), “Quarto de Dormir Quarto de Pensar” (Editora Urbana), “Poética Caderno 1” (Editora Catitu). Em sua trajetória, lutou ferrenhamente em prol da democracia no período da ditadura militar brasileira, tendo sido prisioneira política nos anos de 1970 a 1972.
Quando a arte nos incita a penetrar seus domínios, temos razões de sobra para não declinarmos ao chamado. Certamente, uma delas é a larga possibilidade que possuímos de ver o mundo com os múltiplos matizes da imaginação. No caminho, cruzando com as epifanias de alguém como Neuza Ladeira, nos é dado entender também que carregamos em nosso íntimo valiosas ferramentas de apreensão do concreto e abstrato. Cabe-nos apenas eleger o modo como faremos a travessia.
Pintura: Neuza Ladeira
* As telas de Neuza Ladeira são parte integrante da galeria e dos textos da 93ª Leva
A voz continua meiga e os cabelos curtos, mas as companhias… quanta diferença! A amapaense mais mineira do Brasil, Fernanda Takai, apresenta seu quarto trabalho solo mesclando regravações e canções inéditas, com parcerias inusitadas que vão de Zélia Duncan a Pitty, Padre Fábio de Melo a George Michael. Novamente produzido pelo marido e companheiro de Pato Fu, John Ulhoa, as 13 faixas de Na Medida do Impossível (2014) sucedem os aclamados Onde Brilhem Os Olhos Seus (2007), tributo à Nara Leão; Luz Negra (2009), registro ao vivo da turnê e Fundamental (2012), bossa nova eletrônica em dupla com Andy Summers, ex-guitarrista do The Police. O amor e o tempo dão a tônica do novo álbum – tudo com o cuidado e capricho que lhes são peculiares –, sob uma aura melódica, ensolarada e genuinamente pop.
O disco abre com a romântica Doce Companhia (sua doce companhia/não me canso de querer/me sinto ressuscitada/perto de você), versão para Dulce Compañia, da cantora mexicana Julieta Venegas, presente em seu álbum Limón y Sal (2006). Como Dizia o Mestre, samba-canção dos anos 70, de Benito di Paula, ganha uma roupagem contemporânea para ‘o fim da valentia de um homem quando a mulher que ele ama vai embora’. A bela De um Jeito ou de Outro, música presente no trabalho solo de Marcelo Bonfá, lançado no início dos anos 2000, fala da relação afeto x distância e talvez seja uma das melhores faixas do trabalho. A Pobreza (Paixão Proibida) é mais uma regravação – conhecida na voz de Leno, que fazia dupla com Lilian na Jovem Guarda – e aponta para as dificuldades amorosas entre as classes sociais. Seu Tipo, a mais radiofônica da obra, é uma parceria com a cantora Pitty, e aborda, provavelmente, o estilo Fernanda Takai de ser. Se You and Me and the Bright Blue Sky – única canção em inglês presente no álbum –, celebra o espírito folk e encarna o ponto de vista de um cão, Mon Amour, Meu Amor, Ma Femme, dueto com Zélia Duncan, une o ‘jeito de menina’ de uma e ‘o gosto de mulher’ de outra e traz um trecho incidental de La Vie en Rose, de Edith Piaf, talvez para glamourizar a música originalmente brega de Reginaldo Rossi.
Fernanda Takai / Foto: Bruno Senna
A baladinha inédita e melancólica Quase Desatento, parceria com Marina Lima para o poema de Climério Ferreira, avisa que ‘será preciso se engajar no amor/sentir saudade, alguma dor’. A grande surpresa fica a cargo da canção-catequese eternizada na voz de Padre Zezinho, Amar Como Jesus Amou, onde Fernanda divide os vocais com Padre Fábio de Melo, numa versão eletrônica – que mais parece trilha de videogame – comandada pelo produtor japonês Toshiyuki Yasuda. A doce Liz, canção do repertório do Trio Ternura, fala da mesma ausência provocada por Partida (vou, quanto mais eu vou/menos mal fica a vida sem você). Em Pra Curar Essa Dor, versão de John Ulhoa para Heal The Pain, de George Michael, Fernanda faz dueto com seu pseudo-conterrâneo Samuel Rosa. A propósito, a faixa acabou de ganhar um clipe com cenas das gravações no estúdio do Pato Fu. A densa Depois que o Sol Brilhar (Mary), encerra o álbum ao som de violinos e melodia inspirada em And I Love Her, dos Beatles.
Lançado em março – a linguagem gráfica do encarte é um deleite à parte: apresenta um quê de realismo fantástico e exprime o ecletismo das canções –, distribuído pela Deck Discos e patrocinado pela Natura Musical, Na Medida do Impossível firma Fernanda Takai como uma das grandes vozes femininas da MPB em paralelo a sua carreira à frente do Pato Fu. Se no título do álbum a artista sintetiza a dificuldade em realizar uma ‘obra dos sonhos’, reunindo nomes tão distintos, na realidade, ela conjuga o verbo experimentar de maneira bastante peculiar e positiva. Como confidencia em seu site (que, aliás, disponibiliza o áudio na íntegra): ‘Tudo à primeira vista parece meio caótico musicalmente, mas foi pelas arestas que encontrei o encaixe de mundos tão distintos. Não pelo insólito’. Feliz ela já está.
Larissa Mendes, na medida do possível, compartilha do mesmo jeito takainiano e meigo de ser.
O caminho musical é como um grande deserto a se cruzar. E encontrar algum oásis parece ser algo cada vez mais raro nos dias de hoje. Em meio aos desafios trazidos pela modernidade, construir uma carreira tornou-se também uma verdadeira luta contra a uniformização, seja ela de comportamento ou simplesmente situada no campo das ideias. Para que uma obra tome algum sentido de permanência entre os mortais, há que se reconhecer a sua capacidade de não ser mais um agente pulverizador na multidão de caras e bocas.
Talvez os novos tempos tenham causado uma sensação de um “salve-se quem puder”, sobretudo para os artistas que ainda almejam um certo lugar ao sol. Diante de cenários múltiplos de expressão, e levando em conta a velha e desgastada discussão sobre juízos de valor, viver da música no Brasil se assemelha a uma missão tortuosa, repleta de incertezas e algumas imposições de desvios. São poucos os que resistem a tais provas de fogo e, ainda assim, conseguem manter sua fibra inicial. Com o tempo, a perspectiva da originalidade acaba sendo um fardo para muitos. Para outros tantos, como é o caso da cantora mineira Selmma Carvalho, ser genuíno é fonte incondicional de seguir adiante.
Com uma carreira que soma quatro discos na bagagem, Selmma se mantém firme no propósito de fazer do seu canto um instrumento de contemplação da vida. Ao longo dos anos, vem conferindo à sua trajetória uma fidelidade significativa, cuja importância maior está no prazer em incorporar a música em plenitude. Como se não bastasse a sua tradicional entrega como intérprete, vivenciando canções de figuras importantes do cenário nacional, a artista revela agora a sua face de compositora. Em seu disco mais recente, “Minha Festa”, a maturidade musical da artista é algo que preenche bem os cenários. E o que vemos agora é uma Selmma bem à vontade com tudo o que o tempo foi capaz de lhe proporcionar. O resultado não poderia ser outro: a afirmação de um sentimento de devoção à arte. Na conversa que agora segue, a cantora fala da construção de seu caminho, especialmente da atitude que a faz trilhar as alamedas dessa majestosa e enigmática senhora chamada música.
Selmma Carvalho / Foto: Miguel Aun
DA – “Minha Festa” é um disco orgânico, algo que compõe uma unidade viva de sentimentos que se harmonizam em torno de imagens fortes e quiçá íntimas. Há ali uma sensação de leveza a dominar os ambientes todos. A ideia de uma celebração de vida está no centro desse seu novo rebento?
SELMMA CARVALHO – Sim, celebrar sempre, as conquistas, sonhos, desejos íntimos realizados. “Minha festa” foi uma celebração, uma vitória, em todos os sentidos. Me senti amparada por amigos imprescindíveis e construímos juntos essa festa! A cada dia de gravação, sempre uma surpresa, uma ideia bem-vinda, um carinho, um beijo, um abraço, e o mais importante, a sintonia incrível que tomou conta de todos os envolvidos.
DA – Há um sentido de brasilidade muito especial no disco. Prova disso é o modo como os arranjos das canções se delineiam no conjunto, com destaque para os elementos vocais e instrumentais. Como se deu o processo de concepção do álbum?
SELMMA CARVALHO – Mesmo sem ter fechado o repertório, que foi definido ao longo do processo de gravação, eu e o produtor/arranjador Rogério Delayon conversamos muito sobre sonoridades, timbres, músicos que participariam, vocais, participações especiais. Construímos aos poucos, experimentando instrumentos e ouvindo os resultados. Com certeza, a etapa mais demorada de todo o processo.
DA – Diferente dos seus discos anteriores, seu novo trabalho traz algo em especial: a Selmma Carvalho compositora. Essa sua nova feição é algo que já estava sendo maturado? Que desafios ela encerra?
SELMMA CARVALHO – Com certeza, essa é a grande novidade. Desde que lancei meu primeiro cd, venho escrevendo, compondo, mas ainda não me sentia à vontade para divulgar as canções. Cheguei a tocar uma delas em show, mas nunca quis gravá-la. Sou muito crítica e exigente comigo, achava prematura essa investida. Mesmo assim, continuei a compor, foi sagrado reservar um tempo do meu dia para isso. Muitas vezes não saía nada; noutras, sentia mais confiança. A perseverança e a minha insistência foram fortes e fundamentais pra quebrar essa insegurança. Enfim, criei coragem, mostrei as canções, vieram parceiros, incentivos e taí o resultado, quatro canções inéditas com bons retornos.
DA – Num futuro próximo, qual seria a real dimensão de você vislumbrar um caminho inteiramente autoral?
SELMMA CARVALHO – Já abri o caminho, creio que vai acontecer se tiver que acontecer. Até porque gosto muito de interpretar novas canções de compositores que admiro, dar novas cores ao nosso cancioneiro popular tão rico. Isso tudo me dá muito prazer. No “Minha Festa”, foram quatro canções. Quem sabe no cd que está por vir aumento esse número para 6 ou 7? O futuro dirá! E que venham mais parceiros!
DA – Os novos tempos forçaram a indústria fonográfica a reajustar seu comportamento. Nesse ínterim, até mesmo artistas consagrados também tiveram que se adequar a certos imperativos do momento. Fazer shows parece ter se tornado mais importante do que apenas vender discos, sobretudo na era dos downloads. Diante desse cenário, como fica o caminho dos artistas independentes?
SELMMA CARVALHO – O mercado musical é particularmente complexo. O artista independente enfrenta dificuldades na gestão, organização, estruturação de projetos e de carreira. Não é nada fácil projetar com credibilidade a identidade e o trabalho, quer junto à mídia, quer junto aos amantes da música e ouvintes.
Ter consciência dessas dificuldades é importante para não gerar frustrações. Apesar de tudo, é importante insistir. Se o trabalho for bom, dia menos dia ele vai acontecer. Temos muitas ferramentas de trabalho, muitos canais interessantes na Internet, muitas opções. Mas é preciso estar sempre ligado e não desistir.
Selmma Carvalho / Foto:Miguel Aun
DA – É curioso imaginar que vivemos num país que convive com tamanha diversidade cultural mas não sabe conciliar os contrastes. Na música, isso é bastante revelador. Ao passo que nos orgulhamos pelo grosso caldo que produzimos, temos uma enorme dificuldade em afugentar os preconceitos. O que pensa a respeito disso?
SELMMA CARVALHO – O preconceito é gerado por um problema cultural que engloba, além da música, outros aspectos do Brasil. Num país em que a educação não é tratada como prioridade, o que dirá a cultura?!
DA – Além da educação básica, outros caminhos podem surgir quando pensamos nas vias culturais, no quanto um ambiente favorável à democratização do acesso pode fazer a diferença. Guarda em sua lembrança algum projeto em especial que você testemunhou como sendo uma valiosa aposta de mudança de rumos?
SELMMA CARVALHO – Me lembro sim. O grupo Tambolelê, de Belo Horizonte, criou uma oficina de percussão para crianças carentes usando vários instrumentos. Essa oficina teve sede própria e, além de acontecer em BH, foi levada para cidades mineiras também. Era lindo ver a alegria, o entusiasmo da garotada nas apresentações! Sei que existem muitos outros e torço para que eles se multipliquem, pois faz um bem danado para quem faz e para quem recebe.
DA – Não lhe parece que o mercado da música tem se preocupado muito mais com a imagem do que propriamente o conteúdo?Algum dia, o tempo saberá dividir bem tais porções?
SELMMA CARVALHO – A imagem é importante sim, claro! O conteúdo e boa imagem juntos é bacana demais, é cuidado. O que desanima são imagens apelativas, que infelizmente são muitas. E o pior: vendem!
DA – Uma obra é marcada notadamente pelos desafios dos intervalos. Dentro do contexto musical, sempre se espera algo quando um disco novo surge. No seu caso, e falando das expectativas geradas ao longo de toda sua carreira, como foi lidar com tais entreatos?
SELMMA CARVALHO – Quantos desafios! O espaço entre o terceiro e o quarto cd foi muito inquietante para mim. Projetos de leis de incentivo eram aprovados, mas não captados. Aconteceu comigo e com vários companheiros músicos. Foi geral. Essa fase causa muita ansiedade e até descrenças. O artista é muito sensível, ainda bem, e de alguma maneira transformamos todos esses sentimentos que nos atordoam em música, em novas composições, em ideias. Assim se deu comigo. Sempre acontece uma reviravolta quando o querer é forte. Uma força tamanha toma conta, o desejo enorme de concretizar, de fazer acontecer. E para acontecer, o foco e o trabalho são fundamentais. Está aí o novo cd, feito com muito suor, muito trabalho, amor, união e que me encheu de alegria. O que vai acontecer com ele? Não sei. O mais importante agora é manter o foco para divulgá-lo, mesmo com todas as dificuldades que conheço bem, mas sigo em movimento.
DA – Sem dúvida alguma, sua voz é seu bem mais precioso.A intérprete Selmma agora consolida seu trajeto não apenas com o verbo de outros compositores, mas também com o seu próprio.Saberia dizer o que a música espera de você?
SELMMA CARVALHO – Eu espero aprimorar esse meu outro lado, o lado mais criativo que é o da composição. Quero dizer mais e ouvir a música me dizer mais ainda.
Fernando Gabeira, escritor e político, escreveu Sinais de Vida no Planeta Minas, contando as peculiaridades desse estado da federação repleto de causos e personagens curiosos. O endosso de que Minas Gerais é mesmo outro planeta vem de outro escritor Humberto Werneck, no livro Os Desatinos da Rapaziada, onde elenca a rica e longeva vida intelectual da Belo Horizonte dos anos vinte. No livro de Werneck encontramos nomes respeitáveis das letras nacionais como Pedro Nava, Murilo Rubião e Carlos Drummond de Andrade. E acrescente-se a informação de que tanto Fernando Gabeira e Humberto Werneck são mineiros, afirmando os sinais de Vida do planeta Minas.
Os sinais de Minas logo se tornam visíveis nos céus brasileiros. Não se pode ignorar um mineiro por muito tempo por sua tenacidade. E se ele tiver talento será impossível. E tenacidade nesse país pode ser tomada como sinônimo de teimosia e o mineiro é um ser teimoso ou tinhoso. De lá, desse planeta, Whisner Fraga, de Ituiutaba, tem enviado à literatura brasileira sinais inequívocos de que quer marcar sua passagem por ela. Empenhando-se em concursos literários e tornando-se vencedor dos mais ilustres, aumentou sua notoriedade e alcance. Mas não precisaria se valer do recurso, se quisesse. O livro de contos Coreografia dos Danados, elogiado por Dionísio Silva, garantia o lugar do ficcionista nas estantes dos leitores mais exigentes.
Whisner Fraga é um escritor fluido, plástico e poético. Não é um criador rendido às técnicas narrativas que preconizam as orações curtas como meio de enredar o leitor. É um autor caudaloso, porém exato, porque é um rio que não transborda as próprias margens. O contista talentoso detectado nos concursos também não escapou do olhar arguto da brasilianista Marlen Eckl que o catapultou para a Feira de Frankfurt, juntamente com outros autores brasileiros, para brilhar na maior feira literária européia onde o Brasil era o país homenageado. E não há dúvida do acerto em sua escolha para integrar o casting de escritores levados para as terras alemãs.
A errância, o não-lugar e a consciência fraturada das personagens constituem a danação explicitada na coreografia ensaiada pelo autor para as suas criações. O romancista Whisner Fraga radicaliza as experiências do contista, espiralando o universo deste e ampliando em um jogo de esconde e revela que atravessa as sombras que a sua criação traz. Na literatura brasileira, Fraga pode ser situado como descendente de Raduan Nassar, embora sua descendência não indique uma devoção castradora.
Em seu romance O Abismo Poente se entrelaçam diversos registros para construir o efeito desejado sobre o não-lugar de seus personagens. Obra considerada experimental, o autor equilibra o conteúdo e a forma na linguagem. Em sua obra percebe-se o signo da errância do estrangeiro como painel do destino daqueles que ajudaram a construir o país.
O estranho estrangeiro
Fraga é um poeta encerrado dentro do prosador. No espírito de sua narrativa misturam-se amargor, ternura e raiva. Descreve quadros intensos em que a condição humana é explorada minuciosamente e parece requerer para si o título de indisciplinador de almas. A danação de seus personagens é constante, debatem-se nas teias perversas de seus próprios destinos como Helena e Afif, e as linhas que os conduzem pendentes dos dedos de seu criador não transparecem em momento algum.
A literatura de Whisner Fraga é uma literatura que investiga aquilo que Caio Fernando Abreu denominou como o estranho estrangeiro. O homem exilado em si mesmo ou de si e de sua terra, cruzando o território inóspito do humano em busca de si mesmo e de sua identidade, construindo-se com os cacos que espelham a sua cultura natal ou tentando conformá-la às exigências circunstantes que nem sempre o favorecem.
E também não é apenas uma literatura de exilado, ou de mera observação antropológica sobre o olhar do estrangeiro ou daquele que está no não-lugar para a terra que por ora habita. O escritor não reedita somente a noção do errante, há nela uma fratura que impede o homem de ligar-se a si mesmo, uma danação que consome os personagens como estava prenunciado em seu primeiro livro de contos, um bailado macabro de intenções que se não se confirmam, enchem o espaço, entre a intenção e a realização, de alegrias e estertores, de desejo e proibição, do claro e do escuro, do permitido e o interdito.
Whisner Fraga, mineiro de Ituiutaba, escritor brasileiro é outra das apostas de um novo caminho no cenário da literatura atual. É outro sinal do planeta Minas para o qual o futuro terá que estar atento, porque, em sua precipitação, pode achar que se trata de um cometa, quando, na verdade, é um sol, não poente, mas à pino, ardendo sobre um novo mundo constituído.
TRECHO:
sob o gesso dos olhos o desespero coagulado, o mistério rastejando nas barras da sua sobrancelha, um comício de dúvidas revestindo o vitoriano manto da incompreensão, mas são assim as coisas não sorvidas pela goela da vista, as invisibilidades tardias, mesmo o vento só é plenamente vento quando se revela por meio da poeira, ah, tomes, ah, helena, este nosso mundo é uma espessa cratera de inexistências, da qual nos desviamos com as córneas empoladas de medo e arrogância.
(Abismo Poente, Ed. Ficções, 2009).
(Anderson Fonseca é autor dos livros Notas de Pensamentos Incomuns (2011) e Sr. Bergier (2013). Vive em Brejo Santo, Ceará)
(Mariel Reis é autor dos livros Vida Cachorra (2011) e A arte de afinar o silêncio (2012))
Qual seria o melhor abrigo para um poeta? Refugiar-se no “Olimpo” da criação ou diluir-se por entre o ritual cotidiano dos mortais? Esse tipo de autor é mesmo um ser supremo, ao qual lhe é dada a exclusividade de ver através do escuro do mundo? Talvez passássemos o resto de nossos dias buscando respostas para tais indagações, mas o fato é que há quem se debruce por esses caminhos com um olhar de necessária inquietude. E melhor ainda, ouse atirar seus versos ao vento como forma de marcar sua trajetória de vida. Estes e outros atributos nos servem de guia para entender um pouco do que paira sobre a obra do poeta mineiro L. Rafael Nolli, criador que invariavelmente tem a existência como uma dissonante orquestração de porquês.
Natural de Araxá, Nolli deixa clara em seus versos a pulsão vigorosa e, nalguns momentos, ácida desse desvairado ato que é viver. Não bastasse a marca crítica e irreverente de seus escritos, o autor também sugere um caminho alternativo para o lirismo. Aqui, diga-se de passagem, os dotes da emoção são projetados para um ambiente no qual a contemplação pura e simples vai empunhar outras bandeiras. Nesse ínterim, a inconformidade conduz a voz do poeta e, assim, o texto assume o lugar duma fratura exposta daquilo que representa a miríade sociológica do mundo. O clamor presente em Nolli traz entalada na garganta a espinha dorsal da sociedade de consumo, arregimentando um modo permanentemente insone de conceber tudo aquilo em que nos transformamos. O homem máquina, subproduto duma metafórica e agastada miopia, é personagem predileto da jornada desse autor que, sem fazer concessões de qualquer tipo, não lamenta pelas vias tortuosas da humanidade.
O desejo de poder dialogar com o autor de Memórias à Beira de um Estopim (JAR Editora, 2005) e Elefante (Coletivo Anfisbena, 2012) é algo que há muito permeia o ambiente da Diversos Afins. Assim, ousamos sondar um pouco do que compõe o universo particular de L. Rafael Nolli. O resultado disso implicou na materialização de sentimentos, todos eles bastante coerentes com o que a obra desse incansável poeta contemporâneo sugere.
L. Rafael Nolli / Foto: Arquivo pessoal
DA – Sua manifestação poética possui um caráter aguçado diante da vida. Erguem-se imagens e signos diversos em torno duma atitude desperta e crítica. Aceita o atributo de que seus versos são um exercício de resistência?
L. RAFAEL NOLLI – É muito fácil deixar a poesia em segundo plano, esquecê-la em detrimento de todas as atividades banais que movem a nossa vida. É fácil esquecê-la pelo fato de que não há espaço para a poesia na correria do dia a dia, na velocidade em que tudo acontece; é fácil esquecê-la diante do pouco retorno que ela nos dá: são poucos os leitores, escassos os espaços para publicação e praticamente inexistentes os incentivos. Desse modo, escrever é uma forma de resistir, de impedir que eu me torne mais um pobre diabo correndo do trabalho para a casa, da casa para o trabalho, sem tempo para nada que extrapole o óbvio, o superficial.
Em muitos casos, nem é necessário que um poema seja escrito. O fato de ter um poema em processo, sendo elaborado, mesmo que ainda completamente nebuloso, já basta para me sentir vivo. Nesse sentido, acho que o termo “resistir” cai muito bem, pois a poesia é a minha boia de salvação.
O poema do Drummond diz tudo: “gastei uma hora pensando em um verso que a pena não quer escrever. […] Mas a poesia deste momento inunda a minha vida inteira”.
DA – Na construção de um discurso que engendra aspectos sociológicos, você consegue afugentar o viés didático e quiçá panfletário atinente a tais reflexões. Percebe isso como um desafio criativo?
L. RAFAEL NOLLI – Tudo relacionado à poesia é um desafio. Com certeza, o didatismo e a poesia panfletária são coisas que quero evitar ao máximo, da mesma forma que o obscurantismo, o hermetismo, o sentimentalismo e o discurso pomposo, ainda que exista certo romantismo em torno da ideia de que a poesia panfletária é menor por não sobreviver ao tempo. E que poema sobrevive ao tempo? Entre os modernistas, centenas de poetas publicavam, buscavam espaço, alguns muito bons. Desapareceram. Tenho um pouco de medo da ideia de que se deve evitar o poema panfletário porque o poeta deve criar algo sublime que irá mudar o rumo das coisas no futuro. Muitos poetas pensam assim, como seres excepcionais que estão criando coisas grandiosas e eternas. Bobagem. Como disse, a poesia é exigente demais. O desafio é enorme, sempre.
DA – Sua resposta anterior lembra muito a questão da chamada angústia da criação, na qual alguns poetas se debruçam num esforço descomunal em torno de um resultado impactante. Há mesmo algum sentido nessa necessidade de se erguer uma obra monumental e que traga em si um status de permanência?
L. RAFAEL NOLLI – Acho difícil uma pessoa criar um projeto de escrita “monumental”, assim como se cria o projeto de uma casa. Quem dera as coisas fossem assim: bastasse elaborar um plano de escrita genial, colocá-lo em prática e zás, eis mais um Fernando Pessoa! Como disse, a poesia é muito exigente, não existem fórmulas ou métodos para se conseguir um bom poema, não há atalhos. Se um poema permanecerá, pouco podemos fazer para que isso aconteça além de publicá-lo. O resto não cabe a ninguém, é um processo aleatório que independe do poeta. Aí está uma das belezas da poesia, não se pode transformá-la em um fenômeno como se faz com um romance, usando meia dúzia de fórmulas e uma campanha de marketing. O poema corre por fora, como um azarão. Se ele sobrevive, dificilmente isso ocorrerá porque o seu criador o quis assim. A angústia em criar algo duradouro me parece um delírio faraônico. Ela deve ser canalizada para se criar algo honesto, sincero. O tempo faz o resto.
DA – Um poeta, quando “desce da montanha” onde buscava algo supremo, não parece mais coerente com a condição essencialmente humana?
L. RAFAEL NOLLI – Com certeza, é mais coerente. Claro que subir a montanha pode ser importante, assim como foi para o Zaratustra do Nietzsche, que retornou pregando a vontade de viver e o amor à terra. Subir a montanha pode ser também uma defesa, já que o poeta muitas vezes não encontra leitores ou respaldo entre outros escritores. Essa postura de isolamento é muito comum, o poeta se fecha em seu blog ou em um perfil do facebook e faz disso a sua trincheira. Em outros casos, pequenos grupos de poetas constroem uma montanha e lá sobem, impedindo a todos de se aproximarem. O panorama me parece mais ou menos esse: todos sobre montanhas, alguns em grupos, outros sozinhos, cada um falando uma língua, a maioria confortavelmente escondida do mundo. O problema pode mesmo ser a falta de leitores ou de incentivos para aproximar a poesia das pessoas, ou pode ser um problema criado pelos poetas que não querem diálogo nenhum e se sentem confortáveis com a ideia de praticarem uma arte para poucos ou para ninguém. Nesse momento, sinceramente, acho que subir e se esconder não é o melhor caminho. Porém, não estou muito seguro se, ao descer, o poeta não vá conviver com outros senão aqueles que também desceram da montanha.
DA – De algum modo, carecemos de desmitificar a poesia rumo a um caminho efetivo de aproximação com os leitores? Se sim, como fazê-lo sem desnaturar o gênero?
L. RAFAEL NOLLI – Não tenho uma teoria digna para esse assunto, apenas especulações. Desmitificar a poesia parece um caminho, mas talvez não resolva o problema. Muitos leitores, de contos, romances, biografias, não possuem livros de poemas em casa. O que alegam? Que a poesia é chata? É difícil, complexa, incomunicável? Como mudar essa visão? Valorizando autores? Está nas aulas de literatura o problema? A impressão que temos é que a poesia está escondida, em sua torre de marfim, e ninguém se arrisca a salvá-la.
Uma ação possível que atraia leitores pode ser retirar a poesia das prateleiras das bibliotecas, ou de obscuros blogs e levá-la à rua. Recentemente, participei de um projeto que unia graffiti e poesia. Após as aulas teóricas, onde se aprendia a fazer moldes, usar as cores, etc, os alunos saíam para a aula prática, espalhando poemas pelos muros da cidade. O retorno foi ótimo. Muitas pessoas paravam – e creio que ainda param – diante dos graffitis e ficavam impressionadas com aquilo. As pessoas se surpreendiam com o que liam e, em geral, tinham dúvidas que foram jogadas por terra pela geração de 22: “mas isso é poesia? Não rima, não fala de amor, tem gírias, palavrões…” etc. Ainda persiste, infelizmente, o conceito de poesia rimada, com palavras difíceis, praticamente incomunicável, distante da vida real. Levar poemas para a rua me parece uma forma de desmitificá-la, aproximá-la das pessoas. Uma parte da poesia produzida hoje é produto laboratorial, feita em salas fechadas, sem uma única janela aberta que dê um vislumbre da rua. Ferreira Gullar diz que “Quando surge uma ideia, vou para a rua. Tenho prazer em conceber o poema no meio das pessoas que passam e nem suspeitam que ali, naquela hora, ele está nascendo”.
Levar o poema até as pessoas, na rua, em fusão, simbiose com outras formas de arte será o caminho? Isso não levaria a uma descaracterização do poema como o conhecemos? Como disse, são especulações apenas.
DA – “Elefante”, seu mais recente livro, vem ao mundo de modo não apenas independente, mas artesanal. Qual o maior significado dessa sua opção editorial?
L. RAFAEL NOLLI – Foi uma opção que fiz e que me agradou muito. Em 2005, publiquei Memórias à Beira de um Estopim. Procurei financiamento em meio a empresas, levantei o dinheiro, e uma gráfica se encarregou do resto. Fiquei com uma pilha enorme de livros em casa, ocupando espaço. Desde então, venho buscando uma alternativa para publicar novamente. É triste depender de empresas privadas para isso. As editoras não estão abertas a poesia, pois essa não vende; os projetos de incentivo, como a Lei Rouanet, por exemplo, são de uma burocracia sem tamanho. Foi nesse contexto desanimador que conheci a cartonaria. A ideia é bem simples e apaixonante, os livros são confeccionados um a um, de forma artesanal, com capa de papelão ou de leite longa vida, sendo que cada exemplar é personalizado, único. Existem muitas editoras fazendo isso, todas são pequenas, sem finalidades comerciais, publicando em pequeníssimas tiragens, muitas vezes com Financiamento Coletivo (Crowdfunding). Assim, resolvi criar uma editora nesses moldes, convidando amigos para ajudar na tarefa. Assim, veio ao mundo meu livro Elefante e uma coletânea, chamada Fórceps, com autores de Araxá. Lentamente, vamos confeccionando os livros, pintando as capas, montando os cadernos, colando, costurando, etc. É um projeto autossuficiente: os lucros, que são mínimos, são investidos em material para se fazer mais livros, criando um ciclo.
L. Rafael Nolli / Foto: Arquivo pessoal
DA – No Brasil, como seria possível vislumbrar uma harmonização entre mercado e poesia?
L. RAFAEL NOLLI – Acho cada vez mais que “poesia e mercado” são inconciliáveis. O mercado transforma tudo que toca, formata e modifica para facilitar a venda e ampliar os lucros. Não consigo vislumbrar, nesse sistema em que vivemos, baseado no consumo rápido e desenfreado, um lugar seguro para a poesia. O grande problema mesmo, me parece, é sistêmico: vivemos em um mundo onde tudo é produto de consumo rápido, tudo é descartável. A poesia necessita de reflexão, de tempo. Para piorar, a poesia exige releitura, digestão: quem leu um poema uma única vez não o leu! É um projeto em longo prazo, de compromisso. O mercado exige que a mercadoria se estrague, perca a validade, saia de moda: a obsolescência programada.
A única saída é a formação de leitores. Não há, salvo raras exceções, leitores de poesia que não sejam poetas. O pior em tudo, o mais lastimável? Poetas que sequer são leitores de poesia! Como eu disse, é uma questão problemática, muito complexa. Um exemplo prático: as tiragens de livros de poemas são modestas. Isso ocorre porque não se encontram “compradores” em grande escala. É uma regra simples, o mercado se equilibra em Oferta e Procura e, nesse momento, a palavra poesia mais assusta do que atrai. Vale a pena ressaltar que o problema dos leitores está muito longe da alçada dos poetas. Claro que eles – os poetas – contribuem para aprofundar o problema, mas em geral esses poetas são pequenas peças em um tabuleiro. A falta de incentivos, de editoras especializadas, de espaços para leitura, de debates, de possibilidades de divulgação, a feiras, etc, amplia o problema. Não acredito em poesia como um produto rentável, nem vejo como isso possa acontecer. O que me preocupa é não haver espaço nenhum.
DA – Entre sua porção de educador e a de escritor, quais pontos de convergência considera especiais?
L. RAFAEL NOLLI – São muitos os pontos de convergência. Recentemente, li o livro “Conversas com Elizabeth Bishop”, uma coletânea com as principais entrevistas concedidas pela escritora norte-americana. Nessa obra, ela se orgulha do fato de ser a única poeta estadunidense que vive sem dar aulas. Bishop era uma exceção e nos mostra que a relação escritor e sala de aula não é uma coisa recente. Conheço muitos poetas que ganham a vida como professores. Já que ninguém consegue viver de poesia, é natural que poetas ganhem a vida em sala de aula, como jornalistas, ou algo similar. A sala de aula é um ambiente muito enriquecedor, que possibilita uma troca enorme, não só de informações, mas de comportamento, formas de ver o mundo e interpretá-lo, etc. A sala de aula, como a escrita, exige sensibilidade, percepção apurada, paciência.
DA – Há que se combater certos determinismos em matéria literária. Talvez o pior deles seja acreditar que a maioria das pessoas em nosso país é permanentemente desinteressada pela leitura. Em que medida autores também são responsáveis pela manutenção desse discurso?
L. RAFAEL NOLLI – Infelizmente, somos um país de não-leitores. Os números não mentem: temos 8% de analfabetos (algo em torno de 10 milhões de pessoas), apenas metade da população pode ser considerada leitora. A média de anos de estudo é ridícula: 7,4 anos! Ou seja, a maioria dos brasileiros não possui o Ensino Fundamental completo. Por fim, outro número dessa tragédia: nossa média de livros lidos por ano é de apenas 4! Isso sem entrar no mérito referente à qualidade literária dessas obras! Digo isso sem cair no erro do determinismo, que é uma enorme bobagem.
Acho apenas que o desinteresse, que é real, não é permanente, imutável. Trata-se de um momento, já extenso e duradouro, que é fruto de uma série de problemas que têm raízes profundas. Porém, nada impede que essa realidade mude. Falta incentivo, interesse político, boa vontade da mídia e não sei mais o quê. Uma dezena de motivos. Tenho certeza de que se as pessoas tiverem acesso ao livro, o problema será resolvido, pois não conheço nada melhor do que ler. Temo que muitos grandes livros estejam perdidos, esquecidos, aguardando uma geração de leitores.
Sempre ouvi dizer que a leitura nunca vai ser incentivada pois “um povo que lê não pode ser enganado”, “um povo que lê sabe cobrar os seus direitos”, “sabe votar”. Sei que isso é uma ideia romântica, idealizada, bobinha. Mas não creio que seja uma ideia totalmente errônea. Ler pode mesmo fazer a diferença, mudar o rumos das coisas, ainda que não seja uma ação voltada para isso. Conhecimento é poder? Com certeza. Sabemos que temos muitos nos governando que nunca mais seriam eleitos se o povo passasse a buscar mais informações. Parece teoria da conspiração? Pode ser. Mas não vejo outro motivo plausível para tamanho desprezo, por parte do poder político e da mídia, que explique essa situação.
Com todo o exposto, o papel do escritor, nesse caso, me parece muito pequeno, pois ele luta contra uma máquina poderosa, muito maior do que pode imaginar. O papel dos escritores deveria ser apenas o de escrever bons livros. No entanto, isso não basta, é preciso lutar contra essa máquina. Como lutar? Recorro mais uma vez ao Drummond: Posso, sem armas, revoltar-me? Espero que sim.
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
L. RAFAEL NOLLI – Essa é uma questão interessante. Em duas ocasiões, estudei, no sentido mais didático da palavra, a pós-modernidade: quando me formei em Letras e, posteriormente, em minha graduação em Geografia. É um assunto interessante, muito enriquecedor, porém, algo complexo, difícil. Não endosso, por exemplo, esse conceito de que as ideologias morreram, que não há espaço para utopias, que o século XX enterrou todas utopias.
Reconheço que o século XX mostrou o fracasso de alguns modelos de socialismo. No entanto, o socialismo, enquanto ideologia, continua vivo, atual, e urgente. Novas tentativas podem ser feitas, já que o arcabouço ideológico é enorme, riquíssimo. O capitalismo nunca deu certo e estamos aí assistindo a tentativas e mais tentativas de mantê-lo de pé. Por que não com o socialismo? A ideia de que não há mais por que se lutar me assusta muito. Quando alguém cita Fukuyama, me dá um arrepio horroroso na espinha. É uma grande idiotice acreditar que a história chegou ao fim. Esse finitismo é um veneno para a sociedade – com reflexos sombrios sobre a arte.
DA – Abraçando a noção de se travar embates pela palavra, em que nível de percepção está a poesia de L. Rafael Nolli?
L. RAFAEL NOLLI – Essa é, com certeza, a pergunta mais difícil de todas. Eu escrevo, mas isso é um processo que não domino ou entendo por completo. De repente, tenho uma ideia na cabeça e sei que essa ideia vai virar um poema (ideia é uma péssima palavra para descrever esse processo, mas não consigo pensar em outra melhor). Ou seja, é um trabalho inconsciente que não está sob as minhas ordens. Lógico que depois de escritos posso juntar esses poemas e tentar entender o que eles abarcam, notar familiaridades que revelam um padrão, que criam um eixo. Agora, em que nível de percepção eles estão? Realmente, não sei. Temo que seja impossível sabê-lo!
*Alguns poemas de L. Rafael Nolli podem ser lidos aqui