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87ª Leva - 01/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Jorge Mendes

 

Ilustração: Vera Lluch

 

balada da vida ordinária

 

na vida ordinária você varre a sujeira pra debaixo do tapete, faz clareamento dentário e fica limpo e asséptico como os cadáveres da hora sublime. na vida ordinária você usa óculos escuros renascentista, um coração de grife e lê livros que fazem você ser um filhodaputa cada dia melhor. na vida ordinária você sente piedade e compaixão, entra em transe quando vai às compras e é dotado de poderes mágicos tecnológicos. na vida ordinária você compra/vende/aluga/negocia corpos, mentes, cargos públicos, ignomínias. na vida ordinária você se exercita na arte da dissimulação, cita os clássicos e vai virando alma penada. na vida ordinária os amigos que você nunca teve, as mulheres que nunca o amaram, estão todos mortos bebendo chopes na orla da praia. na vida ordinária você consome frutas químicas, amores desidratados, imagens de santos e mártires. na vida ordinária você não sente medo nem torpor, só psicose e rancores frígidos. na vida ordinária tudo tem preço, peso e sabor e é tão artificial com corantes que dá vontade de morder. na vida ordinária você higieniza o desejo, acumula gorduras, segue o comando da voz. na vida ordinária existem dívidas, apólices, banco de dados e catálogos que explicam. na vida ordinária você trapaceia, ilude, ludibria e finge como todos fingem. na vida ordinária você é célula, parafuso, número, uma coisa entre coisas. na vida ordinária todos os sonhos estão em liquidação e você ainda pode pagar no cartão daqui a 30 dias. na vida ordinária você gasta o seu salário em culpas e acessórios, constitui família, constrói muros, patrimônios e agoniza místico e feliz todas as horas do fim.

 

***

 

ânima

 

crie asas, encantamentos, quebre o cimento, beba do meu conhaque. faça adormecer os móveis, leve minha tristeza pra passear. saia do frio com os cabelos molhados, caia morta. quero morder palavras de sal e fundo do mar. apague meu rosto e me deixa fugir pelas galerias. invente um cálculo para o que sofro, corte meus pulsos, morda meu pescoço, lamba meu desejo, perfume meu medo, invente um corpo para o que escrevo, me faça respirar.

 

***

 

manual da trapaça

o truque é ter medo até derreter os ossos. o truque é virar estátua de sal e correr com os cães. o truque é ser de gelo e não evaporar. depois é o lodo corrosivo, o torpor na curva escura, a lógica dos falsários. depois é a solidão comendo pelas bordas, os narcisos do paraíso digital escrevendo líricas sintéticas. depois são só os ratos pedindo perdão. o segredo então é ser ulisses na caverna com os ciclopes e não ser ninguém. o segredo é entrar no invisível com sangue escorrendo pelo nariz. o segredo é viver no agora descartável, indolor, sóbrio como os mortos. o segredo é investir na prótese dentária, no artifício lúdico, no verniz da auto-promoção. depois é o vôo raso sobre os escombros, teatro infanto-juvenil, kardecismo e psicose. depois são os alcoviteiros do bairro, o churrasco, a porção de fritas, o chopps. depois é o tráfico, a corrida de obstáculos e o grande espetáculo diário dos horrores.

 

***

 

hell paraíso

agora assinamos leis que matam crianças, tatuamos o nome do medo e da cobiça em nossas carnes, perdoamos o inimigo e amamos nossas bichinhos de estimação. cientistas políticos, agências publicitárias e poetas irascíveis negociam o céu azul enquanto queimamos índios e fugimos em nossos velozes carros envenenados. agora cultivamos flores cheias de rancor em nossos jardins dos horrores. milhares de nós sentem piedade e psicose, assistem a morte colorida nas tvs e mentem e riem e batem palmas e emitem sons semelhantes aos focas e as hienas. agora os falsários e os corruptos se multiplicam nos corredores das repartições públicas, vampiros almoçam em fast-foods como príncipes das trevas que são. agora o gelo nos dentes, a primavera devastada, os amores minúsculos e o hálito podre das vaidades dos mesquinhos dos bairros. agora é o futuro em ruínas, a ilha dos tubarões, o paraíso dos assassinos.

 

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esfinge

o que você fez? mexeu nos meus papéis? vasculhou meu lixo? fez despacho pra iansã? o que você fez? coou meu café na calcinha, colocou veneno de escorpião na minha bebida, deu um nó nas minhas meias, quebrou meu espelho, escreveu meu nome na pedra de gelo, o que você fez? espetou um alfinete no meu peito? sussurrou em meu ouvido enquanto eu dormia? o que você fez? deu prus meus amigos? emborcou meus sapatos? queimou minhas cartas, meus planos de vôo? roeu minhas unhas, meus ossos, todos meus sonhos? o que você fez? deixou meu nome na encruzilhada? chamou a polícia? jogou minhas cinzas prus ratos? envenenou minha comida? o que você fez? colocou minhas coisas numa mala e jogou no mar? riscou um x vermelho na minha cara no porta-retrato? o que você fez? mastigou minha sombra com os seus caninos? mergulhou meus cabelos no inferno? tocou com a ponta dos dedos em minha testa e enlouqueci? o que você fez?

 

Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos.

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Geraldo Lima

 

Foto: Jussara Almstadter

 

Ela

 

É como se não tivesse ficado tanto tempo longe de casa. Como se não tivesse, num rompante do mais louco romantismo, abandonado tudo em nome do amor mais extremo. Olhando-a assim, tão desenvolta na casa que ela renegou um dia, podemos nos espantar com a sua certeza de que ainda cabe ali, de que não há outra em seu lugar, de que ele não trocou a fechadura exatamente para que ela entrasse sem precisar tocar a campainha. E aí está ela, desfazendo a mala, indagando sobre o comportamento das crianças (nem percebe que cresceram, que praticamente não a reconhecem), e reclama do guarda-roupa bagunçado, reafirmando, talvez, a necessidade de sua presença ali. Ele, até agora, observa tudo pasmo, com um engasgo, uma vontade de dizer algo, uns desaforos, uns desafogos, indagar, se impor, mas sentisse-se atravessado por sentimentos contraditórios: enquanto busca em si o ódio, a faca que trincha, um fiapo de alegria deixa-o mole, aliviado, quase a ponto de chorar. Intenta reagir contra essa fraqueza, porém já é tarde, ela domina o ambiente, preenche o vazio de antes, dando a nítida impressão de que tudo está começando agora, sem pus algum na ferida que lateja ainda exposta.

 

 

***

 

Sinais

 

Douglas levantou cedo, ignorou o café da manhã e se pôs a esperar. Estava convicto: logo, logo aconteceria. Seria como estava profetizado. Assim como lera no livro sagrado. Tudo o que tinha a fazer era esperar. Crer e esperar.

Cerrou os olhos para que os ruídos mais inaudíveis pudessem penetrar-lhe os ouvidos. Era pela audição que toda a verdade lhe seria revelada. Acreditava que, anulando um dos sentidos, no caso a visão, aguçaria o outro.  Não lhe vinha à cabeça a necessidade de um tempo maior para que a ausência de um sentido fizesse o outro aflorar com uma eficácia quase divina.

Os sons que lhe chegavam da rua ou mesmo do interior da casa ou ainda do seu próprio corpo eram bastante comuns. Por mais que tentasse ouvir neles notas dissonantes, carregadas de sentidos místicos ou de sinais não revelados, nada, absolutamente nada, ultrapassava o banal e o cotidiano. A vida, para seu desespero, transcorria opaca e sem mistério.

***

 

 

Ombro

 

Deixou a alça da blusa escorrer pelo ombro, descobrindo-o todo, desnudando-o sem pudor aparente, a pele, a carne, a parte mais visível do ser ali, dada, exposta, latejando. Esse pequeno descuido, esse relaxo quase sem propósito, esse marketing súbito, sem almejar um efeito imediato, ali, em plena avenida, a céu aberto, exposto aos olhos de Deus e do Diabo, dos que se julgam santos e dos que já se renderam a todo tipo de danação, isso, esse gesto sem um cálculo preciso, que veio assim sem esboço, sem script, sem o “Ação! gravando!” de algum diretor invisível, fez com ele desviasse alguns centímetros do trajeto, no que costumamos chamar de “perder o rumo”, “ficar sem norte”, “andar à deriva”, fez com que se alienasse de tudo o mais à sua volta, questão de segundos, milésimos de segundo, uma eternidade na frequência dos desejos e do encanto.

 

 

(Geraldo Lima é professor, escritor, dramaturgo e roteirista. Tem alguns livros publicados, dentre eles “Baque” (contos, LGE Editora), “Tesselário” (minicontos, Selo 3 x 4, Editora Multifoco) e “Trinta gatos e um cão envenenado” (peça de teatro, Ponteio Edições). É colunista do Portal Entretextos. Colabora com o Jornal Opção, em Goiânia, e com o Jornal de Sobradinho. Bloga ainda em Baque)

 

 

 

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81ª Leva - 07/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Tere Tavares

 

Ilustração: Mario Baratta

 

 

Ambição

O corredor da sala ficaria com o azul rosado, o quadro das embarcações. Para o quarto distante e agora mais feliz levaria as tulipas aquáticas que antes eram da sala. Na onda embranquecida pela violência do mar já se haviam dizimado os motivos do choro. O coro de lamentos sumira no lume da primeira embarcação – máscaras e caracóis vestidos na véspera. O vazio prenhe de elipses entre decisão e ardor, ascendia num horizonte lívido de silêncios sem voz. Quisera correr e agarrar-se aos remos com os braços fortes de outrora. Quisera haver ainda sais para remar a vontade de parar.

 

 

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Som

Esquecera há quanto ocultara na falta de tempo as leveduras do pó e seus milhões de ouvidos. Abriu o compartimento de onde viriam as notas. Um clique. Debussy. Massenet. Guardava o som na memória que esquecia títulos, composições. Só a melodia a vagar o sentido que não oblitera. A leitura disforme e veloz como as mudanças tecnológicas. A fome por som continuaria somente até a segunda ideia navegar a distância da aproximação, portas presentes. Meditação para Thais e Clair de Lune. Viu partituras. Ouviu piano, violino. E segregou-se no retrato de um homem que possivelmente teria amado.

 

 

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Debrum

Revestia-se humílima no breu da razão onde esmigalhara vertigens irresolutas, esmiuçada no equilíbrio de uma desordem no fio dos lábios exultando um ontem mínimo e indispensável à perfeição do hoje, hígido, servil. Estremeceu a voz numa hiperbólica vigia “ah se não fosse se não viesse se parasse o que possui dores”. Via no branco espalmado apenas a liberdade feita de algemas. “E esse céu que se vai tecendo num fulcro de impossível”. A fadiga solúvel, uma fragrância irrecusável de alecrim e calêndulas – um gesto súdito a reveste derramando-lhe um cetim consútil – sua noite de pêssegos.

 

 

***

 

 

Eco lógico

O peso do elo pode não ser um pesadelo. Na urgência que tem para que o tempo demore já não demora nem retorna à raiz a árvore que cai – apenas o corte finge que o cinge quase esquecido do seu gosto de nozes. Como uma película de lagos entre os braços tinha para si a modorra que movia. Sequer existia. Rodava nas horas que imaginava. Ramagens. O cansaço não adormecia nem o dormir acordava. Uma angústia exausta não aceita ordens; quer exaurir e o faz tombando de forma macia, sem a tristeza de não dar arborescência ao próprio reflexo.

 

 

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Açucena

Uma forma de driblar a solidão e derreter as coisas que fermentam, erroneamente refreadas – deixar um pensamento para depois é correr o risco de perdê-lo – já não ousa correr riscos nem deixar de correr porque o tempo tem pressa. Aprende a falar sozinha para não desaprender a falar, perde o apetite na proporção que lhe cresce o pássaro do peito entre roupas sujas e ninhos limpos. Quer olhar coisas onde coisas não há para estreitar… caça às escuras, entre simbioses e moedores de letras, algo que aproxime a distância entre os abraços. Do voo suprimido de asas vê o vácuo, bebe o céu. Seu sim.

 

 

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O Alienista

A perspicácia o faz ainda re-ver algumas provas. É agradável o deslindar dos pensamentos à sua frente. Fragilmente forte não reagiu quando bateu a chave com força e fez cair a porta. Talvez se assemelhasse àquela fechadura muda que lhe abriu o chão para vê-lo enrijecer o esquecimento de todas as coisas que por insegurança o fizeram útil. Um exclusivista ligou para ser ouvido. Quando quis fazer-se ouvir “só um minuto” não teve garras – seus ouvidos eram os erros da casa – os labirintos de Borges.

 

 

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O menor de todos

Eu visto outra pele sem ser a minha alma uma pele que visto. Não me escondo senão por uma timidez ou um desejo de ser o nome obtuso estreitando livremente a ameaça de mostrar-me. Como se nunca sucumbisse a luz errante da sombra. A confiança erra ao não ter compaixão. Vale a pena sonhar, me antever quase totalmente arrependida nessa terra estranha que se tornou a minha figura. Minhas fotografias são essas palavras, e algumas palavras são sapos. Não há sentidos feios, apenas almas. Não há palavras feias, apenas sentidos. Papel de bala.


 

***

 

 

Mata

Num oceano de folhares o néctar vive com o trivial cerne da comoção. Quem nunca teve uma grande ferida para saciar? Toma a sua cicatriz aberta e desperta do que não é, em absoluto, um pesadelo, um caule impoluto. Uma foice cruza o último solstício tropeçando sem saber se ainda serve aos admiradores da resistência. “Melhor se não vivas” diria a teimosia peregrina ao luto das ramarias. Talvez um imbecil soubesse de matemática quanto sabe a sorte do semeador. “Não julgariam se me vivessem; sou uma eterna grade, herdeira sentenciada pela casca que me veste como quem despe”.

(Tere Tavares é escritora e artista plástica. Autora de três livros publicados: “Flor Essência” (2004), “Meus Outros” (2007) e “Entre as Águas” (2011). Integra a Academia Cascavelense de Letras. E-mail: t.teretavares@gmail.com) 

 

 

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80ª Leva - 06/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Jorge Mendes

 

 

Foto: Peterson Azevedo

 

 

agora que setembro chegou

 

deixa eu entrar nesse mundo estranho de flores letárgicas e comprimidos que causam rupturas. tenho um par de botas e uns truques sujos na manga caso você precise gritar entre os girassóis. antes me diz quem te assustou o olhar, te viciou no corrosivo, deu o clique. deixa eu fazer parte desse enredo enérgico: também sinto medo e bebo até o chão virar gelatina. adoro tua tristeza na areia da praia, as canções das máquinas binárias, a maneira febril do teu cabelo no rosto. seja generosa comigo e deixa eu participar da tua festa no gelo, dos teus joguinhos extremos no quarto escuro, do silêncio repentino dos homens e das coisas um pouco antes do mundo explodir. ao redor só vejo vultos fossilizados e fui atraído pelo frio. há algo confuso, um descontrole e mágica assassina quando tu passas incendiando os prédios centrais. bebe um conhaque comigo, fique parada com cara de fada louca bem na minha frente. vamos nos divertir agora que é setembro, antes que o sangue esfrie e a gente vire esse jardim grotesco, esse horror que todo mundo é.

 

 

 

***

 

 

diga adeus antes de ir embora

 

não me ame com sangue debaixo da unhas, com ódio nos dentes, com venenos finos nos olhos, na ponta da língua. não atire nosso prato de yakisoba caseiro no chão da cozinha, não cuspa as canções do kurt cobain na minha cara, não grite na fila do banco que me quer morto em pedacinhos. não seja hostil com os garçons da madrugada, não rasgue nosso retrato do dia perfeito, não desligue o telefone e nem bata a porta dizendo palavras cruéis. não vire santa prus cadáveres dos subterrâneos. não me deixe fritando na festa dos canibais. perdão se não sou e nunca fui o príncipe-fodão que você sonhou olhando a tempestade cair no seu jardim dos horrores. perdão se bebo muito e não distribuo sorrisos nem frases de efeito relaxante pra rapaziada da intelligentsia. sinto tudo, sinto medo, sinto muito e vivo dentro do meu bloco de gelo com meus demônios fazendo festinha no peito. então não me beije com rancor, não me derrube da cama, não morda meu pau, não me foda por vingança, não me arranque o coração, não me faça sangrar e não precisa empurrar porque já estou saindo.

 

***

 

 

brasa

essa garota que anda por aí incendiando avenidas, destruindo linguagens, derretendo estruturas, me pegou de jeito, pegou gostoso. também só queríamos beijo na nuca, amasso em toda curva escura, coisas do corpo e outros hipnóticos. por exemplo, se me perguntarem o nome dela eu digo saliva, língua, navegação. tem esse sabor de sal e pétala nos seios de mamilos bizantinos, esse cheiro de nicotina e oceano atlântico nos cabelos desestruturados, canções de aretha franklin e afundo. vejo nuvens carregadas de eletricidade e desejo, clarões púrpuras no escuro céu e o corpo segue formigando na onda que é quente quente quente. ela dança no fogo, encantada. com os braços abertos, inventa os passos com o cabelo no rosto, voa. estamos no impossível. no nosso circuito fechado: ninguém nos toca. ninguém nos vê e nos divertimos pelos extremos. claro, no mundo tem ioga, homeopatia, hipócritas e suicidas. mas caímos na abundância, no mergulho na brasa rubra. combustão é o nome da coisa. então amanhã a gente discute o medo e o porvir. fala de dinheiro. arma um esquema perfeito. hoje, porém, só o caos selvagem, a boca no pau, língua e lábios em colisão. hoje, agora, só o corpo, o fogo, o que for bom.

 

 

(Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos)

 

 

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67ª Leva - 05/2012 Dedos de Prosa Outras Levas

Dedos de Prosa III

Desenho: Felipe Stefani

 

 

DO QUE ESQUEÇO

Priscila Miraz

 

Sempre dos gestos mais pessoais. Dos trejeitos mais repetidos. Esqueço dos meus modos nas situações. Das mãos na cintura quando converso em pé, e de como ergo o rosto pra soltar a fumaça do cigarro. Quando me descrevem, dizem do que mal percebo e do que é o menos passivo em mim. No descuido que o esquecimento permite, a restrita liberdade escapa. E os defeitos e falhas tão mal escondidos, os palavrões, a falta de tato, a evidência do cansaço, o excesso de cuidado, os pequenos melindres, a falta de paciência. Tudo bem figurado na descrição. Encarnado. Quando me chamam a atenção, perco o ritmo, tropeço e fico manca. Demoro a acertar o passo outra vez. A espontaneidade é coisa frágil.

 

 

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IMAGEM

 

A casa. A porta lateral está aberta. O ar é denso do silêncio povoado. O calor e os rumores do meio do ermo. É cortante o ranger dos bambus gigantes. Eles ladeiam a casa. Dentro é escuro, úmido, frio. Cheira a madeira molhada. Sempre. A cozinha é quase toda a casa. A mesa grande. As cadeiras descompostas pelo espaço. Utensílios. Livros abertos e fechados. Os pratos sujos. Panos. Óculos. Frutas. As flores apanhadas. Partes do silêncio. E também o arrastar da escova nos cabelos. Ele está em pé, atrás dela que está sentada muito ereta num banco, e lhe penteia os cabelos. Grave. Ela se move involuntária. O puxar que a escova lhe inflige ao pescoço. Não dizem nada. Bem à frente dela, uma janela pequena aberta de par em par. A mata no horizonte se revira com a ventania. Acompanha o cinza escuro da tempestade que chega. Ela quase não respira. É calmo o olhar que vê a aproximação da tempestade. É ainda curioso e encantado. O mesmo olhar que vê a cena vivida.

(Priscila Miraz de Freitas Grecco natural de Assis, SP, é mestre em História da América pela UNESP – Assis. Teve contos publicados pelo jornal literário de Curitiba, Rascunho, pelas revistas eletrônicas Germina e Caderno Literário. Participou também de duas coletâneas da editora Pragmatha, O imaginário do mar e do navegador, e Cardeno Literário III- Meio Ambiente)


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67ª Leva - 05/2012 Aperitivo da Palavra Destaques Outras Levas

Aperitivo da Palavra

UNIVERSO MENTAL POVOADO POR SERES MINÚSCULOS

Por Geraldo Lima

 

O que se pode esperar de uma obra literária é que ela provoque, no mínimo, o estranhamento no leitor, arrancando-o do automatismo da vida ordinária. O leitor que se aventurar na leitura de ‘Notas de Pensamentos Incomuns’, de Anderson Fonseca (Editora Multifoco, 2011), será, com certeza, tocado por esse estranhamento. O livro é composto de minicontos, sem título, e quase sempre narrados em primeira pessoa, ou fragmentos que se articulam como se fizessem parte de uma única história, mas que, ao mesmo tempo, mantêm uma independência em relação ao todo. E esse já é um dado do estranhamento que o livro provoca, pois, ao final, sabemos tratar-se de uma obra cuja tessitura só se completa com a junção de todos esses fragmentos aparentemente autônomos.

E o estranhamento se aprofunda com a presença dos seres minúsculos, bizarros, fantásticos, que povoam o universo ficcional criado por Anderson Fonseca. Tamagotchi, Delírios, Gloeb, Jhungols, Flopers, Dabie-Dabie e Móbile são alguns dos estranhos personagens com os quais o leitor irá se deparar durante a leitura de ‘Notas de pensamentos incomuns’.

Alguns desses seres minúsculos habitam a cabeça (e às vezes dela brotam) ou outras partes do corpo de um quase sempre atormentado narrador-personagem. É o caso de Apple, um “bichano muito interessante, redondo, peludo, amarelo e saboroso” que um dia escapa da cabeça do narrador-personagem: “E para que eu não me esqueça do propósito inevitável da vida, evoluir, Apple agarra-se a certas partes do meu corpo iconoclastas da evolução humana: uma hora está numa das pernas, outra na nuca para que me lembre da coluna vertebral, e noutra sobre a cabeça” (pág. 51). Às vezes esse processo de coabitação é mais radical, e o ser intruso penetra o corpo do narrador-personagem ou interfere na sua capacidade de articular o pensamento. Imagine uma mosca que pousa certo dia na mão do sujeito e, depois de algum tempo, já se encontra morando embaixo da sua pele. Ou seja, ele se torna o seu hospedeiro. Noutro miniconto, uma bactéria começa a interferir nos pensamentos do narrador-personagem. Diz ele: “Faz um tempo que meus pensamentos estão sob a regência de uma bactéria” (pág.85). E para que o leitor não ache que isso seja inverossímil, improvável, o narrador-personagem cita como argumento de apoio a matéria publicada na Scientific American confirmando a existência de uma bactéria capaz de “alterar o estado cognitivo do ser humano”. Mas nem precisava usar esse argumento, pois, desde o início, o leitor terá notado que a narrativa de Anderson Fonseca, nesse ‘Notas de pensamentos incomuns’, dá-se fora dos limites do realismo. O que se vê aí é a mais viva manifestação do fantástico e do absurdo.

E é nesse sentido, dessa forte presença do fantástico e do absurdo, que podemos falar das influências que permeiam essa obra de Anderson Fonseca. É visível o diálogo dessas suas narrativas curtas com a obra de Jorge Luís Borges (estão lá os espelhos que simulam outras realidades ou imagens, os corredores formando labirintos, o espírito de fábula), a de Julio Cortázar (o seres minúsculos e fabulosos lembrando cronópios, famas e esperanças), a de Kafka (a metamorfose, a sujeição do personagem a uma realidade que escapa à sua vontade) e, também, o universo mágico da obra de Escher. Esse, aliás, é citado literalmente numa das narrativas: “É embaraçoso viver numa casa desenhada por Escher, e muito mais embaraçoso saber que ela existe numa folha de papel…” (pág. 73). De tudo isso surge um texto de feições próprias, mas que mantém suas raízes fincadas na tradição que subverte o real.

Mais que qualquer outro mecanismo de forjar realidades, é a imaginação que prevalece nesses textos ficcionais de Anderson Fonseca. É da imaginação do narrador-personagem, do seu pensamento incomum, atormentado, que brotam todas essas notas e todos esses seres e universos perturbadores. E, aqui, o leitor irá se deparar com outro elemento que destoa do normal: o narrador-personagem e o autor fundem-se, aparentemente, numa só pessoa. O autor Anderson Fonseca, à maneira de Borges, se coloca na narrativa. (E os limites entre realidade e fantasia quase que se dissolvem.) Todo esse universo de perturbações e estranhamentos situa-se na sua mente. E diante da sugestão do médico para extirpá-lo (a cura mataria a capacidade criativa do autor), ele escolhe permanecer coabitando com os seres que, muitas das vezes, sugam a sua energia e a sua paz de espírito: “Vendo hoje o meu estado, tenho vontade de esmurrá-lo, lançá-lo para longe dos meus olhos; (…) me apeguei de tal modo a essa pequena criatura inocente, que sacrificá-la seria o mesmo que me destruir”, diz ele sobre Gloeb (pág. 18).  Criador e criatura estão, nesse caso, unidos de maneira indissociável. Criar é, de certa maneira, deixar-se habitar pela existência do ser criado. E o leitor que se aventurou por esses estranhos mundos criados por Anderson Fonseca não escapará ileso: os minúsculos seres que pululam na mente do autor, ou do narrador-personagem, passam a habitar também agora a sua imaginação.

 

(Geraldo Lima nasceu em Planaltina, GO, em 1959. Mora, atualmente, em Sobradinho, DF. É professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, escritor e dramaturgo. Já publicou seis livros, entre eles: A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF), UM (romance, LGE Editora/FAC) e Tesselário (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). É colunista dos sites: O BULE, Dona Zica tá braba e Portal EntretextosColabora com o Jornal Opção, em Goiânia, o Jornal de Sobradinho e a Revista TriploV. Contato: gera.lima@brturbo.com.br)