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143ª Leva - 03/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Ilza Carla Reis

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Poesia silenciada

 

O silêncio da poesia ecoa
pelos muros da cidade
Seu silêncio ensurdecedor
Gritou em meus tímpanos dormentes
e calou…

Mesmo calada, reticente,
posso sentir sua respiração em minha respiração
e o seu pulsar em minhas veias

Os versos insistem em viver
no deserto da minha sobrevivência…

Fatigada pela indiferença dos homens
e sufocada pelo concreto
a poesia reclina-se em meu peito.

Mesmo reclusa, ela continua a bradar
com sua costumeira altivez!

 

 

 

***

 

 

 

Certezas utópicas

 

Ilusão pensar que se vê
Engano pensar que se sabe
Porque vemos apenas a sombra
Sabemos do todo uma parte
Apenas a parte que nos cabe!

 

 

 

***

 

 

 

Raízes profundas

 

Fincada em meu chão
e injetada de ânimo,
sobrevivo à aridez das minhas perdas!

Em meio ao cinza da paisagem dos dias
insisto, verdejante, renascendo
tal como a flor do mandacaru
que desfila sua beleza em cores!

Espero, serena e forte,
que a paisagem que me cerca se renove.
E ela sempre se renova…

A vida é mesmo feita de paradoxos
e há um tempo pra cada coisa:
tempo de acinzentar e tempo de verdejar!

 

 

 

***

 

 

 

Avesso das coisas

 

O universo quer voltar ao princípio
porque tudo está demasiadamente duro
demasiadamente perverso

A borboleta deseja voltar ao casulo
porque, lá, ela se sente protegida
da excessiva dureza da vida
da descomedida perversidade dos homens

A criança chora com saudade
do ventre materno
onde ela era livre
onde o cordão umbilical
era laço que unia…

Aqui fora, a criança chora
e reclama a ausência
infligida pela pressa das horas
do tempo que nunca sobra…

É preciso colocar, de novo,
as coisas no prumo!

Vai, criança!
Não dá mais pra voltar pr’o ventre
Então, segue em frente
e desavessa o mundo!

 

 


***

 

 

 

Parto

 

Para Clarissa Macedo

 

Não quero ter
de escrever este poema
porque ele dói em mim
e não quero que doa
também em você

Não quero
escrever este poema
porque seus versos
diluem minhas certezas que
mesmo aleijadas
me sustentam
e
como não posso
viver sem elas
imagino que você
também não possa viver

Já disse!
Não quero
escrever este poema!
Só de gestá-lo
em meus pensamentos
sinto que me falta
o ar nos pulmões

Suas metáforas amoladas
cutucam minhas feridas que
pensava
já estariam saradas
mas elas sangram
novamente

Teimoso poema!
Mesmo contra a minha vontade
teima em nascer
teima em vir ao mundo
a este mundo que não o quer

Pois bem!
Nasce logo de uma vez
bendito poema
e me livra das dores deste parto!
……(
………………………….
…………………………..)

Já posso senti-lo
saindo de minhas entranhas
consigo vê-lo
esborrachando-se no papel,
sujo de sangue,
do meu sangue,
………………e
ainda dói
agora
uma dor mitigada
por tê-lo parido
por vê-lo nascido
……………….[finalmente

Entorpecida
ouço seus primeiros gemidos
e antes mesmo de respirar
………………[ele chora
Pobre poema…
parece já saber
que viver neste mundo
não será nada fácil

E a dor que doía em mim
agora dói nele
………………..[mais uma dor parida em versos…]

 

Ilza Carla Reis, escritora, mãe, professora, é natural de Euclides da Cunha (Cumbe), Bahia, Brasil, onde trabalha e reside. Professora do curso de Letras do campus XXII da UNEB. Autora do livro de poesias “Poemeadura” (Mondrongo, 2018) e coorganizadora, ao lado de Luís Felippe Serpa, da coletânea em prosa “Histórias pra quem gosta de aprender” (Darda, 2019). Integra os coletivos “Confraria Poética Feminina”, pelo qual participa de diversos projetos e coletâneas, “Mulherio das Letras” e “Coverso19”. Considera-se, ousadamente, uma mulher que faz “peraltagens com as palavras”. 

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A Literatura é esse território repleto de vivências, cenários e impressões sobre o mundo. Ao mesmo tempo, é atividade que ultrapassa o real e, algumas vezes, não se rende a necessárias relações com ele. O mister de um autor é também algo que não se digna a maiores explicações, a tentativas exaustivas de classificação. Se definir é limitar, cobrar de um escritor as exatas diretrizes de seu engenho com as palavras não parece ser nem um pouco um gesto razoável.

No panorama das narrativas ficcionais, há quem seja profundamente estimulado a criar tendo como norte a necessidade de contar uma história. Mas não é apenas isso. É construir um texto cuja consistência narrativa confira qualidade ao que se está dizendo, sobretudo através da consciência de que aspectos técnicos também são imprescindíveis para quem pretende dizer algo através dos conteúdos elaborados. E quando encontramos alguém movido pelo intuito de trazer ao mundo uma boa história, supomos de pronto que os primeiros indícios de um trabalho digno de ser apreciado estão se delineando. É o caso de Paulo Bono, escritor cuja obra merece especial atenção em razão dos empenhos exitosos com a construção narrativa.

Baiano de Salvador, Bono é um escritor cujos textos prendem a atenção do leitor pela sua fluidez, ritmo e potencial imagético. Some-se a tais atributos a peculiar capacidade que o autor tem de elaborar diálogos que acabam funcionando como verdadeiros atrativos. Diga-se de passagem, muitos desses diálogos têm por virtude maior dar sustentação às expressões dos personagens. E aqui é preciso mencionar que os tipos humanos engendrados por ele encontram correspondência com personalidades que transitam aos montes no nosso cotidiano. O xis da questão é que o autor os molda com habilidade dentro de um universo de cenários e possibilidades comuns a tantas existências diluídas no conjunto dos dias.

Autor do livro de contos e crônicas “Espalitando” (Ed. Cousa, 2013), dentre participações em antologias e coletâneas, Paulo Bono foi também roteirista do curta-metragem “O Garoto”, lançado em 2014. Mas o seu momento atual está voltado para os desdobramentos tidos a partir de seu primeiro romance, “Sexy Ugly”, lançado em 2019 pela Editora Mondrongo. O livro mostra Bono cada vez mais à vontade em sua lida com as palavras, tecendo uma narrativa que subverte expectativas e que tem como um de seus motes o protagonismo de pessoas costumeiramente não aceitas nos padrões de beleza socialmente impostos. E para falar da experiência com seu novo rebento e de outros temas relacionados às vias literárias e mundanas, Paulo Bono recebeu a Diversos Afins para uma conversa marcada por opiniões diretas e certeiras, prova inconteste de que a objetividade é uma das valiosas ferramentas de expressão do pensamento.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – Seu mais recente livro, “Sexy Ugly”, tem um olhar aguçado sobre cenas contemporâneas, pois há nele também uma crítica sutil sobre o sujeito mergulhado em dilemas pessoais que envolvem a luta pela sobrevivência, os desejos sexuais e os afetos. Como foi arquitetar a construção narrativa nesse território cheio de tensões tão nossas? 

PAULO BONO – Foi uma arquitetura de idas e vindas. Aquela coisa de levantar e derrubar pilastras o tempo todo. Na primeira versão do livro o protagonismo era da Propaganda. A história era sobre os bastidores das agências. Com muito mais casos e entrelinhas desse ambiente. Mas achei que estava se tornando um livro de gueto. Joguei tudo fora e recomecei com uma história tipicamente noir. Com mais peso nos crimes, no sexo e no mistério. Mas veio uma necessidade de conhecer melhor o detetive. Foi então que Deco Ramone virou o mestre de obras dessa construção. Descobri que a história era sobre ele. Os bandidos, a femme fatale, os amigos bizarros, a filha, as agências e o puteiro eram na verdade um espelho de Deco. Assim os crimes perderam peso, o noir virou linguagem e a propaganda passou para pano de fundo. O livro seria sobre um publicitário falido que precisava descobrir como vender um puteiro para pessoas feias enquanto lidava com bandidos, com o futuro incerto e com o distanciamento de sua filha. Uma história sobre sobrevivência, expectativas frustradas, autodecepção, sobre a beleza da feiura e a feiura da beleza. Acredito que desta forma a investigação de Deco se tornou mais universal e ele descobriu que somos todos sexy ugly. Ah, e preferi pintar as paredes com humor. De drama já basta a vida.

 

DA – O personagem Deco Ramone é, assim como você, alguém envolvido com publicidade. Em “Espalitando”, seu livro anterior, as narrativas remontam ao bairro da Lapinha, lugar de Salvador que marcou a sua trajetória pessoal. Não há como não observar, na sua obra, essa recorrência a referências que falam de você em alguma instância. De que modo você reflete sobre isso? 

PAULO BONO – É como disse o Hemingway, você tem que escrever sobre o que conhece. O roteirista Charlie Kaufman também comentou uma vez que só podia escrever sobre ele mesmo, pois era o único assunto que escreveria sem errar. E olha que as histórias do Kaufman são bem loucas e inventivas. Acho que é por aí. O “Espalitando” era uma parada mais pessoal até porque veio de um blog que funcionava quase como um diário. Já o “Sexy Ugly” não é sobre mim, estou longe de ser o Deco Ramone. Mas acrescentei muita coisa do que vivi em 20 anos de propaganda. Fante, Bukowski, Céline e muitos outros também iam por esse caminho. Alguns dizem que é um recurso menor, uma limitação. Foda-se. Não acho que há certo ou errado. O importante é o texto. Se ficar bom e verdadeiro, será universal, alguém vai se identificar e não será mais uma história sobre Bono. Recorrer às nossas referências é como dar um pulo num porto seguro só pra pegar uma arma secreta. Se um dia eu escrever sobre uma guerra intergaláctica, acredite, a Lapinha também estará presente.

 

DA – De fato, ainda há muita controvérsia, inclusive, sobre o próprio conceito de autoficção, algo até subestimado por alguns. Não lhe parece mais genuíno saber aliar o texto ao que vivemos, pois tudo sempre esteve no mundo e apenas transformamos as coisas ao nosso modo?

PAULO BONO – Por aí. Mas nem acho que exista um modo mais ou menos genuíno. Cada um faz o que acredita. Genuíno tem que ser o texto. Pra isso é legal saber o que está escrevendo. Claro que é mais difícil o cara fazer um conto sobre futebol de rua se ele nunca fudeu o joelho num baba no asfalto. As palavras acabam soando artificiais. Isso afeta a qualidade do texto. Mas um autor pode descrever bem uma mãe dando à luz sozinha num quarto escuro, se conheceu de perto e aprendeu alguma coisa sobre medos, dores e angústias das mulheres. Não sei se é questão de aliar o texto ao que vivemos. Mas talvez de usar o que vivemos como recurso. Sobre os que subestimam a autoficção, prefiro subestimar as histórias mal contadas.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – “Sexy Ugly” tem uma narrativa de forte apelo imagético, além de apresentar diálogos muito bem construídos e que prendem a atenção do leitor. São dois elementos constituintes, por exemplo, do cinema. Como é que você percebe essa aproximação?

PAULO BONO – O lance é que até os 20 anos li muito pouco. Minhas primeiras referências vieram do cinema. E antes de pegar em literatura eu já era roteirista de audiovisual. Não sei se isso é bom ou ruim, mas acho que qualquer coisa que eu escreva vai levar certa dose imagética. Apesar de serem linguagens bem diferentes, a depender do gênero, acredito que alguns recursos transitam bem entre a tela e a página. É o caso do universo noir do “Sexy Ugly”. O  noir que levou o Dashiell Hammett pro cinema e equilibrou o Raymond Chandler entre livros e roteiros. Eu queria aquela estética na descrição das cenas, queria aquele ritmo tão específico e queria os diálogos rápidos e cínicos. Os diálogos do Sexy foram minha zona de segurança e meu parque de diversões. Ainda quero um dia ser dialoguista de filmes.

DA – “Sexy Ugly” tem, de fato, uma agilidade narrativa, um modo muito peculiar de contar a história, que muito se aproxima com a instantaneidade da própria vida contemporânea. Nestes tempos de excesso de informações, mídias sociais e tudo o mais, comunicar algo através da literatura é um desafio?

PAULO BONO – Em tempos de radicalismos, dificuldades de interpretação, quando tudo é tudo, e opinião é verdade, eu diria que é um puta desafio. Hoje, por exemplo, é difícil escrever um personagem escroto, machista, mesquinho e com pensamentos assassinos sem aparecer alguém pra achar que aquilo é seu ponto de vista. E se colocam isso nas redes, fudeu, vira a verdade. Tem autor que hoje escreve segurando dicionário, bíblia e constituição. O tempo todo julgando previamente seus personagens para não ser ele o condenado. Acho que o perigo está aí. Quando o autor, para ser aceito e por medo de ser mal interpretado, acaba matando a própria arte. Não deixa de ser também um suicídio. Não sei, é difícil. Ritmo, linguagem, estrutura, construção de personagens. As ferramentas estão aí pra vencer esse desafio. Não vai sair legal algumas vezes. Se a comunicação falha até num “bom dia” de elevador, imagina na literatura. Só não pode desistir.

 

DA – Longe de recursos panfletários, como é que os escritores podem se posicionar diante desse estado de coisas em que vivemos?

PAULO BONO – É complicado dizer como cada um deve se posicionar. Já temos muitos heróis, juízes e vigilantes por aí. Escritor patrulhando escritor é foda. Acho assim, acredita numa bandeira? Vai lá, parceiro. Acha que tal caminho é o melhor pra sua escrita? Jogue duro. Quer escrever tal coisa pra ficar bem na fita? Vale também. Mas faça bem feito, conte uma boa história. Só não venha explanar uma cartilha de posturas. Não venha me dizer que eu deveria colocar uma gravata borboleta no meu texto. Isso complica ainda mais esse estado em que vivemos. Acho que é isso. Fazer o que acredita e deixar o outro em paz.

 

DA – O bom mocismo é um desserviço à Literatura?

PAULO BONO – Para mim desserviço são as regrinhas implícitas, os manuais de bom comportamento da escrita, como se a boa literatura fosse produzida de itens de editais. Não é questão de bom mocismo. Existem milhares de livros sensacionais com histórias transformadoras, personagens grandiosos, mensagens bonitas e temas ligados a causas importantes. Problema é elevar esse bom mocismo ao patamar de pedra fundamental deixando a literatura em segundo plano. Não curto muito esse papo de livro necessário. Necessário é contar bem uma boa história.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – Como é que você avalia o papel das editoras independentes na cena literária brasileira atual?

PAULO BONO – Se fosse no futebol, acho que a editora independente seria como um jogador da lateral. Precisa defender lá atrás sua sobrevivência todos os dias e ainda ter fôlego e agilidade pra chegar na linha de fundo e cruzar bem a bola para os autores tentarem marcar um golzinho. Tudo isso jogando contra uma seleção de impostos, altos custos, comissões extorsivas das livrarias, falta de incentivos e um estádio lotado torcendo contra. Porque estamos falando de um país que não lê. Quando você trabalha com uma editora pequena, claro que terá dificuldades em distribuição, por exemplo. Mas autor e editor independente jogam no mesmo time. Se jogarem limpo com diálogo e honestidade, já é uma boa parceria.

 

DA – Somos um país de leitores subestimados?

PAULO BONO – Acho que o último dado que saiu foi que brasileiro lê menos que dois livros por ano. Eu conheço muita gente que afirma com certo orgulho que não gosta de ler. Filmes com legenda? Esquece. Por aqui só se lê manchetes, memes e textos de WhatsApp quando convém. E duvide da interpretação correta dos mesmos. Se somos um país de leitores subestimados? Acho que nem leitores somos. Adoraria que alguém argumentasse o contrário e mostrasse que sou apenas um pessimista falando bobagem.

 

DA – Agora estamos vivendo um período nefasto de pandemia mundial, fato talvez imaginável apenas nos livros de ficção. De que modo você observa esse momento que estamos testemunhando? Estamos em xeque sob vários aspectos?

PAULO BONO – Claro que estamos em xeque. Estou no maior cagaço. Tenho conversado com muitos amigos e todos eles também estão com muito medo. Medo do vírus, medo da morte de pessoas queridas, medo do futuro. Ninguém sabe ao certo o que está por vir. Só não acredito que sairemos dessa pessoas melhores. Existe aí uma pandemia paralela de gente egoísta, mesquinha, exploradora, hipócrita, ignorante, oportunista e cheia de ódio que piora tudo. Com ou sem diminuição de curva, essas pessoas não vão mudar. Pra não achar que sou apenas pessimismo, acho que salvar o dia de hoje já ajuda. Leiam um livro, assistam a séries, escrevam, brinquem com seus filhos, façam suas lives, faça um bolo, ligue prum amigo, ouçam música, durmam até mais tarde. É normal despirocar de vez em quando. Mas não adianta muito pensar no futuro agora. É salvar o dia de hoje.

 

DA – Esse presente perturbador tem te desafiado a desenvolver algo específico em relação à literatura?

PAULO BONO – Não costumo escrever sobre algo recente. As coisas ficam muito embaralhadas, uma mistura de impressões. Não consigo focar em nada. Até porque sempre tento trabalhar com o humor, mas agora não está rolando. Tenho escrito algumas coisas nas redes, mas são apenas arrotos do cotidiano dessa loucura. Talvez no futuro apareça alguma história sobre um gordo apaixonado por uma prostituta em meio a uma pandemia mortal. Mas os planos para o futuro estão temporariamente fechados.

 

DA – Afinal, por que escrever?

PAULO BONO – Acho que não tenho um motivo nobre. Não escrevo para transformar as pessoas, contribuir pra uma sociedade melhor, defender causas ou despertar reflexões. Só sei que na primeira vez que consegui escrever um conto, acho que isso tem uns 18 anos, eu me senti muito bem. Estava na pior, sem grana e sem muitas perspectivas. Mas pensar na história, no que dizer e labutar aquilo no computador fazia eu me sentir vivo. Até hoje é assim. Pode estar tudo certo, pagando as contas, todos com saúde, mas se eu não estiver com um projeto ou texto engatilhado ou dialogando com um personagem, fico mal humorado, criando problema em casa e me sentindo a pior das criaturas. Então é isso. Escrevo pra salvar minha cabeça e não ser um pé no saco.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

A interpretação dos sonhos de Dênisson Padilha Filho

Por Sérgio Tavares

 

 

Escrito em 1876, o conto “O sonho”, do russo Ivan Turgêniev, é considerado um arauto da modernidade psicológica, pois prenunciava, por meio da ficção, temas que seriam a base da psicanálise no século 20. Na trama, um jovem começa a ter sonhos repetidos com o pai, que morreu quando ele tinha seis anos. Os encontros são antecedidos por andanças pelo subconsciente, frequentando pessoas e cenários de composições substancialmente realistas. Até que, em meio a um festejo local, o protagonista se depara com o mesmo homem do sonho e planta-se a dúvida se está no mundo concreto ou dentro de uma produção onírica.

Turgêniev dosa, de forma impecável, a ambiguidade no movimento entre esses planos, fornecendo ao texto uma característica ímpar de tornar a assimilação do sonho narrado numa experiência muito próxima do que seria a de um sonho de verdade. Duas décadas depois, no volume “A interpretação dos sonhos”, Freud cita o filósofo alemão Karl Burdach para decifrar tal fenômeno na configuração de chaves que levam a coleção de memórias a simular os acontecimentos em estado de vigília. “Mesmo quando toda a nossa mente está repleta de algo, quando estamos dilacerados por alguma tristeza profunda, ou quando todo o nosso poder intelectual se acha absorvido por algum problema, o sonho nada mais faz do que entrar em sintonia com nosso estado de espírito e representar a realidade em símbolos”. Neste caso, sonhar nada mais é que prolongar o vivido por meio de representações. Os sonhos, invariavelmente, levam à vida comum, em vez de se apartarem dela. Em outras palavras, por mais transgressiva que possa ser a experiência onírica, sempre será uma amálgama do que foi experimentado internamente e externamente.

O baiano Dênisson Padilha Filho bebe desse conceito em seu mais recente livro de contos, “Um chevette girando no meio da tarde”. São 10 narrativas curtas, cuja matéria nuclear é o sonho em sua projeção difusa e sensorial, porém reproduzida a partir de uma mecânica na qual o desenho do cotidiano nunca deixa de ser como o conhecemos. Não se trata de alucinações ou experimentações insólitas, e sim de imagens de consistência estranha, embora familiar. O inusitado não se filia a uma percepção dilatada, mas a vertentes da interpretação do mundo no qual a frequência dos sentimentos se sintoniza a uma estática dualista, inclusive através de comentários sociais.

Vide “Barracão de enlatados explode no ar”, conto que abre o livro. Um sujeito, que participa de uma tal Festa do Mar, resolve ir a um bar gourmetizado e, enquanto toma uma cerveja, começa a enxergar a fauna local em sua forma antropomórfica: a beluga, o leão-marinho, a baleia branca etc. O autor trata essas manifestações psíquicas com um traço de humor, mas também usa desses arquétipos para criticar o comportamento forasteiro, a adesão do estrangeirismo na cultura e nos hábitos regionais.

O texto seguinte, “Livro de contos no painel de um velho Boeing”, evidencia a busca por uma qualidade estética, valendo-se das possibilidades pitorescas do sonho de modo a se criar composições visuais muitas vezes mais vigorosas que o próprio desenvolvimento do enredo. O narrador (sugestivamente um segundo eu do autor) descobre-se dentro de um velho Boeing da Varig, arrastando-se na pista em meio aos carros, enquanto atravessa a cidade. Trata-se de um insight narrativo que canaliza seu alto poder imagético para a discussão do desamparo do escritor diante do inevitável fracasso da escrita. “Talvez, cada um de nós seja esse avião obsoleto que não consegue voar”, conjectura.

Assim como Turgêniev, Padilha guia o andamento de suas tramas através de um senso de imprecisão entre o que é estado onírico e o que é estado de vigília. “Aqui vamos nós mais uma vez” e “Um chevette girando no meio da tarde” remontam o período do colégio, da infância plena, sobre a qual, segundo Freud, incorre, com mais intensidade, os sonhos de angústia, aqueles cujos “sentimentos desprazerosos nos retêm em suas garras até despertarmos”, representando “indisfarçáveis realizações de desejos”.

“Um amigo em dia com a moda” segue no tema da angústia, só que a literária, como que numa resposta desesperançosa ao personagem no interior do Boeing. “Nunca serão leões” lança mão outra vez do arquétipo antropomórfico para dar significado a uma alegoria sociopolítica, enquanto “As camisolas dos monges tibetanos” recorre a um teor satírico para falar de meditação, terapia junguiana e clichês literários, executando um inesperado movimento de metalinguagem que sugere o fecho de uma parte.

A coletânea se encerra com “Trilogia de sal e vento”, cujo tom naturalista e uma certa dissensão entre vida pedestre e voos farsescos trazem à memória o Copi, de “A Internacional Argentina”, e os trechos marítimos de “Um ano”, do chileno Juan Emar. O conto final, “Não são cavalos-marinhos”, evoca uma entidade mitológica de modo a construir uma metáfora sobre o quão penoso é tentar domar os galopes selvagens da criação literária.

Os sonhos de Dênisson Padilha Filho podem não ter enredos complexos, mas são enriquecidos pelo jogo construtivo da ambiguidade, plasmando um território onde imaginação e experiência direta do autor surpreendem ao trazer uma sensação de inconsistência no tratamento de temas tão objetivos. Combinam fugas visuais concretas com abstrações generalizadas, a partir de um impasse extraído do subconsciente que parece indagar: se, ao fim, o fracasso espera, por que insistir no sonho de ser escritor? Diante das possibilidades de tantas interpretações, penso que essa questão nem Freud explica.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É crítico literário e escritor, autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Participou da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris. Edita o site de crítica literária A NOVA CRÍTICA.

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Alex Simões

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

oh ménage

 
porque existe a meta física
e é tua carne que procuro
foda-se a tradição lírica
saio de cima do muro
e se a reta é meio oblíqua
e viver não tão seguro
lhe proponho uma promíscua
relação a dois e juro
sermos tão multiplicados
nosso encontro tão fictício
que bastamos prum animado
sexo grupal vitalício.
quantos vivem em você?
com quem posso me entender?

 

 

 
***

 

 

 

meu canto pras paredes

 
o preconceito é uma parede enorme
contra a qual desde sempre me empurraram
mas se tentaram e não me executaram
é que aprendi bem cedo que não dorme
o apontado: preto bicha pobre
no paredão cresceu e ficou forte
em que pese a dor que o véu da morte
bem do seu lado alguns amigos cobre
e é por eles que não me vitimo
nem quero mais derrubar a parede
apenas canto para além de um íntimo
desejo: reforçar rizoma e rede
cheia de nós, que não estou só, sou vivo.
picho a parede: verso afirmativo.

 

 

 

***

 

 

 
e viva à liberdade de opressão
na terra onde quem tem muitos direitos
exerce o seu direito à opinião
de ser melhor que quem não tem direitos
porque direitos há, não pra insolentes,
aqueles que reclamam sem saber
que nesta terra os bons e os inocentes
são assim definidos ao nascer
e quem nasceu no meio de pessoas,
que são consideradas de segunda
classe, tem chances de viver de boa:
falar a língua deles ou da bunda
viver mexendo pra escapar do abate.
entre a guerrilha e a festa, deu empate.

 

 

 
***

 

 

 

se queimamos
(soneto alexsandrino e vândalo)

 
se queimamos neurônios fazendo poesia
em manifestação, em protesto, em-progresso,
deitado em rede em casa no sofá congresso
no altar no chão da praça, bar, tabacaria
sim queimamos neurônios fazendo poesia
ganhaperdemos tempo bloqueando o acesso
ao projeto do decréscimo do ingresso
do contingente em excesso à perolaria
porque escrever é contra porque escrever é incerto
porque o poema só existe em um livro aberto
e não há nada que cale a boca do poeta
não há juiz que dê um outro veredito
se o poeta-réu deixou em seus escritos
um pouco de sangue ou Pandora, na boceta.

 

 

 
***

 

 

 

bursite, tradição e tá lento, o individual

 
doem-me os ombros, tantos são os pesos.
línguas mortas e vivas misturadas,
a plêiade no peito embaralhada,
os esquecidos como contrapeso.
mil vozes confundidas no desejo
de ter consigo a minha entrelaçada
e o medo de parar na encruzilhada,
entre rimas ideias e solfejos.
a folha em branco amarelada está.
há sempre um risco de perder-se, há
sempre um mesmo fantasma em breve assomo.
o mundo derretendo-se em milênios:
poetas trôpegos, prestos boêmios,
eu e você cantando velhos nomos.

 

 

 

***

 

 

 

sóbria declaração

 
não me inspiras vãos clichês caducos,
versos de amor com intenções de morte,
linhas inúteis mas com tom de porte
palavras tolas para o amor de eunucos.
não me inspiras mais do que tu és
e és o que vejo, nada mais que isto,
sou o que quiseres e por ter-te visto
lanço-me a ti, mas não te beijo os pés.
é que no amor não me contenta a espera
nem mesmo a dor inútil de não ter.
prendo-me à vida, não curto quimeras,
dou-me por partes, se tiver prazer.
neste soneto que a ti dedico
peço que leias o que não, escrito.

 

 

 

 

***

 

 

 
à literatura em si

 
este soneto não quer ser a obra
de um autor desesperado e circunspecto
que produz aos magotes poemetos
para neles caber o que foi sobra
de outro poema que não se quis sobra
do nariz entalhado por Gepeto.
este soneto não é um soneto
e este quarteto não é do outro a dobra,
nem sexteto os tercetos em sequência
de rima interpolada, aqui cosendo
a virtuosa e vazia inexperiência
em um registro que vai, num crescendo,
da língua que se fala sem ciência
a um saber que se constrói: fazendo

 

 

 

***

 

 

 

os versos? esconderam-se no escuro.
portanto, sempre dizem mais, que eu saiba.
esperam decantar, para que caiba
a poesia nos corações duros.
palavras não significam somente
o que delas esperar. poemas
não são meras conjunções de monemas.
não os entendas, apenas os sente.
abre o coração mais que os ouvidos
e recebe a poesia com amor,
sem pressenti-la, deixa-a, por favor,
pronunciar-te o mal dos consumidos
e ainda os prazeres incontíveis.
e expurgarás a dor com que convives.

 

Alex Simões é poeta, tradutor e performer. Publicou “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (2013) e “(hai)céufies” (2014). Tem participações em diversas revistas e antologias literárias nacionais e internacionais. Os poemas aqui publicados integram o livro “Contrassonetos: catados & via vândala”, lançado em 2015 pela Editora Mondrongo.

 

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88ª Leva - 02/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

A crônica e a crônica de José Saramago

Por Gustavo Felicíssimo

 

José Saramago / Foto: divulgação

 

Sempre fiz da literatura uma espécie de sacerdócio. Organizei encontros com escritores, editei jornais e revistas, publiquei uns tantos livros, colaborei para a publicação de outros tantos e fiz um percurso literário priorizando a publicação de poemas, afinal, era perda de tempo um autor tão pouco lido, e naquele momento tão jovem, se precipitar a publicar contos e crônicas apenas porque era conhecido de meia dúzia de leitores dessa nossa imensa Bahia de todas as dores.

Como durante algum tempo mantive-me publicando em jornais, revistas e no meio virtual, artigos sobre poesia, algumas leituras que fiz se deram um tanto por obrigação de ofício, outro tanto por conta de uma vontade insana de colocar à prova as leituras teóricas que detinha a fim de adequá-las à minha visão particular sobre o fazer poético, e por fim, sobre o poema.

Embora me sinta poeta em tempo integral, todos os dias, as leituras que sempre e mais animam meu coração sucedem da crônica, essa forma literária que nos impele à reflexão, em que o narrador está desnudo e desvelado, especulador e concludente, poeta e ficcionista. Um gênero literário cujo conceito é altamente variável e que pode englobar tudo: páginas de memória, lembranças de infância, flagrantes do cotidiano, comentários metafísicos, políticos, considerações literárias, filosóficas, poemas em prosa, trechos de romance. Mas é o tratamento com feição ficcional que muitas vezes lhe é dispensado, aproximando a crônica de verdadeiros contos, que lhe dá a qualidade artística digna de grandes mestres, como é o caso de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino ou de um Saramago, a respeito de quem passamos a tecer alguns comentários a partir das próximas linhas.

Devo admitir que não li ao todo mais que três ou quatro romances de Saramago, e que pouco ou quase nada soubesse de suas crônicas até ler algumas, dessa vez por ofício de estudante, graduando que sou em Letras. Delas o que me ficou foi a certeza que trazia comigo há tempos, que sua prosa é um exemplo de apuro do instrumento literário, para dizer o mínimo, dado que atualmente é impossível qualquer análise da prosa em língua portuguesa sem o conhecimento e o inevitável reconhecimento de sua obra, como atesta a imensa lista de estudiosos e críticos que possuem consciência do seu legado, à qual não falta em doses certas, reflexões existenciais, críticas, ironia, humor, a mais íntima relação com suas crenças ideológicas e observações ligadas às fontes da vida.

Pelas crônicas de Saramago abundam exemplos do seu compromisso com a sociedade e o desconforto sentido com a circunstância do homem entre os homens, coisificado, como em “O grupo”, mas que procura dentro deste mesmo universo uma ressignificação dos próprios valores, da existência, assim como vemos também em “O cego do harmónio”, texto que ainda apresenta em si, assim como em “O inevitável poente”, uma narrativa de envergadura onírica, em que se nota acentuada inclinação do escritor para os domínios da poética.

 

José Saramago / Foto: divulgação

 

Entre os textos selecionados, um em especial chama a atenção, é “A palavra resistente”, em que o autor sugere ao leitor a escolha de uma palavra qualquer a fim de dizê-la seguidas vezes até que sentido e densidade se esvaiam ao ponto de se transformarem num articulado sonoro, que nada exprime. É evidente que a sugestão de tal experiência pouco ou nada importaria se o próprio autor não a tivesse vivenciado pessoalmente. E viveu. A palavra escolhida por Saramago foi “horizonte”, repetida insistentemente por ininterruptas cinquenta vezes para enfim descobrir que o prestígio que ela possui advém do caráter particular daquilo que exprime. Ou seja, para Saramago o horizonte não simboliza apenas o espaço que a vista abrange ou a linha que limita circularmente todas as partes da terra que se podem ver de um ponto determinado. Para ele, tal palavra possui dois sentidos: o próprio, que exprime a realidade contra a qual nada se pode fazer, posto nos ser impossível estar no horizonte, esse lugar que tanto mais se afasta quanto mais queremos nos aproximar. E há também o figurado, o que em verdade mais importa, pois é o lugar no qual se aclaram as perspectivas do amanhã.

Neste ponto tudo parece palpável, lava-se com o poder da palavra o rosto da realidade de pedra, afinal, existimos sobre o mesmo chão e sob o mesmo céu, muito embora cada um de nós traga consigo seu horizonte pessoal mais ou menos alargado, a depender do ponto de vista. Saramago nos guia para o ponto nevrálgico do texto: a questão da realização pessoal. E assim, horizonte não é mais um fenômeno dado apenas ao sentido da visão, mas às perspectivas que a palavra revela em si e na confluência com tudo o que é humano. Para uns significará a realização de um propósito, para outros, se revelará na satisfação de se empreender qualquer tipo de esforço e não apenas no resultado final de sua consecução.

Escolhi também a minha palavra, e foi “silêncio”, algo que uma alma irrequieta como a minha necessita em altas doses. Descobri muitos silêncios, o primeiro deles encontrei naquilo que faço agora. Escrever é refletir e silenciar. Por sorte, o lugar onde escrevo é o meu santuário, nada comparado à turba que se faz lá fora. A cidade e seus pregões. E como escrever não se faz sem o ato de ler, o que requer penetrar surdamente no reino das palavras, como aconselha Drummond, um e outro verbo estão intimamente relacionados ao substantivo silêncio. Mas existe outro silêncio, maior e mais duro, incrustado no íntimo de cada um de nós. Ele nos emudece aos gritos e se o conseguimos ouvir, lá no fundo do nosso ser, estará dizendo de nós o que pouco estamos acostumados e que a ninguém necessitamos revelar.

Escuta-me, leitor, pois me revelo mudo. Disse isso em um poema. E se me coubesse fazer uma pergunta ao Silêncio, uma pergunta apenas, certamente seria a seguinte: O que anseia dizer? Ele responderia: de nada adiantam as palavras se não me conhece por dentro, se não consegue me ouvir. Eu sou a pedra de toque que a tudo transforma, arremataria.

Chega de divagações existenciais. Melhor voltar ao Saramago e suas crônicas, pois nelas, assim como em tudo, e a tudo que faz, Saramago parece impor seu modo particular de enxergar vida e existência, sua atividade de escritor e o papel de intelectual, nunca se resignando, antes se indignando com todo tipo de iniquidade, certo de que um homem digno é um vagabundo a menos no planeta.

Muito mais poderia dizer sobre as crônicas do bardo lusitano, mas como se aproxima o horário de estar na universidade e entregar o texto à professora, pois como dizem os mais antigos: manda quem pode, atende quem tem juízo, arrisco dizer, enfim, que, embora o gênero pareça estar destinado a temas limitados no tempo, escritos para um leitor que compartilha desse tempo, a crônica, pelo seu valor intrínseco, ou seja, pelo seu hibridismo, encontra em José Saramago um dos cultores mais originais – quer pela graça, quer pela seriedade dos temas que aborda – e determinantes para a definição da real dimensão e status do gênero entre os gêneros literários.

 

Gustavo Felicíssimo é escritor e editor da Mondrongo Livros. Publicou “Diálogos: panorama da nova poesia grapiúna” (Editus/Via Litterarum, 2009) e “Blues para Marília” (Mondrongo, 2013).