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143ª Leva - 03/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Alessandra Barcelar

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

ABUSO

 

– Tire a roupa, sussurrou.

– Não, papai, por favor, não.

– Disse que tire. Agora!

– Papai, não quero, não me faça…

– Faça isso, tire. É uma ordem.

Envergonhada e com lágrimas nos olhos a menina livrou-se da roupa lentamente.

O homem ao ver a pele nua da filha, não pode fazer outra coisa que chorar. Sentiu-se miserável, impotente, desgraçado. Abraçou a filha e beijou-lhe a testa.

– Devemos denunciar a mamãe – disse o homem acariciando a pele da filha, enquanto suas lágrimas caíam sobre as queimaduras de cigarro em sua pele.

 

 

 

***

 

 

 

ELA

 

Observo uma foto em que aparecemos os dois.

Ela está feliz, me abraçando e sorrindo para a câmera.

Logo viro a cabeça e vejo seu cadáver no chão. O sangue segue escoando de sua cabeça. Penso que deixou de me amar, e que, de certo modo, sou culpado pelo que acaba de acontecer.

Me aproximo dela, gemendo de tristeza, me encosto a seu lado.

Depois de um tempo os vizinhos derrubaram a porta, me jogam de lado e apontam o revólver em suas mãos.

E enquanto tudo isso acontece, eu só posso latir e abanar o rabo com medo.

 

 

 

***

 

 

 

NOCTÂMBULOS

 

Os animais noturnos não se importam com a cor da lua, se ela está cheia ou é um quarto minguante, eles só procuram os efeitos de um raio de luz para mitigar seu pensamento.

Andam insatisfeitos à caça de sonhos e se infiltram nos aromas salgados das almas que parecem solitárias.

Com as letras não só o seu nome existe, também se escuta sua voz.

 

 

 

***

 

 

ALUCINAÇÃO

 

– Esquizofrenia – disse o psiquiatra – Na verdade o caso mais célebre dessa clínica.

– Se refere à essa criança? Parece-me tão inocente.

– Creia-me, não é! Assassinou a avó brutalmente com um machado.

– Sério? Ao menos disse o por quê?

– Bem, repetiu várias vezes que sua avó na realidade, era um lobo disfarçado.

 

 

 

***

 

 

 

UM HOTEL NUM QUADRO DE HOPPER

 

O amor é um hotel no meio da tempestade, que apagou as luzes assim que me viu se aproximando. A realidade se disfarçou de ficção, mas daqui posso ver o fechamento de seu traje. A felicidade me toca, mas sempre coloca luvas.

 

 

 

***

 

 

 

A SACOLA

 

A morte bateu na porta e a pequena Giovanna  foi quem abriu. -Onde está tua mãe? Perguntou a Morte, em seu vestido preto, seus cabelos ruivos e suas pupilas de fogo cinza.

A garota já a conhecia. Ela a vira há dois meses, no dia em que sua avó não se levantou mais. “Siga-me”, disse a pequena Giovanna.

Elas caminharam até o final do corredor e chegaram a uma porta, que a garota abriu para demonstrar boas maneiras. O interior estava completamente escuro. As cortinas fechadas e a janela trancada roubaram as cores da sala. “Obrigada”, disse a morte em sua voz rouca e sensual. Ela entrou e saiu um minuto depois, com um coração em uma sacola de pano.

Quando a morte foi embora, a pequena Giovanna foi até a cozinha, chegando ao exato momento em que uma mulher com o rosto machucado e ferido se jogou de uma cadeira. No entanto, a corda em seu pescoço, por algum motivo inexplicável, quebrou como se fosse borracha. “Mãe”, a menininha murmurou e a mulher virou-se imediatamente. Ela chorou envergonhada e abraçou sua filha como nunca antes. “Mamãe, lê um livro pra mim?” “Eu não posso Giovanna, eu devo cozinhar para quando seu pai acordar.” “Eu não me preocuparia com isso.” Eu não acho que ele se levanta – a garotinha disse antes de pegar um livro.

 

Alessandra Barcelar é historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu, atua na área de Economia da Saúde. Publicou contos em revistas literárias do Brasil, Portugal, Argentina e Alemanha. Participou em 2019 como jurada do prêmio VIP de Literatura (Categoria Contos); colaborou na coletânea Mitos Modernos I, que recebeu o prêmio Le Blanc de Literatura e Arte Sequencial, como melhor Antologia de 2018. Atualmente é organizadora de uma coletânea de contos sobre realismo mágico.

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Aleilton Fonseca

 

“Baudelaire”: Claudio Parreira

 

O SORRISO DA ESTRELA

 

Estava morta a minha irmã, ali entre jasmins e rosas, minha mãe à cabeceira chorava. Era uma noite inquieta, essa do velório em vigília e prantos por Estelinha, de quando em quando se rezavam benditos. O enterro iria seguir no outro dia, no meio da manhã de sol.

Estela estava morta, aos treze anos. E eu sentia dentro de mim esta morte. Era um pouco também eu morto, sem tempo de me redimir e poder amar minha irmã, como — só agora! — eu sabia ser capaz. Ela não morresse, eu iria brincar com ela, nunca mais uma zombaria, nem desprezo, nunquíssimo a chamaria de “sua doida”.

Pois agora eu começava a compreender sua linguagem; logo agora, desde que ela se fora para o hospital, eu comecei a entender seus diálogos compridos com as pedras, com os tocos de pau, com as folhagens ao vento. O silêncio de sua ausência no quintal se mostrou dentro de mim em tons de uma saudade estranha. Mas, ainda ali, eu não suspeitava do que me vinha na alma.

Tudo fora a ordem do tempo. Ela nascera primeiro, três anos antes de mim. Agora a diferença encurtava, mas justo quando eu me afogava nesse deserto de lágrimas. Pela primeira vez, eu dialogava com a minha irmã:

— Estela, acorde, vamos conversar com as pedras — sussurrei no seu ouvido, ninguém me escutasse.

A madrinha veio me consolar, eu tivesse paciência, fora a vontade de Deus, o melhor para ela, tão doentinha, coitada. Tive raiva de madrinha, no meu mais íntimo sofrimento. Continuei a conversa, até que me puxaram pelo braço, pois minha mãe redobrava-se no pranto.

— Estela, acredite em mim agora. Vamos correr picula.

O corpo dela suava, dormindo sem ressonar. Um pano envolvia seus cabelos castanhos e descia para sustentar seu queixo — talvez para conter o sorriso? Minha mãe enxugava o suor da morta com o mesmo lenço em que depositava as próprias lágrimas. O tempo voltasse, meu Deus! Eu só implorava um único milagre. As imagens desfilavam na minha memória, eu a escutava como se fosse agora:

— Vamos brincar, Dindinho.

— Não me chame de Dindinho! Meu nome é Pedro — respondia áspero, sem sequer olhar, e ia saindo.

Eu pensava odiar o fato de ter uma irmã assim. Ela insistia, amorosa, que me dava um constrangimento.

— Não, ninguém sabe, mas é Dindinho, seu nome bonito, eu chamo — dizia, como se eu continuasse presente.

Eu fugia de ter essa irmã. Os meninos me abusavam. Várias vezes briguei por me chamarem de Dindinho, o irmão da doida. Dindinho, eu mesmo não! Minha mãe já ia pegando o costume de me chamar assim, nas vontades de sempre agradar a filha. No contra, eu me rebelei, fugi de casa um dia inteiro. Minha Mãe me deu uma surra, depois, mas nunca mais me chamou daquele nome.

Por que ela existia? Eu não me dirigia a Estela. Mudava de rumo, baixava os olhos para não dar com ela. Eu a considerava um estrago na minha vida. Quis muito que morresse.

Ela me surpreendia, às vezes, antes que me mostrasse irritado, como quase sempre acontecia:

— Quando você morrer, Dindinho, de que cor você quer suas asas no céu?

Uma coisa tão sem sentido, que eu sequer respondia. Apenas fazia uma careta de enfado, balançava a cabeça negativamente. Ela me cercava os olhos, inventava brincadeiras cada vez mais estranhas, para conquistar minha atenção. Isso tudo mais me afastava. Os meninos, meus amigos, considerassem que eu não tinha irmã, pois mencioná-la era já motivo de desavenças. Fiquei de mal com alguns dos melhores, tempos e tempos, por essas causas.

Diante de minha repulsa, Estela intentava uns modos de me sensibilizar, sem o menor sucesso. Um dia, posto que eu a estivesse atentando muito, ela imaginou uma proposta das mais descabidas. No começo da noite, ela, depois de tanto silêncio, me propôs com a maior certeza do mundo:

— Eu lhe dou uma coisa para sempre, aquela estrela grande será só sua a vida toda e depois, Dindinho.

— Ora, quem pode ter uma estrela, “sua doida”? — desdenhei.

— Pois pode, porque é minha e eu lhe dou só pra você, Dindinho. Mas só se você sorrir para mim, todo dia, uma vez… Só uma… Você quer?

Nunca soube sorrir para você, Estela, me perdoe. Quando eu tomava posse de mim mesmo em mais profundo, quando um sorriso germinava no fundo de minha alma — e seria seu! —, você já não estava aqui. Até hoje só me vêm as lágrimas que nunca tive antes, quando você vivia em seu mundo de imagens, que só percebi depois. Eu era mesmo um Pedro, o coração tinindo na dureza, você foi me amaciando. Você, aos quase quatro anos, me carregou no colo. Eu era seu neném, como a nossa mãe me contou, depois de tudo, tardiamente. Estela… Tudo podia ser tão diferente!

A noite ia avançando, em horas que eu não conhecia, os meus olhos já desistentes. Eu me debruçava sobre a morta, o sono me empurrava para ela, nos movimentos bruscos dos cochilos. Minha mãe me mandou dormir, e eu, depois de insistir negativo, enfim saí cabisbaixo da sala, a solidão me completava. Não me dirigi ao meu quarto, mas ao que ficava ao lado. E examinei os ângulos daquele lugar, tudo tão limpo e arrumado numa ordem que eu não conhecia. Ali, enxerguei os contornos deste vazio que até hoje carrego. Fiz meia-volta e caminhei para o meu leito, mas não consegui me acomodar. O sono me apertava os olhos, uma agonia no peito teimava-me pela vigília. Quis retornar à sala, mas nossa mãe me suplicou que não, com um olhar terno, tão raro aquele olhar… Eu voltei, mas não para o meu quarto. E me deitei na cama de Estela, deixando na alfazema do travesseiro o sal dos meus olhos.

Eu me vi vivendo o melhor que nossa realidade. Estela me sorria, corria de mim, eu não tinha pressa de apanhá-la, era talvez picula. O nosso quintal se alargava, o caminho de plantas, paus e pedras ia-se margeando em nuvens sem um fim que se avistasse. Eu tinha o saber de tudo, mas não me importava, o sorriso de Estela me preenchia e me fazia leve, que então voávamos. Eu queria alcançar minha irmã, mas não podia lhe pedir que parasse. Estela tinha um voo firme e certo, e eu, me parece que só voava no seu vácuo. Mas eu a queria, buscava-a para um abraço que faltava em mim, um toque que me transmitisse os seus modos de sorrir. Eu queria conversar com as nuvens, e as pedras lá embaixo já me sorriam, as folhas acenavam para mim. Estela ia-se distanciando, eu me surpreendi no cansaço desse voo, as nuvens perdendo sua leveza. Estela! Estelinha, me dê a mão! Me leve com você! Mas o seu sorriso já me abandonava. Ela se foi fazendo em cor de nuvem, aos poucos me vi sem olhos para tê-la. E era tarde, muito tarde: tive um sobressalto, e tudo que agora eu via eram as telhas vãs do nosso quarto.

A manhã se ia acesa como as velas, numa rapidez que doía em nós. Vi que minha mãe não dormira, velara nessa noite toda uma vida ao lado da filha. Era um olhar cansado, dela para mim, com um desencanto mudo, enxergando o nosso vazio. Acerquei-me dela, os seus braços me tatearam. E logo me acariciava os cabelos com a mão direita, com a outra acariciava os cabelos de Estela. Inesquecível aquele gesto de nossa mãe, em toda a nossa vida, por seu corpo passando a nossa última sintonia.

As pessoas iam chegando, a hora do enterro se aproximava. Madrinha apagou os quatro tocos de vela acesos ao redor de Estela. Começaram a distribuir os ramos de flores para o acompanhamento. Eu reparava nos meninos e nas meninas que se acotovelavam para ver a morta. Alguns que sempre zombavam dela. Uns me pareciam tristes, outros apenas viviam uma aventura. Eu me sentia completamente afastado de todos.

Iam fechar o caixão. Minha mãe despejou mais lágrimas e inquiria Deus pela morte da filha. E até madrinha, pela vez primeira, soltou as rédeas do seu pranto. Eu me guardei no silêncio, peguei um ramo de rosas que estava próximo ao rosto de Estela. Não me pareceu que eu pudesse beijar o seu rosto agora, já que nunca o fizera em vida. Então beijei as flores e pus de volta no caixão.

Era hora, o enterro ia seguir. Quando me mandaram olhar minha irmã pela última vez, não chorei, pois me pareceu que ela sorria um sorriso longe só para eu sentir. Então percebi que ela agora se tornava como nuvens. Eu quis seguir com ela, mas não me deixaram. E me levaram Estela de mim.

O cortejo dobrou a primeira curva de nossa rua. Os meus olhos continuaram buscando, até hoje parados naquela curva sem nome. Madrinha varreu a casa, dos fundos para a porta da frente, juntando as folhas e restos de flores e tocos de velas. Deixou o montinho no pé de jambo que Estela chamava de “meu segundo amor”. Era onde minha irmã costumava ficar à sombra, enfeitando-se com as flores rubras de jambo. Ali eu derramei as minhas derradeiras lágrimas.

Minha irmã, ainda hoje eu contemplo a tua estrela e tenho uma vontade enorme de que fosse minha. Eu vejo tua imagem se projetando de lá, num sorriso longe que não me deixa desamparado. Era essa luz que você me oferecia, por apenas um sorriso, que já era seu sem que eu soubesse. Quantas estrelas no céu — e eu não possuo uma sequer!

O tempo me deu estes cabelos brancos, mas a minha memória guarda os sinais do semblante de Estela, com suas alegrias sem nenhum motivo. Em nosso quintal, as pedras, os tocos de pau, as folhagens ao vento puxam conversa comigo, mas eu continuo mudo. No entanto, agora sinto: eu sou Dindinho.

 

 

*Conto integrante do livro “O desterro dos mortos” (Caramurê, 2018)

 

Aleilton Fonseca é ilheense de adoção, nasceu em 1959, em Firmino Alves-Bahia, viveu e cresceu em Ilhéus, dos 4 aos 19 anos, e reside em Salvador. Escreve poesia, conto, romance e ensaios. É doutor em Letras pela USP e professor de Literatura da UEFS. Estreou em 1981, com o livro de poemas Movimento de Sondagem. Tem textos traduzidos para francês, espanhol, inglês, italiano, neerlandês e alemão. Publicou diversos livros, como: As formas do barro e Um rio nos olhos (poesia), O desterro dos mortos, O canto de Alvorada e As marcas da cidade (contos), Nhô Guimarães e O pêndulo de Euclides (romances) e O arlequim da Pauliceia (ensaio). Pertence à Academia de Letras da Bahia e à Academia de Letras de Ilhéus.

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Destaques Jogo de Cena

Jogo de Cena

O espetáculo ‘Pá de Cal’ e a inverossímil terceirização do luto

 Por Vivian Pizzinga

 

Foto: divulgação

 

O que devemos fazer quando não amamos, ou quando acontece de não termos êxito em nossa tentativa de amar pessoas que, supostamente, deveríamos amar? O que devemos fazer quando não conseguimos ter o devido afeto por familiares, seja pelo motivo que for? Como lidar com a culpa quando, enfim, nos escutamos e a percepção de que não amamos nosso filho, nossa mãe, nosso irmão é suficientemente audível (e talvez faça um barulho danado)? Podemos nos perguntar até: o que devemos fazer quando nossa tentativa fracassada gera repercussão, quando isso tem efeitos, quando o nosso desamor – mais ou menos exposto, mais ou menos visível – é notado? Indo além: e se acreditamos que a responsabilidade é nossa de amar o outro – mais do que do outro de nos amar ou de fazer de si um objeto digno de amor -, como lidar com a culpa diante da constatação? As indagações que dizem respeito a essa temática (junto a outras, como a própria morte e o suicídio) são tangenciadas pela peça Pá de Cal, do dramaturgo Jô Bilac e com direção de Paulo Verlings, que entrou em cartaz no Teatro II do CCBB-RJ e só pôde fazer duas apresentações devido às medidas contra a pandemia (a promessa seria voltar em 15 dias, mas talvez demore um pouco mais).

O espetáculo gira em torno de uma morte. Mais especificamente, um suicídio. Ele começa com reflexões diante de um espelho, aquele encontro íntimo conosco, através de nossa imagem, que muitas vezes evitamos. É ali e em contexto de tragédia pessoal que as mais urgentes questões existenciais são colocadas. É ali que repensamos e reavaliamos nossas escolhas, nossas limitações e os caminhos que fomos levados a tomar na vida. No caso de Pá de Cal, o pai do morto está diante de si mesmo no espelho, hesita em relação ao que fazer de si e ao que fazer da barba, ensaia um gesto e volta atrás, ensaia outro e interrompe, sente com a mão a textura do maxilar, um vaivém existencial ínfimo traduzida em diminutos movimentos.

Mas não é só o velório que está acontecendo. Não se trata apenas de uma despedida e do ponto zero de um processo de luto, o que já seria muito, mas de uma disputa judicial em relação à propriedade onde a história se desenrola. Nesse velório-disputa, de todos os familiares mais próximos, apenas o pai do personagem morto está presente, que o excelente Isaac Bernart encarna com grande sensibilidade, esse que havia titubeado diante do espelho na cena inicial. Outros familiares não estão lá, mas são representados por advogado, marido e etc. Há também uma ex-mulher, francesa, um pouco deslocada pela barreira da língua e da cultura. Na pele desses personagens estão Carolina Pismel, Orlando Caldeira, Pedro Henrique França e Ruth Mariana, além de Isaac.

A morte em questão evoca segredos familiares e histórias mal contadas, trazendo à tona silêncios alimentados há muito tempo, jogando luz em um mal-estar familiar que poderá ou não ser resolvido através de uma técnica terapêutica muito em voga na atualidade, a constelação familiar, conduzida por um dos personagens, representado por Orlando Caldeira, ótimo quando assume o papel de terapeuta (ou constelador).

O cenário, assinado por Mina Quental, é complexo e tem quatro planos diferentes, representando cômodos da casa onde o velório tem lugar e onde se dão as negociações, os reencontros, os desencontros, as revelações. Esses planos correspondem a uma varanda, um banheiro, uma espécie de cozinha ou copa e a sala de estar. Esses diferentes planos representando os diferentes cômodos da propriedade permitem que possamos acompanhar as conversas e os acontecimentos, e há encontros e desencontros em todos eles.

De fato, além de um cenário complexo, trabalhoso, a peça tem bons momentos em diálogos bem montados e cheios de humor, mas há algo de estranho na trama. Ou melhor, algo que não encaixa tão bem. O primeiro ponto de estranhamento diz respeito a um velório onde mãe e irmãs não estão presentes, em que as pessoas mais próximas (exceto o pai) não estão lá. A morte resultante de um suicídio é velada por representantes. No entanto, ainda que haja bons motivos pra isso (no caso da irmã grávida, a iminência de um trabalho de parto), essa terceirização do luto é algo realmente digno de estranhamento. Aliás, se há mesmo um trabalho de parto em curso, por que o marido não está ao seu lado, em vez de marcar presença no velório? Que sentido faz ele estar presente ali, sendo um cunhado meio distante que tem até momentos de conversas agradáveis, atravessadas por risadaria, durante a tarde (ou seja, não parece muito condoído)? Os motivos para as ausências não são convincentes, na medida em que a morte e o suicídio seriam muito maiores do que qualquer fato ou afeto passado que ocasionasse a distância. Traduzindo: ainda que se coloque, no enredo, motivos que justifiquem que o velório de um suicida aconteça daquele jeito, com aqueles personagens e não outros, é uma quantidade grande de ausentes significativos e presentes irrelevantes velando as cinzas do morto. E uma tendência ao realismo da peça não é suficiente para justificar um possível pragmatismo que essas ausências e suas respectivas representações evidenciam, caso tenha sido esse o objetivo. E até a carta que passa a circular à certa altura – uma carta com pedidos e possíveis revelações, deixada pelo suicida – parece surgir do nada.

Por outro lado, os personagens têm ligações tão enviesadas com os ausentes que representam, isto é, a mulher que representa uma das filhas, o advogado que representa a mãe, a mãe que é um elemento estranho e malquisto apenas referido, enfim, tudo isso faz com que nada seja muito simples de se compreender no sentido de quem é quem na trama. É preciso um exercício mental para ver as ligações, os laços afetivos entre os presentes, e fica tudo meio sem sentido, fácil de esquecer a toda hora.

 

Foto: divulgação

 

A peça tem mais um elemento de complicação, que também não me pareceu ter tanto sentido na trama: uma das personagens é francesa e não fala português. Tirando uma breve cena que se dá na varanda do cenário, de grande humor, não parece ter havido muito motivo para que ela fosse francesa, para que a escolha fosse essa. A cena a que fiz referência não é suficiente para compensar todas as outras, que geraram necessidade de ler uma legenda sempre que essa personagem falava. Não há problema com legendas, a não ser que sua presença faça um mínimo de sentido, e que não seja mais um elemento complicador na trama. Os diálogos ao telefone dessa personagem não foram tão bem amarrados, não eram naturais, ao menos não tanto quanto os diálogos que se dão ao vivo e a cores, entre os personagens que estão no palco. E ainda por cima, a legenda!

Por causa dos motivos acima apresentados, ainda que o esmero da montagem seja evidente, acaba por se perder uma boa oportunidade de discutir as temáticas que a peça evoca: a morte, o tempo, o suicídio, as escolhas, as relações familiares e seus percalços, a obrigação de amar, os silêncios e os segredos, para dizer o mínimo. Sim, porque Pá de Cal tangencia tudo isso, mas sem aproveitar tanto quanto poderia. A questão da obrigação de amar daria um ótimo caldo, tanto que foi a temática escolhida para abrir este texto. Mas também as outras: o que fazer quando uma morte acontece e você está há anos sem falar com alguém cujo laço de sangue e familiar é forte, incontornável? Você quebra esse silêncio, você não quebra, como você se comporta? E o que fazemos de certos arrependimentos? O que fazer do perdão? De fato, a morte é um momento ímpar, que, para além de todo o sofrimento da perda e de toda a saudade, pode suscitar grande complexidade na hora de resolver questões, de tomar decisões, de se aproximar ou não de alguém, de rever a própria vida.

Infelizmente, a sensação que fica é que a peça, de qualidade em vários sentidos, tem sua trama comprometida, assim como as questões interessantes que tenta cercar, por uma série de elementos que complicam o enredo. Faltou simplicidade, porque o assunto e seus desdobramentos já seriam ricos o suficiente.  É como se a peça não estivesse à altura do que se propôs e precisasse amadurecer um pouco mais, precisasse de tempo para que se traduzisse em um enredo sensível e com um pouco mais de verossimilhança. É como se a peça não estivesse, ainda, à altura de si mesma.

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes, Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Affonso SÍSIFO de Sant’Anna

Por W. J. Solha

 

 

 

Zaratustra – aos trinta anos – desce a montanha pra levar sua mensagem à humanidade, que está lá embaixo.  Sísifo, aos setenta e tantos, cansado de tanto sacrifício por nada, faz o mesmo, mas pra se despedir. Pois nós – seus leitores ou não – fomos contados, medidos e pesados por ele… com resultado bastante negativo:

A mim me tocou
viver numa época em que miúdos seres
rastejam sem visão no pó do instante
(DEPOIS DE TER VISTO)

Não me tragam o odorento lixo da estupidez urbana.
(RITUAL DOMÉSTICO)

Onde estão esses
que ao nosso lado
parecem tão passivos
com o ar silencioso
e corrosivo?

Onde estão?

Estão apenas vivendo
morrendo
como sub ser vivos.
(ONDE ESTÃO?)

Banqueteiam suas fezes em alarido
como se ouro fossem
e dançando à borda do abismo
se rejubilam
– com a vertigem.
(DEPOIS DE TER VISTO)

E isto – em ESCLEROSE E\OU MALEVITCH – é terrível:

Depois de aprisionar figuras
nas molduras de seus quadros
chegou ao ápice da arte
– e do espanto:
Emoldurou
– o branco sobre o branco. 

Sísifo, ante tal pedra no meio do caminho, dá um basta. Affonso Romano de Sant´Anna, que além de grande poeta é um contumaz viajante, dá com ela encalhada no Egito:

 

 

 

Vê, inacabado porque fraturado, o que seria o maior obelisco da terra em que tudo era gigantesco:  sua concreta pedra de Sísifo\Drummond. E escreve um dos melhores poemas de seu novo livro, com uma forte compulsão de se servir de um recurso… concretista:

Esse obelisco     inacabado
fora de Assuam     esse obelisco
o maior de todos    com a quarta
face não cortada     da pedra no chão
esse obelisco sem     inscrição alguma
a não ser as rachadu     ras do terremoto
que o partiu  esse  ob     elisco
abandonado ontem  ho   je visitado
por multidões atônitas    esse obelisco
inerte tem algo huma     no perturbador
em torno dele assim     morto e torto
estirado como se fo    sse um osso
ou algo nosso inse     pulto em torno
dele circulamos o     lhando o chão
como se algo e      m nós também
tivesse se par    tido
sem alcançar a perfeição

“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

Embora a tradição diga e Vinicius sustente que “poeta só é grande se sofrer” e o tema da proximidade da morte seja um achado – no Sísifo desce a montanha – do porte do corvo repetindo o nome da finada Lenora pro amante desconsolado – em Poe -, é claro que (para mim, pelo menos, que o considero nosso maior poeta vivo – e também, talvez, morto) não existe motivo real pro desconsolo. Pelo contrário: Affonso deixa o nome na História de nossa literatura, e – enquanto vai pra Cartago e Assuam, Chicago mais Teerã – nos intervalos descansa carregando pedra:

Sinto que o incomoda o fato de sua poesia, em certa fase, ter tomado partido por causas arriscadas, por conta dos sub ser vivos. Ele diz, em PAREM DE JOGAR CADÁVERES NA MINHA PORTA:

Dei de mão comendas e insígnias
não tenho mais que na praça erguer protestos
e distribuir esmolas não é mais a minha sina.
Acabo de entrar no Pavilhão da Harmonia Preservada
e me liberto
– na Cidade Proibida na China.
(…)

Impossível ficar no tempo que me coube
o  tempo todo
Preciso repousar num campo de tulipas
reaprendendo a ver o que era o mundo
antes de
como um Sísifo moderno
desesperado
julgar
– que o tinha que carregar.

A epígrafe de seu livro, a propósito, vem de Clarice Lispector:

A gradual deseroização de si mesmo \ é o verdadeiro trabalho que se elabora \ sob o aparente trabalho.

Deseroização.

Seria isto?:

Olho e acaricio meu cão.
e apagando a luz da sala,
tranco as portas
exilando o medo.
(AQUELAS QUESTÕES)

É estranho ouvir sobre tal busca de autodesmistificação em Affonso, que me foi apresentado por Sérgio de Castro Pinto há séculos, e que me lembrou, na época – pelo gigantesco A Catedral de Colônia, que tentei emular com meu Marco do Mundo, e pelo bravo QUE PAÍS É ESTE?, sendo ele próprio de ombros largos e grande charme –  a mais marcante figura épica de minha adolescência:

 

 

 

 

Mas o tema é A Morte.

Sou apenas um pouco mais “novo” que ele. Affonso é de 37; eu, de 41. Tenho, portanto, sentido a aproximação dela, também. E, como sempre me pareceu caber à poesia tirar as palavras de nossa boca, os melhores momentos do Sísifo desce a montanha são – para mim – aqueles em que o poeta aborda – heroicamente, apesar da inspetora Lispector – o tão temido tema. PREPARANDO A CREMAÇÃO, por exemplo, é antológico. Pela simplicidade veraz ou feroz com que Affonso revela ter feito o que ainda não me decidi a fazer, embora seja um ato inevitável:

Levanto-me. Vou ao cartório
autorizar minha cremação. Autorizar
que transformem
minhas vísceras, sonhos e sangue
em ficção.

O que pode haver
de mais radical?
Assinar este papel
tão simples
tão fatal.
Autorizar a solução final
de todos os poemas.

“Solução final”. Veja a sutileza com que ele nos remete à Solução Final da Questão Judaica, como foram considerados os terríveis crematórios nazistas nos campos de concentração. Mais sutil ainda é o fato de que ele não lamenta ter o corpo em chamas e reduzido a cinzas, mas “todos os poemas” desintegrados com ele.

Confirmando a imagem que sempre tive a seu respeito, o poeta tem amor intenso pela vida. Daí que é comovente vê-lo dizer mais adiante:

Há muito venho me preparando
me despedindo do sorriso da mulher, das filhas
da rua onde diariamente passo
me despedindo dos livros
vizinhos e paisagens.

Claro: em RITUAL DOMÉSTICO ele nos fala do aconchego do seu lar, com toques de extrema delicadeza.

Toda noite
acendo algumas velas na sala
enquanto minha mulher prepara o jantar.
somos nós dois
e essa cachorrinha meiga
com seu estoque inesgotável de afeto.

Essa cachorrinha meiga é presença recorrente no livro. Algo como a cadela Baleia de Vidas Secas ou o cão interpretado por Servílio de Holanda no espetáculo Vau do Sarapalha. Num desses instantes, Affonso se excede. Talvez haja me comovido mais porque tive, durante anos, uma pequinês chamada Lady, como a de Disney, e vi em casa cenas como essa, fantasticamente flagrada em LEVARAM OS SEIS FILHOTES. Não à toa os olhos de minha mulher marejaram quando li para ela:

Levaram os seis filhotes dessa cachorrinha
que chora
geme de desespero
procura suas crias pelos cantos da casa
sob a mesa
no jardim
na lareira
e pede socorro com seus olhos
exigindo explicação.

“E pede socorro com seus olhos exigindo explicação”!

É com detalhes assim que Affonso ressalta o apego à vida que sente estar por perder. Ainda em PREPARANDO A CREMAÇÃO, diz:

Olho cada parte de meu corpo
que vai se desintegrar:
mexo os dedos, vejo as veias
e no espelho esse olhar
que nada mais verá.

Já me vi fazendo o mesmo inúmeras vezes e me pareceu bem rever isso em versos.

Mas de repente, em COMPREENSÃO – num surto de otimismo – ele conclui que não há morte, tudo é recomeço. Daí que – tal qual num sonho – implicitamente evoca para si – ao optar pela cremação – um fim igual ao do profeta Elias… com o que tudo se transfigura:

Espero que um carro de fogo me arrebate numa tarde dessas
e sem estremecimento
me dissolva de vez na eternidade.

Mas  enigmas o cercam de todo lado e o angustia saber que a Esfinge vai devorá-lo sem que eles os decifre. No INDEPENDEM DE MIM diz:

Meus rins, meu pulmão, meu fígado
(e o coração)
não carecem que lhes ordene
o que fazer.
Na verdade me antecederam.
me hospedaram apenas. E se rebelam
se os forço a me obedecer.
são autônomos
mais que autômatos.
Eu é que sou essa estranha coisa
pensando movê-los.
(…)

E aqui termino, anotando o que ele diz a respeito, NO LABIRINTO:

Habito o mistério que me habita

O que me remete a uma frase do Ulisses que vivo me repetindo:

– Falar do mistério no seio do próprio mistério: isso é arte.

É, na verdade, arte.

 

 

 (W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)