Márcia Abath

movimentos ou a chuva
cansou-se
das homeopáticas
gentilezas
(não nascera para avarezas)
silenciosa
arrumou-lhe a casa
recolheu suas penas
pé ante pé
sem adeus
partiu sem problemas
(sua única avareza: as despedidas)
no peito lhe inflavam todos os poemas
***
bifurcação
não tinha
água
não tinha
irmão
não tinha
rama
não tinha
quinhão
não tinha
ardor
gatilho
no ouvido
ele apertou
cheia
de ardor
flor
no caminho
ela inventou
***
goela
ah, esse anil que me cega!
não quero falar-te de flores
ou exercer odes poéticas
sequer tecer novenas
basta!
acordei faca de serra
quero cantar-te
circe medusa medeia
*- Ei! procura teu chiqueiro e vá espojar-se com teus amigos.
(Odisseia de Homero )
***
na quarta pingo fogo
incendeio versos
encharco esboços
excomungo
jogo graça
que o diabo
neles se quebre
tosco arrefeço
***
estima
não me amasse
não me demita
dobro palavras
assinalo esquinas
no que deito rolo
não cravo estigma
***
pilatos
não me impute
o que é teu
eu só escrevo
o traduzir-me
é teu
a(s)cendo !
***
delação
não a amasse
seria coragem
não a vestisse
seria ultraje
toda palavra (a)trai
Márcia Abath (Niterói/RJ). Poeta, formada em Relações Públicas pela FACHA/RJ. Publicou “Arqueio – ensaio poético contemporâneo” (poesia, Ed. All Print, 2013). Em março de 2014, lançou “Molho de letras” (poesia, Ed. Literacidade), 2° lugar Prêmio Literacidade, poesia, livro completo.