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147ª Leva - 02/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Adriano B. Espíndola Santos

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Mais um

Havia, longe das vistas de Bernardo, uma verdadeira colônia de formigas carnívoras que se formava, com justiceiros que saíam de suas covas; mulheres e suas crianças, indicando que viriam da escola, ou de um passeio matinal; sem contar a quantidade de desocupados que, na falta do que fazer, alarmavam ao vento: “Venha! Acudam! Ainda está vivo!”.

Cautelosamente, marchando em passos trôpegos e cansados, assomavam-se três policiais: o primeiro, de calça frouxa, raquítico, roupas abandonadas num corpo debilitado, suíças e olhos profundos, entretinha-se em mascar o chiclete que tirara do bolso, guardado para os momentos de aflição; o segundo, de ombros largos, com peitoral empinado de galo, mostrava, igualmente impactante, as pernas e o contraste com o resto do corpo, o dito casquinha de sorvete, sem contar a patente moleza de coração, para acompanhar a tragédia, muito diferente do habitual – aproximava-se com os olhos vendados pelas mãos; o terceiro, mais malandro, rechonchudo, cara lisa, ostentando um pequeno bigode safado, regozijava-se com a aglomeração – era tanto que batia o cacetete na mão esquerda, frenético, para excitar a tara.

Naquela altura, já não havia quarteirão; uma massa parava em frente ao monumento, para fotografar, inclusive, e debater sobre o ocorrido; que teriam, propositalmente, provocado o agravo; que, nessa terra, não teria mais espaço para gente de pouca ou nenhuma estirpe; que, bem feito, o agressor fizera um favor, para livrar o governador de ser cognominado de negligente, ou mesmo carrasco, por tentar limpar a cidade do mal das drogas.

Enquanto Bernardo se acercava, temeroso, com receio do que poderia ver e escutar, tocou os ombros de um senhor pouco-caso, parado num poste, a cerca de cinco metros do ocorrido, para tomar pé da situação: “O senhor saberia dizer o que aconteceu? Que alvoroço é esse?”. O homem, com o semblante impassível, mirou fixamente o rosto do rapaz, perturbado pela incerteza, e soltou uma gargalhada: “E eu lá sei? Estou aqui como você, para passar o tempo”. E continuou rindo, embolando a voz, com palavras pouco compreensíveis, de onde se podia extrair, com muito esforço: “bandido”, “lixamento”, “justiça com as próprias mãos”.

Bernardo se aproximou mais, afastando alguns seres plantados, desnorteados, como se estivessem entregues a uma seita. Vislumbrou-se a imagem de um menino, doze a quinze anos – não se podia precisar, dada a magreza e a ausência de expressão –, com um corte profundo na cabeça, de onde, ainda, vertia sangue, recebendo chutes nas pernas, na barriga, menos na cabeça, já deteriorada.

Gritou um homem, muito pronto, de paletó, do meio da multidão: “Tem de pagar! Eu conheço esse marginalzinho. De santo não tem nada. Passa o dia cheirando cola, roubando; levou até um relógio meu, decerto pra trocar por droga!”. Seguindo de murmúrios e urras: “Isso! Isso! Tem de aprender!”.

As pessoas estavam entorpecidas de ódio, com os olhos vermelhos, fulminantes, aplicando grosserias e pontapés no miserável, que não se mexia mais. Daí, Bernardo, por impulso, pensando que teria de reagir, jogou a bolsa no chão e gritou: “Vocês estão loucos! Não existe lei neste país? Vocês não podem sair matando as pessoas! Senhor policial, por favor, temos de chamar a ambulância, urgente!”. Foi engolido por uma avalanche de dejetos: “Cala a boca, desgraça! Leva ele pra casa! Bandido! Comunista safado!”.

O primeiro policial, ao qual Bernardo havia se dirigido, querendo mostrar algum serviço, para colocar ordem, disse: “Saiam! Saiam da frente! O senhor tem razão. Pode ser que ainda viva. Chame você mesmo a ambulância. Nossa função é dar cobertura”. Bernardo, para não ser enleado na história, deu alguns passos para trás e se pôs próximo a uma senhora que chorava, contida. “Meu filho, eu só não liguei ainda porque não tenho essas coisa de celular… Que maldade!”. E, ao mesmo tempo em que Bernardo tentava se comunicar, a mulher ia debulhando uma ladainha sofrida, que seu filho também estaria nas ruas, que esse poderia ser o seu…

Para que não deformassem o corpo, o robusto policial se colocou de prontidão em sua frente, largando o cacetete nas pernas dos que, ainda, tentavam atingi-lo, para deixarem a sua marca da dita justiça. “Cês querem mais o que? Não estão satisfeitos? Morreu, seus monstros! Vão procurar o que fazer!”. Vociferaram: “Policial comunista! Comunista!”. Este policial, no ato, apesar de dez anos de corporação, foi surpreendido pela súbita lembrança do irmão, morto numa chacina no Morro dos Prazeres, quando ainda era pequeno, porque, segundo relatado na ficha, teria relações com o tráfico. Teve um ligeiro impulso de chorar, mas, sabendo da admoestação dos companheiros e da população sedenta por vingança, baixou a cabeça, demonstrando cansaço e resolução.

Do outro lado, o policial sorvete tentava se comunicar, também, com o resgate, mas não conseguia verbalizar, inteira, uma palavra. Esforçou-se e conseguiu declarar o ocorrido. Estava afetado pela comoção. Contudo, dissimulava postura sólida, intransponível, desferindo, por obrigação, alguns golpes de cacetete para que dispersassem e deixassem o canto vazio, para a entrada da ambulância.

Trinta e cinco minutos depois do primeiro contato, a ambulância chegou. Os paramédicos foram rápidos nos primeiros socorros. Apesar disso, não havia sinal vital. Declararam a morte, possivelmente por múltiplas fraturas, dilaceração de órgãos e hemorragia interna. Os que ainda acompanhavam mais de perto espalharam para os de trás, com sorrisos no rosto, até formar uma onda de excitação, resultando no uníssono grito: “Menos um. Uhhrruu!!”.

Perderam o encanto. Já haviam se fartado. Partiram em debandada para completar novos serviços espúrios.

Adriano B. Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

 

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142ª Leva - 02/2021 Destaques Olhares

Olhares

No corpo do mundo

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Joice Kreiss

 

Dizer das coisas em imagens: eis uma definição possível para o ofício de um fotógrafo. Representar um universo de seres, objetos e lugares, tendo a luz como norte da criação. Ter a fotografia como o flagrante da vida que se manifesta em cada desavisado instante, propondo a quem contempla o resultado dos registros um mergulho também sobre o indizível.

Talvez o maior desafio para quem se proponha a captar a luz de um tudo seja o de apresentar recortes que mobilizem em nós algo de diferente. E aqui explico melhor para considerar que tal manifestação artística, quando foge da gratuidade e do óbvio, parece repercutir nos apreciadores o gesto da surpresa e de algum arrebatamento. Já que o mundo tem nos oferecido uma enxurrada de possibilidades imagéticas, podemos arriscar que os artistas que costumam sair do lugar comum produzem mais impacto com suas obras, pois se recusam a ter suas expressões diluídas no marasmo uniformizante dos excessos.

 

Foto: Joice Kreiss

 

O que chamo neste texto de corpo do mundo é, na verdade, todo um conjunto de possibilidades a alvejar sentimentos e percepções em torno de pessoas, gestos, coisas, lugares e fenômenos da natureza. E é nestas frentes vastas de observação que se espraia o trabalho de Joice Kreiss, artista sobre a qual ouso me debruçar agora e que evidencia em sua criação o ímpeto poético das representações.

Joice é fotógrafa de temática abrangente, pois perpassa o humano e também tudo o que o constitui interna e externamente. É, como ela mesma nos diz, alguém que tenta contar histórias através de suas lentes. No percurso narrativo proposto pela artista, temos uma profusão de movimentos ligados ao corpo humano, sinais que emanam de formas e gestos, de um ser e estar captado em meio ao turbilhão da rotina.

 

Foto: Joice Kreiss

 

Há também a Joice que vislumbra poesia e encantamento em diferentes paisagens do mundo, sejam elas urbanas ou marcadas por uma noção de bucolismo. Nesse seu trajeto, a fotógrafa parece eleger o silêncio dos lugares como algo que transborda para além das imagens captadas. Nos domínios da abstração, o olhar sobre a fisicalidade das coisas ganha contornos de reflexão sobre aquilo que parecemos enxergar como concreto, mas que nos é devolvido sob a forma do algo intangível.

Vivendo em Montenegro, no Rio Grande do Sul, Joice Kreiss sempre foi marcada pela fotografia e tem colecionado em sua trajetória participações em exposições, bem como premiações por alguns de seus trabalhos. A artista confessa que, nos últimos três anos, o estudo da fotografia se tornou algo mais consolidado em sua vida.

E assim temos a fotografia que enaltece variadas apreensões da luz. Há a luz que baila através dos corpos, outra que atravessa recantos de cidades. Vem à tona a luz que comunica o alvorecer dos dias e o fluxo das águas naturais. Também nos é permitido vislumbrar a luz que contempla as palavras esquecidas num canto qualquer da vida. Cada um destes fragmentos é instrumento da poesia de Joice Kreiss.

 

Foto: Joice Kreiss

 

* As fotografias de Joice Kreiss são parte integrante da galeria e dos textos da 142ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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140ª Leva - 07/2020 Destaques Olhares

Olhares

A descoberta do mundo segundo Cristiano Xavier

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Em nossas mais remotas e pueris fantasias, a Terra parece ser uma reunião de lugares relativamente infinitos. Sustentamos a vivos olhos que mares, desertos e florestas não encontram limites em ponto algum. Encantados com belas, imponentes e enigmáticas paisagens, nos rendemos à magnitude da natureza, pois somos apenas parte de um colossal cenário de imagens e manifestações que estão acima do nosso controle e compreensão mais imediatos.

Tantos séculos se passaram e continuamos achando que temos o domínio sobre a natureza e os demais seres que nela fazem morada. Nossa tão exortada racionalidade mais parece um permanente estado de soberba quando nos julgamos superiores aos outros reinos que também habitam nosso planeta. Por outro lado, ainda bem que não somos páreo para desafiar muitos fenômenos da natureza. Estes últimos têm o poder de nos mostrar que andamos bem se nos contentarmos em levar a cabo o gesto de não intervenção em mecanismos que jamais poderemos alterar.

Talvez as paisagens e todos os seus seres dispersos pelo globo estejam a pedir de nós mais contemplação e pouca ou nenhuma interferência nos seus destinos. Dito assim, até parece um clamor utópico, mas o fato é que já vilipendiamos por demais esse vasto mundo em que vivemos, quer no aspecto físico, quando fracassamos nas questões ambientais, quer no humano, quando nos comportamos como canibais de nós mesmos.

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Quantas vezes precisamos de uma pausa para desacelerar os tropeços de nossa espécie? Penso que todos os dias. E ter a arte como instrumento dessa reflexão é algo revelador e grandioso. É justamente tal sensação que parece permear o trabalho de alguém como o fotógrafo Cristiano Xavier.

As imagens de Cristiano dão conta dum verdadeiro percurso pelo mundo em seus mais distantes rincões. Ao deitar seu olhar para lugares como Madagascar, Namíbia, Irã, Mongólia, Indonésia, Patagônia, entre outros, inclusive conduzindo pessoas através de expedições, o artista nos apresenta uma diversidade de cenários que reforçam uma atenção especial à natureza. Nesse quesito, o fotógrafo tem percorrido o planeta buscando registrar árvores, tendo como foco espécimes raros e isolados. O resultado de tal investida é algo que encanta pelas descobertas inusitadas e também pelo universo de formas e texturas que nos remetem a paisagens exóticas. O próprio fotógrafo confessa que seu objetivo é despertar a atenção das pessoas para a beleza que se abriga nas árvores marcadas pela raridade. Para cobrir esse intento, ele lança mão das técnicas de fotografia noturna e light painting, transitando entre o digital e o analógico.

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Mas o mundo em Cristiano Xavier também é aquele que abriga recortes possíveis para o humano. Nesse sentido, o artista retrata pessoas em rituais cotidianos que expressam as particularidades de suas existências. Aonde quer que passe com suas lentes, o fotógrafo se posiciona como alguém que preserva o protagonismo das mais diferentes culturas dispersas pelo mundo. Somem-se a isso ingredientes como a contemplação e o silêncio, os quais tanto marcam as posições de observador e observado.

Com tamanho apuro no olhar e nos recursos técnicos empregados, Cristiano logrou relevantes êxitos em sua trajetória profissional, dentre os quais o primeiro lugar no concurso mundial International Landscape Photographer of the Year 2017 – Abstract Aerial Award e a melhor colocação de um brasileiro no Epson Pano Awards 2017 – Nature/Landscape. Além disso, sua obra está exposta em galerias do Brasil, França e Estados Unidos.

Cristiano Xavier trava o bom combate quando nos conclama a apreciar a beleza que se espraia no mundo. E o faz evidenciando o poder sensível e transformador que emana do silêncio e da contemplação. Estas são duas ferramentas que instrumentalizam a fotografia para que ela adentre um verdadeiro estado de poesia. A predileção por cenários diferentes, inusitados e impactantes é uma acertada provocação para enxergamos além.

 

Foto: Cristiano Xavier

 

* As fotografias de Cristiano Xavier são parte integrante da galeria e dos textos da 140ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.