Temos presenciado dias conturbados em nosso planeta. Não bastasse o inimigo mortal e invisível que nos faz companhia desde o principiar de 2020, vamos colecionando tragédias cotidianamente, todas elas marcadas pela insana aptidão humana para a destruição em seus mais variados níveis. Assim, aniquila-se a natureza no mesmo compasso em que eliminamos os nossos iguais pelo gesto irracional da barbárie. O despertar de uma guerra nos relembra nossas mesquinharias mais comezinhas, truculento desejo de dominar o outro por razões esmaecidas. Questão que se impõe é como faremos para descontaminar o nosso caminhar sobre o mundo, agindo num movimento contrário à perspectiva de desolação que sempre teima em aparecer no horizonte quando as crises se mostram cíclicas e persistentes. Há espaço para a libertação das consciências e, assim, para o cultivo de alternativas otimistas? Por certo, a resposta está em nossas mãos, não necessariamente sob nosso pretenso e inteiriço controle. Quiçá os instrumentos da Arte possam nos guiar nessa tarefa longa de reconstrução e ressignificação da nossa história sobre a Terra. E estamos aqui a falar de Arte como potência criadora que não se aparta em momento algum da realidade, seus matizes políticos, econômicos e sociais. Portanto, autores e artistas não estão dissociados do debate maior sobre o seu tempo, da tentativa de compreensão dos fenômenos que afetam nossas humanidades de forma contundente e inalienável. Não se usa camisa de força para tal, o gesto nos pertence por natureza. Diante de um mundo que nos aplica doses constantes de assombro, é bom testemunharmos, por exemplo, o pensamento de um criador como Alex Simões, poeta e performer que é o nosso entrevistado da vez e cuja obra propõe um diálogo com os temas sensíveis de nossa atualidade. Numa linha semelhante, nos deparamos com as ilustrações de Bianca Grassi, as quais nos fazem companhia por todos os recantos de nossa nova edição. São de Kleber Lima, Clarissa Macedo, Elton Uliana, Manuella Bezerra de Melo e Priscila Branco as janelas poéticas que nos ofertam versos pungentes. Foi também pensando questões atinentes ao mundo que nos perturba que Guilherme Preger escolheu para sua análise o filme romeno “Má sorte no sexo ou pornô acidental”, do diretor Radu Jude. Não foi diferente com Larissa Mendes que, ao trazer à tona sua resenha sobre “Preto Sem Acúcar”, novo disco da banda OQuadro, reflete sobre as marcas raciais entranhadas em nossa sociedade, dentre outros temas. Em seu texto sobre “Os vivos (?) e os mortos”, emblemático livro de poemas de Fernando Monteiro, Sandro Ornellas expõe o delicado testemunho que a memória atroz da ditadura militar brasileira evidencia. Nos contos de Susana Fuentes, Adriano B. Espíndola Santos e Ianê Mello, o traçado sensível da vida insiste em se manifestar. É Vinicius de Oliveira quem nos apresenta “Levante”, livro do poeta Henrique Marques Samyn e que evoca a marcante história do povo negro no diapasão África-Brasil. É com grande satisfação que apresentamos aos nossos leitores a 147ª Leva da Diversos Afins. Boas leituras!
“Não sei se sirvo o rap ou o rap é quem me serve”, já dizia Marcelo D2 em “Vai Vendo” (2003). Tal verdade é incontestável quando se trata das cabeças fervilhantes dos rapazes d’OQuadro. Formada em Ilhéus (BA) e com mais de duas décadas de estrada, OQuadro é representante de uma tendência do hip-hop denominada New School, movimento que promove inovações estéticas a partir do diálogo com outros estilos musicais e movimentos culturais. A banda lançou em novembro passado seu terceiro álbum de estúdio, Preto Sem Açúcar (2021), com uma sonoridade resultante de suas múltiplas pesquisas e influências artísticas, sem abandonar jamais o discurso contundente do rap. Ainda que o título pareça insinuar uma alusão ao fruto do cafeeiro, o conteúdo desse “bule” é muito mais denso: analisa os tempos sombrios da escravidão para demonstrar as implicações desastrosas causadas pelos barões do café e senhores de engenho.
Há que se dizer que o septeto baiano, composto atualmente por Jef Rodriguez (voz), Nêgo Freeza (voz), Ricô (voz e baixo), Rodrigo DaLua (guitarra e synth), Vic Santana (bateria), DJ Mangaio (programações) e Jahgga (percussão), apresenta um hip-hop peculiar no decorrer dos anos e não seria diferente ao longo dessas (bem servidas) 15 faixas. Trata-se de uma ode à negritude e a sua história, sem precisar “adoçar” nenhuma das mazelas da vida. A lista de participações especiais também é expressiva e extensa (14 ao todo), e inclui Jorge Du Peixe, Tuyo, Ellen Oléria, Russo Passapusso, Rodrigo Piccolo (Mato Seco), BillyFat, entre outros nomes da cena musical brasileira. Por falar nisso, vale destacar que a banda teve uma elogiadíssima participação no projeto de releituras de canções de Adriana Calcanhotto, Nada Ficou No Lugar (2019), com a canção “Negros”.
OQuadro / Foto: divulgação
A vinheta de abertura Um Brinde A Minha Gente (um conflito interno/bem-vindo ao meu inferno particular/(…)/eu vejo tudo/mas ninguém me enxerga) dá o pontapé inicial a pouco mais de 45 minutos da história do Brasil passada a limpo. A literalmente fuzilante Kalashnikov, por exemplo, tem a participação da não menos potente Ellen Oléria. Se I Can Feel It adverte que “em cima do muro é um lugar perigoso”, Motor da Fome, parceria com Davzera (ícone do rap underground), analisa os quase 19 milhões de brasileiros em situação de fome. Nas primorosas Asas (o sol na carne sob o sol/pra lavar, pra limpar esse banho de sangue/abre as asas sobre nós/passarão passarinho voos rasantes no mangue/e o sol virá depois que as tempestades calmarão), em companhia de Jorge Du Peixe, e em Não Vai Passar Batido (eles sabem que não vai passar batido/cada gota de sangue no chão, cada tiro/cada lágrima da mãe por seu filho), parceria com MCDO, da banda Afrocidade, a crítica é sobre a violência urbana, especialmente contra o povo negro.
Se a malemolente Caça tem a participação das cantoras Xênia França e Vanessa Melo, Meu Game tem a companhia de Russo Passapusso, do BaianaSystem, e brada que “aqui é preto sem açúcar, não tente me refinar!”. A vinheta Paz nos dá um importante conselho: “cuidado em quem você bota bandeira, seja você sua revolução!”. Santo (chorei dilúvios por sua atenção/mundos e fundos movi, comovi/resolvi deletar essa devoção), conta com a belíssima participação dos afrofuturistas curitibanos do Tuyo e Campo Minado — uma das melhores canções do álbum — tem a presença da cantora e compositora Cronista do Morro (revelação do hip-hop baiano) e de Billyfat, membro do #OMC (Oferecimento Máfia Crew), expoente da nova geração do rap de Ilhéus.
Desafio você a não bater palmas no compasso de Fala Pra Mim (fala pra mim, o seu lamento/dispensas já não cabem mais ressentimentos/já não consigo mais dormir, com esse tormento/sem medo é só deixar fluir, o sentimento) ou se pegar assoviando no ritmo de Ascende… o pavio e apavora! A africaníssima LULULULULU, faixa junto ao ganês DJ Sankofa, se encaminha para o final de forma quase transcendental, porém é a vinheta I Tal, narrada por Bia Ferreira, que encerra o álbum alertando que a alimentação ofertada pelo colonizador ao povo negro causa até hoje problemas de saúde como a pressão alta e o diabetes.
Preto Sem Açúcar sucede os álbuns OQuadro (2012) e Nêgo Roque (2017) e está disponível em todas as plataformas digitais. Apesar de não se tratar exatamente de uma trilogia, arremata de forma perfeita o conceito de evolução sonora e estética do grupo. Enquanto o primeiro disco dialogou com as bases do reggae e o segundo com as raízes do rock, este último passeia por sonoridades influenciadas por elementos eletrônicos. Já em relação à narrativa, ela se mantém cirúrgica e aborda questões como o combate à fome e a luta contra o preconceito racial. Sem fazer “média”, o som d’OQuadro é puro e certeiro como um café forte. Sem açúcar, com afeto.
Larissa Mendes não dispensa um cafezinho [com adoçante] e uma boa música.
“E o médico perguntou: o que sentes? Sinto lonjuras, doutor.
Sofro de distâncias”.
(Denison Mendes)
A frase perfeitamente aplicável a nossa realidade nestes últimos anos dá a tônica do que é transformar o sentimento de sozinhez em arte. E se “todo mundo é uma ilha” nesse período pandêmico, o criativo, multifacetado (e boa praça) artista pernambucano Juvenil Silva – que figura há praticamente duas décadas na cena underground – é um arquipélago inteiro. O “compositor, tocador e cantante” como define a bio do músico no Instagram, iniciou sua trajetória na banda Canivetes e hoje, além de sua carreira solo lançada com o álbum Desapego (2013) – sucesso de público e crítica – mantêm os projetos Dunas do Barato, Avoada e FREVO 70, ao lado de outros artistas. Juvenil tornou-se conhecido também – ainda que não se considere exatamente um produtor cultural – por comandar por 10 anos, em Recife, A Noite do Desbunde Elétrico, conhecido como “o festival anual de rock independente ou a noite mais doida do ano”.
Lonjura (2021), seu quarto trabalho solo, foi registrado à distância durante o início do isolamento social, praticamente sem ensaios e com músicos alastrados pelo país (e até mesmo no exterior, caso de Marcos Gonzatto da clássica banda curitibana Faichecleres, que participou de Londres). Transitando entre folk e pop psicodélico, o EP sucede os álbuns Super Qualquer no Meio de Lugar Nenhum (2014) e Suspenso (2018). As 6 faixas versam sobre a incerteza e distopia do futuro, mantendo o mesmo olhar crítico e sarcástico habituais na obra de Juvenil Silva, porém, desta vez, em uma atmosfera mais melódica e melancólica.
Juvenil Silva / Foto: Thaís Rodrigues
A balada, a la Jovem Guarda, Dias Impossíveis (olha, nesses dias impossíveis/onde o medo anda na moda/empatando a foda, risos, laços, nós/quero que você tome cuidado), parceria com o paraibano Seu Pereira, composta logo nos primeiros momentos de quarentena e lançada em março, elucida a aura pós-apocalíptica que tem pairado sobre nossos dias. A faixa ganhou ainda um simpático “videoclipe coletivo”, editado a partir de vídeos enviados por seus fãs. Alpinismo(e eu também já desci, já desci/e me esqueci como eram os sonhos/que mesmo com asas cortadas podia voar), outra parceria, dessa vez com Guilherme Cobelo, vocalista da banda brasiliense Joe Silhueta, é um folk animadinho que tece uma crítica à escalada social. Horários Bagunçados (ando com os horários bagunçados/tesão desregulado/cabeça sem lugar/gaveta que nem fecha/cinzeiro a transbordar/você me acalma) – talvez uma das mais belas canções do EP – aborda a nova dinâmica afetiva desses tempos obscuros.
A malemolente Regalia (na periferia não tem regalia/ você sabe, mas não sabe como é/um supermercado inteiro ele cabe na barriga/mas não cabe nem metade, da metade da metade, no meu bolso), primeiro single divulgado ainda em 2020, filosofa sobre o “idealismo burguês” e parece ter profetizado a alta dos preços. A balada Você Mulher (eu queria te dizer/coisa pra caramba/da minha cabeça/eu queria mesmo era saber/como você anda/tudo que fez hoje/e desde que nasceu) é uma sincera declaração de amor e saudade. Aliás, a canção recentemente ganhou um belíssimo videoclipe, ou melhor, “uma fotonovela audiovisual” escrita, dirigida e estrelada pela trans colombiana Ava Reyna Bárbara e composta por mais de 2 mil fotos. A dramática O Mal de Nós Mesmos (quem fica com cara pra cima não enxerga tão bem/quem cai com a cara no chão já percebe melhor) encerra o disco com um blues tropicalista num diálogo entre o bem e o mal que habita em cada um de nós.
Disponível em todas as plataformas digitais, Lonjura possui também uma “versão comercial” com três faixas bônus (para adquirir, basta entrar em contato através do Instagram do artista). Tal versão segue o projeto Discos Off-line, que já rendeu os EPs Isolamento Acústico Vol. 1 e Vol. 2, Não Amolem os Canivetes, Cinzas de Um Ano Morto, Calendário dos Sonhos e o novíssimo Farol das Esperanças. Trata-se de discos que não são lançados nas plataformas de streaming, disponibilizados exclusivamente via e-mail com as faixas em wav/mp3 e encartes com fotos e letras mediante o “pague quanto puder/quiser”. Vale ressaltar ainda que além do EP, Juvenil acaba de lançar, em parceria com o jovem músico Tonho Nolasco, o selo musical Plurivox. A dupla prevê o lançamento de novos artistas tão logo seja concluído seu estúdio que está em fase final. Cria, agrega, resiste e voa, Juvenil, que “voar não se limita em romper as nuvens”.
Larissa Mendes também sofre de lonjura, Dr. Juvenil. Inclusive de lonjura dos editores Fabrício Brandão e Leila Andrade, que me impedem de abraçá-los pelos 15 anos de arte, cultura e Diversos Afins.
“O melhor lugar do mundo é aqui e agora”, canta nosso célebre Gilberto Gil em uma de suas mais reflexivas e tocantes composições. Posto assim de imediato, esse trecho da canção acentua o presente como sendo o instante mais precioso de todos, aquele sobre o qual temos a consciência do que estamos vivendo. Daí que está conosco a tarefa de prestar atenção no hoje, nesse agora que acontece e merece nosso cuidado para que se torne o mais pleno possível. E tanto nos convém olhar para tudo daquilo que se coloca ao nosso redor e no exato momento em que pensamos e agimos. No estar presente, interagimos com o Outro e com ele estabelecemos uma ponte de comunicação que também nos auxilia na compreensão do mundo. Diante de nossos sentidos, passam tantas imagens e a todo tempo somos convocados a contribuir com uma parcela de reflexões e ações sobre as coisas. Estar no mundo é, pois, escolher entre ser parte e atuar ou portar-se como um mero observador dos fenômenos que se nos apresentam. Por óbvio, há consequências naturais para qualquer que seja o caminho eleito. Nesse sentido, ter a ciência e a possibilidade de mover as alternativas parece ser a via mais pertinente para os que não temem os mais variados e desafiadores cenários da existência. E o que dizer do quanto aprendemos com todos aqueles que cruzam a nossa jornada? Por certo, o saldo é imensurável, ainda mais se tratando das perspectivas engendradas pela arte. Em nossa edição atual, por exemplo, há um banquete de palavras e imagens encerradas nas contribuições dos que se permitiram trilhar as estradas da revista. É gente como Fernanda Paz, Dheyne de Souza e Wellington Amâncio da Silva, que com suas narrativas em prosa provocam nossas mais aguçadas visões. No norte da poesia, nos alimentamos dos versos de Milena Moura, Carla Diacov, Rafael Nolli, Anna Apolinário e Rafael de Oliveira Fernandes. É Sidney Rocha quem nos apresenta o instigante “Todo suicídio é um homicídio”, novo livro do poeta Lupeu Lacerda. Conduzida por Elis Matos, temos a entrevista com a escritora e atriz Tereza Sá, potente voz da literatura e da arte baiana. Pelas mãos de Guilherme Preger, estão atentas análises sobre o denso filme chinês “Dead Pigs”. Com sua pesquisa musical apurada, Larissa Mendes nos brinda com uma resenha sobre “Você Não Sabe de Nada”, disco de estreia da banda O Grilo. Por sua vez, Vinicius de Oliveira aborda percursos possíveis em torno de “Tudo sobre o amor, novas perspectivas”, importante obra da escritora Bell Hooks. Por todos os recantos de nossa nova investida editorial, temos a companhia especial das fotografias de Lu Brito, cujo olhar atravessa sentidos especiais dispersos em corpos, espaços e cores. Bons mergulhos em nossa 144ª Leva!
“(...) Faça como o griloSem grilo canta pro seu bem chegar”(4 Cabeça, Quem Canta)
Se a adolescência é a etapa da existência que nos dá toda a coragem e certa petulância para enfrentar a tudo e a todos, é no início da vida adulta – e provavelmente durante toda ela – que nos damos conta de que “por mais que a gente cresça, há sempre alguma coisa que a gente não consegue entender”, como diria Humberto Gessinger e seus Engenheiros do Hawaii em Terra de Gigantes, no já distante final dos anos 80. Mais de trinta anos depois, a banda paulistana O Grilo dispensa o apoio de hey, mãe (!) para reafirmar que ninguém sabe de coisa alguma. Composto atualmente por Pedro Martins (voz e composição), Felipe Martins, o “Fepa” (guitarra) — não, eles não são parentes! —, Lucas Teixeira (bateria) e Gabriel Cavallari (baixo), o grupo formado em 2017 (entre o final do Ensino Médio e o início da vida universitária) que queria fazer covers de música indie nacional passou por uma reformulação em 2019 e define-se hoje como um grupo de “Rock Popular Brasileiro”.
Depois de alguns singles e dois EPs lançados, o contagiante Herói Do Futuro (2017), com destaque para o hit Serenata Existencialista e de O Grilo no Estúdio Showlivre — Ao Vivo (2019), os meninos (sim, meninos; eles estão na faixa dos vinte e pouquíssimos anos) — que abriram o Lollapalooza Brasil 2019 (sonho de muito artista veterano) após vencer um concurso lançado pela Rádio Rock 89 FM — estão de volta. As 13 faixas autorais do disco de estreia Você Não Sabe De Nada (2021), gravado pelo selo Rockambole, foram produzidas pelo quarteto em parceria com Hugo Silva e alternam ritmos dançantes com momentos mais introspectivos. A sonoridade pop-tupiniquim mistura bossa, baião, new wave, indie, pop, rock e outros elementos brasileiros, que agora se apresentam de modo ainda mais intenso.
A despretensiosa Trela (o meu amor vem da terra e do mar/uma musa estendida na areia/anjo de um céu de estrelas do mar/um balé de mulher e baleia), primeiro single divulgado abre o álbum em ritmo de pop. A canção seguinte, Guitarrada (é que eu sou mais eu, mas eu queria ser você/eu sou mais você/mas se você sou eu, agora eu quero te esquecer/eu quero me esquecer), é um carimbó ou forróck, como a banda gosta de chamá-la e já tem videoclipe em fase de pós-produção. O samba-rock Contramão (nada novo sob o sol/são aquelas mesmas mentiras/banhadas em formol), segunda música lançada, lembra de um carnaval de outrora, um amor entre coisa de cinema e quarta-feira de cinzas. Ainda há espaço para Tudo e Mais um Pouco e para a balada Vou Levar. A levemente vingativa Meu Pior Amigo (eu só quero ver você cair/eu só vim pra ver, ver você cair/eu só quero ver você cair/em si) manda um recado praquele alguém que você já guardou no lado esquerdo do peito e hoje figura no hall dos seus desafetos, enquanto Infinito (-1) (vou partir o horizonte ao meio/vou me dividir/por todos os caminhos que eu quiser seguir) passeia por caminhos mais experimentais.
O Grilo / Foto: divulgação
Na “mini-música” Você Não Sabe de Nada, O Grilo divide o refrão da faixa de pouco mais de 1 minuto e meio com diversos convidados, entre eles Gabriel Aragão, Reolamos e as bandas Maracatech e Pluma (da qual Teixeira também é baterista), o que é a deixa perfeita para a setentista Meu Amor (meu amor/as coisas não precisam ser assim/pega uma lata de tônica, um copo de gin e vai dançar), que alterna refrão engraçadinho com uma crítica à indústria fonográfica, na qual “a música mais bonita d’O Grilo tem que ter/um bilhão de curtidas/10 mil cópias vendidas/lotar estádios e avenidas/e tocar o coração das rádios Brasil afora”. Se a vinheta E daí, eu sei lá prefere não opinar, eu me arrisco a dizer que ela é o abre-alas para o melhor bloco do álbum, composto pelas três últimas canções: a disco Adeus (não dá pra esquecer alguém como você/mas bem que eu queria/o que te encanta em mim é você/sempre foi você e eu sabia/mas resolvi não me abandonar), que ganhou até coreografia oficial no TikTok; a festiva Onde Flor (onde flor não for jardim/eu não vou, eu sou assim/algo que não cabe mais em mim/ôô, eu quero viver um grande amor/e morrer de saudade), que pode figurar ao lado de Todo Carnaval Tem Seu Fim, do Los Hermanos no catálogo de canções-foliãs que alegram nosso “carnaval fora de época” instantaneamente; o belíssimo bônus-track de voz e violão Malabarista de Granadas (malabarista de granadas/me conta quantas fardas você já vestiu/pra manter a cabeça ocupada/enquanto o mundo te estraçalha como um tiro de fuzil), que finaliza o álbum com toda a doçura que pode haver na voz de Pedro Martins.
Responsável pelo projeto gráfico da obra, o cartunista Pietro Soldi idealizou também um livro que acompanha o disco. O personagem central de Você Não Sabe De Nada – o livro, é Lauro, sujeito de poucas palavras que traz em sua personalidade características físicas ou psicológicas de cada um dos integrantes da banda. Lauro já deu o ar da graça em 2020 nas capas dos três singles lançados: Trela, Meu Amor e Contramão. Além das tirinhas, o livro traz ainda cifras, fotos e canções comentadas, com direito a rabiscos, anotações e muita criatividade (revelada inclusive à luz negra). Os integrantes são bastante atuantes nas redes sociais e chama atenção a constante interação com seu público, seja através de lives, posts,tweets ou dancinhas no TikTok. Ou mais especificamente em seu podcast (ou melhor, Grilocast) e no canal no YouTube (o GriloTube), com destaque para Você Não Sabe de Nada — o Mini Doc. Aproveitando o lançamento de VNSDN no final de março, os músicos têm disponibilizado em seus stories do Instagram cifras das canções no violão, comentários sobre as inspirações das faixas, enquetes e versões das músicas feitas por seus fãs. O Grilo está mais falante, dançante, maduro e criativo do que nunca. E é só o começo.
Larissa Mendes se identifica com Lauro e tampouco sabe de muita coisa.
“Se eu nunca vir você de novoEu sempre vou levar vocêdentroforana ponta dos meus dedose nas bordas do meu cérebroe em centroscentrosdo que eu sou doque restou”.(Charles Bukowski)
O Modelo Kübler-Ross aponta que os cinco estágios do luto compreendem: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Nem sempre as etapas seguem exatamente esta ordem, podendo haver oscilação entre os estágios, que inclusive podem ocorrer de forma simultânea. E o que é o fim de um relacionamento senão uma experiência de morte? Atualmente, porém, a positividade tóxica parece tentar impedir o “estado de não estar bem” e sugere que na manhã seguinte a gente vire a página e faça a fila andar. O produtor musical, instrumentista e ex-vocalista da banda gaúcha Wannabe Jalva, Felipe Puperi, não é o primeiro a transformar seu período de luto (profissional , geográfico e amoroso) em arte, porém muito bem o fez normalizando-o como uma etapa necessária para a transmutação gradual das emoções.
Tão logo trocou Porto Alegre por São Paulo, em 2017, Felipe formou seu projeto solo denominado Tagua Tagua, referência ao lago que banha o pueblo de San Vicente de Tagua Tagua, no interior do Chile, berço dos primeiros povos sul-americanos. Cantando dessa vez em português – curiosamente as composições do Wannabe Jalva eram quase em sua totalidade em inglês, enquanto o primeiro instrumento de interesse de um Felipe ainda menino foi o luso-brasileiríssimo cavaquinho –, o projeto explora elementos percussivos de MPB associados à música eletrônica, soul e rock. Após dois EPs lançados, Tombamento Inevitável (2017) e Pedaço Vivo (2018), Tagua Tagua apresenta seu primeiro álbum de estúdio, o intitulado Inteiro Metade (2020), fechando uma espécie de trilogia dos dissabores.
Com 9 faixas autorais, o disco mergulha entre timbres eletrônicos e orgânicos e apresenta uma faceta mais madura do artista. Se o lirismo intimista lembra um pouco o início de Silva em Claridão (2012), as melodias envolventes mesclam-se a letras inspiradas (praticamente poemas musicados) e sintetizadores que vão desacelerando ao longo das faixas. É como se o álbum traçasse uma linha do tempo desse processo reflexivo, girando em torno da ressignificação de sentimentos que vão sendo diluídos com o passar do tempo, desde seu estado mais efervescente até a nostalgia, às vezes em looping.
Felipe Puperi / Foto: Guillermo Calvin
A retumbante Mesmo Lugar (e ele vem, dá volta e volta/pro mesmo lugar/parece até que sabe onde chegar/andam dizendo que o agora/é tão diferente/e a vida vai passando pela frente), soul composto em 2019, mais parece uma canção premonitória para nosso longo período de isolamento social. Só Pra Ver (eu vou até o fundo só pra ver/que eu ando e só acabo em você/eu vou até bem longe só pra ver/que eu ando e só acabo em você), primeiro single divulgado, trata com irreverência, tanto no arranjo quanto na letra, da dificuldade em se desvencilhar de alguém. Com levadas orgânicas, mas baseadas em beats eletrônicos, 4AM (deixo a poeira me levar/corro, escorro sem ter hora pra chegar/me encontro com o dia que já se foi/e eu nem vi) aponta para um caminho mais introspectivo, como o próprio “sonho” que a letra propõe. A balada 2016 (parou pra ver ela escorregar/por entre as minhas mãos/parou pra ver ela voar), de fato gravada naquele ano, tem um clima saudoso de quem aprendeu a [sobre]viver “tão longe de mim”.
Com naipe de metais, Bolha(eu vivo na bolha existencial/indiferente, espero ir tudo pro lugar/discretamente, eu saio sem me retirar) retoma a pegada soul e faz uma auto-análise bem peculiar. A embargada Até Cair (feito folha seca desvendando o quintal/roupa enxaguada esperando o varal/xícara molhada desfazendo o jornal/quase em paz), talvez a canção mais séria do disco antecede Inteiro Metade (feito ferro no sal/eu sou inteiro e metade/risco de verso final/vou deslizando em saudade), faixa que leva o nome do trabalho e sintetiza o conceito do álbum. A experimental Sopro (não chegue tarde na minha vida/que eu já não posso te esperar/tô nessa vida/e o tempo pode nos terminar), com pseudo-gingado e verso único é um fragmento de alegria, como todo [re]início prevê. Assim como o encerramento de um ciclo, o álbum termina em clima de renascimento com o “poema etéreo” Do Mundo, avisando que “agora eu sou o/do mundo”.
A questão estética sempre esteve presente na obra de Felipe Puperi, que já trabalhou, inclusive, na produção de trilhas sonoras para cinema. O clipe de Rastro de Pó (faixa de Tombamento Inevitável), por exemplo, rodado no interior da Bahia, aborda a guerra de espadas que ocorre durante as festas juninas e ganhou o prêmio latino do Ciclope Festival, como Melhor Vídeo Musical. Inteiro Metade flutua entre recortes ensolarados e sombrios, como bem ilustra João Lauro Fonte, designer responsável pela arte do disco. Ele traduz nas capas (do álbum e dos singles) e lyric videos a vastidão do universo de Tagua Tagua.
Impedido de divulgar o álbum na estrada por conta da pandemia, Tagua Tagua lançou no final de janeiro uma live session para que os fãs tivessem uma experiência sonora e estética do disco. As 9 faixas – que passeiam entre MPB, indie, R&B e soul – foram apresentadas na íntegra com um belo conteúdo audiovisual. Disponível nas plataformas de streaming e também em vinil, o disco foi lançado simultaneamente no Brasil (Natura Musical), Europa (selo Costa Futuro) e Estados Unidos, de forma independente, aproveitando a exposição internacional do single “Peixe Voador”, presente na trilha do jogo FIFA 2020 e de sua apresentação no Brasil Summerfest NYC e a abertura de uma mini-turnê do The Growlers, ambas em 2019.
Como consta no release da obra, “Inteiro Metadeé um disco sobre o processo de encontrar novos espaços pras mesmas pessoas dentro da vida. É ser inteiro num dia e metade noutro. É a caminhada da transformação, da aceitação dessa mudança dentro de nós. Nesse percurso, aparecem os mais variados sentimentos: euforia, alegria, gratidão, saudade, tristeza, luto. Morre uma relação pra nascer outra”. E Tagua Tagua [re]nasce como um dos grandes nomes da nova música brasileira. Como diz o compositor em certo verso de seu primeiro EP: “tua dor é uma dádiva”. Aceita que dói menos: o mergulho é inevitável.
Larissa Mendes, nasceu em Caçador/SC, banhada pelo Rio do Peixe.
“De onde essa gente vemQue eu quero seguir também?Pra onde essa gente vai?Me leva pra onde sai”
Os versos da canção Longe da Bahia, do álbum de Teago Oliveira, exemplificam a aura de magia que paira sobre a terra do axé e dos orixás, sobretudo no que tange ao berço de gêneros e talentos musicais. Criada de forma despretensiosa no verão de 2015, a Flerte Flamingo foi concebida – no que se tornaria uma nova cena cultural independente de Salvador – com uma proposta sonora pautada na espontaneidade das composições de seus integrantes. Apesar da verve originalmente roqueira do grupo, as canções carregam o balanço do samba e de outros ritmos afro-brasileiros, como o ijexá e o samba-reggae. Composta por Leonardo Passovi (guitarra), César Neto (baixo), Rodrigo Santos (teclado), Bernardo Passos (percussão) e Igor Quadros (bateria), e com influências que vão de Arctic Monkeys a Jorge Ben Jor, a banda faz música brasileira com elementos do indie, samba-rock e pop contemporâneo. Com uma pegada regional, ilustrada pela percussão sempre marcante, as canções são basicamente pautadas na temática amorosa e experiências pessoais. Produzido pelo músico Junix11 (Baiana System), as cinco faixas autorais de Espero Que Você Entenda (2020), segundo EP da banda, lançado em todas as plataformas de streaming, reverberam a brasilidade das décadas de 60 e 70 a la Jorge Ben, João Donato & cia. A obra imprime a irreverência do projeto, composto por letras “baseadas em fatos reais” e com uma musicalidade nostálgica que às vezes remete à displicência vocal do pernambucano Fred Zero Quatro e seu Mundo Livre S/A. O som reafirma ainda essa espécie de “movimento lírico-poético-estético brasileiro calcado num retorno ao pós-futuro”, como filosofou Pedro Gusavaqui, em sua resenha para o site El Cabong. Seria a tal saudade daquilo que ainda não vivemos?
O suingue de Não Te Quero (o que será que é pior/ser triste com alguém ou ser triste só?/aposto que eu e você/nunca vamos descobrir) abre o disco contrastando com a melancolia de um amor. Se a libertária Curió (minha poesia/não tem mais espaço pra você/e tudo que eu falei já não tem valor/decaixaem caixa aminha vontade/de ser só crescia/derepente bateu asas, se avoou) tem compasso e momentos etéreos que caberiam no repertório de Liniker, a malemolência de Iara (em noite fria/até o santo perde a fé/não tem um acalento/ou algo mais/você não sabe a dor que faz/comer farofa seca sem você, Iara) cede às migalhas de amor imploradas em versos como “quero o pouco que você puder me dar”. O single homônimo Espero Que Você Entenda, responde à velha questão de Diz Que Fui Por Aí, samba de Zé Kéti eternizado na voz de Luiz Melodia. Desta vez o interlocutor do verso “se alguém perguntar por mim” está na companhia de seus discos, livros e filmes prediletos, denunciando o hábito do vocalista Leonardo Passovi em cancelar em cima da hora os compromissos com os amigos. O lamento bilíngue de Triste No.2, encerra o trabalho enfatizando como “vai ser tão bom ter você aqui” e só me faz pensar em amores virtuais geograficamente inviáveis.
Flerte Flamingo/Foto: divulgação
Depois de um dançante EP de estréia – Postura e Água Fresca (2017) –, que teve como carro-chefe o gingado de Ladinho (lembra a intro de Caio No Suingue, de Pedro Luís e a Parede), um dos legados de Espero Que Você Entenda foi trazer, pela primeira vez, músicas interpretadas pelo tecladista Rodrigo Santos e pelo baixista Cesar Neto, apontando certa “democratização vocal” da banda. Criatura do Mal, o single mais recente, composto pós EP, aposta apenas em voz e violão e tem videoclipe estrelado pela dançarina Camila Rotta e direção de Matheus Fractal. Hoje, com dois EPs na bagagem e vários singles lançados, a Flerte Flamingo produz seus próprios eventos – denominados Pasinada – com grupos parceiros que fomentam a cena alternativa soteropolitana. Além disso, os músicos integram o coletivo SOPRO, juntamente com as bandas Colibri, Astralplane e Tangolo Mangos. Seguindo os passos de Maglore e Baiana System, Flerte Flamingo desponta como uma das mais promissoras sonoridades “made in Bahia” desta nova década. Suas performances ao vivo trazem um agradável clima de bailinho proporcionado por trupes como a Orquestra Imperial em seus carnavais (de salão) fora de época. Sejam em passos desengonçados ou de Fred Astaire, Flerte Flamingo convida você a soltar seu corpo na pista. Assim como seus familiares gregários sincronizam sua dança de flerte fatal, não se surpreenda se der match!
Larissa Mendes espera que você entenda sua predileção por analogias.
“Da última vez que nos vimos, você disse que visto daqui, do interior, o céu é mais bonito, de um azul-anil-marinho-royal-bic”. Empresto meus próprios versos de Ciclo Curto para tentar definir as nuances da banda que mistura noite estrelada com literatura de cordel e possui cheiro de terra molhada no atual quintal musical brasileiro. Formada há três anos e meio em Itapeva (SP) e radicada em São Paulo, Varal Estrela é composta por Thaís Rolim (vocal), Rodolfo Braga (guitarra), Lucas Silva (guitarra) e Thalles Macedo (contra-baixo). Lançado no final de 2019 através de uma campanha de financiamento coletivo, o disco de estreia possui influências de MPB, indie e pop. Enquanto a vertente dos músicos sempre foi o rock’n’roll (os rapazes integravam o PBB – Pink Big Balls), Thaís entoava sua voz junto aos batuques de umbanda da Paranambuco, em sua passagem por terras curitibanas. Disponível em todas as plataformas digitais, o álbum homônimo celebra esta mistura sonora de [re]encontro e exalta todos os artistas interioranos.
Casarão, assim como sinaliza um de seus versos, “escancara os seus portões” para adentrarmos em toda pluralidade da Varal. Maria, primeiro single lançado, composição da vocalista Thaís Rolim é uma homenagem à filha de um casal de amigos. Se fosse uma canção de ninar, seria daquelas que faz você querer mudar de nome apenas para tê-la um pouco sua. O pop-rock Guri (desfila seus pés de moleque/sobre calçadas e quintais/por aqui te chamam guri/na pedra ao lado te chamam piá), dueto com Hugo Rafael (Sambô), discorre sobre a infância de várzea de tantos meninos (guris ou piás, como chamamos no sul). Primeira Canção de Amor (você me abraçou/e não houve jeito/meu ninho em seu peito/estava feito) — talvez a mais bela canção do álbum — tece sobre amor e liberdade e atinge o ápice da doçura e potência vocal de Thaís, que lembra o timbre de Elis Regina. A instrumental Um Trem pra Capital tem clipe recém-lançado, gravado em plano-sequência no apartamento dos meninos (Thaís gravou de sua casa) e funcionaria tranquilamente na abertura de uma série de TV, comprovando toda a habilidade dos instrumentistas. A explosiva Furacão (sou o olho do furacão/sou movimento que só vai/sou a lava do vulcão/derretendo e escorrendo/dentro de mim) abre uma espécie de lado B do disco flertando com o maracatu, o que deixaria Mestre Salustiano orgulhoso em seu céu de rabeca. Se as doces Seguir (eu sei/você tentou me avisar/deixou a porta aberta/e foi pra não voltar) e Sem Fim são baladas de [des]amores que transmutam, o rockViagem Astral (aqui nos vemos como somos/sem maquiagens, mentiras ou planos/expandindo nossa consciência/fluindo com a correnteza) simplesmente transcende e arrebata. Passarinho (minha raiz é movediça/estou em casa onde for/eu já me acostumei ao movimento/por onde eu passo/sou onda de amor) finaliza o primeiro vôo da Varal Estrela em grande estilo, ao som de samba e ijexá — ritmo nigeriano.
Varal Estrela / Foto: divulgação
A arte deste primeiro compilado de canções foi produzida em xilogravura por J. Borges, outro interiorano — dessa vez de Pernambuco. O artista ilustrou o álbum em consonância com as dez faixas autorais, dialogando com as lendas e histórias que envolvem Itapeva. O momento de quarentena rendeu ao grupo algumas parcerias em composições e projetos, tais como as canções de “MVB” (Música Virtual Brasileira) A Cura (a curva achatada/a porta fechada/a cabeça aberta/e o coração cheio), com participação de Hugo Rafael, Camilo Macedo, Tiago Giovani e Ítalo Riber, e Camarada (a face do futuro te afrontaria/pra te dizer que os fatos/vão tecendo nós), parceria com Lucas Gonçalves (Maglore). Além disso, no canal oficial da banda no YouTube, encontram-se inúmeros episódios do programa Varal Resenha, divertido bate-papo, onde os convidados abordam suas origens e influências musicais. Como frisa o release do álbum: “Distantes de megalópoles e megalomanias, nós, os artistas enraizados à margem, somos resistentes e sonhadores, em essência. Dar asas às produções para migrá-las aos grandes centros representa um esforço quase que aos moldes de Sísifo, no entanto a recompensa por elevar uma pedra até o cume de uma montanha é imensurável. Sim, nós sabemos, certos mitos existem para serem derrubados”. E é com esse entusiasmo que o grupo pretende disseminar suas mensagens, sonhos e saudades. Para isso, em uma noite qualquer, basta aumentar o som, deitar na grama ou no sofá, olhar para o céu ou para o teto. Com as bênçãos de Salú ou de Sísifo, Varal Estrela é uma constelação inteira, é luz que vem de dentro.
Larissa Mendes nasceu no interior catarinense, também tem Mariano nome e ainda se pergunta o que é, o que é.
Uma das tentações mais recorrentes no estudo da obra de um determinado artista é dividi-la em vários períodos. Ainda que de forma controversa e simplificadora, fala-se das fases romântica e realista de Machado de Assis ou dos períodos coloridos e cubistas de Pablo Picasso, para ficar apenas em dois exemplos fáceis.
Quem acompanha o trabalho da banda paulistana O Terno e de seu principal expoente e compositor, o vocalista e multi-instrumentista Tim Bernardes, pode se sentir tomado pela mesma tentação. A banda, que lançou em 2012 seu elogiado álbum de estreia, 66, se notabilizou por um som com tintas neo-psicodélicas, um tanto quanto freak, na melhor acepção do termo.
Em <atrás/além>, o quarto disco do grupo, lançado em abril de 2019, há uma continuidade estética do primeiro voo solo de Bernardes, Recomeçar, de 2017, sem a companhia de seus colegas de banda Guilherme d’Almeida (baixo) e Biel Basile (bateria). Com o artista alcançando uma maior maturidade pessoal e criativa, <atrás/além> segue na procura por caminhos mais lapidados. As composições intimistas e melódicas mostram um Tim Bernardes com um sotaque próprio, típico de cantores-compositores de grande calibre.
O Terno / Foto: divulgação
Há uma grande coesão no álbum, muito em razão do grande zelo nos arranjos, que possuem uma qualidade cinemática, emoldurando os vocais cada vez mais idiossincráticos de Tim. Mesmo o balanço à Jorge Ben de “Bielzinho/Bielzinho” não soa deslocado e carrega alguns dos mesmos elementos de introspecção que permeiam os cinquenta minutos do disco. Aqui cabe destacar o talento de Tim não apenas como compositor, mas também como produtor, já que em <atrás/além> ele é creditado pela primeira vez na história da banda como produtor solo.
Tim Bernardes parece consciente de atravessar um movimento cíclico em sua vida e carreira, e os títulos das canções parecem retratar essa dicotomia: “Atrás/Além”, “Nada/Tudo”, “Profundo/Superficial”, “Passado/Futuro”. Ao se aproximar dos seus 30 anos de idade, Tim se autodiagnostica ao mesmo tempo no final de algo e no começo de outro, como nos versos de “Pegando Leve”: “Dividido, indeciso / Me cansam tantos hipsters e modernos de plantão / Me cansa ser mais um // Acabado, esgotado / Eu já cheguei no fim, recomecei e aqui estou eu / No fim de novo, eu”.
Ao mesmo tempo em que celebra a coletividade em “Nada/Tudo” (“Como é que vai, Vaquinho? Como é que vai, Luiza? / Como é, my brother Charlie? Salve, Tute, salve, Geeza! / Companheiro Bielzinho, porows, peixe, nóis, clubinho / Mari e turma da pesada, não me sinto tão sozinho”) e homenageia o baterista Biel Basile em “Bielzinho/Bielzinho”, O Terno se torna cada vez mais um retrato de Tim. Falta-nos o distanciamento temporal para classificar onde termina o período “Terno” e onde começa o período “Tim”, ainda que eles coexistam nos dois discos mais recentes, o solo do Tim e <atrás/além>. De uma forma ou de outra, sejam quais forem os caminhos futuros, O Terno e Tim Bernardes já se configuram como objeto de estudo obrigatórios na música brasileira dos anos 2010.
Rogério Coutinho é operário museal, podcaster e publicitário de formação, não-praticante. Um homem do interior, em vários sentidos.
Lima Trindade é rock, quadrinhos e literatura. Nascido em Brasília, viveu intensamente os anos oitenta no olho do furacão. Entre o Distrito Federal, o Rio de Janeiro e Salvador, onde mora hoje, construiu uma bagagem sólida de referências, numa triangulação de afetos que transcende a ascendência carioca-baiana. Autor dos livros Supermercado da Solidão (LGE, 2005), Corações Blues e Serpentinas (Artepaubrasil, 2007), Todo Sol mais o espírito Santo (Ateliê Editorial, 2005), Aceitaria Tudo (Mariposa Cartonera, 2015) e O retrato: um pouco de Henry James não faz mal a ninguém (P55, 2014), lançou no ano passado As margens do paraíso (Editora Cepe), romance que apresenta ao leitor um Brasil que se alimentava de sonhos, talvez ingênuos, de grandeza. Nesta entrevista, conversamos sobre influências, paixões, mercado literário e a primeira incursão de Lima Trindade no universo dos quadrinhos, na lendária revista NTC, com um conto e um roteiro inéditos, que devem ser lançados em 2021.
Foto: Marcelo Frazão
DA – Quando o Lima Trindade que sonhava em ser desenhista descobriu a literatura como modo de expressão?
LIMA TRINDADE – A expressão literária chegou tarde. Talvez o grande estímulo tenha ocorrido quando assisti ao filme “Sociedade dos poetas mortos” aos 23 anos de idade. Eu me identifiquei muito com a personagem do Ethan Hawke, um cara extremamente tímido e que se sentia deslocado em ambientes formais. Todo aquele lance do “Carpe Diem”, a mistura de Horácio com os transcendentalistas americanos e a busca por uma existência autêntica fizeram minha cabeça. De vez em quando, rabiscava umas frases sem sentido nos intervalos das aulas da faculdade. Era uma coisa quase mediúnica. Eu não censurava nada. Apenas, deixava fluir. Não havia burilamento. Escrevia nas margens do papel timbrado, nas últimas folhas dos cadernos, no lado interno das capas. Escrevia e dava por acabado, sequer voltava a ler. Havia uma amiga na sala de aula, a Rosana Garutti, que adorava pegar meus cadernos e ler esses fragmentos. Dizia que achava bonito, que eu deveria escrever poemas ou letras de música. Aconteceu, então, de eu me deparar com o livro “Walt Whitman, a formação do poeta”, do Stefan Zweig. Eu fiquei fascinado com a descrição da maneira como o grande bardo norte-americano construiu e moldou sua vida por uma perspectiva puramente artística, tendo influenciado até o Wilde. Passei a estudar e exercitar versificação, trabalhando para dominar a forma e me sentir seguro para compor um poema inteiro. No começo dos anos 90, conheci os poetas Andrei Morais e Sandro Ornelas. Juntos, lançamos um folhetim poético chamado Huguy Rupi. O Andrei se desligou do projeto quando ainda imprimíamos os primeiros exemplares, rodados na gráfica do Correio Braziliense. Eu e Sandro percorríamos os bares da Asa Sul e Norte para vender e pagar o Huguy Rupi. Era uma grande aventura. Conhecemos os mais diversos poetas nessas andanças: do marginal beatnik ao parnasiano erudito. Infelizmente, a publicação só duraria dois números. Sandro, que tinha ido a Brasília para estudar, concluiu seu curso na universidade e retornou para sua casa em Salvador. Eu não quis tocar o jornal sozinho. Por volta de 1996, reuni uma quantidade significativa de poemas meus com o objetivo de montar um livro. Durante a preparação do original, reavaliei o material cuidadosamente, percebendo, com tristeza, que ele carecia de um acento particular, que sua publicação nada acrescentaria à história da literatura. Faltava-me originalidade. Eu me expressava literariamente, mas não com a potência que eu gostaria. Desse modo, desisti de escrever versos. Havia um amigo no trabalho que insistia muito para que eu escrevesse uma história de amor vivida por ele. Eu nunca experimentara a prosa de ficção, mas resolvi atender o seu pedido. Contudo, em vez de narrar a história que ele tanto desejava, enveredei por outro caminho e escrevi o conto “A meia-sola do sapato”, inspirado num episódio real de sua infância. Esse trabalho, que era meu primeiro no gênero, me valeu uma menção honrosa no Concurso de Contos Paulo Leminski em Porto Alegre. Deu-me também disposição para experimentar novas possibilidades de narrativas e pontos de vistas.
DA – Há um momento no qual essa vocação tenha ficado perfeitamente nítida para você? Uma espécie de marco, de ponto de virada.
LIMA TRINDADE – Sim. No dia do lançamento do “Todo Sol mais o Espírito Santo”, no Rio de Janeiro. Como todo ansioso, cheguei ao evento, que aconteceria no Centro Cultural dos Correios, algumas horas antes do previsto. Estava tudo muito bonito e organizado. Eu não tinha muito o que fazer. A não ser, esperar. Desse modo, resolvi dar uma volta. Chegando na Rio Branco, encontrei a Leonardo Da Vinci, que eu sempre ouvira os amigos falarem ser uma livraria fantástica e dona de um acervo de muita qualidade. Fiquei todo animado com a possibilidade de encontrar alguns títulos e autores que não achava em Salvador. Logo na entrada, tomei um susto. Vi o meu livro exposto em destaque. Ao lado, escritores como Truman Capote, Clarice Lispector, Reinaldo Arenas, Gabriel García-Márquez, Caio Fernando Abreu etc. Foi uma emoção sem igual. Ali, eu tive a consciência de estar verdadeiramente inserido no jogo. Até então, nos lançamentos em São Paulo e Brasília, eu me sentia como se estivesse anestesiado, como se nada daquilo fosse real.
DA – Como foi a adaptação do brasiliense, que orbitava o boom do rock BR, ao universo dominado pela cultura do axé?
LIMA TRINDADE – Não houve conflito. Sou filho de baiana e carioca. Meu pai e minha mãe se separaram relativamente cedo. Quando eu tinha quatro anos de idade, meu pai foi trabalhar em Manaus, por conta das oportunidades surgidas com a zona franca. Alguns anos depois, retornou, mas os dois não se entenderam e ele partiu novamente. Nós, meu pai e eu, só fomos desenvolver maior proximidade no começo de minha adolescência. O resultado disso é que passei boa parte da minha infância sendo criado por uma mãe, avó e tia baianas. Não sei distinguir o que é brasiliense e o que é baiano em mim. Sem falar que, em matéria de cultura, nunca fui purista. Eu mergulhei no rock de minha geração, mas, ao mesmo tempo, gostava de ouvir Caymmi e Noel Rosa. Ou Villa-Lobos. O que apreciava no rock dos anos 80 era justamente sua rebeldia, sua não aceitação das regras, sua inteligência. Vim para Salvador em 2002. Eu tinha muito preconceito em relação ao axé, botava É o Tcham e Olodum no mesmo saco, entende? Ficava irritado pelo fato de as rádios de Brasília não tocarem mais músicas de rock e cederem quase todo o espaço para o “axé”. Eu sabia que se tratava de grana, que o rock tinha sido uma moda do mesmo jeito que o axé era naquele momento, mas não me conformava. Somente morando na Bahia é que fui compreender o quanto a classificação “axé” era limitada, preguiçosa e excludente. Não dá para dizer que Gerônimo, Lazzo Matumbi, Ilê Ayê, Netinho, Chiclete com Banana e Harmonia do Samba são parte de um mesmo movimento, têm as mesmas identificações estéticas e interesses artísticos. É algo absurdo. Por outro lado, eu já conhecia e admirava a produção roqueira baiana quando ainda estava em Brasília. Foi uma alegria grande conhecer pessoalmente os músicos da Brincando de Deus e da Dead Billies, por exemplo. Salvador é uma cidade muito diversa, rica de possibilidades e encantamentos. Os amigos que fiz aqui estão longe dos estereótipos de baianidade propagados pela mídia. Viver em Salvador não foi uma decisão motivada por falta de perspectivas. Foi uma eleição, uma escolha.
DA – Um aspecto marcante de sua personalidade é a aproximação com o universo dos quadrinhos e do rock. Essas referências influenciam a sua produção literária?
LIMA TRINDADE – Totalmente. Os dois gêneros decodificaram o mundo para mim e nutriram minha capacidade criativa. Por causa deles, atravessei oceanos, vivi momentos únicos na história da humanidade e me senti menos solitário. Minha sensibilidade se cunhou muito a partir das histórias que li e músicas que ouvi. Pela escrita, eu “desenho”. Assim como trabalho os sons numa frase de um conto, estabeleço certos climas para cenas e, digamos, me deixo dominar por uma estilística roqueira, uma trilha sonora interna que dá ritmo e cadência ao texto e me embala.
DA – No caso específico dos quadrinhos, tem acompanhado a produção contemporânea brasileira e baiana?
LIMA TRINDADE – Eu tento. Porém, meu método de leitura é caótico, não obedece a nenhuma cronologia. Não me preocupo em estar atualizado com os lançamentos. Meu único compromisso é com a qualidade. Quando recebo dicas de um trabalho legal, seja pela mídia especializada ou por amigos, corro atrás. Tem gente que se satisfaz com quadrinhos bem desenhados e roteiros inconsistentes. Ou o contrário, grandes textos e traços ruins. Para mim, a coisa só funciona se os dois aspectos forem bons. No Brasil, sou fã da Laerte, do Allan Alex, André Dahmer, Davi Calil, Lourenço Mutarelli e Rafael Corrêa. O Marcelo D’Salete é obrigatório. Gosto muito do Wagner William também. Já entre os baianos, o Marcelo Lima, com os roteiros, mais o Dan Borges e a Lila Cruz, com a arte, são três nomes expressivos. Há ainda iniciativas de coletâneas muito legais feito a Máquina Zero, da Quadro a Quadro, que é uma editora baiana, e a Bang Bang, da Devir, de Sampa.
Foto: Marcelo Frazão
DA – Há alguma incursão nesse universo na gaveta ou na cabeça, em roteiros para HQ, por exemplo?
LIMA TRINDADE – Recebi um convite do Allan Alex para participar de um projeto superbonito, a revista NCT, uma singela homenagem a um gênero que abrigou diversos artistas nacionais de grande talento: os quadrinhos de terror. Quem tem mais de quarenta anos talvez se lembre das revistas Spektro, Pesadelo e Calafrio, que eram vendidas em bancas, e de nomes como Flavio Colin, Julio Shimamoto, Watson Portela, Rubens Cordeiro e Mozart Couto. Para a NCT, escrevi um conto exclusivo e preparei um roteiro de 6 páginas, que está nas mãos do Dan Borges. Se tudo der certo, em 2021 a revista estará em circulação.
DA – Vivemos hoje o que alguns classificam como um pandemônio, mescla da situação política, que nos lançou em um cenário de violência e insegurança institucional, e dos efeitos devastadores da pandemia do Covid-19. Nesse contexto, sendo um escritor brasileiro, brasiliense-baiano, como avalia as perspectivas do mercado literário, no que tange à criação, produção editorial e circulação de livros?
LIMA TRINDADE – O interesse por literatura e arte, seja ela qual for, nunca deixará de existir. É vital no ser humano. Não se trata em absoluto do impacto reflexivo que ela nos proporciona, o que não seria pouco, pois isso as ciências exatas também fazem, mas sua importância se dá numa espécie de refinamento de nossas emoções, na possibilidade de oferecer uma troca de experiências e nos conectarmos com nós mesmos e com os outros num nível mais profundo. Recordemos que a humanidade já passou por desafios ainda maiores que essa pandemia. E, fosse na quebra da bolsa dos EUA em 1929, num Japão destruído do pós-guerra ou a vida num regime ditatorial no Brasil em que, para piorar, havia um índice de inflação altíssimo, as pessoas não deixaram de adquirir e ler livros, ouvir músicas, participar de exposições ou espetáculos de dança. Penso que nessas situações limites a necessidade de aproximação com o universo artístico se torna ainda mais forte. No âmbito da criação, há quem acredite, inclusive, serem esses momentos mais férteis. Quanto ao mercado editorial em si, a produção e circulação de bens adaptar-se-ão às novas realidades, sejam elas quais forem. Pode ser que a mudança do suporte físico para o virtual, no caso da literatura, avance mais. Pode ser que o crescimento se dê mais apenas na forma de aquisição, os leitores comprando livros de papel pela internet. Ou, ainda, pode ser que as consequências não sejam tão amplas e tudo volte a ser exatamente como era antes.
DA – Seu livro mais recente, “As margens do paraíso”, debruça-se sobre um país literalmente em construção. Logicamente, há vários caminhos narrativos para contar a história de Brasília. O que o fez escolher um formato não exatamente linear?
LIMA TRINDADE – A história de Brasília se confunde com a história do Brasil e se confunde também com as histórias de todas as pessoas que viveram o período. No entanto, o livro foi escrito hoje e meu objetivo ao realizá-lo não foi o de suprir lacunas históricas ou fazer sociologia. O romance traz uma realidade completa que se fecha nela mesma e se presta a múltiplas leituras e interpretações. Quando lemos o Quixote ou Hamlet pouco importa o período “real” em que a personagem vive, mas, sim, a vivência de uma gama de emoções colocadas em cena por meio de uma linguagem igualmente viva. A linearidade ou a não-linearidade tem de atender à capacidade do autor expressar melhor os problemas, questões e temas escolhidos para trabalhar. No caso do As margens do paraíso, esse “em construção” já dá uma tônica da complexidade do caminho. A linearidade isolaria e simplificaria as vidas de Leda, Rubem e Zaqueu, personagens também “em construção”, coisa que eu não desejava. Eu não quis facilitar nada para quem lê. Acredito na inteligência de meus leitores e leitoras.
DA – Como se deu a opção por três pontos de vista, em processos individuais, na composição de seu romance?
LIMA TRINDADE – Ao escolher a margem como perspectiva, eu decidi não colocar as personagens à margem, entende? E não dava para problematizar o centro acreditando em limites únicos, restringindo o seu ser e estar no mundo numa única voz. Seria contraditório. Essa era uma história que, a meu ver, um único narrador a empobreceria. As sutilezas das diferenças e aproximações dos três narradores se perderiam, a visão do todo ficaria embaçada e não duvidaríamos se o que a personagem diz é uma manipulação ou se o fato narrado acontece “verdadeiramente”.
DA – “As margens do paraíso” é um dos poucos romances contemporâneos que abordam a construção da capital federal do ponto de vista dos candangos e dos primeiros habitantes de uma cidade planejada. O que, a seu ver, provoca o desinteresse temático por esses personagens tão característicos quanto interessantes e históricos?
LIMA TRINDADE – Não sei. É algo que nunca me ocorreu. Talvez não haja desinteresse. Talvez a razão resida no fato de a cidade ser extremamente jovem e seu passado recente pareça um presente sem enigma algum a ser decifrado por quem a vive hoje. Jorge Amado retratou uma Bahia em processo de transformação, a passagem do estágio agrário para a industrialização, que poucos se detiveram com idêntica acuidade. Ou será que uma parcela grande de escritores enfrentou o tema, porém sem despertar a mesma atenção do público e alcançar os mesmos resultados literários que Jorge? É possível que haja uma literatura submersa dos candangos e primeiros habitantes da capital federal e nós não saibamos.
Kátia Borges é autora dos livros “De volta à caixa de abelhas” (As letras da Bahia, 2002), “Uma balada para Janis” (P55, 2009), “Ticket Zen” (Escrituras, 2010), “Escorpião Amarelo” (P55, 2012), “São Selvagem” (P55, 2014) e “O exercício da distração” (Penalux, 2017). Tem poemas incluídos nas coletâneas “Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000” (Global, 2009), “Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia” (Éditions Lanore, 2012), “Autores Baianos, um Panorama” (P55, 2013) e na “Mini-Anthology of Brazilian Poetry” (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).