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92ª Leva - 06/2014 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

BOOGARINS – AS PLANTAS QUE CURAM

 

No dicionário, o termo lisérgico remonta a algo que tem a propriedade de alucinar ou explorar os recursos da imaginação. Da mesma forma, poderia ser aquilo que se torna passível de descortinar outros estágios da consciência. Com isso, cenários alternativos se configuram rompendo a barreira da materialidade e sugerindo ambientes nos quais o ato de transcender é uma das principais vias de percepção.

Em meio ao contexto do rock, a atitude lisérgica sempre esteve relacionada à capacidade de se percorrer outras terras através da música. A possibilidade de experimentar níveis diferenciados de entendimento das coisas marcou toda uma geração e até hoje vem deixando seu legado vivo. No caso da banda Boogarins, esse sentido de permanência fica bem evidente. Munidos por arranjos e letras que apontam para um caminho amplamente psicodélico, essa trupe de artistas goianos aposta vigorosamente na densidade de suas incursões sonoras.

É só colocar o disco para tocar que logo nos deparamos com um cartão de visitas bem representativo do espírito da banda. Trata-se de Lucifernandes, canção que evoca a transformação de uma visão pessoal de mundo para uma fase de clareamento das ideias. Por aí, já se pode supor o que está por vir na sequência das faixas. E o fluxo segue preciso até Erre, verdadeira viagem ao centro do eu, num movimento de revelações que atestam que a existência nem sempre nos direciona boas notícias.

Da combinação de verbos e arranjos, resulta um agregado de sentimentos que não se dispõem de forma desordenada. Pelo contrário, As plantas que curam pode ser visto como uma tentativa de dar algum sentido ao caos que assoma nossos dias. Esse movimento de sensações parte primeiramente das esferas íntimas do ser para depois se amalgamar ao mundo que nos desafia com seus vastos contrastes.

Boogarins / Foto: divulgação

 

Algumas influências são bem perceptíveis no álbum. Sem dúvida alguma, paira no ar uma atmosfera que ressoa tanto a Beatles quanto a Mutantes. E isso fica apenas no terreno das inspirações mesmo, pois a Boogarins consolida sua própria personalidade, reprocessando os estímulos valiosos e transformando-os na sua genuína forma de ver o mundo e imaginar-se além dele. Como toda boa viagem pressupõe algum sentido de brevidade, não poderia ser diferente com o disco. Afinal, são apenas seis faixas que, após consumadas, nos deixam com a impressão de que as palavras não se diluem na exiguidade temporal da vida.

Mesmo com o meteórico repertório, o álbum é feliz pela sua fundamental capacidade de síntese. Com letras que trazem o colossal desafio de dar significado a percepções diversas, aos poucos vamos sentindo que o efeito do disco é contínuo, ou seja, mesmo que os sons encerrem seu trajeto, as canções têm um poder de permanecer na mente de quem as escuta e lá causarem desdobramentos.

Formada por Fernando Almeida Filho (voz e guitarra), Benke Ferraz (guitarra e voz), Raphael Vaz (baixo) e Hans Castro (bateria), a Boogarins também navega por mares filosóficos no teor inteiramente autoral de suas composições. Exemplo disso está na faixa Infinu, a qual denota uma vontade de também abraçar o universo das coisas com o ímpeto de desfrutar de tudo em doses terapêuticas, sem freios morais nem tampouco juízos pré-concebidos. O grupo investe pesado na incursão pelos sentidos, celebrando uma harmonização entre corpo e alma, e enaltecendo um exercício de transcendência.

Curiosamente, a banda é mais conhecida fora do que dentro do país e sua agenda de shows por lugares como os Estados Unidos e a Europa é algo intensa. No entanto, não cabe aqui lamentar por ainda haver um espaço discreto de atuação da Boogarins em seu próprio habitat, mas sim levar em consideração que isso, mais cedo ou mais tarde, deverá acontecer. Afinal de contas, quem tem algo tenaz a dizer afugenta sabiamente o esquecimento.

 

 

 

 

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89ª Leva - 03/2014 Gramofone

Gramofone

Por Rogério Coutinho

 

ARNALDO BAPTISTA – SHINING ALONE  (AO VIVO  1981)

 

 

Em 1981, o ex-Mutante Arnaldo Baptista realmente andava só, mas não se pode dizer que ele brilhava tanto assim para os olhos do grande público, que ignorava suas andanças e incursões musicais por aí. Após gravar o seminal Lóki em 1974 (disco que passou em branco na época e que a partir dos anos 90 viraria objeto de culto) e montar a banda Patrulha do Espaço, que bateria ponto no underground paulistano durante os anos 80 mesmo sem seu fundador, Arnaldo tentou uma reciclagem pessoal e profissional no Rio de Janeiro. Durante sua temporada carioca, tocou com os então iniciantes – e desconhecidos – Lulu Santos e Lobão, e gravou com gente como Walter Franco e Guilherme Arantes.

Essas experiências não trouxeram para Arnaldo seu reencontro com as plateias que lotavam ginásios na fase áurea dos Mutantes, mas ajudaram a gestar parte de seu mito e culminaram no seu retorno a São Paulo, onde foi registrada uma de suas apresentações solitárias no Teatro da (Pontifícia) Universidade Católica de São Paulo, o TUCA, que finalmente vieram a público – oficialmente – no final de 2013, no álbum digital Shining Alone.

Munido apenas de um piano elétrico, de um simulacro de órgão Hammond (“coisa de americano”) e de um violão (“o que rima com violão? Tesão…”), é um Arnaldo em estado bruto, despido de qualquer produção ou dos experimentalismos da sua época mutante ou mesmo do hard rock da Patrulha do Espaço. Surge aqui o Arnaldo motociclista (Ai Garupa, que seria regravada no álbum Let It Bed, mais de vinte anos depois), remanescente de sua viagem até o Panamá, a bordo de uma BMW 1951, e o caronista na Europa (Sentado ao Lado da Estrada). Voltando mais ainda no tempo, há o garoto que teve aulas de piano clássico com a mãe, concertista, que não tem o menor constrangimento de tocar a Marcha Turca de Mozart ou um movimento dos Concertos de Brandeburgo de Bach em um suposto show de rock.

 

Arnaldo Baptista / Foto: Grace Lagoa

 

Vai de Mozart e Bach a Bob Dylan (Don’t Think Twice, It’s Allright – onde comete a molecagem de responder o trecho da letra que diz “it ain’t no use in callin’ out my name” com um “Arnaldo!”) e Rolling Stones (Honky Tonk Women), passando por standards norte-americanos como Cry Me A River, curiosamente gravado por sua ex-parceira Rita Lee em seu Bossa’n‘roll de 1991. Rita, aliás, também é lembrada numa versão comovente de Ovelha Negra, como se não bastasse ela ter sido a destinatária de canções como Te Amo Podes Crer. Todo esse caleidoscópio musical estranhamente nada tem do repertório dos Mutantes, exceto a engavetada O A e o Z (“uma marcha guerreira”), aqui em versão instrumental e abreviada, que só viria a público nos anos 90.

Em que pese seu notório sofrimento e a insalubridade do ambiente musical que Arnaldo vivia naquele final dos anos 70 e começo dos 80, pré-explosão do rock brasileiro, fica aqui um registro imprescindível da melhor fase artística do mutante, fundamental para conhecer não só o artista, mas o homem. No caso de Arnaldo Baptista, essa distinção praticamente não existe, sendo alguém que fundiu sua história com sua arte até as últimas consequências (e pagando um preço alto por isso), como raras vezes se vê.

 

 

Rogério Coutinho é malandro velho e não se mete no enguiço.