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147ª Leva - 02/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Clarissa Macedo

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Rejeição

 

Teu olhar ginecológico
habita o meu aquário
de usuras e medos.

Profissional, asséptico e vidrado
o deslocar dos teus olhos
ofende o meu útero,
cansado da espera.

Enquanto me curo da tua ausência
da tua face clínica e distante,
que jamais arranca o chamado do meu apelo,
bordo a falsa flor,
laureada de armadilha,
clandestina
como a agulha que não soube usar
e que espetei na casa mais alta do teu coração.

 

 

 

***

 

 

 

Surpresa

 

Não fui a garota que todos esperavam
[porque a mim nada foi creditado]
— “Será igual ao pai”, diziam
[aquele que me foi(-se) tirado].
Não fui a boa menina,
mas uma paisagem caricaturada:
por fora, o avesso, a penúria, uma linguagem muda
por dentro, um cacto de selênio e violência.

(Uma poesia autoafirmativa como esta não pode valer a pena).

Uma menina, inesperada;
uma mulher, horizonte irrecuperável.

 

 

 

***

 

 

 

Endereço

 

Minha casa é uma ilha
Um mar que secou há tanto
Onde os pássaros bebem a bile dos meus sonhos.

 

 

 

***

 

 

 

Cenáculo

 

para Lílian Almeida

 

Ao pé das Oliveiras,
um alaúde queimava
e ele via as cordas.

Sob a árvore do deserto,
uma lágrima de pudor
e a fuga ao coração do incerto.

Judas, o mais amado,
sem prata, um sopro,
um engano à mercê
do medo –
do Senhor, um olho.

 

 

 

***

 

 

 

Perpétuo

 

Uma encosta
um leme de celas
que sobrevive
à interrupção do tempo.

Um salário de medos
veste a carapaça,
tigre de oito metros.

No infinito,
um relógio esquivo permanece.
Na intermitência,
o cortejo dos solos que deixaram
dos deuses que temeram.

 

 

 

***

 

 

 

Espículo

 

Onde eu estava?
Quem era quando, desavisada,
olhava de longe o percurso dos anos?

Todos sabem da morte,
e dizem dela com intimidade.

Hoje eu a topo de frente,
como um cão olha a tarde
como um pássaro que, sísmico,
pousa nas remotas asas.

 

 

 

***

 

 

 

Do abrupto

 

Molhar as plantas
Comprar sabão
Depenar as frutas
Saudar os óculos
Amarrar sapatos
Limpar os poros
Minha mãe é morta.

 

Clarissa Macedo (Salvador – BA), doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, agente cultural, pesquisadora e professora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e exterior. Integra coletâneas, revistas, blogs e sites. Publicou “O trem vermelho que partiu das cinzas”, “Na pata do cavalo há sete abismos” (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia; traduzido ao espanhol), “O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição” e “A casa mais alta do teu coração” (Prêmio Biblioteca Digital do Paraná). É a idealizadora do “Encontro de Autoras Baianas” e do “Sarau Cartografias”.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Clarissa Macedo

 

Pintura: Canato

 

Desconhecida

 

As utopias acabaram
em nome da televisão,
um erro feito
pelo preço do petróleo

Eu te amo, tu me amas
e o verbo já não pode mar

Em nome de Cristo
muitas guerras foram dadas
em nome da dívida
uma tristeza no tronco do país.

Todos os mestres morreram
e na tua carne se desenha
traços que inauguram um título
baralho aberto no avesso da palavra,
asa feita de corpo e de coragem

O mundo agora
cruza um lago sem memória
e em alguns anos
estaremos mais pobres
mais burros
mais tristes
na alma e no prato (    )

Cresce um rasgo
em massa e sem história
na palavra-passe chamada pátria –
essa nódoa, essa traça
esse vazio imenso do nome
no mito de um tempo chamado aflição.

 

 

 

***

 

 

 

Faísca 

 

Ontem havia esperança
toda a esperança do mundo.
Hoje sou um estilhaço
um catálogo de dúvidas
e desejo.

Os pássaros não voam mais
e o dia que nasce
é o luto ordinário, grave,
posto sobre a mesa.

A boca diz o que o coração fala
e a dor é antiga:
chega, se instala
abre ocos na aorta, devagar,
para o aprendizado –
………………………………………do enigma

……………………………………….. da sutura
……………………………………………………..da ferida
……………………………………………………………………..da beleza.

Os fracassos… saúdam uns aos outros;
o que fica é o peso
a humilhação calcada nos olhos.

Digam que perdi:
que faltei às classes de empreendedorismo
e visitei às de angústia e miséria;
que não vou ao shopping
que rasguei os papéis e os comi.

Digam que perdi tudo:
a fé, o sonho, o dinheiro que não sobra

mas amo como se fosse eu o país
essa cavidade aberta
exposta, sangrando até a morte.

 

 

 

***

 

 

 

Versículo

 

1º Evangelho do Capital, 1, 1º. não derramarás coca-cola
em vão: / tomarás todo o néctar da garrafa não-reciclável;
/ não catarás os meninos e suas tampilhas, / ao risco de
ser apedrejado / ante a primeira vitrine; / patrocínio do
produto cuja etiqueta cobre o líquido do tiro perfurado.

 

 

 

***

 

 

 

Carnê

 

logo cedo a caminho do trabalho
olho a lista de coisas pregada na geladeira de 10 prestações
……………………………………………………………………………..[que não foram pagas
a mesma que congela ovos e óvulos da casa
a mesma que assiste na tv a cidadã que reza,
corta e mata em nome da moral etc. e tal
e que aparece no outdoor da cidade – esse espelho de
………………………………………………………………………….[simulacros;
geladeira que congela, escorre,
que não refresca a água da casa onde vive quem uiva sem
[presas a lista de coisas e a violência no coração seco do mundo

 

 

 

***

 

 

 

Arado

 

Nesta contrição feita de nuvem
o seixo que a conforma
é um sortilégio de canções
um sem fim que aflora
e deita à fera
um fio de água
que dos olhos brota

; assim entra no limbo
deixando fora as contas,
o salário baixo, a feira pobre
e até mesmo a nação
– esta que dói
por sangrar o cofre
deixando a nu os que plantam
e não colhem.

 

 

 

***

 

 

 

Rito

 

Sou uma tripa de pedras
que se escoam na ciclovia
das aves a morder o tempo
e seu desvão de tic-tacs

uma esfinge que choraminga
sem oráculo e sem os cactos
que não dormem;

tudo o que vive
é esta parede sem reboco
que observa, vigilante,
a goteira da sala
e se confunde com meu choro
a tomar as unhas, os canos
o cimento da massa;

quatro cantos
e os signos do calvário.

 

 

 

***

 

 

 

Certidão

 

Se pudesse
arrancaria meus nomes
um a um
para desbaratar
a lápide que me cobriu
na vida.

 

Clarissa Macedo (Salvador – BA), licenciada em Letras Vernáculas, mestra em Literatura e doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora. É autora da plaquete O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra – 2014) e do livro Na pata do cavalo há sete abismos (7Letras – Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia – 2014, em segunda edição pela Penalux, 2017 – 3ª reimpressão, 2019), ambos de poesia. Entende a literatura como ferramenta para um mundo melhor.

 

 

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113ª Leva - 07/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Clarissa Macedo

 

Rety Ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

Alguma coisa de fé

 

Eu não tenho religião
(senão a poesia que me leva aos céus)
mas tremo com os sinos
que uivam badaladas
em todo dorso de tarde.

Eu não tenho religião
embora acolha a pompa dos templos
na solidão de algum dilema.

Eu, que não tenho religião,
me sacralizo
com os guizos do tempo
e me purifico
com a ausência de um deus feito de homem.

 

 
***

 

 
Oásis

 

O deserto é uma janela aberta:
o que escapa de seus camelos,
forjados n’água de vapor e sal,
é o calcanhar de todos os desejos.

Nas areias feitas de mistério
conta-se de terras que jamais fui.
Lá, os fantasmas de meu rio seco.

 

 
***

 

 
Aceno

 

Lâmina afiada
dobrada no peito

Fenda aberta
onde escapam
deuses

Lua que derrama
um deserto
de agulhas

Chamas que queimam
estrelas

Tudo reunido:
a dor do adeus.

 

 
***

 

 
Aborto

 

As redes lançadas não trouxeram peixes
Tragaram luzes e pomos abandonados.

Os peixes que não vieram estão mortos
Como o poema que acaba de nascer.

 

 
***

 

 
Fenda

 

Há tempo o menino ficou lá fora.
Espera, espreita a barra da porta,
mas já não pode passar.

Todos os longos anos de preparo –
escola, dentista, boxe –
e a busca pelos jogos de montar,
pelo seio roído da mãe que já foi.

Uma vida de busca e solidão,
a passagem do peito fechada:

só o túmulo aberto da infância.

 

 
***

 

 

Irmandade

 

Qual a cor do teu drama?
Quantos lares saem de teus cabelos?

Com quantos homens se reparte
o último fio de desespero?

Em tempos de paixão e fome
os credos são maiores que as roupas
os voos maiores que as asas.

 

Clarissa Macedo, doutoranda em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e fora do país, integrando diversas coletâneas, revistas, blogues e sites. Publicou “O trem vermelho que partiu das cinzas” e “Na pata do cavalo há sete abismos” (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014).

 

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104ª Leva - 07/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Clarissa Macedo

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

SETE ABISMOS

 

A alma relincha
na estrebaria.

Macho de cavalo
que galopa trovas
do pensamento,
engole as águas
de pasto e de feno.

Há terror nos ventos
do cavalo magoado,
que perdido rompe,
alado, as trincheiras
e cai como anjo
de tormento.

Há éguas rondando
pratos de esquecimento.

Há rodas e correias
na carruagem violenta.

Naquela crina
de ferraduras negras
um cavalo
de patas ralas:

Os sete abismos da vida.

 

 
***

 

 

DA INVENÇÃO DA VIDA

 
Do mar que se inventa
emerge uma rocha.

Do que se inventou fora disso
há rumores de um tempo
há cavalos de água
que nunca pude galopar
heróis de alga
que nunca me salvaram.

 

 
***

 

 

FÁBULA

 
No teu aprisco imenso
sempre houve uma ovelha
pequena, cinzenta, desajeitada

aquela que frente ao cajado,
ao latido do cão também imenso,
fugia e não se guiava

aquela que diante do espelho d’água
não cria na imagem que se revelava
nem na eternidade de que ouvia

aquela que nua, de lã cortada,
sussurrava cantos às irmãs.

Uma ovelha: tal qual tantos bodes.

 

 

 
***

 

 

 
SEGREDO

 
Pouco sente o ruído das sombras
ou a linguagem dos pássaros.

A língua é matéria adiada
assim como a morte
é a queda dos que divagam

o velho magro adotado
penetra na mesma terra
em que heróis choraram.

Segue a vida: sutil perenidade
mesmo timbre, mesmo lamento.

E o firmamento que nos cobre
não ouve a língua das sombras
ou o ruído da morte.

 

 
***

 

 

UMBILICAL

 
As casas que me habitaram
nunca disseram adeus.

No meu corpo de desenganos
cada madeira, cada farpa.

Entre o menino que se foi
e o homem que não chegara,
impõe-se cada cômodo…
alguns sonhos, ambas fraquezas.

Às vezes penso que quem
me pariu não foi a mãe ida,
mas o concreto com frestas
que iluminou planos de pipas,
minha última barba.

A casa que agora me vive
é um cubículo, um palácio
de pedras agras.

 

 

 

***

 

 

CONCERTO PARA CAVALOS

 
Despidos de crinas que não se reconhecem
Cravados de marcas de ferro
Fugidos pela palha que nega o que desejam
Mortos pelas pirâmides que migraram
Surdos pela sinfonia que não se nomeia
Loucos de manadas de dragões que cospem estrelas
Vivos pelas correntes que berram astros
… assim são os cavalos do concerto do meu coração
crianças que preparam o primeiro verso,
feras que não se sujeitam.

 

 

***

 

 
LANCINANTE

 
Guardados os tentáculos
o que aflora no orvalho
são os males indivisíveis,
cicatrizes não costuradas.

O que tumultua a partida
é o horário errado, um
relógio de ponteiros gastos.

Lançadas as sombras no lixo
guarda-se para a próxima coragem
um depois que não virá.

 

Clarissa Macedo nasceu em Salvador e vive em Feira de Santana, Bahia. É licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014). Sua poesia está sendo traduzida para o espanhol. Os poemas aqui publicados fazem parte do mais novo livro da autora, “Na pata do cavalo há sete abismos” (Ed. 7 Letras).