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153ª Leva - 01/2024 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Neuzamaria Kerner

 

Arte: Zô

 

PEQUENO CONTO DE UMA GRANDE DOR

 

Sofrimentos do dia a dia.

Acordou bem, mas de repente se perguntou: hoje eu vou sofrer pelo quê? – O dia me trará a resposta. No trabalho desfilavam pessoas em busca de soluções para os problemas com o fisco. Aproveitavam e contavam suas desditas. Na cabeça do moço uma luz sombreada se acendia. Eis um sofrimento para me agarrar a ele. Em seguida, a moça confusa passava mensagem exigindo atenção e cobrando promessas acumuladas. Se colava ao coração mais um sofrer. Ia para o banheiro e vertia água desde os olhos no  vaso branco que recebe todas as águas e mais. O moço sofria num gozo estranho as dores que vinham de fora. Não era bom, mas sofria neste prazer. Mais um atendimento e ouvia a mais um derrame de infelicidades que aderiam ao seu peito, muro de lamentações diárias.  O moço mal dava conta do próprio muro e desabava em mais sofrimentos. O que mais tenho hoje para sofrer? Mal acabou de pensar, veio um telefonema sobre  uma separação matrimonial na família. Culpas pra lá e pra cá vindas das partes envolvidas. Um nó na garganta crescia como na dos  condenados no minuto cadafalso. Que pena deles e de mim que somos seres imerecidos de tanta dor!

Em casa, já se pensando longe dos sofreres alheios, um pássaro preso na gaiola vizinha lhe canta a canção de ninar dos viciados em dor.

 

 

***

 

 

CEGO POR QUERER

 

Numa aldeia qualquer na beira de um rio qualquer neste mundão de meu Deus uma criança nasceu cega e assim permaneceu até que, já na adultidade, um médico se compadeu e com mãos hábeis e instrumentos adiantados deu-lhe a visão. Que alegria! Pela primeira vez viu a cor do caqui, os ranhos transparentes na sua polpa. Antes só lhe sabia a maciez e a doçura do mel quando em sua boca deslizavam pela língua e descia para o destino. Viu o matizado de cada flor. Viu como eram as patinhas do seu gato que arranhavam carinhosamente as pernas quando pedia o ninho do colo. Os passarinhos… Ah!… Esses eram a delícia no novo paraíso de ver. Explorava-o com prazer.

A sua aldeia se banhava noite e dia no rio que, como um sino de bronze,  anunciava as horas da vida o tempo inteiro.  Um dia, se distanciando a poucos metros do seu chão,  viu um passante chutar um cachorro que salivava por um pedaço de carne. No mesmo dia viu um homem com a brutalidade dos monstros subjugando uma quase mulher, em seguida matando-a para silenciar seus gritos denunciantes. No mesmo dia, já assombrado com o que via, um homem incendiou o outro que dormia numa calçada. Antes do cair da noite, viu barracos caindo em barrancos, rios envenenados, matas gritando em quedas, bocas de gente babando fomes, almas alienadas, zumbis nas cracolândias, dores-choros-rangendo dentes…

Voltou, apanhou trapos grossos e pretíssimos e fez tufos para ou ouvidos e vendas para os olhos serventes.  Num tamborete sentou-se em silêncio com uma bengala ao lado, caso precisasse se defender do que os olhos cansados pudessem ver, sentir e sofrer.

O sol deu uma risada ardente e cínica. A lua derramou duas lágrimas conformadas.

 

 

***

 

 

O LUGAR DAS MÁSCARAS

 

Olhe, moça, eu já estive neste lugar. Olhe, eu sei o que você sente. Não sei dos seus motivos, mas sei dos caminhos que você trilhou para chegar onde está agora.

Sabe, quando eu conseguia acordar, abria o armário e escolhia a máscara do dia. Colava-a na minha cara e ficava protegido. Às vezes, no meio do dia, eu tinha que voltar correndo para casa porque a máscara que estava usando não mais servia: começava a se derreter com o suor das emoções e tinha que ser substituída mais urgentemente do que todas as urgências do mundo. Se a máscara se despregasse de mim, eu seria visto. O que faria, então?  Ficar nu dentro da vida, na vista dos outros, seria o inferno pegando mais fogo ainda.

Sei onde você está, moça. Creia!

Como eu não podia levar o armário das máscaras nas costas comprei um baú preto, bem chaveado, e o carregava no lombo, rua acima, rua abaixo.

Diziam: – lá vai ele! -. Sim, lá vou eu com o baú nos ombros. E todos completavam: – Oh! – e eu me doía mais e dizia ai… Aonde eu ia levava meu companheiro indesgrudável. Já estava acostumado e parece até que me dava certo prazer. Pesava menos. A gente se acostuma com tudo. De bom e de ruim. Até com a dor que enfeia a gente acha bom.

Olhe, moça, ouça bem o que não me canso de repetir: já estive neste lugar e resolvi desmatar o mundo para encontrar um caminho de volta para um outro onde já estive também.

Encontrei uns anjos pela estrada e, no início do retorno, chutei-os. Eu precisava dessa companhia, mas lutei contra. Não sei explicar. Eles, teimosos, ficaram grudados. Me ensinaram que a vida é sempre o aprendizado pela estrada de volta… Reaprender a função das asas não é lá coisa muito fácil. Não é não. Mas a gente é novo e sempre pode ter tempo de escolher.

Há muito chão para caminhar. Há muito espaço para voar. Há muito tempo ainda… Talvez.

Não sei, moça, se você entende o que falo e digo.

 

 

***

 

 

O SOLDADO, O POETA, OUTROS E EU

 

Todo vestido em roupa macia passava o soldado e me olhava de longe. Todos os dias fazia o mesmo percurso entre o quartel e o meu portão. Demorou pra eu saber que falava. Que voz de trovão virou pontual os meus ouvidos, quando entardecia. Forte, mas não amedrontava. Durante três dias, como reza de promessa, parou diante de minhas ânsias e lábios duros tocaram nos meus. Até hoje não sei se gostei, mas de uma forma que não sei explicar, senti segurança. Num destes amanheceres ele abriu meu portão, pediu emprestados meus pequenos pés e os pôs sobre seus coturnos lustrosos e andou uns dez passos sem me deixar pisar no chão. Gostei daquele novo chão sobre o qual nunca havia caminhado antes. Numa noite, chegou vestido de guerra, tocou meu corpo vestido de alma, trançou meus cabelos com estranha habilidade de força e me fez prometer que aguardaria a sua volta para o destrançamento. Eu quis dizer sim com um beijo na sua testa sempre guardada por um capacete. Nossas alturas eram incompatíveis. Ele alto como um poste de luz. Eu pequena como… O fato é que ele não se curvou para receber meu respeitoso beijo. Meu coração travou naquele momento. Muitas guerras ele travaria, porém sem mim. Decisão aprontada e apontada para o futuro.

Aí apareceu o poeta, suave como um passarinho. Cantava no galho junto ao meu portão. Às seis da manhã começava o ritual de encantamento, incluindo o destrançamento dos meus cabelos, fio por fio, salpicando pequenas pétalas de flores sobre a minha sagrada cabeça – como costumava dizer. Na verdade, a sua pontualidade era feita de acordo com o seu pensar, pois 6 horas da manhã, na cabeça dele, era qualquer hora do dia. Em todas as horas o dia estava sempre nascendo somente para a minha alegria, por isso o seu descontrole não me incomodava. Já me derramava de amores e ânsias. Seus presentes inusitados eram a minha glória. Sua ausência era a minha incompletude. Ele dizia que meus olhos eram o mar transparente onde ele nadava despido; dizia que o fio do meu cabelo era o raio mais brilhante do centro da lua e, como se fosse real o que dizia, depositava esse fio na palma da própria mão e admirava como se um tesouro supremo fosse; em outros dias, depois de sumiços ao dobrar a esquina, chegava esfuziante e me punha no pescoço um pedaço de brisa. Oh, como eu sentia! Um outro presente demorou sete dias pra trazer. Ao chegar me disse que havia ido ao deserto encomendar um xale de areias e que ele próprio tecera com as mulheres das tendas de um oásis. Ele sumiu por sete dias até retornar coberto de saudades. Enquanto cobria-me os ombros com o xale, ia descrevendo cores e sutilezas e fazendo trejeitos de decorador de corpos sobre a minha pele desejante de alegrias. Mas ele gostava muito era de dobrar esquinas para encontrar inspirações para seus presentes. Até que um dia me cansei de tantas esperas e inconstâncias. Não podia prendê-lo e não queria soltá-lo. Ele conhecia o meu êxtase, mas desconhecia a força que morava em mim. Cortei o galho da árvore do meu portão onde acontecia o ritual da sua magia. Quebrei o joelho da esquina. Nada adiantou. O mago havia me enfeitiçado. Recolhi os retalhos das lembranças, guardei os versos e gestos no meu coração e segui sem mar nos olhos, sem fios de luz de lua, sem olhar para outras esquinas onde a qualquer momento ele pode dobrar.

Outros me chamaram a atenção, mas não quiseram construir histórias dentro de mim: Azuis, brancos, pretos, índios, verdes, amarelos, representados por letras, cegos e estropiados, embora não tenham deixado marcas profundas e não tenham morrido no esquecimento. Tempos depois, mal eu me havia recuperado do soldado e do poeta, chegou um verdureiro. Meu Deus, que mãos calosas e unhas de arar a terra! Matava minhas fomes como se fosse a ambrosia dos deuses espelhada nos galhos de acácia amarela. Entendia o Olimpo – assim como me pareceu – como ninguém e me tornava imortal. Emprenhou-me com o branco maná produzido nos seus chãos com gosto de pão e mel. Caí de paixão pelas mãos grossas e sua fortaleza no olhar. Caí de paixão pelas suas descrições pelos tempos de cada semente sufocada na cova de cada dia.

Fui com ele para os longes das terras verdes. Lá conheci o que havia no disfarce de suas mãos bem como o diabo mais fogoso que havia no mais profundo do inferno ardente. Estive no centro do vulcão. Lá aprendi a solidão. No leito o procurava nas madrugadas e nada. Vivi o esquecimento das maltratadas. Eu era a sua terra e sofria com o rastelo, a enxada, a foice, o podão. Ele gostava do cheiro do rabo das cadelas e me fazia cheirar igual para as suas satisfações. Eu me desconhecia e tinha vergonha de mim. Quebrei o espelho do quarto com uma pedra para não me ver. Não podia gritar as dores para que o grito pudesse alcançar algum ouvido, tamanha era a distância entre mim e o mundo. Estava mais invisível do que sombra no fundo do rio. Ele gritava em seus gozos dentro de minha carne rasgada e minha boca tapada. Naqueles meus dias, ele me embebia o rosto com meu próprio mênstruo. Fugi mato afora. Me achou e, na corda, me trouxe de volta. Pensei em morrer, mas eu não merecia este pior. Ainda não era chegada a minha hora. Pensei: pinhão-roxo, mamona, mandioca braba, cobra coral, escorpião… Não sei se deixei pra trás um aleijão morto-vivo ou um homem morto-morto. Por sete meses fiquei num hospital que acode mulheres. Sete meses depois tive o meu nome mudado. Sete meses depois… atravessei oceanos.

Porém não posso esquecer o rei queniano que conheci no Texas e me fez cometer um poema na vez que o vi. Nem precisei saber seu nome, mas sua coroa permanece nos olhos da minha memória:

 

Hoje eu conheci um rei.
Estava coberto e um preto lustroso que lhe servia de pele
e sua testa sustinha uma enorme coroa
invisível para olhos desatentos.
Do seu sorriso marfim uma voz
pronunciava uma lei sem igual
por aqui.
Na sua altura trazia o Kenya inteiro
reino que deixou atrás de si.

Nunca havia visto um rei em pessoa
ancorado na proa
deste imenso cais que é a vida.

Ambos de passagem pelo mesmo porto
a despedida se fez presente
e a gente partiu se carregando em visão
de um passado que ali se encontrara.
Outros espíritos viajeiros
Se encontraram em nosso peito
E todos seguiram seus destinos.

(Austin – TX – Janeiro de  2024)

 

Eu continuo, buscando pacificação com a existência e resistindo bravamente todos os dias. Seja lá quem me apareça pela frente. Este Eu pode ser um novo que se apresenta diante de mim. Vamos ver o que me dirá.

 

 

Neuzamaria Kerner é poetisa, nascida em Salvador (BA). Professora, graduada em Letras e com os cursos necessários para o exercício da profissão escolhida pelo coração. Membro da Academia de Letras de Ilhéus. Membro da Academia de Cultura da Bahia. Artesã na técnica Bauernmalerei (pintura camponesa de origem alemã). Publicações: “Fragmentos de Cristal” (poemas), “Eu Bebi a Lua” (poemas), “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna” (parceria com outros escritores)(ensaio), “O Livro-Arbítrio das Evas – dentro e fora do jardim”(poemas), “Marcas Escrevividas”(poemas), “Memórias do Silêncio”(contos). Além de publicações esparsas em revistas literárias, mantém blogs e canal no Youtube, onde posta vídeo-poemas.

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Neuzamaria Kerner

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

ESCREVIVENDO

 

Escrever e viver
se misturam
quando os olhos se apuram
para ver o traçado da vida.

Que o meu sentido veja
o percurso das veias
que levam sangue e sentimento
na vida em circulação

Que eu veja e seja
percurso e veia então

Neste percurso inscrito na alma
eu me inscrevo na vida
e sigo

Escrevo

Escrever é fazer autópsia
dos vivos sentimentos
que borbulham em cada passo
veia, sentido e laço
no traço dos meus caminhos

 

 

 

***

 

 

 

VIRULÊNCIA

 

Um dia
nossos olhos se abriram
e não estávamos sós

Prosseguimos desbravando

Noutro dia
como pedras atritadas
palavras começaram um incêndio

Prosseguimos debatendo

De repente
nos vimos apartados
olhos tapados contra o sol
desabraços legislados
obrigados num exílio
que dá dó

Estamos morrendo

 

 

 

***

 

 

 

FÚRIA

 

A pior fúria é a silenciosa
A fúria disfarçada de um
Atrai a fúria oculta de outro
Nos barulhos a fúria tapa ouvidos
Nos silêncios a fúria age
Pressente oportunidades
Embaralha sentimentos
Finge felicidades
Permanece má passageira
No colo que embala a raiva.

 

 

 

***

 

 

 

SÚPLICA POR UM INCÊNDIO

 

Em verdade
nunca fui um vulcão
em permanente erupção.

Em aparência
sempre soltei labaredas de vida
para viver as necessidades.

No imo
busquei o sentido para continuar
meu sentido interior.

O que há no centro dos ossos nossos
escapa aos olhos do mundo.

Mas meus passos pararam
quando descobri que do nada
só têm saído nadas.

Uma pequena fagulha
pode reacender uma chama
e eu preciso me queimar
nem tanto nem pouco
como sempre foi.

Dá-me um fósforo, ó meu Pai!
Um pequeno incêndio
já vale uma vida.

 

 

 

***

 

 

 

SITIADOS

 

Transito na transição
mas não imune
aos vírus que enrugam minha cara

Neste trânsito que penso infindo
outros também transitam
com suas carquilhas expostas

De costas os vírus
metáforas do horror
riem discórdias
matando o espírito crítico
ou seja lá que espírito for

Na dor de onde vinda não sei
pobre cães ladram e atacam
as caravanas que passam

 

 

 

***

 

 

 

PONTUALIDADES

 

Eu me divido em minutos
o tempo em eternidades.
Eu sempre gerundiando
o tempo imperativista.
Eu vivendo de atrasos
o tempo de nunca mais.
Eu compasso de esperas
o tempo sempre passando.
Eu cheia de reticências…
o tempo de pontos finais.

 

Neuzamaria Kerner, baiana de Salvador, é professora e escritora. Tem publicados os livros: “Fragmentos de Cristal”, “Eu Bebi a Lua”, “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna”, entre outras publicações em revistas literárias. Seu mais recente rebento poético é “O Livro-Arbítrio das Evas – Dentro e Fora do Jardim” (Ed. Editus – 2014).

 

 

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112ª Leva - 06/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

A loucura nossa de cada dia

Por Neuzamaria Kerner

 

Capa - A loucura dos outros

 

Antes de dizer qualquer coisa, o título que uso nessa resenha de “A Loucura dos Outros”, estonteante livro de contos de Nara Vidal, é importante porque, na própria palavra que sugere insanidade, encontramos a “cura” das paixões que desarranjam a alma. Mas como viver sem esse desarranjo, ser feliz no meio de um mundo tão louco?  Será que a loucura existe somente nos outros ou é vista apenas com nossos olhos cheios de razão sempre a nosso favor?

O drama feminino percorre todos os contos vividos por 21 personagens: Ifigênia, Marta, Ana Rosa, Vanessa, Cecília, Adriana, Maria Dulce, Selma, Lúcia, Amanda, Ana, Marelena, Rita, Olívia, Sílvia, Flávia, Érica, Regiane, Débora, Miriam, Íris. Todas elas envolvidas em dramas que lembram as tragédias gregas, mas, ao mesmo tempo, sendo difícil classificar cada conto dentro de correntes literárias estudadas nas escolas porque há um pouco de tudo. O subjetivismo com sua falta de clareza do movimento simbolista; a prosa realista com seu caráter ideológico onde são discutidos problemas sociais (especificamente num ambiente restrito do universo feminino), quando a autora explora, sem nenhuma hipocrisia, sem pudores e numa linguagem bem clara focando sexualidade, a exploração, a infelicidade, a prostituição, o incesto, a insatisfação da figura feminina atemporal.

Se poderia dizer que são contos de escola naturalista pela forma como a palavra é usada e as ações das personagens com suas histórias tão chocantes que deixam o leitor com os dentes travando e rangendo ao mesmo tempo. No entanto, se poderia dizer que é uma prosa com características existencialistas bem marcantes quando é mostrado o ser humano com suas circunstâncias subjetivas, com sua ânsia de liberdade, mas ao mesmo tempo aprisionado no meio em que vive.

Acredito, porém, que qualquer tentativa de classificação seria desnecessária porque a autora certamente não esteve preocupada com isso enquanto escrevia sobre a alma nua e dolorida da mulher.

Não foi à toa que Nara Vidal abriu o livro, tendo como epígrafe um poema de Silvia Plath – Canção de amor da jovem louca – já que os contos tratam da loucura encoberta pelos cílios de suas personagens. Depressivas, algumas delas cometem suicídio por não suportarem o peso da vida, assim como a poetisa que termina seu texto com os versos abaixo que sinalizavam sua depressão e suicídio:

(…)
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

 

Interessante também observar que a contista dedica o livro a Ismália. Seria uma homenagem e referência ao poema de Alphonsus de Guimaraens? Certamente. A loucura, o miolo da loucura está bem presente. Vejam:

 

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

 

O desfile das personagens se inicia com Ifigênia, num conto dolorido e surreal, a mulher que perdeu a cabeça (literalmente) por amor ao palhaço Vareta. Em seguida, vem Ana Rosa, conto com um depoimento estarrecedor de um traficante assassino, seu marido, que a amava loucamente. E Cecília? Não conseguia mais olhar para o marido. Será que se suicidou no metrô? Nara Vidal brinca com a imaginação do leitor, deixando-o na incerteza. Maria Dulce, nome doce, coitada – a sem coração – deixa cair o filhinho de dois meses, talvez por não suportar que ele viesse a passar pelas mazelas da vida com a coragem necessária. Lúcia, a que fazia queijo de cabras, depois de a fabriqueta ser fechada o marido fica desempregado e não consegue mais ver as estrelas que tanto apreciava com a mulher. Amanda sofria de baixa autoestima e era espancada pelo marido e ainda achava que ele tinha razão. Medo? Vergonha de ter um casamento falido? O que leva uma mulher a sofrer esse tipo de maltrato e ainda ser grata pela comida que o marido bota na mesa? Entre outras comoventes personagens, trago aqui Marelena, a garotinha que limpava a bunda compulsivamente até se ferir. Transtorno obsessivo-compulsivo. O que teria levado a garotinha a adquirir essa doença? Meio em que vive? Abuso sexual? A autora sacrifica o leitor não deixando claro o porquê… é preciso uma ginástica mental para descobrir. Negligência dos pais? O que houve ali?

É interessante conferir a vida das outras personagens para tentar entender suas loucuras. Não se fala aqui da loucura sobre a qual Aristófanes designava na Idade Média. Algo até como divino. “Enlouquecer é ser submetido à angústia e ficar prisioneiro do universo do não sentido, em que nossa linguagem fica aquém da possibilidade de interpretar o que experimentamos” (Birman, 1983). Em todos os contos a vida dessas mulheres anda de mãos dadas com a “loucura”, a angústia, a morte, mesmo que ela não mate a personagem de morte matada ou morte morrida ou, quem sabe, a morte de quem continua vivo.

Creio que a loucura tratada neste denso livro de contos é a insensatez, o desencontro da coerência com a incoerência de pessoas que correm sem saber por que, para onde a fim de encontrar não sei o quê. Talvez essa loucura de que fala a autora seja a do miolo mole mesmo.

Em verdade é a loucura que nos faz viver felizes, lembrando Erasmo de Rotterdam em seu livro Elogio da Loucura, escrito em 1508. Assim como a loucura é a personagem de Erasmo, ela também se reinventa nos contos de Nara Vidal, mostrando quão hipócritas somos de não termos coragem de aceitar que os loucos existem para chamar os sãos à razão; mostrando que o desmiolamento alheio, em seus contos do livro “A Loucura dos Outros”, pode ser aceito e criticado, mas não as nossas  loucuras nossas de cada dia, principalmente no universo feminino. Nesse universo, há que se ser louco para suportar o peso da razão e encontrar um pouco de felicidade.

De repente, encontramos uma cura na Loucura das personagens da autora. Vejamos!

Neuzamaria Kerner, baiana de Salvador, é professora e escritora. Tem publicados os livros: “Fragmentos de Cristal”, “Eu Bebi a Lua”, “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna”, entre outras publicações em revistas literárias. Seu mais recente rebento poético é “O Livro-Arbítrio das Evas – Dentro e Fora do Jardim” (Ed. Editus – 2014).

 

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100ª Leva - 03/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

Uma centena é muito mais do que um mero marco numérico. Em se tratando de caminhos editoriais, significa um avançar teimoso ante as curvas do tempo. Há quem resuma esse conjunto de ações que agregam literatura e artes como sendo uma prova irrefutável de resistência. Tal atributo é positivo na medida em que a valorização do presente seja a tônica central das considerações. A revista Diversos Afins tem passado, tenciona um futuro, mas volta seus olhos especialmente para o agora, pois este representa a confirmação de apostas e expectativas múltiplas. É difícil mensurar com precisão como um projeto dessa monta pode vir a se consolidar. Quem vasculhar nossa história perceberá quão diferente estamos hoje para aquela primeira Leva de escritos e expressões. O ano era 2006 e tudo começava de modo bastante incipiente, quiçá até pueril.  Mas o fato de maior relevância é saber que não havia um produto fechado em nossas mãos. Quando se fala em desengavetar expressões, não se pretende apenas idealizar colaborações, mostrá-las ao mundo, mas, sobretudo, aprender com elas. O caminho de publicações até aqui trilhado mostra um permanente desejo de seguir adiante por meio do experimentar de novos saberes e sabores. Não há verdades hegemônicas, apenas um processo de intercâmbio de manifestações através das quais se constrói uma valiosa rede de encontros. Cada autor traz em si sua própria epifania, maneira particular de vislumbrar o mundo. Com isso, opera-se um vasto painel de sensações e leituras, todas elas estabelecendo sinais espontâneos de convergência. É quase impossível definir o quanto todo o numeroso contingente de colaboradores impactou o perfil da revista. Diga-se de passagem, entendemos que pomos em prática um projeto em permanente construção. Portanto, nada está esgotado em si, pois é sempre tempo de olhar ao redor. Ao longo de todas as edições, presenciamos também outras tantas investidas editoriais que nos auxiliaram no entendimento do nosso papel enquanto suporte cultural. A via digital rompeu barreiras e aproximou-nos de pessoas dos mais diferentes lugares do mundo, todas elas com sua importância peculiar. Para nós, está claro que avançar é preciso. O atual momento de celebração contempla a poética presente nas fotografias de Gabriel Rastelli Quintão. Deparamo-nos com os arremates narrativos de Marcus Vinícius Rodrigues, Natália Borges Polesso e Sérgio Tavares, especialmente selecionados para a ocasião. No território da poesia, emanam os fluxos líricos de gente como Wesley Peres, Demetrios Galvão, Adriano Scandolara, Francisco S. Hill e José Carlos Sant Anna. Com o olhar sensível sobre o mundo e a vida, a poeta Neuzamaria Kerner concede-nos uma entrevista, na qual aborda principalmente as energias emanadas do seu mais recente livro. São de Larissa Mendes as percepções a cerca de “1977”, novo disco do cantor e compositor Wado. O escritor Marcos Pasche chama-nos atenção para obras de quatro autores contemporâneos: Maíra Ferreira, Juliano Carrupt do Nascimento, Leandro Jardim e Anderson Fonseca. O novo filme dos irmãos Dardenne é tema das anotações de Guilherme Preger. Fabrício Brandão ousa penetrar nas veredas do mais recente livro de Dênisson Padilha Filho. É tempo de centésima jornada, caros leitores! Celebrem conosco!

Os Leveiros

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100ª Leva - 03/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

Alguém que utiliza as palavras como ponte para um entendimento sobre si mesmo certamente confere à vida ares diferenciados. Se o sopro, matéria-prima das horas, é a primeira razão de ser de qualquer um de nós, o engajamento pelo verbo expande fronteiras do pensar e agir, propondo uma passagem não menos impune pelo mundo. Deixar-se guiar palas palavras significa também tentar equilibrar naturais tensões entre o racional e o emocional. Parece ser equação que não se resolve cartesianamente na medida em que cada polo encerra componentes travestidos de individualidade.

Não há receita para apreender as epifanias de um criador. Postulados, cânones, referências, todos eles nos falam de um pensamento analítico. No entanto, vivenciar a leitura e dela retirar algo é experiência movida fortemente pelos subterrâneos de nossa consciência, ambiente regido por uma divindade que até hoje não se sabe bem quem é: a tal subjetividade.

Escrever é um agarrar-se a incertezas. É conferir ao mundo um olhar que afugenta determinismos. Um flerte constante com a dúvida e o mistério. Tarefa de mortais apenas. E a escritora Neuzamaria Kerner demonstra entender bem a dimensão desse hercúleo ofício na medida em que nos oferta sua obra. Durante toda uma vida dedicada às letras, maior parte dela tomada pela poesia, essa autora renega rótulos e classificações. Para ela, o que importa mesmo é apresentar caminhos, não estabelecer verdades. Talvez por isso não é à toa que sua criação mais recente, O Livro-arbítrio das Evas – dentro e fora do Jardim (Editus – 2014) é um momento em que se exalta a liberdade em duas perspectivas cruciais: a do criador e a do leitor.

Antes de chegar ao seu “livro-arbítrio”, Neuzamaria vivenciou saberes e sabores em publicações como Fragmentos de Cristal, Eu Bebi a Lua e A Presença do Mar na Prosa Grapiúna. Nasceu em Salvador, Bahia, e vive hoje em Vitória, no Espírito Santo. Sua trajetória de escritora também se mescla à carreira de professora, feição que marcou de modo pungente sua vida. Ajudou a fundar a Diversos Afins e agora retorna à nossa presença para falar especialmente sobre seu novo rebento literário, além de recordar passagens importantes de sua manifestação poética no mundo.

Neuzamaria Kerner
Neuzamaria Kerner / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seu mais recente livro já desperta a atenção pelo título emblemático que possui. Nele, você deu voz e vez a personagens femininas silenciadas pelos seus respectivos tempos. O que há dentro e fora desse jardim mundano? O que dizer e o que calar?

NEUZAMARIA KERNER – Dentro do Jardim, há as muitas vozes abafadas das Evas que não tiveram o direito à expressão da própria alma. Fora do Jardim, por incrível que pareça, ainda existem Evas silenciadas por um mundo que começa a acordar (ufa!) para ouvir os sentimentos que brotam de almas aprisionadas. Apesar dos “alardes” femininos, ainda reina – na atualidade – o silêncio por causa de um medo ancestral: de dizer que ama e quer ser amada, de dizer que sofre, que se alegra, que tem raiva, que tem fome de justiça e direitos respeitados, que tem desejos. Como eu mesma nunca paro de me fazer perguntas, busquei nelas as respostas de que necessitava para entendê-las e me entender. Se me permite dois exemplos: Lilith, que aparece em textos da Babilônia, foi execrada de outros “ambientes” e acusada até de ser a serpente que tentou Eva (a primeira). Ela reage e se defende dizendo:

Mostro-me para sair do exílio
no qual me colocaram.
Quero que todos ouçam
a voz que de mim tiraram:
eu feria os princípios do recato,
assim foi o relato dos escribas
que me condenaram
a ser poeira do livro oficial.

Em seguida, Eva – a que está nos Livros -, baianamente retada, me disse que Deus lhe deu o jardim e depois a expulsou por causa da natureza que Ele próprio lhe deu:

 

Fui Tua cria e Te louvei
Tua alma habitando em mim.
Me deste o conhecimento
da bondade, da malícia, da perícia em parir.
Não carrego culpa ou dor
dentro ou fora do jardim,
posto que onisciente
me soubeste pura e sã,
e eu Te sei meu conivente
no episódio da maçã.

As Evas não querem mais calar porque têm o livro e o arbítrio.

DA – A sua escolha por mulheres bíblicas encerra algum sentido especial? 

NEUZAMARIA KERNER – A Bíblia, apesar de sempre ter sido uma fonte de inspiração, foi também o lugar da opressão feminina. Para mim, independentemente da questão religiosa – e não foi essa minha motivação para escrever – era intrigante como mulheres com histórias tão bonitas não tiveram lugares de destaque oferecidos pelos intérpretes da Bíblia. A mulher de Lot, a que virou estátua de sal, não tinha nome? Veja o que ela, Irit, me diz:

Que mal houve no meu gesto
qual meu crime, meu pecado?
Fui salgada, fui punida
apenas por ter olhado?
Olhei talvez por saudade
dos filhos que quis rever;
não foi ceticismo ou bravata
tampouco por ser voyeur.
Provoquei do comando a ira,
foi duro comigo o juiz,
mas pergunto a quem me sente
qual mãe não faria o que fiz?

Também sem nome foi a mulher de Putifar; mil Madalenas ou Magdalas existiam, à época, e no final virou uma sagrada confusão que no meu “inocente” olhar todas essas eram as prostitutas. Posso rir? A fala de Madalena sobre o seu encontro com o Pregador me causou profunda alegria. Que mulher corajosa para amar!

Na verdade, o sentido de tudo está na reinterpretação que dou à vida dessas mulheres porque acho injusto que fiquem relegadas ao limbo. Não foram as Evas que tornaram imperfeito esse nosso jardim. Esse jardim foi ressignificado e a ele todas nós podemos voltar porque com todas as circunstâncias que envolvem um jardim é dele e nele que nos alimentamos.

DA – As Evas do nosso tempo têm conseguido fazer do mundo um lugar menos inóspito para elas?

NEUZAMARIA KERNER – Mais ou menos. As Evas de nosso tempo estão mais conscientes do seu papel no mundo, que continua razoavelmente inóspito tanto para elas quanto para os Adãos. O feminismo – que também não é o foco desse livro – trata os textos sagrados e patriarcais dos tempos de outrora como antagonistas das mulheres e da condição feminina. Mesmo considerando que esses textos ainda influenciam a vida de muitas. No entanto, não podemos nos perder nos dois tempos: ontem e hoje. As Evas da atualidade, na maioria das culturas, são livres para explorar o que é relevante para as suas vidas e vivenciar suas próprias descobertas, como elas nos dizem nos poemas A Morte da Cinderela, Contenda, Aprendizados em Quatro Segundos, entre outros. Elas querem o amor em toda a sua plenitude e no sentido mais puro da palavra, mas rejeitam a cruz que foi imposta (ou auto-imposta) em algum momento da nossa história. Por isso Tereza de Ávila, a santa, veio espontaneamente ser uma das Evas do livro.

De tu
– não sei bem o que querias –
mas meu coração, Tereza,
não pode ser só de Jesus
e nem quero por alegria
as dores da Santa Cruz.
Sei que me sabes, Tereza,
pois que me vistes mergulhar
em olhos de mar nascidos
nos claros da luz solar.
De um outro anjo lanceiro
– qual teu poeta João –
recebi o que poucos entendem:
o prazer de ficar na prisão

É dentro da poesia que o mundo é menos inóspito.

DA – Quantas falas cabem na verdade de um poeta?

NEUZAMARIA KERNER – Muitas falas! As do próprio poeta e as dos outros (que são muitos), incluindo os invisíveis para o que chamamos de realidade. A fala poética não é feita somente de palavras escritas com lápis depois de pensadas, mas também das palavras sonhadas que o poeta transforma em sua realidade e sua verdade, posto que esta pode ser relativa porque depende da perspectiva de cada um. Por isso Rebeca – em sua fala – nos pergunta: quantas falas cabem numa verdade?

Permanentemente o ser humano, que pensa muito e investiga, busca a verdade que lhe alimente, pois sempre questiona o que foi estabelecido pela sociedade, e nem sempre fica satisfeito com o que tem nas mãos; o que está posto. Por isso acolhe muito facilmente o que lhe vem na imaginação e transforma numa fala real. Por isso, como no poema Anjo no Espelho, não há muitas preocupações com as verdades das falas porque…

(…) Como poeta
me atrevo ao desrigor da razão
e não busco o enigma inominante
que exubera nesse espelho frente a mim…
Apenas me alimento dessa fonte de inspiração.
(…)

DA – Além do percurso denso e íntimo pelo universo feminino, seu livro-arbítrio se dedica a outras paisagens e observações. Tem-se a sensação de que nele você consolida toda uma trajetória poética. Quais reflexões você vislumbra nisso?

NEUZAMARIA KERNER – É verdade que além do universo feminino os poemas e os contos no final do livro se ampliam pelo universo onde habita o ser humano com suas alegrias, tristezas, reflexões, certezas, dúvidas e celebração da vida acima de tudo, mesmo quando há turbulências na caminhada de cada um de nós, homens e mulheres. Das reflexões feitas tomamos a consciência de que somos parte de tudo o que forma a comunidade global. E só pensar nisso já é algo poético. Ser tudo e parte de tudo.

O que talvez consolide – como você diz – uma trajetória poética seja mais a consolidação da maturidade que vem sendo construída pouco a pouco. É dentro dessa maturidade que reencontramos a ligação da nossa alma com a alma do mundo, daí os reflexos dessa consciência (paradoxal) de sermos felizes, mas também angustiados e, para mim, a única forma de dizer desses sentimentos é poemando  – até na prosa. No pequeno conto O Livro-arbítrio é possível ver uma prosa poética sofrida de alguém que viaja provavelmente de um plano para outro a fim de encontrar uma pessoa. Há poesia densa nas falas ditas e nas subjetividades da situação. Repare:

            E eu que vim de tão longe para vê-lo… E eu que atravessei tantas nuvens para vê-lo. Sabe quantas eternidades furei para chegar no lugar exato onde você estaria para me encontrar? Pareço em atrasos. Pereço nos prazos, só pareço. Aqui estou diante da boca dos favos de beijos que nos tempos passados você prometeu. Vim pegá-los. Vim colocá-los neste corpo almado que ainda é seu.

            Cheguei! Vim com livro e com liberdade. O livro-arbítrio meu. (…)

Se há, então, realmente algo consolidado, é a poesia que existe na vida e na morte. Aqui e acolá. Só não enxergamos essas diversas realidades porque ficamos em estado sonambúlico e não damos ouvidos aos anseios de nossa alma, que tem um vislumbre diferente do ser puramente carnal.

Neuzamaria Kerner
Neuzamaria Kerner / Foto: arquivo pessoal

DA – A presença de um componente místico é algo que, de alguma forma, sempre permeou seus versos. Percebe isso como um possível sentido de transcendência?

NEUZAMARIA KERNER – Sim. É isso que busco para minha vida e que aparece nos meus textos (mesmo quando não está explícito). O sentido da minha existência está na busca de tudo o que transcende a experiência da carne. Creio realmente que somos tudo. Arte e parte de tudo, entendendo que não estamos entregues a um destino sem direção, pois que caminhamos dentro de uma perspectiva iluminadora: lúmen na dor de viver! Porém quando eu falo a palavra “dor”, não a imagino como des-graça, mas no exercício de aprender a viver entremundos e entretudos, buscando acordar as forças da vida universal que moram dentro de nós. Todos os seres se comunicando e intercambiando a seiva cósmica em harmonia e em movimento na plenitude de um Amor maior que nos acolhe e nos embala. Todos os seres sentem dor para crescer, pensar, mudar, evoluir… é como adquirir condicionamento físico por meio da ginástica. Isso se aprende vivendo, errando, acertando, consertando, doendo, mas sempre vivendo aqui ou acolá.

Voltando um pouco à coisa da dor – simbólica ou não – de que falei, há um poema chamado Contenda onde está dito que remo e navio navegam, mas o remo funciona como um chicote que espanca o mar. Em verdade, chicote que espanca é o mesmo que faz com que a navegação (vida) aconteça.

Também o sentido de transcendência está bastante acentuado no poema Passageiro nas Catedrais. O personagem, digamos assim, nos apresenta uma realidade que pode ser percebida através dos sentidos (vários) e que independe de um mundo a que chamamos natural. Outra realidade. Uma situação de intermitência em idas e voltas, transpondo barreiras, tempos, espaços… O verbo transcender (transitivo direto e indireto ao mesmo tempo) – já que estamos falando de transcendência – exige dois complementos e, mal comparando, esse personagem para existir necessita de várias realidades as quais nunca buscamos entender direito. Assim é como o meu texto que faz com que eu me entenda a partir de realidades múltiplas, buscando todos os sentidos possíveis, incluindo o sentido místico em tudo.

(…) Sou viajeiro
passageiro nas catedrais
que permanecerão nas lembranças
……………….nas ruínas
……………….nas reformas
dos tempos que me levam para a próxima catedral
até quando for mudado
o meu estado de matéria
(…)
Mas sei que a distância entre as catedrais
e meu destino
se encurta e me alonga por igual…
afinal é para isso que tenho viajado
de catedral em catedral.

 

DA – Você é acometida pelo que chamam de angústia da criação?

NEUZAMARIA KERNER – Muito raramente eu sinto essa angústia de que falam sobre o ato de criar. Quem escreve, recria realidades, formata o que não tem forma dentro de certo caos porque às vezes o texto começa pelo meio ou pelo fim do pensamento e é preciso reordená-lo. Às vezes dá uma sensação de vazio quando busco uma palavra e vejo que as que me vêm à mente não se encaixam no que estou querendo dizer porque é muito importante dar sentido ao sem-sentido aparentemente. A palavra específica que não vem na hora da necessidade dá uma ligeira aflição. Num outro momento, quando termino um texto, vem uma sensação de esvaziamento e alívio como de uma necessidade fisiológica. Em outras vezes, quando tenho uma vaga ideia do que quero escrever e não escrevo, sinto uma espécie de ausência, de alguma coisa que precisa ser preenchida. Se sinto uma urgência em extravasar algo, escrevo onde estiver e a hora que for… O problema é que estou sempre extravasando (risos), inclusive dentro dos sonhos. Sonho muito. De verdade. Dormindo. Muitos textos vêm desses momentos. Frases soltas, uma palavra que fica pulsando repetidamente. Às vezes acordo e escrevo a ideia ou a palavra, o que vier, mas não dou ousadia ao sonho em me tirar o sono pra não viciar. Volto a dormir.

Venho escrevendo um livro de pequenos contos onde o personagem é uma espécie de andarilho. Há vários dias que ele não fala comigo, não me diz aonde vai parar, com quem vai se encontrar, sobre o que vai conversar. Nada… Ele me olha e eu o olho de volta. Estamos tendo paciência um com o outro e acho isso muito interessante… Essa calma, mas o dia inteiro eu penso nele cheio de silêncios. Sinto inquietação por isso, mas não angústia. Se eu tivesse me comprometido com alguém que me desse prazo, talvez eu sentisse a angústia para criar obrigatoriamente uma realidade a qualquer custo. Mas os prazos são comigo mesma e sempre negocio.

Segundo alguns textos religiosos, Deus criou o mundo em sete dias. Foi de uma rapidez formidável! Provavelmente tinha pressa, mas tenho certeza de que não sentiu angústia. Já pensou em um Deus angustiado? Se ele teve angústia, deve ter sido ao criar o ser humano cheio de complexidades. Claro que não estou me comparando com Deus, mas, com certeza, aprendi com Ele a paciência, daí não crio dentro da angústia.

DA – Durante algum tempo, você esteve envolvida com projetos de formação de leitura. O que dizer dessa experiência? Inciativas desse porte podem mudar efetivamente nossa realidade?

NEUZAMARIA KERNER – Trabalhei com projetos de leitura em várias instituições de ensino, mas ainda continuo, de maneira informal, falando da importância de ler. Continuo falando sobre leitura, produzindo leitura e motivando para a leitura quando presenteio as pessoas com livros.

Atuei no PROLER (UESC) fazendo oficinas de literatura e transcodificação da leitura; também em projetos sociais como voluntária, alfabetizando jovens e adultos através de textos verbais e não-verbais. Durante todo o tempo em que estive como professora, meu olhar sempre esteve voltado para apresentar a leitura como “objeto de consumo” indispensável que deve ser repartido para que a leitura de textos diversos sempre estivesse enriquecendo a viagem que cada um faz para dentro de si próprio e na amplidão do mundo. Em todas as escolas (do Ensino Fundamental ao Superior) por onde passei meu trabalho foi sempre pautado, antes de tudo, na formação de leitores.

Não foi muito fácil em muitas instituições porque revalorizar a leitura na sala de aula ainda é coisa que fica no papel. No discurso. Na prática é diferente porque é necessário ampliar a carga horária dos professores – principalmente de Língua Portuguesa, Literatura e Redação -, mas as escolas não podem ou não querem investir. Posso dar dois exemplos?

Eu dava aula de Língua Portuguesa numa Faculdade no curso de Comunicação Social (Publicidade e Propaganda), que contemplava na ementa leituras de textos diversos. Levei para os alunos do 1º período uma revista com a propaganda de um automóvel, na qual Narciso, o do mito, aparecia debruçado olhando um carro dentro do lago. No canto inferior direito da página estava escrito assim: “Vectra, o mais bonito!”. Os 27 alunos disseram que o “cara” estava chorando porque o carro dele havia caído na água. Na verdade, quem chorava era eu ao ouvir essa interpretação. Imediatamente dramatizei o mito, distribuí textos com outros mitos para leitura. Acredite que alguns alunos queixaram-se à diretoria e fui chamada para explicações. A diretora acadêmica, uma bióloga (que Deus a tenha lá), me fez repetir três vezes o nome da minha disciplina e, em seguida, me disse três vezes: “atenha-se à sua disciplina”. Peremptoriamente. Isso na presença dos meus alunos.

Nem tudo foi tão terrível assim. Vivi experiências espetaculares trabalhando com formação de leitores, incluindo os que estavam ainda sendo alfabetizados. No sul da Bahia, perto de São João do Paraíso, havia um lugarejo chamado Vila Nova Esperança. Eu trabalhava no Programa de Alfabetização Solidária e, ao passar do ônibus na BR-101 vi, sob tendas de pau e plástico preto, homens, mulheres e crianças quebrando pedra (brita) com martelo. À noite, na sala de aula notei que o caderno de um aluno estava manchado de vermelho. Era o sangue dos dedos de um dos quebradores de pedra que escorria enquanto aprendia a escrever. Tristeza e alegria se misturaram às lágrimas. Daí o poema Quebradores de Pedra em Vila Nova Esperança:

(…)
Escola – mágica mutação:
martelolápis
sanguetinta
pedrapapel
pedregulholetra
que saltam da pedreira
para deixar o aprendiz escrever sua história.

Também foi desse tempo o poema Barqueiros do Rio Pardo, quando para chegar à escola, saltava na BR, descia o ladeirão e o barqueiro levava para a outra margem do rio (a terceira?). Era um sacrifício, mas as experiências vividas valeram. Os resultados obtidos também. Então, toda iniciativa é válida desde que a vontade de dar certo seja maior do que simplesmente a espera do salário, mesmo atrasado. Quando o governo pagava era outra alegria.

DA – Depois de tantas travessias, de que modo a sua lida com as palavras lhe permite olhar o mundo hoje?

NEUZAMARIA KERNER – Com muito mais cuidado. Hoje tenho maior consciência do espaço – vazio – que há entre a minha boca e o ouvido do outro. Nesse espaço o interlocutor pode preencher com o que quiser, de acordo com suas carências e iluminações. Por isso o cuidado, principalmente uma pessoa muito extrovertida e desatenta como naturalmente sou. Dá um cansaço essa vigilância permanente porque a palavra, o Verbo do Princípio, deveria ser sempre fonte de união e completude universal, mas nós nos esquecemos disso no momento em que usamos palavras não como ponte, mas como marreta que arrebenta tudo aquilo que pode nos ligar ao mundo. Pode ser também como armadilha na qual podemos cair ou jogar os outros, daí o cuidado. Por exemplo, no poema Jogo eu falo da palavra como num jogo de xadrez:

 

(…) Quando tomam vestes guerreiras
me aprisionam
me checam e matam.

Por outro lado, pela palavra nos comunicamos e estamos em comunhão o tempo inteiro, é a senha da vida, do mundo, como dizia Drummond em Palavra Mágica.

As palavras estão aí para nos servir, como Exu, o mensageiro dos caminhos, que não é nem bom nem mau, depende da energia que imprimimos nos comandos que a ele damos. Assim também com as palavras, daí eu ter falado na vigilância permanente. Até que eu me esforço, mas como tropeço!

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99ª Leva - 02/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

alessandra-bufe
Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

 

Novos desdobramentos nos espreitam por aqui. Imagens, diálogos, lampejos, análises, ficções, versos, escutas, tudo o que sugere uma ponte entre um universo íntimo de observação dos criadores e uma dimensão externa das coisas. Até imaginamos o quanto uma obra pode incorporar de sentidos e signos do seu nascedouro até a recepção de um apreciador, mas a questão é que o corpo final terá uma conformação imprevisível. Talvez esteja aí o caráter transformador da arte, tanto para imagens quanto para palavras. Quem mergulha na degustação e leitura do universo artístico, recria mundos a partir do seu. Há limites para isso? Uma criação pode, de fato, sofrer uma profunda alteração em razão de seus múltiplos e possíveis níveis interpretativos? Esse fluxo de indagações também parece se aproximar de outros mais, sobretudo aqueles que se referem ao quesito direcionamento das obras. Assim, perguntaríamos, por exemplo, para quem um autor produz, se para si ou no afã de encontrar abrigo no seio de quem recepciona seus feitos. Parece-nos mais razoável permitir que tudo caminhe no seu curso mais natural possível, evidenciando que as experiências individuais assinalem seu próprio caminho. No nosso terreno atual de expressões, questionamos o poeta Geraldo Lavigne de Lemos a respeito desse assunto. As impressões dele estão contidas numa entrevista, bem como epifanias que povoam seus caminhos de escritor. Quem faz par com os textos publicados por aqui é a arte multifacetada de Alessandra Bufe Baruque. Nos caminhos da prosa, vemos desfilar as linhas de Marieli Becker, Dênisson Padilha Filho e Tere Tavares. Na seara teatral, Geraldo Lima oferta percursos ao livro , do dramaturgo Fernando Marques, uma adaptação em versos da peça Woyzeck de Büchner. As janelas poéticas de agora se abrem para as vozes de Ana Farrah Baunilha, Luciane Lopes, Geraldo Lavigne, Márcia Barbieri e Marcelo Benini. O complexo filme Birdman recebe as percepções de Larissa Mendes. O coletivo de expressões poéticas e fotográficas abrigados no livro Profundanças é acolhido pelas sensíveis leituras de Neuzamaria Kerner. Na agulha do caderno Gramofone, giram as canções do disco solo do cantor e compositor Russo Passapusso.  Bem-vindos aos mergulhos da 99ª Leva, caros leitores!

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99ª Leva - 02/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Palavras bailarinas na sala de leitura

Por Neuzamaria Kerner

 

Profundanças

 

Aprofundamento no sentido mais vertical da palavra. Abundância do profundo no mais profundo da alma. Isso deve ser a Profundança. A alma aqui é o livro perpassado pelo filtro da poesia que habita nessas páginas de poemas e imagens femininas. As imagens, representações da psique das 13 escritoras que partiram de vários lugares e caminharam até o ponto de encontro: esta antologia. Elas desfilam vestidas de poemas, sendo vistas desde a apresentação do livro feita pela organizadora Daniela Galdino.

Profundanças: antologia literária e fotográfica em sua 1ª edição virtual, Voo Audiovisual, 2014, vindo de Ipiaú (BA), pousa nos campos virtuais para espalhar poesia.  Na imagem de abertura uma mulher sobe degraus de uma escadaria como que simbolizando o progresso, a realização de desejo consubstanciado no livro pronto. 13 escritoras desengavetam suas palavras para que povoem o universo; 13 escritoras tratam de recolher as mazelas desaprisionadas da caixa de Pandora para que sejam reconfinadas até elas aprenderem com a Esperança – que havia ficado no fundo da caixa – sobre a importância da arte como elemento que transubstancia palavra em alimento para a alma.

Belisa, Brisa, Calila, Celeste, Daniela, Fernanda, Lorenza, Márcia, Potira, Raquel, Renailda, Say e Valquíria misturam suas experiências individuais e apresentam um modelo de pertencimento a uma comunidade artística de alto gabarito que interage com um público leitor que lança sua rede no mais profundo mundo virtual para buscar o melhor pescado.

A distribuição dos textos é feita com mistura de versos e prosas onde as autoras puderam expressar suas profundanças com muita leveza e liberdade, incluindo a apresentação de fotografias delas mesmas como extensão da palavra escrita. Elas estão presentes. Os textos têm a cara das donas e é muito interessante observar como cada palavra escrita identifica cada uma delas.

As fotografias vão como que revelando o cotidiano das moças e ilustrando o espírito do livro na medida em que o olhar dos fotógrafos vai capturando as profundanças dos momentos e perpetuando os movimentos das escritoras. Assim acontece o entrelaçamento das palavras e imagens quando Martinho, empunhando a câmera, olha o olhar de Valquíria que fala:

Empunho o que sou,
porque o ser que me habita
não quer o que esfria,
ao contrário,
pede o que borbulha.

 

Fafá surpreende Say entre panelas – dispostas no altar para o banquete – grafites, flores e estampas na saia. Mais uma vez a imagem casa com a poesia:

Escondo, na parte de dentro,
Do estampado florido de minhas saias
Um respiro calmo no altar de mim.

Márcia e Jéssica se encontram num diálogo aparentemente desencontrado. Só na aparência mesmo, posto que da cor seca do sertão brota a florada de quem, como num ato de contrição, escreve poemas:

Meu sertão tem a cor amarela
Como as folhas no outono
E a minha saudade tem a cor sépia
Como numa fotografia
uma saudade assim
envelhecida.

Uma árvore prenha guarda águas sertanejas para matar as necessárias sedes. É assim a natureza: resistente e adaptável porque criativa. Como um útero aconchegante carrega dentro de si a poesia que germina e se desenvolve pela palavra forte de Celeste e pelo gatilho da câmera de Ravena. Belo encontro!

É dispensável neste momento escrever sobre as autoras, posto que no final do livro a organizadora teve o cuidado de apresentá-las numa Mini Bio d@s participantes de um jeito muito mais interessante de forma que o leitor poderá conferir e entender o porquê dessa ausência de explicações nesta resenha. Além da apresentação das escritoras, Daniela Galdino abre espaço detalhado para mostrar quem fotografou e quem ajudou na produção do brilhante material que a partir de agora está no mundo através da boca e da pena das autoras deste livro.

Olho-me no espelho nua por dentro

porque

Fui nomeada no esteio do vento.

Sou eu, ácido, violão sem cordas

E me extasiando com sua música surda

tenho medo dos sussurros das palavras

e

começo a pender para direções esquecidas

buscando os caminhos que

as quinas das portas cortam meus passos.

Há mofo no teto e gotas de chuva nas cortinas

e a minha saudade tem a cor sépia

na presença do enxofre envelhecedor de fotografias… mas

prometo gozar o atraso dos dissabores

sintomas de precipício/ predicados de botequim

Ah!… O que tenho?

Tenho tanto medo de deus / que até fraquejei com esta caneta,

porém depois de cada inverno inscrito

eu sempre voltarei para o verão dos teus braços

porque é neles que

os meus cabelos / escondem navalhas errantes

mas que não podarão a profundança de cada palavra poemada.

* Os textos em itálico são os títulos das falas das autoras deste precioso livro.

“Profundanças” está disponível para download no site Voo Audiovisual.

Neuzamaria Kerner, baiana de Salvador, é professora e escritora. Tem publicados os livros: “Fragmentos de Cristal”, “Eu Bebi a Lua”, “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna”, entre outras publicações em revistas literárias. Seu mais recente rebento poético é “O Livro-Arbítrio das Evas – Dentro e Fora do Jardim” (Ed. Editus – 2014).

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98ª Leva - 01/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

É tempo de continuar os caminhos. Levar adiante a primeira investida editorial do ano traz consigo um sentido de renovação de ânimos. Abertas estão as escutas para que outras tantas vozes consolidem por aqui o ideal essencial de diversidade. E assim o maior desejo que rege os instantes é o de promover encontros em torno da arte. Poder harmonizar as energias que atravessam textos e imagens favorecendo um mosaico vivo de expressões múltiplas. Erguer uma edição da revista representa agregar individualidades rumo a um norte coletivo que não se dilui pelo caráter da heterogeneidade. Por mais que cada colaborador traga sua carga pessoal e distinta, algo torna o resultado final curiosamente dotado de um equilíbrio. Nunca houve uma espinha dorsal premeditada quando a intenção era a de solidificar uma determinada leva. Autores e artistas se aproximam ou são convidados e, a partir disso, a convergência de atuações segue fluxos de naturalidade como se um único e permanente tema se apresentasse: a busca pela qualidade. Cada criador que por aqui desfila seus verbos e imagens cristaliza a identidade da revista. Hoje, é tempo de percebermos o que nos dizem as vozes poéticas de Carla Carbatti, Roberto Dutra Jr., Neuzamaria Kerner, Alexandre Guarnieri e Mariana Fernandes. Oportunidade de percorrer as densas linhas dos contos de Márcia Denser, Jorge Mendes e Lia Beltrão. Lermos o que o escritor Rafael Mendes tem a dizer sobre seu engajamento literário numa entrevista capitaneada por Sérgio Tavares. Por seu curso, Igor Fagundes resenha o novo livro de poemas de Alexandre Guarnieri. A conturbada trama do filme “Garota Exemplar” encontra respaldo nas anotações de Larissa Mendes.  O escritor Gustavo Rios fala de suas impressões sobre o mais novo disco da banda de punk rock Pastel de Miolos. Os recentes lançamentos poéticos de Geraldo Lavigne recebem a leitura atenta de Jorge Elias Neto. Entremeando os trajetos da nova edição, as fotografias de Pedro Alles remontam às nossas complexas paisagens humanas. 2015 pede passagem trazendo junto uma vasta gama de perspectivas. E os caminhos apenas estão no seu início. Seja bem-vindo à 98ª Leva, caro leitor!

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98ª Leva - 01/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Neuzamaria  Kerner

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

Contenda

 
Eu remo.
Em algum canto hei de chegar.
Meu remo
……….chicote que espanca o mar.

Remo e navio navegam
Sobre um mar que é sem fim.
Remo e navio disputam
………..quem navega mais em mim.

 

 

***

 

 

Movimentos

 
Minhas tempestades
não são cerebrais
– são na alma…
chego a sentir
o meu corpo estremecer
todos os dias
a cada disparo do céu!

 

 

***

 

 

Como Tantos…

 
Como tantos
luto para aceitar a carne
que recobre o meu espírito.

Como tantos
canto mantras para a Lua
que de longe, silente, me escuta.

Como tantos
vivo entre eus e eu…
e como dói viver
num mundo que não considero meu!…

 

 

***

 

 

Eva

 

“Não é bom que o homem esteja só;
far-lhe-ei uma auxiliar igual a ele.”
Genesis 2,18.22-24

Disse a Ti um dia o sim.
Disseste a mim: tu és mulher!
Bênçãos me deste
e em todo o teste a mim imposto
saí vitoriosa.
Até reinei num paraíso…
Pueril, a todo tempo mostrei riso
e nesse riso me fiz rosa.
Explorei o chão que me foi dado
vi tudo o que ali havia
provei até do que não podia
– não me fora permitido provar.
Tu
Temendo o desabrochar que me possuía
disseste: “pecadora, vai embora,
não serás mais a senhora
do jardim que preparei!”

Aquele momento de queda
eu nomino salvação para as minhas
descendentes, insubmissas, conscientes,
sacerdotisas guardiãs da fábrica da vida
– presente sem medida para o mundo do
amor.

Tua cria – Te louvei
Tua alma habitando em mim.
Me deste o conhecimento
da bondade, da malícia, da perícia em parir.

Não carrego culpa ou dor
dentro ou fora do jardim,
posto que onisciente
me soubeste pura e sã,
e eu Te sei meu conivente
no episódio da maçã.

 

 

***

 

 

Jogo

 
Jogo com palavras
e elas comigo
no eterno dos espaços.

Opção:
jogar xadrez
no tabuleiro dos textos.

Quando sonolentas e frágeis
eu nelas
…………….– xeque-mate!

Quando tomam vestes guerreiras
me aprisionam
me checam e matam!

 

Nasci no século passado com fome de palavras e até hoje vivo desse alimento que ainda me sobra para adornar o espírito de quem tem o peito aberto. O teto que me foi dado para viver é dividido com 7 bilhões de pessoas de todas as cores, de todas as falas, de todas as caras, de todos os credos; com todos os que vivem na carne e os que vivem em forma de fluido cósmico universal. Sou feita à imagem e semelhança da humanidade porque dentro de mim cabe a mais doce ou a mais vil das criaturas. Troquei, doei e recebi saberes com estudantes de vida assim com eu. De certa forma ainda vivo assim porque trocar e doar são atributos da generosidade, menos que da justiça. Dentro desse esquema (trocas, doações, recebimentos) escrevo porque na medida em que faço isso me somo e me divido neste mundo que é nosso.

 

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80ª Leva - 06/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Foto: Peterson Azevedo

 

 

Realizações e projeções fazem parte de qualquer trajetória. Não é diferente com o projeto levado a cabo pela Diversos Afins. Hoje, perfazer a marca de 80 Levas é uma conquista que se deve a inúmeros fatores. De todos eles, talvez a persistência, travestida em teimosia, seja um atributo mais adequado. São 7 anos de uma jornada trilhada especialmente pela reunião de desejos e expectativas harmonizadas em torno de um propósito: descobrir e propagar vozes. Durante esse tempo, chegamos à conclusão de que tudo aponta para um exercício de aprendizado constante. Certezas são questionadas e outras visões de mundo se apresentam. Atestar a qualidade desse ou daquele autor, tanto no terreno das palavras quanto no das imagens, não vem necessariamente de pontos de vista cristalizados. Sem deixar de lado os aspectos que robustecem, de fato, uma determinada obra, tentamos privilegiar o modo como ela pode ser interessante aos olhos dos leitores. É algo complexo de conduzir, mas a experiência tem demonstrado que temos conseguido aproximações importantes. Para quem edita, é recompensador, vez ou outra, ser surpreendido por alternativas diferenciadas de criação. O universo de colaboradores que estão dispersos por todas as edições da revista é nosso maior legado. Sem eles, não seria possível falar em continuidade. A Leva de agora é marcada pela reinvenção de territórios trazida pelos olhos do fotógrafo Peterson Azevedo. Em matéria de poesia, juntam-se a nós as expressões de Neuzamaria Kerner, Leonardo B., Ana Peluso, Edson Bueno de Camargo e Maria da Conceição Paranhos. Nossa sabatinada da vez, a poeta, atriz e professora Rita Santana, tem muito a dizer de suas andanças literárias e da sua lúcida condição de mulher. Os contos de Jorge Mendes, Márcia Denser e José Aloise Bahia chacoalham nossa zona de conforto. Em suas pesquisas musicais, Larissa Mendes descobre o disco do cantor e compositor Baia. O escritor Marcos Pasche nos convida a conhecer o novo livro do poeta cearense Assis Lima. Em meio ao panorama teatral de Brasília, Geraldo Lima destaca a trajetória do Grupo Cena. Noutro ponto, uma leitura para o aclamado “O Som ao redor”, filme de Kleber Mendonça Filho. Como todas as outras, essa edição comemorativa de aniversário celebra o desejo de se prolongar caminhos. É com muita alegria e disposição que agradecemos a todos, leitores e colaboradores, por nos ajudarem a construir essa história. Sejam sempre bem-vindos!

 

 

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