Categorias
80ª Leva - 06/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Neuzamaria Kerner

 

Foto: Peterson Azevedo

 

 

LILITH

 

Mostro-me para sair do exílio
onde me colocaram
e tiraram minha voz:
eu feria os princípios do recato,
assim foi o relato dos escribas
que me condenaram
a ser poeira no livro oficial.

Fui tida feiticeira
de energia visceral
que consumia a paz do meu companheiro.

Queixoso, dizia-se prisioneiro
dos meus afagos.
É certo que o envolvia, não nego!
mas o que ele não admitia
era estar sob o meu comando
ou ter-me como par.
Rebelei-me, afinal fui feita livre
e queria iguais direitos.

Vingou-se e cobriu-me de defeitos
diante do Pai.

Excluída
fui mandada para a treva do mar profundo.
De lá,
gerei desejos
e os enviei para queimar
o corpo de Adão.
Sua carne reclamava e desesperado gritava
por clemência.

O Criador cientista
rápido como a  urgência de um raio
trabalhou à luz de vela,
da criatura tirou uma costela
e fez o primeiro teste de clonagem.

 

 

***

 

 

PASSAGEIRO (NAS CATEDRAIS)

 

Tenho viajado de catedral em catedral
vezes silencioso
outras barulhando sinos
para dizer da minha presença;
vezes pagando dívidas
outras contraindo-as
mas sempre honrando palavras
para dever menos.

Tenho viajado de catedral em catedral
e quando estou no centro de suas naves
vejo como funcionam engrenagens humanas
que mesmo solitárias não funcionam sós:
……..peças por peças movem-se dependentes
……..e independentes das minhas próprias.

Quando iluminadas as catedrais
……..uno fios
……..reparo molas
e tiro seus rangeres com óleos das lamparinas
que mesmo quando sem chamas
é o bálsamo que encontro – somente nas catedrais –
para os consertos precisos.

Os talentos para o sustento de cada hora
são extraídos das catedrais invisíveis
mas vistas apenas em presenças sentidas no interior:
…………………tão poucos talentos!…
…………………tão tantos haveres!…

Sou viajeiro
passageiro nas catedrais
que permanecerão nas lembranças
……..nas ruínas
……..nas reformas
dos tempos que me levam para a próxima catedral
até quando for mudado
o meu estado de matéria

……..não sei quando
……..porque velho
……..porque manco
……..porque falho
……..quase cego
……..canso fácil…

Mas sei que a distância entre as catedrais e meu destino
se encurta e me alonga por igual…
afinal é para isso que tenho viajado
de catedral em catedral.

 

 

***

 

 

TEREZA D’ÁVILA

 

No quadradinho de tua cela
vi teu êxtase tanto pedido
também a seta partida
do peito do anjo divino.

Da minha própria cela, Tereza,
volto os olhos para ti
e digo com toda certeza:

também fui alvo, Tereza,
também fui alvo, Tereza!…

pois que tenho a seta inda presa
preenchendo meus dentros vazios.

De tu
– não sei bem o que querias –
mas meu coração, Tereza,
não pode ser só de Jesus
e nem quero por alegria
as dores da Santa Cruz.

Sei que me sabes, Tereza,
pois que me vistes mergulhar
em olhos de mar nascidos
nos claros da luz solar.

De um outro anjo lanceiro
– qual teu poeta João –
recebi o que poucos entendem:
o prazer de ficar na prisão.

Tu que estiveste comigo, Tereza,
quando a espada do destino
pendeu para a minha cabeça
a tua estendida palma
desviou-a  suavemente
para o centro da minha alma.

O teu destino, Tereza,
no teu dia foi consumado,
mas o meu ainda não sei…
só sei que me foi ofertada
num copo do anjo a bebida
aquela água, Tereza,
que mata todas as sedes
e dá vida a quem quer vida.

Tim-tim!

 

 

(Nasci no século passado com fome de palavras e até hoje vivo desse alimento que ainda me sobra para adornar o espírito de quem tem o peito aberto. O teto que me foi dado para viver é dividido com 7 bilhões de pessoas de todas as cores, de todas as falas, de todas as caras, de todos os credos; com todos os que vivem na carne e os que vivem em forma de fluido cósmico universal. Sou feita à imagem e semelhança da humanidade porque dentro de mim cabe a mais doce ou a mais vil das criaturas. Troquei, doei e recebi saberes com estudantes de vida assim com eu. De certa forma ainda vivo assim porque trocar e doar são atributos da generosidade, menos que da justiça. Dentro desse esquema (trocas, doações, recebimentos) escrevo porque na medida em que faço isso me somo e me divido neste mundo que é nosso)

 

 

 

Categorias
69ª Leva - 07/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Desenho: Rui Cavaleiro

Seis anos nos separam dos primeiros passos dados por aqui. Nossa primeira infância revelava, mesmo que timidamente, um desejo de alcançar e fomentar espaços em torno das palavras e imagens. Erguer cada edição sempre foi algo visto por nós como uma tarefa deveras especial, agregando expectativas e uma salutar ansiedade pelo modo como o coletivo de expressões mensais pudesse vir a ganhar corpo e alma. Com o passar do tempo, aprendemos que os passos editoriais, por mais que sejam minuciosa e previamente arquitetados, acabam por revelar gratas conformações ao jogo dinâmico do presente. É recompensador saber que existe sempre uma vastidão de leituras há serem feitas, todas elas atraídas pela jornada que conseguimos construir até então. Congregar manifestações dos mais diversos tipos de colaboradores nunca deixou de ser nosso lema maior. Para que tudo isso ocorresse sem gerar uma falsa ideia de incorporação aleatória de expressões, nosso perfil editorial sempre norteou as escolhas com critérios coerentes de seleção, pontuando aspectos que julgamos vitais em termos de publicação. Durante todos os anos de existência da revista, as trocas humanas foram o mote de nossas ações, permitindo-nos não apenas conhecer um pouco mais das obras de inúmeros criadores, mas também perceber neles uma necessária fonte de aprendizado. Os instantes passaram e o melhor de tudo é saber que solidificamos um caminho no qual atraímos, sobretudo, o respeito e a adesão de muita gente verdadeiramente interessada nos feitos culturais. Completar mais um ano de realizações significa louvar o nome de cada pessoa que, sem exceção alguma, por aqui um dia passou. Mais do que celebrar um rito novo de passagem, interessa-nos reafirmar a missão, chamando atenção para aquilo que hoje implica na continuação dos caminhos. E seguimos, contemplando agora os traços marcantes dos desenhos do artista português Rui Cavaleiro, muito bem apresentados por Hilton Valeriano. Nas veredas da poesia, deparamo-nos com Mercedes Lorenzo, Clarissa Macedo, Marra Signoreli, Raquel Gaio e Helena Barbagelata. É deveras especial perceber que gente como a poetisa Daniela Galdino, nossa entrevistada de agora, sabe dotar a vida de uma inquietude criativa vigorosa. Larissa Mendes, com suas precisas escolhas cinematográficas, aponta atrativos em torno do filme “God Bless America”. Intensos percursos da existência resvalam dos contos de José Geraldo Neres, Roberta Simoni e Teofilo Tostes Daniel. O personagem Sinvaldo Júnior, espécie de heterônimo do escritor Rogers Silva, revisita parte significativa da obra de Álvares de Azevedo. A atriz Ivana Luckesi testemunha sobre a sua vivência na arte de contar histórias. A Leva de agora é erguida e dedicada a todos os nossos leitores e colaboradores, em especial a Neuzamaria Kerner, Héber Sales e Valéria Freitas, importantes precursores de nossas andanças editoriais.

 

Os Leveiros.