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103ª Leva - 06/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

Buscar a inscrição do nome das coisas entre os dias. Cultivar palavras antigas, saberes novos, sabores de um porvir. Evocar imagens que atravessam as horas desavisadamente. Percorrer o vasto campo dos mistérios à procura de perguntas. Sim, perguntas, pois respostas significam uma espécie em extinção. Se é que algum dia será possível chegar ao ponto extremo de nós mesmos, tentemos ao menos absorver um mínimo do transcorrer incerto do tempo. Ao guardarmos nossos supostos tesouros, corremos o risco de perdemos a capacidade de contemplá-los e obtermos deles o que realmente importa. Quem sabe a vida não seja um poema maldito em eterna construção, requerendo métodos descartáveis de tentativa e erro. Queremos tanto: matéria, sopro, comida e algum alento intangível. No entanto, o reino da dúvida à espreita, como uma divindade inexplicavelmente cultuada. Dentro desse inadvertido território, a arte intenta algum fôlego. Quiçá um salto no abismo para um desfecho imprevisível. Sobremaneira, há quem julgue serem os estados melancólicos do ser verdadeiros combustíveis da criação. Nesse sentido, os lampejos de contentamento e efusão diante da vida seriam menos eficazes? Discussões à parte, nada está em perfeita ordem debaixo do sol. Enquanto a caravana passa ante nossos perdidos olhares, podemos nos permitir conhecer o que outras tantas pessoas têm a nos dizer com seus feitos. É assim com as epifanias poéticas de gente como Sara F. Costa, Samuel Malentacchi, Ana Horta, Nilcéia Kremer e Floriano Martins. Um efeito de trazer à tona recortes incisivos da vida toma os contos de Geraldo Lima, Márcia Denser e Fernando Rocha. Há uma atenta leitura de Sérgio Tavares para o novo livro de contos de Luís Roberto Amabile. No quesito cinema, Larissa Mendes convida-nos a perceber a delicadeza poética contida no filme brasileiro “A História da Eternidade”. Num diálogo movido essencialmente pelos sensíveis territórios da música, Graccho Braz Peixoto entrevista o cantor e compositor Mário Montaut. Por meio das escutas de Gustavo Rios, uma valiosa apresentação do disco da banda “A Flauta Vértebra”. O romance “Java Jota”, de Thiago Mourão, é alvo das anotações de Fabrício Brandão. Com a vigorosa contribuição da artista plástica Caroline Pires, desenhos e ilustrações vêm fazer par com outras tantas vozes aqui dispersas. É tempo de uma 103ª Leva, caro leitor!

Os Leveiros

 

 

 

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103ª Leva - 06/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Nilcéia Kremer

 

Ilustração: Caroline Pires

 

Antiga

 

Tenho cabelos que alcançam o teto
a ordem inversa das coisas cravada no peito
a gravidade do gozo
o temor dos pés no chão
o último suspiro além boca

Trago gotas de alcatrão na memória
e uma pífia retórica
coisa de quem nasceu antiga
blefa com a vida
e não tranca as portas da alma

 

 

 

***

 

 

 

Adicta

 

Não menos que o vento
que te lambeu agora
não mais que as horas
que custam passar
soo o interstício
principio o precipício
que dorme em cada célula
libélula diplomada
em jornada atemporal

Adicta de insetos
veto monstros alheios
meu veio é agridoce
como a vida
qualquer semelhança
não é mera coincidência
é conivência de sol
e sal

 

 

 

***

 

 

 

Auto retrato

 

Tenho esta espera
estampada no rosto
um lusco fusco na voz
martírio de inquietos
fechadura conferida mil vezes
praga que não se entrega
Sou o que fica
a tiririca na grama
sou o acordo necessário
quando todos foram
o voluntário das palavras
a larva dos dias
a agonia sabor chocolate
que late late
e abocanha vazios

Sou o cio em carne
promessas descumpridas
feridas cicatrizadas
desvarios

 

 

 

***

 

 

 

Ungida

 

Ela gritava impropérios
cacos na boca
rouca e descabelada
Ela gritava impropérios
não há critérios em desanuviar
cingiu a testa marcada
saiu da engorda
negou o abate
fez alarde
acertou o tom
batom na boca
vermelho na veia
quente
Ela gritou impropérios
e o império de ajustes caiu
Ela juntou os pedaços
de coração quebrantado
desajustada e desmedida
ungida em amor
Próprio

 

 

 

***

 

 

 

Nômade

 

..pinçar coágulos encravados
redesenhar alentos
rede
moinhos de todos os matizes
perder a conta que acrescenta
sustentar-se por tentáculos
abraçar variáveis que mudam de estação
um porto volúvel
um corpo aparente
de crescentes naufrágios
imensidão de rascunhos
um ser inscrito em palavras

 

Nilcéia Kremer é gaúcha, ariana nascida em 80. Das Letras por formação tornou-se conjuradora de palavras. Apaixonada pela arte já provou um pouquinho de várias linguagens, e descobriu que o melhor sabor se dá no encontro entre elas. Crê na arte comunhão. Tem poemas publicados nas revistas Plural (Scenarium), Mallarmargens, Limbo e O Emplasto.