Bruna Mitrano

Numa noite dessas
Chovia forte. Eu voltava do trabalho e via a gente da rua muito agitada, os pontos de ônibus alagados e os homens disputando espaço na sarjeta. Esperei um tempo debaixo duma marquise. Uma mulher esbarrou em mim com o guarda-chuva e uma criança negociou um trocado. A chuva estiou logo. Caminhei pesado, os tênis encharcados, até a calçada e subi num ônibus velho.
O engarrafamento era longo e o cheiro nauseante. Numa parada, um menino sujo e magro pediu carona ao motorista. Dizia: estou doente, acho que tenho febre. O motorista acenou que sim, mas amarrou a cara ao vê-lo entrar. Os passageiros, que se apertavam, resmungaram: cracudo filho da puta.
Ainda estávamos no espaço de meio quilômetro em que o ônibus permaneceu por duas horas, quando o garoto vomitou um visgo amarelo. Ignoravam-no, todos. Não demorou para que ele tombasse próximo a mim. Teve convulsões. Repousei a mochila num pedaço de chão entre minhas pernas e me abaixei para segurar sua cabeça. Os espasmos chacoalharam a carne mole dos meus braços.
Os olhos grandes remelentos do garoto olhavam meus olhos como se implorassem por socorro ou perdão. Um senhor gritou que chamássemos os bombeiros. Alguém pegou o telefone, embora soubéssemos que ninguém chegaria rápido ali.
De repente, a calmaria. Os olhos grandes muito abertos. Minhas mãos coladas à cabeça do menino, afundadas em seus cabelos grossos de poeira e suor. À volta, o silêncio: o garoto estava morto.
O motorista precisou levar o corpo à delegacia. Dei alguns esclarecimentos à polícia. Depois, peguei um ônibus mais novo e um pouco mais caro. As ruas já estavam secas e o trânsito fluía bem. Em casa, joguei as roupas na máquina de lavar e o tênis na lixeira. Tomei um banho quente, fritei uns empanados e sentei à mesa, sozinha, sem tristeza nem pressa, desejando que aquela noite durasse um pouco mais. Eu estava viva.
***
.fim
bomba-relógio, 6:00, levanta, lava a cara duas vezes, envelheceu muito esse ano. banho porco, roupa pronta, engole o café com leite e pão, e sai pela metade. sol, gente, sustos, dorme, chega. gritos, é assim. a molecada espera na fila. sala de aula, arrastam cadeiras, o giz no quadro, formiga a gengiva. cinco tempos, morre com farofa ao meio dia. almoça naquela pensãozinha xexelenta mas, tem papel no banheiro. volta, a mesa grande, cadê os óculos? médias, faltas, tá na hora. anda torto, a pasta pesa e cai, no meio do corredor. revoada, os papéis escapando das mãos. gritos, é assim. bomba-relógio, falta pouco pro fim do dia, pouco pro fim do mês ($), pouco pro fim do ano. quanto pro fim da linha?, conta nos dedos.
(Bruna Mitrano (1985) é carioca suburbana, professora da rede pública, mestranda em literatura portuguesa, leitora compulsiva, desenhista frustrada, bipolar e torcedora do Bangu. Escreve na revista Mallarmargens. Tem textos publicados no Jornal Plástico Bolha, no Fórum Virtual de Literatura e Teatro, na revista Germina e em outros espaços na Internet)