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85ª Leva - 11/2013 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Do sonho ao pó… ou breves considerações sobre o livro  O Chão e a Nuvem de Heitor Brasileiro Filho

Por Silvério Duque

 

 

 

 

ao poeta e amigo Antônio Brasileiro,
pois tudo que, aqui, se aplicar ao brasileiro de Jacobina-Ilhéus,
aplicar-se-á, muito melhor, ao brasileiro de Feira de Santana…
Esquecida no tempo, a alma procura
algo que, já não é, porque era tanto…
Emílio Moura

 

Fui presenteado, por seu próprio autor, com o livro O chão e a nuvem (Mondrongo, 2013), de Heitor Brasileiro Filho, e, sem perder tempo com a tamanha falta de tempo que muito me desagrada ultimamente, li-o de pronto e com muito apetite. E posso confessar que, com o manjar poético que Heitor Brasileiro Filho preparou para mim, bem como aos seus outros leitores, dei-me muito por satisfeito.

Poeta de alma e coração de ouro – por ter nascido na cidade baiana de Jacobina – e de verso e prosa atrelados a uma consciência tão lírica quanto rebelde – pois é escritor radicado em Ilhéus –, Heitor Brasileiro Filho revela-se um poeta de temas e formas tão engenhosos quão bem realizados, por mais que lhes faltem, muitas vezes, as técnicas clássicas que formaram nossa consciência literária ao longo de séculos e lhe sobrem aquele impulso de liberdade e, muitas vezes, de libertinagem, que nos é inerente desde a aurora do século passado. Dizer mais o quê, então…?!

Vejamos… À primeira impressão, o livro (com uma primorosa edição, diga-se, bem típica à qualidade que a Editora Mondrongo tanto gosta de prezar e presentear aos seus consumidores) não poderia me parecer melhor, porque os elementos estruturais da poesia de Heitor Brasileiro Filho revelam-se frutos de uma consciência artística muito vigorosa, sem que, em algum momento, venham perder-se de uma identificação realista tanto com a vida, em suas mais diversas impressões, quanto com a natureza, em seus mais diferentes sentidos, mostrando pouquíssimos traços com as influências românticas e modernas das quais a expressão poética brasileira, em sua atualidade, ainda se fia e se confia. Não que Heitor Brasileiro Filho não as possua; só não se dá ao luxo idiossincrático de revelá-las, sem nenhum pudor, a um público tanto preparado, bem como àquele pouco afeito a discussões poético-formais de quaisquer tipos, como é o caso deste que vos fala… – Oh, meu Deus!

Também, não é preciso, todavia, um diploma universitário de qualquer tipo para perceber que, em sua poesia, Heitor Brasileiro não é um homem de comportamento fechado – defeito terrível de muitos pequenos e grandes bardos –, digo: de se apresentar (enquanto poeta que é) fechado ao mundo. Como queria um T.S. Eliot, o autor de O chão e a nuvem não foge “ao desenho de autorretratos nem de confissões pessoais”, sem que sua veia poética se perca por causa disso. Tudo que se lê, em O chão e a nuvem, é de uma autonomia muito sagaz, e digo até sem vergonha, pois se lá existem temas fortes à pessoa de Heitor Brasileiro Filho, os mesmos poderiam ter um alto preço ao poeta.

Uma coisa é certa, este versificador de formas livres e, às vezes, até descuidadas, sabe (como poucos) captar a essência espiritual de pessoas de modos e vidas simples, somadas, evidentemente, aos modos e, quem sabe, à vida simples dele próprio. Seus versos, diga-se não só de passagem, têm uma espécie de engenharia que muito contribuem para isso. E, se não bastasse, aglomeram um imenso cabedal de sons, imagens e efeitos sinestésicos tão dissonantes, muitas vezes, que só poderiam terminar numa mistura tão inusitada quão intensamente reveladora. É o caso de versos como os contidos em Soluços Sísmicos:

Farto é o fogo
dos vulcões
julgados extintos

soluço sísmico
na contração do parto

pende um quadro
trêmulo
na parede do útero

Sem a distorção
da moldura
arde uma tela
de Cícero Matos:

deserto
a ser florido
rio morto
a ser aguado

Jacobina
não é apenas um retrato
na parede
um berço
a ser embalado.

 

os do intricado e revelador O grande espetáculo da terra:

 

Hoje não vou à Broadway –
pois não é que nunca vou à Broadway –
que importa fogo ou neve em New York?
Vou ficar para o grande espetáculo da terra

como o circo de Maru
com a rumbeira Margareth
e os clowns Chega-Chega e Batatinha
no ritmo inebriante de Tijuana Taxi

meu Deus, que fim levou a rumbeira Margareth
delírio da criançada de perdida infância
casou-se e foi para Feira de Santana

véus – muitos véus – iam-se dissolvendo um a um
agora grinaldas, o buquê, girândolas de pétalas
uma tiara de corações partidos
e aquela calda toda
……………………………..de branco

imagino-a sob o altar da Catedral
da sagrada Nossa Senhora de Sant’Anna
ao eterno som de Tijuana Taxi

“Pã! Parampampã-pã-pã-pã!”

(apoteose dos grotões de minha terra:
na aurífera
na agrícola
nessa imensidão distante e tão próxima
como a antiga cidade de Jacobina

sem o arpejo, o canto, o desespero de Bob Silva
sem o auto-faltante da Rádio Nacional
nem a doce viola de Paulo da China
numa esquina perdida da Rua Ana Nery
mas cristalizada numa antiga cantiga)

Há um momento em que os malabares
…………………………………..eternizam-se no ar

e o trapezista projetava-se
para o alto e precipitava-se
sobre um assoalho de taipás
para o delírio da meninada
………………………sem infância
sem rede
sem coração

e lá estava o homem-borracha
estatelado em linha reta
– e a linha tênue –
Na linha oblíqua do chão

“Pã! Parampampã-pã-pã-pã!”

Têm-se infância e memória?
A quem importa a ruína do Empire State?
Que importa a estrutura vítrea do Louvre
o burburinho do Quartier Latin
as ruínas gregas e as pirâmides no Cairo
o Coliseu e o túmulo de Tutacamon?

Meu Deus, o que importa
a privada de ouro de um sultão em Omã
se o levante do Oriente
é o que há de mais moderno?

Que importa aquele edifício em Dubai
ante o singelo pedido da natureza –
subcutânea tatuagem e a fina estampa da pele?

Deem-nos infância e memória
e ficaremos para o grande espetáculo da terra.

 

ou mesmo nos versos, como dirá Jorge de Sousa Araújo, de “solução simples e grande gozo estético”, contidos em Lirium:

 

quem
bem me
quer
não me
despe
……ta
……la

 

Mas cuidado, confissões de poetas não têm valor algum para a obra de arte se não forem compostas como obras de arte. E versos como os contidos em Soluços Sísmicos e O grande espetáculo da terra, bem como a todos pertencentes em O chão e a nuvem são bem mais que meras confissões de um menino ainda presente num homem adulto – tema, aliás, caríssimo ao velho Manuel Bandeira – mas que não se encaixa muito bem à obra de nosso jacobino-ilheense que, acima de tudo, quer se vestir de muita maturidade em tudo que faz e escreve. É preciso, antes de qualquer interpretação ligeira, ler tais poemas como uma grande crítica à política, ao mundo, ao cotidiano, à hipocrisia dos homens e outras tantas temáticas ali presentes e tão prontamente reveladas por uma poesia muito fácil de compreender; contanto que não se entenda “fácil”, aqui, como sinônimo de coisa pouca ou sem grandes significados, pelo contrário: um bom poeta, formal ou não, erudito ou afeito às cantigas populares, tem de saber dialogar com o público que carrega sua poesia e a quem ela pertencerá quando este se for deste mundo para se misturar ao húmus dos monturos e coisa e tal.

É impressionante a capacidade que Heitor Brasileiro Filho tem em criar uma espécie de background emocional em seus poemas, fazendo com que a força dos elementos significantes de seus versos pouco precise dever aos elementos de sua estrutura sonora ou rítmica, ao tempo que tudo isso nasce de uma disposição muito engenhosa, como já disse. Assim sendo, Heitor Brasileiro Filho pode muito bem se sentir à vontade para reivindicar temas tão pessoais e que lhe trazem conflitos tão arrebatadores, pois, ao se reportar novamente à infância, e com ela, por exemplo, a um circo de onde a alegria e a ingenuidade de menino dão lugar aos primeiros delírios eróticos de rapaz – como se pode facilmente perceber em O grande espetáculo da terra –, fica fácil, ao leitor, mergulhar no turbilhão composto tanto de alegrias bem como de profunda angústia; de esperança e tristeza; fantasia e realidade… e tudo o mais que se pode extrair mesmo de uma leitura menos cuidada de versos como os de Heitor Brasileiro Filho e que, em certos momentos, nos parece ser tudo que ele possui de real e de valor. Eis a força da sinceridade de sua lírica e da maneira apaixonada com a qual o poeta entrega-a ao seu público.

A facilidade em captar diferentes planos para um mesmo tema ou efeito imagético, independentemente de se tratar de um tema autobiográfico ou uma evidente intertextualidade, é, quem sabe, a parte mais bem elaborada de O grande espetáculo da terra e um caractere muito revelador em tudo que diz respeito ao seu livro, O chão e a nuvem. Com isso, Heitor Brasileiro Filho consegue poemas ao mesmo tempo tão belos quanto elaborados dentro da melhor técnica artística possível e compreensível, ou como dirá o professor Jorge de Souza Araújo, na apresentação deste mesmo livro: “um poeta que se chama Heitor – evocando acordes de um Villa Lobos – e é brasileiro no sobrenome e na natividade de ações afirmativas, tem, neste O chão e a nuvem, um agudo repertório de espantos, uma frequência de ironias, uns remates de mímeses, coincidências fabulares, diálogos e interlocuções com outros comparsas (a exemplo de Ferreira Gullar) a que não podemos deixar de apreciar e refletir”. Em suma: a poesia de Heitor Brasileiro Filho se quer uma poesia plena em sua essência, ou seja, quer nascer e se firmar através da documentação dramática que só a perplexidade aliada a uma carga lírica, tão técnica quanto emotiva, pode nos trazer.

Se há algo de realmente muito agradável na poesia de Heitor Brasileiro, mais até que a sua evidente capacidade poética, é a sua total incapacidade para o “mascaramento”, tão comum tanto ao poeta moderno quanto ao contemporâneo. Por isso mesmo, é mais que evidente que um poeta que escreve um livro como O chão e a nuvem se sinta tão livre para eleger temas como os que nele se encontram; capazes mesmos de fazer com que uma linguagem que não se pretende mais do que simplória adquira conteúdos às vezes tão mágicos e cujas metáforas possam abrir mãos de suas relações analógicas criando imagens tão dissonantes e símbolos tão dissolventes que, aliados a temas tão pessoais, e, não raramente, caros ao seu autor, capazes de trazer à superfície dos versos uma pesada carga de emoções – nem sempre agradáveis – possam criar poemas como esses: frutos de sonhos e de pó.


(Silvério Duque é poeta, professor, formado em Letras pela UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), e músico. É autor de “A pele de Esaú” (Via Litterarum, 2010), “Ciranda de Sombras” (É Realizações, 2011), “Do coração dos malditos” (Mondrongo, 2013). Seu próximo livro, “A moldura vazia”, está no prelo)


 

 

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79ª Leva - 05/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Desbravar visões e depois incorrer na tessitura das palavras. Qual semeadura de ventos, o ofício do poeta retorna da viagem com a colheita marcada por gestos infindos. Se pensamentos incomuns ou um mergulho na escuridão do mundo, saberemos em parte quando os sentimentos tomarem a forma de texto. Aquele que se põe a escrever, com propriedade e certa dose de resignação, deve saber que as incursões lhe reservam a sagração do mistério. Certo de que o caminho traçado não lhe confere status de impunidade, o artesão da palavra saboreia um banquete cujos ingredientes mesclam catarse e desventuras.

Entre nós, mortais que reinvidicamos a patente da racionalidade, habita o ímpeto de revolver o desconhecido, beijar-lhe a face e se enveredar por seus labirintos insones. Nesse trajeto, há quem não se deixe levar por meros devaneios e se dedique a olhar a existência com necessária porção de lucidez. Imbuídos dessa percepção, testemunhamos as escrituras de um autor como Heitor Brasileiro Filho. Sem esquecer os imperativos do lirismo, esse baiano de Jacobina ergue a sua expressão poética como quem vislumbra alguma ordem no caos que nos abraça. Ao poeta interessa moldar a palavra até que ela amplie suas frentes e atinja um patamar no qual o conformismo seja instância esvaziada.  Rechaçando a uniformidade das coisas, Heitor escreve como quem não está disposto a pactuar com verdades inventadas nem tampouco limitações de cunho moral. O efeito que extrai disso torna seus versos dotados duma provocação que arregimenta signos e outros tantos sentidos. Dentro de um caminhar de dedicada cumplicidade com as palavras, o que inclui a participação em antologias como “Diálogos: Panorama da Nova Poesia Grapiúna” (Editus – Via Litterarum) e “Bahia de Todas as Letras” (conto – Editus – Via Litterarum), eis que o momento presente celebra a aparição do primeiro livro solo do poeta, “O Chão & A Nuvem” (Editora Mondrongo). Nessa entrevista, Heitor fala sobre o significado do seu mais recente rebento literário, chama atenção para a obra do poeta Sosígenes Costa e pontua reflexões sobre o fazer literário. Depois dessa conversa, não há dúvidas de que estamos diante de um artífice que talha palavras numa busca que sugere uma virtuosa inquietude.

 

 

Heitor Brasileiro Filho / Foto: Marcos Penalva

 

DA – Depois de alguns bons anos de maturação e de estrada, você publica seu primeiro livro solo de poemas, reunindo versos recentes e outros guardados de outrora. Nesse sentido, julga ter achado o momento certo para romper o silêncio das palavras?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Demorei a publicar o primeiro livro individual. Entretanto, não há espaço para o silêncio nesse processo. Participo de umas duas antologias. Participei usando os veículos de que dispunha desde o jurássico mimeógrafo aos blogs modernosos, jornais tradicionais, suplementos sarados, revistas, cadernos culturais, parcerias musicais, levamos a poesia em parceria com músicos e bandas, como a experiência do projeto Rock & poesia, por exemplo. Fechamos o livro O Chão & A Nuvem, atendendo a uma solicitação da Mondrongo Livros, modesta e ousada Editora do Teatro Popular de Ilhéus, a pedido do poeta e editor Gustavo Felicíssimo. A editoração de livros neste País é uma aventura inconsequente, pra usar uma expressão análoga à Bandeira, por isso fui solidário à Mondrogo, fundada em 2012, em Ilhéus, no interior da Bahia. E estimo que ela a mim.  Lá estão poemas recentíssimos, cutucando o cão com vara curta e não menos flecheira. Juntei-os a outros testados pelo leitor mais exigente. Creio que deu bom resultado.

DA – Na apresentação que faz de seu livro, o escritor Gustavo Felicíssimo atribui à sua voz poética algo entre o lírico e o incendiário. Como concebe tais atributos?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Com naturalidade e certa resignação. Como ainda não conquistei a heteronomia (risos) com a qual se refugiou o genial Pessoa, concluo que a verve do poeta manifesta fidelidade ao temperamento do homem. Está em LIRIUM: quem / bem me / quer / não me // despe / ta / la, poema que me é cobrado desde 1983, não poderia deixá-lo fora deste livro. A assertiva é presente também em A Outra face: A poesia não aceita algemas / nem acredita em bombas de efeito moral // (…). Podemos denunciar a intransigência, o horror liricamente, veja em Burka da alma: Os arcanjos e as crianças / pegam em arma / como se tocassem o rosto do criador. O Gustavo estudou alguns dos meus textos e desenvolve trabalho analítico da nossa poesia contemporânea, trabalho de fôlego, ele que pretende publicar. O que me enobrece, vez que me situa entre meus pares e em boa companhia. Sua apresentação no meu livro é pouco econômica, mas não é cabotina, não erra com a afirmativa. O lirismo mais que convence, comove. Quando  “a dança das palavras entre as ideias” (vide Pound) rompe o cerco da indiferença, ainda que não demova a apatia coletiva ou vença a insensatez, avança contra toda essa brutalidade. Se a prosa libertária enfeixa bananas de dinamite, senhor dos interstícios é o lirismo. Penetra e vai além das reentrâncias. Implode estruturas de falsa solidez. A poesia nesse estado é glicerina pura.

DA – Em “O Chão & A Nuvem” vemos um olhar que parte dos cenários regionais, íntimos e, portanto, afetivos da memória rumo ao mundo globalizado que nos atropela a todo o tempo com suas complexidades. O que cabe melhor ao poeta: a contemplação ou o enfrentamento?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – São dois lados da mesma “moeda”, que não se rendem a escambo. Mais que uma questão de temperamento é um estado de espírito, não há recuo na contemplação. O enfrentamento em mim é um princípio pessoal impulsionado pela necessidade de me expressar para o mundo. Deem-nos infância e memória / e ficaremos para o grande espetáculo da terra (in, O Grande espetáculo da terra). O melhor lugar está dentro de nós. É com isso que iremos ao longe. Parto do princípio de que dignificar o mundo infantil é fazer adultos saudáveis, ou ao menos razoáveis. Sou neto de modestos fazendeiros de gado do semiárido baiano. Filho de um caminhoneiro com uma dona de casa. O natural era que aspirasse ser médico, advogado, engenheiro. Se o Drummond dizia-se fazendeiro do ar, que posso dizer? Fazendeiro do árido (risos). Foi aí que começou todo o enfrentamento. Mas nada sou sem minhas raízes. Daí, a importância do locus, o nosso lugar é nosso ponto de partida. Nessa ordem fui educado. Primeiro a escuta, depois a fala. O problema nosso é quando o silêncio conspira contra a dignidade humana, quando o fenômeno ocorre nas relações sociais e contamina até a famigerada política cultural. O desafio do poeta é o fazer literário. Chegamos ao ponto em que a contemplação já é um enfrentamento. Não o único, felizmente. Mas quando as relações se amesquinham ao ponto, não deixa de ser uma afronta à necessidade de ascensão social a qualquer preço, da avidez de poder e mando, pior, sob o manto sinistro da corrupção. Ao poeta cabe o fazer poético sem melindres e sem peias. Se isso vai mudar o mundo, responda-me quem o lê. A primeira mudança ocorre na gente, é de atitude. A literatura muda apenas a maneira como a gente vê o mundo.

DA – A lucidez é uma espécie de companheira quase inseparável de seus versos. Aceita, sem ressalvas, a condição de poeta inconformado pelo espanto que é existir?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Aceito, com as devidas ressalvas (risos). “Viver é muito perigoso”, diz Guimarães Rosa na voz do jagunço Riobaldo. Mas é preferível que seja gozoso. A materialidade da vida, a existência reduzida a efemérides, o cotidiano torpe e mesquinho zoando nossas perplexidades, enfim, o sublime e o grotesco são matérias-primas e combustível para minha criação poética. Não posso encarar a vida sem essas prerrogativas na formação de meus versos. Não posso reclamar do destino que escolhi, posso sim transformá-lo. Tampouco, posso aceitar o arremedo como opção de vida para meu semelhante. Ninguém é obrigado a aceitar a esculhambação que fazem com nosso país, nem uma ditadura midiática mijando a nódoa em nossa cara. Digo em A República & o Newmonarca: A res é pública \ mas não é pudica \ pasto de sacripanta \ posto que nos fornica.// (…) Pública é a res! / dita um monarca / bobo de outros reis / que regem a fuzarca. De fato, não há poesia sem perplexidade, ou “espanto”. Não tenho vergonha de ser feliz, tenho a mulher que amo, temos o filho que escolhemos. Gosto de dizer que felicidade não é conformismo. Como pode haver conformidade com um mundo em ebulição?

DA – Todo poeta é, em certa medida, um impostor?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Jamais. Ou é poeta ou não é. A poesia não representa, a poesia é. Ao fazer uso da verdadeira linguagem poética, o poeta não “quer dizer”, o poeta diz. O fato de ser uma das características da poesia a multiplicidade de sentidos, essa riqueza expressiva revela sua capacidade de revolver e expor os prismas de uma verdade. A verdade da arte. Poesia é transparência da alma. Entretanto, se a pergunta se refere à limitação do indivíduo em viver de sua arte, digamos que sim. Se é que é possível ser impostor de si. Sabendo que a impostura parte do mercado, a relação com o mercado editorial é esquizofrênica. Onde já se viu emprego de poeta? Não podemos viver sem poesia, mas não podemos viver de poesia. Isto não é uma escrotidão? É. No meu caso o eu-peão é quem sustenta o eu-poeta, quando ambos são indissociáveis, a mesma pessoa.  O mais incrível é que por essa condição a poesia ainda é uma arte livre, que não é escrava do mercado, não se curva à sevícia. Veja como a ostentação é a cara da pobreza. Meu sonho agora é ganhar dinheiro escrachando, poeticamente, toda essa escrotidão (risos). Não apenas o lirismo, mas, o humor e a ironia são badogues que valem por uma ogiva nuclear. A gente morre, vira lama, e a poesia fica aí… levitando. Como pode ver no poema “Poesia é ouro sem valia”, com título homônimo de um artigo de Ferreira Gullar, a quem dedico, estabeleço seguinte diálogo: perdoe-me a gula / o Gullar // poesia / não é ouro / é valia // ouro vale / quanto / o pesar // o quanto flutua / a poesia.

Heitor Brasileiro Filho / Foto: Arquivo Pessoal

DA – Sua trajetória aponta para um caminho em torno da obra de Sosígenes Costa, um poeta de cunho notável e que ainda permanece desconhecido por muita gente. O que o fez debruçar-se nessa pesquisa?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – O desafio. Minha primeira impressão sobre a arte de Sosígenes foi de estranhamento. Apesar de todo um domínio, de uma técnica, ele recusava a moda. Fui entender melhor. Havia apenas um exemplar de “Obra Poética” (1959) na biblioteca pública. Depois consegui cópia de  “Obra poética II” (1978) e “Iararana” (1979). É injustiça um poeta ficar mofando por mais de 30 anos. Embora o material fosse escasso, o escolhi como objeto de estudo para minha monografia de conclusão do curso de especialização na UESC. Só havia dois livros sobre sua poética: “Pavão parlenda paraíso”, de José Paulo Paes e “Sosígenes Costa: O Poeta grego da Bahia, de Gerana Damulakis. Li toda a bibliografia disponível, poemas, uma entrevista, e as crônicas que revisei para o livro de Gilfrancisco Santos, organizado por Hélio Pólvora. Garimpei alfarrábios, juntei textos esparsos tentando montar o quebra-cabeça. Mais escassa ainda é sua biografia, muita lenda, poucos fatos. Os contemporâneos estavam morrendo. Aproximávamos de seu centenário, procurei seus familiares e amigos em Belmonte. Uma epopeia: levei gravador e máquina fotográfica. Preparei minha “Violeta”, uma moto XR2000R que guardo até hoje, embarcamos em Canavieiras para Belmonte. Seguimos pelo Rio Pardo até o Estuário do Jequitinhonha. Em Belmonte, sua sobrinha Ana Rosa me confiou documentos. Colhi depoimento da Professora Mariinha, contemporânea de infância e também no Rio de Janeiro. Segui de moto para Santa Cruz Cabrália pra gravar entrevista com Naçu, o irmão caçula que tinha 79 anos. Não pude retornar por Belmonte para pegar o barco devido às chuvas. Enfrentei tempestade na estrada pra Porto Seguro. Tinha recursos para uns três dias. Fui acolhido na pousadinha Pôr do Sol em Trancoso. Retornei sete dias depois pra Ilhéus, debaixo de chuva impiedosa. Embora levasse material para uma Universidade e a Fundação Cultural na qual trabalhei, viajei às minhas expensas. Sou grato ao apoio da família e amigos, aos quais conquistei amizade e respeito. Retornei pra proferir palestra. Essa viagem me serviu para remontar sua ambiência de origem, sua formação de leitor, seus primeiros escritos, e desmistificar a imagem divulgada do poeta. Já nesse período, quando afirmei que  Sosígenes, com dicção própria, espírito combativo exprime solidariedade, preocupação com a pesquisa histórica revelando um rico vocabulário que não dispensa o coloquialismo da gente do povo, fruto da vivência e da pesquisa de termos de origem indígena e africana, as duas raças mais sacrificadas na constituição do povo brasileiro(…), os donos da cultura na Bahia deram de ombros. Recentemente, Herculano Assis, reuniu documentos colhidos em Belmonte e, no Rio, lançou Cobra de Duas Cabeças. A obra só confirma que Sosígenes não era apenas um poeta habilidoso, o sujeito tinha senso crítico, às vezes era ácido, mas bem humorado, antenado com a obra de autores então em evidência e com o desenvolvimento das letras nacionais.

DA – Quais traços julga serem marcantes nos escritos de Sosígenes Costa?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – A busca da originalidade, algo difícil de edificar em qualquer arte. Mas, sobretudo, a quebra nos paradigmas no que concerne o “enquadramento crítico-convencional da nossa Teoria Literária”. O cara era invocado, tinha integridade e não buscava sucesso fácil. Até sua poesia dita clássica, a sonetítisca dos pavões, admirada por dez entre dez acadêmicos dentro e fora dos quadrantes da Bahia, usa uma roupagem parnasiana rigorosamente metrificada, e ainda com floreios barrocos para incutir-nos um conteúdo moderno e com as cores locais, anseio do nosso Romantismo que conhecemos com uma das principais bandeiras do Modernismo, corrente que ele ainda implicava e batia através de sua Coluna de Sósmacos , em 1928, porque ainda não havia digerido completamente seu conteúdo. “Búfalo de Fogo” passou pelas mãos de muita gente boa como um poema meramente simbolista, telúrico, etc. Subestimaram o mestre-escola das roças de Belmonte, recém-chegado a Ilhéus, com apenas 27 anos de idade. Por trás daquela capa simbolista, o que temos lá é um épico denunciando o horror da invasão e da pilhagem. Imagine a cidade de Ilhéus, cidade-mãe da “civilização grapiúna” (vide Adonias Filho), qual “Búfalo de Fogo”, “fosfóreo”, “florescente”, sendo perseguida por centauros (“Centauras”), bichos perversos dados à desordem, invasão de lares, e cuja representação simbólica na mitologia clássica nos remete à barbárie? O Simbolismo, em essência, preconizava “a arte pela arte”, a contemplação e não o conflito. Em  “Búfalo de Fogo”, literalmente, o bicho pega! Portanto, um épico a ser estudado com maior acuidade. Veja que Sosígenes abre o poema da seguinte maneira: “Anoiteceu. / Roxa mantilha suspende o céu no seu zimbório / que noite azul, que maravilha / sinto-me, entanto, merencório”. Olha que tristeza retada… Depois faz um passeio pela Bíblia, pela história, pelas mitologias, com vocábulos nossos tão rebuscados que mais parece outra língua, uns duzentos versos depois encerra de forma emblemática: “(..) Protervos ventos em mantilha / como cem feras em regougo, / fazem da noite na Bastilha / revoluções de demagogos. / Ventos, ladrões de uma quadrilha, / depois do crime, vão pra o jogo. / dentro da noite, Ilhéus rebrilha qual Búfalo de Fogo.” De lá pra cá, passaram-se 85 anos. Agora repare na atualidade do tema! A sua poesia Modernista, talvez a mais visitada, novamente foge às regras vigentes. Menotti del Pichia, na Semana de Arte Moderna, em 1922, provocou a plateia: “Morra a Hélide!” Sosígenes seguia próprio caminho, depois criou o mito da falsa Iara (“Iararana”), fruto do estupro contra a Iara pelo centauro Tupã-Cavalo, “Mondrongo vindo das oropa” para invadir e usurpar a cultura nativa. “Iararana” remonta as origens da colonização portuguesa e vai até o processo histórico da formação da nossa cultura do cacau. Inadmissíveis para os primeiros modernistas eram os mitos da nossa civilização de origem indígena junto à mitologia clássica, portanto, de origem europeia. Os “ouropeis”, pra usar uma expressão irônica de Mário de Andrade. Sosígenes inovou no conteúdo ante a orientação modernista-primitivista desta primeira fase, a chamada fase heróica, e o fez ao seu modo. Usou elementos da tradição clássica para fazer uma poesia essencialmente brasileira, contudo, universal. Elementos presentes em outros textos, escritos a partir dos anos 30. Embora acusado de anacrônico, ele fez o diferencial e o complementar. Digo sempre que não é tudo que Sogígenes escreveu que eu gosto incondicionalmente. Mas, justiça seja feita, em toda área que atuou deixou peças de comprovada grandeza.

DA – De que modo a tradição pode dialogar melhor com a modernidade em matéria literária?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Não podemos negar aquilo que desconhecemos. A história tem sua dinâmica e a referência é a tradição. Não significa estacionar o olhar numa zona de conforto. A vanguarda de hoje pode vir a ser a tradição amanhã.  Na história dos movimentos literários uma tradição se sobrepõe à outra – não a suplanta – nem sempre por um processo de ruptura, mas de associação e superação. A boa leitura não apenas alarga os horizontes, às vezes deixa marcas indeléveis que vão além do consciente. É preciso saber ouvir a voz que habita nosso espaço interior. A partir de então, saber o que fala, como fala, de onde fala e para quem. Tudo isso, sem se privar da descoberta constante que é o fazer literário.

DA – Uma de suas máximas é afirmar que alguns de seus poemas foram premiados e outros ainda não foram corrompidos. Esse pensamento é uma espécie de antídoto contra a vaidade?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Mera tentativa. O antídoto ainda não foi inventado. Quando brinco com a vaidade humana, revelo meu jeito de ser vaidoso.

DA – Escrever aponta algum caminho de salvação?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Sim. A poesia salvou minha vida.

 

 

 

– DOIS POEMAS DE “O CHÃO & A NUVEM” –

 

 

 

 PEDINTE

 

A loucura bate à porta

do vaso das flores
sirvo-lhe o copo d’água

amanhã virá a consciência
em busca de comida

 

 

A REPÚBLICA & O NEWMONARCA

 

A res é pública:
mas não é pudica
pasto de sacripanta
posto que nos fornica

a res é pública:
como quer a grei
que escreve & publica
& não reconhece a lei

a res é pública:
se não ultrapassa
a verdade e a justiça
à venda e à mordaça

a res é pública:
não é de ninguém
de quem mais se furta
é do que menos a tem

é pública a res:
como será sempre
magarefe o rei
& o gado a gente

é pública a res:
como sempre foi
covarde a sangria
da farra com o boi

a res é pública:
mas livre de arbítrio
ao biltre da política
se eleito o estrupício

é pública a res:
privada só pra súcia
evacuar de vez
seu voto de astúcia

– pública é a res!
dita um monarca
bobo de outros reis
que regem a fuzarca

 

 

* Outros poemas do autor podem ser lidos aqui