Marcelo de Novaes

O gato anterior ao gato
Um vulto que se esgueira
à sombra da sombra.
Às vezes, volta ao breu,
como a bruma se afoga
num rio.
Seus olhos são mais
claros que os olhos
claros.
Ele é o gato anterior
ao fato anterior.
Mesmo anterior ao fato
anteriormente dado
a ele mesmo,
gato.
Isso não se explica:
acende-se uma vara
de incenso de mirra.
Nasce e existe,
salta e volta a
saltar, do início.
Salta sobre o meu colo e,
de novo, volta a saltar do
chão, sobre o meu colo.
Se eu me visse
pela primeira vez,
pelos seus olhos anteriores,
não me acharia humano,
nem me acharia.
Mas saberia da dor
de não me saber,
se multiplicada
por cem
pulos.
Ele veio por entre as
teclas do piano de
tampo fechado.
As copas das árvores
as sombras das árvores
se dobraram,
em arco.
Patas postas na soleira
da porta, sem pó.
Unhas arranhando
o chão de terra.
Ele me ensina névoa
de musselinas.
Ele é o gato anterior
ao fato
anteriormente dado.
Roça o tampo do piano
como se fosse
vidro.
Tira escamas
dos meus ouvidos,
e medo dos meus pés.
Ávido, porque
sem lugar
no mundo.
Seu lar é a fresta da música,
o intervalo entre as teclas
branca, preta e branca.
Listras, ele não tem:
qual lince, cor de
laranja.
É o gato anterior a mim,
anterior à minha volta,
anterior à minha
dúvida,
anterior à música,
anterior à pauta.
Zaratustra.
***
Chão Absoluto
A respiração presa. Desde que perdi a noção do amor e o sentido da distância. Desde que não pude mais [nem soube mais] atrair as flores, comandar o vento. Desde que me vi no Exílio antevendo, da morte, a antecâmara. Deveria ser amplo. Poderia ser. O sentido do ar me dando sentido [e estufando o plexo]. Deveria ser sol, e o céu não pareceria tão alto. E a terra não seria O Abismo. Deveria ser Amor, e não Intelecto. No entanto, é a este Chão que estou preso.
***
Acrílico
Ninguém tocará teu rosto
por detrás da máscara de
acrílico [onde há fumaça,
há fogo].
E o coração, muitas vezes,
parece ser órgão cansado e
estúpido. Clange e se arrasta
e plange, como carro de boi.
E ainda que não te possa tocar
a face, posso ouvir [e devo dizer
que ouço] esse roçar de carroça
em chão vermelho e pedregoso.
Olhe pra cima e respire
fundo: Aquilo é o Sol.
(Sou psicólogo por formação. Já trabalhei em AMEs e UBS nas periferias da zona sul de São Paulo, em ONGs [SOS Aldeias Infantis, CVV], consultório particular. Sei das artes um tanto, do mundo cão sei também um bocado. Escrevi alguma coisa que está espalhada na web [Corsário, Cronópios, Mallarmargens, Casa dos Poetas – Portugal -, dentre outros] e em alguns blogs. Publiquei o romance Cidade de Atys pela Ateliê Editorial, em 1998. Por escolha e ideologia [discordância com as regras do mercado editorial, fundamentalmente], só escrevo na net, agora. Assumo a escrita como ofício sem fins lucrativos)