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138ª Leva - 05/2020 Gramofone

Gramofone

Por Rogério Coutinho

 

O TERNO – <ATRÁS/ALÉM>

 

 

Uma das tentações mais recorrentes no estudo da obra de um determinado artista é dividi-la em vários períodos. Ainda que de forma controversa e simplificadora, fala-se das fases romântica e realista de Machado de Assis ou dos períodos coloridos e cubistas de Pablo Picasso, para ficar apenas em dois exemplos fáceis.

Quem acompanha o trabalho da banda paulistana O Terno e de seu principal expoente e compositor, o vocalista e multi-instrumentista Tim Bernardes, pode se sentir tomado pela mesma tentação. A banda, que lançou em 2012 seu elogiado álbum de estreia, 66, se notabilizou por um som com tintas neo-psicodélicas, um tanto quanto freak, na melhor acepção do termo.

Em <atrás/além>, o quarto disco do grupo, lançado em abril de 2019, há uma continuidade estética do primeiro voo solo de Bernardes, Recomeçar, de 2017, sem a companhia de seus colegas de banda Guilherme d’Almeida (baixo) e Biel Basile (bateria). Com o artista alcançando uma maior maturidade pessoal e criativa, <atrás/além> segue na procura por caminhos mais lapidados. As composições intimistas e melódicas mostram um Tim Bernardes com um sotaque próprio, típico de cantores-compositores de grande calibre.

 

O Terno / Foto: divulgação

 

Há uma grande coesão no álbum, muito em razão do grande zelo nos arranjos, que possuem uma qualidade cinemática, emoldurando os vocais cada vez mais idiossincráticos de Tim. Mesmo o balanço à Jorge Ben de “Bielzinho/Bielzinho” não soa deslocado e carrega alguns dos mesmos elementos de introspecção que permeiam os cinquenta minutos do disco. Aqui cabe destacar o talento de Tim não apenas como compositor, mas também como produtor, já que em <atrás/além> ele é creditado pela primeira vez na história da banda como produtor solo.

Tim Bernardes parece consciente de atravessar um movimento cíclico em sua vida e carreira, e os títulos das canções parecem retratar essa dicotomia: “Atrás/Além”, “Nada/Tudo”, “Profundo/Superficial”, “Passado/Futuro”. Ao se aproximar dos seus 30 anos de idade, Tim se autodiagnostica ao mesmo tempo no final de algo e no começo de outro, como nos versos de “Pegando Leve”: “Dividido, indeciso / Me cansam tantos hipsters e modernos de plantão / Me cansa ser mais um // Acabado, esgotado / Eu já cheguei no fim, recomecei e aqui estou eu / No fim de novo, eu”.

Ao mesmo tempo em que celebra a coletividade em “Nada/Tudo” (“Como é que vai, Vaquinho? Como é que vai, Luiza? / Como é, my brother Charlie? Salve, Tute, salve, Geeza! / Companheiro Bielzinho, porows, peixe, nóis, clubinho / Mari e turma da pesada, não me sinto tão sozinho”) e homenageia o baterista Biel Basile em “Bielzinho/Bielzinho”, O Terno se torna cada vez mais um retrato de Tim. Falta-nos o distanciamento temporal para classificar onde termina o período “Terno” e onde começa o período “Tim”, ainda que eles coexistam nos dois discos mais recentes, o solo do Tim e <atrás/além>. De uma forma ou de outra, sejam quais forem os caminhos futuros, O Terno e Tim Bernardes já se configuram como objeto de estudo obrigatórios na música brasileira dos anos 2010.

 

 

Rogério Coutinho é operário museal, podcaster e publicitário de formação, não-praticante. Um homem do interior, em vários sentidos.

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Destaques Gramofone

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Por Larissa Mendes

 

O TERNO – 66

 

 

“(…) E hoje faz sucesso quem faz plágio diferente”.
(O Terno, 66) 

 

Terno: grupo de três coisas ou pessoas; vestimenta clássica composta por três peças (paletó, colete e calça); sentimento de doçura ou suavidade. Seja qual for a vertente interpretativa adotada, ela dará pistas sobre as singularidades desta banda paulista formada por Martim Bernardes (voz e guitarra), Guilherme Peixe (baixo) e Victor Chaves (bateria). Fundada em 2006 pelos então colegas de colégio Tim e Peixe (Chaves completou o trio em 2009), 66 é o primeiro registro de estúdio da banda. Com um rock de roupagem retrô, letras inteligentes e bem humoradas, o videoclipe de seu single possui mais de 60 mil visualizações no youtube e a banda foi indicada ao prêmio Aposta VMB 2012, da MTV. Influenciados por Mutantes, Caetano Veloso, Beatles e The Kinks e apadrinhados pelo músico – e pai do vocalista Tim Bernardes – Maurício Pereira (Os Mulheres Negras, duo com André Abujamra), O Terno contou ainda com a presença ilustre do cantor Marcelo Jeneci tocando órgão hammond no álbum.

Como nos antigos vinis, as 10 faixas são divididas em lados A e B. Enquanto o primeiro lado é totalmente autoral, com composições de Tim, o segundo é formado por releituras de canções de Maurício Pereira. O single 66 abre o disco e dá o tom das inevitáveis comparações que qualquer banda nova sofre: ‘Me diz, meu Deus, o que é que eu vou cantar/Se até cantar sobre ‘me diz meu Deus o que é que eu vou cantar’/Já foi cantado por alguém/E além do mais, tudo o que é novo hoje em dia falam mal’. A melancólica Morto tem uma pegada blues, enquanto a divertida (e sádica) Zé, Assassino Compulsivo conta a história de um serial-killer deveras passional. Completam o lado A, Eu Não Preciso de Ninguém e Enterrei Vivo, talvez as mais expressivas canções do álbum. No lado B, pai e filho dividem os vocais e Pereira assume o saxofone. A inspiradíssima Quem é Quem (‘quem é quem pra dizer quem é o quê’) parece advertir os novatos contra eventuais rótulos. A graciosa (e quase sertaneja) Modão de Pinheiros faz um passeio pelas ruas do bairro da zona oeste paulistana e adjacências, enquanto Purquá Mecê, do disco Música e Ciência, d’ Os Mulheres Negras, de 1988, fala de pássaros e ganha arranjos mais melódicos que o original. Se Compromisso carrega nas guitarras para embalar a poesia de ‘um beijo terno/um abraço gravata’ de Pereira, Tudo Por Ti encerra o álbum em ritmo de ska.

Por razões óbvias, é natural a [boa] influência que Maurício Pereira exerça sob Tim Bernardes e O Terno, visto que a parceria entre compositor e banda data de 2009, quando os músicos foram convidados para elaborar novas versões para o padrinho, culminando no show O Terno & Mauricio Pereira. Além disso, sob o codinome “Pereirinha & Pereirão”, Maurício pai e Martim filho também tocam ao lado de convidados como Wander Wildner, Theo Werneck e do próprio Abujamra. Talvez Maurício Pereira tenha até seu terço de parcela no bom resultado final do cd, mas nada que comprometa os méritos musicais desses rapazes de 20 e poucos anos que, com letras elaboradamente irônicas, fazem um rock nostálgico, meso sessentista, meso anos 2000 e trazem um tom sépio às coloridas (porém, desbotadas) sonoridades atuais. Bem estruturado e com a classe que o modelito impõe, O Terno está devidamente repaginado e tem tudo para ser tendência na(s) próxima(s) temporada(s).

 

* 66 pode ser ouvido, na íntegra, aqui

 

(Larissa Mendes não usa tailleur nem black-tie, mas aprecia música de alta-costura)