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80ª Leva - 06/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Ergue-se um caminho especial quando um autor abraça as questões de seu tempo. A impressão que fica é a de que sua obra ganha uma dimensão algo mais ampla, pois amarra os dotes da subjetividade ao testemunho vivo e prático de um processo histórico que se constrói no dia a dia. Essa capacidade de observação da realidade a serviço dum exercício literário adquire corpo novo a partir do momento em que seus porta-vozes não se deixam levar pelas armadilhas de um discurso vazio e demagógico.

Entre nós, é verdadeiro achado descobrir quem o faça com habilidade e, sobretudo, sensibilidade. Ao percorrermos a obra de uma escritora como Rita Santana, temos a convicção de que o ato de maquinar palavras rompe barreiras meramente estéticas e assinala olhares bem lúcidos em lugares tidos como viciosamente preestabelecidos. Na construção de seus versos, Rita, ao mesmo tempo em que entoa seu lírico canto por sobre o novelo delicado da existência, sabe como poucos bolinar feridas tradicionalmente marcadas a ferro e fogo em nós. Sem levantar bandeiras despropositadas ou qualquer tipo de comportamento panfletário que o valha, a poeta, atriz e também professora ambienta seus cenários tendo como guia uma precisa e afirmativa veia feminina.

A condição de mulher aliada à de escritora fez com que Rita Santana ousasse acertadamente transpor barreiras de toda a ordem. Desde muito jovem, essa baiana, nascida nas paragens de Ilhéus, devotou atenções às questões que permeavam o entendimento de seu papel no mundo. Nomes como Rachel de Queiroz, Simone de Beauvoir e Clarice Lispector, dentre outros, serviram-lhe de guias na formação de uma consciência representativa do universo feminino. E a passagem do tempo mostrou que a autora de livros de poemas como “Tratado das Veias” (As Letras da Bahia – 2006) e “Alforrias” (Editus – 2012) vem ocupando um lugar cada vez mais consistente no universo literário. Sua estreia em livro se deu com os contos de “Tramela” (Fundação Casa de Jorge Amado), pelo qual recebeu o Prêmio Braskem de Cultura e Arte – Literatura, em 2004.  Nessa entrevista, Rita dá um verdadeiro testemunho dos processos que lhe tornaram escritora, reflete sobre o papel da mulher na atualidade, enfatizando a força que sua visão feminina de mundo empresta à gestação de suas palavras. É ler para crer.

 

Rita Santana / Foto: Edgard Navarro

DA – Seu caminhar poético, tanto em “Alforrias” quanto em “Tratado das Veias”, assinala um olhar carregado pelas marcas da existência. Ao mesmo tempo em que evoca delicadezas e traços sensíveis, promove embates entre carne e alma. O que dizer desses percursos que nos atiçam os sentidos?

RITA SANTANA – A existência atravessa as minhas preocupações desde os primórdios. Adolescente, ainda, decorei Essa Negra Fulô de Jorge de Lima e recitava aqueles versos sempre. A denúncia e o teor de resistência já mexiam com a consciência precoce da minha identidade. Fernando Pessoa estava por lá e me afetou muito cedo com o seu questionamento sobre Deus em O Guardador de Rebanhos. No mesmo período, Neruda – eu tinha 12 anos – estava comigo. Cem Sonetos de Amor foi o primeiro livro de poesia que tive e que me deixou marcas líricas muito profundas. Ainda nesse período, Dôra Doralina, de Rachel de Queiroz, fez uma revolução grande em todas as minhas certezas, pois trazia uma representação feminina muito vigorosa, ousada, cheia de desejos e de subversões. Lá, encontrei uma mulher dona de si, senhora do seu corpo, da sua vida, além da demolição completa da família. Tudo muito revolucionário para uma menina e tudo aquilo dinamitou o mundo pronto e formatado em que eu existia.  Mais tarde, Clarice Lispector me ajudaria a descobrir que a inadequação, medos, angústias e preocupações, pertinentes ao universo feminino e humano, poderiam ser a matéria-prima da minha literatura. O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, já estava em minhas mãos desde 1989, quando eu era uma jovem de 20 anos, e já manifestava minhas insatisfações em relação ao existir como mulher nesse mundo, posto que já havia em mim a revolta contra os lugares preestabelecidos para serem ocupados pelo gênero feminino. Os dramas de ser mulher e negra numa sociedade racista e machista também já se debatiam dentro de mim em todas as relações sociais, acadêmicas, amorosas, artísticas, familiares. É impossível não ser afetada por essas questões. A minha casa foi o primeiro espaço de constatações e de contestações. A escrita veio, portanto, como arma, como contradiscurso necessário para que eu assumisse o meu posicionamento político e poético no mundo.

Há repressão também na linguagem da mulher e sempre me rebelei contra essa violência. Em Tratado das Veias, por conseguinte, por ser um livro que obedece – principalmente nos primeiros momentos do processo criativo – ao fluxo de consciência, esses questionamentos existenciais são mais contundentes e o erotismo mais agressivo, mais urgente. A literatura que faço tem um compromisso fundamental com a beleza. Acredito que haja nas páginas do Tratado um lirismo abundante, permeado pelo erótico e pela mulher política em que me transformei. Otávio Paz, em Amor e Erotismo, diz que “a relação entre erotismo e poesia é tal que se pode dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poética corporal e a segunda, uma erótica verbal”. A minha linguagem poética busca exatamente esse diálogo entre um corpo e uma língua completamente libertos, cujos símbolos são transmutados em favor da sonoridade, da imagem, do belo, da delicadeza e do inusitado dessas combinações. O prazer sexual sempre foi uma forma de resistência, alvo de perseguições e ele está atrelado ao grande tema dos meus poemas que é o Amor. O Amor é imprescindível a minha escrita porque também sou romântica e, num processo consciente, o desconstruo porque o questiono e sei da sua natureza perversa na construção da independência e da libertação feminina – muitas vezes.

A poesia é o espaço da rebelião da linguagem, onde ela se nega a servir simplesmente ao convencional, ao lógico da língua, das regras. Sou muito simbolista, pois tocada pela sonoridade, pelos sentidos sinestésicos da existência. Sou aquela que vê no símbolo o exercício de uma experiência onírica, musical. Essa marca herdei também de Cruz e Souza: vozes veladas veludosas vozes, cuja impressão sempre me perseguiu. Sou – também eu – uma Emparedada. A poesia é o espaço da libertação dos sentidos e as aliterações, cores, odores e os processos metafóricos me perseguem. Quando atrelo o poético ao erótico, a feitiçaria inunda o espaço do poema e da existência. Em O Arco e a Lira, Otávio Paz já tocava na experiência da litania. Esse ebó, essa hóstia, essa festa onde o profano e o sagrado comungam da mesma linguagem, do mesmo rito, do mesmo banquete, da mesma oferenda, num único cântico. O poema é o lugar onde carnes e êxtases, palavras adormecidas e imagens se confundem. E o amor pode ser libertação e a poesia, alforria. Alforrias é o resultado dessa busca, dessa tentativa de ser liberta e atrair palavras e sons alforriados.

DA – Você trabalha a questão do feminino de um modo deveras especial, sobretudo como objeto de contestação a certos valores negativamente arraigados em nossa sociedade. Chama atenção mesmo é o fato de seus versos não reverenciarem o amor servil. Como conceber o amor num tempo em que parecemos tão carregados de contradições e alguns retrocessos?

RITA SANTANA – O amor é uma grande armadilha! A nossa formação folhetinesca é deformadora. O amor romântico – cujas raízes estão no amor cortês do século XII – ainda hoje ronda o nosso imaginário. Há um bombardeio social de fórmulas e idealizações amorosas dificilmente praticáveis na vida real, mas, muitas de nós, alimentamos essa ilusão, mesmo reconditamente. Entretanto, a vida é muito severa e cobra posturas da mulher para que ela resista e imponha – já que a negociação nem sempre é possível – o seu pensamento e as suas decisões diante do Outro. A primeira imposição que se estabelece é a da liberdade e ela nem sempre é azul. A liberdade é vermelha, feita com lágrimas, sangue, suor, trabalho, estudo e muitas rupturas. No relacionamento amoroso essas cisões são inevitáveis, visto que a liberdade financeira e o olhar para os nossos próprios desejos são incompatíveis – em alguns relacionamentos – com as expectativas masculinas em relação à mulher.

A nossa sociedade é profundamente machista. Até num barzinho, observa-se a insistência de alguns homens em dominarem a conversa, monopolizando o discurso e ignorando as tentativas de interlocução das mulheres. Nas ruas da Bahia, a grosseria e as ofensas com cunho pornográfico são tão frequentes que já fazem parte da paisagem. Propaga-se a cada dia o sintoma patológico de agredir – verbal e fisicamente – mulheres sem quaisquer cerimônias. Nas nossas ruas, homens dirigem olhando traseiros e nos lançando palavras obscenas, atrapalhando o trânsito e também o transitar do respeito e da liberdade. Daí a importância real da Educação, da introdução dos Estudos de Gênero na formação das educadoras, da sua valorização salarial que, ainda hoje, é prática discursiva circunstancial e eleitoreira. Políticas públicas mais efetivas para a libertação financeira da mulher colaborariam efetivamente para a redução da violência física e verbal contra elas, principalmente nos seus santos lares.

A mulher que ocupa os espaços públicos enfrenta, no território amoroso, a difícil arte do convencimento, da lógica, da dialética constante, do ciúme e das negociações. No terreno privado, o controle é muitas vezes masculino, principalmente quando há domínio financeiro. O amor não é uma instituição neutra, onde prepondera o sentimento e o desejo de estar com o Outro. É um terreno onde vivenciamos todas as mazelas sociais.  É uma construção social que lentamente desmorona para muitas pessoas, principalmente as muito ávidas, sequiosas de liberdade, de espaço, de reflexão e de felicidade. O homem ainda não consegue encarar o discurso da mulher, pois – segundo Maria Rita Kell – a fala representa simbolicamente o falo e isso apavora. Algumas pessoas conseguem vivenciar o amor romântico, encontram seus pares e, ainda que enfrentem uma série de dificuldades e obstáculos na convivência, estão determinadas a seguirem o projeto romântico de felicidade. Essas são as consideradas felizes, plenas. Só suas consciências o saberão.

A janela era o espaço – no século XIX – do único diálogo entre o mundo privado e o público para a mulher. À mulher era destinado o espaço privado. Já pulamos a janela, invadimos as ruas, principalmente as mulheres negras que anteciparam essa invasão há séculos, devido à sua livre penetração em espaços proibidos às brancas. O trabalho nas ruas do Brasil escravocrata foi também uma espécie de alforria.  Novas janelas são abertas hoje, mas desmontar, no nosso imaginário, essas construções que já viraram ruínas é muito difícil, e não apenas para o homem, que precisa repensar o seu lugar no mundo e na vida da mulher de hoje. É também complexo para nós – mulheres – que observamos com lucidez o fenômeno amoroso. Raciocinar o amor é necessariamente desconstruí-lo, destituí-lo da sua edificação romântica e começar a reinventar uma vida longe dos velhos clichês. O Amor está ruindo para muitos. Restará o desejo de realização com o Outro, mas não no outro, certamente.

Meus versos devem perturbar alguns homens, pois a estratégia de resistência da minha escrita é provocar reflexões e expor que também somos absolutamente humanas, sexuais, eróticas, livres, possuidoras do Verbo e desejosas de felicidade. Meus versos buscam esse amor idealizado, mas o desnudamento faz-se necessário. É preciso denunciar a covardia de homens diante de mulheres que tomam o verbo como instrumento de reflexão, de análise do cotidiano e da sociedade. Acredito que muitos amores tenham se perdido diante do medo masculino em ceder a alguns dogmas, convicções, pressupostos, por isso abdicam de mulheres poderosas ao seu lado. Vê-se em estatísticas o índice de divórcios entre casais em que as mulheres galgam níveis acadêmicos mais elevados. O estabelecido é que a mulher ocupe o papel passivo daquela que está em casa para apoiar a ausência do marido, enquanto ele cresce. Apoiá-lo na volta ao lar diante da sua traição, apoiá-lo durante suas crises existenciais que abalam o relacionamento. O oposto não é aceito! A mulher que trai ainda hoje tem que viver inquisições medievais.

Não há retrocessos! Estamos buscando, aprendendo, e a experiência amorosa é muito pessoal e cheia de conflitos, contradições, paradoxos de toda ordem. O amor é diverso e o difícil é encontrar alguém que queira experimentá-lo da mesma forma que você, afinal cada um de nós é tão cheio de especificidades, idiossincrasias. É preciso viver cada um a sua forma, a sua descoberta – e isso às vezes leva décadas e requer muita coragem! Adorei ler algumas cartas de Simone de Beauvoir a Nelson Algren, pois desfiz a ideia de que Sartre fosse o seu grande amor. Amei ver Simone absolutamente humana, insegura, mulher amorosa, amante, e absolutamente apaixonada por outro homem. Devo retomar essas cartas algum dia. O fato é que nos apaixonamos! E a armadilha também pode ser maravilhosa, se houver cumplicidade, respeito e parceria. Caso contrário: “Aos demônios o cacete dos homens demasiadamente homens!”. (Alforrias, 57)

DA – Sua verve poética está impregnada do que você chama, em Tratado das Veias, de “eu sáfico”. É impossível dissociar sua voz dessa marcante simbologia?

RITA SANTANA – É impossível! Sapho é uma mulher impressionante e fundamental na minha escrita e na história da humanidade. A sua imagem acompanha muitos dos meus versos, principalmente em Tratado das Veias. No poema Ciúme, eu digo: “O que me resta é entrar na roda e tergiversar/Ou só versar, tocar minha lira/E virar Safo de mármore na praça de Ilhéus,/ Minha Lesbos abandonada.”  Declaro-me sua filha no poema Anjos Negros: “são anjos cultos, sarcásticos, sacros somente nos altares. Nas minhas asas são libertinos, vorazes. E eu, filha de Safo, gosto muito.” Eu sou uma ilhoa, ilheense e na minha cidade natal – Ilhéus – há, na praça J.J. Seabra, uma belíssima estátua de Sapho que está lá desde 1924, portanto, a sua imagem é um ícone misterioso que sempre esteve a olhar para mim e a proteger os meus versos. Os meus poemas são sáficos porque sempre tive a necessidade de ter a lira para acompanhar o ritmo dos textos – inclusive da minha prosa – nessa busca por uma música invisível, insondável que tento buscar quando escrevo. Mesmo quando ausente em citações, a sua lira me acompanha. É óbvio que é a minha lira! Lira negra, não aristocrática – mas com tons clássicos – que se mescla à herança dos meus ancestrais, às suas cordas, às suas danças, às chiuhumbas de quatro cordas que meus parentes negros trouxeram da cultura africana com a diáspora, e que está no meu sangue.

Ela é a décima Musa proclamada por Platão. A sua insurgência em tempos tão remotos sempre me impressionou, apesar de não me sentir – em muitos aspectos da minha prática cotidiana – uma transgressora. De vez em quando, olho-me ao espelho e reconheço ser uma grande guerreira, mas, muitas vezes, sinto-me fraca, covarde, pequena, indigna. E Sapho simboliza essa mulher cuja obra resistirá ao fogo, ao tempo e à incineração católica que a sua poesia sofreu no século XI. Há um lirismo dramático em meus versos que vem da atriz, mas que também herdei dela, da sua ira. Assim como observo um desespero amoroso, uma insanidade passional terrível, um enfrentamento agônico diante de amores frustrados, impossíveis que estão presentes na minha escrita e na dela. Ela é dramática, suave, intensa e o ritmo dos seus versos é sedutor. A sua métrica admirável está a serviço da expressão e não o oposto, isso me encanta. Arrebata-me.

DA – Em que medida a sua porção de escritora converge com a de educadora?

RITA SANTANA – O conhecimento é imprescindível! Adoro aprender e conhecer coisas novas. Sou apaixonada por descobertas e a professora me proporciona essa experiência contínua. Os livros didáticos – escolhidos pelo corpo docente – já são mais interessantes, atualmente, com informações sofisticadas sobre arte, literatura, teoria, e isso me motiva bastante a divulgar e dividir tais conteúdos com os meus alunos, ampliando nossos horizontes.  A leitura de mundo é marca indelével a minha prática. Eles – os livros – dialogam com o mundo inteiro e trazem informações que me seduzem, além de promoverem uma cumplicidade apaixonada entre os alunos – afinal um novo mundo é descortinado. Sou a mediadora desse processo mágico, perturbador, revolucionário. É prazeroso testemunharmos essa transformação – lenta – da escola pública brasileira. É uma verdadeira conquista o direito ao livro. Além disso, a minha cosmovisão, minhas leituras, experiências como atriz e paixões intelectuais oportunizam grandes encontros na nossa convivência pedagógico-passional. Pois, sem tesão, não há!

Estar em contato com os adolescentes traz também uma atualização permanente do português falado, recriado e reinventado a cada dia. Surpreendo-me com a criatividade linguística da juventude, sorrio muito e valorizo esse falar gostoso dos jovens. A escritora observa atentamente tais fenômenos. Às vezes, na sala de aula, surpreendo-me diante de algum texto, alguma referência desconhecida, alguma observação de um aluno. Vejo que a atriz, a escritora e a professora constroem uma harmonia com outras tantas Ritas que há em mim. Elas criam – juntas – um universo muito peculiar e criativo. O que escrevo é fruto dessas coexistências, desses desdobramentos.

Tive professoras de Português absolutamente indiferentes ao prazer da leitura, ao encontro com escritores e seus textos, aprisionadas que eram a uma gramática sem relação alguma com a descoberta da nossa Língua. Uma ortodoxia asfixiante e improdutiva que distanciava – e ainda distancia – o encontro do estudante com a Beleza. Precisamos da literatura em sala de aula para tornar o nosso aluno mais humanizado, mais sensível.  Sinto, à medida que esse elo se estabelece, que temos cidadãos melhores, mais delicados no tratamento social, mais conscientes e mais gentis. A arte educa, informa, modifica. Por isso a responsabilidade de um país com a Educação é muito grande, afinal, somente ela poderá provocar fundamentais mudanças na sociedade. Vejo o potencial dessa transformação todos os dias. E o que vejo é um verdadeiro milagre, um pasmo essencial. Negligenciam o óbvio, enquanto isso, a violência nos atinge em todos os espaços. O professor Raimundão no meu universo adolescente foi capaz de promover o encantamento pela poesia em muitos de nós jovens, rebeldes e sequiosos de libertações, em Ilhéus. É um professor que tatuou o seu nome – através da poesia – em nossas almas, por isso é eterno.

Rita Santana / Foto: Edgard Navarro

DA – Não é difícil encontrar mulheres que incorporaram visões machistas, reproduzidas no comportamento ou nas ideias. O que, de fato, isso pode representar?

RITA SANTANA – Os Estudos Feministas sobre as Relações de Gênero são ricos em análises que elucidam as conexões de poder na sociedade. O desconhecimento desses processos históricos gera a naturalização do estabelecido. Precisamos divulgar nomes, biografias e a produção intelectual das mulheres que sofreram inquisições ao longo dos séculos. Estudar a colaboração perniciosa das ciências na difusão de mitos sobre a mulher, onde a própria loucura e a histeria eram atribuídas insistentemente ao gênero feminino, faz-se urgente para a transformação não apenas da ideologia dos homens e das mulheres, mas de toda a sociedade. Tudo passa necessariamente pelo investimento em Educação. Se fôssemos formados sabendo de mulheres como Nísia Floresta, que manteve uma relação afetiva e intelectual com Augusto Comte no século XIX, devido à sua extrema competência como pensadora e revolucionária, talvez tivéssemos mais respeito às mulheres que atuam nos espaços públicos, mulheres que produzem conhecimento. A omissão desses fatos nos livros didáticos fortalece o equívoco de que tais posições eram apenas ocupadas por homens. Gerações são formadas ignorando a luta e a presença de mulheres na história do País e da sua formação. As escolas deveriam divulgar a produção feminina do século XIX em paralelo com os estudos dos romances masculinos. Li Lésbia de Maria Benedita Bormann e aprendi com ela aspectos sociais do Brasil do século XIX nunca abordados pelos autores clássicos do período. A Editora Mulheres faz um trabalho de divulgação importante de muitas dessas personalidades que fizeram a História. Aqui na Bahia, é imprescindível conhecermos figuras como Jacinta Passos, divulgada inicialmente no livro da escritora Dalila Machado, A História Esquecida de Jacinta Passos, e Elvira Foeppel, estudada pela pesquisadora Vanilda Salignac S. Mazzoni no livro A Violeta Grapiúna Vida e Obra de Elvira Foeppel; Bárbara de Alencar, no Ceará. Publiquei alguns desses estudos e publico muitas escritoras no meu blog Barcaças exatamente para contribuir, minimamente, com essa transformação. É um trabalho de formiga! Mas conhecimento e estudo não são suficientes, é preciso revolucionar a nossa forma de educar! Muita gente ilustrada resiste a admitir a necessidade de uma transformação nas mentalidades e no cotidiano das relações e nos acusam de machistas ou de mulheres-machos. As fogueiras ainda ardem e queimam a nossa carne! Entanto, Resistimos, Escrevemos!

 

DA – Somos um país de leitores subestimados?

RITA SANTANA – A leitura não é a única prioridade em minha vida. Adoraria que fosse, mas preciso trabalhar 40 horas para sobreviver. Eu me sinto exausta quando cumpro essa carga horária estúpida. Logo, preciso dedicar algumas horas ao vazio, ao nada para me recuperar e começar tudo de novo. Assim deve ser a rotina de muita gente trabalhadora no mundo. Leio quando há tempo, quando estou disposta e leve. Quando a leitura assim acontece, ela é plena e provoca desejos e projetos de escrita, desejos de outras leituras. Não sou uma obcecada por números de livros lidos durante o ano – como se estivesse em uma competição invisível – mas estou sempre atenta, iniciando leituras que às vezes demoro meses para concluir. Enquanto não leio livros, leio a realidade, ouço falas, músicas, discursos, paisagens, cores, movimentos, pessoas. O meu trabalho envolve livros e leituras diárias. Estive em Amargosa, na Bahia, para o lançamento do livro da professora Ana Rita Santiago Vozes Literárias de Escritoras Negras e, além do evento em si, que foi uma oportunidade de muitas aprendizagens e leituras, li muito a paisagem montanhosa do lugar e fiquei realmente deslumbrada. Não sai da minha cabeça a redondez daquelas montanhas.

Sempre que penso nas minhas leituras, incluo os filmes e as músicas, os compositores que formaram a minha personalidade, o meu estilo. Os livros são possibilidades – entre tantas – de leitura. Adoro cinema e também gostaria de ter mais tempo para assistir aos filmes do meu desejo. Adoro ir a exposições e museus e não encontro muito tempo para esses prazeres. Aguardo o metrô chegar até a Lauro de Freitas. Sou louca por fotografia. Tudo isso me tortura bastante, portanto, ler é um universo muito mais amplo. Ler o mundo, disse Paulo Freire. Ele esteve na UESC, a minha Universidade que fica em Ilhéus, e foi um verdadeiro acontecimento! O auditório foi incapaz de abrigar os seus leitores e ele teve que falar para uma multidão que se estendia infinitamente pelo Campus. Foi uma multidão de leitores apaixonados. Uma cena marcante, cinematográfica, maravilhosa. Lemos ali, os seus olhos, a sua postura, o seu magnetismo e a concretização do seu pensamento.

Quando estive na França, fiquei deslumbrada com o número imenso de pessoas que liam no metrô, nas ruas, em todos os lugares. Mas essa é uma construção cultural, uma conquista histórica. Quando – a cada ano letivo – trabalho com os meus alunos a ciranda de leitura, onde disponibilizo livros escolhidos por eles para que os levem para casa, o resultado é sempre um mundo de meninos e meninas envoltos em leituras durante as aulas vagas, as férias, os intervalos. A paixão é acesa e não se apagará. Oportunizar a leitura é essencial e ser um professor leitor, pesquisador é indispensável para a proliferação da leitura entre os jovens.

A Educação é que – de fato – precisa ser revista em sua completude, e muitos caminhos são abertos, mas tudo ainda é insuficiente porque há urgências seculares esperando políticas mais sérias. Muitas bibliotecas das escolas públicas estaduais e municipais na Bahia são tratadas com descaso: profissionais com problemas de saúde são jogados lá, como traças, sem quaisquer envolvimentos com a leitura, sem qualquer afinidade com o espaço. As nossas bibliotecas são depósitos em todos os sentidos. A biblioteca do colégio em que trabalho passa grande parte do ano letivo fechada, e isso há anos. Os problemas um dia serão resolvidos. Quando? Muitos já deixaram o colégio sem terem vivenciado esse momento, essa felicidade que não chega nunca em toda a vida.  A nossa cobertura da quadra esportiva desabou devido a uma tempestade, há muitos anos. Agora a reforma está sendo feita – sem cobertura! Copa do Mundo, Olimpíadas e as atividades esportivas, e os espaços de leitura são um verdadeiro descaso no Brasil. As drogas, os traficantes e a violência invadem esses espaços vazios, essas lacunas e as vítimas somos todos nós. Eu leio muita coisa que me foi ensinada – também – pelos livros. Ler Gil, Caetano, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Joyce, Fátima Guedes, Elomar Figueira de Mello, Dércio Marques, Elizete Cardoso, Dolores Duran, Legião, Titãs, Cartola, Chiquinha, Chico, Cazuza, dentre tantos outros, foram grandes aprendizados, grandes leituras.

DA – Há quem reduza o fazer poético a uma obstinada busca pela matemática dos versos, espécie de sustentáculo do algo puramente formal. Na outra ponta, existem os que defendem a utilização do verso livre de amarras mais tradicionais. Enquanto isso, grupos se formam e os debates se tornam acalorados e conflitivos. Não estaria a vaidade desmedida ocupando o lugar da boa discussão literária?

RITA SANTANA – O universo dos escritores é cercado realmente de muitas vaidades e competições. É um mundo excludente e áspero quando vivido muito intensamente. Os bastidores são cobertos de acusações contra aqueles considerados ruins, incompetentes, não escritores. Não acredito na solidez desses julgamentos, como não acredito no caráter de muitos desses escritores. Deixei de ler alguns deles devido à sua ideologia conservadora, declarada em entrevistas e em prefácios dos seus eleitos. Tudo isso é uma fraude. É uma grande tolice! Há espaço para todas as correntes no mundo e as tribos elegem-nas pela paixão, pela identidade, pelo pertencimento, pelo estilo que cada escritor apresenta. Ainda é preciso dizer: Abaixo os puristas?

Quando me sinto diretamente atingida em suas falácias classificatórias, aproprio-me do seu discurso e o transformo num poema metalinguístico. Transformo em verso suas maledicências estéticas prepotentes e afirmo a minha poesia desprovida dos sentidos esperados por alguns canonizados, consagrados, monstros sagrados da Literatura. Há ideologia em todos os julgamentos, portanto, nada é puro e nenhuma verdade é única, absoluta. O talento ou a competência não são os únicos fatores que determinam a sorte de um escritor. Os mecanismos da crítica e do cânone já foram denunciados, revelados e não é mistério para ninguém a rede de articulações e interesses que envolvem o reconhecimento ou a legitimação de um escritor, como também a sua invisibilidade. Por isso, é primordial para quem escreve não sofrer por ser preterido aqui ou acolá. É uma aprendizagem difícil, mas eu não escrevo para escritores, eu escrevo para me curar de mim mesma e dos meus males, das minhas dores e dos conflitos que me atordoam. Escrever é uma necessidade de aproximação com o Belo (e quantas facetas essa entidade possui) e é uma necessidade física de expressão.

Vivemos um momento tão rico da Literatura, onde muitos escrevem, publicam, divulgam seus textos e há sempre uma tribo que os queira, que os leia, que os legitime. Qual a importância dos rótulos? O movimento é muito rico e como é prazeroso trocar figurinhas com escritores que não ocupam o seu tempo com classificações ordinárias. O problema que atinge os escritores é o mesmo problema social das elites brasileiras, ou seja, não suportam dividir o título de escritor e seus lugares sagrados com pobres mortais desconhecidos, negros, mulheres, oriundos das classes populares, com seus erotismos exacerbados. Entretanto, as políticas afirmativas estão aí, os mecanismos de escrita e divulgação também tomam espaços cada vez maiores e a convivência entre estilos só pode ser festejada. Métrica? Não métrica? Como leitora, aprecio um poema quando ele me atinge pelo que julgo e sinto poético. Os velhos sapos não conseguirão impedir a construção social mais igualitária e menos discriminatória da sociedade brasileira, inclusive na Literatura! Tornam-se, dessa forma, anacrônicos parnasianos que fazem do seu julgamento estético – que é pessoal, subjetivo, ideológico – uma sentença inquestionável!

Percorrendo estantes de uma livraria outro dia, ouvi duas senhoras distintas conversando, e uma delas disse: também… todo mundo agora é escritor! Pois é! Escrever não é mais um ato destinado aos deuses e privilégio de uma elite intelectual e econômica ou de uma etnia! Essa constatação perturba muita gente. E é justamente isso que possibilita podermos entender e conhecer o universo de Maria Carolina de Jesus, afinal, Clarice Lispector não me daria a amarelidão da sua fome, as estratégias da sua sobrevivência, a poesia negra, lírica e política dos seus cadernos. Clarice me deu muitas outras coisas. Como é bom perceber o fôlego religioso e lírico de Lívia Natália ou os arroubos dialógicos e eróticos elaborados por Daniela Galdino. A poesia cotidianamente existencial de Martha Galrão ou ainda as sinestesias telúricas e límpidas de Lita Passos. O leitor está aí para fazer suas escolhas. E ele o faz e surpreende. Aos demônios as penas absolutistas também!

 

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

RITA SANTANA – Na verdade, considero muito esdrúxulo classificarmo-nos de pós-modernos diante de um quadro de intolerância tão grande no mundo e na literatura. Acabo de participar de um encontro numa Universidade da Bahia, onde um grande e reconhecido escritor fez questão de desqualificar a literatura atual e chamar de bocó qualquer literatura que se denominasse negra. Isso ocorre na Bahia, mas no plano nacional acabamos de testemunhar – atônitos – o texto de Ferreira Gullar sobre a inexistência de literatura negra e a resposta fabulosa que Cuti lhe dera. Como admitir o pós-moderno, se o sentimento de pertencimento ainda é ignorado ou desprezado pela sociedade e esse tipo de postura é aplaudida por jovens universitários e seus professores? É bizarro! Posicionamentos étnicos e de gênero continuam sendo desprezados por intolerantes legitimados, canonizados.

O sistema de transporte público coletivo – mesmo em tempos de Copas – persiste em sua condição de inexistência ou de precariedade e sujeira. A estação da Lapa, em Salvador, continua o mesmo horror de insalubridade e abandono. O formato das escolas, presídios, hospitais: tudo permanece. O ponto de ônibus do Aeroporto Internacional de Salvador – que deveria ser Dorival Caymmi, Jorge Amado ou Dois de Julho – tem o mesmo tratamento imundo que qualquer estação rodoviária recebe dos poderes públicos na Bahia. É duro ser cidadão pobre no mundo inteiro, mas na Bahia é duríssimo! Só há tratamento estatal, preocupação com a higiene e o belo nos locais onde circulará a elite.

Penso em Gregório de Matos, que viveu um período de profundas transformações e expressou esses paradoxos em sua obra lírica, satírica e religiosa. Também vivemos em tempos paradoxais, barrocos numa Bahia que já principiava a viver sua globalização desde lá, entretanto, assistimos ao nosso patrimônio desmoronar cotidianamente. Igrejas abandonadas, artistas esquecidos, abandono da memória, sobrados queimados que desaparecem todos os dias. O que pode haver de pós-moderno em tudo isso? A Jornada de Cinema da Bahia – idealizada por Guido Araújo – que deveria ser tombada como patrimônio imaterial da Bahia ou do Brasil – ou qualquer coisa que o valha – vive o seu fim sem que haja interesse dos poderes públicos para a sua permanência.

Como, pois, denominar de pós-moderna uma sociedade em que não há ainda saneamento básico numa cidade como Lauro de Freitas? Vivemos há anos aguardando os serviços de uma verba nacional – que já foi paga – destinada aos esgotos da cidade. Ainda há uma distância tão grande entre o plano teórico, os discursos que conceituam o momento em que vivemos e o cotidiano das gentes. Estava olhando um livro maravilhoso sobre Emanoel Araújo e pensei na completa separação entre a sofisticação espetacular da sua arte – apenas como um exemplo – e o povo. A arquitetura da cidade, com suas engrenagens, confrontada com o total abandono da população pobre e a completa exclusão de acesso aos bens comuns, à Beleza da obra de arte, ao acesso a nomes como Rubem Valentim, Mestre Didi e Emanoel. A Ceilândia confrontada com a arquitetura suntuosa e bela de Brasília. Tantas disparidades. Se há pós-modernidade, eu gostaria de ser apresentada a ela.


DA – O quanto Rita Santana conhece Rita Santana?

RITA SANTANA – Conheço muito e, sinceramente, sempre estou em busca de lapidação. Sou muito honesta, muito bruta, muito antitética, muito delicada.  Estou em permanente busca. Rita Santana é apenas um nome público para a atriz e a escritora. A professora é geralmente chamada de Rita Verônica. Em casa – para a minha família e alguns amigos – sou Ritinha e, nessa condição, outras tantas personas surgem. Observo a capacidade que tenho de pensar em novos deslocamentos, de assumir novas identidades. Gosto desse contínuo devir. Estou em processo.

 

* Alguns poemas da autora podem ser lidos aqui.

 

 

 

 

 

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Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A perspectiva de vislumbrar o mundo suplantando quaisquer questões que reflitam distinções de gênero é um caminho válido para pensar uma obra literária. Mesmo se o tom das premissas apontar para uma escrita que pulsa de uma específica condição do ser, há, sim, significativo espaço para que a voz criativa pautada num determinado ponto de vista faça operar a convergência de sentimentos e outras tantas aferições da existência. Quando nos debruçamos sobre as escrituras de criadores como Marilia Arnaud, logo nos vem à mente a desnecessidade de levantarmos bandeiras de gênero. Muito pelo contrário, o olhar densamente feminino da autora desloca-se para uma noção de harmonização de percepções, tornando leitores cúmplices e atores de suas narrativas como se todos partilhassem o mesmo solo das esperas.

Com uma trajetória marcada pela verve contista, algo que inclui obras como A menina de Cipango (Prêmio José Vieira de Melo – Estado da Paraíba – 1994), Os campos noturnos do coração (Prêmio Novos Autores Paraibanos – 1996) e O livro dos afetos (7Letras), Marilia acaba de edificar seu primeiro romance, Suíte de Silêncios (Editora Rocco), livro que demarca de modo bastante especial um percurso por paisagens intimistas embebidas em lembranças, projeções e mistérios. A narrativa, levada a cabo pela personagem Duína, revela-se arrebatadora e singular porque sabe atravessar com pungência alguns desertos que devassam a alma humana. Dentro da camada sensível da ótica feminina, pulsa intenso o jogo das ausências e hesitações, reforçando a ideia de que existir é saber-se fugidio e finito. No breve diálogo que agora segue, Marilia Arnaud fala desse momento especial em torno do seu primeiro romance, do olhar feminino na literatura e de outras questões integrantes de sua vivência no intricado universo das palavras.

 

Marilia Arnaud por Roberto Athayde

 

DA – “Suíte de Silêncios” é uma verdadeira transversal de tempos, fazendo convergir presente e passado numa narrativa marcantemente intimista. Ali, a alma humana é devastada pela personificação tida em Duína, menina-mulher que suscita esperas e ausências. Na escolha desse caminho repleto do algo intangível instaura-se a via crucis de um criador?

MARILIA ARNAUD – Sem dúvida, a criação é um processo doloroso, na medida em que demanda a total entrega do artista. Sempre me pergunto por que escolhi essa paixão, o que busco nas palavras, na invenção, quando poderia simplesmente viver. Ao mesmo tempo, acho que não escolhi nada, que simplesmente fui tomada pela literatura, assim como fui arrebatada por Duína, por sua história de perdas e desamparo. Escrever é um processo, de certa forma, obsessivo, porque o autor acaba tão impregnado pelo personagem, por sua voz, que tem dificuldades com a realidade.

DA – No livro, chama atenção a densidade que povoa o olhar feminino sobre as coisas e sentimentos. De que forma tal condição se consolidou como uma escolha narrativa?

MARILIA ARNAUD – A literatura, assim como toda criação artística, é o espaço do imprevisível e da imprecisão. É preciso acreditar na voz narrativa e manter-se fiel a ela para trazer à tona o personagem (homem ou mulher) em sua inteireza. Somente uma narrativa densa e coesa, capaz de impactar o leitor, de fazê-lo refletir sobre as coisas do mundo, sobre a condição humana, pode assegurar que um romance não seja lido impunemente. Trabalhei mais de dois anos para isso, para trazer ao mundo a voz de uma mulher marcada por uma infância traumática, para revelar a inadequação e o sentimento de insuficiência de uma irrevelável Duína. Não sei se consegui (os leitores que o digam).

DA – Guardadas as devidas diferenças contextuais, Duína aproxima-se da Macabéa de Clarice Lispector quando a perspectiva é olhar o mundo sob o manto da delicadeza. Ambas têm uma expressão que suplanta qualquer conclusão apressada de ingenuidade. Como é que você percebe tal associação?

MARILIA ARNAUD – Duína e Macabéa são personagens talhadas por faltas. Na infância, faltaram-lhes os pais. Na idade adulta, afetos, alegrias, talentos. O isolamento, a culpa, a saudade, a aparente passividade e o sentimento de fracasso também as aproximam. Em ambas, a vida dói com força, no corpo (Macabéa sofre de tuberculose e de um dente cariado – a dor da polpa exposta é uma das piores – Duína, de um câncer que lhe rói as entranhas) e na alma (inadequação ao mundo e consciência da rasura da própria existência).

DA – Apesar do aparente espaço conquistado pelas mulheres em plena pós-modernidade, conceber a condição de Duína em nosso mundo é, sobremaneira, refletir sobre um contraste entre certa liberdade do corpo, tão apregoada hoje, e as amarras que nos são mais caras, as do pensamento. Acredita que reside aí o principal conflito que atravessa o universo feminino?

MARILIA ARNAUD – Eu diria que houve uma conquista efetiva, mas não, plena. A mulher pós-moderna trabalha (muitas são chefes de família), estuda, exerce seus papéis sociais, traça os próprios caminhos, e especialmente a mulher de classe média investe na carreira e luta bravamente pela independência financeira. Porém, é uma mulher dividida. No plano da subjetividade, ainda há muito a ser conquistado. Ao fazer escolhas que fogem do padrão enraizado, do modelo maternidade/família, ela se enche de culpa e angústia. É compreensível. Durante séculos, viu-se impedida de afirmar a própria existência, de expressar sua identidade através do corpo e da palavra. Nessa busca por um equilíbrio, a mulher segue se construindo, construindo sua identidade.

DA – A seu ver, quando o assunto é o olhar sobre as densidades humanas, qual a diferença marcante entre homens e mulheres? Padecemos muito com os determinismos?

MARILIA ARNAUD – A diferença marcante talvez seja a maneira de um e outro estar no mundo, os papéis sociais que lhes foram atribuídos ao longo da história, o determinismo sexual que durante séculos apontou o homem como um ser de poder e a mulher como um objeto de reprodução. Em sua essência, o homem e a mulher são universos complexos, sobre os quais o ficcionista deve se debruçar com o mesmo olhar de espanto, porque é do espanto que brota a criação literária.

DA – Depois de construir uma trajetória devotada ao conto, você edifica, com vigor e propriedade, seu primeiro romance. Quais percursos foram fundamentais para essa, digamos assim, mudança de rumos?

MARILIA ARNAUD – Entre meu primeiro livro (contos/crônicas – produção independente) e o recente Suíte de silêncios, primeiro romance, caminhei bastante. Nesse meio tempo, mais de vinte anos, participei de algumas coletâneas e publiquei três livros de contos, dois deles (A menina de Cipango e Os campos noturnos do coração), através de concursos públicos. Foi O livro dos afetos, editado pela 7letras, em 2005, que me levou a pensar na possibilidade de escrever um romance. Explico. Luiz Ruffato apresentou minha prosa a Luciana Villas Boas que, à época, era editora na Record, e ela, muito gentilmente, escreveu-me dizendo que, embora tivesse gostado dos meus contos, não pretendia editá-los, tão somente pelo fato de serem contos, gênero pouco comercial, e sugeriu-me que eu escrevesse um romance. Então, a motivação inicial para a construção do Suíte de silêncios foi o conselho da Luciana, que tomei como um desafio. Comecei tateando, às escuras, sem nenhuma certeza de que teria fôlego para ir adiante. Em algum momento, encontrei o tom, e a história começou a fluir. Algumas pessoas têm me perguntado se o romance é de fato o gênero mais braçal, e eu lhes digo que as dificuldades na construção do Suíte de silêncios não me pareceram maiores do que aquelas com que me deparei na elaboração de alguns contos; creio que são de uma outra ordem.

DA – Somos crias de um deus menor, o mercado, quando, presos a ele, submetemo-nos à imposição de modelos. Consegue vislumbrar por qual razão um livro de contos, por exemplo, seja algo pouco comercial? Esse tipo de constatação não lhe soa incômoda?

MARILIA ARNAUD – Não compreendo a lógica comercial das editoras. Há um desprezo declarado pelo conto, como se tratasse de um gênero menor. Antes do Suíte de silêncios, ouvi inúmeras vezes a mesma pergunta, quando finalmente eu escreveria um romance. Leitores, amigos, familiares. Nessa cobrança equivocada, eu enxergava uma dúvida quanto ao meu valor como escritora, como se somente com a publicação de um romance eu pudesse confirmá-lo. Como já falei, encarei a negativa da editora como um desafio, mas eu já vinha percebendo que meus contos estavam cada vez mais longos. A experiência de escrever um romance não me desagradou. Pelo contrário. Tanto, que já tem um outro tomando forma dentro de mim.

Marilia Arnaud por Roberto Athayde

DA – Acredita que estamos vivendo um tempo no qual as escrituras e seus criadores andam um tanto exasperados por reconhecimento ou afirmação? Não seria melhor lermos mais do que escrevermos?

MARILIA ARNAUD – Sem dúvida. Hoje se tem uma superexposição do autor. Se ele não aparece, não circula, não frequenta festas e feiras literárias, não dá palestras, não fala sobre a própria obra, seus livros simplesmente passam despercebidos. O “escritor espetáculo” não tem mais tempo para escrever; ele viaja o tempo inteiro, correndo de lá para cá, num frenesi e, muito provavelmente, numa ansiedade terrível. Peno demais quando sou convidada para algum desses eventos. Sou tímida. Gosto de ficar quieta no meu canto, lendo e escrevendo. Falar em público me constrange. E me pergunto qual o sentido de se falar sobre o que se escreve se o livro existe para ser lido? Não estaria o autor usurpando o espaço do livro?

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

MARILIA ARNAUD – A superficialidade das relações, a falta de interesse real pelo outro, isso é o que há de pior. Na literatura, os experimentalismos presunçosos, o barateamento da linguagem, narrativas sem a mínima elaboração, palavras vazias, textos ocos.

DA – Aos poucos, você prepara um novo romance. Depois de percorrer algumas veredas da palavra, tem a sensação de estar mais próxima de uma maturidade criativa?

MARILIA ARNAUD – Não tenho dúvida de que cresci nesses anos todos de escritura. Meu texto tornou-se mais denso, meus personagens, mais complexos, a linguagem, mais elaborada. Já falei, aqui mesmo ou em outra oportunidade, que esse é um processo natural quando se investe na carreira literária, quando o escritor se determina nesse sentido. Desde muito cedo, decidi que queria escrever. E escrever bem. Minha intenção é fazer isso de forma cada vez melhor. Não tome essa afirmação como arrogância. Reconheço minhas limitações. Sou uma eterna aprendiz, na vida e na criação literária. Tenho dó do escritor que se acomoda com a fama, com prêmios, com o reconhecimento dos leitores e da crítica, porque está morto e não sabe.

DA – O que busca a mulher Marilia Arnaud em sua teima com as palavras? 

MARILIA ARNAUD – Também já me fiz essa pergunta. Muitas vezes, para escrever, abro mão de grandes prazeres, como viajar, ir ao cinema ou ao bar/restaurante, estar ao lado de pessoas que amo. De certa forma, deixo de viver experiências reais para me embrenhar no universo da imaginação. Seria essa uma maneira de lidar melhor com esse sentimento, que é um misto de perplexidade e desolação diante do mundo, do absurdo da vida? De me livrar do desamparo existencial de que todos nós somos vítimas? Ou busco a emoção de ser tantos outros, sendo eu mesma? Não sei. Só sei que a palavra é a minha fé, minha verdade, minha beleza. É quando escrevo que me sinto mais próxima de mim mesma.