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135ª Leva - 02/2020 Destaques Olhares

Olhares

Esses insondáveis olhos que nos miram

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

A Arte não é apenas esse complexo de possibilidades, concretudes e experiências que se prestam ao território de uma já tão costumeira e reduzida noção de entretenimento. E talvez esse discurso visa reduzir o real impacto que o ofício artístico pode representar para quem se digna a produzir seus conteúdos. Ao lado disso, há a necessidade de percebermos que o artista é, para além de seus gestos humanamente transformadores e contemplativos, um alguém que vive do seu labor, um trabalhador que também oferta seus produtos e precisa se manter profissionalmente dentro de uma determinada lógica de sobrevivência.

Essa discussão toda acaba trazendo à tona o próprio valor que atribuímos aos bens culturais. E fica a questão: por qual razão ainda tomamos a Cultura como algo secundário numa sociedade que demanda sempre pautas urgentes? Indo mais além, por que a seara cultural não seria um gênero de primeira necessidade em nossas prateleiras pessoais? Talvez nos falte informação ou, melhor dizendo, educação suficiente para que consolidemos a Cultura num amplo nível de aceitação social.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

Mas por que levantar todas essas questões num texto que se dedica a destinar olhares sobre uma artista em especial? A melhor resposta talvez seja considerar que, assim como poderia ocorrer com qualquer outro ramo de atividade profissional, as escolhas e o poder do chamamento pessoal influenciam e mudam rumos. Foi o que aconteceu com Ana Luiza Tavares, que, ao longo de anos consideráveis, viu-se dividida entre as feições de dentista e artista plástica. Ela confessa que, numa certa altura de sua vida, chegou a se afastar da arte por dilemas atinentes à subsistência financeira, chegando a colocar em xeque a própria vocação artística.

Para nossa satisfação e descoberta, o tempo, este senhor que também atenua fardos, foi capaz de apresentar a Ana Luiza caminhos de permanência pelas vias artísticas. Hoje, sua arte coexiste com a ainda trajetória de odontóloga, mas de modo mais firme, decisão que certamente redimensionou sua vida a patamares nítidos de realização pessoal.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

A seu modo, os desenhos de Ana Luiza Tavares rendem especiais visitas a um universo feminino que sabe a territórios de delicadeza e força. Nesse ínterim, chama especial atenção o emprego das cores, pois estas representam um verdadeiro termômetro de sensações aplicadas às personagens que nos são apresentadas. Cada tom utilizado traduz a performance feminina diante dos mais distintos cenários mundanos, condição tal que pode refletir tanto serenidades quanto inquietudes.

Flertando com elementos poéticos, dos quais a síntese se destaca, Ana Luiza condensa imageticamente sentimentos que pulsam na intimidade humana. Dessa maneira, percebemos alguns de seus desenhos comunicando e reunindo, a um só tempo, temas como o silêncio e o recolhimento, gestos tão necessários em meio ao turbilhão contemporâneo a que somos submetidos.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

A artista, nascida em Salvador, vive no Rio de Janeiro há cinco anos. Desde muito pequena, testemunhou no seio de sua família a presença ativa da arte, pois sua mãe é ceramista e seu pai um geólogo aficionado por artes plásticas, literatura e música. Quando retomou seu ofício artístico, Ana viu as coisas acontecerem numa velocidade que nem supunha pudessem ocorrer. Conseguiu impulsionar sua carreira de ilustradora, passando a divulgar e comercializar suas obras tanto nas bandas virtuais quanto em espaços físicos no Rio.

Há o algo que se destaca na expressão facial das mulheres dispostas nos desenhos da artista. É como se cada gesto, cada olhar em particular, nos despertasse para contextos peculiares de contemplação e reflexão, sugerindo mergulhos ensimesmados e nem sempre leves de assunção. Aliás, dizer do que somos também denota um infindável complexo de narrativas marcadas por tensões de natureza múltipla. Seja na via de um clamor profundo ou na transmissão de um simples encantamento com a vida, as mulheres de Ana Luiza Tavares olham bem dentro nos nossos olhos, ofertando-nos possivelmente um banquete de estranhamentos e espantos.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

* As ilustrações de Ana Luiza Tavares são parte integrante da galeria e dos textos da 135ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Destaques Olhares

Olhares

Anseios da luz

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

A roda da vida gira. Há paisagens anunciadas pelos matizes de uma aurora deslocada no tempo. A curiosidade de quem observa os interstícios da existência sonda os mais variados momentos em que tudo transcorre. É preciso que aconteça o gesto natural das coisas, mecanismo de se deixar levar por tudo aquilo que acontece diante dos olhos. Quem contempla a manifestação dos elementos dispersos por entre os dias, sabe que a palavra rotina é somente uma mera tentativa de definir o espetáculo cíclico das coisas.

Ainda que pareça não haver nada de novo sob o sol que nos abraça, o sabor das primeiras visões e descobertas é chama acesa em nossos sentidos. Entre o espanto e o encantamento, podemos ser surpreendidos por aquilo que mobilize e quiçá rasure a nossa maneira de vislumbrar os fenômenos do mundo. E é desse modo que a fotografia é capaz de nos impactar, trazendo a lume registros que bailam entre o traçado da memória e a revelação daquilo que passa despercebido em meio à cronologia de nossa trajetória.

Se o que julgamos como sendo o Belo estiver confinado ao campo de nossas vivências e crenças pessoais, então o despertar da arte em nós parece ser mais o exercício puro de nossa individualidade. No caso da fotografia, talvez seja o misto de constatação imediata e sugestão que nos mobilize rumo ao território vasto das percepções. Por constatação imediata, leia-se aquilo que se corporifica como a concretude que salta aos olhos, enquanto que a sugestão é esse abrigo permanente em torno do mistério, embalada que está pelos dotes da intermitência e da relativa infinitude.

De todo modo, é possível considerar que as linhas iniciais deste texto encontram correspondência direta com a trajetória de certos artistas. Pensando nisso é que vale mencionar aqui a obra de um fotógrafo como Hermes Polycarpo. Do artista em questão, trazemos à tona o esmero das formas, seja na busca por se retratar a figura humana, seja na maneira em se deter sobre objetos e temas afetos à natureza. Nesse trajeto de observações muito peculiares, o fotógrafo evidencia o ritmo dinâmico que está por trás das jornadas pessoais de gente dos mais diferentes estratos sociais. Pode ser um mero transeunte das vias públicas ou quiçá um alguém a mirar o mar de esperanças sem fim. Pode ser o corpo que repousa em luz e sombra ou o olhar inquiridor de um menino. Pode ser a paisagem que redimensiona a natureza ou então a geometria das alamedas.

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

O fato é que em Hermes nada parece fugir aos desígnios da sutileza, essa mão invisível que conduz os temas abordados. Não há dúvida de que a técnica está a serviço de toda uma demanda de subjetividade e poesia que emanam das imagens concebidas. Em meio à solidão que atravessa pessoas e suas sinas, lá está também o olhar do artista capaz de tornar suaves certas missões imperativas da existência. Desse modo, homens, em seus engenhos de labuta e contemplação, aparentam ser muito mais do que meros operários de suas rotinas.

A recorrência do mar no trabalho de Hermes Polycarpo parece metaforizar o sentimento de renovação que o movimento das águas suscita. Ao mesmo tempo, lembra o desembocar de anseios todas as vezes que alguém mira, absorto em pensamentos de silêncio e quietude, o imensurável horizonte oceânico à sua frente.

Natural de Ilhéus, na Bahia, Hermes despertou para a fotografia em 2007, quando residia no Rio de Janeiro. Em seu processo criativo, busca, na confluência entre técnica e sensibilidade, um resultado que faça uso extremamente reduzido de recursos de edição. Mostra-se como um fotógrafo de ímpeto eclético, explorando paisagens e imagens conceituais, e confessa estar sempre em busca de novas incidências de luz.

Lançando mão duma exuberância de cores, Hermes Polycarpo também assinala através delas a marca efusiva do humano e suas intervenções espaciais. À paisagem urbana misturam-se gestos diversos, plenos de uma espontaneidade que só a observação serena do fotógrafo é capaz de preservar. No caminho que exalta a luz como fonte norteadora, a arte instaura suas delicadas faces, vias que nos mostram a pulsação dos tempos e que mobilizam em seu âmago expressões abrigadas em toda sorte de gestos.

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

* As fotografias de Hermes Polycarpo são parte integrante da galeria e dos textos da 134ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Destaques Olhares

Olhares

A reinvenção do humano em Canato

Por Fabrício Brandão

 

Pintura: Canato

 

Revisito os arquivos do tempo e chego até o ano de 2008. Na ocasião, pude me deparar, pela primeira vez, com as pinturas de Cláudio Canato, artista plástico paulista. Mas esse seria apenas um mero relato de uma descoberta não fosse o impacto que as obras do artista causaram em mim àquela época. Chamava atenção naquele momento o modo como o artista reproduzia as formas humanas, deixando entrever a naturalidade de gestos e expressões das figuras retratadas.

Foi, então, que promovemos na Leva 21 uma pequena exposição com alguns trabalhos de Canato. Era possível perceber ali que havia toda uma peculiar forma de se lidar com as construções figurativas do humano. E como o próprio artista sustenta, ele desenvolveu uma maneira própria de pensar a representação humana em suas pinturas, engendrando um modo de conceber pessoas como resultado direto de sua imaginação, ou seja, sem o uso de modelos como ponto de partida para a criação. O especial nessa atmosfera criativa é pensar que a obra de arte eclode a partir do âmago de quem a cria, dinamismo de epifanias interiores.

Canato não nega o mundo. Ainda que seus corpos e rostos sejam marcados pelo traço inaugural da descoberta, há uma comunhão com signos universais de nossa existência. Por não negligenciar aquilo que também somos enquanto espécie, o artista em questão ressignifica as experiências humanas a seu modo.

 

Pintura: Canato

 

A anatomia do corpo tem seu idioma específico no conjunto da obra desse paulistano. São contornos e formas que exalam tensões da natureza humana, revelando também contrastes entre a celebração do gozo das vivências e os embates questionadores da nossa jornada. Mas eis que o corpo, em sutis jogos de luz e sombra, é pensado pelo artista como algo sacralizado não por constituir matéria de perfeição idealizada dos homens, mas como o próprio retrato da dualidade e das oposições entre o físico e a aspiração espiritual. A despeito disso, estão os murais pintados por ele, bem como as obras que compõem tetos de algumas capelas em São Paulo.

Há uma diversidade de possibilidades nas frentes que o artista atua. São exemplo disso não apenas os murais e capelas já mencionados, mas também retratos, desenhos, séries e um olhar voltado para a literatura infantil, na qual Canato ilustra e redige textos de alguns livros. No que tange aos murais, há um em específico que vem se destacando como um dos trabalhos mais significativos do artista na atualidade. Trata-se de “El Quijote”, que foi pintado no Colégio Miguel de Cervantes, em São Paulo. A importância dessa obra certamente está no modo como, num ambiente escolar, a arte se insere de maneira natural na construção do saber, instigando a curiosidade dos alunos não apenas em torno do processo criativo, mas da temática abordada.

Mesmo tendo sido influenciado por componentes estéticos advindos, por exemplo, de movimentos como o Renascimento e o Barroco, Canato não abre mão de pavimentar seu próprio caminho no quesito criação. Para tanto, promove seus mergulhos pessoais nos temas pensados, retirando deles construções que advogam pelo exercício de sua individualidade artística. É de se considerar que rupturas com o passado não são obsessões do artista, tampouco constituem alguma espécie de peso. Com leveza e percebendo seus chamamentos interiores, Canato ressignifica o humano com aquilo que tem de melhor, sua assinatura.

 

Pintura: Canato

 

* As pinturas de Canato são parte integrante da galeria e dos textos da 133ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.

 

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132ª Leva - 04/2019 Destaques Olhares

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A permanência da poesia

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Luiz Bhering

 

Quem somos nós em meio a tudo? Quantas vidas cabem no registro da paisagem, no olhar preciso e poético do mais atento observador? São perguntas que surgem quando pensamos no ofício do fotógrafo, este sujeito que, nalguns momentos, mais parece habitar uma dimensão da existência paralela ao que vivemos. Desse tipo de artista é esperado que capte o instante e suas frestas, sensações que por vezes deixamos passar em meio ao imediatismo dos dias.

Entre minúcias, recantos e gestos humanos, paira contínuo o desfilar da vida, palco que sabe a descobertas, embates, contemplações e denúncias. Ao mesmo tempo em que nos deparamos com o Belo, também somos confrontados com as mazelas que engendramos em nós e na relação com o Outro. Assim, a existência vai se configurando entre os limites do materializado e do intangível. No entanto, os olhos sempre podem mais, posto que transcendem a fisicalidade das coisas e apontam para direções outras, percepções ligadas aos sentimentos que carregamos dentro e fora de nós.

No transitar de experiências que permeiam o traçado cotidiano, estamos diante do trabalho de um artista como Luiz Bhering, alguém que traz em seu engenho variados modos de acepção da realidade. Suas imagens demarcam um amplo território de possibilidades cujo potencial narrativo encerra a trajetória de pessoas e lugares. Mas abordar gente em seu enleio diário requer muito mais do que apenas registrar gestos rotineiros, ou seja, exige do fotógrafo que este permaneça o tempo todo atento ao que pode suplantar o gesto banal da vida. Tal resultado de rasurar as margens do óbvio faz da arte de Luiz Bhering algo que provoca nossas percepções mais sublimes, pois eleva a dureza dos dias ao patamar de delicadeza e sensibilidade, atributos por demais caros diante do turbilhão coletivo de vivências que nem sempre se conciliam.

 

Foto: Luiz Bhering

 

Luiz observa os homens e seus incessantes rituais, vê-los interagir com seus iguais nos mais difusos espaços de convivência, retira dos gestos daqueles seres o substrato simbólico de muitas imagens. Desse modo, eis que o fotógrafo testemunha o quanto a intervenção humana foi capaz de marcar decisivamente a paisagem urbana, com a explosão de grafismos, arquiteturas, cores, todos eles assemelhados a uma coletânea de vestígios que sugere a genuína expressão duma vontade de permanência. Do mesmo modo, nos é dado também pensar que os homens inscrevem seus papéis no mundo pelo legado do silêncio e da ausência. Tal sentimento as imagens de Luiz não se furtam a representar, tendo em vista que lugares hoje esvaziados de ocupação foram, outrora, palco de substantivas ações dos homens. Diante da emergência do presente, podemos vislumbrar que esses ambientes ocultam em si narrativas de eras pretéritas, enredos agora clandestinos.

Natural do Rio de Janeiro, Luiz Bhering confessa que toda a sua vida está devotada ao envolvimento com a fotografia, reconhecendo nela não somente seu ofício e sustento, mas a fonte fundamental de sua expressão, espécie de idioma próprio. Segundo o artista, ela é seu passaporte para a vida, pois permite que até mesmo um simples transitar pela rua signifique uma experiência repleta de descobertas. Formado em Fotografia pela City Polytechnic School of Arts and Designer de Londres, Luiz traz em seu vasto currículo vivências artísticas e exposições dentro e fora do Brasil.

A partir do olhar que não negligencia possibilidades de descoberta, por mais singelas e inusitadas que estas possam lhe parecer, Luiz engendra seus caminhos de artista. É, como podemos pensar, um estado permanente de atenção, mas sem a ideia de que tal disposição represente o peso de se viver sôfrega e insistentemente alerta. E quando um artista revela interesse em estar desnudo e atento à simplicidade da existência, posto não temer o que surge sem aviso, é ele mesmo um alguém em estado permanente de poesia.

 

Foto: Luiz Bhering

 

* As fotografias de Luiz Bhering são parte integrante da galeria e dos textos da 132ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Destaques Olhares

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O corpo, o cosmo e o caos

 Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Felipe Stefani

 

São linhas que transpassam a existência. Contornos que anunciam o alvorecer de gestos e movimentos como se tudo coubesse num universo de beleza e mistério. É preferível assumir que a vida é ela mesma a assunção de mistérios, desses que se embotam na trama dos destinos. Imaginemos, pois, tudo como consequência de um permanente entrelaçar de ações na medida em que o que somos espelha os reflexos das investidas de outrem, nossos semelhantes e suas difusas trajetórias e repertórios. Assim, reconhecemos nossa humanidade a pulsar imperiosa no turbilhão de corpos e mentes que nos atravessam a visão dos dias que carregamos conosco. Sim, somos um amalgamado e complexo organismo que é fruto das trocas e intervenções do Outro em nossa caminhada.

Ah, o corpo, esse receptáculo de intenções! O corpo enquanto a expressão mais pura da nossa sina terrestre. O corpo como essa estrutura física a compor o bailado dos dias, posto que tentamos nos equilibrar diante das demandas racionais e afetivas tão nossas. Pensando a arte de Felipe Stefani, os trajetos corporais são os mais autênticos representantes das nossas condições de ser e estar num mundo em que habitamos de forma errante. Ao mesmo tempo em que nos incita ao mergulho denso, Felipe relembra certo caos que nos acomete em matéria de experiência humana. Vale considerar que a cartografia caótica sugerida pelo artista em questão não é um banal engenho de desordens, mas, antes de tudo, a síntese orquestrada de nossos espantos e estranhamentos. Na confusão entre desejos e equívocos de nossa natureza, as imagens se expandem compondo um complexo painel de desassossegos.

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Felipe Stefani deixa entrever um sentimento de cosmovisão em muitos de seus desenhos, algo abrigado na noção de que múltiplos saberes e cenários da existência humana aparecem profundamente associados entre si. Tal percepção é, ao mesmo tempo, a constatação de que os homens e suas investidas encontram terreno favorável para a expansão no solo comum e enigmático das expectativas. Desse modo, o artista observa as partes que, ao fim e ao cabo, integram um todo em incessante construção, organicamente engendrado pelo flerte com a dúvida.

O corpo em Felipe Stefani também é casa que acolhe delicadezas. É nesse momento que a bagagem de poeta empresta seus atributos ao artista, movendo seu traçado sob a imagética de um lirismo que se pretende intenso. Dentro desse caminhar, seus desenhos harmonizam desejos, crenças e epifanias humanas com uma indelével  marca emotiva, fazendo-nos refletir sobre temas como a solidão, os afetos e o amor.

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Paulista que vive em bandas cariocas, Felipe também se dedica aos versos e à fotografia. Seus primeiros contatos com o desenho derivam da infância, principalmente por intermédio da mãe, a também artista plástica Sandra Lagua. Confessa que suas principais influências vêm de gêneros da cultura de massa, tais como o cinema e o rock. Desde 2002, vem atuando como ilustrador, com trabalhos voltados para o cinema e literatura. Como poeta, possui dois livros publicados: O Corpo Possível (Dulcineia Catadora, 2008) e Verso Para Outro Sentido (Escrituras, 2010).

Essencialmente, a arte de Felipe Stefani é um convite ao sublime. E tomemos aqui tal atributo não com um sentido de exaltação estética de perfeição. Mais vale considerar o potencial de representação humana de sua obra como sendo aquele que expõe a carne viva de nossos atos, anseios e projeções, misto de coisas que refletem um estado permanente de poesia, essa dimensão de abismos íntimos e compartilháveis.

 

Desenho: Felipe Stefani

 

* Os desenhos de Felipe Stefani são parte integrante da galeria e dos textos da 131ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e Mestre em Letras: Linguagens e Representações (UESC), aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

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130ª Leva - 02/2019 Destaques Olhares

Olhares

Sob o signo da espontaneidade

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Almir Bindilatti

 

Uma nesga de sol invade a paisagem enquanto meninos brincam desfilando sua liberdade. Noutro ponto, uma canoa vermelha repousa suas memórias na calmaria da noite que adentra. Do alto de alguma porção litorânea, um pequeno grupo de pessoas é silenciosamente observado enquanto ensaia sua entrada no mar. Um aglomerado de bovinos revolve a poeira de seu confinamento. O menino atravessa a água com seu gesto pueril descortinando dimensões do sabor de viver. As cores e formas passeiam em meio à rotina de indivíduos que transitam por ambientes urbanos diversos.

Tudo o que foi descrito acima é apenas uma pequena parte daquilo que compõe a arte do fotógrafo Almir Bindilatti. E apresentar tal recorte de imagens captadas pelas lentes de seu autor significa prestar atenção para o trabalho de um alguém que, de forma marcantemente poética, consegue fazer da captura do cotidiano algo diferenciado. Por vezes, deixamos escapar inúmeras possibilidades de apreensão do real em razão de que nosso olhar acomoda-se pelas zonas de conforto do óbvio. No entanto, a experiência ganha outro fôlego quando vislumbramos sentidos alternativos para as imagens com as quais nos deparamos.

O grande desafio de Almir Bindilatti com seu ofício de registrar a luz é nos apresentar a pulsação da vida tal como ela é. Haveria, então, algum artifício mágico para obter tal resultado? A resposta é negativa. Daí que o fotógrafo em questão confessa não ser adepto da manipulação das imagens, ou seja, de qualquer tratamento que seja capaz de alterar tudo aquilo que foi capturado com naturalidade. Assim sendo, o artista vai mais além, buscando em seu trabalho um resultado que se pretende orgânico, evidenciando, como ele mesmo nos diz, um elo entre câmera e figuras humanas que atenta para o respeito com as culturas urbanas, principalmente à luz de aspectos étnicos.

Na busca pelo flagrante natural dos gestos humanos, Almir intenta a plenitude abrigada nas manifestações de seus personagens. Tal percepção aponta a todo instante para uma noção de alteridade que implica no respeito e na preservação dos domínios íntimos do Outro, então mostrado pelas lentes. Penetrar na esfera alheia requer também certo tempo de maturação, permitindo com que as pessoas continuem vivendo suas sinas com o crivo da espontaneidade. É um hiato preciosamente marcado pela espera e pelo silêncio, no qual o trunfo do fotógrafo é colocar em evidência o momento que melhor retrate a existência humana.

 

Foto: Almir Bindilatti

 

Sem dúvida alguma, o viés antropológico permeia o ofício de Almir, qual seja o que denota o respeito a culturas e modos de articulação do ser e estar distintos na complexa paisagem urbana observada. Cruza-se a linha do Outro primando pela sutileza das investidas, sem que se pretenda a desconfiguração das vivências e práticas imersas na trajetória dos mais variados atores sociais. O saldo das escolhas do artista é deveras significativo na medida em que os diferentes cenários e seus respectivos protagonistas contemplados reproduzem a fluidez ininterrupta da existência.

Nascido no interior de São Paulo, mais precisamente em Tupã, Almir Bindilatti mudou-se para Salvador e lá viveu por bastante tempo, inclusive executando projetos editoriais sobre história, cultura e arte. Desde o começo de 2018 reside em Lisboa, inaugurando uma nova fase em sua vida, o que significou a possibilidade de se dedicar completamente ao seu ofício autoral. Seu trabalho lhe rendeu o Prêmio Leica de Fotografia no Brasil em 2010. É autor dos livros fotográficos Photo Bahia (2008), Mosteiro de São Bento da Bahia (2011), Um Sertão entre tantos outros (2015), tendo participado também de obras coletivas. No ano de 2013, ainda integrou uma exposição coletiva de artistas brasileiros em Xangai, como parte das ações do “Ano do Brasil na China”.

No exercício de captar a vida do modo como ela se mostra, o fotógrafo é testemunha não apenas de um conjunto de rituais e práticas sucessivas ou aleatórias, mas também de revelações associadas ao campo do inusitado. Diante de suas lentes, um pacto constante resta estabelecido: o da coexistência harmoniosa entre a presença do artista e seu objeto. Esse silencioso contrato representa o esforço de não se alterar as rotas contempladas pelo olhar de quem as mira de fora. É com a pungência da poesia que habita os arremessos cotidianos que Almir consolida tal relação.

 

Foto: Almir Bindilatti

 

* As fotografias de Almir Bindilatti são parte integrante da galeria e dos textos da 130ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e Mestre em Letras: Linguagens e Representações (UESC), aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

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129ª Leva - 01/2019 Destaques Olhares

Olhares

O fluxo natural de uma leveza

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Joana Velozo

 

Certamente, muitas existências estão abrigadas em nosso íntimo. Há aquelas que se expandem rumo ao contato com o mundo exterior; outras, como num movimento de retração, voltam-se para o confinamento interior dos mistérios pessoais que carregamos conosco. Temos o poder de decidir qual das nossas esferas de vivência deve vir à tona sob o olhar alheio. No território da alteridade, carecemos da troca que advém do Outro, este alguém que, mesmo não estando próximo, contribui para que tudo o que expomos seja compreendido também como sendo o resultado dos encontros humanos.

Talvez a melhor experiência que possamos adquirir com a Arte seja aquela que aponta para o entendimento sobre quem somos. Por óbvio, esse não é um mecanismo tão simples de se apreender e quiçá exija até mesmo certo engajamento filosófico para sua compreensão. Num misto de contemplação e lucidez, o universo artístico é capaz de desacomodar estruturas e promover também observações mais críticas sobre a realidade. O artista, reconhecendo-se parte integrante do mundo que registra, passa a ser alguém envolvido com as tramas do seu tempo.

Pelos delicados traços da arte de Joana Velozo, o ato de existir pode ser tido como um lampejo poético diante do mundo que nos apresenta incessantemente suas complexidades. Por entre as frestas do cotidiano, surgem vívidas as imagens construídas pela artista, processo criativo a engendrar facetas humanas.

Brasileira radicada em Barcelona, Joana nos apresenta em seu trabalho todo um painel de cores e formas devotadas ao sublime exercício das constatações. E quais seriam elas? Todas aquelas que simbolizam gestos pertencentes a certas andanças humanas. Nesse contexto, impera vigorosa a representação do universo feminino, especialmente alicerçado em contornos que expressam o lado orgânico e substancial do ser mulher. Tais incursões nos remetem a uma conexão que estabelece laços telúricos com a condição feminina disposta numa permanente transformação. Ser mulher aqui dialoga com a ideia de que emergem subjetividades no seio cotidiano das libertações individuais.

 

Ilustração: Joana Velozo

 

Nas ilustrações de Joana Velozo, vislumbramos também interfaces da natureza. Da confluência entre fauna e flora, emanam representações de vidas que correm paralelas ou até mesmo harmonizadas com a interferência dos homens. Assim, animais e vegetais contribuem para a construção de todo um imaginário que, divisando as fronteiras do real e do fantástico, proporcionam uma viagem amplamente sensorial a partir das imagens da artista. Nesse trajeto de percepções, homens e natureza surgem intimamente conectados.

A utilização das cores é outro ponto de destaque nos trabalhos de Joana. Os variados tons e intensidades ali dispostos revelam camadas distintas de apreensão, todos eles a tratar a passagem humana pela Terra como algo essencialmente marcado pela leveza. As cores sugerem um contrabalançar de sentimentos que marcam a expressão dos personagens e ambientes simbolizados. Mesmo diante de certas intempéries, os seres que protagonizam as ilustrações da artista têm suas tensões atenuadas pelos contrastes cromáticos escolhidos. Desse modo, tons de diferentes escalas não se prestam a um mero jogo de oposições; pelo contrário, advogam por papéis específicos dentro da narrativa visual proposta.

Mesmo sabendo que o mundo em que vivemos não nos permite mergulhar em estados de encantamento permanente, talvez a mensagem mais significativa do trabalho de alguém como Joana Velozo se apoie na ideia de que o lado sereno das coisas precisa emergir com mais frequência diante de nossas práticas usuais. É possível suportar a realidade com requintes necessários de quietude e reflexão.

 

Ilustração: Joana Velozo

 

* As ilustrações de Joana Velozo são parte integrante da galeria e dos textos da 129ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

 

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128ª Leva - 06/2018 Destaques Olhares

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Nas dobras do cotidiano

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Adelmo Santos

 

Num recanto qualquer do mundo, a vida acontece e se expande em seus microuniversos. São possibilidades de existência que emanam das faces múltiplas do cotidiano. Enquanto estas linhas são escritas, o aqui e o agora são delineados pelo olhar de alguém e revestidos com a propriedade de observação diferenciada que cada artista carrega consigo. Diante da oportunidade de se mirar potenciais cenários, o ofício de fotógrafo engendra muito mais do que percepções flagrantes. Ousa além: oferta-nos revelações.

Mas por qual razão nos embalamos às multidões do dia a dia e deixamos de ver muita coisa? Há um sentimento perene de dissipação quando vemos as imagens de nossa real existência no mundo se confundirem com pontos perdidos e quiçá genéricos de observação. É como olhar para tudo e nada ao mesmo tempo. Na tentativa talvez de absorvermos freneticamente o rumo acelerado das coisas que nos são apresentadas, a sensação de se esvair numa torrente informe parece não passar.

A arte é capaz de fazer frente à ideia de que somos uma turba desorientada e, portanto, avessa aos pormenores mundanos. E falar aqui de detalhes significa remontar à perspectiva de se poder olhar e sentir a dinâmica da vida sem perder experiências relevantes de serem vivenciadas. Mesmo que não haja interferências por parte do artista que está a mirar os cenários, ainda assim ele se fez personagem do que acaba de testemunhar e reproduzir em sua obra.

No trabalho de um fotógrafo como Adelmo Santos, temos a percepção de que as revelações dispostas nos ambientes retratados emergem em meio ao caos urbano que, teimosamente, tenta desviar nossa atenção. Apartado da noção de um mero flagrante, o empenho artístico de Adelmo é no sentido de atenuar o efeito de dispersão do olhar que nos alça a obviedades. É marcante em muitas das imagens do artista o captar de um sentimento poético que se esconde por trás da rotina de homens e lugares. Mergulha-se, por escolha, no âmago das coisas.

 

Foto: Adelmo Santos

 

O fato é que Adelmo privilegia registros de dimensões da vida que passam despercebidas por muita gente. Evidencia delicadamente o canto quase que inaudível do povo de algum lugar, a rica simplicidade das pessoas, seus gestos e ritos. Nas suas fotografias, vemos uma clara tentativa de enaltecer o protagonismo às avessas que gente ocultada pela rotina exerce em seus espaços de sobrevivência. Na contramão dum complexo processo de invisibilidade, há vez e voz para os representados diante de imagens que potencializam uma possibilidade renovada de afirmação social e cultural. Nesse ínterim, todo um painel de feições populares deixa impregnadas as suas peculiares marcas.

Outro traço marcante do trabalho desse fotógrafo baiano está no modo como a dinâmica urbana é pensada e reproduzida. Fazendo transitar o seu olhar por lugares de passagem e pelas mais distintas vias de acesso, Adelmo testemunha e nos apresenta indícios humanos de transformação dos espaços. Alveja a configuração arquitetônica das cidades e nos põe a refletir sobre as variadas formas de intervenção espacial propostas pelos sujeitos que se movem e se deslocam através dos mais difusos ambientes.

Quando se utiliza da técnica de superexposição de imagens, Adelmo traz à tona uma curiosa coexistência entre mundos. Nesse aspecto, é como se uma interação entre o vivido e o imaginado pude se estabelecer de tal maneira que um efeito de realidade se fizesse determinante.

Impera na arte de Adelmo Santos a procura um tanto visceral pela construção de seus temas. No início do texto, falou-se em revelações, palavra que pode até mesmo abrigar uma infinidade de alternativas. Mas importa destacar que dar vazão a faces e cenários marcados por certa clandestinidade é também rasurar a imagem limitada que se tem sobre pessoas e seus entornos. Por entre vestígios do labor humano captados em luz e sombra, resistem vigorosos modos de existir.

 

Foto: Adelmo Santos

 

* As fotografias de Adelmo Santos são parte integrante da galeria e dos textos da 128ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

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127ª Leva - 05/2018 Destaques Olhares

Olhares

Cadernos de leveza

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

No compasso do tempo, as formas brincam e teimam em ser muito mais do que aparentam. São capturas retiradas dos marcos cotidianos, representações de vidas que perpassam as tramas da rotina. O ser pode significar muito mais do que um mero elemento a cumprir o ritual dos dias. Pode se insurgir contra as repetições, contra a banalização da própria existência para desaguar num oceano de vivências outras.

A realidade emite seus alertas mesmo que não queiramos considerá-los como tais. No entanto, há em nós a possibilidade de reinvenção dos instantes, a perspectiva latente de que, a todo momento, uma nova dimensão espaço-temporal pode ser experimentada. Mas eis que tal viés surge também como produto direto da capacidade de abstração com a qual deitamos nosso olhar sobre as coisas. Nos intervalos e lugares despercebidos, muitos cenários se deixam revelar.

Na trama de rostos, corpos e movimentos, a arte de Ana Matsusaki aponta para os recortes poéticos da vida. Convida corpos e seus gestos a se harmonizarem com o bailado da existência. No lado exposto da rotina, pairam percepções de um mundo fragmentado por emoções das mais diversas. Nesse ínterim, somos levados a entender que a artista nos atrai tanto para a contemplação quanto para lugares mais ásperos de questionamento sobre a nossa condição humana.

Pelas ilustrações de Ana Matsusaki, entrevemos certa inquietação contemporânea quando o intuito é tomar o sujeito em sua perspectiva de assumir uma bagagem identitária nada estável ou fixa. Os seres que a artista nos apresenta parecem prenhes de algo que os faça mudar as rotas acostumadas. Desse modo, Ana mescla os ímpetos humanos à paisagem que os abriga, fazendo com que seus protagonistas aconteçam e sejam ativos em decorrência de certa integração com os ambientes nos quais estão mergulhados. Pessoas e seus lugares de expressão não surgem aqui dissociados de uma composição que lhes dê algum sentido de unidade.

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

Mas Ana flerta também com a delicadeza dos traços que denotam a puerilidade da vida. Em alguns de seus trabalhos, há o diálogo com o público infanto-juvenil, aqui contemplado por ilustrações que refletem leveza, colorido e um ideal de liberdade e sonho bem típicos das crianças. São contornos suaves a representar uma fase da vida que poderia muito bem disseminar modos serenos de nós, os tais adultos ditos maduros, sermos criaturas menos beligerantes diante do convívio com nossos iguais.

Paulistana de nascimento, Ana Matsusaki é formada pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo. Sua experiência no trabalho com direção de arte voltada para obras infanto-juvenis fez com que o interesse pela ilustração de livros se tornasse algo marcante em sua vida. Depois de algum tempo, ela abriu seu próprio estúdio e hoje tem como clientes diversas editoras de renome, além também de ministrar oficinas de ilustração de modo eventual.

Com certo tom de irreverência e requintes de reflexão, Ana também faz da sua arte um lugar de crítica dos nossos tempos. As paisagens humanas as quais a ilustradora visita com certa habitualidade vêm nos falar de como pessoas fazem dos seus espaços verdadeiros pontos de comunicação com um mundo que se mostra cada vez mais plural e multifacetado, tudo isso sem ignorar o potencial sublime dos gestos.

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

* As ilustrações de Ana Matsusaki são parte integrante da galeria e dos textos da 127ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura. 

 

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126ª Leva - 04/2018 Destaques

Olhares

A intermitência dos silêncios

Por Fabrício Brandão

 

Foto: MaríaTudela

 

Um olhar queda mudo diante da paisagem indefinida, enevoada pelas razões do mistério. Quando crianças, ensaiamos teimosamente que o horizonte de qualquer lugar não possui um fim. A verdade é que os silêncios sempre foram alguma espécie de companhia, ajudando-nos a trilhar nossas sinas diante da imensidão das dúvidas. As pausas, contemplativas ou não, revelam-se como sendo motivadoras de um porvir que muitas vezes não está bem claro em nós. Então, cabe indagar por que continuamos sempre a vislumbrar algo por entre a turvação dos sentidos.

Vez ou outra, alguém nos lembra que os ingressos e partidas são atos extremante solitários, tão marcados que estão por um poderoso e, ao mesmo tempo, denso mergulho pessoal nos abismos aos quais nos atiramos. Deixar-se abandonar por uma ideia ou sensação parece trazer em si um movimento de renúncias aos desígnios de tantas e tão distintas eras vividas. Chegamos até a desconfiar que existir é não dar conta do impulso propalado pelas horas, ou seja, é rechaçar a urgência que nos cobra respostas a uma infinidade de questões. Diante do turbilhão que acelera processos físicos e mentais, é quase que uma extrema necessidade invocarmos o destino intervalar dos silêncios.

Mas eis que tudo demanda uma atitude que não representa uma passividade diante das coisas e acontecimentos. Com isso, um artista intenta a via da provocação, conferindo poder aos recursos da sugestão como forma de mostrar ao mundo que o produto de sua criação não veio à lume para acomodar sensações. O que acabo de falar aqui cabe muito bem na descrição do ofício de uma fotógrafa como María Tudela, cuja arte repousa na prerrogativa de não determinar caminhos, mas sim propor mergulhos pessoais a todos aqueles que lançarem olhares sobre suas criações.

 

Foto: María Tudela

 

Detentora de uma condição autodidata, a espanhola María Tudela diz de sua arte um ato de se deixar levar pelas situações que a envolvem, buscando um resultado que reflita percursos passíveis de serem experimentados pelas pessoas. Como ela mesma confessa, sua arte não procura apresentar respostas. Cada foto encerra uma história, eis a morada de sua filosofia. Seus personagens, derivados duma observação cotidiana, aparecem revestidos pelo manto do anonimato e, sem explicitar rostos, a fotógrafa busca atrair nossos olhares para o sentido de totalidade da imagem, sempre preferindo que os detalhes não venham a causar efeitos desnecessários de distração.

Em meio a tons que mesclam preto e branco, o humano em María aparece visitado por paisagens marcadas pela busca. Aqui, os protagonistas dos anseios encontram-se imersos nos mais distintos espaços como se, através do exercício sereno dos silenciamentos, pudessem dar vazão a suas próprias existências. Noutra via, o olhar da fotógrafa também devota especial atenção a elementos integrantes da natureza, tais como aves, o mar, árvores, a chuva e a neve, todos eles evocando um ambiente de percepções que agregam memória, histórias e sentimentos ligados ao lado sublime da vida.

Concebendo suas fotografias como “imperfeitas”, María Tudela não pretende render-se aos rigores da técnica na busca por uma imagem, como ela mesma diz, impecável. Nesse sentido, a fotografia assume o papel de ser muito mais do que a mera aplicação de domínios de um saber específico e portador de uma estética. Algo transcende tal entendimento, o que nos permite concluir que a possibilidade de fazer da arte um instrumento genuíno de experimentação dos instantes é um atributo inexorável.

 

Foto: María Tudela

 

* As fotografias de María Tudela são parte integrante da galeria e dos textos da 126ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura e Cultura.