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125ª Leva - 03/2018 Destaques Olhares

Olhares

Delicados percursos de uma paisagem humana

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Sadrie

 

Cada vez que um artista descortina um véu de coisas ante nossos olhos, é como se outros tantos mundos surgissem com toda sua intraduzível aparência. Mas de onde partem essas novas esferas da existência em meio a uma carga pungente de invenção? A busca pela palavra certa e que melhor define as sensações pode apontar para alguma espécie de reinvenção, ainda mais se considerarmos que a novidade, debaixo do sol que nos guarnece e acalenta, pode não passar de uma quimera.

Eis que duas porções que mais parecem antagônicas teimam em habitar o mesmo espaço abstrato. De um lado, a visão onírica da vida a pulsar desejos e projeções íntimos; do outro, a concretude abraçada ao olhar que considera a porção racional uma ferramenta de constante inquietação. Parece ser possível ter em conta a coexistência de tais dualidades quando observamos detidamente o trabalho artístico de um alguém como Sadrie. Pelo modo como a artista apreende as epifanias mundanas, vemos brotar certo equilíbrio entre o intangível e o corpóreo.

Nas ilustrações de Sadrie, delineiam-se contornos de uma complexa paisagem humana, toda ela entrevendo rituais do corpo e da mente. A essa altura, convém ressaltar o modo como os desdobramentos do feminino assumem uma condição de destaque. A partir desse enquadramento, a artista direciona nossos olhares para o modo como a representação da mulher serve de guia para se perceber a pulsação de um mundo feito tanto de traços sublimes quanto de revelações incômodas. Seja sob a forma da contemplação do belo ou na disposição de um viés crítico, as nuances femininas prenunciam aqui um universo no qual podemos também vislumbrar uma noção de unidade a achar abrigo ideal no reino da poesia.  Assim sendo, à figura da mulher, guardiã das dimensões que nos são mostradas nesse tipo de arte, é confiada a missão de unificar todo e qualquer sentimento, independente de quaisquer denominações que insistam em classificar pessoas.

 

Ilustração: Sadrie

 

Sadrie é, na verdade, a persona artística de Sarah Adriaenssens, uma brasileira que atualmente mora em Antuérpia, na Bélgica. Segundo ela nos confessa, um dos intuitos maiores de sua arte é poder contar histórias através das imagens criadas. Além de se dedicar a ilustrações, a artista também trabalha com quadrinhos e animações. Sua arte também está associada a uma busca pelas raízes que remontam a um resgate pessoal da identidade brasileira. Algumas de suas influências derivam de nomes do quilate de Carybé, Lygia Clark, Louise Bourgeois e Ana Mendieta.

Sadrie evidencia a presença marcante das cores como se estas provocassem um efeito de ressignificar objetos, corpos e lugares. Diante da constatação de que o mundo oferta narrativas nem sempre tão carregadas de leveza, a artista parece subverter tamanha sensação que algum desalento pode nos causar quando engendra temas pueris em alguns de seus trabalhos. Em lugar de considerar como fuga, podemos conferir a tal atitude uma tentativa de mostrar que a serenidade é uma válida maneira de se conceber as coisas que nos cercam. De resto, agigantam-se visões em torno da vida, esta mesma que pode ser tomada em plenitude por marcar em nós a valiosa imprevisibilidade das pequenas coisas e gestos.

 

Ilustração: Sadrie

 

* As ilustrações de Sadrie são parte integrante da galeria e dos textos da 125ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Olhares

Olhares

A sinfonia discreta da existência

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Tati Motta

 

O que são os dias senão uma soma incontável de detalhes? Somos a sucessão de uma vida constituída por recantos, sejam eles físicos ou algum produto direto de nossas construções afetivas. O mundo parece não nos revelar tão diretamente seus avisos e alertas. Carecemos de uma perspectiva que nos dê a noção dos átimos, daquilo que se abriga em recônditos diluídos nos instantes embaraçados do cotidiano.

Mas perceber aquilo que não está tão aparente requer um exercício constante de desaceleração. Alijados da pressa, aquela cruel companhia que teima em assolar nossos tempos, muito provavelmente conseguiremos compreender que a aparição de um lado sublime da vida requer alguma opção de serenidade diante do olhar que podemos lançar sobre as coisas. E é, de fato, um movimento poético o de reter da existência elementos que nos passam despercebidos curiosamente por representarem a porção humana que nos convoca para dentro de nós mesmos.

Não há dúvida de que um ritual de contemplações e minúcias faz parte do trabalho de gente como a fotógrafa mineira Tati Motta. Mais do que direcionar suas lentes para uma riqueza íntima de gestos e para a apreensão de semblantes e objetos, Tati traz à tona uma expressão da arte que dialoga com camadas muito peculiares do ser/estar num mundo que nos golpeia incessantemente com os ardis da uniformização dos sentidos. Eis um ponto fundamental: o fazer artístico utilizado como ferramenta de ressignificação e pluralidade.

 

Foto: Tati Motta

 

Quando pensamos em negar a uniformização das coisas, devemos entender que cada pessoa ou objeto retratado tem um potencial de nos revelar particularidades que só são vistas graças ao ponto de vista de quem se permite alguma paciente imersão. Com certa frequência, o ato de enxergar no turbilhão alguns requintes de leveza é atribuído aos poetas. E é com tal postura, diga-se de passagem, uma de suas feições, tendo em vista também se dedicar nalguma medida à escrita de poemas, que Tati Motta penetra com delicadeza nos detalhes que envolvem pessoas, lugares e objetos.

No que se refere a captar nossas humanas idades, Tati flagra pessoas em seu natural bailado habitual, redimensionando suas manifestações para um renovado sentido: o de mostrar quão rica é a profusão de gestos que se camuflam na paisagem rotineira dos dias. O resultado expõe o quanto determinados corpos carregam em si uma amplitude de linguagens, todas elas sinalizando alguma rota de afirmação, entrega, efusão ou até mesmo silêncio.

Certa cartografia dos lugares urbanos também atrai os mergulhos da fotógrafa. É com eles que ela repensa os vestígios deixados pelas investidas audaciosas do progresso material civilizatório. Também não menos importantes são os olhares dedicados às manifestações que irrompem do ato de quietude e paciência emanado pela observação dos eventos da natureza.

 

Foto: Tati Motta

 

Formada em Comunicação pela PUC de Minas Gerais, pós-graduada em Artes Plásticas e Contemporaneidade pela UEMG, e especializada em Fotografia pela Escola da Imagem, Tati Motta confessa que sua inquietude foi quem lhe permitiu experimentar e desbravar as mais variadas formas de arte. Tem na fotografia conceitual uma grande impulsionadora de seu trabalho. Esta última, como a própria artista sustenta, é a principal responsável pela construção de imagens, expressão de ideias, manifestação do seu imaginário e dos seus devaneios.

A vida sabe como nos ofertar seus instantes ruidosos. Com eles, podemos simplesmente perdermo-nos na paisagem, sufocados pela padronização das rotinas, ou optarmos por apreendermos algum caminho que nos revele uma conexão de singularidade com nossas existências. Nas entrelinhas do mundo, algum novo sentido pode estar à nossa espreita.

 

Foto: Tati Motta

 

* As fotografias de Tati Motta são parte integrante da galeria e dos textos da 124ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

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123ª Leva - 01/2018 Destaques Olhares

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Sutilezas da irreverência

Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Raquel Piantino

 

A vida dilui-se em formas. Seus contornos nos falam de mundos próximos ou quiçá distantes. Universos que abrigam seres e suas narrativas, sinas a revelarem sintomas do ato de existir. Se existir é domar o sopro vital, talvez sejamos tidos como criaturas a repetir a mecânica das coisas. Se existir for algo além, estaremos, pois, diluídos na paisagem dos instantes.

Atravessar o tempo é uma das inúmeras possibilidades de se olhar a tudo como se fosse a primeira vez. Aí reside a permanente chance da surpresa, do encontro não marcado. O maior desafio humano parece ser o de não se repetir diante da colossal jornada da existência. Quando perdemos de vista a curiosidade da descoberta, algo em nós talvez nos coloque mais próximos do fim. E o término das expectativas e buscas pode representar a própria finitude do indivíduo.

 

Desenho: Raquel Piantino

 

Mas o que fazer diante de um mundo multifacetado? O que aproveitar do banquete imagético que ele nos fornece? Talvez uma pessoa como a artista plástica Raquel Piantino tenha algo a nos dizer a respeito. Sua arte está muito próxima de um mergulho ampliado das percepções da vida. As figuras humanas por ela apresentadas em seus desenhos são parte integrante dessa tentativa incessante que empreendemos de domar os ímpetos do viver.

Ao nos debruçarmos sobre os desenhos de Raquel, podemos notar a urgência que habita a linguagem das formas. Mesmo nos contornos mais silentes, algo quer falar, invocar ao mundo a veemência de um verbo plantado desde sempre na tessitura humana. Assim, corpos e ambientes se integram e harmonizam, convocando os apreciadores da arte a uma detida incursão pelos gestos simples e ao mesmo tempo relevantes em nossa tão controvertida matéria cotidiana.

 

Desenho: Raquel Piantino

 

Para abordar as nuances complexas da realidade que nos acomete, Raquel passeia pelas rotinas dos homens como a demonstrar que ali também está o espírito irreverente das coisas. O real emerge com uma ajustada dose de humor e criticidade, fazendo-nos crer que a experiência dos dias sobre o nosso planeta equilibra efusões e precipícios. Com tamanha empresa nas mãos, a artista desvia-se de um mero jogo de oposições das forças contrastantes e não adota engenhos maniqueístas. Afinal, a nossa natureza de seres imperfeitos é um organismo através do qual as dualidades se mostram amalgamadas.

Diante do incorrigível espírito humano, é inútil o encargo de separarmos o bem do mal. Acertadamente, este não é o interesse de Raquel Piantino. No entanto, engana-se também quem possa considerar que a artista, ao navegar pelas águas de alguma fantasia ou abstração, estaria promovendo um mergulho frouxo pelas alamedas da arte. Pelo contrário, seus recortes plenos de serenidade e contemplação trazem à tona, sobretudo, um inquietante ato de provocar nossos lugares de acomodação.

 

Desenho: Raquel Piantino

 

Raquel nasceu, vive e trabalha em Brasília. Com uma formação marcantemente influenciada pelo cinema de animação, além de vertentes como quadrinhos e design, a artista já trabalhou em curtas-metragens, projetos experimentais e também comerciais. Também desenvolve animações ópticas com brinquedos mecânicos e, como ela mesma confessa, sua busca está voltada para a simplicidade do traço e o potencial simbolismo encerrado nas imagens.

Quando a arte não se furta à perspectiva de perceber a dinâmica das coisas, abre-se um valioso precedente, qual seja o de enxergar nos fenômenos mundanos uma fonte possível e inesgotável de apreensão dos sentidos. Os desenhos de Raquel Piantino são como lembretes de que estamos vivos. Mais que isso, vivos e passíveis de uma transformação que nem sempre envia seus presságios.

 

Desenho: Raquel Piantino

 

* Os desenhos de Raquel Piantino são parte integrante da galeria e dos textos da 123ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

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122ª Leva - 07/2017 Destaques Olhares

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Um território de espantos

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Bárbara Bezina

 

Entre aquilo que consideramos realidade e o que é produto de nossos arroubos imaginativos, parece haver uma linha tênue e quase invisível. É o momento em que ousamos ir além do que nossas percepções têm como algo fácil a ser apreendido e rumamos para outra dimensão da existência. Nesse cenário, uma conjunção entre o concreto e o abstrato confere sentido às maneiras que temos de encarar a vida e seus mais distintos matizes.

Na forma como promove intervenções no universo pictórico de um mundo dotado de delicadezas é que um artista demarca um caminho singular de possibilidades. Assim parece ser quando deitamos os olhos por sobre o trabalho da fotógrafa Bárbara Bezina, criadora que chama atenção pelo modo como harmoniza distintas porções da matéria humana.

Nascida em Necochea, na Argentina, Bárbara transita entre mundos paralelos com a pungência de sua arte, sobretudo sua maneira de conceber os objetos de suas imagens como sendo frutos de um exercício marcantemente intuitivo. Fazendo uso dos recursos da fotografia digital, a artista manipula os registros tomando por base uma interação entre a materialidade da vida e seu lado alternativamente onírico.

 

Foto: Bárbara Bezina

 

E eis que há um predomínio de figuras femininas representadas sob os mais variados prismas na criação de Bárbara. São mulheres que, envoltas numa aura de plasticidade sublime, caracterizam-se por refletirem enlaces poéticos da vida. Desse modo, somos conduzidos por alamedas imagéticas através das quais rostos, gestos e corpos engendram a língua secreta dos sentimentos. As possibilidades são múltiplas diante da perspectiva de se vislumbrar uma concepção da vida como sendo adjetivada pelo viés feminino.

Ao nos depararmos com a variedade de interpretações que as personagens femininas exercem no contexto criativo de Bárbara, abrimos a cabeça para crer que o efeito operado por suas imagens não pode ser percebido de maneira uniformizada pelos nossos sentidos mais básicos. Acrescente-se aqui o fato de que pessoas certamente mergulham de modos bem diferenciados no universo de uma artista que não lhes entrega facilmente os acessos de significação de sua manifestação criadora.

Mesmo que se olhe o mundo como um lugar repleto de seres e objetos de toda a ordem, nunca é demais considerar que a experimentação da arte é também um ato solitário no qual as visões e narrativas pessoais fazem significativa diferença. Não se trata de confinar artista e público a um espaço de restritas experiências; pelo contrário, é a percepção de que nos interstícios e silêncios uma determinada obra lança sobre nós suas epifanias.

 

Foto: Bárbara Bezina

 

Mirar as mulheres captadas por Bárbara é compreender que uma noção de espanto ali se produz, ou seja, é perceber que, muito além de uma mera fruição estética, tais imagens convocam as pessoas a sentirem também certo desconforto por estarem diante de uma representação densa da existência, a qual não somente pactua efusões, mas também pesos, desatinos e perdas.

Talvez o fato de optar por uma vida relativamente reclusa faça de Bárbara Bezina uma artista em permanente estado de alerta. A escolha pessoal de viver sozinha e longe do convívio social cotidiano pode, de alguma maneira, influenciar no resultado de suas criações. Tal opção de vida, sobretudo se considerarmos o silêncio como motor fundamental das mais distintas expressões artísticas, talvez seja uma espécie de catalisador das obras. Vivendo atualmente em San Juan, também na Argentina, ela já divulgou suas fotografias em diversas exposições tanto na Europa quanto na América.

Manejando cores e explorando formas e texturas as mais diversas, Bárbara deixa entrever também um caráter místico para suas imagens. É como se tudo fosse revestido por uma energia que nos convoca a compartilhar uma atitude de mistério e contemplação diante do papel exercido pelas personagens concebidas. De tal ordem é o impacto dessas figuras femininas que os olhos parecem transpassar o lado indizível das coisas.

 

Foto: Bárbara Bezina

 

* As fotografias de Bárbara Bezina são parte integrante da galeria e dos textos da 122ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

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121ª Leva - 06/2017 Destaques Olhares

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Ecos Interiores

Por Fabrício Brandão

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

Mirar os espaços em redor. Creditar a eles uma amplitude que atravessa as dimensões concretas da existência. Vislumbrar experiências de vida em esferas até mesmo inimagináveis. Sentir a pulsação dos dias em meio a doses cortantes de realidade e fantasia. Acreditar que o corpo é também um receptáculo de outros tantos estágios da consciência. Assim, trajamos as vestes de nossas humanidades. Assim, também navegamos, talvez um tanto à deriva, em meio às procelas de um mar que sabe a todo tempo nos acostumar a seus mistérios.

Viver é não negar o ato contínuo dos equívocos. É descortinar o véu que divisa a euforia e o sonho da dor ou hecatombes íntimas. Quando olhamos o que nos parece visível ao primeiro ato, sentimos que a matéria um dia pode se dissolver sem prévio aviso. As coisas, por mais palpáveis que sejam, desmancham-se ante nossos olhos nalgum instante futuro. É quando talvez tenhamos como companheira de jornada finita a memória e seus falhos recortes.

Mas se permitir experimentar a efusão dos instantes também pode representar uma rica constatação de que a vida não nos reserva apenas o lado aparente de seres, coisas e lugares. Há um universo de sensações e construções particulares que são percebidos no decorrer duma caminhada que contempla as possibilidades de abstração. Certamente, é ofício dos mais complexos ousar interpretar aquilo que transcende a concretude do mundo.

Todos os mergulhos relatados nas linhas iniciais deste texto talvez sirvam como um átimo de compreensão a respeito do trabalho de uma artista plástica como a portuguesa Cláudia R. Sampaio. São dela arremates de reflexão que viabilizam um espaço de coexistência para os matizes da alegria, dor, inocência e esperança. Suas pinturas, mesmo quando nos permitem vivenciar sinais de elevada densidade em torno do humano, apontam para marcantes sinais de leveza.

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

Do contraponto entre cenas cruas da vida e seus correspondentes mais antagônicos, Cláudia retira o resultado efetivo de suas apostas narrativas. Desse modo, fala-se de um mundo que nos atravessa cotidianamente, mas também de outros mais que perpassam um lapso onírico da existência. Ademais, esse paralelismo de sensações faz multiplicar uma variedade de sentimentos que, ao fim e ao cabo, são a mais pura representação das nossas inquietudes inalienáveis.  No contraste entre as pulsões internas e externas, a artista reverbera uma voz que a tudo vê e sente.

Na espiral do tempo que não retrocede, as pinturas de Cláudia também se ocupam de pensar a vida como um constante painel de expressões poéticas. Há um clamor que vem da necessidade de conferir vez e voz ao canto íntimo de suas personagens, atitude que abre perspectivas em torno do desejo, da serenidade, do caos mundano e do espanto e estranhamento frente ao todo circundante.

Nascida em Lisboa, nos idos de 1981, Cláudia R. Sampaio também se dedica ao ofício de poeta, tendo publicado os livros Os dias da corja (Ed. Do Lado Esquerdo, 2014), A primeira urina da manhã (Ed. Douda Correria, 2015), Ver no escuro (Ed. Tinta-da-China, 2016) e 1025 mg (Ed. Douda Correria, 2017). Sua dedicação à pintura remonta à infância. Tem na figura do pintor Jean-Michel Basquiat uma de suas grandes inspirações no labor artístico.

Diante da presença vigorosa das cores e do contraste entre sentimentos díspares da condição humana, Cláudia lança mão da sua feição de poeta para também impulsionar a criação de suas pinturas.  Sua arte mescla tanto uma observação que emana do contato com o externo, como também dos mergulhos interiores caracterizados sobremaneira por uma marca pontuada pelo lado sublime da vida. De modo especial, as incursões apontam para o âmago das coisas, esse ato contínuo e transformador de olhar tudo por dentro.

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

* As pinturas de Cláudia R. Sampaio são parte integrante da galeria e dos textos da 121ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

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120ª Leva - 05/2017 Destaques Olhares

Olhares

Pelas fronteiras do corpo: a imagem em Angelik Kasalia

Por Fabrício Brandão 

 

Foto: Angelik Kasalia

 

A vida se expande em infinitas possibilidades. Com ela, delineiam-se formas cuja multiplicidade de sentidos exprimem a complexa representação de uma vasta ambiência humana. Carregando no semblante a marca indelével da finitude, fazemos do ato de existir um imenso palco através do qual transita especialmente a nossa busca por algum fôlego que nos anime o espírito.

O ato de pensar a arte como uma espécie de libertação pode estar associado à necessidade que temos de tornar a realidade uma experiência outra. A explicação talvez venha do fato de que não damos conta de suportar os acessos diários da vida, com seus matizes de ápice e declínio dos sentimentos. Restaria-nos, então, o refúgio numa dimensão deslocada do real, esfera de convívio na qual recriamos não somente a nós mesmos como também aos nossos semelhantes.

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Se cremos na harmonia entre mundos paralelos, ou seja, na tácita convivência entre o vivido e o inventado, podemos constatar que existir é avançar sobre o manto invisível das horas. Para além dos registros temporais, ousamos penetrar na zona indecifrável da vida, lugar que não se materializa de forma comum a todos os mortais. Assim, há chaves pessoais que precisam ser utilizadas para que distintos portais do autoconhecimento possam ser explorados.

Entendendo o corpo humano como um verdadeiro elo entre os mundos interno e externo, a fotógrafa Angelik Kasalia vem nos lembrar que a vida também está a serviço da arte, e não necessariamente o contrário como tanto se anuncia por aí. Suas imagens denotam de imediato o tom intimista que revela levezas e densidades dos seres retratados.

Como num imenso emaranhado embasado em requintes poéticos, o olhar de Angelik repousa sobre o sujeito tomado em sua mais delicada perspectiva de expressão. Nesse sentido, a zona de compreensão das coisas não se mostra algo determinada, pois o caráter que reveste as personagens expostas advém de um exercício de fruição abstrata das experiências. O resultado desse processo comunica tons, gestos e, acima de tudo, vozes que nos falam de mundos distantes ou próximos.

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Não seria exagero considerar que as porções humanas expostas na criação da fotógrafa em questão exalam uma marcante esfera de imagens envolta nos apelos do mistério. Talvez porque seja extremamente difícil dar conta de submeter à racionalidade o crivo de uma tentativa de explicação direta dos fenômenos abordados. Ainda assim, parece uma tentativa pouco razoável a de estabelecer conceitos para o que se vê diante desse ritual de subjetividades abraçadas a um teor de imaterialidade. Afinal, como classificar o intangível?

Angelik é, na verdade, a persona artística de Angela Kasalia, que nasceu e vive em Atenas, na Grécia, até os dias atuais.  Seu envolvimento com a fotografia deriva da necessidade de expressar suas emoções e sentimentos. Num tom confessional, ela afirma que seus registros, mesmo apresentando pessoas as mais diversas, refletem sua própria existência. Na perspectiva de observação do outro, a fotógrafa constata que encontra a si mesma a cada imagem concebida.

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Através de suas fotografias, Angelik ressignifica a experiência que emana do corpo. Considera este um verdadeiro agenciador de linguagens na medida em que propaga importantes efeitos potencializadores discursivos. Tomado numa acepção física, o corpo aqui exposto nas alamedas da arte aparece evidenciado pelo seu caráter transmissor de mensagens. De outro modo, e tencionando a via imaterial, vemos aquele mesmo corpo assumir proporções simbolicamente etéreas.

Os trajetos da imagem presentes nos registros de Angelik Kasalia vêm nos falar dessa linha tênue e delicada que divide corpo e alma humanos.  E tais dimensões, mesmo que sejam distintas por natureza, tendem a estabelecer uma relação de harmonização e complementaridade entre si. Os efeitos disso dependem dos mecanismos de interpretação de cada um de nós. Ao saírem de sua matriz criadora, as fotografias tomam novos aspectos, ganham impulso e chegam ao mundo como se fossem o prenúncio de uma aurora iluminada pela poesia. Ciclo que não se apaga.

 

Foto: Angelik Kasalia

 

*As fotografias de Angelik Kasalia fazem parte da galeria e dos textos da 120ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

Through the outlines of the body: the image in Angelik Kasalia

By Fabrício Brandão

Translation (Tradução): Luana Alves*

 

Life expands into infinite possibilities. With it, forms whose multiplicity of meanings are delineated, expressing the complex representation of a vast human ambience. Carrying in our countenance the indelible mark of finitude, we make of the act of existing an immense stage through which transits, especially, our search for some breath that animates the spirit.

The act of thinking art as a kind of liberation may be associated with our need to make of reality another experience. The explanation may come from the fact that we do not manage to withstand the daily spasms of life, with its hues of apex and decline of feelings. We would then be left with the refuge in a displaced dimension of the real, sphere of interactions in which we recreate not only ourselves but also our fellows.

If we believe in the harmony between parallel worlds, that is, in the tacit coexistence between the lived and the invented, we can realize that existing is advancing on the invisible cloak of the hours. Over and above the temporal records, we dare to penetrate the indecipherable zone of life, a place that does not materialize itself in a common way to all mortals. Thus, there are personal keys that need to be used so that different portals of self-knowledge can be explored.

Understanding the human body as a true link between the inner and outer worlds, the photographer Angelik Kasalia reminds us that life is also in the service of art, and not necessarily the opposite, as it is so usually announced. Her images immediately denote the intimate tone that reveals the lightness and density of the portrayed individuals.

As in an immense tangle substantiated on poetic refinement, Angelik’s gaze rests on the subject taken in a most delicate perspective of expression. In this sense, the area of understanding of things is not presented as something determined, since the mark that shrouds the presented characters comes from an exercise of abstract enjoyment of experiences. The result of this process communicates tones, gestures and, above all, voices that speak to us of distant or neighbouring worlds.

It would not be exaggerated to consider that the human portions exposed in the creations of the photographer exhale a striking dimension of images wrapped in the appeals of mystery. Perhaps because it is extremely difficult to submit to rationality the sieve of an attempt to directly explain the phenomena addressed. Nevertheless, it seems an unreasonable attempt to establish concepts for what is seen in the face this ritual of subjectivities embraced to a level of immateriality. After all, how to classify the intangible?

Angelik is, in fact, the artistic persona of Angela Kasalia, who was born and lives in Athens, Greece, to this day. Her involvement with photography stems from the need to express emotions and feelings. In a confessional tone, she affirms that her records, even presenting the most diverse people, reflect her own existence. From the perspective of observation of the other, the photographer states that she finds herself in each of the conceived images.

Through her photographs, Angelik re-signifies the experience emanating from the body. She considers it to be a true agent of languages insofar as it propagates important maximazing discursive effects. Taken in a physical sense, the body here exposed in the paths of art is evidenced by its message-transmitting character. Otherwise, and leaning towards the immaterial, we see that same body assume symbolically ethereal proportions.

The paths of the image in the records of Angelik Kasalia come to tell us of this fine and delicate line that divides human body and soul. And such dimensions, even if they are distinct by nature, tend to establish a relationship of harmonization and complementarity between them. These effects depend on the mechanisms of interpretation of each of us. When they leave their creative matrix, the photographs take on new aspects, gain momentum and come into the world as if they were the clarvoyants of an aurora illuminated by poetry. Cycle that does not fade.

 

* Luana Alves is a translator, graduated in Liberal Arts by UESC. Currently undertaking a master’s degree at the same university, developing researches in Translation and Post-colonial Literature.

* Luana Alves é tradutora, graduada em Letras pela UESC. Atualmente é mestranda na mesma universidade, desenvolvendo pesquisa na área de tradução e literatura pós colonial.

 

Fabrício Brandão publishes the magazine Diversos Afins, besides seeking shelter in books, records, films and in the passionate act of playing drums. Currently undertaking a Master’s Degree in Literature at UESC, and his research line brings together Literature and Culture.

 

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119ª Leva - 04/2017 Destaques Olhares

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Espirais do caos: uma vereda em Samuel Luis Borges

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

No cerne do tempo, as formas transitam. Saem do plano mental das ideias para depois ocuparem espaços plenos de significado. Flutuam por entre seres e dimensões possíveis num emaranhado de sensações que, ao fim e ao cabo, são demasiadamente humanas por natureza.

Acima de toda uma composição abstrata da vida que as linhas iniciais desse texto acabaram de mencionar, há o fino trato do entendimento das coisas pelo viés da poesia, essa colossal capacidade que um determinado artista possui de tornar perceptíveis sentimentos emanados de uma fonte intangível.

Faz toda diferença considerar que certas rotas traçadas pela arte aproximam dois polos fundamentais da acepção das coisas: o primeiro deles pensa a materialidade como instância do que nos é imediatamente visível aos olhos; o outro mergulha no âmago das interioridades, indo buscar ali um resultado subjetivamente marcado pelas construções abstratas do ser/estar no mundo.

Nessa confluência de dimensões aparentemente opostas por natureza, mais especificamente na relação entre o concreto e o impalpável, é preciso dar nome aos bois. Estamos falando de Samuel Luis Borges, artista que, na miríade complexa de seus desenhos e aquarelas, engendra um caminho marcado por uma elaboração peculiar das formas.

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Por que não falarmos em transgressão quando o artista ao qual acabamos de aludir ousa trazer à baila contornos nada usuais para referendar a experiência humana? A resposta é afirmativa na medida em que Samuel mescla sabores e dissabores tão nossos na caracterização dos seres que advêm da sua inquieta verve criativa. Diga-se de passagem, a tais criaturas pensadas pelo artista em questão é dada uma conformação traduzida em caos e mistério.

Eis que chama atenção no fazer artístico de Samuel a caracterização espiralada de uma parte significativa dos seus desenhos. Tais delineações parecem estabelecer pontos de permanência das formas para algo além da esfera física e visível. Desse modo, a intersecção dos corpos revelados remonta a uma ideia de que os laços humanos estão atravessados por uma pungente sensação de amalgamento. Ao que fica a pergunta: novas existências brotariam dali?

Talvez a mecânica que articula os sentimentos humanos possa servir como resposta. No entanto, há, por assim dizer, o nascimento de outras tantas existências a partir desse cruzamento de traços propostos pelo artista. Dessa interligação dos seres, brota um todo orgânico capaz de nos lembrar que a espécie humana, sendo composta em essência dessa pangeia que aproxima tanto êxtases quanto espantos, delimita seu locus num limiar incessante de labirintos e precipícios. Assim, partidas e chegadas, alegria e dor, vida e morte como cenários possíveis.

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Qualquer tentativa de tornar banal a acepção do caos parece não encontrar abrigo no trabalho de Samuel Luis Borges. Não é um trato meramente desordenado das coisas e sensações quem dá a tônica da construção imagética como se a solução criativa estivesse contemplada pelos artifícios de um rearranjo. Pelo contrário, devolve-se o incômodo, esse espantado gesto do ser, sob a forma de representações pessoais e sensíveis do laborioso ato que é viver. Daí, o artista não fugir do enfrentamento quando o mundo em toda sua complexidade o convoca a se posicionar.

A expressão artística aqui presente contempla também a impressão de que o homem contemporâneo não é detentor de uma identidade estática, tendo em vista que o caldeirão das representações culturais borbulha mudanças estruturais a todo tempo e que atingem o sujeito em sua busca por sentidos. Em face de tal cenário, difícil seria manter viva qualquer alusão a lugares pacificados pelas mãos invisíveis da uniformidade.

No seu modo autodidata de se comunicar com o mundo, Samuel confere à poesia um status de razão central de suas manifestações enquanto artista. E o fazer poético não é apenas o gesto que transborda de seus desenhos e aquarelas, mas também aquele que demanda incursões pela palavra escrita e falada.

Envolto pelas atmosferas urbanas, Samuel Luis Borges existe entre nós. Transita entre os espaços da metrópole que acolhe e repele, navega pelo insondável. É porta-voz da construção e também da desconstrução do tempo. Tenta fazer com que sua arte desacostume o arranjo natural das coisas.

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

*Os desenhos e aquarelas de Samuel Luis Borges fazem parte da galeria e dos textos da 119ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

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118ª Leva - 03/2017 Destaques Olhares

Olhares

Em outras veredas

Por Fabrício Brandão

Foto: Kristiane Foltran

Tudo o que classificamos como sendo o real pode ser a fabricação imediata dos instantes. Pode ser o exercício patente de apreensão duma superficialidade das coisas observadas. Também pode significar o óbvio saltando com suas garras ajustadas bem em nossa direção. Diante dessas tentativas de definição, abre-se o fosso da dúvida: será que nos é dada a faculdade de invenção da realidade?

O real nem sempre é algo posto num panteão de conformidades. Por vezes, assinala perspectivas inusitadas, propondo-nos uma mudança no itinerário de nossas convicções. É quando, manipulando uma certa  ordem natural preexistente, reconstruímos os mais diversos cenários de mundo.

Em matéria de fotografia, muitos ímpetos criativos hoje intentam um caminho que, mais do que simplesmente expor a porção real das coisas, deseja ir além, inaugurando outras fronteiras de compreensão. Esse olhar que ultrapassa determinados limites do lado aparente da vida acaba por resultar num permanente estado de revelações. É, pois, a sensação que temos ao contemplarmos as imagens de uma artista como Kristiane Foltran.

Detentora de uma atitude que rompe com uma noção tradicional de concepção da imagem, Kristiane aponta um caminho de transgressão do modus operandi ao qual se debruçou por muito tempo o ofício da fotografia. Adepta da utilização de recursos como a dupla exposição digital, essa fotógrafa curitibana vislumbra apresentar um mundo norteado especialmente pela assunção de outras linguagens.

Foto: Kristiane Foltran

Ao questionar as possibilidades de utilização do suporte fotográfico, Kristiane percebeu que era necessária uma via de transcendência, ou seja, algo que desse vazão a renovadas formas de representação imagética. Essa busca fez com que a artista, lançando mão de novas ferramentas (a exemplo do Site-specific e da Performance), conduzisse uma pesquisa estética através da qual a imagem assumiria uma concepção espacial diferenciada. Desse modo, e diante da fragilidade do suporte fotográfico, a arte transborda o papel e atinge o espaço.

O fato é que a artista visual em comento não apenas propicia um ambiente de ressignificação, sobretudo pelos meios dos quais se utiliza, mas também consegue conferir uma construção poética para seu trabalho. É o que podemos constatar ao observarmos séries como In_Versos, Marés, Fragmentos e Gueixas de Outono, todas elas a nos revelar densos percursos no complexo mar de nossas humanas idades.

Kristiane Foltran traz em sua trajetória uma vasta participação em exposições individuais e coletivas, além de integrar seleções e colocações em editais, concursos e salões de arte. Com os dois pés fincados na pós-modernidade, demonstra que sua arte, assim como o seu tempo, não se assenta em bases estabilizadas e previsíveis.

Tal como foi abordado no início destas breves linhas, a apreensão da realidade é algo movido por difusos caminhos. Certamente, não acharemos respostas para toda sorte de indagações pertinentes a um percurso como este. Importa mesmo considerar que o olhar de um artista pode trazer à tona as virtudes encerradas num gesto singular de percepção. Com o passar do tempo, sentimos mesmo que a arte não admite a visão cordata das coisas.

 

Foto: Kristiane Foltran

 

*As fotos de Kristiane Foltran fazem parte da galeria e dos textos da 118ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

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117ª Leva - 02/2017 Destaques Olhares

Olhares

O enraizamento das formas em Bianca Lana

 Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Bianca Lana

 

Constantemente atravessados pela urgência exterior do mundo, somos atingidos pelo excesso das aparências. Quando definimos um objeto, tentamos primeiramente buscar referências anteriores dentro daquilo que habita o plano mental, algo determinado por uma tradição pretérita que avança no tempo. Muitas coisas, quando tomadas por um sentido de percepção material, remontam a significados construídos por elaborações já estabelecidas, delimitando ou até mesmo restringindo as possibilidades de interpretação em torno delas.

Sob o manto visível das composições figurativas, há muito mais do que uma mera acepção plástica dos temas representados. Entendendo a arte como uma ferramenta que desvela fronteiras, desconfiamos que a exterioridade não apenas de objetos, mas também de pessoas, funciona como uma via de acesso a uma outra dimensão, condição que abriga um conteúdo de caráter intangível por natureza.  Comportando-se como uma ponte entre dois mundos, o ambiente das formas aparentes prenuncia de algum modo o que está encerrado em seu interior.

Quando um artista percebe esse lugar como uma zona de transição, e não como algo fixo, intransponível e estanque, o resultado é impactante.  E o que mais chama atenção nesse momento de descoberta é entender que a visão do criador é capaz de superar determinismos do olhar. É um ir além do aspecto físico e, portanto, inicial das experiências. Movimento de se deixar invadir pela dimensão intrínseca de seres, coisas e lugares.

E assim o faz gente como a artista plástica Bianca Lana, que, apostando numa densa imersão nas mais variadas expressões humanas, faz dos seus trabalhos visuais algo pungente. Em suas linhas, cores e formas, Bianca ousa sondar territórios intimistas e que trazem em si uma minuciosa noção de profundidade do olhar. Sua arte está fundamentalmente voltada para a essência da condição humana.

 

Ilustração: Bianca Lana

Em seus desenhos, pinturas e ilustrações, predomina uma perspectiva de se conceber o que está além do ordenamento físico das coisas. É quando Bianca nos propõe um corte profundo na superfície que reveste a face dos homens. Fazendo uso desse viés, suas investidas assemelham-se a um momento de contemplação visceral, um desnudar das formas apontando para a revelação nem sempre sublime dos sentimentos.

Influenciada por nomes como Adara Sánchez, Agnes Cecile, Tonny Tavares e Nestor Jr., Bianca Lana prima pela utilização de aquarela, tinta acrílica e técnica de pontilhismo com nanquim. Em sua ainda breve trajetória, já integrou tanto exposições individuais quanto coletivas.

De modo confessional, Bianca sustenta que sua arte, além de evidenciar aspectos simbólicos, intenta representar um painel de angústias inerentes ao ser humano. Nesse vasto e complexo ambiente, seus mergulhos criativos estão direcionados para uma valorização das interioridades. E é com essa característica que lhe é peculiar que a jovem artista paulista faz do seu ofício um salto para o mistério, sobretudo se pudermos atestar que nossa existência é uma espécie de trajeto rumo ao desconhecido.

Aquilo que abrigamos na raiz de nossas individualidades costuma encerrar uma multiplicidade de sentidos. Todos eles podendo encontrar terreno fértil diante da atmosfera intangível que permeia nossas construções de mundo. Há muito por ser descoberto dentro de nós mesmos e é tão precioso quando um artista nos incita a tamanha constatação.

Ilustração: Bianca Lana

*As ilustrações de Bianca Lana fazem parte da galeria e dos textos da 117ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.

 

 

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116ª Leva - 01/2017 Destaques Olhares

Olhares

A fluidez subjetiva da arte de Antonio Paim

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Antonio Paim

Há mãos que procuram por gestos. Rostos que marcam cartografias de sentimentos por entre dias e lugares difusos. A vida, um cenário que alterna o estático e o dinâmico, a fuga e a presença das cores. Onde a capacidade de se vislumbrar além dos espaços naturais de alcance imediato? Onde um fôlego de poesia em meio à massa cotidiana de intervenções humanas?

O que um olhar genuíno é capaz de proporcionar suplanta os aborrecidos caminhos do óbvio. Vai além, penetra na camada intrínseca das coisas. O gosto pela essência rege caminhos marcados fundamentalmente por um amplo território de subjetividades. Decerto, somos todo um universo que agrega, a um só tempo, papéis aparentes e ocultos. E assim cumprimos um misterioso ritual das horas como profundos desconhecedores do destino.

O que caberia a um fotógrafo diante desse colossal ambiente de incertezas? Quiçá a rota imprecisa das navegações pessoais. Algo que denotasse indícios de que nos vãos da existência há margem para compreendermos um pouco do que somos.

No trabalho de um artista como Antonio Paim, sujeitos e objetos trafegam em planos paralelos e também distintos. A busca da imagem reflete uma peculiar maneira de tentar captar o idioma encerrado no gestual de certas epifanias humanas. Assim, fotografias transbordam sentimentos característicos de sujeitos que possuem modos diversificados de expressão diante do mundo.

Harmonicamente integrado a determinados ambientes de observação, Antonio testemunha com maestria manifestações especiais da cultura popular brasileira. Nelas, evidencia elementos místicos que apontam para um caminho de transcendência dos valores terrenos da experiência humana. É, por exemplo, o que acontece quando direciona suas lentes para registrar as intensas nuances presentes nas celebrações afro-brasileiras. O resultado é um todo orgânico, revelando uma estética que contempla fé, entrega e consagração da vida ante a representação do divino.

Foto: Antonio Paim

E o fotógrafo também volta suas atenções para contextos urbanos. Aqui, cidades significam muito mais do que aglomerados de pessoas e concreto. São a mais pura e espontânea tradução dos trajetos individuais e sua relação com a construção do coletivo. Seja a partir de uma metrópole ou pequena vila, Antonio nos mostra que é o externar das identidades singulares (e aqui tomemos o termo como sendo algo que distingue os seres em sua essência pessoal) o que de fato confere sentido a um determinado lugar.

Fazendo uso de recursos como a dupla exposição, Antonio ousa nos sugerir outras possibilidades de leitura imagética. Essa escolha criativa, baseada na sobreposição de imagens, resulta num diálogo entre diferentes tempos e espaços, o que amplia o leque de interpretações do observador. Essa, digamos assim, manipulação dos contextos serve como uma valiosa provocação, talvez uma tentativa de questionar o conceito de realidade.

O fato é que está também nos propósitos desse artista baiano fazer com que as pessoas possam vislumbrar interpretações autônomas para as fotografias que ele produz. Significa deixá-las à vontade para que recriem mundos a partir desse mundo ofertado, mesmo que este seja a mais sincera representação do nonsense ou de meros devaneios presentes no cotidiano do fotógrafo.

Natural de Salvador, Antonio Paim coleciona em sua trajetória diversas participações em exposições individuais e coletivas, tendo recebido relevantes premiações com seu trabalho. Entre seus projetos, destacam-se as séries Preces (registro especial sobre os festejos que cultuam Iemanjá na Bahia), Átimo (trabalho que enaltece a memória a partir de imagens captadas em cemitérios) e Todo carnaval tem um pouco de navio negreiro (espécie de crítica à situação dos cordeiros de blocos no carnaval de Salvador).

Certamente, a boa fotografia não é aquela que tão somente acate os ideais de beleza plástica. É algo maior, que subjaz, transpõe limites aparentes. Um pacto silente entre criador e observador, reserva do inimaginável e fonte incessante de visões. Captar a luz também é traduzir a si e a outros, eterno deslocar de sujeitos.

Foto: Antonio Paim

 

*As fotos de Antonio Paim fazem parte da galeria e dos textos da 116ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.