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115ª Leva - 09/2016 Destaques Olhares

Olhares

Um desintegrado lastro humano

Por Fabrício Brandão

Desenho: Re

Os dias caminham sobre o imenso território do planeta. Vez por outra, estamos inebriados ao ingerirmos, muito sem querer, doses cavalares de realidade. E a pergunta fica: alguém de fato encontra completude diante da incessante rotina do real?

De um lado, o que vemos e tomamos como coisa viva e presente na lonjura do tempo. Do outro, as construções internas reivindicando espaços libertários de representação. No consumo diário das cápsulas da realidade, alguém sempre encontra espaço para modificar a tônica ensaiada das coisas. E quando o livre universo da abstração adentra uma janela de nossa frágil casa, ali, na porta dos fundos, foge exasperada a banal figura de um olhar domesticado das coisas.

Definitivamente, não somos animais feitos para acostumar as horas. Podemos até, com certa frequência, negligenciar a face do inconformismo e postularmos alguma espécie de acomodação do olhar. Mas chega um momento em que isso não se torna mais possível, pois há chamados apontando rumos nada cartesianos, nos quais tempo e espaço são elementos nem um pouco mensuráveis sob aspectos de quantificação aparente.

A valoração íntima do modo como cada pessoa vislumbra as nuances do mundo alveja diretamente alguns lancinantes cenários. São recortes da existência a nos provar que é possível ressignificar a vida em grande parte. É o que tenciona a artista plástica Re, quando faz da sua arte um mergulho constante no território complexo e misterioso da introspecção.

Ao nos mostrar seus desenhos, Re põe em evidência uma espécie de desconstrução das formas tradicionais. As paisagens humanas por ela visitadas são o reflexo de um universo pessoal de abordagens, filtros de um olhar que expõe em certa medida o caráter maculado das nossas humanidades.

Desenho: Re

Seja na deformação de corpos, na utilização de sutis recursos irônicos ou na acidez crítica dos contextos, a desenhista invoca a urgência fragmentária das identidades mundanas. Trata-se de um vasto painel de sombras duma consciência dispersa por entre os vãos das desventuras dos homens, suas escolhas, bem como o idioma dos equívocos nossos de cada dia.

Mas eis que há a palpável constatação de que mergulhamos no fosso abissal da chamada pós-modernidade. Nesse contexto largamente indefinido pela fluidez das identidades e, sobretudo, pela ausência de um sujeito único e assentado numa zona de segurança, é que percebemos a contribuição da artista no que se refere ao desafio de pensar o estado atual das coisas às quais estamos submetidos.

Re é na verdade a persona artística de Renata Lisboa, trans, paulista, estudante de arquitetura, um alguém que vai moldando sua identidade em meio ao fluxo de alumbramentos inquietantes. Sua jovem idade (19 anos) é inversamente proporcional à promissora capacidade que possui de pôr em xeque através de sua obra a fixação de qualquer verdade universal.

Transitando entre o niilismo e o pessimismo, a artista confessa que suas inspirações vêm de nomes como os de Tim Burton, Jodorowsky e Iberê Camargo, além de artistas independentes, sobretudo aqueles pertencentes ao surrealismo pop.

Na inscrição traumática e apocalíptica dos seus desenhos, Re traz à tona as marcas de uma arte que provoca e, ao mesmo tempo, não congratula com vãs esperanças de futuro. É como se cada forma, contorno ou cor empregados fossem um vivo atestado de que estamos implicados até o pescoço com aquilo que quiçá também somos: misto de sujeitos errantes com falsas ilusões de salvação.

Desenho: Re

 

*Os desenhos de Re são parte integrante da galeria e dos textos da 115ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.

 

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114ª Leva - 08/2016 Destaques Olhares

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As inexplicáveis visões da rua

 Por Fabrício Brandão

 

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Foto: Milton Boeira

Um simples movimento para além de nossos domínios supostamente protegidos e muita coisa já parece diferente. E tal transição não é feita apenas de mudanças do ponto de vista físico, mas essencialmente de alterações de percepção, algo que habita o campo abstrato da vida.

Estar na rua é, para muitos, um necessário exercício de libertação. Mas aqui não falemos de um conceito encerrado apenas nas infindas possibilidades de um ir e vir, o que nos apresentaria de imediato uma noção mais óbvia de liberdade. Pensemos naquilo que nos aguarda quando entrecruzamos nossas experiências com as de tantas outras pessoas, as quais automática, rotineira ou despercebidamente também constroem o mosaico complexo das cidades.

Bem sabemos que o concreto e suas múltiplas acepções arquitetônicas são uma espécie de lado aparente das coisas, quiçá dos sentimentos humanos. No entanto, é percorrendo alguns sinais deixados pelos ímpetos pretensamente civilizatórios que conseguimos entender um pouco que tipo de gente empresta seus tons à dinâmica de ruas, avenidas, esquinas, moradas, pontes, torres, viadutos, catedrais e arranha-céus.

Há quem nos permita saborear a experiência visual dos lugares numa atitude ao mesmo tempo contemplativa e densa. É o caso do fotógrafo Milton Boeira, artista que estabelece uma especial maneira de mergulhar no universo urbano. Cada apresentação dos espaços contida nas lentes dele faz com que nos sintamos abraçados pela poética emanada de um vasto tempo, personagem que se desloca ditando o ritmo da existência.

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Foto: Milton Boeira

Depois de promover um mergulho de anos à caça de imagens urbanas que melhor definissem sua procura, Milton chega num resultado ao qual batizou por “Metrópole”, projeto que lhe rendeu duas exposições individuais. O saldo dessa busca é um verdadeiro acervo de sensações, seja na forma como retrata pessoas e lugares, seja no modo como extrai do todo observado um sentido de pertencimento.

É justamente por se sentir parte integrante do espaço urbano captado que Milton Boeira faz de sua arte um espelho de vivência. Em lugar de observar a tudo com estranhamento e enaltecer distanciamentos proporcionados pela alteridade, coloca-se como um ser componente do mundo por suas lentes apresentado. Tal sentimento é tão amplo que o artista nos confessa: “Me sinto parte da rua, da calçada, da arquitetura e principalmente das pessoas”.

Nascido no Rio Grande do Sul, Milton atualmente reside em Curitiba, cidade que lhe possibilitou estudar fotografia como arte. Apropriando-se de um conceito denominado Pós-Fotografia, além de uma marcante influência das Artes Gráficas, aponta como norteadoras do seu trabalho de construção visual temáticas ligadas a pessoas, arquitetura, natureza urbana, signos, cultura, dentre outras.

Se há uma contraposição habitual entre interno e externo, duas esferas de vivência aparentemente diferentes, a arte de Milton Boeira parece ignorá-la. É como se fazer parte do mundo fosse o entendimento de uma coisa só: visitar e sentir paisagens urbanas sem perder dessa experiência o valor dos instantes, o poder dos deslocamentos imateriais.

Milton Boeira
Foto: Milton Boeira

 

*As fotos de Milton Boeira fazem parte da galeria e dos textos da 114ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.

 

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113ª Leva - 07/2016 Destaques Olhares

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As libertárias silhuetas de Rety Ragazzo

Por Fabrício Brandão

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Desenho: Rety Ragazzo

Um vasto mundo pode ser reproduzido através de um determinado ponto de vista. E tal peculiaridade assume um importante valor quando não se fecha ao jogo inútil dos determinismos. Quem expressa em seu ofício uma específica vertente do pensamento, não pode impor ao outro padrões de observação. Importa deixá-lo à vontade nos domínios dessa majestosa senhora chamada percepção.

Mas eis que uma artista como Rety Ragazzo, ao nos indicar seus caminhos autorais, aponta para contemplar o mundo com o poder das formas. Dona de um estilo próprio, ela recria a experiência humana ao representar o universo feminino pela abundância corpórea de suas personagens.

Mais do que apresentar em seus desenhos e ilustrações o corpo feminino avantajado por vias naturais ou de quaisquer ordens, Rety consegue extrair da sua arte um sentido especial de libertação. Na medida em que esteticamente professa um traço singular sobre as figuras humanas retratadas, a artista promove uma construção inclusiva da mulher gorda dentro de uma ótica que afugenta indícios de panfletarismo.

De fato, a artista em foco abraça a causa das mulheres gordas por também se assumir como sendo uma delas. E assim nos diz: “Tenho muitas dobras e, desde que parei para observá-las, resolvi desenhar a quebra de padrões e ampliar discussões feministas e contra a gordofobia”.

Rety Ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

O que deseja, então, a artista quando nos apresenta a vida povoada por mulheres gordas? Não há dúvida de que a resposta para tal questão encontra abrigo num valioso fator de provocação. Aparentemente, vemos um mundo povoado exclusivamente por aquelas mulheres. No entanto, a principal simbologia dessa opção criativa está na crença de que gordos são naturalmente integrantes do mundo sem que seja relevante olharmos para eles com os matizes da diferença física. Melhor ainda é perceber que a representação formal de mundo habitado apenas por pessoas gordas não prejudica o caráter de igualdade sugerido pela artista. É como se, gordos ou magros, também estivéssemos ali expostos com as devidas marcas de nossas individualidades.

A arte de Rety segue pelas trincheiras da ruptura de padrões e não hesita em firmar posições ideológicas diante da vida. Além de acumular as feições de pedagoga e professora da educação infantil, toma para si as frentes de feminista e esquerdista. Confessando-se uma mulher em emancipação, a artista torna o conceito de liberdade algo dinâmico na medida em que a construção de sua identidade se opera num deslocar de espaço e tempo, na vivência cotidiana que a tudo vê e sente, das coisas banais até as mais complexas.

Rety também expande seus traçados para outras fronteiras. É, por exemplo, o caso da  série “santos & orixás” (desenhos bem humorados feitos em parceria com Ana Roxo). Há também uma multiplicidade de tons e formas agregados sob a alcunha de “traços livres”.

Com a liberdade entre os dentes, Rety Ragazzo reinventa a própria existência e tudo que a cerca. Investe contra a rotina dos dias de modo a transformá-la numa fundamental aliada de sua arte. Cumpre seu ritual de pessoa comum e é capaz de desvendar pequenos mundos constantemente. Permite-se voar mesmo com os pés fixados ao chão.

Rety Ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

*Os desenhos de Rety Ragazzo são parte integrante da galeria e dos textos da 113ª Leva

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.   

 

 

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112ª Leva - 06/2016 Destaques Olhares

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Uma tão viva e espelhada alteridade

Por Fabrício Brandão

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

Um mundo a revelar suas faces. Em cada rosto, a expressão daquilo que está por trás do ritual dos dias. É preciso muito mais do que a mera anunciação da rotina para entendermos que a fotografia transcende a aparência das coisas. Assim, vemos transitar os homens com toda a vastidão de cenários que lhes são peculiares e íntimos.

Já que estamos falando de humanas paisagens, não há como deixar de ressaltar o caráter antropológico do trabalho de um artista como Patrick Arley. É, de fato, o que causa maior impacto num primeiro momento em que nos debruçamos sobre seu ofício.  O homem apresentado nas fotografias de Patrick é o mais puro reflexo do ambiente em que vive, pois traz em si o vigor de suas práticas sociais, seus laços de pertencimento, seus traços culturais, seu lugar no mundo, enfim.

Cada semblante retratado pelo fotógrafo mineiro em questão transpõe nuances de um estratégico contraste entre luz e sombra. É como se diante da natural ambiguidade que o ser apresenta, emanasse simultaneamente tanto o que está para ser visto como também aquilo que carece um sentido de reserva. Então, poderíamos concluir que as faces humanas observadas estão ali impregnadas de um fluxo de expansão e retração. Estão expostas naturalmente porque cumprem um papel material do qual não se pode fugir. Entretanto, mantêm um lado oculto devidamente preservado pela construção da subjetividade.

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

Quando avançamos mais no microuniverso de cada pessoa flagrada pelas lentes de Patrick, sentimos a leve presença de espaços intangíveis. De um lado, a materialidade das coisas; do outro, vastas possibilidades de abstração, as quais tanto podem estar situadas no plano do observador como naqueles vividos pelos reais personagens.

E o fotógrafo vai mais além. Ousa percorrer temáticas envolvidas em mistério, como é o caso da morte. O resultado disso é uma representação cujo trânsito de imagens faz circular elementos como silêncio, vestígios e memória. Ainda dentro dessa atmosfera, uma espécie de contemplação do mistério parece surgir quando a existência física dá lugar a sacralizadas lembranças.

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

Outro ponto de destaque no trabalho de Patrick está no registro de manifestações da cultura popular. Delas, o artista consegue extrair recortes que mesclam crenças e elementos folclóricos. O testemunhar das tradições, sobretudo as de origem afro-brasileira, mostra que a fotografia também pode estar a serviço da preservação das raízes que fundam um país de proporções continentais como o Brasil. Há beleza no modo como as imagens que tratam desse tema retratam um êxtase tanto individual quanto coletivo, principalmente quando seus apelos denotam uma esfera mística de experiências.

Nascido em Belo Horizonte, Patrick Arley formou-se em Ciências Sociais, fez mestrado em Antropologia e atualmente é doutorando (também em Antropologia) pela Universidade Federal de Minas Gerais.

O viés imagético seguido pelo artista em foco demonstra uma valiosa opção por tentar compreender um pouco daquilo que integra os papeis humanos. Movidos por paixões ou pelo ritmo automático de nossas existências, somos seres outros, talvez um pouco melhores do que antes, quando assinalamos posições marcadas pelo captar de gestos simples da vida. A habilidade de olhar verdadeiramente o outro, respeitando seus domínios, implica num entendimento sobre nós mesmos.

Patrick Arley

*As fotos de Patrick Arley fazem parte da galeria e dos textos da 112ª Leva.

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.

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111ª Leva - 05/2016 Destaques Olhares

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Uma tênue linha entre dois mundos

Por Fabrício Brandão

Luma Flores
Arte: Luma Flôres

Se nos fosse dada a possibilidade, será que cada um de nós realmente saberia responder qual mundo carrega dentro de si? Antes de arriscarmos algo, percebamos as vias paralelas que podem fluir na epifania particular de duas imediatas dimensões: interna e externa. A interna, portanto intimista, é o indivíduo em si, suas convicções, nuances e filtros. A externa, por sua vez, é o gigantesco mosaico de cenários dispersos no lado exposto da vida, suas complexidades, seu turbilhão.

Há paralelismos plausíveis nas duas dimensões abordadas, mas ocorre também certa dinâmica de oposições na medida em que as percepções individuais atravessam modos difusos de conceber as coisas. O externo seria apenas uma paisagem estática a se contemplar não fossem os arremessos que cada pessoa é capaz de promover.

Experimentar o mundo que cresce ante nossos olhos é saber que nem todos o veem da mesma forma. Isso é benéfico por sugerir que a não uniformidade de visões e pensamentos acaba sendo uma característica valiosa. Então, como poderíamos pensar num outro lado das possibilidades se tudo fosse baseado num imutável consenso?

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

Já que o mundo externo, por natureza, é um colosso de imagens, é de se imaginar quantas surpresas podem estar abrigadas no universo particular de cada pessoa que por ele transita. No caso da artista plástica Luma Flôres, a proporção especial de um mundo íntimo serve de exemplo para tanto entendermos o que passa nos seus domínios, como também aquilo que permeia a relação com o exterior.

Luma contrapõe as duas dimensões de mundo sobre as quais trataram as linhas introdutórias deste texto. Seus desenhos nos dão notícias de territórios marcados tanto pelo real quanto pelo imaginado. Notadamente, são duas vigorosas formas de se lidar simultaneamente com a superfície e a profundidade daquilo que se pretende observar.

Importa dizer que é a porção intimista e subjetiva do olhar da artista quem estabelece uma conexão com o mundo em que vivemos. Assim, surgem camadas de experimentação para cada ser ou lugar apresentado. Passando por aquarelas, gravuras e também colagens, Luma mostra-nos perspectivas da existência marcadas pela fragmentação de sentimentos humanos. Revelando um gestual poético, tanto existe a face contemplativa, sensível e delicada quanto a porção que indaga inquietamente sobre os destinos humanos.

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

Nascida em Vitória da Conquista, na Bahia, Luma Flôres cursa Design na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, em Salvador. Em duas oportunidades, nos anos de 2014 e 2015, seus trabalhos foram premiados pela Escola de Belas Artes da UFBA. Além disso, participou de várias exposições em espaços da capital baiana, bem como levou sua arte para cidades como Juazeiro, Vitória da Conquista e Rio de Janeiro.

À medida que penetramos nas dimensões propostas por Luma, compreendemos que algo transcende o mundo físico no qual habitamos.  Miramos o fundo de um imenso espelho e lá encontramos algumas pistas do que somos. O reflexo disso é, para além do reconhecimento, um estranhamento de tudo aquilo que nos tornamos enquanto seres imperfeitos. No espaço intermediário entre os mundos concreto e abstrato, transitam delicadezas, hesitações, poucas certezas, sentimentos sublimes, efusões, tristezas e alguma controvertida verdade pessoal, esta última uma personagem que, ao que parece, jamais conseguirá ser absoluta.

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

*Os desenhos de Luma Flôres fazem parte da galeria e dos textos da 111ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.   

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110ª Leva - 04/2016 Destaques Olhares

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Por entre os vãos da espera

Por Fabrício Brandão

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

Um caminhar de passos desavisados diante dos cenários espontâneos do mundo. Universo a agregar um só ritual: olhar a tudo e a todos com naturalidade. É preciso maturar o pensamento, deixá-lo orbitar em suspensão no deslocar do tempo. Esperar é maior virtude de quem reverencia silêncios e se deixa tomar pela epifania da vida tal como ela é.

Sim, é preciso falar de esperas. Daquelas que nos permitem respeitar a essência das coisas. É urgente exaltar esperas quando isso implica em testemunharmos exercícios de liberdade. Liberdade que vem do outro, sua mais genuína expressão humana. Liberdade em poder sentir o que a natureza e o fenômeno contido na disposição das coisas encerram com sua vasta linguagem.

Quando uma artista como Suzana Latini evidencia em suas andanças criativas o poder da espera, notamos que captar a vida é deixá-la simplesmente acontecer. O marco de sua atuação como fotógrafa é o desejo puro de se lançar ao mundo e ser surpreendida por ele. Assim, o externo, com toda sua carga de possibilidades e perspectivas múltiplas, é quem assume um papel ativo. Revertendo uma certa lógica tradicional, Suzana é registrada pelo mundo.

Ao aguardar que seres e lugares lhe apontem suas naturais rotas, Suzana fideliza a experiência de perceber as coisas tal qual elas se manifestam. Seja observando pessoas, objetos, lugares ou testemunhando eventos da natureza, a fotógrafa não tenciona roteiros premeditados. Quem aqui opera é o destino, com a força de suas revelações, com a pungência do novo a causar fissuras na rotina dos dias.

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

No ritual de se deixar envolver pelos matizes do destino, Suzana enaltece cores, formas, sombras, paisagens e silêncios. Nalguns momentos, há a presença viva de pessoas a delinear os ambientes flagrados; noutros, irrompem espaços tomados pelo vazio, todos eles prenhes de ausências humanas, porém lugares de possíveis memórias.

Nascida em Belo Horizonte, Suzana Latini formou-se em Artes Plásticas pela Escola Guignard (Universidade do Estado de Minas Gerais). Durante toda a sua trajetória, esteve envolvida com produção, principalmente de vídeos e fotos publicitárias. Confessa que seu olhar procura aquilo que ninguém presta atenção, além de creditar fascinação ao que está por trás de banais instantes da vida.

Para manter a liberdade, esse bem que nos é tão caro nas suas mais variadas acepções, Suzana prefere não se entregar profissionalmente à fotografia. Mesmo assim, seus registros estão disponíveis para aquisição do modo genuíno como foram captados.

Quando o ato de observar o mundo, seus fenômenos e personagens, destina-se ao menor nível possível de interferência, por certo homérica tarefa, há um desejo maior de preservar a essência da existência. Nesse trajeto, existem tanto cenários concretos quanto os que são frutos de nossas abstrações. A espera, essa senhora memorável, vem nos fazer recordar que cada contexto experimentado guarda seus inadvertidos trunfos.

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

*As fotografias de Suzana Latini fazem parte da galeria e dos textos da 110ª Leva

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.  

 

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109ª Leva - 03/2016 Destaques Olhares

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Paralelismo de sensações

Por Fabrício Brandão      

 

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Arte: Helena Barbagelata

 

Entre os atos, pairam taciturnas outras existências. Viver é esse gesto colossal de colecionar mistérios e avançar por sobre eles sem que saibamos ao certo suas origens mais imediatas. É flertar com o desconhecido que nos apresenta suas investidas cotidianamente. Embora busquemos natural abrigo no algo concreto e visível, somos tomados vez ou outra pelas garras da abstração.

Quando não sabemos lidar com o intangível, muitas vezes sentimos que perdemos a desejada capacidade de controlar as coisas ao nosso redor. É muito mais do que uma mera questão de se ir além da superfície. Um percurso de rotas que nos atraem rumo ao estranhamento de nós mesmos.

Para além das experiências corporais, há trajetos de invenção e sonho. Almejando alguma espécie de libertação, um criador se rende aos atributos desse caminhar por dimensões imateriais. Assim, o que parece ocorrer é que um curioso processo de reconhecimento se opera, tornando a vivência das situações um mirar de faces diante de um espelho.

Para uma artista como a portuguesa Helena Barbagelata, o outro lado do espelho reflete uma esfera de vivências na qual o físico e o abstrato convivem harmoniosamente. É como se um ambiente único de percepções surgisse, mesclando o real e o onírico, o vivido e o imaginado.  Tudo num organismo amalgamado que processa as mais complexas questões do olhar.

 

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Arte: Helena Barbagelata

Helena expõe certas densidades humanas. Mostra-nos um conjunto de gestos, externa rostos carregados de sobriedade, aponta trajetos do corpo. Em lugar de entabular razões, a artista utiliza como principal ferramenta um prisma poético sobre as coisas observadas. É, de fato, uma valiosa escolha na medida em que os recursos da sugestão promovem uma ideia de que as vias estão abertas para captar algo que não habita o território das obviedades.

Nascida em Lisboa e hoje vivendo em Atenas, Helena há muito percorre caminhos em torno das artes plásticas, música e literatura. Na seara literária, colaborou com revistas internacionais, obteve prêmios e publicou a obra Soliloquia (Apenas-Livros, 2013). Em matéria de artes visuais, suas criações transitam entre a pintura e a fotografia.

Considerando a arte como um diálogo entre criador e receptor, a artista lusitana abre fronteiras para a libertação do olhar, ponto no qual quem contempla é capaz de vislumbrar outros significados para a criação. Ainda, segundo Helena, os caminhos percorridos levam a uma alternativa não somente de autoconhecimento, mas também de descoberta do homem em relação a seus pares e ao mundo.

Contemplar a obra de um alguém como Helena Barbagelata é apostar na existência de dimensões ilimitadas e paralelas em convivência. Na intersecção entre o palpável e o inventado, percebemos uma sucessão de camadas de vida. São saberes do ato de existir, noções que apenas são percebidas porque se ousou experimentar a continuação dos passos.

 

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Arte: Helena Barbagelata

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.  

 

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108ª Leva - 02/2016 Destaques Olhares

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Conjunções urbanas

Por Fabrício Brandão

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

A cidade apresenta seus matizes. E há muito por trás disso. Tudo traduzido num ritual de cores, linhas, formas, luzes, sombras e gestos. Dentro da metrópole, reinam sentidos múltiplos, escondem-se outros tantos segredos. O concreto não existe por si só, enquanto resultado de décadas e décadas de feituras arquitetônicas, mas assume uma nova conformidade na medida em que os habitantes dos seus domínios alimentam o vaivém dos dias com o fluxo das suas ações.

Estar numa cidade é fazer parte de um imenso campo de abstrações. Por mais que se tome as coisas como fruto imediato das observações mais aparentes da vida, um quê de mistério ainda resiste. Quanto sentimento pode caber nos corredores viários, nas ruas, alamedas e avenidas? O que, de fato, define as paisagens urbanas?

São questões razoáveis, plausíveis. Certamente, a resposta está no modo como as intervenções humanas protagonizam seus papeis. Na caótica rotina urbana, pessoas passeiam suas efusões e dores, carregam suas máscaras, consolidando um verdadeiro e difuso espaço de representações.

No trabalho de um fotógrafo como Ricardo Laf, a imagem traz em si um caráter fortemente voltado aos aspectos acima descritos. É como se o artista retivesse instantes e extraísse deles alguma máxima do tempo, espécie de testemunho insone das coisas.

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

Nas fotografias de Ricardo, a perspectiva física dos lugares vem redimensionada pelas marcas que os homens assinalam em suas passagens. Assim, a matéria incorpora os ecos de seus personagens transformadores, assumindo também uma faceta ativa. É como se houvesse uma confluência entre os dois mundos, um de carne, outro de pedra.

Quando incursiona pelas vias citadinas, o olhar desse artista mineiro também sonda vestígios, verdadeiros lugares de ausência que são pressupostos de silenciosos e anteriores ímpetos humanos. O saldo dessas marcas reflete um complexo painel de histórias camufladas pela rotina. Aos poucos, vislumbramos também narrativas de vida dispersas nos vãos da colossal matéria. Mesmo onde impera algum tipo de devastação, uma memória ali se instalou.

Jornalista por formação, Ricardo Laf também estudou Ciências Sociais, Teoria da Literatura e Semiótica. Confessa-se com uma intenção estética de, através da fotografia, dar vazão ao registro visível do mundo. Sua relação com a imagem remonta à mais longínqua infância, despertada por uma pueril curiosidade.

Bem sabemos que muito se perde no torvelinho cotidiano. De tão acostumadas, nossas horas tendem a refletir um ciclo de ações por vezes mecânicas. Com tal comportamento, alteramos as configurações dos espaços em que transitamos sem sequer desconfiarmos que neles alguma porção da vida restou coagulada. E o que mais fascina nesse automático processo de desprezo é saber que de algum modo alguém nos chamará a atenção para as sutis epifanias do esquecimento, seus cenários repletos de histórias possíveis.

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

* As fotografias de Ricardo Laf são parte integrante da galeria e dos textos da 108ª Leva

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Olhares

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Admirável novo olhar

Por Fabrício Brandão

 

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Desenho: Deborah Dornellas

A descoberta do mundo é um processo lento, dinâmico, complexo e continuado. Mas é necessária uma intervenção ativa do olhar para que isso se torne algo real. Do contrário, a imutabilidade dos gestos diante das horas que nos acometem não tem serventia, pois nada constrói. Nem tudo está posto e temos uma considerável margem de liberdade para traçarmos as interpretações ao nosso modo.

Quando nos deparamos com coisas já estabelecidas, podemos indagar se tudo deve transcorrer da maneira como se apresenta. Sob o manto da aparência pairam as mais diversas possibilidades, cada uma delas carregando em si uma oportunidade de ressignificação. E é preciso ousadia para romper as barreiras tão viciadas pela rotina que nos trai e acomoda.

Pensar a arte de Deborah Dornellas é apreender a sensação de que o mundo no qual vivemos não é o mesmo de sempre. Munida de uma imensa capacidade de abstração, a artista revela-se hábil em revestir seres e lugares com uma múltipla sucessão de camadas. Significa dizer que o objeto de seus desenhos opera num fluxo através do qual o caráter físico das coisas é fragmentado para depois servir de base a uma outra formulação.

A despeito do que foi dito acima, essa nova caracterização da matéria é capaz de desfigurar cenários e corpos para depois reordená-los com outra configuração em forma e conteúdo. Desse modo, Deborah consegue vislumbrar alguma ordem no caos que nos pertence por natureza.

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

No que tange aos traços humanos apresentados por Deborah em seus desenhos, chama atenção uma verdadeira consciência amplificada a cerca dos domínios do corpo. Nessa ótica, a artista prima, sobretudo, pelo recorte sutil das formas, pela indefinição de rostos e identidades. A aura que envolve corpos vem associada a uma espécie de esfera do mistério e, de certa forma, sugere uma conotação etérea.

Carioca criada em Brasília, Deborah hoje mora em São Paulo por escolha própria. Também é escritora, jornalista e professora de criação literária. Desenha e pinta desde 1993 e, depois que descobriu as possibilidades do desenho digital, tal ferramenta se tornou a base de seu trabalho.

A diversidade de cores e texturas é ponto de destaque no trabalho da artista. É a partir delas que o caráter abstrato das suas investidas toma substanciais proporções. Ao mesmo tempo, cabe ressaltar que uma atmosfera intuitiva conduz as ações de modo predominante.

O que pode nos separar de um novo mundo é uma questão de ponto de vista. No entanto, a liberdade para definir como isso se dará é um aspecto crucial.  Mais que um mero exercitar de olhares, dar outros rumos para a existência é resultado de um inevitável flerte com o desconhecido. Se isso realmente mudará o curso das coisas, só os arremessos poderão dizer.

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Desenho: Deborah Dornellas

* Os desenhos de Deborah Dornellas são parte integrante da galeria e dos textos da 107ª Leva

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.  

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106ª Leva - 09/2015 Destaques Olhares

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A sutil continuidade das horas

Por Fabrício Brandão

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

 

Num dado momento, os sentidos saem às ruas à cata de dimensões. Lá fora, um sopro vital permeia convívios, retém sons, encerra pensamentos. Todos os dias, em qualquer recanto do planeta, um intercruzar, ora silencioso, ora sonoro, de trajetórias distintas toma conta desse colossal palco que é a vida. Todos os dias tudo segue, apesar de nós.

O que seria desse nosso mundo sem as diferenças? A cada rosto, sua tez. A cada paisagem, seus matizes. A cada gesto, um microuniverso íntimo que, por vezes guardado a sete chaves, eclode nalgum ponto da jornada humana sobre a Terra. Serão os territórios todos nossos? Onde o limite para a visibilidade das coisas?

Na intersecção entre a concretude e a esfera de abstração, somos seres ainda hesitantes. Por assim dizer, a imperfeição dos homens é melhor guia, pois a nossa vida sucumbiria diante da certeza de que tudo está cartesianamente no seu devido lugar.

A observação das epifanias que nos cercam é também uma forma de intervenção. Por isso, evidenciar o caráter que permeia a obra de uma fotógrafa como Sinisia Coni é algo oportuno. Ali, o olhar expõe o fluxo dinâmico das expressões humanas, levando em conta que é extremamente impossível passar incólume pelo que é testemunhado de perto.  Mesmo quando se supõe uma mera contemplação, há muito mais consolidando tal gesto.

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

Em sua arte, Sinisia sonda ambientes urbanos como quem ousa navegar os mares da impessoalidade. O resultado dessa travessia é transmutado em gestos os quais nos soam familiares na medida em que concluímos que, não importa qual demarcação geográfica seja, pessoas são feitas da mesma essência.

Revelando-se uma apaixonada pela fotografia, Sinisia iniciou sua trajetória bem cedo, aos 14 anos de idade. De lá para cá, profissionalizou-se e participou de exposições dentro e fora do país, sendo premiada na Embaixada do Brasil em Oslo, na Noruega. Nascida em Salvador, na Bahia, hoje reside em Lisboa, Portugal.

A fotógrafa baiana confessa que mergulha com a alma quando busca suas imagens. Por tal concepção, é possível notar que ela não se propõe a uma busca leviana de lugares e pessoas. Não há o registro pelo registro, alguma espécie de fotografia acidental, mas sim um desejado envolvimento com o que surge diante dos seus olhos. Percebemos isso quando cores, formas, sombras e faces emanam suas múltiplas e próprias linguagens num ritual o mais natural possível.

Sem artificialismos e arranjos premeditados, Sinisia Coni é uma genuína testemunha do mundo, seus arroubos e sua gente.

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

 

* As fotografias de Sinisia Coni são parte integrante da galeria e dos textos da 106ª Leva

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.