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85ª Leva - 11/2013 Destaques Olhares

Olhares

A inquietude poética de Julia Debasse

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Julia Debasse

 

Com quantos arroubos de consciência são feitos os traçados de um artista? Quiçá nove entre dez pessoas falarão da complexidade que é conceituar de modo redondo um determinado estado de espírito quando o tema é apreender a arte. E se tentarmos mirar um mundo que transborda ante nossos olhos, mais distantes ainda ficaremos de um mínimo entendimento sobre as coisas.

Que a arte encerre em si mesma, então, uma estrada autônoma, capaz de se reinventar a cada intervenção do olhar humano: eis o desejo que se funda e nos instiga os sentidos. Se o desafio é falar de um mundo povoado de cenários contrastantes, nos aproximamos do ponto de vista de gente como Julia Debasse.  Por ousar, de tal modo em sua lida com a pintura e desenhos, essa artista carioca nos dá a impressão de que cada investida sua é um convite a uma esfera insone da vida. Nela, concebe-se a existência como uma cadeia frenética de sinais, muitos deles apontando para uma visão menos suave sobre os ímpetos humanos.

Não é exagero tencionar que Julia abraça uma estética transgressora, sobretudo pelo fato de que seus traços e formas demonstram rejeitar qualquer espécie de encantamento gratuito. Para ela, importa uma visão mais pungente sobre temáticas que remontam ao melindroso universo das emoções. É, por exemplo, o caso de se perceber o amor com olhos desnudos e, portanto, desabitados de devaneios e ilusões. Desse modo, a artista propõe a revelação do que se pode chamar de a face crua das coisas, porção esta marcada pela companhia inseparável da lucidez.

Arte: Julia Debasse

Conduzida às artes plásticas por sua paixão pela música, Julia Debasse parece ter encontrado um norte vigoroso para consolidar suas múltiplas formas de retratar o mundo. Seja na pintura ou no desenho, uma inalienável inquietude faz com que olhares e sentidos da artista permaneçam despertos em torno duma atmosfera muito peculiar a quem vislumbra o todo sem dissimulações.

Utilizando-se de cenas íntimas e outras tantas advindas do universo externo e também ficcional, Julia semeia provocações e questionamentos para, em seguida, colher soluções poéticas. Diante da densidade dos dias, a artista opera conversões e instaura um ambiente também habitado pela simplicidade dos gestos e tons da vida. Para os desvãos humanos, não se promete redenção ou qualquer coisa que o valha, apenas o ato imperativo de seguir em frente sem cultuar em demasia um deus denominado futuro.

Arte: Julia Debasse

 

 

* A arte de Julia Debasse é parte integrante da galeria e dos textos da 85ª Leva.

 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Destaques Olhares

Olhares

O gosto permanente da redescoberta

Por Fabrício Brandão


Foto: Jussara Almstadter

 

Uma das grandes perspectivas trazidas pela fotografia é o fato de podermos perceber as coisas como se pela primeira vez. Sentimento tal que, diante das horas, esquecer-nos-íamos do turbilhão que nos assola e não mais desprezaríamos aquilo que passa sempre ao largo de nossos olhos. Então, surge o questionamento: como ressignificar uma rotina que se acredita eivada de desbotados tons?

Quiçá a fotógrafa Jussara Almstadter possa nos auxiliar a responder um pouco a indagação deixada acima. Dona de um trabalho que agrega olhares incisivos sobre as coisas, Jussara está mais para o enfrentamento do que para a fuga quando o tema é redimensionar cenários de vida. E como quem busca um sentido original para os lampejos que nos acometem os dias, a artista vai tornando suas imagens verdadeiros instrumentos de contemplação dos mistérios humanos.

Aos poucos, fragmentos do cotidiano vêm marcados por uma forte carga subjetiva nos registros imagéticos da artista. Em vários momentos, paira a sensação de que o universo humano ali caracterizado reflete um desejo de retorno ao ponto sublime das coisas, como se o contrário do tempo pudesse representar uma via serena de renovação.

Foto: Jussara Almstadter

Em Jussara, não são poucas as oportunidades que temos de compartilhar desse mergulho por caminhos que nos chacoalham as certezas. Trabalhos como Cemitério da Saudade (uma evocação à permanência da existência), Gestual Caleidoscópico (cuja virtude maior é vislumbrar uma ordenação poética para nossas expressões) e Umbanda (série que exalta a harmonização entre corpo e alma proporcionada pela fé) possuem uma importância fundamental para a trajetória da fotógrafa.

Com incursões também pelo desenho e pela escultura, Jussara formou-se em Fotografia pela Escola Panamericana de Artes e Design. Sua relação com a imagem vem desde a mais tenra idade, tendo no ambiente familiar uma importante motivação.

Um dos trunfos de se captar da luz seus flagrantes é a possibilidade de conferir uma outra amplitude aos objetos retratados. Nesse processo, tanto pessoas quanto lugares recebem um tratamento que amplia sua individualidade, como se um perene movimento de retorno fosse sempre impulsionado rumo ao universo externo que nos aguarda. Assim, Jussara Almstadter é porta-voz dum sentido circular das coisas, aprimorando sensações e retroalimentando a roda viva do tempo. A partir dela, não há um fim para a viagem, apenas o ato de cruzar o caminho de nossas costumeiras complexidades e retirar disso um valioso proveito.

Foto: Jussara Almstadter

* As fotografias de Jussara Almstadter são parte integrante da galeria e dos textos da 84ª Leva.

 

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Destaques Olhares

Olhares

Fluxos virtuosos da liberdade

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

Como num álbum de memórias, a vida se expande no alongar do tempo. Aquilo que chamamos de passado não necessariamente fica retido numa experimentação de outrora. Nesse deslocamento, recortes da existência parecem não se exaurir por si próprios, algo que reproduz a sensação de que os instantes, mesmo já consumados, ainda sugerem a presença ativa das coisas e seus inalienáveis sentimentos.

Diante desse painel a agregar estratos pormenorizados da alma humana, surge como testemunha a arte de Denise Scaramai. Suas ilustrações transitam, de modo sensível e delicado, por entre o ambiente das reminiscências.  Dos gestos aparentemente mais simples do cotidiano até aqueles mais complexos, seus personagens têm em comum a densa perspectiva da subjetividade. Ali, o caráter da liberdade surge bem delineado pelo exercício amplo da individualidade dos sujeitos retratados. É quando a consciência de se estar no mundo confere sentido à diversidade de situações vivenciadas por cada um.

Na profusão de cores e formas, Denise extrai um resultado poético para os cenários escolhidos, fazendo com que cada lampejo humano extrapole a dimensão física das situações. Nesse ponto, a artista redimensiona o ato de existir para esferas que sugerem o estreitar de laços entre o vivido e o imaginado. Aqui, a dualidade entre o concreto e o abstrato denota a harmonização de dimensões paralelas. Diga-se de passagem, o mundo, tal como o apreendemos em sua inteireza física, já não é mais capaz de comportar as projeções de toda ordem, tornando a via onírica um acesso deveras significativo.

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

Paulistana por nascimento, Denise Scaramai possui uma predileção por observar detidamente a manifestação das coisas, bem como suas formas e aspectos singulares. Confessa-se uma obstinada pela inatingível perfeição. Formada em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, a artista mantém uma especial relação com a via digital, algo que contribuiu para a experimentação de novas possibilidades de criação.

Sem estar necessariamente ligada a um viés artístico específico, Denise professa a independência de suas formas. O conceito de autonomia presente em seus trabalhos permite à criadora reinventar modos de agir e sentir. Diante da passagem do tempo, pouco importa saber dos momentos consolidados ou até mesmo presos num átimo qualquer da existência. Fundamental mesmo é constatar que a vida é algo incapaz de ser domado.

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

* As ilustrações de Denise Scaramai são parte integrante da galeria e dos textos da 83ª Leva.

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Destaques Olhares

Olhares

O habitat das coisas sublimes

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Milena Palladino

 

Tez de natureza viva
expele o gosto dos dias.
Eis que vejo
na dança das ramagens
o doce augúrio duma manhã
a tomar o canto dos que
tateiam planícies do ser.
(Fabrício Brandão)

 

 

Sob o manto difuso da existência, outras paisagens se abrigam. E não seriam elas terras inventadas ao bel prazer das intervenções humanas, mas sim porções de vida presentes em nós desde o primeiro e desavisado sopro. Quem intenta superar a camada do óbvio que reveste nossa corriqueira visão, consegue imaginar sobre quais esferas estas primeiras linhas de contemplação se debruçam.

Quando a dinâmica da vida deixa expostas suas marcas mais aparentes, algo de especial preenche os instantes. Se o ofício é perceber o que se passa nas entrelinhas do mundo, a missão surge enobrecida pela riqueza de detalhes a ser exprimida. Mas aqui estamos a falar de um universo que corre paralelo ao que erguemos outrora através das eras de nosso movimento no planeta.

Foto: Milena Palladino

O cenário em foco abandona as paisagens concretas sob as quais erguemos nossas sinas errantes para vislumbrar outra valiosa perspectiva: a natureza e seus ritos. É assim que somos apresentados ao trabalho de Milena Palladino, cujas fotografias conferem um olhar sensível à morada de outros múltiplos e difusos seres. Mais do que caracterizar a aura milenar da conjugação fauna e flora, a artista propõe uma harmonização com o humano, denotando um viés de aproximação que nos atrai pelo vigor da serenidade.

A capacidade de conferir singularidade ao microcosmo presente na natureza é algo que torna as imagens de Milena especiais. Nesse trajeto, cada ato a flagrar bichos e vegetais ressalta nuances de delicadeza e se traduz numa orquestração de tons poéticos. Tomada desde a infância pelos atributos da simplicidade, a fotógrafa celebra a morada da beleza, fazendo-nos testemunhar quão arrebatador e terno é o pertencimento a um estado essencial das coisas. Assim, reaprendemos a respirar pelo valioso entendimento de que tudo cumpre seu ciclo.

Baiana de nascimento, Milena Palladino é graduada em Comunicação Social e desde 2008 atua como fotógrafa, tendo participado de alguns cursos e promovido exposições individuais de seus trabalhos. De modo independente, cobre eventos culturais, sociais e corporativos.

Quiçá o sentido maior da obra da artista seja o de operar a coexistência entre dois universos. Obviamente, o dos homens busca, nos detalhes ofertados pelo continuum da natureza, os saberes da simplicidade. Achar-se vivo é menos complexo do que se supõe.

 

 

Foto: Milena Palladino

 

 

*As fotografias de Milena Palladino são parte integrante da galeria e dos textos da 82ª Leva.

 

 

 

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81ª Leva - 07/2013 Destaques Olhares

Olhares

PARA ALÉM DAS ÁGUAS

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Mario Baratta

 

 

Deixar que o tempo manifeste seus desígnios livremente, apontando direções a seguir. Intuir o curso das águas rumo ao mar que espelha a relativa eternidade das coisas. Um pouco de nossas infinitudes marca o pensamento, e navegar adiante é, sobremaneira, atracar o barco da esperança num cais onde impere a serenidade. O tão projetado porto seguro insiste em ser a grande metáfora da busca imprecisa que carregamos em vida. A partir disso, existir é tão somente uma questão de reter os sinais da odisseia que frequentemente empreendemos.

Há quem nos sirva de guia numa jornada que sabe ao desejo de chegada, e divide conosco o aportar em cada novo lugar como sendo uma experiência de profunda descoberta de si mesmo. São peregrinos como Mario Baratta, que, superando procelas, instauram em nós um sentido sublime para a existência.

Ilustração: Mario Baratta

Ao trilharmos uma rota comum à do artista, percebemos que o fluxo das coisas resiste às intempéries, fazendo com que outros cenários se mostrem com todo o vigor da simplicidade. Se o caminho da revelação é tortuoso por natureza, a arte de Mario subverte as limitações impostas e pretende reinvenções. É, então, que águas bravias sucumbem diante da beleza, esta senhora que apazigua os caminhos do mundo.

Natural de Belém, no Pará, Mario Baratta é íntimo do mistério das águas. Desde a mais tenra idade, acostumou-se a enxergar além das paragens físicas do Rio Amazonas, absorto que estava pela curiosidade de tentar entender a simbologia incontida das águas.

Ilustração: Mario Baratta

Assim, deixou-se conduzir pelos ensinamentos do pai, primeiro cicerone na sua lida com tintas e papéis.  Formou-se em arquitetura e, no meio do trajeto, apaixonou-se pelo ato de lecionar na área, missão da qual não mais se apartou. Entre os feitos de seu currículo, o artista considera como especiais as ilustrações criadas para livros infantis. Aquarelas inspiradas em barcos também são outro ponto importante de sua carreira.

Com uma temática que agrega a arquitetura, as cidades, os rios, o mar, os barcos (batizados por ele como arquiteturas flutuantes), pescadores, trabalhadores urbanos e pessoas, enfim, traços da simplicidade da vida, o artista é testemunha cabal de que tudo se traduz num dinamismo incessante.  Nele, percebemos que o muito de que se precisa para viver é estarmos atentos às manifestações singulares que nos cercam. Um sentido de liberdade está impregnado em sua obra, a tal ponto que partidas e chegadas da permanente viagem humana são faces duma mesma moeda. Parafraseando Milton Nascimento, a arte de Mario Baratta inventa um cais e sabe a vez de se lançar.

 

 

Ilustração: Mario Baratta

 

 

*As ilustrações de Mario Baratta são parte integrante da galeria e dos textos da 81ª Leva.

 

 

 

 

 

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80ª Leva - 06/2013 Destaques Olhares

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SOBRE OUTRAS TERRAS

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Peterson Azevedo

Entre nós, o pó da estrada demanda as coisas visíveis e um sem fim de incertezas. Ao longo das sinas, os homens movem antigos costumes, prestando-se ao ritual das horas, certos de que seguir adiante é parte de uma rotina que não se explica cartesianamente. As faces se desnudam na roda viva de missões e preces silenciosas. Outras paragens se descortinam.

O fotógrafo baiano Peterson Azevedo testemunha de perto o nascimento desses novos territórios.  O modo como homens e lugares se fundem é trunfo especial de seu ofício. Sua capacidade de observação do real sugere um acesso diferenciado a um mundo de acontecimentos singulares. E poder trazer à tona o que se oculta poeticamente nas mais diferentes trajetórias de vida encerra-se em verdadeiro achado.

As lentes do artista dão vazão ao surgimento de novas dimensões da existência. Não importa apenas o registro físico das representações de mundo, mas principalmente o que se pode vislumbrar a partir dele. Assim, somos apresentados a uma série de sentimentos, refletindo aspectos que coexistem despercebidos na rotina de seus observados.

Foto: Peterson Azevedo

Imerso no ambiente popular, Peterson se depara com relatos particulares de vida, evidenciando, fundamentalmente, o caráter étnico das relações humanas. Sua formação de geógrafo lhe permite transpor para as lentes reminiscências de acontecimentos tanto vividos quanto imaginados. Ao transitar por territórios dotados de características próprias, procura se distanciar de noções viciosas ou até mesmo de preconceitos. Importa ver o outro como um interlocutor de seu trabalho e jamais um mero elemento alegórico de composição.

Adepto de livres escolhas, o artista não credita ao viés documental a condição de única via a seguir. Prefere se desvencilhar dos lugares preestabelecidos e, desse modo, ampliar sua noção de territorialidade. Com isso, outras perspectivas de pertencimento são geradas, todas elas advindas dum olhar que em nenhum trecho da jornada negligencia a sensibilidade.

Foto: Peterson Azevedo

* As fotografias de Peterson Azevedo são parte integrante da galeria e dos textos da 80ª Leva.

 

 

 

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Destaques Olhares

Olhares

Uma Dama, Uma Damas

Por Carla Diacov

 

Desenho: Bárbara Damas

 

Desde que a simplicidade se deu, Bárbara resenha, desenha, põe gente, passarinhos e medos pra voar no papel:

A primeira vez que Bárbara pegou numa folha, a folha tragou a Bárbara.

Era de cheirar dum tudo o que tocava.

Conhecia as coisas pelo tato que no tato da coisa, dizia, pequenininha, dizia, que no tato das coisas está a cor e o contorno em luz e sombras.

Tinha muita dó de apontar os lápis, achava que podia doer, não nos meninos, os lápis, mas nela. Podia doer fundo nela, ela a Bárbara. E desde sempre que é desde então, desde que a simplicidade se deu, Bárbara desenha, por conta daquela primeira vez em que a folha tocou nela e porque tudo, pele de coisa, urubu, estado, gente-coração, minhoca vendida, violão velho, gato fedido, pensamento doente, pedra jogada e pedra contente, Monalisa estragada, tudo-tudo, tem cheiro de cor e de mundo e de gente:

Aos dez anos já fazia gente e chamava URUBU aos pássaros que fazia. Vestia pessoas com corações, dava bolsinhas, sorvetes e bracinhos aos corações.

Entrou para a escola de desenhos aos treze anos e abandonou a escola de desenhos aos treze anos quando o professor mandou que desenhasse a Monalisa igualzinho a Monalisa do Leonardo. Onde já se viu? Igualar as coisas? Professor mandar?

Pisoteou a faculdade de artes visuais em 2004 pelos mesmos motivos, ora, onde já se viu?! Onde?!

Desenho: Bárbara Damas

Desenhou, seguiu desenhando e foi parar na faculdade de direito no mesmo período, onde, porque ninguém mandou, graduou-se. Nesse tempo torto, deu-se sua primeira exposição e Bárbara encontrou-se com seus traços. Foi em 2007, no SESC AMAPÁ, no evento “Aldeia SESC Povos da Floresta”.

No ano seguinte, convidada para ilustrar seu primeiro livro infantil, lançou-se no “Macapá – a capital do meio do mundo” pela Cortez editora. De lá, então desenha ali, resenha aqui. E aqui está: Penso que Bárbara Damas tem a arquitetura lúdica, os traços mais leves que conheço. É um estado. Pois que é de se estar debaixo duma árvore muito da chapeluda, verdíssima, quando se tocam os olhos nos traços de Bárbara. É de se estar, mas também pode-se estar a precisar dum lugar assim, sim, porque Bárbara é fornecedora. (Tenho pra mim, tenho para dar, que as linhas de Bárbara Damas elevam a qualquer estado de se estar.)

Há quem desenhe para expurgar, há quem desenhe para se ornamentar, há quem, há quem. Bárbara Damas, como se vê logo ao pingar vistas num de seus desenhos, Bárbara Damas desenha para que o mundo aconteça. O mundo e tudo o que há no mundo: pele de coisa, urubu, estado, gente-coração, minhoca vendida, violão velho, gato fedido, pensamento doente, pedra jogada e pedra contente, Monalisa estragada, tudo-tudo. É de se estar e Bárbara sempre estará, pondo tudo pra voar.

Quem disse que gente não é coração?

Desenho: Bárbara Damas

* Os desenhos de Bárbara Damas são parte integrante da galeria e dos textos da 79ª Leva.


(sou carla diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci (09/04/1975) e moro em São Bernardo do Campo e brinquei na praça-dos-meninos. morei a Londrina e ela a mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de forma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. Babando)


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78ª Leva - 04/2013 Destaques Olhares

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NA LIQUIDEZ DA PAISAGEM

Por Fabrício Brandão


 

Foto: Rosa De Luca

 

Pensar novos moldes aos contornos do mundo. Observar com plasticidade cada nuance que se afigura passível de ser vislumbrada. Propor dimensões e, com isso, poder demarcar novas paragens para as andanças sobre a terra. Os dias, com toda a sua carga de signos distintos, sucedem desafios ao olhar de um alguém capaz de transformar a luz em matéria eivada de poesia. Assim, somos conduzidos através dos ímpetos propostos pela fotografia de Rosa De Luca.

Paulista por nascimento, Rosa enxerga a existência como um delicado ato de reinvenções. Seus registros são a prova de que sempre podemos perceber as coisas que nos cercam com status de singularidade. Por mais banalizados que possam ser os lugares que nos abraçam cotidianamente, a artista nos sugere a descoberta de outros modos de experimentar a vida.

Uma temática muito cara ao trabalho de Rosa é, sem dúvida, a forma como concebe a representação das águas. O dinamismo embutido no captar dos espaços líquidos representa muito mais do que um ponto de contemplações. Ali, a capacidade de abstração potencializa as ações derivadas de uma feição etérea das paisagens tanto físicas quanto humanas. Desse modo, parecemos acalentados pela invisível mão da serenidade.

Foto: Rosa De Luca

A fluidez do tempo aparece como outro grande elemento destacado pela fotógrafa. Na ciranda que empurra os instantes sempre adiante, vê-se a terna presença duma atmosfera cujo ritual maior abriga o silêncio, como se este fosse uma curiosa forma de oração.

Com uma carreira iniciada em 1984, Rosa De Luca abriga em sua trajetória uma série de exposições dentro e fora do Brasil, tendo também desenvolvido trabalhos em revistas e publicidade. Nos seus percursos com a fotografia, aprendeu, sobretudo, a pensar a imagem como uma importante fonte de criação de linguagens. Sua atuação como web designer também foi fundamental para a abertura de novas perspectivas visuais.

Considerada a possibilidade que temos de rever os cenários que nos são tão íntimos, Rosa traz à tona tal condição. Se somos acometidos pelo girar frenético da vida que escolhemos, muitas vezes nos esquecendo de vislumbrar necessárias entrelinhas, também nos é permitido reger os movimentos a nosso favor. A pressa, a superficialidade e outras espécies de desatinos nem sempre são capazes de nos furtar as virtudes. Em torno disso, a novidade inerente ao fluxo das águas jamais deixará de nos refrescar a memória.

 

 

Foto: Rosa De Luca

 

 

 

* As fotografias de Rosa De Luca são parte integrante da galeria e dos textos da 78ª Leva.

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Destaques Olhares

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TRAVESSIAS

Por Fabrício Brandão

Ilustração: Thaís Arcangelo

Um instante partido no tempo e alguns passos rumo ao infinito. No meio do caminho, a sutileza das cores flagrando a vida, atenuando-lhe certo peso da alma. Existir, somados os seus imperativos, precisa se configurar um flerte com os tons sublimes que governam o espaço abstrato através do qual desfilamos nossos rompantes. Existir, nos desenhos e ilustrações de Thaís Arcangelo, é pacto de escutas, rompendo a redoma da grande noite que insiste em nos abraçar.

No limiar entre o real e o inventado, a artista funda territórios e instaura entre nós a percepção marcantemente poética sobre uma delicadeza que esquecemos nalgum ponto da jornada. Assim, viver torna-se um arremesso incerto, porém desejoso de uma transformação a mais humana possível. Ao nos revelar dimensões por vezes etéreas, Thaís desafia zonas de conforto, rejeitando-as e nos impelindo a reescrever nossas errantes trajetórias.

Ilustração: Thaís Arcangelo

Em seus trabalhos, a artista devota especial atenção a uma múltipla representação do universo feminino. A partir daí, surgem personas das mais variadas possíveis diante de nossos olhos, todas elas inscrevendo seu traçado numa tentativa serena de redenção. Nessa perspectiva, Thaís caminha para além da materialidade das coisas, erguendo um vasto e denso painel de sensações.

Se por um lado somos seres reconhecidamente duais por natureza, por outro, nos é dada a chance de revermos nosso velho e desgastado costume de repetir. E isso nos é lembrado a todo tempo nos cenários propostos por Thaís. Com sua ciranda de sentimentos pueris e ao mesmo tempo também maduros, a artista recria mundos no mundo, fazendo do atributo onírico de suas criações uma passagem permanente para o centro de nós mesmos. Nesse trajeto de autoconhecimento, talvez a única certeza que carregamos seja a da dúvida, essa sedutora senhora a nos acalentar insistentemente em todo tempo e lugar.

 

 

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

* As ilustrações de Thaís Arcangelo são parte integrante da galeria e dos textos da 77ª Leva.

 

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Destaques Olhares

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RITOS SILENTES – A SÃO PAULO DE SILVIO CRISÓSTOMO

Por Fabrício Brandão

Foto: Silvio Crisóstomo

 

Tudo um mar de saliências e reentrâncias. Tudo a cortina invisível que paira sobre almas. Na vastidão da matéria, um imperceptível fio das horas vai alimentando espaços, perscrutando os becos do homem. Há uma curiosa ordem no silêncio ruidoso da metrópole. Ainda uma São Paulo que desampara e repulsa os seus. Ainda uma cidade que apascenta sonhos, fugas, delírios e bebe os prazeres da cosmovisão. Em meio a isso tudo, o olhar do fotógrafo, num contínuo ato poético, varre as alamedas do despercebido.

O andarilho da luz em questão é Silvio Crisóstomo, dono de um olhar que subverte o óbvio e o torna caminho viável da criação. Sua trajetória na construção das imagens nem de longe se presta a representações exasperadas do real. Interessam-lhe mesmo as esferas sutis que seres, lugares e atmosferas de abstração ousam descortinar por entre os dias.

Foto: Silvio Crisóstomo

Silvio é um ser de espanto na medida em que transita errante por uma cidade e seus tons repletos de mistérios. Ele mesmo revela não ser um apaixonado por São Paulo. O resultado disso é um comportamento que lhe rende uma observação isenta de afetações e deslumbramentos. Por suas lentes, a lira colossal paulistana compõe um vasto painel de estranhamentos. E é assim, com resignado afastamento afetivo, que a selva de pedra reina sublime e nada usual nos registros do artista.

Nascido em Maceió, Alagoas, Silvio reside em São Paulo desde a mais tenra idade. Atraído pelo imprevisível, seus trabalhos assumem um caráter essencialmente intuitivo, sem amarras pré-definidas e com o gosto incessante pelo mistério encerrado nas coisas. Admirador de fotógrafos como Andreas Gursky e Thomas Farkas, revela que suas maiores referências estão nas artes plásticas e no cinema. Em seu caminhar, estão inclusas diversas exposições e eventos.

Foto: Silvio Crisóstomo

Ao percorrer a maior cidade da América Latina, Silvio Crisóstomo fala-nos também de uma megalópole estrangeira a muitos de seus naturais. Uma espécie de vazio impresso pela dinâmica corriqueira dos habitantes emerge dos rastros civilizatórios. E em meio à sinfonia de concreto, regida pelas mais variadas perspectivas de intervenção arquitetônica, pulsa, ainda desconhecida e neglicenciada pela voracidade da pressa e do imediatismo, a poesia escondida das horas. A cada um, por seu curso, é dado lê-la.

 

 

* As fotografias de Silvio Crisóstomo são parte integrante da galeria e dos textos presentes na 76ª Leva