Categorias
75ª Leva - 01/2013 Destaques Olhares

Olhares

MUNDOS NO MUNDO: A ARTE DE LUIZA MACIEL NOGUEIRA

Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

A cada um, sua maneira de tingir o mundo. A cada um, a forma de emprestar significado às diferenças, espaços onde a singularidade aguarda ser descoberta. Uma poesia dos dias refugia-se em toda a sorte de recônditos. Ao artista, a tarefa de trazer à tona o despercebido, o algo que pulsa incessante nas camadas sensíveis da vida.

Quando a arte promove um encontro, celebra, sobretudo, as delicadezas da existência. Se alegria ou dor, pouco importa, a catarse ante a criação mais parece uma personagem bipolar, cujo temperamento firme e decidido nos projeta em múltiplas e inexplicáveis dimensões.

É bom identificar muito do que foi dito acima nos traços de artistas como Luiza Maciel Nogueira. Em seu ofício, a desenhista engendra mundos e confere a eles vibrações de mistério. Sua arma, a profusão de cores e formas que conclamam uma espiral do tempo. É como fazer uma viagem a paisagens familiares e, noutros momentos, a domínios distantes e inusitados.

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

No apelo sugerido por suas marcantes cores, Luiza mergulha fundo no frágil fio da vida, como se fosse possível reter dali alguma espécie de acalanto para a alma. Neste trajeto, há muito por se deparar. Seja na representação do universo feminino, no olhar sublime em torno da natureza ou na dimensão conferida ao amor, a artista consolida a seu trabalho uma inalienável força lírica.

Fazendo girar o ciclo da invenção de outros mundos, alguns dos desenhos de Luiza Maciel Nogueira também incorporam arremates psicodélicos. Tal sensação experimenta percursos em outras tantas vias que os sentidos, nos mais variados níveis de abstração, podem ofertar.

Movida apaixonadamente pelos quadros de Van Gogh, a artista confessa que o desenho se manifestou em sua vida como instrumento de expansão da consciência e do autoconhecimento.  Abraçada à poesia da existência, Luiza vivencia caminhos, deixando se levar pela observação de tudo aquilo que é compatível ao ritual dos mistérios humanos.

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

* Os desenhos de Luiza Maciel Nogueira são parte integrante da galeria e dos textos presentes na 75ª Leva

 

 

 

 

Categorias
74ª Leva - 12/2012 Destaques Olhares

Olhares

DO INDIZÍVEL E OUTROS TONS

Por Fabrício Brandão

 

 

Foto: Catharina Suleiman

Uma vasta paisagem embebida em segredos e mistérios povoa a arte de Catharina Suleiman. E falar disso não se resume a pensar que a tessitura de suas imagens reveste-se apenas dos dotes mais densos duma subjetividade que se requer marcante, mas sim a uma reprodução de certos horizontes quiçá inabitados pela superficialidade dos dias.

A fotografia ganha um sentido etéreo a partir dos registros de luz feitos por essa paulistana. Através do seu olhar, o idioma do corpo humano salta aos olhos, desvelando formas, sentidos, gestos e apelos diversos da alma. Qualquer noção de obviedade é posta à margem. Importa saber do insondável, do algo além-matéria, perquirir os vãos e desvãos que abrigam o ser.

Como exprimir em palavras aquilo tudo que se revela habitante do incontido? É assim que vamos tomando conhecimento de que estar diante da proposta visual da fotógrafa revela-se verdadeira odisseia de signos. Por mais que tentemos tornar ao ponto inicial da viagem, a experiência de estar ali, frente às singulares vias de sugestão da artista, faz do retorno algo totalmente renovado, porém incerto. Curiosamente, não vagamos por entre rostos, fragmentos temporais, detalhes, lugares e outros tantos tons com a sensação de avançarmos ilesos. Nesse aspecto, estar no limiar das coisas é desfrutar o gosto impreciso das horas e sentir-se parte de uma existência que não busca respostas para seguir adiante.

Foto: Catharina Suleiman

Em sua trajetória, Catharina acumula experiências de vida em diversos países, tendo participado de vários cursos. Sua relação apaixonada com a fotografia permitiu-lhe aprofundar-se na área e conhecer processos alternativos e experimentais de criação. Do laço íntimo que estabelece com suas imagens, a fotógrafa confessa que utiliza seu ofício como forma de questionar a realidade, extrapolando a barreira física dos lugares captados em busca de um resultado passível de vibração pictórica.  E vai mais além, crê na possibilidade de se olhar tudo o que já foi visto antes de um modo inteiramente inexplorado, como se a cada nova investida do olhar pudéssemos perceber o nascimento de uma singularidade.

Utilizando-se recorrentemente dos recursos do vintage, Catharina Suleiman não somente delineia um elo entre passado e presente, como também nos envolve numa atmosfera na qual as perspectivas visuais mostram-se especialmente atemporais. De fato, não há razão para a ocorrência de limites de tempo ou espaço, apenas a permanente presença dum percurso poético por sobre a natureza das coisas flagradas sob os mais distintos matizes. O que a fotógrafa batiza como ilusões pode muito bem nos parecer um convite à reinvenção da vida, palco onde desfilamos desnudos, viscerais, contraditórios e, por vezes, inconfessáveis.

Foto: Catharina Suleiman

* As fotografias de Catharina Suleiman são parte integrante da galeria e dos textos presentes na 74ª Leva.

 

 

 


 

Categorias
73ª Leva - 11/2012 Destaques Olhares

Olhares

AS CARTAS AO MUNDO DE FAO CARREIRA

Por Fabrício Brandão

 

 

Arte: Fao Carreira

 

 

Pensar a expressão artística de Fao Carreira é trilhar uma via onde as representações da existência estão marcadas, acima de tudo, pela poesia.  De posse de tal condição, o artista inscreve na pele dos dias os laços que o atraem para o jogo das veleidades humanas, da presença sorrateira daquilo que nos seduz e, ao mesmo tempo, nos escapa volátil entre as mãos.

 

 

Arte: Fao Carreira

Indagar o que povoa a infância da criação, se a palavra ou a imagem, não nos parece relevante no caso desse paulista de Botucatu. Em Fao, as feições de desenhista, pintor e poeta harmonizam-se de modo a conferir à sua obra um caráter de unidade. Essa “contaminação” de uma arte pela outra opera a comunhão de linguagens distintas, cujo resultado possui um decidido teor filosófico. Nessa perspectiva, o porquê de se estar num mundo no qual os excessos nos saltam aos olhos parece instigante questão de ordem.

Cada desenho ou tela produzido por Fao Carreira é verdadeiro exercício de correspondência com o que explode lá fora. Seja em traçados, rostos ou profusão de cores, o artista remete ao mundo seus anseios e inquietações. A despeito disso, não é em vão o nome de batismo de seu blog. Suas missivas são direcionadas a todos nós como o registro mais puro do espanto que é estar vivo.

 

 

 

Arte: Fao Carreira

Da sua paixão pela literatura, Fao consolida um diálogo especial e denso com quem se debruça na contemplação de sua arte. Isolada ou conjuntamente, seus versos e imagens ousam sondar a fina camada que envolve o tecido das horas. Na passagem dos instantes, lacunas ganham corpo e nos relembram que o ato contínuo de respirar é pedra fundamental da criação. Por isso, um artista a relatar marcas do tempo. Por isso, somos cativos leitores do mistério que povoa suas cartas.

 

Arte: Fao Carreira

 

 

* As imagens de Fao Carreira são parte integrante da galeria e dos textos presentes na 73ª Leva.

 

 

 

Categorias
72ª Leva - 10/2012 Destaques Olhares

Olhares

SOBRE VESTÍGIOS E AUSÊNCIAS

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Mercedes Lorenzo

Deter a visão por sobre as esferas de mundo que nos acometem é missão das mais homéricas. Na tentativa de compreender cada modesta ou intensa epifania que se nos apresenta diante de nossos frágeis domínios, por vezes deixamos passar traços ímpares da existência. E o esforço hercúleo por respostas costuma trair sentidos acostumados à sofreguidão dos efêmeros instantes. Como, então, não deixar passar incólumes as marcas de nossas intervenções?

Quem se permite envolver pelos percursos sugeridos pela fotógrafa Mercedes Lorenzo, quiçá encontre algumas consistentes pistas e, com isso, solucione a indagação levantada acima. De posse disso, é bom estar ciente de que a artista em questão não ousa, sob hipótese alguma,  colaborar com uma leitura rasa e superficial das coisas e seres captados pela luz de seu ofício. Muito pelo contrário, a densidade aqui é verdadeira matéria de ordem.

Qual um feixe luminoso que tenta cruzar pelos vãos de uma matéria qualquer e dali retira a substância impensada, o olhar de Mercedes é hábil instrumento de redimensionamento das situações. Se há o objeto primeiro e concreto a ser flagrado de imediato, por outro lado, existe também a sorrateira sensação de que planos invisíveis acontecem sob o efeito de um paralelismo de universos. Da coexistência entre o vivido e o imaginado, a fotógrafa deixa despontar a centelha que faz operar o fenômeno da convergência entre o ser e o não-ser.

Foto: Mercedes Lorenzo

Seja no retratar de ambientes ou no representar dos percursos humanos, a fotografia de Mercedes Lorenzo funda uma precisa poética dos vestígios. Daí, decorre uma curiosa sensação de que os homens deixam impressas suas marcas no espaço onde transitam suas sinas e, também, por ambientes nunca dantes ocupados. É quando a artista se utiliza com maestria do poder das ausências, conferindo teor àquilo que habita a órbita do intangível. E, assim, seduzidos pelos dotes do mistério, nos é dada uma relativa onisciência dos cenários.

Filha de imigrantes espanhóis e paulistana de nascimento, a fotógrafa, desde cedo, manifestou seu interesse pela imagem, tendo iniciado seu contato com a arte por meio de desenhos. Além disso, Mercedes também se dedica à escrita de poemas, através dos quais o elemento visual é ponto marcante. Para ela, pensar a fotografia como ponto de partida ou uma porta para desdobrar os conteúdos mentais de cada indivíduo que a vislumbra, parece ser uma função mais profunda e mais nobre do que um simples “clicar” de acontecimentos. A via humanista norteia seu trabalho de maneira que a percepção de um mundo e sua vastidão acontece, principalmente, no átimo de nossas hesitações.

 

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 

 

 

 

Categorias
71ª Leva - 09/2012 Destaques Olhares

Olhares

 

UM MUNDO PARA CHAMAR DE MEU OU, QUEM QUEBRARÁ O SILÊNCIO?

Por Renata Azambuja

 

I

A mancha, a silhueta e a palavra.

 

Pintura: Sylvana Lobo

O desejo é começar pela primeira impressão que permaneceu, mesmo depois do segundo e terceiro olhares, deste conjunto de pinturas de Sylvana Lobo. A visão persistente de manchas coloridas, massas em preto/ silhuetas e palavras. Esses são fatos preponderantes da pintura da artista. Parece paradoxal, mas as manchas e massas funcionam, no contexto de sua pintura, como signos de visibilidade. Ajudam a contar a história que se segue; um universo cheio de alegorias.

Diferentemente do Informalismo, tendência que tratava a mancha como gesto espontâneo e improvisado, as manchas nessas pinturas não comparecem como fruto do acaso de um processo criativo. Podem ser, sim, como naquele movimento, resposta a um momento de crise. Não à maneira de uma crise mundial, como se manifestou então, ao final da Segunda Guerra Mundial, mas da ordem de uma crise na política das relações amorosas, como veremos mais à frente. Assim, não seria disparatado qualificarmos estas manchas como matéria, lançando mão dos dizeres de Argan, que as coloca como uma problemática com a qual a artista se depara, a “incerteza quanto ao próprio ser, a condição de estranhamento em que é posto a sociedade”¹.

Se ela for, então, um elemento problema com o qual se deve lidar, a mancha encontra o seu sentido mesmo: o de ser uma substância que macula algo. É o elemento imprevisto. Ou será que ela está no lugar de algo que não foi conscientemente construído?

A mancha, por ser esta matéria que ocupa lugar mostras de definição, é uma continuidade no tempo. O único indício de temporalidade é sua permanência de uma pintura a outra. Está presente em todas as cenas das pinturas, balizando a figura-silhueta. Se a mancha esconde uma revelação ao mesmo tempo em que se espraia, a silhueta delineia. Em cada pintura há uma imagem feminina.

Silhuetas parecidas com as dos retratos recortados, desenhados e pintados em papel preto de figuras em perfil, na corte francesa durante o reinado de Luis XV, no século XVIII, e que tornou-se hábito a ser cultivado entre as moças da época. A silhueta identifica a figura de origem pelo retrato que produziu; uma impressão na memória.

Pintura: Sylvana Lobo

Estando essas silhuetas postas em situ-ação, nos remetem às figuras do teatro de sombras. Se a mancha é presença que esconde, a sombra, como ausência de luz, reforça a ideia de que há algo que não quer se mostrar ou que age como duplo, um outro que está represado. A noção de obscuridade vinculada à “sombra” era algo a ser evitado e o nome “silhueta” substitui o nome “retrato de sombra”. O panorama, portanto, esconde mais do que apresenta e mesmo as cores não parecem contribuir para a mudança de cenário, pois continuam como manchas. São como nuvens escuras, densas, prontas para desaguar, sensação mais manifesta em Beije, coma e Não sou a mais bela. Estariam estas pinturas nos indicando a impossibilidade de comunicação? Seriam territórios de incomunicabilidade?

Como silhuetas que são, apontam para seres que conhecemos. As figuras solitárias das pinturas são imagens emblemáticas saídas dos contas de fadas e princesas; arquétipos de um determinado feminino, de acordo com Carl Jung e expressões de desejos recalcados, segundo Sigmund Freud. São brancas de neve, cinderelas e belas-adormecidas. Essas personagens foram construídas por Sylvana Lobo tendo em mente não as versões modernas, voltadas para as crianças, em que toda a narrativa, cheia de percalços, está a serviço de um final feliz, porém mais próximo dos contos populares, originados de tradições orais muito antigas onde a fantasia não precisa criar laços de comprometimento com uma realidade moralizante. Nessas narrativas, o texto nem sempre é aprazível e a morte, o canibalismo e o incesto, por exemplo, fazem parte recorrente das estórias que, diferente do que ocorre atualmente, tinham os adultos como público.

Karen Walker, artista norte-americana, usa a técnica de silhueta como papéis cortados, elaborando cenários em que personagens, negros escravos e brancos dominadores, se relacionam, em uma alusão a episódios ocorridos no Sul do país, antes da Guerra Civil Norte-Americana. Eles tomam parte em ações que definem social, política e historicamente. Diferenças a parte, as imagens em silhuetas nos trabalhos de Walker, como nos de Sylvana Lobo, têm o intuito de provocar o pensamento sobre o que significa a representação por imagens e como elas podem estimular uma nova formulação identitária e uma visão crítica sobre a própria realidade. “Fazer trabalhos de arte sobre raça se transforma em assunto íntimo acerca da identidade”².

Este espaço silencioso, configurado pela mancha e pela silhueta é compartilhado por palavras, frases e expressões. É como se existissem para afirmar ou por em cheque a situação vigente. Mas, ao mesmo tempo que se referem às imagens, as palavras estão lá como parte da estrutura visual, ou seja, providas de materialidade própria, o que destitui o papel de ser “as” portadoras de significado. Assim sendo, o texto escrito na tela, se transforma, conforme lemos em Pierre Francastel, em signo figurativo, também uma sentença visual que não coincide, segundo ele, com o que vemos e compreendemos.

As frases, ou pedaços delas, dão nomes aos trabalhos, confirmando a suposição de que elas, talvez, sejam fatores dominantes dessas equações visuais indicando caminhos para o entendimento das pinturas ou para a resolução da “problematicidade” que enfrenta o artista, citando novamente Argan. Algumas são frases curtas em tom afirmativo e imperativo: toque, beije, coma; outras expressas como um anúncio: precisa de um escovão e dois príncipes encantados; como perguntas: você se sente atraído por mim?; quanto vale uma vírgula? e, ainda, a título de conclusão: É melhor do que escutar eu te amo; não come (a); minha língua gorda não cabe no sapato e, não sou a mais bela. O que se apreende, afinal, é de que há um outro para quem a falas se dirige. O vedor-leitor aos lê-las, torna-se um co-partícipe?

“Escrever em primeira pessoa é uma facilidade, mas é também uma amputação”, é o que diz o protagonista do romance Manual de Pintura e Caligrafia, de José Saramago. Distante do trabalho autobiográfico, em que o artista se coloca como o representante de outras histórias e das suas próprias, tal como é o caso de Cindy Sherman e de Sophie Calle, Sylvana Lobo fala de suas angústias e desconfortos com a expectativa de ter de se tornar uma “mulher de verdade”, como ela mesmo diz, por meio das mulheres da ficção.

II

O fio amarelo: moral da história?

Pintura: Sylvana Lobo

E o que dizer do fio amarelo que vemos em todas as pinturas? Será que se refere a algum principio moral que rege toda essa alegoria? Em Toque-o, a única pintura em que a silhueta feminina não está visível, vemos o fio amarelo enrolado ao fuso, que é agora a silhueta. Esta pintura parece ser uma espécie de matriz geradora. O objeto ocupando o lugar da moça; o fuso da história da Bela Adormecida. Fada, fatalidade, destino.

No conto de fadas, o fuso é o perigo. É o prenúncio de morte ou, pior ainda, do longo sono que é pausa para o encontro com o futuro, personificado pelo príncipe, o homem idealizado. Nas pinturas de Sylvana Lobo, o fio amarelo é sinal de alerta, é a consciência tornada objeto. Deposita-se sobre o sexo, sobre a boca, enrosca-se pelos pés, nos pulsos, transforma-se em coroa, como lembrança de um futuro que espantará o presente a ser passado a limpo, e circula o pescoço seguindo até os tornozelos de uma outra silhueta, reprodução dela própria.

O fio amarelo é a garantia de comunicabilidade nesse território de incertezas onde dormir pode significar deixar de lado o devir. Não dormir, para não acabar como personagem de uma parábola moderna. Como a que Louise Bourgeois escreveu: “Um homem e uma mulher viverem juntos. Uma noite ele não voltou do trabalho e ela o esperou. Ela ficou esperando e ela foi ficando menor, sempre menor. Mais tarde um vizinho passou por amizade e ali a encontrou na poltrona do tamanho de uma ervilha”³.

 

 

1- Argan, GC. Arte Moderna, SP: Cia das Letras, 1993, p. 542.

 

2- Disponível em The Art of Kara Walker. http:/ leran.walkerart.org/karawalker/Main/RepresentingRace. Acesso em 20/01/2009.

 

3-Louise Bourgeouis. Ela perdeu aquilo. Diário da artista, 1947.
20 de janeiro de 2009.

 

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

(Renata Azambuja é pesquisadora, curadora independente, crítica de arte e arte-educadora. É licenciada em Artes Plásticas pela UnB e mestre em Teoria e História da Arte Moderna e Contemporânea pelo City College of the City University of New York, onde defendeu a tese “Cildo Meireles: A Física do Espaço Social”)

 

Sobre a artista:

 

Sylvana Lobo é artista plástica e fotógrafa. Participou das coletivas MAB – Diálogos da Resistência – Museu Nacional do Conjunto Cultural da República (2012 – Brasília/ DF); 18º Salão Anapolino de Arte (2012 – Anápolis/ GO); Prêmio de Arte Contemporânea do Iate Clube de Brasília – Museu Nacional do Conjunto Cultural da República (2011 – Brasília/ DF); Semicírculo – Museu Nacional do Conjunto Cultural da República (2010 – Brasília/ DF); 39º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba (2007 – Piracicaba/ SP); 7º Salão de Artes Visuais de Guarulhos (2007 – Guarulhos/ SP); 6º Salão de Artes Visuais – Museu de Arte Contemporânea de Jataí (2007 – Jataí/ GO); XXIX Concurso Novos Valores – Fundação Jaime Câmara (2006 – Goiânia/ GO); Vetores – Museu de Arte de Goiânia (2005). Participou das individuais O IBRAM e seus museus (2010 – Brasília/ DF); de cabelos longos, sentada na relva – Galeria da Faculdade de Artes Visuais – UFG (2009 – Goiânia/ GO); Foto Arte (2008 – Brasília/ DF); Madame Bovary sou eu (2008 – Brasília/ DF).

 

 

 

 

Categorias
70ª Leva - 08/2012 Destaques Olhares

Olhares

 

O OLHAR PRIMEIRO DAS COISAS

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Viviane Rodrigues

Sermos parte de um mundo tomado pelas imagens é fato há muito consagrado em nossas convicções. Entretanto, sabermo-nos capazes de estabelecer pontos necessários de distinção entre o múltiplo que nos assola gratuitamente, gerando excessos vãos, e o lugar salutar de nossas percepções é verdadeira façanha. Em meio a tais dilemas, quem de nós não tenta recobrar, mesmo que por alguns breves instantes, a própria essência?

A busca pela representação de mundo mais original possível encontra um ambiente favorável no universo da imagem. E trabalhos como os da fotógrafa Viviane Rodrigues provam que o ofício de captar a luz se inscreve numa condição mais ampla, na qual seres e lugares mostram-se desnudados frente às lentes de uma atenta observadora.

Utilizando-se do conceito de fotografia orgânica, Viviane promove um mergulho íntimo nas expressões retratadas, privilegiando o atributo in natura de tudo o que pode ser flagrado por sua câmera. Tal como a artista preconiza, o caráter puro da imagem representada é quem norteia o trabalho. Utilizando-se o mínimo possível de intervenções de edição, a catarinense, hoje residente em Curitiba, chama atenção para o significado especial de se ver o mundo tal como ele é, sem ruídos da tão propalada era digital.

Se, de algum modo, perdemos a qualidade de perceber no real a sua força primeira, em Viviane somos convidados a refletir sobre os desvios do nosso olhar pós-moderno. Diante disso, um questionamento: do ponto onde estamos, o quanto de ruídos e desvios roubam de nós o que realmente importa?

Foto: Viviane Rodrigues

Mais do que um valioso registro de nossas humanas idades, a resposta tida em trajetórias como a de Viviane é a da consolidação de um caminho de resistência, no qual impera a aceitação de nossa verdadeira individualidade. Nessa via, certamente, não há espaço para a reinvenção artificial da existência.

Formada em jornalismo, Viviane ministra aulas na área, além de capitanear cursos individuais sobre fotografia e, também, palestras sobre leitura imagética no cinema, imagem e sociedade, arte e fotografia,  arte e cidadania, dentre outros. Adepta da observação e do estudo, a artista acredita que as ferramentas tecnológicas atuais a serviço da imagem devem ser utilizadas com uma noção adequada de responsabilidade artística.

Na sua trajetória, a fotógrafa aponta o projeto Extimidade como sendo um marco fundamental. Derivado de um conceito lacaniano, a série chama atenção para a porção estrangeira do corpo humano, com toda a carga de estranhamentos, valores éticos e morais que o assolam há tempos. Em meio a tal seara, prevalece um modo alternativo de perceber a nudez do corpo, buscando nele um lugar no qual a singularidade humana repousa.

Juntamente com a parceira Juh Moraes, Viviane conduz o site Fotografia Orgânica, projeto que resume de modo significativo a concepção fundamental de seu trabalho, qual seja o de ressaltar leituras autênticas de mundo.

Com uma boa dose de sensibilidade, Viviane Rodrigues revolve a camada dos instantes e ousa nos conduzir pelas tramas intensas do fio da existência. O resultado é um vasto painel poético da vida, com todo o seu denso caráter e, ao mesmo tempo, toda sua delicadeza. O que somos por natureza vale muito mais do que uma mera profusão estética de fuga. E, quando um artista apaixonado nos relembra isso, definitivamente, estamos em boas mãos.

 

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

Categorias
69ª Leva - 07/2012 Destaques Olhares

Olhares

Desenho: Rui Cavaleiro

 

 

A APREENSÃO DO MUNDO EM SENTIMENTOS VIVIDOS

Por Hilton Valeriano

 

“O óbvio é tão somente o resultado da cegueira ocasionada pelo desenraizamento poético do mundo.”

Em toda arte autêntica, a realidade não deve ser mostrada, e sim transfigurada em sua representação. Poderíamos dizer que o mundo do artista deve ser manifesto, e a possibilidade de desvelamento desse mundo encontra-se na representação de sua subjetividade, fonte essa, paradigmática de sua criação. Mas não podemos esquecer o centro de referência dessa subjetividade, que paradoxalmente deve ser a realidade, mas transfigurada, e por isso, compreendida como arte. Assim, o óbvio é tão somente o resultado da cegueira ocasionada pelo desenraizamento poético do mundo. A arte evita, ou se contrapõe a esse desenraizamento, ao imediatismo estéril de uma visão pragmática quando se constitui como fonte para o “olhar” apreensivo de dimensões simbólicas, porque humanas, e, portanto significativas da realidade como dimensão existencial.   No livro O discípulo de Emaús, o poeta Murilo Mendes diz:

A realidade deve ser pouco a pouco domada, até ser captada pelo lirismo – para que se opere sua transformação, e elevação ao plano do espírito. Assim se forma a criação artística.”

Podemos encontrar a ressonância das palavras do grande poeta mineiro nos desenhos de Rui Cavaleiro Azevedo, o Ruaz, desenhista de Lisboa, Portugal. Sua obra compõe o exemplo de uma arte autêntica em seus princípios. Traços de uma figuração expressionista, cuja representação artística revela uma imagética dos sentimentos.

Desenho: Rui Cavaleiro

Ante sua obra, que versa sobre diversos planos do cotidiano, paisagens, retratos de figuras anônimas ou personagens de grandes obras literárias como Moby Dick, de Melville, ou Dom Quixote, de Cervantes, ou mesmo em representações do poeta Fernando Pessoa, somos convidados como expectadores, a integrar suas cenas, pelo núcleo humano que as alimenta, ou seja, a subjetividade de seu criador. Subjetividade marcada – esteticamente – pela transfiguração de uma vivência poética do mundo circundante e suas significações.

Olhar e ver que o sentido que habita o mundo é sempre criação, ou seja, intencionalidade semântica, projeção de um ser que instaura sua existência como dimensão cultural. Olhar e ver que os sentimentos, projetos, ações presentes no mundo podem ser apreendidos e propostos como diálogo intersubjetivo. Olhar e ver os desenhos desse artista da terra das caravanas e ser, sobretudo, comovido por uma poética humanista.

Cito novamente Murilo Mendes:

“O homem terá que fazer tudo desde o princípio; deverá antes de mais nada redescobrir o sentimento.”

E concluo:

Ruaz: apreensão do mundo em sentimentos vividos.

 

 

Desenho: Rui Cavaleiro

 

 

(Hilton Valeriano é professor de filosofia. Edita o blog Poesia Diversa).

 

 

 

Categorias
68ª Leva - 06/2012 Destaques Olhares

Olhares

 

O INTANGÍVEL EM JUH MORAES

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Juh Moraes

Bem sabemos que a fotografia encerra uma vastidão de possibilidades. No entanto, o que seria capaz de guiar nossos sentidos rumo a veredas desabitadas pelo óbvio? Como extrapolar a barreira física e evidente do algo primeiro a ser flagrado por nossas retinas?

Certamente, não são perguntas com soluções tão imediatas. Por mais que tentemos emprestar significados ao ofício de um fotógrafo, delimitando-os numa ótica que remonte a uma noção racional das perspectivas abraçadas, acabamos envolvidos pelas razões que integram o universo íntimo de cada criador. E assim, distantes de extrairmos a seiva da psiqué humana, somos tentados a desvendar camadas por vezes etéreas reveladas nas imagens.

Quem deitar olhares em torno da expressão fotográfica de Juh Moraes perceberá o quanto pulsa viva a presença do intangível, de um ambiente no qual mistérios do corpo e da alma humanas estão fundidos a um só tempo. Para a artista, não basta que formas, gestos, tons e expressões difusas impliquem num recorte precisamente definido de mundo. Pelo contrário, cada ser ou objeto captado exprime uma espécie de balé da transcendência.

Ao nos ofertar seus signos repletos da conjunção entre matéria e espírito, Juh ousa nos convidar a atravessar um cenário que sabe a percursos do tempo e seus desígnios. É como se cada contorno, tez ou cor pudessem reter o essencial dos instantes vividos, pondo-os em delicada suspensão. Assim, comungamos com a artista um ritual que confere sentido a ambientes e seres, todos eles marcados pelas sutilezas da existência.

Foto: Juh Moraes

Natural de Curitiba, a fotógrafa traz no sangue a mescla nordestina e espanhola. Apesar de ter cursado a faculdade de Belas Artes, foi nas searas da Moda onde encontrou terreno favorável para suas escolhas. Os pincéis deram lugar à câmera e a um desejo de promover uma integração entre Comunicação, Moda e Imagem. A captura das cores em seu trabalho deu-se através de influências percebidas em artistas plásticos como Delacroix, Caravaggio, Monet, Manet, Frida Kahlo, Cezzanne e Bosch. Admiradora confessa de Van Gogh, Juh demarca o artista como sendo uma grande fonte de inspiração, a ponto de se considerar “refém” de tal influência.

Além das marcas indeléveis das artes plásticas em sua trajetória, o olhar de Juh Moraes abraça aprendizados fotográficos em torno do trabalho de enquadramento e da concepção de luz de Annie Leibowitz e Sally Man; a visão artística de Richard Avedon, Guy Bordin e Mary Ellen Mark; e Robert Mapplethorpe, pela completa ousadia.

Ao lado da também fotógrafa Viviane Rodrigues, Juh desenvolve um trabalho especial no site Fotografia Orgânica, projeto que denota um comprometimento com a imagem em seu estado mais puro possível, longe das intervenções de edição meramente tecnológicas.

Em uma só palavra está condensada a relação de Juh Moraes com seu ofício: ar. E é com a noção desse sopro vital que a artista leva adiante a sua sublime missão de captar instantes, lugares e pessoas, abraçada ao que de melhor eles podem oferecer: a verdade de suas expressões.

Foto: Juh Moraes

 

 

 

 

Categorias
66ª Leva - 04/2012 Destaques Olhares

Olhares

UM DIÁLOGO SENSÍVEL DAS COISAS

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Kenia Vartan

Por entre as paisagens amazônicas, há um universo particular que se revela vigoroso nas imagens flagradas pelas lentes de Kenia Vartan. Mais do que registrar pessoas e lugares envoltos em suas rotinas, a fotógrafa deixa escapar a poesia contida nas atmosferas delicadas de vida.

Seus personagens derivam de uma especial observação ao que se camufla em meio aos instantes. É como se a artista, ao adentrar os ambientes da alteridade, pactuasse não romper com a tênue camada que envolve o mundo circundante, promovendo uma escuta singular a tudo o que pode ser matéria da luz.

Amazonense de nascimento, Kenia passou a se interessar por fotografia através do estímulo de seu companheiro, o também fotógrafo Paulo Neves.  Aos poucos, um mundo novo ia se construindo diante de seus olhos, despertando um verdadeiro fascínio pelo que testemunhava sobretudo em relação às pessoas captadas.

Seus primeiros cliques dotados de um olhar mais engajado deram-se após a adesão ao grupo fotográfico amazonense A Escrita da Luz. Foi quando passou a mergulhar num entendimento maior da fotografia enquanto obra de arte. De lá para cá, Kenia participou de duas exposições coletivas, nos anos de 2010 e 2011, integrando o festival de fotografia MBF (Manaus Bem na Foto).

Utilizando-se da fotografia como forma de autoconhecimento, Kenia Vartan crê nesse ofício uma perspectiva de se contar uma história através das imagens, sentimento que, de modo especial, aponta para uma compreensão mais ampla não somente da sua existência, mas também sobre todas as outras coisas e seres.

Foto: Kenia Vartan