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90ª Leva - 04/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

E pensar que o silêncio é sempre o misterioso senhor a preceder o verbo. Há, por certo, uma carga emblemática nesse intervalo que sugere a criação. Muitas revoluções se processam no interior de quem gesta tanto palavras quanto imagens. Antes que tudo venha à tona, um primeiro estado das coisas emerge enquanto matéria bruta a ser lapidada. Para um autor, nunca é demais fazer operar estágios revisionais de seu pensamento, sobretudo quando está envolto pelo manto da chamada angústia da criação. Nela, ele descobre que deve tentar extrair o máximo de sua possibilidade de visualizar cenários. É algo que se assemelha também a um estado de alerta, no qual aquele mesmo criador tenta, ao máximo, afugentar certezas traiçoeiras. Sendo assim, aquele que se julga pronto é fatalmente trapaceado pelo falsear do tempo. Do mesmo modo, a tentativa, até certo ponto exasperada, de se erguer uma obra monumental também retira de muita gente a capacidade de trilhar os caminhos da naturalidade. E tanto as vias literárias como as da arte necessitam de uma entrega espontânea e pouco projetada das rotas a seguir. Isso não significa suprimir o desejo de se imaginar numa esfera futura da criação, mas apenas conter o ímpeto limitador de alguns devaneios que furtam a mínima noção da existência complexa de um mundo circundante. Tanto no que diz respeito à poesia quanto à fotografia, a obra de um autor como Ozias Filho vem retomar a noção do silêncio à qual nos referimos na introdução destas breves reflexões. E são dois os momentos em que Ozias nos oferta caminhos de compreensão sobre o tema: numa entrevista e nas leituras de alguns de seus poemas agora aqui publicados. Seguindo os novos ventos poéticos instaurados, lemos também Rosane Carneiro, Seh M. Pereira, Fernanda Fatureto, Márcia Abath e Susana Szwarc. No caderno de cinema, Guilherme Preger assume a complexa tarefa de expelir suas impressões a respeito de “Ninfomaníaca”, novo filme do polêmico cineasta dinamarquês Lars von Trier. Múltiplos recortes da existência também vêm se juntar aos contos de Nelson Alexandre, Lisa Alves e Maria Balé. Num convite à leitura, Sérgio Tavares demarca suas impressões sobre “Não Muito”, primeiro romance de Bolívar Torres. O mais recente disco do cantor e compositor SILVA é alvo das pormenorizadas escutas de Larissa Mendes. Pontuando todos os espaços dessa nova edição, o caráter sublime das fotografias de Nathalia Bertazi fala de amplitudes e convergências. Que o produto da criação seja sempre um revelador de espantos e descobertas, caros leitores! A todos, uma 90ª experiência de percepções.

 

Os Leveiros

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90ª Leva - 04/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Ozias Filho

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

nenhuma pedra

(lugar comum
……do poeta)

sufoca a tampa
detém a cavilha
sustenta a pressão

tudo vem à tona

quando os dedos
vão à garganta

 

 

***

 

 

verdade submersa

 

trabalhar incessantemente a mentira da palavra
o discurso viola a abstracção
da boca que o pronuncia
a língua (precoce) permanece hipnotizada no seu túmulo
pelo encantador de serpentes
enquanto a verdade é só saliva no fundo do cesto

 

 

***

 

 

Génesis

 

e no princípio
era o silêncio

e Deus
criou o verbo

e aprisionou para sempre
o silêncio dentro do homem

 

 

***

 

 

as estradas sulcadas na fronte
canais que interrogam
o curso do rio de sal
que não mais turvará o que é cru

enxergar ao longe
remoça a vista
e abre fístulas no peito

 

 

***

 

 

a árvore

 

cai por terra a promessa
de mantermo-nos rijos e inalterados
defronte ao assalto da saudade

cai com a lentidão do frio
quando a roupa é parca para impedir
que a pele queime e estale como as velhas madeiras
na memória das gavetas
casas com prazo de validade

que promessa poder-se-ia manter fiel
diante do perfume suspenso
e que não avisa a hora em que descerá
à memória olfactiva?

que compromisso matemático
podemos assumir com a rectidão dos dias
quando basta uma pedra fora do lugar
uma nota dissonante num trilho de comboio
o ranger dos dentes de alguém a dormir
ou o gosto agreste de um beijo que escrevemos
num argumento
para que se desça do pedestal que nos impusemos?

cai por terra a soberba
a árvore que não tem hipótese
face ao predador

 

 

***

 

 

Liturgia

 

mesmo que seja eu,
no auto-retrato,
à frente do espelho

é no olhar do outro
que determino
a passagem das horas

 

 

***

 

 

o calcanhar na língua

 

a Adriana Calcanhoto

 

eu vou arranhar
o calcanhar direito
de Adriana
tirar o verso da perna

amanhar o verbo da pedra
conjugar o calcanhar
no presente do futuro

eu vou mastigar a palavra
no lado esquerdo da alma:

a cal que desce
o sal que escorre
das palavras
caídas

o calcanhar que fala o silêncio de
Adriana

ela brinca ela brinda
introduz
o verbo que sabe a chão

 

Ozias Filho nasceu no Rio de Janeiro e atualmente reside em Portugal. Sua produção poética contempla obras como “Poemas do Dilúvio” (Ed. Alma Azul), “Páginas Despidas” (Ed. Pasárgada) e “O relógio avariado de Deus” (Ed. Pasárgada), dentre outras. Atua também como editor e fotógrafo.

 

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90ª Leva - 04/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão


No hiato que perpassa silêncio e criação, um vasto acervo de percursos da memória vivente constrói seu íntimo habitat. O estágio silente é o preceptor de ímpetos criativos que tanto edificam imagens quanto palavras. E o tempo que maquina os pensamentos enclausurados na inquieta mente de um autor sabe de lapsos e intervalos ansiosos de virem ao mundo. A gestação de um trabalho textual, por exemplo, abriga sua conturbada miríade de abstrações de toda ordem. O que dizer também da perspicácia necessária a quem deve reproduzir com agudeza de espírito instantânea aquilo que a existência lhe oferta?

Assim, fazer coabitarem, num mesmo ambiente de percepções, letras e imagens parece ser missão das mais intricadas. Tudo ganha especial dimensão quando o elo que une aquelas duas partes consolida seus movimentos na via da poesia. Munido dessa convergência que se faz tão marcante, o escritor e fotógrafo Ozias Filho empreende sua rota de vida, mostrando-se um ser comprometido com um repensar de cenários. Para Ozias, dedicar-se à literatura e à fotografia demanda uma busca essencial, qual seja a de empunhar como bandeira maior um olhar poético sobre tudo que o cerca. Nessas suas duas frentes de atuação, o criador se depara com a idealização de sua própria Pasárgada, lugar em que a perspectiva do humano é elevada a um grau máximo de apreciação. Trata-se de um território onde se almeja uma catarse capaz de forjar uma compreensão ampla a respeito de certos fenômenos do mundo em que habitamos.

Ozias Filho nasceu no Rio de Janeiro e, num período complicado da trajetória política e econômica do Brasil, teve em Portugal a oportunidade de um recomeço. Dentre outras obras, publicou Poemas do Dilúvio (poemas – Ed. Alma Azul), Páginas Despidas (poemas – Ed. Pasárgada), O relógio avariado de Deus (poemas – Ed. Pasárgada) e Ar de Arestas (poemas e fotografia – Ed. Pasárgada), este último em parceria com o poeta mineiro Iacyr Anderson Freitas. Como editor, fundou as Edições Pasárgada e, mais recentemente, a Aldeiabook Edições de Autor. No diálogo que agora segue, Ozias fala sobre como sua trajetória foi especialmente marcada pela literatura e fotografia, revelando aspectos sensíveis de seu percurso pelos ambientes da arte, tudo sedimentado por um desejo poético irrefreável.

Ozias Filho / Foto: Leonor Rego

DA – Há em seu trabalho com a fotografia uma sensação de desterritorialização muito forte. Ali, a noção de pertencimento aparece com uma considerável amplitude e sinaliza espaços de construção notadamente subjetivos. Diria que seu olhar concebe o mundo como um organismo amalgamado e sem fronteiras visíveis?

OZIAS FILHO – De fato, o meu trabalho não tem fronteiras visíveis, mas existe a questão do território, por mais indefinido que seja ele, pois eu faço parte dele, do local em que me insiro e que escolho como objeto da minha fotografia, da minha arte. E neste meu lugar eu incluo o outro, o observador, não um observador que precise definir o território daquela imagem, mas sim aquele que queira construir o seu próprio território, o seu não-lugar poético, talvez a sua Pasárgada onde ele pode tudo, onde ele É. Esta quasinvisibilidade, onde as fronteiras não estão definidas, está por todo o lado à espera que lhe prestemos a atenção devida. Contudo, para que isto aconteça, torna-se necessário que reaprendamos a ver.  Melhor: que seja hábito daquele que observa desconstruir cenários.

DA – O termo Pasárgada ocupa um lugar de destaque em seu trabalho. Em meio ao bombardeio imagético ao qual estamos submetidos hoje, acredita que esse lugar idealizado sugere uma via de transcendência necessária?

OZIAS FILHO – Não é só necessário este lugar. Pasárgada, ou outro local mítico que queiramos eleger, é vital para a nossa sanidade intelectual. Talvez seja um exagero o que acabei de dizer, mas eu comparo este meu lugar imagético em Pasárgada, através de todo o trabalho desenvolvido nos últimos anos, com o espaço etéreo da minha Pasárgada poética. Eu preciso deste espaço de catarse, este lugar de transcendência que tu sugeres e tenho a certeza que outros também necessitam do mesmo! Não é apenas um refúgio do bombardeio de imagens que nos povoam os dias, mas também uma forma de perceber o processo de significados destas mesmas imagens.

DA – A série “Quasinvísivel” percorre de modo sutil as paisagens urbanas, captando elementos despercebidos pelo olhar imediato de quem habita as cidades. De que modo você reflete sobre a constatação desses, digamos assim, lugares de ausência?

OZIAS FILHO – Reflito pedindo armas emprestadas à poesia, ao lírico, ao velado. Estou nestes instantes como se defronte de um texto complexo me encontrasse. Mas apenas os lugares são de “ausência” do ser humano físico, real, como o conhecemos. Contudo, esta ausência é metafórica, pois ele se encontra lá representado. A minha reflexão, enquanto artista, quando busco esta quasinvisibilidade, tem a ver com um certo olhar leviano que todos temos… acordamos todos os dias, abrimos os olhos e…. está tudo à nossa frente, tão fácil, tão disponível, tão sem esforço que é abrir os olhos e olhar o que nos cerca. Mas será que de fato compreendemos o que os nossos olhos nos dizem? Olhamos, é vero, mas vemos com precisão, conseguimos desconstruir este mundo do imagético fácil? Ou de tão habituados que estamos ao massacre das imagens diárias, assumimos um papel de autômatos, com a visão preguiçosa.  Quem não exercita a sua visão consegue ver o seu semelhante, o outro, para além da superfície? Consegue ver a si mesmo para além do espelho?

DA – No seu caso, essa questão da alteridade, do olhar sobre o outro, encerra também um caráter antropológico de observação?

OZIAS FILHO – É apenas um olhar de poeta, com todas as dúvidas e contradições que esta forma de ver traduz.

DA – Em um determinado momento de sua trajetória, você deixa o Brasil e elege Portugal como nova morada. Como se deu essa transição e de que forma ela influenciou suas perspectivas de criação tanto fotográficas como literárias?

OZIAS FILHO – Desde o início da adolescência, sempre tive um fascínio muito grande pela imagem. Quando consegui o meu primeiro emprego, aos 16 anos, numa empresa de relógios, o sonho ganha uma dimensão mais definida. Com o passar do tempo e algum dinheiro, finalmente veio a primeira máquina fotográfica. E com a primeira ferramenta o primeiro erro. Como até então o meu sonho com a fotografia espelhava-se nas imagens que os outros tiravam, não tinha me dado conta que para chegar àquela imagem não bastava só ver o cenário que me cercava, mas também uma técnica à altura, que me permitisse concretizar determinada visão. Daí, eu não ter a mínima ideia que não se podia tirar o rolo da máquina com a tampa detrás aberta. Conclusão: de um rolo de 36 imagens só sobrou uma em condições de ser utilizada. Passados alguns anos, muitos erros mais tarde (mas também acertos), cursos de fotografia, faculdade de Jornalismo, aparece outro objetivo: seguir a carreira de fotojornalista. Mas o sonho fica na gaveta e o que surge é o texto como uma outra paixão. Sem, no entanto, perder o contato com a fotografia, e junto com três outros colegas, dirigi um cineclube na faculdade. Após um período de indefinição profissional, sigo para Portugal (graças à politica recessiva do Collor de Melo) à procura do tão desejado Eldorado. O Brasil, nesta época, vestia-se de pesadelo. Na cidade do Porto, a escrita e a fotografia continuaram a ser as minhas armas diletas e através delas consegui os meus primeiros trabalhos nos jornais portugueses. Publico em jornais, revistas e até mesmo em folhetos publicitários. Em 2005, crio as Edições Pasárgada, publicando poetas portugueses e brasileiros (onde também me incluo). Neste selo editorial, tive a oportunidade de ter algumas das minhas imagens mais emblemáticas nas capas de alguns livros. Seguiram-se outros livros, revistas de arte (algumas publicadas na Alemanha, EUA, Brasil e Portugal, para além de outros países de expressão e língua portuguesas). O prêmio por estes anos todos se traduziu em 2013 com as fotografias do livro Ar de Arestas, com poema de Iacyr Anderson Freitas e a primeira exposição no Museu de Arte Moderna de Juiz de Fora, ou seja, o regresso ao Brasil pela mão da fotografia/poesia. Portanto, a fotografia e a escrita que hoje desenvolvo são frutos do caminho percorrido. Não existe um Ozias Filho do Brasil ou de Portugal na minha criação, mas sim este ser híbrido de duas pátrias e as respectivas influências. Contudo, para mim, a grande mudança no rumo do que fotografo hoje (antes uma fotografia mais generalista e hoje mais conceitual) está intimamente ligada à poesia, mas é uma relação dialética, pois quer a poesia influencia a poesia, como esta tem o seu peso de silêncios nas minhas imagens.

Ozias Filho / Foto: Arquivo pessoal

DA – Em “O Relógio Avariado de Deus”, você se aproxima muito das questões sociais do Brasil, sobretudo no que se refere à violência urbana, sem se portar como um mero observador dos fatos. Há alguma espécie de chamado embutido nesse percurso que se consolida fortemente existencial?

OZIAS FILHO – Há um chamamento da terra, mais do que tudo. Esta terra bonita por natureza, mas que é tingida de sangue por anos e anos de descaso do poder público com as populações. Um poder que foi, em certa medida, conivente com o crime organizado, já que ao longo do seu percurso, sobretudo democrático, não cuidou dos aspectos básicos, tais como a saúde, a educação, a melhoria continuada da vida das pessoas. O Rio de Janeiro, minha terra de nascimento, e onde me inspirei para escrever o meu “Relógio”, é talvez o maior reflexo deste descuido do poder, a sua maior vitrine para o mundo. Não quero dizer que o que se passa no Rio não aconteça em outras partes do globo. A voz que empresto ao livro em causa pode e deve ter leituras mais abrangentes neste mundo que todos os dias é regido pelo Senhor Dinheiro. Contudo, neste relógio – constantemente avariado – há outros tipos de violência menos visíveis. Por exemplo, aquela violência de crescer, de se libertar e de trocar de pele, de enfrentar dia após dia os nossos pequenos fantasmas ou pequenos carrascos.

DA – Em se tratando de Brasil, podemos também falar numa memória afetiva a permear seus versos?

OZIAS FILHO – Os meus versos estão contaminados por variada memória afetiva. Mas ela não se encontra apenas no Brasil (talvez no livro O relógio avariado de Deus estas memórias estejam mais à flor da pele), mas também estão por muitos cantos desta memória coletiva de imigrante que ora tem pátria, ora tem mais de uma pátria e, também, por vezes, não tem pátria nenhuma, ou seja, memória afetiva de lugar nenhum ou lugar indefinido, talvez Pasárgada.

DA – A forma como você engendra a poesia é algo que chama a atenção de quem se aprofunda em seus versos. No livro “Páginas Despidas”, por exemplo, há um poema, intitulado verdade submersa, cuja imagem maior deriva das múltiplas apreensões do verbo, principalmente das esferas percorridas em torno da abstração. No seu caso, a gênese da palavra vem orientada por um sentido total de libertação?

OZIAS FILHOSó a palavra quebra o silêncio, uma das epígrafes deste livro, traduz em parte esta minha relação entre palavra e silêncio. Contudo, não é uma relação de iguais, mas sim de dependência, na qual a palavra sempre sai desfavorecida, já que só consegue o estatuto de igualdade quando encontra no silêncio do outro, de quem lê, a sua cara-metade. Acredito que cabe ao leitor o papel de traduzir (com as suas leituras e os seus silêncios) o que a palavra não conseguiu cumprir, na sua totalidade, nas mãos do escritor. Há uma defasagem entre este enorme mar chamado silêncio (que não é pacífico) e aquilo que conseguimos produzir com a palavra libertada. Portanto, para mim, esta libertação total não existe e – utilizando uma reflexão do escritor Eduardo Galeano acerca da palavra UTOPIA – é como o horizonte; pois o conseguimos nomeá-lo porque o vemos, sabemos que ele não existe para além da visão, mas mesmo assim continuamos a caminhar na sua direção.

DA – Como poeta, você se considera um transgressor?

OZIAS FILHO – Penso que ser poeta é exercitar o ato da tolerância. Contudo, nos dias que correm, vê-se esta apenas na retórica… e talvez no passado ainda tenha sido pior neste capítulo. Se ser tolerante (e eu busco isso como cidadão) é uma transgressão, então sou um transgressor. Agora, se pergunta se a minha transgressão reside na construção da minha poesia, o que posso lhe dizer é que não sei. Não sei o que é isso. Esta é uma leitura que cabe aos leitores, aos críticos, uma observação externa.

DA – Muito se fala sobre a questão da leitura no Brasil, evocando-se a máxima de que somos um país de escassos leitores. Em Portugal, você leva a cabo outra feição sua, que é a de editor. Qual reflexão você faz do comportamento do leitor português e o que, na sua percepção, caracteriza marcantemente o mercado editorial lusitano?

OZIAS FILHO – Penso que o comportamento dos leitores cada vez mais é uniformizado e parecido, aqui em Portugal e no resto do mundo. Boa parte dos leitores procura aquilo que mais se vende: os livros de alta rotatividade nos escaparates das estantes e que na maioria das vezes são lixo com capas apelativas visualmente. Na parte que mais me toca, a Poesia e as Ciências Sociais, o espaço nas livrarias é cada dia menor. A minha esperança reside na Internet/Redes Sociais, como forma de divulgar os livros dos novos autores que, definitivamente, têm que matar um leão por dia. Primeiro, para chegar e convencer as editoras do seu talento; segundo, para que depois os seus livros consigam entrar no circuito das livrarias e lá permanecerem com a constância suficiente para que tenham visibilidade perante o público.  Acredito que a Internet, através das redes sociais, blogues, páginas de literatura e tudo isso conjugado por contaminação em escala, acabará por permitir que cada vez mais autores saiam do limbo do desconhecimento e que criem o seu próprio público. Confio também nos projetos alternativos, como aqueles que desenvolvo nas Edições Pasárgada (edições numeradas, assinadas pelo autor, primeiras e únicas edições, mas com um preço agradável aos leitores). E esta filosofia de voltarmo-nos para o meio virtual a cada dia ganha mais consistência, pois podemos dar visibilidade aos nossos livros (com algumas vendas), alcançando novos leitores, por um lado, e fugindo ao circuito habitual do comércio de livros. Utilizar a virtualidade como suporte à função editorial. Contudo, sempre que pudermos estar presente nas livrarias, assim o faremos, pois o contato com o livro físico tem também os seus apelos.

DA – O resultado do seu caminhar tanto com a literatura quanto com a fotografia lhe permite concluir que você encontrou respostas para alguns cruciais questionamentos?

OZIAS FILHO – A resposta (se é que existe de fato) é o próprio caminho, mediante as perguntas que fazemos no seu percurso. Para quem cria (assim vejo) não existem certezas em coisa nenhuma, pois a pretensa resolução de um “problema” hoje se desfaz na espuma do próximo questionamento. É sempre um recomeçar ad infinitum ou, para usar um pensamento atribuído a Sócrates, sobejamente conhecido, só sei que nada sei …. não obstante… À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo (Álvaro de Campos). O que sei, e posso afirmá-lo com propriedade, é que tanto a poesia, como a fotografia ou a arte, num sentido lato sensu, fazem-me sentir um ser humano melhor, mais liberto, mais tolerante, mais consciente da existência do outro.

DA – No eixo que vai do homem ao artista e vice-versa, o que Ozias Filho espera de Ozias Filho?

OZIAS FILHO – O que espero de mim próprio é nunca deixar de questionar o que me cerca e, apesar das minhas pequenas certezas, ter a capacidade de mudar o curso do rio em que me navego.

 

 

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Ozias Filho

 

Caminhar com o tempo, e não ao largo dele. Sentir o vento investir em nossos rostos suas rajadas sem rumo. Entender tudo o que nos cerca com um sentimento de dinamismo e alguma ponta de mistério. Entre passados inalteráveis e futuros projetados, melhor ficarmos com o que agora explode diante de nossos olhos vacilantes. Fora do presente, tudo são instantes em suspensão, emoldurados no coágulo de eras internas. O tempo que nos rege é inquilino assaz de nossos silêncios, um sorrateiro habitante das entranhas que nos são caras e indomáveis. O novo, falseando a mutabilidade das coisas, usa máscaras para sair às ruas. Acaso existirá o ainda não-dito? Sempre fomos os mesmos por mais sedutoras que possam parecer as transformações mundanas? Perguntar ou responder mais? E quanto ao exercício das escutas, o que fazer? Ao passo que nos achamos pretensamente munidos de certezas, percebemos o quão frágil é nossa espinha dorsal. Subliminarmente e em doses terapêuticas, vamos provando o gosto indefinido de tudo aquilo que não temos domínio aparente. Será o invisível que nos impele? Ante tamanhas indagações, é preferível viver em suspensão, supondo ritmos próprios e não profetizando auroras. Assim, testemunhando o curso imprevisível da existência, compartilhamos da mesma substância que impregna a arte do fotógrafo Ozias Filho, cujas imagens curvam-se diante do ritual indomável das horas. Nessa mesma trajetória de mistérios, as janelas poéticas de Tadeu Renato, Ana Peluso, Caco Pontes e Vagner Muniz convergem em densidade. Revivendo uma porção fundamental do legado do cineasta Eduardo Coutinho, a jornalista Claudia Rangel fala sobre o documentário Jogo de Cena. Numa aproximação com a ótica de Jorge Luis Borges, o escritor Anderson Fonseca caminha filosoficamente pelas complexas apreensões do nome de Deus. A entrevista com a escritora Ana Peluso traça painéis em torno do intricado mundo das palavras. Cenários difusos de vida compõem as estruturas narrativas dos contos de Isabela Penov, Alberto Pucheu e Sérgio Tavares. O poeta Gustavo Felicíssimo discorre sobre a crônica em consonância com a obra de José Saramago. Os olhos apaixonadamente cinéfilos de Larissa Mendes voltam suas atenções para a odisseia familiar do longa Nebraska. Somos todos ouvidos ao mais novo álbum da banda mineira Graveola e o Lixo Polifônico. Assim, o contar do tempo nos fala de 88 Levas vividas. E, a cada edição que surge, permanece a sensação de que olhamos tudo como se fosse a primeira vez. Que você, caro leitor, também possa desfrutar de tal perspectiva!

 

Os Leveiros

 

 

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Destaques Olhares

Olhares

O relógio imponderável de Ozias Filho

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Ozias Filho

 

No coração do mundo, pulsam sentidos hesitantes. Sob o efeito das cores e formas, somos tomados por epifanias que nos relembram a perspectiva cíclica do tempo. Mas eis o tempo e seus matizes. Majestoso em seus domínios, este senhor, que governa os ímpetos dos instantes todos, lança seus dados ao léu, arregimentando preces múltiplas daqueles que intentam lutar contra os ardis da resignação. Como conceituar a palavra destino? O que nos conforta face o correr das horas impensadas? Algum paraíso nos espera repleto de dádivas compensadoras para apaziguar nossa ansiedade?

Quem sabe ao contemplarmos os registros da luz, tidos em Ozias Filho, possamos esboçar algumas mínimas reações em face de tamanhas indagações? Sim. Ao fotógrafo cabe a sutil percepção das coisas que flutuam entre os dias. Ele, por si só, não profetiza amanhãs. Pelo contrário, pestaneja como os demais mortais. No entanto, ousa sondar as esferas que dividem a rotina agastada dos homens e dela põe em evidência a delicada película que envolve a tudo.

O que busca Ozias Filho? O paraíso por entre as conturbadas paisagens humanas? Talvez. Mas o fato é que seus alvos de observação transcendem urbanidades, trincam as vitrines intocáveis aos olhos e duvidam das nossas zonas de conforto pretensamente civilizadas. A Pasárgada de Ozias é feita de concreto e de sonho, do jogo dos extremos, de uma ponta qualquer de infinitude e, acima de tudo, do testemunho de que a existência é uma dama cujo manto é exponencialmente sensível. Nela, as cidades são vias de acesso para a aclimação das dúvidas. Não se busca uma terra prometida ou se vislumbra a morada da perfeição. Apenas subsiste a constatação de que as horas desmontam qualquer ilusão vã.

Foto: Ozias Filho

Carioca de berço, Ozias Filho foi buscar noutras paragens, mais precisamente em Portugal, a edificação de uma nova morada. Em todos os sentidos, diga-se de passagem, pois lá desenvolveu suas feições de escritor, editor e fotógrafo. Do seu envolvimento com a literatura, nasceram as obras Poemas do dilúvio (2002), Páginas despidas (2005) e O relógio avariado de Deus (2011). Algumas de suas imagens foram publicadas em revistas brasileiras, portuguesas e alemãs. Recentemente, o fotógrafo criou imagens a partir de versos de Iacyr Anderson Freitas. A obra, intitulada Ar de Arestas (2013), promove um diálogo entre duas poéticas que se fundem, harmonizando linguagens corporais em torno de um ambiente onde densas travessias da alma governam os sentidos de nossa tenra existência.

Um olhar detido pelas fotografias de Ozias nos permite atestar que o resultado poético é o grande alvo das pretensões do artista. Se há um caminho através do qual os fluxos da vida assumem uma dimensão diferenciada, sem dúvida alguma é a poesia quem determina tal escolha. Desse modo, o fotógrafo ignora os limites circunstanciais do tempo e não volta suas atenções para a mensuração cronológica dos momentos. Pelo contrário, deixa-se levar por motivações de ordem interna, catando verbos ao vento e os unindo a um painel que sabe a fragmentos de valor inexorável.

 

Foto: Ozias Filho

* As fotografias de Ozias Filho são parte integrante da galeria e dos textos da 88ª Leva.