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149ª Leva - 04/2022 Gramofone

Gramofone

Por Gustavo Rios

 

ANDRÉ LISSONGER – CANÇÕES DEMO SESSIONS 2

 

 

Apesar de ter sido feito durante a terrível situação da pandemia, CANÇÕES Demo Sessions 2, novo trabalho do músico André Lissonger, passa longe de ser um álbum sombrio e tristonho. Ou mesmo uma reunião de anêmicas bravatas “roquenrol” contra o establishment que matou mais de meio milhão.

Com uma bela capa criada pelo próprio, também artista plástico, CANÇÕES Demo Sessions 2, lançado pelo bravíssimo selo Trinca de Selos no começo de 2022, é composto por um apanhado de músicas sensíveis, cativantes e melódicas que elevam ao extremo as composições nela inseridas. Cheio de efeitos que emprestam ao trabalho aquela característica classuda e etérea (scratches instigantes, loops certeiros, vozes dobradas e ruídos meio “outonais”), as 11 faixas do álbum sofrem influência de muitos gêneros, com destaque para o Trip Hop, oscilando numa boa entre os londrinos do Morcheeba e a moçada arrasa-quarteirão da portuária e multirracial Bristol (Tricky, Massive Attack, Portishead; só para ficar na turma dos anos noventa).

Valendo-se também da onda Lo-fi, com sua mistureba relaxante de hip hop, música eletrônica e jazz, André nos surpreende tendo como princípio o espírito “demo” da coisa; espírito que pressupõe arrojo, genuína disposição para experimentar e uma boa dose de liberdade nas escolhas em geral (a vinheta “Olha, Mas Não Mexa” é um exemplo, pela “incitação” a “Girl From Ipanema” de Anitta).

André Lissonger, figura tarimbada no panorama musical baiano, com participações em diversos projetos e bandas, se trancou em casa com seu “estúdio de bolso” (nada menos que o celular pessoal da artista com uns aplicativos geniais) e decidiu viajar. Viajar para dentro – apesar da pompa do release sobre “um olhar sob a tempestade do ‘status quo’ do consumismo e sua quintessência”, ainda defendo a tese do intimismo; mais pertinente, na moral. Da necessidade de criar arranjos para as belas composições de gente como o irrequieto Tony Lopes e do também artista gráfico Joniel Franco (sem falar no “poeta das coisas simples”, Mário Quintana), esse carioca-baiano conseguiu o que, para mim, tem jeitão de proeza: converter imperfeição (basicamente a ideia de um “demo” feito num celular) em música de indubitável qualidade.

 

André Lissonger / Foto: divulgação

 

Explico: hora ou outra, o ouvinte se depara com uma voz que parece desafinar, ou mesmo com letras aparentemente ingênuas e mal trabalhadas – noções para lá de equivocadas. Entretanto, e curiosamente, foi esse combo inusitado e inteligente que me chamou a atenção logo de cara. Lissonger me fisgou pela visão do todo, pelo talento na criação e na execução das músicas, pela consciência do resultado de seu labor (a voz que supostamente desafina tem um motivo, é fruto de uma escolha, de uma concepção) e pelo já citado incomum, fatores que me fizeram pensar a obra inicialmente em termos de experimentalismo.

As letras (ou poemas) se encaixam perfeitamente nos arranjos e vice-versa, numa simbiose merecedora de elogios – e que só o fazer musical proporciona. Temos o hermetismo poético em “Topázios”, passando pela extasiante “Flutuando Sonhos”, do Tony Lopes (“A rua ruge os seus barulhos / Acalenta saudades / Ela livre apenas ri / Com os olhos no Louvre / Sinuosas linhas / Sombras / Com um sol a se opor / A solidão / Quatro paredes / Portas e janelas / Abertas / Como o sorriso / Da Mona Lisa”).

Em “Leblon” percebemos a cadência charm com um piano, enquanto na adaptação musical do texto de Mário Quintana, “Canção do Primeiro do Ano”, a batidinha meio downtempo (considerando o conceito dos 120 bpm’s; aqui bateu 82, 83, de boa) segue abrindo caminho para a complexidade do baixo e para os efeitos de uma guitarrinha wah wah, não na maneira usada no rock e no blues, por exemplo: aqui, a guitarra surge como textura e reforço à atmosfera do som.

Dessa forma, ainda que o baiano-carioca (a ordem dos fatores não altera o produto) André Lissonger não tenha pensado em experimentalismos no decorrer de seu projeto (conceitos e abstrações que só nos levam a labirintos chatos e falsamente intelectuais; o lance é fazer boa música e pronto!), o resultado de seu trabalho me causou aquele tipo de sentimento em que a gente se vê diante de algo novo, mesmo conduzido por elementos já conhecidos – a ideia de um artista em seu estúdio (celular, no caso) criando novos sons sob o método conhecido como bricollage, ou bricolagem, me agradou bastante.

Assim, mesmo que minhas ideias sobre pandemia e experimentos musicais pareçam forçar um pouco a barra na tentativa de explicar CANÇÕES Demo Sessions 2 sugiro que você, querido leitor, escute o cara. E o conheça. Quem sabe você, assim como eu, acerte as contas com a história musical, já que Lissonger está por aí há décadas. Fazendo coisas que valem demais a pena.

Torço pela longevidade dele. E de sua boa música também.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.

 

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135ª Leva - 02/2020 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

Nestes tempos sombrios e catastróficos de pandemia, nunca foi tão necessário um mergulho quiçá mais aprofundado em nós mesmos. A ideia de confinamento acaba por sugerir uma dedicação maior de nossa parte sobre temas que abraçam nossas indivualidades, nosso íntimo espaço de abstrações pessoais. Há quem leia mais livros, ouça mais discos, veja mais filmes, intercambie ideias com outras pessoas no ambiente virtual, seja nas enxurradas de lives ou prosas em vídeo privadas. Alguns hábitos foram remodelados diante de tamanha limitação do ir e vir humano, mas talvez o aspecto mais difícil dessas mudanças seja lidar com a desaceleração dos ritmos habituais. No campo da criação literária e artística, por exemplo, poderíamos até supor que o isolamento compulsório nos levaria a um estado garantido e deveras frutífero de produção. Mas as coisas não são bem assim. Há quem se queixe de certa apatia diante da realidade trágica do mundo a ponto de nada conseguir pensar, quanto mais criar. De repente, somos tomados pelo medo de imaginar o futuro, já que o presente é devastador. A paúra do amanhã obriga muitos a supor que talvez não haja um refúgio garantido. E a imposição do recolhimento acaba por flertar com dificuldades até certo ponto extremas para muita gente. Uma delas é a condição de ter que silenciar, emudecer por alguns momentos, o que certamente viabilizará combates dos mais diferentes sujeitos com as suas próprias mentes e consciências. De todo modo, cada um irá elaborar sua própria estratégia de sobrevivência para não sucumbir diante de um cenário nunca experimentado pelas mais distintas gerações que aí estão. Enquanto a tormenta global não passa, é possível descortinarmos mundos e seres sem sairmos de nossas moradas. Mesmo quem não está habituado pode se permitir um percurso por livros, discos, filmes, fotografias, desenhos, pinturas, enfim, sensações das mais diversas. O vasto território da Literatura e da Arte possui um acervo capaz de abarcar as mais diferentes procuras. Suportes como a Diversos Afins, mais do que nunca, são pontes para descobertas, para aproximações, a partir do ambiente cultural. Nosso caminhar segue em frente, sugerindo alternativas para atravessar um estado de coisas que tende à imobilidade das trajetórias. Assim, trazemos à tona conexões com a vida nos versos de poetas como Jennifer Trajano, Carla Diacov, Wesley Correia, Lílian Almeida e Maria Clara Escobar. São de Vivian Pizzinga as linhas que debatem os temas presentes no espetáculo teatral “Pá de Cal”. É Vinicius de Oliveira quem nos recomenda a leitura de “O corpo encantado das ruas”, livro de ensaios de Luiz Antônio Simas. Nossos cadernos de prosa de agora, estão marcados pela poética de Priscilla Menezes e pelos contos de Rodrigo Melo e Alê Motta. Seguindo as trilhas cinéfilas, Guilherme Preger analisa criticamente o filme “O Poço”, instigante produção espanhola. “Gigaton”, novo álbum da banda Pearl Jam, está na mira detalhada das abordagens de Wilfredo Lessa Jr. Numa entrevista concedida a Fabrício Brandão, o escritor Paulo Bono fala sobre seu novo livro e outros provocantes temas literários e mundanos. Durante toda a nossa atual edição, os desenhos de Ana Luiza Tavares compõem uma valiosa exposição que se volta com vigor para o universo feminino. Isole-se bem, cara leitora, caro leitor! Isole-se com mergulhos culturais. Eis a nossa 135ª Leva!

Os Leveiros