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101ª Leva - 04/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

Há pouco entramos num marco centenário de publicações. Agora, seguir adiante é manter acesa uma chama que sabe a sonho e alguma espécie de teimosia. Tem quem prefira classificar como resistência, mas pensar assim implica um pouco em firmar a ideia de que se está lutando contra uma força qualquer. Não seria esse o propósito de trilhar caminhos na seara cultural. É fato que algumas adversidades se agigantam no meio da jornada. No entanto, elas servem para nos mostrar que o jogo das oposições se estabelece muito mais por uma necessidade de se firmar posições e ideias, construindo diálogos e debatendo uma vasta gama de assuntos. Ao mesmo tempo em que se busca externar pontos de vista pautados nas mais diversas formas de expressão, poder fomentar o pensamento significa também estar aberto à mudança. É entender que, como organismos vivos racionais, estamos sujeitos a toda sorte de interferências e sugestões que nalgum ponto da trajetória são capazes de nos indicar vias substanciais de transformação. Em outras palavras, lidar com forças humanas é constatar a vulnerabilidade das certezas. Ao fim de tudo, é bom concluirmos que ninguém detém a patente da verdade. E o que faremos com tal arremate? De fato, são infinitas as possibilidades, mas cada pessoa configura as leituras seguindo uma ótica que mescla razão e sensibilidade. Precisamos da arte para romper a dureza dos dias quando nos percebemos seres aborrecidos pela rotina mecanizada. Necessitamos da arte enquanto prova inconteste de que estamos vivos e prenhes de saber e sabor. Somos arte na ruptura, na desconstrução e na inconformidade. Somos, enfim. Os acessos da Diversos Afins anseiam pela comunhão de signos advindos das mais distintas correntes de expressão. Assim, vamos buscando a expansão de um ideal de multiplicidade de rostos e vozes, todos eles com o que há de melhor: o vigor de sua individualidade. Vejamos, pois, que, diante de um mundo atravessado pelo caos do pensamento e da ação, há espaço para os olhares marcantes de gente como Victor H. Azevedo, jovem artista movido fundamentalmente pela atuação das forças que circundam seu caminho sensível. Na linha que agrega percepções inquietas sobre a existência, é oportuno frisar a conversa que tivemos com o escritor Dênisson Padilha Filho, autor que vem construindo uma obra valiosa na prosa contemporânea brasileira. Nos recortes poéticos de então, abrimos alas para as epifanias de Vicente Franz Cecim, Catarina Santiago, Leonora Rosado, Vander Vieira e Paola D’Agostino. Noutro ponto da edição, Larissa Mendes empresta seus olhos para toda a beleza e força presentes no documentário “O Sal da Terra”, filme sobre a trajetória do fotógrafo Sebastião Salgado. Há também o provocador percurso de Sérgio Tavares nas impressões sobre o mais novo romance de Carlos Trigueiro. Dispersa nos contos de Fernando Marques, Tadeu Sarmento e Diego Moraes, a vida mostra suas muitas faces. O olhar poético de Daniela Galdino confere ao mais novo disco do cantor e compositor Lirinha um lugar de destaque. “Diário de um ladrão”, romance de Jean Genet, é alvo dos esmerados apontamentos de Rafael Peres. Com estes e outros trânsitos possíveis, caro leitor, ofertamos a você uma 101ª Leva!

Os Leveiros

 

 

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101ª Leva - 04/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Paola D’Agostino

 

Victor H . Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Esta esplanada não existe
é mais um sonho marcado
para acontecer talvez num Setembro
mas entretanto avista faróis
do último piso de um estacionamento.
Clandestinidade de luxo
que a cidade sabe oferecer
ao delírio de sair de si
nas horas mortas
encontramo-nos aqui
em lugar abusivo
o único sítio onde te consigo

Quando arrancares
o relógio da carne
não te esqueças de sorrir
ao virares
a clepsidra do oblívio.

E depois lava bem as mãos
que está um tempo sujo cá fora.

 

 
***

 

 

A vida às tantas se parece com aquela grande loja de artigos para o lar
que toda a gente conhece na Baixa mas entretanto
alguns sobem ao último piso para aproveitar a vertigem do panorama
e beber uma imperial no reino das águas furtadas
enquanto outros só procuram mesmo a secção das flores de plástico
e compram cascatas de glicínias
para enfeitar a sala e eventualmente um gancho
que prenderá o cabelo em dias bonitos

e todos juntos
uns e outros
encontramo-nos no espelho do elevador
e sorrimos.

 

 

 

***

 

 
Vício, forma mais violenta de estar vivo

 
A lei do espanto mandava em tudo
e nem tudo obedecia às leis.
De resto nada tenho a assinalar

Eu quis
voltar a entretecer-me de raiz
com outra curiosidade.

 

 
***

 

 

Um lugar ao sol e um tempo na sombra

 

Eu vim pactuar com o crime a esta praia
porque a geada aperta no hemisfério
do continente gasto
aqui no cérebro.
Porque sair de casa a meio da noite
em busca de sacrilégio
é arte
de aventureiro
que se deve provar
uma vez pelo menos.
Por essa gota de adrenalina suja
que fomenta a inconsciência
de Prometeu
como um revérbero
ao sair de si.
Eu vim
desafiar a imortalidade
do mal
que havia em mim.

 

 

 

***

 

 

 

Quantos cais este oceano permite?

 
Como um papel de parede
que descolando amarrota na queda
todas as vidas anteriores
e repõe no espaço dos fantasmas
a candura das paredes nuas
perfeita casa
como
tabula rasa.

 

Paola D’Agostino aprendeu a caminhar por volta de 1976 e desde então nunca mais voltou para casa. De momento reside em Lisboa. Seus livros chamam-se “Largo das Necessidades” (2006), “Este Frio e Outras Histórias de Amor” (2011), “Dançam; Dançam” (2014) e o mais recente “Catar Catataus”, um diálogo ideal com o Catatau de Leminski (três últimos poemas desta seleção). Tem textos espalhados por revistas e antologias em Itália, Portugal, Alemanha. Um dia tocará acordeão, talvez.