Categorias
96ª Leva - 10/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Tomás Casares

 

Cantar porque o mistério existe. Assim pode ser também representada a sina de um criador. Quanto mais simples as suas vestes, alijadas do fogo da vaidade inútil, mais próxima e quiçá autêntica será a sua epifania. O sentido de verdade também pode ser tomado como uma expressão honesta daquilo que se sente, algo que, materializado sob a forma de um texto, imagem ou som, ganha autonomia para fundar mundos no mundo. O autor cria personas e as atira aos quatro ventos, sugerindo-nos que também façamos o mesmo a partir do que engendra a nossa imprevisível percepção das coisas. É gozosa a possibilidade de sermos outros, rompendo amarras sedimentadas pela rotina. É fora de série a ideia de que a arte nos propõe um exercício contínuo de libertação. Nesse movimento, consumir a obra de um determinado autor é, possivelmente, amalgamar-se a ele. Essa espécie de pangeia humana, outrora ligada por sentimentos entrelaçados, passa a alimentar uma multiplicidade de expressões que harmonizam tanto o individual quanto o coletivo. Assim, os caminhos da liberdade não significam imposição nem tampouco a pronta concordância com o todo sugerido, mas a mais pura perspectiva de nos edificarmos enquanto sujeitos conscientes e condutores de nossas míopes trajetórias. Tudo isso para dizer que o mistério existe e que por ele somos atraídos pelas razões das mais imponderáveis. Mesmo tendo inclinações prévias a algum tipo de abordagem ou vertente criativa, a sensação é outra quando somos tomados de surpresa por alguma obra. Do mesmo modo, viver à cata disso desavisadamente por ser um bom indicativo. Sinal de que nos desarmamos um pouco para permitir que um outro alguém seja escutado. Como parte dessa despojada atitude, deixamos o canto sensível de poetas como Luciana Marinho, Guilherme Gontijo, Marilia Kubota, Stefanni Marion e Nuno Rau ecoar suas singularidades. No trajeto entre o visível e o invisível, as fotografias do argentino Tomás Casares instauram uma sublime acepção para a existência. Para falar um pouco sobre sua lida com as vias literárias, o escritor Anderson Fonseca responde a uma pequena sabatina de ideias. No Gramofone de Larissa Mendes, toca o mais novo disco da cantora e compositora Tiê. A leitura atenta de Sérgio Tavares nos convida a um deleite sobre o mais novo romance de Marcia Barbieri. Há difusas perspectivas de olhar o mundo nos contos de Marina Ruivo, Vássia Silveira e Caio Russo. O texto de Mayrant Gallo exalta a importância do escritor Patrick Modiano, recentemente agraciado como o Prêmio Nobel de Literatura. O mais novo filme do diretor Jim Jamursch é o centro das anotações de Guilherme Preger. Cá estamos, caro leitor, a sugerir um caminho que consolida sua etapa de número 96. Seja bem-vindo!

Os Leveiros

 

 

Categorias
96ª Leva - 10/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

NENHUM MODIANO NAS ESTANTES

Por Mayrant Gallo

Modiano
Patrick Modiano / Foto: Thomas Samson

 

Há algumas semanas, ao saber que tinham outorgado o prêmio Nobel de Literatura 2014 a Patrick Modiano, fiquei duplamente feliz: como leitor e autor. Na condição de leitor, porque acompanho as publicações de Modiano no Brasil desde os anos 1980, e é como se ele, junto a mim e outros leitores, “esculpisse” sem o saber, livro a livro, o ambicionado prêmio; na de autor, sinto-me naturalmente recompensado, porque, de fato, um escritor recebeu o Nobel por fazer Literatura, e não política literária ou por praticar atividades de arredor, usando a Literatura como cabide ou degrau. Prêmio justíssimo, portanto.

À parte Dora Bruder, que reconstrói um fato real da perseguição alemã aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, o que por si só já constitui uma lição de humanismo, todos os demais livros de Modiano publicados no Brasil, e que se assemelham na condição de romances breves, de pouco mais de cem, 120 páginas, apresentam aspectos altamente relevantes para o prazer e o proveito do leitor, bem como para a sua formação e seu aprimoramento. São peças de um virtuose de sua matéria. E não importa o assunto, se o nazismo ou o amor, o tratamento é sempre o mesmo: os personagens parecem assombrados, engolidos pela realidade, que não conseguem compreender, muito menos dominar. E, como num sonho, vão se deixando conduzir e imolar. C’est la vie.

Há anos que recomendo a leitura de Modiano a amigos e alunos, mas, infelizmente, poucos me levaram a sério. Ou talvez só este e aquele, mais próximos, o tenham feito. Agora… Bem, agora é realmente outra história. Mas a verdade é que todos os livros de Modiano publicados pela Rocco no Brasil estão esgotados. O leitor vai ter que esperar por edições novas. Enquanto alguma editora ou mesmo a Rocco as preparam (de forma apressada, certamente), o leitor mais afoito terá que se aventurar em idas aos sebos e se contentar, não raro, com exemplares surrados, enxovalhados, oferecidos a preços não mais assim tão convidativos, afinal o cara agora é um Nobel, e o livreiro espera lucrar com esta rubrica.

Livros de Modiano
Livros de Modiano

 

Não sei se por influência do gosto do leitor brasileiro ou se por circunstância de nossa educação, sempre uma lástima, entra governo sai governo (e o atual, firmado na trapaça, constitui o paroxismo desta vocação para o desprezo ao conhecimento e às artes), o certo é que nossas editoras insistem em publicar mais do mesmo (autoajuda sempre, “coelhos” enquanto dure a inocência dos leitores, “vampiros” por um tempo de sangue, “tons de cinza” a par de ereções e mamilos tensos etc.), ao passo que esnobam a Literatura em quase todos os seus gêneros e idiomas. E, então, de súbito, somos surpreendidos por um fato como este: o autor prêmio Nobel de Literatura de 2014 não tem, muito embora sua extensa obra, sequer um livro em catálogo no Brasil. “Nenhum Modiano nas estantes”, poderíamos dizer.

Afortunada foi a CosacNaify que, ao  programar para este ano a publicação do infantojuvenil Filomena firmeza, que reúne o texto de Modiano aos desenhos do extraordinário Sempé, demonstrou mais uma vez a sua vocação para as boas escolhas e a qualidade literária. E, se tornou, não por acaso, a porta de entrada de Modiano ao leitor brasileiro.

Certa vez escrevi este poema, breve como deve ser: “À tartaruga a linha de chegada parece longe,/ Mas, passo a passo, ela a transpõe,/ Enquanto aos coelhos cabe alcançar o horizonte”.

Claro que estou citando a velha fábula tantas e tantas vezes referida por tantos e tantos autores, nos quatro cantos do mundo, mas que parece compor uma alegoria perfeita desta inusitada situação: de que um autor como Modiano, paciente e cioso do seu ofício, chegue naturalmente, e talvez sem o desejar, aonde muitos coelhos afoitos gostariam de estar desde o primeiro momento. Ao menos para mim, seu fiel leitor, esta ironia tem sabor de desforra.

Mayrant Gallo é escritor e professor. Autor de “Os encantos do sol” (2013) e “O inédito de Kafka” (2003).