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136ª Leva - 03/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Paulo e seu “Lirismo de Chorume”

Por Gustavo Rios

 

 

É legal quando eu me deparo com um escritor fino, talentoso e sincero – quase um refrão do Lulu. Aquele tipo de pessoa que sabe aonde quer chegar. Que não se envergonha de suas influências, as usando com talento e sagacidade. Tudo em prol de um bom livro.

Paulo Bono é desses. Não se intimida se é Bukowski quem sopra melodias em seu ouvido. Ou se algo de Hammet desliza no teclado de seu computador. Ele segue na boa. Na busca de uma boa história.

Lançado em 2019, Sexy Ugly é um livro de 133 páginas editado pela baiana Mondrongo. Livro que me surpreendeu por vários motivos. Dos diálogos certeiros que dizem mais do que mostram, ao humor sem assepsias, esse escritor baiano, além de publicitário e flamenguista, mostrou ser um daqueles que respeitam o leitor.

E por que digo que fiquei surpreso? Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que a “surpresa” em questão não tem a ver com a suposição de que Paulo fosse um escritor meia boca. É bem verdade que, antes de Sexy Ugly, havia lido pouca coisa dele – e isso tem mais a ver com minhas limitações. E também é fato que eu andava desconfiado de autores que assumiam o risco que Bono assumiu: transpor para uma realidade verossímil (e bem tacanha) aquela pegada forte e densa comum ao tipo de literatura que gente como nós admira.

O lance é que esse flamenguista assumiu o risco e vendeu o peixe. Desde a capa sensacional até cada palavra escrita, o que vi foi um autor com domínio total de suas intenções. Do começo ao fim.

De cara, posso dizer que Paulo é daqueles que curtem os escritores de “pegada forte”. Além dos já citados acima, identifiquei no livro coisas do Fante, por exemplo, mesmo com todo o humor inserido. Todavia, não falo aqui de imitações toscas, um tipo de literatura que simplesmente copia para um universo próximo – a realidade do autor, “por supuesto” – o estilo sem firulas dos gringos. Ao ser franco com suas certezas e ter em mente exatamente o que desejava, ainda que isso demandasse um trabalho de “levantar e derrubar pilastras”, Bono soube escolher o tom de sua obra. E tais autores serviram justamente pra isso: dar o tom; lastrear a história do Deco Ramone, o protagonista.

Os personagens são caricatos, mas não falsos. E nos lembram outras grandes figuras literárias e cinematográficas da mesma estirpe. A linguagem é crua e suja, sem desculpas nem receios. Algo louvável, principalmente em tempos de álcool gel e outras assepsias – ou, como bem disse o capixaba Saulo Ribeiro na orelha do livro: “lirismo de chorume”. De sujeitos com chapéus de cowboy, a femme fatales, temos um desfile genial, divertido e convincente (dentro da proposta do escritor) de pessoas que nos prendem e nos cativam. Pouco importando se elas conhecem o Conjunto Habitacional Feira VI ou se tomam umas no Rio Vermelho.

Daí o primeiro risco: ao escolher trabalhar com indivíduos tão marcantes, os colocando em “cenários” tão próximos – Salvador e Feira de Santana -, Bono poderia ter errado feio a mão. Ou a demão. Não foram poucos os livros que li onde o artista, preso ao sedutor “complexo de Factótum”, apenas copiou, de forma deliberada, ideias centrais e batidas dos escritores pertencentes a essa linhagem. Ainda que suas influências fossem claras, e aparentemente pensadas, Paulo soube dosar bem o uso de tais “personas”. Ele foi muito hábil ao mesclar tais escolhas com suas próprias experiências. E nada sobra no desenrolar da narrativa.

Assim como Paulo Bono, Deco Ramone, protagonista do romance, é um publicitário à beira de algum abismo. Sem grana, sem escolhas, e prestes a ficar longe da filha, ele é contratado para um estranho “job”: criar um roteiro para uma casa de tolerância que atende somente aleijados e párias em geral, incluindo os de “pau pequeno”.

A partir desse ponto, o que vemos é uma obra deliciosamente maldosa, ácida, direta, sedutora, curta e instigante. Em resumo: arriscada.

E isso se deve não somente às inspirações vindas da literatura. Ao ler Sexy Ugly, coisa que fiz em duas tardes (e isso não é demérito), percebi que o também roteirista Paulo bebeu (e fumou) em outras fontes artisticamente válidas: falo dos grandes seriados que, nas últimas décadas, vêm mudando nossa maneira de entender e perceber a linguagem televisiva e/ou cinematográfica.

De Breaking Bad à série A Sete Palmos, desconfio que Bono captou algo escrito pelo jornalista Brett Martin em seu livro Homens Difíceis. Além disso, suspeito que ele também compartilha, de certa forma, alguma coisa das ideias defendidas pelo Enrique Vila-Matas, num artigo onde o espanhol cita Mad Men e sua reconciliação com o que ele chamou de “formas breves”.

Isso sem falar no Tarantino ou no lendário Lebowski, presentes diretamente em Sexy Ugly.

Existe muito de cinematográfico no andamento de sua escrita, bem como na elaboração dos diálogos, outro ponto fundamental na obra: os diálogos são o seu “parque de diversões”, como ele mesmo chegou a dizer numa entrevista aqui mesmo. As conversas, por si só, conseguem preencher boa parte do livro, sem travar a leitura nem trazer confusão. Capítulos inteiros (apesar de curtos) são “só” isso. E “tudo“ isso é feito de forma tão direta e ritmada, que até as reticências se tornam menos reticentes.

Paulo põe na boca (sem malícia, por enquanto) dos personagens falas que refletem o que ele realmente deseja mostrar: se profundidade ou escracho, tanto faz. Entretanto, mesmo que a ideia seja filosofar ou sacanear (coisas bem parecidas às vezes), tudo é feito com destreza e humor, umas das melhores formas de entender, enxergar e suportar esse mundinho que precisa lavar as mãos, inclusive entre os dedos.

 

– Sério, pai? Você deu em cima da Cássia Eller?

– Só pra descolar uns ingressos.

– E aí?

– Ela preferiu minha namorada.

– Eu queria muito ter ido num show dela.

– É, mas só pagodeiro que não morre.

 

Isso é Deco e sua linguagem suja. Para que possamos lavar a alma…

Quanto à profundidade, elemento tão buscado no fazer literário, não posso afirmar que Bono teve isso em mente durante o processo. Acho até que não foi sua intenção: continuo acreditando que ele buscava uma boa história. O que já vale muito a pena.

Contudo, e nem sei bem por qual motivo, em alguns momentos consegui perceber e enxergar algo mais, digamos, “cabeça”. Como uma mensagem subliminar e escondida, meio de bobeira. E isso tem muito a ver com o humor, elemento chave em Sexy Ugly.

“Comerciais de presunto. Nada mais distante da realidade. Ninguém ostenta tantas fatias de presunto dentro do pão. Lembro de quando garoto. Era preciso dividir uma fatia entre quatro irmãos. É uma das poucas vantagens de alcançar a vida adulta. Comer quantas fatias de presunto o rabo aguentar.”

Tudo bem, tudo bem, já até posso enxergar um ou outro torcendo a boca. Perguntando-se como Gustavo enxergou profundidade nisso. E não vou elencar as possíveis mensagens contidas nesse trecho ácido e bem humorado. Entretanto, creio que não podemos também esvaziar por completo o fragmento acima. Defendo a ideia de que o leitor faz o livro. E costumo exercitar isso com frequência.

Além do mais, podemos enxergar críticas ao que somos nesses dias terríveis em outras páginas: do racismo na publicidade à necessidade de gourmetizar tudo que é bom e vital, incluindo sorvetes e churros. Numa vidinha morna e sem lactose.

Na base do humor (sempre ele), e de um cinismo bem articulado, Deco Ramone nos atiça com questões que geralmente deixamos pra lá, enquanto ele mesmo luta para sobreviver. Todavia, o cara faz isso sem forçar a barra. Sem querer voltar no tempo, e viver sob o mesmo teto que a Simone de Beauvoir.

Bem sei que toda resenha é tendenciosa. E, sempre que faço uma, pareço exagerado nos elogios – e provavelmente não muito retórico nas justificativas. Porém, ao ler Sexy Ugly, realmente enxerguei um bom livro. Sincero, bem contado, engraçado e direto.

E pouco me importa se ele será criticado pela suposta imitação de um estilo “maldito”, o tal clubinho Factótum (nada a ver com a moçada boa que divide com Paulo inspirações e viagens literárias). Quando o autor, ao trabalhar em sua obra, se sente conciliado com as próprias escolhas, tudo dá certo. Na medida em que ele também se insere nela.

O fato é que Bono é um cara de talento. E, ainda que algumas figuras presentes no livro nos pareçam a priori estereótipos, como o sujeito com pinta de cowboy num bar do Rio Vermelho, a dúvida sobre o artista e suas capacidades acaba se diluindo no caminho. Ao vermos que o desejo do mesmo é o de nos contar uma história. Sabendo como nos conduzir em sua ideia.

Ao trazer aquele tipo meio caricato de pária e marginal, essencial para que Sexy Ugly funcione, Paulo bem que poderia ter caído no ridículo. Se a gente pensar nos autores sem talento que costumam replicar suas influências, reescrevendo um bando de figuras deslocadas e sem brio.

Para mim, entretanto, de nada vai adiantar reduzir o valor da obra com teorias vazias e rancorosas. Se um cara resolve tocar um bom blues, Howlin’ Woolf deve ser lembrado.  O mesmo pra Gonzagão.

Com isso, pensar em criticar Bono pelas escolhas, é meio que reforçar a ideia de que, enquanto nordestinos, somos eternamente responsáveis por um tipo de reserva estilística. Aquele regionalismo arrastado e chato, ou aquela urbanidade estereotipada, multicolorida e batuqueira (não sejam mesquinhos ao interpretar essa ideia, por favor).

Acredito que devemos ser livres. E devemos confiar em nossos passos cada vez mais longe desse “comportamento de Nonada”. Se tal comportamento resultar em bons livros, obviamente.

Foi o caso de Paulo. E é por isso que digo: confiem nele. Nele, no livro e no Deco Ramone. A viagem será boa, eu mesmo garanto.

 

Gustavo Rios é baiano. Autor de “Rapsódia Bruta”, entre outros.

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A Literatura é esse território repleto de vivências, cenários e impressões sobre o mundo. Ao mesmo tempo, é atividade que ultrapassa o real e, algumas vezes, não se rende a necessárias relações com ele. O mister de um autor é também algo que não se digna a maiores explicações, a tentativas exaustivas de classificação. Se definir é limitar, cobrar de um escritor as exatas diretrizes de seu engenho com as palavras não parece ser nem um pouco um gesto razoável.

No panorama das narrativas ficcionais, há quem seja profundamente estimulado a criar tendo como norte a necessidade de contar uma história. Mas não é apenas isso. É construir um texto cuja consistência narrativa confira qualidade ao que se está dizendo, sobretudo através da consciência de que aspectos técnicos também são imprescindíveis para quem pretende dizer algo através dos conteúdos elaborados. E quando encontramos alguém movido pelo intuito de trazer ao mundo uma boa história, supomos de pronto que os primeiros indícios de um trabalho digno de ser apreciado estão se delineando. É o caso de Paulo Bono, escritor cuja obra merece especial atenção em razão dos empenhos exitosos com a construção narrativa.

Baiano de Salvador, Bono é um escritor cujos textos prendem a atenção do leitor pela sua fluidez, ritmo e potencial imagético. Some-se a tais atributos a peculiar capacidade que o autor tem de elaborar diálogos que acabam funcionando como verdadeiros atrativos. Diga-se de passagem, muitos desses diálogos têm por virtude maior dar sustentação às expressões dos personagens. E aqui é preciso mencionar que os tipos humanos engendrados por ele encontram correspondência com personalidades que transitam aos montes no nosso cotidiano. O xis da questão é que o autor os molda com habilidade dentro de um universo de cenários e possibilidades comuns a tantas existências diluídas no conjunto dos dias.

Autor do livro de contos e crônicas “Espalitando” (Ed. Cousa, 2013), dentre participações em antologias e coletâneas, Paulo Bono foi também roteirista do curta-metragem “O Garoto”, lançado em 2014. Mas o seu momento atual está voltado para os desdobramentos tidos a partir de seu primeiro romance, “Sexy Ugly”, lançado em 2019 pela Editora Mondrongo. O livro mostra Bono cada vez mais à vontade em sua lida com as palavras, tecendo uma narrativa que subverte expectativas e que tem como um de seus motes o protagonismo de pessoas costumeiramente não aceitas nos padrões de beleza socialmente impostos. E para falar da experiência com seu novo rebento e de outros temas relacionados às vias literárias e mundanas, Paulo Bono recebeu a Diversos Afins para uma conversa marcada por opiniões diretas e certeiras, prova inconteste de que a objetividade é uma das valiosas ferramentas de expressão do pensamento.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – Seu mais recente livro, “Sexy Ugly”, tem um olhar aguçado sobre cenas contemporâneas, pois há nele também uma crítica sutil sobre o sujeito mergulhado em dilemas pessoais que envolvem a luta pela sobrevivência, os desejos sexuais e os afetos. Como foi arquitetar a construção narrativa nesse território cheio de tensões tão nossas? 

PAULO BONO – Foi uma arquitetura de idas e vindas. Aquela coisa de levantar e derrubar pilastras o tempo todo. Na primeira versão do livro o protagonismo era da Propaganda. A história era sobre os bastidores das agências. Com muito mais casos e entrelinhas desse ambiente. Mas achei que estava se tornando um livro de gueto. Joguei tudo fora e recomecei com uma história tipicamente noir. Com mais peso nos crimes, no sexo e no mistério. Mas veio uma necessidade de conhecer melhor o detetive. Foi então que Deco Ramone virou o mestre de obras dessa construção. Descobri que a história era sobre ele. Os bandidos, a femme fatale, os amigos bizarros, a filha, as agências e o puteiro eram na verdade um espelho de Deco. Assim os crimes perderam peso, o noir virou linguagem e a propaganda passou para pano de fundo. O livro seria sobre um publicitário falido que precisava descobrir como vender um puteiro para pessoas feias enquanto lidava com bandidos, com o futuro incerto e com o distanciamento de sua filha. Uma história sobre sobrevivência, expectativas frustradas, autodecepção, sobre a beleza da feiura e a feiura da beleza. Acredito que desta forma a investigação de Deco se tornou mais universal e ele descobriu que somos todos sexy ugly. Ah, e preferi pintar as paredes com humor. De drama já basta a vida.

 

DA – O personagem Deco Ramone é, assim como você, alguém envolvido com publicidade. Em “Espalitando”, seu livro anterior, as narrativas remontam ao bairro da Lapinha, lugar de Salvador que marcou a sua trajetória pessoal. Não há como não observar, na sua obra, essa recorrência a referências que falam de você em alguma instância. De que modo você reflete sobre isso? 

PAULO BONO – É como disse o Hemingway, você tem que escrever sobre o que conhece. O roteirista Charlie Kaufman também comentou uma vez que só podia escrever sobre ele mesmo, pois era o único assunto que escreveria sem errar. E olha que as histórias do Kaufman são bem loucas e inventivas. Acho que é por aí. O “Espalitando” era uma parada mais pessoal até porque veio de um blog que funcionava quase como um diário. Já o “Sexy Ugly” não é sobre mim, estou longe de ser o Deco Ramone. Mas acrescentei muita coisa do que vivi em 20 anos de propaganda. Fante, Bukowski, Céline e muitos outros também iam por esse caminho. Alguns dizem que é um recurso menor, uma limitação. Foda-se. Não acho que há certo ou errado. O importante é o texto. Se ficar bom e verdadeiro, será universal, alguém vai se identificar e não será mais uma história sobre Bono. Recorrer às nossas referências é como dar um pulo num porto seguro só pra pegar uma arma secreta. Se um dia eu escrever sobre uma guerra intergaláctica, acredite, a Lapinha também estará presente.

 

DA – De fato, ainda há muita controvérsia, inclusive, sobre o próprio conceito de autoficção, algo até subestimado por alguns. Não lhe parece mais genuíno saber aliar o texto ao que vivemos, pois tudo sempre esteve no mundo e apenas transformamos as coisas ao nosso modo?

PAULO BONO – Por aí. Mas nem acho que exista um modo mais ou menos genuíno. Cada um faz o que acredita. Genuíno tem que ser o texto. Pra isso é legal saber o que está escrevendo. Claro que é mais difícil o cara fazer um conto sobre futebol de rua se ele nunca fudeu o joelho num baba no asfalto. As palavras acabam soando artificiais. Isso afeta a qualidade do texto. Mas um autor pode descrever bem uma mãe dando à luz sozinha num quarto escuro, se conheceu de perto e aprendeu alguma coisa sobre medos, dores e angústias das mulheres. Não sei se é questão de aliar o texto ao que vivemos. Mas talvez de usar o que vivemos como recurso. Sobre os que subestimam a autoficção, prefiro subestimar as histórias mal contadas.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – “Sexy Ugly” tem uma narrativa de forte apelo imagético, além de apresentar diálogos muito bem construídos e que prendem a atenção do leitor. São dois elementos constituintes, por exemplo, do cinema. Como é que você percebe essa aproximação?

PAULO BONO – O lance é que até os 20 anos li muito pouco. Minhas primeiras referências vieram do cinema. E antes de pegar em literatura eu já era roteirista de audiovisual. Não sei se isso é bom ou ruim, mas acho que qualquer coisa que eu escreva vai levar certa dose imagética. Apesar de serem linguagens bem diferentes, a depender do gênero, acredito que alguns recursos transitam bem entre a tela e a página. É o caso do universo noir do “Sexy Ugly”. O  noir que levou o Dashiell Hammett pro cinema e equilibrou o Raymond Chandler entre livros e roteiros. Eu queria aquela estética na descrição das cenas, queria aquele ritmo tão específico e queria os diálogos rápidos e cínicos. Os diálogos do Sexy foram minha zona de segurança e meu parque de diversões. Ainda quero um dia ser dialoguista de filmes.

DA – “Sexy Ugly” tem, de fato, uma agilidade narrativa, um modo muito peculiar de contar a história, que muito se aproxima com a instantaneidade da própria vida contemporânea. Nestes tempos de excesso de informações, mídias sociais e tudo o mais, comunicar algo através da literatura é um desafio?

PAULO BONO – Em tempos de radicalismos, dificuldades de interpretação, quando tudo é tudo, e opinião é verdade, eu diria que é um puta desafio. Hoje, por exemplo, é difícil escrever um personagem escroto, machista, mesquinho e com pensamentos assassinos sem aparecer alguém pra achar que aquilo é seu ponto de vista. E se colocam isso nas redes, fudeu, vira a verdade. Tem autor que hoje escreve segurando dicionário, bíblia e constituição. O tempo todo julgando previamente seus personagens para não ser ele o condenado. Acho que o perigo está aí. Quando o autor, para ser aceito e por medo de ser mal interpretado, acaba matando a própria arte. Não deixa de ser também um suicídio. Não sei, é difícil. Ritmo, linguagem, estrutura, construção de personagens. As ferramentas estão aí pra vencer esse desafio. Não vai sair legal algumas vezes. Se a comunicação falha até num “bom dia” de elevador, imagina na literatura. Só não pode desistir.

 

DA – Longe de recursos panfletários, como é que os escritores podem se posicionar diante desse estado de coisas em que vivemos?

PAULO BONO – É complicado dizer como cada um deve se posicionar. Já temos muitos heróis, juízes e vigilantes por aí. Escritor patrulhando escritor é foda. Acho assim, acredita numa bandeira? Vai lá, parceiro. Acha que tal caminho é o melhor pra sua escrita? Jogue duro. Quer escrever tal coisa pra ficar bem na fita? Vale também. Mas faça bem feito, conte uma boa história. Só não venha explanar uma cartilha de posturas. Não venha me dizer que eu deveria colocar uma gravata borboleta no meu texto. Isso complica ainda mais esse estado em que vivemos. Acho que é isso. Fazer o que acredita e deixar o outro em paz.

 

DA – O bom mocismo é um desserviço à Literatura?

PAULO BONO – Para mim desserviço são as regrinhas implícitas, os manuais de bom comportamento da escrita, como se a boa literatura fosse produzida de itens de editais. Não é questão de bom mocismo. Existem milhares de livros sensacionais com histórias transformadoras, personagens grandiosos, mensagens bonitas e temas ligados a causas importantes. Problema é elevar esse bom mocismo ao patamar de pedra fundamental deixando a literatura em segundo plano. Não curto muito esse papo de livro necessário. Necessário é contar bem uma boa história.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – Como é que você avalia o papel das editoras independentes na cena literária brasileira atual?

PAULO BONO – Se fosse no futebol, acho que a editora independente seria como um jogador da lateral. Precisa defender lá atrás sua sobrevivência todos os dias e ainda ter fôlego e agilidade pra chegar na linha de fundo e cruzar bem a bola para os autores tentarem marcar um golzinho. Tudo isso jogando contra uma seleção de impostos, altos custos, comissões extorsivas das livrarias, falta de incentivos e um estádio lotado torcendo contra. Porque estamos falando de um país que não lê. Quando você trabalha com uma editora pequena, claro que terá dificuldades em distribuição, por exemplo. Mas autor e editor independente jogam no mesmo time. Se jogarem limpo com diálogo e honestidade, já é uma boa parceria.

 

DA – Somos um país de leitores subestimados?

PAULO BONO – Acho que o último dado que saiu foi que brasileiro lê menos que dois livros por ano. Eu conheço muita gente que afirma com certo orgulho que não gosta de ler. Filmes com legenda? Esquece. Por aqui só se lê manchetes, memes e textos de WhatsApp quando convém. E duvide da interpretação correta dos mesmos. Se somos um país de leitores subestimados? Acho que nem leitores somos. Adoraria que alguém argumentasse o contrário e mostrasse que sou apenas um pessimista falando bobagem.

 

DA – Agora estamos vivendo um período nefasto de pandemia mundial, fato talvez imaginável apenas nos livros de ficção. De que modo você observa esse momento que estamos testemunhando? Estamos em xeque sob vários aspectos?

PAULO BONO – Claro que estamos em xeque. Estou no maior cagaço. Tenho conversado com muitos amigos e todos eles também estão com muito medo. Medo do vírus, medo da morte de pessoas queridas, medo do futuro. Ninguém sabe ao certo o que está por vir. Só não acredito que sairemos dessa pessoas melhores. Existe aí uma pandemia paralela de gente egoísta, mesquinha, exploradora, hipócrita, ignorante, oportunista e cheia de ódio que piora tudo. Com ou sem diminuição de curva, essas pessoas não vão mudar. Pra não achar que sou apenas pessimismo, acho que salvar o dia de hoje já ajuda. Leiam um livro, assistam a séries, escrevam, brinquem com seus filhos, façam suas lives, faça um bolo, ligue prum amigo, ouçam música, durmam até mais tarde. É normal despirocar de vez em quando. Mas não adianta muito pensar no futuro agora. É salvar o dia de hoje.

 

DA – Esse presente perturbador tem te desafiado a desenvolver algo específico em relação à literatura?

PAULO BONO – Não costumo escrever sobre algo recente. As coisas ficam muito embaralhadas, uma mistura de impressões. Não consigo focar em nada. Até porque sempre tento trabalhar com o humor, mas agora não está rolando. Tenho escrito algumas coisas nas redes, mas são apenas arrotos do cotidiano dessa loucura. Talvez no futuro apareça alguma história sobre um gordo apaixonado por uma prostituta em meio a uma pandemia mortal. Mas os planos para o futuro estão temporariamente fechados.

 

DA – Afinal, por que escrever?

PAULO BONO – Acho que não tenho um motivo nobre. Não escrevo para transformar as pessoas, contribuir pra uma sociedade melhor, defender causas ou despertar reflexões. Só sei que na primeira vez que consegui escrever um conto, acho que isso tem uns 18 anos, eu me senti muito bem. Estava na pior, sem grana e sem muitas perspectivas. Mas pensar na história, no que dizer e labutar aquilo no computador fazia eu me sentir vivo. Até hoje é assim. Pode estar tudo certo, pagando as contas, todos com saúde, mas se eu não estiver com um projeto ou texto engatilhado ou dialogando com um personagem, fico mal humorado, criando problema em casa e me sentindo a pior das criaturas. Então é isso. Escrevo pra salvar minha cabeça e não ser um pé no saco.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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123ª Leva - 01/2018 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Paulo Bono

 

Desenho: Raquel Piantino

 

A puta de 50

 

Era uma cidade no meio do mato. Um desses fins de mundo onde você não encontra outdoors, flanelinhas, engarrafamentos, nem o M da McDonald’s. Lugares assim a solidão chega antes da novela das oito. Então perguntei ao vendedor de algodão-doce. Ele me garantiu a localização exata do puteiro.

Eles chamavam o lugar de Castelinho. De um lado, uma borracharia. Do outro, apenas mato e uma cerca torta. Nenhuma lâmpada acesa do lado de fora. Mas era possível escutar alguma música tocando fogo lá dentro. Havia esse tipo com boné sentado numa bicicleta. Apoiava-se entre uma Kombi e o portão de entrada.

– E aí, campeão – eu disse – as meninas estão no serviço?

– Estão. Você é de Salvador?

– Sou. Desculpa qualquer coisa.

– Quer ovo?

– Devagar, que história é essa de ovo?

– 7 reais, a dúzia. Galinha de quintal.

– Parece bom. Mas hoje só quero uma xotinha caipira.

– Mas se quiser ovo, meu nome é Zé da Monark.

– Tudo bem, Zé.

O cheiro de buceta parecia grudado nas paredes do Castelinho. Havia pouquíssima luz, mas achei uma mesa no canto. Do outro lado, um grupo apostava a vida e a morte numa mesa de sinuca. Incrível como esses caras do interior manjam de sinuca. De sinuca e de fazer cálculos rápidos. Havia também um pequeno salão onde dois casais dançavam uma versão brega de One, do U2. Apesar da música, eu escutava o choro de uma criança chegando de algum lugar daquele inferno. Claro, havia também as mulheres. Putas feias e mal vestidas. Sentadas no colo da rapaziada, bebericavam cerveja, riam das desgraças. Já que eu estava por ali, pensei em procurar a dona do Castelinho. Sempre achei que trepar com a dona de um brega era como chegar à fase final e encarar o chefão de um videogame. Então esse sujeito se aproximou. Alto, branco, pele avermelhada, quase careca. Parecia muito puto com a vida que Deus lhe reservou. Não sei dizer se era canhoto, mas não tinha o braço direito.

– O QUE VAI QUERER? – disse.

– Me diz uma coisa. O estabelecimento tem um proprietário ou uma proprietária?

– MINHA MÃE.

– Ah…

– O QUE VAI QUERER?

– Vodka.

– SÓ TEM CACHAÇA.

– Serve.

– MAIS ALGUMA COISA?

– Desculpa perguntar, mas sua mãe parece com você?

– PARECE. MAS O NARIZ É DE MEU PAI.

– Então me vê só a cachaça.

Logo o herdeiro do castelo trouxe meu copinho.

– Cara, acho que tem alguma criança chorando por aí – eu disse.

– É MEU FILHO.

– Então tá em casa…

– MAIS ALGUMA COISA?

– Tudo certo, chefe.

Lá se foi o paizão. Dei o primeiro trago e fiquei ali tentando lembrar como a vida me trouxe até aquela mesa. A minha falta de adequação. A falta de grana. As escolhas erradas. Os anos que passavam. A vida encolhendo e se escondendo no meio do mato. Então dei mais um trago e notei aquela puta sentada no fim do balcão. Ao contrário das outras, estava só. Não bebia, não ria. Só estava ali, no escuro. Esquecida. Essa mania de me identificar com os desprezados me fez levantar e me aproximar do balcão. Morena. Cabelos longos. Um pouco magra além do ponto. Mas a novela já havia acabado faz tempo e eu estava subindo pelas paredes.

– Qual o seu nome?

– Arlene.

– Por que está sozinha, Arlene?

– Não gosto das pessoas.

– Inteligente da sua parte.

– Você também não tem amigos?

– Só um. Zé da Monark.

– 50.

– O quê?

– Chupo, dou o xibiu, faço ver estrela.

– É tudo que preciso, Arlene.

Arlene me puxou pela mão e me levou por um corredor sem fim, onde você só escutava as putas se divertindo e o choro estridente do bruguelo. O quarto era escuro. Só uma cama e uma cortina na janela. Arlene sentou e começou a chupar. Pedi um tempo. Corri pra janela, mas vomitei na cortina. De repente, a criança parou de chorar. Respirei um pouco o ar gelado e aquilo me fez bem. Então bateram na porta. Bateram forte. Abri e era o Canhota. Com um só braço, o escroto fazia um barulho desgraçado.

– Vai me dizer que Arlene é sua irmã? – eu disse.

– TERMINOU?

– Como assim?

– TEM MAIS GENTE QUERENDO O QUARTO.

– Você que manda, canhota.

– ANDA LOGO. E NADA DE BATER NA MOÇA.

Voltei pra Arlene. Mandei ficar de quatro, botei a camisinha e enfiei. Quer dizer, acho que enfiei. Ou meti no meio das pernas, não sei, talvez minha ferramenta não fosse compatível, só sei que eu não sentia as paredes. Veio a suadeira. E o suor ardia nos olhos. Foi uma luta, uma caçada, a batalha do século, vi estrelas e cometas, mas consegui terminar. Então Arlene se levantou, acendeu a luz, se vestiu e ajeitou o cabelo. Foi quando peguei um lance estranho. Parecia que Arlene não tinha um olho. Ou era um olho de vidro. Ou era uma mancha branca. Deixei soltar um “puta que pariu!”.

– Algum problema? – disse.

– Ham?

– É meu olho?

– Que olho?

– Se incomodou com meu olho?

– O que tem seu olho?

– VOCÊ JÁ SE OLHOU NO ESPELHO?

– Não tem nada demais no seu olho.

– VOCÊ TAMBÉM É FEIO!

– Arlene…

– VOCÊ É MAIS FEIO QUE DOR NO RIM!

– Calma, Arlene. Vai acordar a criança.

– VOCÊ É FEIO COMO A DOR DA MORTE!

– A gente não precisa disso, Arlene. Vamos ficar numa boa. Olha, vou te dar 100. Você é linda, Arlene. Você é linda.

Arlene sorriu na mesma hora que escutamos o bracinho pesado do Canhota. Então fizemos as pazes. Depois tomei mais um trago e deixei o Castelinho. No caminho de volta, enquanto respirava aquele ar gelado, comecei a imaginar. Eu podia abandonar tudo, morar naquela cidade perdida, casar com Arlene, montar uma mercearia bacana. Esquecer a cidade que me esquecia. Uma vida sem fila pra entrar em elevadores. Pensamentos que se perderam com os latidos de uma suruba de vira-latas. Eu precisava descansar. O ônibus saía às seis. Acertei relógio pra 5h45. A rodoviária ficava bem ali ao lado da pousada de portão amarelo.

 

Paulo Bono nasceu e cresceu nas ruas da Lapinha, em Salvador. É flamenguista, publicitário, escritor e roteirista. Publicou Espalitando (Cousa, 2013, Contos e crônicas), participou da coletânea Casa de Orates (Mondrongo, 2016, Contos) e escreveu O Garoto (Saturno Filmes, 2014, 14 min.).

 

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91ª Leva - 05/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Arte: Marcantonio

 

Com o tempo, fica a marcante impressão de que as coisas precisam seguir um curso natural, sem a geração de expectativas demasiadamente projetadas. Vontades existem, isso é fato inegável, mas o bom mesmo é fazer delas uma peça favorável à instigante engrenagem das descobertas até mesmo involuntárias. Em que medida a palavra resistência pode representar o principal mote dos caminhos que norteiam a Diversos Afins? De modo especial, o convívio e, por conseguinte, o aprendizado estabelecido com as pessoas que se aproximam de nosso projeto à frente da revista torna a trajetória um tanto mais serena. A busca pela qualidade é uma meta editorial que não sofre os efeitos de regramentos limitadores da criação. Entendemos que critérios pautados no bom senso, razoabilidade e, sobretudo, sensibilidade são definitivamente aspectos fundamentais em nossa jornada de pesquisa e seleção de materiais publicáveis. E é sempre bom frisar que, nesse ponto, o apego a verdades universais nada contribui para que novos diálogos se consolidem. Então, é preciso rechaçar a imutabilidade do pensamento, principalmente quando ela impede que o entendimento sobre os fenômenos que nos cercam possa se efetivar. Talvez aqui o termo resistência possa ser empregado, tendo em vista a importância de combatermos a mediocridade do pensamento. Sem dúvida alguma, o grande lado benéfico dessa reflexão é sustentar a amplitude da busca pela diversidade sem perdermos os referenciais indispensáveis a uma adequada análise e difusão dos conteúdos. O comprometimento maior que se opera a cada nova publicação está na perspectiva de estreitar laços entre criadores e o público almejado. A partir do momento em que uma obra se lança ao mundo, já não é mais a mesma, pois seus leitores e apreciadores, com suas esferas interpretativas próprias e quiçá singulares, conferem a ela um status de renovação sem a perda do seu ímpeto originário. Nesse exercício permanente e dinâmico de aglutinações, traçamos percursos dotados de certa autonomia quando, por exemplo, contemplamos e também internalizamos as sensações tidas a partir da expressão de Marcantonio, artista que expõe entre nós a espinha dorsal de sua epifania mundana. Compartilhando também desse sentimento libertário, apreendemos as vivências poéticas de gente como Juliana Krapp, Dheyne de Souza, Zeh Gustavo, Madjer de Souza Pontes, Winston Morales Chavarro e Pedro Du Bois. Na entrevista com a escritora Helena Terra, os densos caminhos da palavra atravessam a vida de uma autora que veio fazer morada entre nós. Na seara da música, o mais recente disco dos pernambucanos da Nação Zumbi vira alvo dos apontamentos de Larissa Mendes. Os diferentes modos de usar a vida enredam os contos de Paulo Bono, Thays Berbe e Mariza Lourenço. O mais novo livro do poeta Zeh Gustavo é tema das precisas observações de Leonardo D’Avila. No caderno de cinema, todas as atenções estão voltadas para o intenso Tatuagem, filme dirigido por Hilton Lacerda. O espírito reinante na Leva que agora surge rende homenagens ao saudoso escritor e parceiro Nilto Maciel, autor que dedicou imensa parte de sua vida à sua cumplicidade com as palavras. Com ele, aprendemos, dentre outras coisas, a cultivar a continuidade dos caminhos editoriais. Assim, fundamos mais uma especial edição.

Os Leveiros

 

 

Categorias
91ª Leva - 05/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Paulo Bono

 

Arte: Marcantonio

 

Jaca, os peitinhos e a galinha

 

Noite fria. Eu esperava na padaria da esquina. Olhei as horas. Precisava de um cigarro. Se pelo menos eu fumasse. Passavam das dez quando Jaca apareceu. Entrei no carro.

– E a cachaça? – Jaca disse.
– Tá aqui – eu disse.
– Tranquilo, então. Eu trouxe a galinha.
– Que galinha?
– Roque da Lua foi claro. Uma garrafa de cachaça e uma galinha.
– Porra, acho melhor deixar a galinha de fora.
– E o bode?
– Que bode, caralho?
– O bode que enterram em seu quintal?
– Ok. Cadê a galinha?
– Na mala.
– Na mala?
– Lavei o carro hoje.
– A porra vai morrer sufocada.
– Fique tranquilo. A galinha tá na dela.

Jaca era um amigo dos tempos de escola. Daqueles meninões idiotas que levavam a culpa de tudo. Seu apelido naquele tempo era peitchola, por causa dos seus peitos grandes e pontudos. Ficava puto. Hoje trabalha como segurança de loja. Acontece que eu andava numa fase daquelas. Havia deixado a velha agência, e Regina era coisa do passado. Para os diretores de criação, eu não tinha o menor talento. As mulheres pensavam a mesma coisa. Nada dava certo. Sem dinheiro, sem trabalho, só na punheta. Então eu estava por aí, na merda, quando encontrei Jaca. Contei minha situação. Jaca teimou que aquilo devia ser praga de Regina. Macumba, essas coisas. E disse que esse tal Roque da Lua podia me ajudar.

Quando chegamos, convenci Jaca a pegar leve com a galinha. Primeiro, daríamos uma conferida no terreno. E se fosse necessário, pegaríamos o animal. Parecia um lugar agradável. Só aquele som de tambores que arrepiava os cabelos mais crespos do meu ovo. Havia essa figura no portão de entrada. Negro, alto, jovem. Não sei o que esperava da vida, mas segurava uma vela com as duas mãos.

– Boa noite – disse Jaca – o Roque da Lua está?

O garoto não respondeu. Só olhava para frente. Reto. Ele e a porra da sua vela. Parecia um rapaz determinado. Pelo menos a não dar as boas vindas a Jaca.

– Boa noite, amigo – Jaca insistiu – Eu marquei com Roque da Lua.

Nenhuma resposta. Somente o som dos malditos tambores.

– Esse merda não vai falar nada – eu disse.
– Será que é doente?
– Quero que ele se foda.
– Ô maluco! Tá me ouvindo? EU QUERIA FALAR COM ROQUE DA LUA!
– Vamos sair daqui, caralho!
– Tô quase metendo a porra nesse moleque.
– Cuidado, esses caras manjam de capoeira.

Então surge do nada esse baixinho todo de branco segurando a porra de um cacho de bananas. Pelo jeito que rebolava, eu não tinha mesmo certeza por onde ele ia ingerir aquelas bananas.

– Jaquinha! – disse o mestre das bananas – chegou bem na hora.
– Seu Roque – disse Jaca – o garoto aqui não queria colaborar.
– Ah, esse é Tico-Tico. Tico-Tico tá de castigo. Pra aprender a se comportar.
– Esse é Paulo – disse Jaca – o amigo que lhe falei.
– Ah, o que tá desempregado e não consegue trepar.
– É, tô no cu da cobra – eu disse.
– Vem, vamos entrar, vamos entrar. Tico-Tico, você se comporte.
– Aguente firme, Tico-Tico – eu disse.

Lá dentro, havia esse pátio de terra. Cercado de uma varanda com portas e de algumas árvores. Havia também essa roda de gente. Vestidos de branco. Aquela batucada. “Cadê Roque da Lua?” – Jaca perguntou. O danadinho das bananas desapareceu do nada. Então ficamos por ali como dois imbecis. Volta e meia alguém pulava no meio da roda e arriscava alguns passinhos. Até que veio essa morena. Começou a sambar. Nova, pele escura e os dentes mais brancos da noite. Seu corpo? Bem, digamos que eu saberia o que fazer com seu corpinho num quarto escuro. A moleca dançava. Girava. Levantava a saia, ia até o chão, revelava as pernas e, por milésimos de segundo, sua calcinha. Não é por nada não, mas eu já estava de pau duro.

– Será que ela toca berimbau? – perguntei a Jaca.
– Ham?
– Tá sentindo o quê, porra?
– Calor da porra!

Então aumentaram a batucada e a morena enlouqueceu. Começou a revirar os olhos e a retorcer o corpo. Em um desses solavancos, seus peitinhos saltaram da blusa. Como se gritassem por liberdade e quisessem participar da festa. Eram peitinhos firmes, santos e loucos. Eu pensava, por que essas porras parecem mais gostosas quando estão dando santo? Aliás, o santo devia saber que havia um gordo por perto que estava doido pra cair de boca naqueles peitinhos. Eu estava em pânico. Tentava não pensar em sacanagem. Mas só conseguia pensar naquela xoxota em chamas. Nessa hora, algum escroto que gosta de ver o circo pegar fogo soltou uma galinha no meio da roda. Vou dizer uma coisa. Nunca havia visto nada mais inocente do que aquela galinha. Querendo aparecer. Caminhando para o meio da putaria. Balançando a cabeça. No ritmo dos tambores. Pelos olhinhos, estava drogada. Parecia sorrir. Quando a morena a pegou pelo pescoço e ZAP! Passou a faca no animal.

– Puta que pariu – eu disse a Jaca – esquece a galinha.
– O quê?
– Porra, você tá suando pra caralho.
– É o calor, porra.

Adivinhe quem apareceu do nada. Sim, ele mesmo. Roque da Lua. Dessa vez, sem as bananas. Mas com um charuto que não tinha mais tamanho. Dançando, se remexendo e dizendo coisas que eu não conseguia entender.

– O que é que esse porra tá falando? – perguntei a Jaca.
– Não sei. Entendi, não sei o quê Paca Capim, Paca Capim, Paca Capim…
– Jaca, você tá branco.
– Dor de cabeça…
– Porra, será que você tá dando santo?
– Eu tô tranquilo…

Enquanto isso a roda pegava fogo. A morena, os peitinhos e Roque da Lua. A galinha perdeu o melhor da festa, fazer o quê? E do nada, Roque da Lua largou o charuto e começou a dar saltos. Grandes saltos. Saltava e girava rapidamente para todos os lados, fazendo o Mestre Yoda em ação parecer uma velha tartaruga manca. Roque da Lua pulava sobre as pessoas na roda, dizendo coisas e dando gargalhadas. De repente, esse merda veio em minha direção, com os olhos ardentes. Pensei, fudeu. Só deu tempo de pensar isso mesmo, porque logo depois Roque da Lua me empurrou para o lado, apertou os peitos de Jaca e berrou com uma voz fininha “PEITCHOLA! PEITCHOLA! PEITCHOLA!”. Jaca tentou se defender empurrando Roque da Lua, que saltou para trás, dando um desses golpes de capoeira e raspando o pé no queixo do meu amigo.

Três minutos depois, Roque da Lua seguia seu show, enquanto Jaca e eu nos despedíamos de Tico-Tico e entrávamos no carro.

– FOI VOCÊ QUE DISSE! – Jaca berrava
– Vai tomar no cu, Jaca!
– FOI VOCÊ QUE DISSE!
– Como é que eu ia dizer alguma coisa? Eu nem conhecia aquele viado. Você que me trouxe aqui, porra!
– E como é que ele sabia desse negócio de peitchola?
– Sei lá, esses caras sabem tudo da nossa vida.
– Ele me pegou desprevenido.
– Mas você viu aqueles peitinhos?
– Jesus é mais forte!

Bem, o que resta contar é que passei um bom tempo ainda sem trabalho e sem mulher. Que Jaca segue sua vida como Segurança. E que a galinha na mala do carro sobreviveu.

Paulo Bono é baiano e nasceu na Lapinha, tradicional bairro do centro antigo de Salvador. Formou-se em relações públicas, é pós-graduado como roteirista, trabalha como redator publicitário e escreveu o blog de contos e crônicas Espalitando Dente durante 6 anos. Em 2013, lançou o livro de contos Espalitando (Editora Cousa).