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154ª Leva - 02/2024 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Fragmentos do indizível

Por Vivian Pizzinga

 

Foto: Carolina Spork

 

Há uma carta lacrada por anos. Podemos, da plateia, desconfiar de que ela tem certa função de despedida. Certamente, traz um mistério, indica um amor e talvez carregue respostas a perguntas difíceis de enunciar. O destinatário é um homem que não teve oportunidade de aprender a ler. Que é capaz de, por muito tempo, guardá-la como um dos documentos mais preciosos e imantados de sua vida, sem saber o que diz. Raimundo, nascido no sertão nordestino e trabalhando na roça desde muito novo, é o homem que recebe a carta, mas precisa aprender a ler para desvendá-la e, para tal, precisa antes vencer a vergonha de se colocar numa sala de aula como alguém que não conhece as letras. Há outros desafios que o protagonista dessa emocionante narrativa terá de enfrentar: ele precisará fugir de casa e de uma história de violência familiar para sobreviver física e emocionalmente, e terá de se colocar em outras cenas e cenários para viver e encontrar-se, para acudir a si mesmo de si mesmo e dos fantasmas que o acompanham e, então, quem sabe, ter coragem de abrir a carta, tão íntima e tão enigmática, conservada por décadas fechada. O remetente dessa carta é Cícero.

Podemos eleger a carta de que falamos como um dos fios condutores da belíssima (e também brutal) história de A palavra que resta, peça adaptada e dirigida por Daniel Herz e que nos oferece uma versão dramatúrgica do premiado livro homônimo do escritor cearense Stênio Gardel, cuja obra foi laureada com o National Book Awards na categoria literatura traduzida, sendo o autor o primeiro brasileiro a receber o prêmio estadunidense. Quando tive a oportunidade de assistir à peça, quando esteve em cartaz no Rio de Janeiro no mês de outubro, eu não havia lido o livro, mas adivinho agora que não há surpresa em saber que angariou um prêmio literário dessa monta, dado que a qualidade poética do texto do espetáculo adaptado é um dos grandes elementos da montagem, que faz jus ao título, dando destaque ao lugar da palavra. O romance de Gardel foi ainda um dos dez finalistas do 64º Prêmio Jabuti, em 2022, na categoria romance literário.

 

Foto: Carolina Spork

 

Por outro lado, a peça, cuja realização é da Cia Atores de Laura (comemorando 32 anos de existência, aliás), traz uma dinâmica cênica muito própria e instigante, em que os atores e as atrizes circulam e se dividem pelos mesmos personagens, usando uma vestimenta base, no figurino assinado por Wanderley Gomes. Essa dinâmica fractal repercutiu em mim de modo a ampliar a dimensão dos personagens (em especial, Raimundo), evocando também a noção de que somos mesmo uma multiplicidade, de que, em cada ação e cada gesto nossos, há muitos e muitas dentro de nós, quiçá bem coreografados, mas nem sempre bem adaptados à realidade que nos cerca e que pode exigir-nos umas quantas coisas que, com alguma frequência, não poderemos satisfazer, e uns tantos papéis que tampouco lograremos êxito em preencher. Em cada atitude que expressamos há diversos flancos viáveis e inviabilizados, alguns escancarados, embora nem sempre iluminados e visíveis a olho nu e pé descalço. É dessa forma que, no palco, Ana Paula Secco, Charles Fricks, Leandro Castilho, Paulo Hamilton, Valéria Barcellos e Verônica Reis assumem as vozes e as dores de Raimundo, Cícero e alguns dos outros personagens, em um drama familiar e pessoal de silenciamento, renúncias e, sim, alguma redenção.

É na juventude que Raimundo, nosso personagem, descobre seu amor por Cícero, e será em meio à rotina de trabalho na roça que, juntos, descobrirão a aventura do sexo e as consequências de não se furtarem aos seus desejos. Afinal, já nos sinalizavam Freud e os teóricos e as teóricas da psicanálise que se furtar ao desejo exige uma solução de compromisso dolorosa, traduzida em sintomas corporais e psíquicos, bem como em vida decepada e literalmente paralisada. O interdito da homossexualidade, porém, é um elemento que atravessa, de modo certeiro, o drama familiar de Raimundo, e os segredos e os não-ditos transgeracionais darão lugar a uma dura condenação do protagonista, após a descoberta desse enlace amoroso que o olhar do outro não admite e não suporta. Assim, acompanharemos a jornada de Raimundo, que tem de fugir para longe de sua cidade e das pessoas que ama. Mas somos mesmo muitos e muitas por trás de nossos posicionamentos superficialmente coerentes e, desse modo, as contradições de Raimundo também irão aparecer ao longo de sua vida na cidade, especialmente quando conhece a mulher trans Susany, vivida pela atriz convidada Valéria Barcellos, e também por Verônica Reis e Ana Paula Secco. Susany é um personagem imerso em vivências de violência e de quem, aos poucos, nosso protagonista se tornará amigo.

 

Foto: Carolina Spork

 

É preciso dizer que o espetáculo A palavra que resta cumpriu belíssima temporada carioca e merece outras mais, aqui e em outras cidades, porque nós merecemos mais e porque precisamos continuar falando e refletindo, poética e dramaturgicamente, sobre a temática encenada no palco: se a peça nos apresenta poesia e coragem, se menciona vergonha e sua contraparte, a exposição de si, é porque não hesita em pensar linguagens e imagens que trabalham, com primor, preconceitos, conservadorismo, homofobia, rejeição. É porque traz à tona possíveis caminhos de resistência e insistência. As atrizes e os atores da Cia Atores de Laura, claramente mergulhados na experiência literária que se origina em Stênio Gardel, conseguem sustentar o texto nos emocionando e também, em alguns momentos, nos fazendo rir, com as tiradas e reações cheias de ingenuidade e aparente espontaneidade dos personagens nas cenas que evocam o percurso trágico de uma vida e de uma família. E o espetáculo, por fim, tem o dom de despertar a curiosidade para a leitura do livro. Entretanto, infelizmente, ainda não é demais repetir que a violência física, psicológica e simbólica à população lgbtqia+, assim como a mulheres, pretos e pobres (lista que não esgota a lista), é um clichê em nosso país, e a abordagem dramatúrgica do assunto, ainda que não tenha como finalidade a pedagogia moral, mas sim a expressão artística, acaba por se fazer necessária, neste nosso país que tem tomado um gosto enorme por retrocessos. Espero ainda o momento em que não será preciso sublinhar, em nenhum texto sobre teatro, literatura ou cinema, a atualidade do tema, dadas as circunstâncias culturais em que vivemos. Que possamos apenas mencionar o deleite estético que uma excelente encenação, a partir de um texto literário de ampla e reconhecida qualidade, desperta em nós. Que possamos nos concentrar naquilo que um espetáculo teatral nos faz refletir sobre tantos outros aspectos pessoais e existenciais de nossas vidas. Espero ainda o momento em que escrever sobre A palavra que resta e outros espetáculos por vir possa escolher falar de violência e homofobia apontando-os como um evento histórico triste finalmente superado, passagem desbotada da história, como nos canta a música. Mas ainda não chegou o momento. Enquanto isso, podemos ocupar os teatros para elaborar, psíquica e coletivamente, por vias artísticas, nossos traumas individuais e coletivos e, por que não?, conferir beleza poética às histórias que nos constituem.

 

Vivian Pizzinga é psicóloga e escreve. Lançou, entre outros, “Ruído nos dentes” (Urutau, 2022, poemas) e “A primavera entra pelos pés” (Oito e meio, 2015, contos). Participou de coletâneas e revistas literárias, como da Revista Lavoura 7 (2022,impressa), Escriptonita (Patuá, 2016) e Cada um por si e Deus contra todos (Tinta negra, 2016, contos). Fez doutorado em Saúde Coletiva, no Instituto de Medicina Social (Uerj), é carioca e prefere o outono.

 

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150ª Leva - 05/2022 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Mostra a tua cara: o acerto de contas na peça Realpolitik

 Por Vivian Pizzinga

 

Cena de Realpolitik / Foto: divulgação

 

Pedro Osório e Oscar Calixto estrearam, em 9 de setembro de 2022, o espetáculo “Realpolitik”. O texto inédito é da premiada autora Daniela Pereira de Carvalho. A acertada direção é assinada por Marcello Gonçalves. A peça, apresentada em lugar inusitado, ficou em cartaz até 30 de outubro, e 30 de outubro de 2022 é 30 de outubro de 2022, mais autoexplicativa essa frase não pode ser. Assisti à peça nas vésperas do primeiro turno das eleições, é disso que se trata. Havia uma grande confusão nos gps dos táxis da cidade, pelo menos 4 deles, segundo informações colhidas, indicavam o endereço errado. Isso ocorreu não só comigo, na ida e na volta, como também com outras pessoas que, ao final, comentaram esses contratempos, na calçada em frente ao prédio da peça, na Presidente Vargas. Parece besteira, mas tudo isso faz parte daquilo que chamei de “rolê da peça”. Mas calma. Vamos aos poucos pra que a gente possa entender a importância do espetáculo, algumas de suas peculiares características e o excelente programa, pra quem gosta de dramaturgia, que Realpolitik certamente é.

Apontando o básico do enredo, sem dar spoiler, a trama diz respeito a um acerto de contas. Há um CEO que é o responsável pelo rompimento de uma barragem e pelas consequentes mortes de 150 pessoas (aquelas de que se tem notícia, pois em um acidente, qualquer acidente, nunca podemos afirmar o número de mortes com certeza, haja vista Chernobyl), sem contar todos os outros problemas que um tal acidente acarreta: problemas de ecossistema, de economia local, problemas sociais, enumerar é cansativo e gera tristeza. O jornalista que vai atrás do CEO adentra o escritório do ricaço, num prédio enorme de um centro comercial, e aí já começamos por uma característica interessante da peça: a produção se dá, ela também, em um prédio comercial que fica na esquina da avenida Presidente Vargas com a avenida Rio Branco, o principal entroncamento comercial do Rio, um ponto de muvuca, barulhos e fumaça que todo carioca depois de certa idade teve de enfrentar. Reproduz-se no real espaço onde se dá o espetáculo aquilo que é contexto e cenário do enredo. Fugindo, portanto, aos espaços cênicos tradicionais, assistimos à peça no 14º andar desse prédio, após subirmos elevadores espaçosos como não é tão costumeiro ver, mesmo em prédios como esse no centro do Rio. Lá de cima, enquanto aguardamos, podemos ver uma parte da confusão do centro se nos aproximarmos da janela: lá embaixo, desenrola-se um naco da confusa Rua Miguel Couto. Há também a exposição do artista plástico Victoriano Resende, por outro lado, que ocupa o espaço com uma exposição aberta ao público e que resultou numa intervenção no cenário da própria peça.

Outra curiosidade é que a peça, segundo Pedro Osório, foi escrita no decorrer da pandemia de Covid-19, essa que ainda não acabou de todo, e a ideia, segundo o ator, foi pensar “em como, após as grandes tragédias, os responsáveis pelas empresas tinham que lidar com as questões humanas, éticas, morais e financeiras”. Desse modo, é disso que se trata o acerto de contos em torno do qual o enredo gira, isto é, a peça que é um thriller, com seus momentos de tensão, de surpresa, de susto, com seus outros momentos de virada e de humor. Sempre algum humor é possível, nem que seja o escárnio comedido de si mesmo, no meio da dureza da vida e das histórias.

Todas as características mencionadas são uma maneira que reúne a oportunidade de que o público possa ter uma experiência além do teatro. Mas, em termos de teatro, naquilo que concerne ao tratamento dramatúrgico conferido à trama, estamos muito bem: Oscar Calixto e Pedro Osório estão ótimos, em preciosa direção de Marcello Gonçalves. Se eu pudesse fazer um adendo, como alguém que entende mais de texto (bem mais, muito mais, imensamente mais) do que de teatro, talvez a fala de Pedro Osório possa contar com palavras menos caracterizadas por sua forma escrita e mais próximas do oral e do coloquial. Mas isso seria o mais simples de ajustar, se fizer sentido ajustar alguma coisa. Pois, naquilo que me parece mais difícil, ou seja, no que tange aos ritmos e aos silêncios, algo que acho às vezes mais raro de encontrar nas peças que tive a chance de assistir, Pedro e Oscar estão perfeitos. Não ficamos com a incômoda sensação (que pode gerar uma falta de fôlego quando estamos assistindo) de que há um desespero para falar todo o texto antes que ele seja esquecido (a sensação pode não corresponder à intenção da velocidade na fala, nem mesmo à realidade, mas é essa a sensação que às vezes tenho quando estou ouvindo os atores e as atrizes em suas verborragias textuais, não só no teatro como também em séries, em especial as estadunidenses). Todos nós falamos de forma atropelada e pausada, a depender da circunstância, todos nós intercalamos ritmos e convicções, a prosódia é movida a algum cadência e raras vezes se assemelha a uma metralhadora giratória; todos nós falhamos na dicção, cometemos lapsos, isso é vida e é sujeito e é inconsciente e é afetação. Que possa ser reproduzido nos diálogos dos personagens, é fundamental, e isso acontece muito bem entre Henrique e Rafael, a dupla que duela no 14º andar de um edifício comercial. Porque uma das coisas que às vezes cansa esta espectadora que vos escreve (falo por mim) é a fala cuspida duma só vez em várias ocasiões de um espetáculo de teatro. Outra coisa que acrescento é que, quando houver erros de fala, erros reais, de fala do texto, que isso possa ser manejado de maneira que nós, da plateia, percebamos bem pouco, coisa frequente entre músicos. O improviso é também o do erro, do que fazer com ele. Se é que há uma coisa chamada erro.

Finalmente, para falar da importância da peça, basta remontar ao enredo sem spoiler que dei no começo. O fato de falarmos de um CEO que pouco se importa com as mortes causadas e com os problemas de bioma que uma barragem e sua ruptura ocasionam, o fato de mencionarmos capitalismo, exploração da força de trabalho, de populações inteiras maltratadas, de responsabilização, o fato de tudo isso ser debatido, tematizado, explicitado, já nos acena para a importância da peça e do acerto de seu contexto, temporal e geográfico. Estivemos às vésperas de escolher o rumo do Brasil, estivemos no entreato. Ora bolas, Realpolitik fala disso, e o esforço, a luta, o embate visam a muito além de momentos eleitorais. O fascismo está em vias de capturar o Brasil como tem capturado a Itália. O que todas e todos nós, dentro de nossos interesses, capacidades, talentos e oportunidades, temos a fazer para impedir esse avanço? Realpolitik faz sua parte. Daniela Pereira de Carvalho, Oscar Calixto, Pedro Osório, e Marcello Gonçalves têm feito, no Rio de Janeiro, sua parte. E a têm feito lindamente, diga-se de passagem. E nós?

 

Vivian Pizzinga é escritora e psicanalista. Lançou “Ruído nos Dentes” (Urutau, 2022, poemas), “A primavera entra pelos pés” e “Dias roucos e vontades absurdas” (Oito e meio, 2015, 2013, contos), além do romance epistolar “Extravios” (Oito e meio, 2018) em co-autoria com Igor Dias. Tem doutorado em Saúde Coletiva, gosta de gatos e prefere o outono. 

 

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135ª Leva - 02/2020 Destaques Jogo de Cena

Jogo de Cena

O espetáculo ‘Pá de Cal’ e a inverossímil terceirização do luto

 Por Vivian Pizzinga

 

Foto: divulgação

 

O que devemos fazer quando não amamos, ou quando acontece de não termos êxito em nossa tentativa de amar pessoas que, supostamente, deveríamos amar? O que devemos fazer quando não conseguimos ter o devido afeto por familiares, seja pelo motivo que for? Como lidar com a culpa quando, enfim, nos escutamos e a percepção de que não amamos nosso filho, nossa mãe, nosso irmão é suficientemente audível (e talvez faça um barulho danado)? Podemos nos perguntar até: o que devemos fazer quando nossa tentativa fracassada gera repercussão, quando isso tem efeitos, quando o nosso desamor – mais ou menos exposto, mais ou menos visível – é notado? Indo além: e se acreditamos que a responsabilidade é nossa de amar o outro – mais do que do outro de nos amar ou de fazer de si um objeto digno de amor -, como lidar com a culpa diante da constatação? As indagações que dizem respeito a essa temática (junto a outras, como a própria morte e o suicídio) são tangenciadas pela peça Pá de Cal, do dramaturgo Jô Bilac e com direção de Paulo Verlings, que entrou em cartaz no Teatro II do CCBB-RJ e só pôde fazer duas apresentações devido às medidas contra a pandemia (a promessa seria voltar em 15 dias, mas talvez demore um pouco mais).

O espetáculo gira em torno de uma morte. Mais especificamente, um suicídio. Ele começa com reflexões diante de um espelho, aquele encontro íntimo conosco, através de nossa imagem, que muitas vezes evitamos. É ali e em contexto de tragédia pessoal que as mais urgentes questões existenciais são colocadas. É ali que repensamos e reavaliamos nossas escolhas, nossas limitações e os caminhos que fomos levados a tomar na vida. No caso de Pá de Cal, o pai do morto está diante de si mesmo no espelho, hesita em relação ao que fazer de si e ao que fazer da barba, ensaia um gesto e volta atrás, ensaia outro e interrompe, sente com a mão a textura do maxilar, um vaivém existencial ínfimo traduzida em diminutos movimentos.

Mas não é só o velório que está acontecendo. Não se trata apenas de uma despedida e do ponto zero de um processo de luto, o que já seria muito, mas de uma disputa judicial em relação à propriedade onde a história se desenrola. Nesse velório-disputa, de todos os familiares mais próximos, apenas o pai do personagem morto está presente, que o excelente Isaac Bernart encarna com grande sensibilidade, esse que havia titubeado diante do espelho na cena inicial. Outros familiares não estão lá, mas são representados por advogado, marido e etc. Há também uma ex-mulher, francesa, um pouco deslocada pela barreira da língua e da cultura. Na pele desses personagens estão Carolina Pismel, Orlando Caldeira, Pedro Henrique França e Ruth Mariana, além de Isaac.

A morte em questão evoca segredos familiares e histórias mal contadas, trazendo à tona silêncios alimentados há muito tempo, jogando luz em um mal-estar familiar que poderá ou não ser resolvido através de uma técnica terapêutica muito em voga na atualidade, a constelação familiar, conduzida por um dos personagens, representado por Orlando Caldeira, ótimo quando assume o papel de terapeuta (ou constelador).

O cenário, assinado por Mina Quental, é complexo e tem quatro planos diferentes, representando cômodos da casa onde o velório tem lugar e onde se dão as negociações, os reencontros, os desencontros, as revelações. Esses planos correspondem a uma varanda, um banheiro, uma espécie de cozinha ou copa e a sala de estar. Esses diferentes planos representando os diferentes cômodos da propriedade permitem que possamos acompanhar as conversas e os acontecimentos, e há encontros e desencontros em todos eles.

De fato, além de um cenário complexo, trabalhoso, a peça tem bons momentos em diálogos bem montados e cheios de humor, mas há algo de estranho na trama. Ou melhor, algo que não encaixa tão bem. O primeiro ponto de estranhamento diz respeito a um velório onde mãe e irmãs não estão presentes, em que as pessoas mais próximas (exceto o pai) não estão lá. A morte resultante de um suicídio é velada por representantes. No entanto, ainda que haja bons motivos pra isso (no caso da irmã grávida, a iminência de um trabalho de parto), essa terceirização do luto é algo realmente digno de estranhamento. Aliás, se há mesmo um trabalho de parto em curso, por que o marido não está ao seu lado, em vez de marcar presença no velório? Que sentido faz ele estar presente ali, sendo um cunhado meio distante que tem até momentos de conversas agradáveis, atravessadas por risadaria, durante a tarde (ou seja, não parece muito condoído)? Os motivos para as ausências não são convincentes, na medida em que a morte e o suicídio seriam muito maiores do que qualquer fato ou afeto passado que ocasionasse a distância. Traduzindo: ainda que se coloque, no enredo, motivos que justifiquem que o velório de um suicida aconteça daquele jeito, com aqueles personagens e não outros, é uma quantidade grande de ausentes significativos e presentes irrelevantes velando as cinzas do morto. E uma tendência ao realismo da peça não é suficiente para justificar um possível pragmatismo que essas ausências e suas respectivas representações evidenciam, caso tenha sido esse o objetivo. E até a carta que passa a circular à certa altura – uma carta com pedidos e possíveis revelações, deixada pelo suicida – parece surgir do nada.

Por outro lado, os personagens têm ligações tão enviesadas com os ausentes que representam, isto é, a mulher que representa uma das filhas, o advogado que representa a mãe, a mãe que é um elemento estranho e malquisto apenas referido, enfim, tudo isso faz com que nada seja muito simples de se compreender no sentido de quem é quem na trama. É preciso um exercício mental para ver as ligações, os laços afetivos entre os presentes, e fica tudo meio sem sentido, fácil de esquecer a toda hora.

 

Foto: divulgação

 

A peça tem mais um elemento de complicação, que também não me pareceu ter tanto sentido na trama: uma das personagens é francesa e não fala português. Tirando uma breve cena que se dá na varanda do cenário, de grande humor, não parece ter havido muito motivo para que ela fosse francesa, para que a escolha fosse essa. A cena a que fiz referência não é suficiente para compensar todas as outras, que geraram necessidade de ler uma legenda sempre que essa personagem falava. Não há problema com legendas, a não ser que sua presença faça um mínimo de sentido, e que não seja mais um elemento complicador na trama. Os diálogos ao telefone dessa personagem não foram tão bem amarrados, não eram naturais, ao menos não tanto quanto os diálogos que se dão ao vivo e a cores, entre os personagens que estão no palco. E ainda por cima, a legenda!

Por causa dos motivos acima apresentados, ainda que o esmero da montagem seja evidente, acaba por se perder uma boa oportunidade de discutir as temáticas que a peça evoca: a morte, o tempo, o suicídio, as escolhas, as relações familiares e seus percalços, a obrigação de amar, os silêncios e os segredos, para dizer o mínimo. Sim, porque Pá de Cal tangencia tudo isso, mas sem aproveitar tanto quanto poderia. A questão da obrigação de amar daria um ótimo caldo, tanto que foi a temática escolhida para abrir este texto. Mas também as outras: o que fazer quando uma morte acontece e você está há anos sem falar com alguém cujo laço de sangue e familiar é forte, incontornável? Você quebra esse silêncio, você não quebra, como você se comporta? E o que fazemos de certos arrependimentos? O que fazer do perdão? De fato, a morte é um momento ímpar, que, para além de todo o sofrimento da perda e de toda a saudade, pode suscitar grande complexidade na hora de resolver questões, de tomar decisões, de se aproximar ou não de alguém, de rever a própria vida.

Infelizmente, a sensação que fica é que a peça, de qualidade em vários sentidos, tem sua trama comprometida, assim como as questões interessantes que tenta cercar, por uma série de elementos que complicam o enredo. Faltou simplicidade, porque o assunto e seus desdobramentos já seriam ricos o suficiente.  É como se a peça não estivesse à altura do que se propôs e precisasse amadurecer um pouco mais, precisasse de tempo para que se traduzisse em um enredo sensível e com um pouco mais de verossimilhança. É como se a peça não estivesse, ainda, à altura de si mesma.

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes, Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Essa intermitente e fragmentada paisagem humana

Por Vivian Pizzinga

 

Foto: Jorge Farias

 

Em Dinamarca, peça apresentada pelo grupo de teatro Magiluth, direto de Pernambuco para o Teatro de Arena do SESC COPACABANA, no Rio, a plateia é recebida como se se compusesse de convidados chegando para uma festa de casamento. Mas não parece chegar em um momento qualquer da festa, e sim naquele período entre o começo e o auge, difícil de delimitar mas fácil de intuir, quando a euforia começa a engrenar em alguns e não demorará a chegar em seu apogeu. Os atores da peça, à guisa de anfitriões, distribuem espumante em taças de plástico para todos que quiserem, oferecem mais aos que já beberam, e há até quem, dentre eles, que comente, com leve amuo de quem não gosta de desfeita, para um dos convivas: “vocês bebem pouco, hein”. O som está no volume máximo, alguns deles dançam, estão todos aparentemente bastante felizes e nós, agora, somos parte da cena.

Esse é o começo da peça, que, com direção de Pedro Wagner e dramaturgia de Giordano Castro, estreou em 2017, foi apresentada em algumas cidades brasileiras como Salvador, São Paulo e Porto Alegre, e parte de uma inspiração em Hamlet para levar a cabo a proposta de discutir aspectos relevantes da contemporaneidade. A ideia da montagem trazida pelo grupo recifense é a discussão das bolhas sociais, tema tão em voga ultimamente, sobretudo em época de divergências políticas acirradas e de estilos de vida e concepções de mundo que são questionados no cerne dessas divergências. O tema é também assíduo nas redes sociais entre os que fazem a crítica dessa maneira de se relacionar com o outro, exatamente por evocar a restrição do campo de relações e contatos sociais a que cada um de nós tem acesso, o que leva à possibilidade de que interpretemos o mundo, as políticas públicas, os fenômenos sociais, a função das novidades tecnológicas, as atividades e manifestações culturais, dentre outras coisas, a partir de uma perspectiva uniforme, totalizante e aparentemente exclusiva, sem espaço para a diferença e a alteridade.

 

Foto: Danilo Galvão

 

A Dinamarca possui a noção de hugge (ou higge), que, ao que tudo indica, evoca uma espécie de vida boa, incluindo tempo para lazeres simples, sofisticados e agradáveis, isto é, incluindo a posse do tempo pelo sujeito, em oposição a ser possuído pelo tempo. Pesquisando um pouco pela internet, vê-se que não é tão consensual o significado do conceito, já que específico do país nórdico. No entanto, é possível entender que a noção abrange o conforto, o oposto da correria, o aconchego, aquilo que acalma e aquece, em suma, a segurança. O status quo parece fazer parte também dessa ideia e, no espetáculo, percebe-se que, para eles, nada ao redor do grupo de anfitriões e amigos mais chegados está à altura dessa forma de vida.

Esse é outro ponto que a peça aborda, quando todos se juntam como se superiores fossem ao resto do mundo, sem problemas, sem dificuldades, sem mau gosto, uma casta que pode se dar ao prazer, por exemplo, de beber como se não houvesse amanhã, entornando uma garrafa de cerveja inteira em uma só golada e depois mais meia garrafa, como podemos ver, agoniados, no começo da peça (não sei os outros, mas fiquei pensando, realmente encafifada, capturada por esse momento inicial e repleto de estranhamento que parece não acabar nunca, se o amargor da cerveja, tomada em grande quantidade num curto intervalo de tempo, e logo no comecinho do espetáculo, não traz ao ator algum tipo de desconforto físico do tipo refluxo ou azia que possa atrapalhar seu desempenho na peça; é interessante também notar que a observação desse momento demorado, infinito, em que o único elemento iluminado do palco é o ator engolindo, gole a gole, a cerveja das garrafas, exerce certo poder de sentir o gosto da cerveja na boca e o enjoo de tomá-la sem pausa nessa quantidade absurda, como se fôssemos nós, e não o ator, que a estivéssemos bebendo). Voltando à relação do núcleo social com o que há ao seu redor, os convidados estão lá, dançando, envolvendo-se uns com os outros, falando de coisas, mostrando habilidades em línguas estrangeiras, e há o resto. Não há como não pensar na elite em suas diversas e possíveis gradações, nas celebridades com canais de YouTube que fazem vídeos e mais vídeos mostrando suas salas enormes e cada objeto que nelas há, seus pares de sapato, seus quartos, sua vida glamorosa que mescla elementos de sofisticação de difícil acesso e arranjos relacionados a uma vida boa e saudável, onde o corpo é bem tratado e pode se dar ao luxo de descansar. Talvez hugge esteja um grau abaixo disso, e o momento em que o grupo se explica o que é, eles estão entrando no ritmo de uma música agradável, alegre e sincopada, que não se caracteriza pelo excesso, mas que é extremamente atraente ao corpo. Pode ser que seja mesmo só com o corpo e o som que possamos explicar o que é hugge e o que é pertencer a uma bolha social.

 

Foto: Jorge Farias

 

Dinamarca, que tem no elenco de atores Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres e Mario Sérgio Cabral, traz momentos de angústia, com repetições de diálogos em grande velocidade e movimentações agitadas, além de relatos tensos, e momentos hilários, como quando o dono da festa manda que recolham os copos e a bebida da plateia, incomodado com sua suposta ingratidão, e exige que tais copos sejam reunidos de uma forma sistemática a seus pés, no momento em que é desagradado, espécie de birra exagerada e fora do tom a que todos aquiescem.

Há também um belo momento, aí para os menos tímidos, em que algumas pessoas da plateia são convidadas a dançar, retiradas com delicadeza pelos atores, momento em que o palco vira uma verdadeira pista de baile, onde os casais rodam como se celebrassem de fato um casamento. É interessante refletir um pouco sobre essa noção de hugge, estranha a nós, brasileiros, e que, apesar de evocar o bem-estar e a leveza, não descarta a tensão, as discussões e o medo que, necessariamente, permeiam as relações sociais, como se vê no espetáculo. Esses picos de tensão e ansiedade, que pipocam aqui e ali, que sempre interrompem a leveza, levam ao questionamento sobre se há, de fato, a possibilidade de uma bolha social completamente apartada do que há à sua volta, se há como conceber formas de relação social que, como ilhas cercadas de gente comum com problemas comuns por todos os lados, nunca estivesse suscetível de ser engolfada por angústias que dizem respeito a todos, a despeito da especificidade de sua inserção social.

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

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125ª Leva - 03/2018 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Abismos entre ética e moral

 Por Vivian Pizzinga

 

Rose / Foto: Paula Kossatz

 

O espetáculo Rose tem texto de Cecilia Ripoll e foi eleito como a melhor dramaturgia escrita durante as atividades da turma de 2017 do Núcleo de Dramaturgia SESI cultural (Rio de Janeiro), coordenado por Diogo Liberano. A direção de Vinícius Arneiro, excelente, e a atuação do elenco, à altura do texto, dão vida a esse drama que tem um viés político com moderação, no que diz respeito às questões mais abrangentes de distribuição de renda e desigualdade social (sem ser panfletário, sem ser chato, sem ser didático e sem ser raso) e a fatos específicos da política nacional. É sempre o ato, o gesto e o acontecimento que norteiam o viés político que a peça carrega, necessário e na justa medida, com lances de humor que os atores, conferindo personalidade e trejeitos a seus personagens, ajudam a construir (vide Ângela Câmara e sua afetação para sentar na cadeira, ou Márcio Machado e a voz empostada quando interpreta o deputado ou seus falsos brios quando assume a função de novo diretor da escola a moralizar o espaço escolar onde a protagonista trabalha).

Rose é merendeira de escola pública e sofre vendo que a comida não é suficiente para as crianças que lá estudam. Além disso, a comida que vem é inconsistente, o feijão é ralo, a qualidade não é boa. As crianças sentem fome. Então, ela começa a adoecer e tira licença, indo trabalhar na casa de dona Celina, sem carteira assinada, protegendo o filho da patroa e mantendo sua filha escondida no quarto. Rose é um mistério para esse filho, curioso com a porta fechada de seu quarto e com as banhas da funcionária. Maria Juliana, a filha de Rose, interpretada por Natasha Corbelino (cheia de carisma), é uma figura à parte. Sua indignação por ter de ficar escondida e pelas desigualdades que observa com perspicácia, como a comida que sobra e vai fora após as festas no apartamento e a comida que falta na escola onde Rose é merendeira, expressam-se em uma mistura engraçada de sarcasmo e cinismo. Para completar o elenco, há ainda o diretor Renato, que expressa a contradição entre o legal e o legítimo, ou a moral e a ética: nem tudo o que é legal é ético ou legítimo e vice-versa. Isso fica evidente no diálogo que ele tem com Rose sobre a estratégia (clandestina) utilizada pela protagonista para resolver o problema da merenda na escola.

 

Rose / Foto: Paula Kossatz

 

O espetáculo vai num crescendo, como se um percurso para que os absurdos explodam e aconteçam fora do terreno da sutileza e se escancarando como deve ser necessitassem mesmo de um processo, de certo metabolismo: há várias relações acontecendo paralelamente, núcleos de tensão e afeto são despertados como se pequenos mundos que ora se afastam, ora se tocam e diversas vezes se interpenetram durante a trama. Há certo hipnotismo do menino (atuação de Thiago Catarino), que tem medo de descansar e morrer, pela filha de Rose, e todas as emoções que transbordam desse afeto inédito para ele. Há a estratégia de Rose para fazer justiça e levar comida da casa de dona Celina para a escola e o desconforto moral (e desprovido de ética) do diretor da escola, que usa todas as oportunidades para exercer e demonstrar porções fartas de demagogia, dramas tolos e falsos dilemas. Há a incomunicabilidade de dona Celina com seu filho, o pavor do toque e do abraço, a distância que se alarga entre eles e, por outro lado, encurta entre ele e Rose. Há o ciúme da filha de Rose e, finalmente, a preocupação de dona Celina em agradar o deputado que desvia merenda, na festa em sua casa, em paralelo ao ódio de Rose em relação a ele.

Entre outras possibilidades que a peça oferece para discussão e produção, temáticas variadas que margeiam a questão principal, o cerne é mesmo de doer: afinal, ninguém acha ruim o suficiente o desvio de verbas públicas que seriam destinadas à merenda escolar, mas se torna questionável uma funcionária levar a comida que sobra da festa da madame para as crianças da escola. Ninguém acha ruim o suficiente porque, se fosse suficiente, já não seria possível continuar acontecendo. Mas Rose, a quem Dida Camero empresta brilhante atuação, protagonista que não tem papas na língua, acha ruim o suficiente e não espera que outros venham resolver o problema da forma que se apresenta diariamente diante de seus olhos, em um sofrimento ético capaz de adoecer qualquer trabalhador que estivesse em seu lugar.

 

Rose / Foto: Paula Kossatz

 

Os paralelismos desdobram-se: num apartamento de 400 metros quadrados, o quarto da empregada tem 4 metros e é ali que a filha tem que ficar o dia inteiro. Esse é o território que lhe é destinado: o espaço é escasso, a comida é rala, há uma classe que recebe sempre menos (e não se trata de maniqueísmo barato, a realidade é exatamente essa). O aluno da escola pública não pode provar salmão e a empregada não pode querer fazer curso de inglês: isso poderá soar absurdo (o salmão na boca do pobre) ou se tornar risível (o inglês na boca da trabalhadora doméstica).

Finalmente, o cenário é também ótimo e simples: diversas carteiras escolares são posicionadas como numa sala de aula, e é por entre elas, sobre elas, por baixo delas, desviando-se delas e as embaralhando que as cenas vão acontecendo. A maneira como as cadeiras são posicionadas e reposicionas e ajustadas e novamente deslocadas se torna uma pequena expressão do caos e do cinismo que se alternam no palco.

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

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123ª Leva - 01/2018 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Nuances da diferença

Por Vivian Pizzinga

 

Cássia Damasceno / Foto: Nana Moraes

 

Preto, novo projeto da companhia brasileira de teatro, com direção de Marcio Abreu e dramaturgia dele, Grace Passô e Nadja Naira, se inicia a partir da fala pública de uma mulher negra e é fruto de uma investigação sobre as formas de lidar com a diferença e, mais do que isso, sobre as formas de recusá-la em nossas sociedades. E o fruto dessa investigação está bem longe de ser um espetáculo qualquer, no que traz de riqueza de linguagens, arrojo na montagem e, sobretudo, importância do assunto tratado. Os desdobramentos do trabalho do grupo no espectador são impacto e reflexão, para dizer o mínimo.

Há uma fala de Angela Davis, em uma conferência realizada em Salvador, Bahia, em 2017, reproduzida no texto de Marcio Abreu no programa da peça, que vale a pena repetir aqui, pois ela é a síntese do que Preto consegue promover: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras, muda-se a base do capitalismo”.

A observação de Angela Davis é certeira, e talvez sirva para todas as outras bases de pirâmides sociais mundo afora, e para todos os demais pensamentos que enxergam na luta no coletivo – e somente no coletivo – a maneira de mudar radicalmente os alicerces de sistemas habituados ao cacoete da injustiça e da desigualdade social, em todos os seus aspectos. E é interessante como se pode fazer uma transposição dessa fala ao espetáculo, como se este último conseguisse, em sua dramaturgia, expressar exatamente o que ela aponta, traduzindo a ideia para a linguagem teatral: no início, uma mulher negra se movimenta, é a fala de uma mulher negra, como a introdução de uma conferência ou um seminário, que começa questionando a posição da mesa e do microfone. Os espaços que as coisas ocupam direcionam também os espaços que as pessoas ocupam, a arquitetura dos lugares tem influência sobre comportamentos (Foucault já observava isso ao estudar o hospital, os manicômios e os presídios). Mudar os móveis, as posições, os lugares, as funções, os papeis provoca, necessariamente, outras mudanças menos concretas e que têm grande chance de atingir as atitudes e a cultura. Da mesma maneira, nesse início de espetáculo, tudo começa aparentemente de modo obediente, cada coisa no lugar onde se espera que esteja, e a fala da mulher aponta a problemática desses lugares. A partir daí, o desenrolar do espetáculo é então uma espécie de furacão crescente, de ampliação das ideias em forma de fala, dança, música, tal como as mulheres negras que, ao se movimentarem na base da pirâmide, movimentam a pirâmide inteira. E tudo isso é acompanhado pela trilha sonora que Felipe Storino executa ao vivo.

A força e o arrojo perpassam a peça integralmente, desde a delicada e envolvente cena protagonizada por Grace Passô e Renata Sorrah, em que, muito próximas fisicamente, dividem um mesmo microfone para ir descrevendo uma aproximação afetiva e corporal entre mulheres, cujo desfecho brilhante da cena não comentarei para não estragar, até a fantástica dança com Felipe Soares e Rodrigo Bolzan, numa espécie de duelo corporal e coreográfico – o homem branco e o homem negro dançarinos – com enormes cabeças que são suas caricaturas, promovendo o contraste entre a expressão da dança e a inexpressividade da máscara.

 

Renata Sorrah e Grace Passô / Foto: Nana Moraes

 

A cena em que Cássia Damasceno se apresenta prometendo sambar, para depois prometer cantar, e depois prometer ficar sozinha para o público, traz também uma palpitação qualquer difícil de explicar, talvez por gerar a expectativa de que algo supostamente óbvio vai acontecer, a mulher negra com voz potente e gingado prestes a entreter uma plateia: ela vai, volta, abre a boca como quem está na iminência de um grito ou uma nota ou um protesto, sai e retorna, e nada acontece do que se espera acontecer, embora tudo aconteça do que não se espera acontecer. Essa cena, como a peça inteira, promove um desarranjo nas expectativas tradicionais, nas ideias prontas, porque cutuca uma questão primordial: como lidar com a imagem e o que esperar da imagem? A imagem do branco, a imagem do negro, a imagem do artista, a imagem da mulher brasileira que samba e rebola, a imagem do prazer, a imagem que o outro faz de nós e sobre a qual não temos a menor possibilidade de ajuste, retificação ou controle, como lidar com isso?

Perguntas sobre “como você se vê” ou “como é carregar a sua imagem por aí” ou “você tem problema com a imagem” ou “posso então tirar uma foto” geram desconforto e reflexão por parte dos atores-protagonistas, cujas contradições ficam explícitas na discrepância entre respostas dadas e comportamentos.

Ao final da apresentação a que tive oportunidade de assistir fascinada e capturada, observei que, após os aplausos, a plateia foi se retirando do Teatro III do CCBB de modo silencioso. As pessoas pareciam impactadas, e em vez de interagirem entre si comentando sobre a peça ou o que quer que fosse, saíam um pouco mudas, talvez porque a montagem seja mesmo de tirar o fôlego e o chão, gerando certa dose de fascinação que é preciso mais sentir do que falar.

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

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119ª Leva - 04/2017 Destaques Jogo de Cena

Jogo de Cena

A verve provocativa de The so-called outside means nothing to me

Por Vivian Pizzinga

 

Cena da peça “The so-called outside means nothing to me” / Foto: divulgação

 

 

No palco, quatro jovens mulheres, vestidas com roupas largas, nada sedutoras, dividindo-se em emanações de uma mesma personagem, Minna, jovem isolada por escolha, em um apartamento num dia entediante. Relacionar-se com o mundo exterior – the so-called outside –, com o que há fora do apartamento, com o que há fora de si, implica muito desgaste: ficar o tempo todo balizando o que se diz com o que se pensa, medindo os parâmetros vigentes em uma dada cultura com a vida que caminha fora das capturas ideológicas, quaisquer que sejam; ficar ainda regulando o politicamente correto que, entretanto, é estrangeiro face aos pensamentos espontâneos mais genuínos, verificando a adequação do que se sente àquilo que se pode sentir, do que se pensa àquilo que é considerado pensável, ao que é aprovado socialmente, ao que está na moda, ao que é vanguarda ou, por que não?, ao que é sustentável. Essas constantes verificação e regulação são extremamente cansativas e perturbadoras. A personagem, dividida em quatro, prefere não. Este é o cerne em torno do qual começa a girar o sensacional The so-called outside means nothing to me, que teve apresentações no Cena Brasil Internacional, em junho de 2017, nos palcos do Teatro I do CCBB-RJ.

Há um cerco de emoções, esperas e questionamentos que se erige ao redor das quatro atrizes e delas emana. Trata-se de quatro moças que fogem aos padrões de beleza mais rapidamente identificáveis: usam óculos, têm cabelos emaranhados, nada lisos, não são magras nem fazem um uso sedutor do próprio corpo, não estão maquiadas. O cenário é desprovido de objetos ou quaisquer outros dispositivos que sirvam de atenuantes de tudo o que se passará ali, de tudo o que será dito, de toda a tradução corporal do texto bem urdido. O chão e a parede são pretos, não há matizes. A iluminação dá sinais de que inexistirá como elemento estético, uma vez que tudo começa em clara luz, com as pessoas ainda terminando de encontrar seus lugares na plateia, apesar de o toque da campainha que indica o início próximo do espetáculo já ter soado. É quando entram as quatro mulheres jovens, olhando com desconfiança para os espectadores, semblante de poucos amigos, suspeita sem disfarce algum, ausência deliberada de simpatia.

 

 

Foto: Guto Muniz

 

 

O espetáculo é dirigido por Sebastian Nübling e coreografado por Tabea Martin, e o texto, brilhante, carregado de uma inteligência provocativa, com senso de humor e ironia, é da premiada escritora alemã feminista Sibylle Berg, autora ainda de 13 romances, 21 peças, e possuindo grande projeção na Alemanha exatamente por sua característica provocadora. A nítida e quase palpável provocação de seu texto não traz, no entanto, um incômodo indigesto. É possível rir de si mesmo, quando o si mesmo é retratado da forma como o é em The so-called outside. O humor é, definitivamente, a melhor forma de provocação. E o que é mais interessante no espetáculo é que a dramaturgia e a coreografia acompanham a verve provocativa de Sibylle Berg: elas logram êxito em traduzir para os movimentos e expressões corporais tudo o que está sendo dito ali, através da linguagem verbal.

As atrizes que incorporam (com toda a literalidade do termo incorporar, pleno de corporeidade em seu paroxismo) todos os tensionamentos e solilóquios infinitos da personagem central pertencem ao The Maxim Gorki Theatre, que desembarca pela primeira vez no Rio. Trata-se de um dos mais politizados teatros públicos da Alemanha, tendo sido destruído durante a Segunda Guerra Mundial e reconstruído e reaberto em 1952, e cuja companhia tem um elenco fixo e multiétnico de 17 performers e um grupo paralelo composto exclusivamente por artistas imigrantes. Na apresentação carioca do espetáculo, temos Cynthia Micas, Nora Absdel-Maksoud, Rahel Jankowski e Suna Güler.

Pode-se dizer que o texto é feminista por colocar em xeque uma série de aspectos esperados do que deveria ser viver como mulher, sentir como mulher, fazer coisas de mulher, ter hábitos de mulher, vontades de mulher, pensamentos de mulher. Entretanto, e isso é o mais interessante, para trazer sua crítica contumaz, o texto não precisa do subterfúgio de atacar o homem, como se a questão toda se resumisse a dois polos opostos e necessariamente conflitantes. Não se refere ao homem ou ao gênero masculino como “macho” (ou algum equivalente) usando um mesmo tom de agressividade e ataque que denuncia no homem machista quando este se refere à mulher menosprezando-a exatamente por ser mulher. No feminismo de The so-called outside, a mulher tampouco será poupada. E esse é um dos grandes achados do espetáculo: os questionamentos vão muito além da denúncia que assinala as desigualdades de gênero. Há toda uma análise muito bem-humorada, cheia de boas sacadas, divertidíssima, das contradições e chatices da sociedade capitalista na qual vivemos. E sociedade capitalista são palavras que, unidas, podem soar aqui como militância lugar-comum, repletas de significados prévios e vagos, que guiam para um entendimento perigosamente rápido do que o espetáculo propõe, mas, ao elegê-las, estou apenas sendo fiel àquilo que o texto traz e que inclui também a própria crítica à crítica ao capitalismo e seus excessos sem nenhum recurso a fórmulas óbvias. Não, não há nada de óbvio no espetáculo. Porque as mulheres que estão ali se contorcendo, pulando, aglutinando-se, cuspindo água, jogando-se ao chão, gritando, cantando musiquinhas românticas da Whitney Houston e outras, simulando o grande encontro amoroso e utópico que, elas sabem, nunca vai existir na realidade tal qual na imaginação, essas mulheres estão também rindo de si mesmas e de suas agruras, e sobretudo das estratégias, sempre falhas, sempre inócuas, que são levadas a criar, cotidianamente, para fazer face a essas mesmas agruras.

 

 

Foto: Guto Muniz

 

 

Um exemplo disso é o momento da aula de zumba, em que uma das quatro atrizes fica dançando, separada das outras três, como se tivesse chegado ao grau máximo da felicidade, da euforia que serve de panaceia para os males da alma e do coração, mostrando que a melhor forma de lidar com a ansiedade, com as frustrações, é a aula de dança, é a agitação incessante do corpo, continente maior de desvarios emocionais.  Não há maniqueísmo no texto de Sibylle Berg, dado que tanto a pressão para o consumo e para a acumulação típica dos modos de vida capitalista (e que incluem – ou podem incluir – as aulas de zumba, as aulas de yoga, as meditações transcendentais) são alvos do texto ácido da autora, como também o politicamente correto. Novamente, é preciso insistir: não há fórmulas prontas e pré-fabricadas em The so-called outside.

Um dos dilemas trazidos pela personagem é que Minna está apaixonada por uma amiga, Lina, que volta e meia manda um SMS. Toda vez que há um SMS para ser lido, a personagem apaixonada tem que usar uma série de subterfúgios para conter sua euforia e sua expectativa, para não se deixar levar pela ansiedade extrema. Ela quer e não quer ler, ela quer ler mais tarde para mostrar a si mesma o quanto é forte e o quanto não está desesperadamente esperando uma resposta de Lina, mas ela não resiste e, toda vez que o celular apita o SMS, Minna dá o que promete ser uma olhadinha rápida, e as mensagens da amiga sempre falam de alguma relação com outro homem, do que ela sente ao lado desse outro homem. É aí que Minna terá que encontrar maneiras para lidar com isso. Os recursos corporais e dramatúrgicos do espetáculo são a melhor expressão do desatino de Minna. Só mesmo os grunhidos, as caretas, os gritos, os pulos, só mesmo a torção de caras, bocas e corpos em uma verdadeira coreografia da repulsa e do desdém forçados para traduzir o que Minna sente. Para dar conta de expressar o insuportável.

E, no decorrer do espetáculo, a luz vai se apagando, acompanhando uma espécie de anoitecer do dia de Minna, quando há um recrudescimento da angústia que ela, de todas as formas, desesperadamente, tentara tapar. É nesse momento que, após uma correria insana pela vida, retratada em pensamentos obsessivos, por um dia que passeou por questionamentos inúmeros acompanhados de brutalidade e indignação, que ela vai se dando conta de que é jovem e o mundo, para quem é jovem, para ela, começa amanhã. Será?

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

 

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118ª Leva - 03/2017 Jogo de Cena

Jogo de Cena

O dizível e o indizível na peça Tom na Fazenda

Por Vivian Pizzinga

 

Foto: Cláudio Marmorosch

Tom na Fazenda, do premiado autor canadense Michel Marc Bouchard, tem montagem inédita no Brasil, com excelente direção de Rodrigo Portella e idealizada e traduzida pelo ator e produtor Armando Babaioff, que encarna o personagem que dá nome ao título (Tom à la Farme, no original). O texto, traduzido em diversos países, ganha esta primeira versão no Brasil, trazendo a história de Tom, que vai ao funeral de seu companheiro, na fazenda onde sua família mora, e, lá chegando, descobre que sua mãe não sabia que o filho era gay, além de nunca ter ouvido falar em Tom. O irmão, Francis, que vive dedicado ao trabalho rural e à mãe, devotando suas preocupações primeiras ao bem-estar dela, não apenas sabe do segredo, como exige a dissimulação de Tom, e tem início uma história de mentiras que vai se tornando cada vez mais complexa. O espetáculo, em cartaz no Oi Futuro Flamengo, no Rio de Janeiro, ganhou temporada de 23 de março a 14 de maio.

Essa primeira montagem de Tom na Fazenda é uma das peças mais impactantes que tive oportunidade de ver nos últimos meses, brilhante no texto e na sua adaptação para o português, com atuações magníficas do elenco, sendo difícil destacar alguém em especial, uma vez que todos têm seus grandes momentos, todos roubam juntos as cenas e, portanto, ninguém tem a cena roubada, uma espécie de jogo em que cada ator oferece ao outro um pouco da cena, um verdadeiro trabalho de entrega da equipe, que precisa ter, de fato, corpo (literalmente) e energia para estar ali, no palco, defendendo belíssima trama.

Kelzy Ecard, que interpreta a consternada e um tanto quanto bruta Ágata, a mãe dos irmãos, é comovente quando ouve de Tom o conteúdo da suposta conversa com a igualmente suposta namorada de seu filho morto; Gustavo Vaz, que dá corpo e voz ao irmão Francis, e que inicialmente mostra-se personagem assustador para, aos poucos, demonstrar aquelas nuances clássicas das quais nos esquecemos e que nos lembram que não há ninguém inteiramente bom nem ninguém inteiramente mau, que, com sua inequívoca dificuldade de expressar afeto vai aos poucos angariando a empatia do espectador (mas também do próprio Tom, apesar das violências e das ameaças sofridas); Armando Babaioff, incrivelmente devotado ao protagonista que encena, oscilando, sem escorregar, entre a conversa falada com os familiares do companheiro morto e a conversa mental consigo e com o personagem ausente; e, finalmente, Camila Nhary, que faz Ellen, aparecendo mais para o fim da peça e trazendo humor em sua participação, quando finge não falar português e traduz literalmente para o inglês expressões e termos que não têm cabimento naquela língua. Sim, estão todos excelentes, e a emoção com que atuam é tão contagiante que parece impossível não se deixar contaminar pelo impacto desses afetos.

Foto: José Limongi

Mas não só a atuação é irretocável, como a trama é muito bem montada, do ponto-de-vista psicológico inclusive. Afinal, o que temos? Um funeral. Mote clássico que é ponto de partida para uma série de enredos, muitas vezes ligados a revivescências de histórias antigas, a nostalgias múltiplas e, noutras vezes, sendo o ponto de virada na história de personagens ou na forma como compreendem partes de si e do mundo. Tom na Fazenda, no entanto, parte do funeral para não apenas trabalhar os tabus referentes à homossexualidade, sobretudo em um contexto provinciano como é o rural, onde todos se conhecem e os segredos são um luxo de vida curta, mas também para desencadear uma rede de relações de dependência e afeto difícil de colocar em palavras.

Ao falar de luto e de melancolia, a psicanálise sempre trabalhou e buscou compreender a vivência de perdas e sua dinâmica no psiquismo humano. A pessoa que vai embora, que nos abandona, que some, que se separa de nós, mas sobretudo a pessoa que morre, mote de Tom na Fazenda, de algum modo é internalizada por aqueles que o amavam. E, quando isso acontece, acaba encontrando espécies de ganchos em outras pessoas, da vida real, que guardam alguma semelhança com aquele que se foi. Talvez seja um pouco por essa pista que possamos tentar nos aproximar da complexa relação entre Francis, Tom e Ágata. Esta última identifica em Tom características do filho morto, como, por exemplo, o perfume. Nada mais íntimo do que o cheiro de uma pessoa, e ao identificar em Tom o cheiro do filho, e também sua educação, Ágata coloca uma parte de Tom no lugar vazio deixado por ele, tanto que é na cama deste que o convidado irá dormir, encaixando-se direitinho no espaço que o outro ocupava. É assim que Tom dá alguns passos na direção de um lugar especial nessa relação com Ágata, tanto que, sutilmente, ele passa a ser protegido por ela e, mais à frente, chega a chamá-la de “mãe” porque “ela gosta de ser chamada assim”.

Francis, por outro lado, apesar do ressentimento, do ódio, da dificuldade de processar a sexualidade do irmão, também reconhece características deste em Tom. E se impressiona com sua delicadeza com as vacas da fazenda e sua habilidade verbal. Francis, extremamente solitário por ser visto como se fora um bicho pelo resto da cidade e, talvez, pela sua própria mãe, que não consegue abraçá-lo, vai, então, estabelecendo com Tom, através inicialmente da violência física, uma aproximação afetuosa que ele tem dificuldade de administrar. Mas, claro, trata-se aqui de um afeto tenso, sempre pronto a irrupções limítrofes, onde a dor e as possibilidades são testadas ao seu máximo. Parece ser assim que Francis funciona e, com isso, vai criando admiração por Tom, por ele ridicularizado inicialmente. Tom, por seu turno, também está absolutamente só, dado que perdeu a pessoa que ama, e continua se comunicando com ela através do smartphone, mandando áudios ou mesmo conversando mentalmente com o ex-companheiro. E nada mais próximo desse amor do que o irmão dele. Tão próximo, tão parecido e, ao mesmo tempo, tão distante. Mais ainda: tão solitário, como o próprio Tom. Todos os personagens se confundem uns com os outros e todos carregam um pouco do personagem morto.

Foto: José Limongi

É essa teia complicada de perda, lutos e afetos difíceis de serem expressos que os vai tornando estranhamente dependentes uns dos outros. Uma dependência permeada de violência física, que faz com que o trabalho de coreografia, assinado por Toni Rodrigues, e preparação corporal, assinado por Lu Brites, sejam essenciais, pois os personagens brigam, rolam, caem, brincam, dançam, embolam-se, e o palco, em cenografia de Aurora de Campos, é escorregadio, com plásticos, terra e alguma água, tudo em tons amarronzados que lembram, de fato, o meio rural, com seus baldes e cordas.

A direção musical, de Marcello H, também consegue inserir a música em sua justa medida, em nenhum momento atrapalhando a fala dos atores ou sendo redundante. Ao contrário, nos momentos em que existiu, ela foi fundamental. A cena em que Francis e Tom dançam é um exemplo desses.

A iluminação de Tomás Ribas também merece ser destacada, com lembrança especial para o momento em que Tom fala sobre a experiência de participar do parto de um bezerro. A dramaturgia dessa cena específica e a luz avermelhada parecem sublinhar um momento de passagem, espécie de iniciação do protagonista citadino na vida rural e, neste caso, mais selvagem, através do contato com o sangue e as vísceras, e da participação direta nos fenômenos da natureza, tidos como mais reais do que todos aqueles vividos anteriormente, até a chegada à fazenda. O nascimento do bezerro parece ser também uma metáfora do renascimento de Tom, agora completamente inserido na vida da fazenda e da família de Francis e Ágata. Ele começa a se tornar um igual.

Há, enfim, diversas questões que a peça suscita (há um quê de incesto que não se realiza, mas sempre no ar, na forma como Tom vai se tornando o irmão de Francis e o outro filho de Ágata?) e muitos momentos belíssimos, como aqueles em que os personagens sentam na beira do palco, para confissões íntimas entre si, mas cujo posicionamento, mais próximo da plateia, parece deixar claro que a confissão é também conosco, espectadores. São momentos em que parcelas da humanidade mais oculta dos personagens nos são oferecidas com generosidade. Mas há também diálogos absolutamente excelentes, descrições das cenas que acontecem na cabeça de Tom cuja dinâmica é genial, e um final cuja força não fica atrás do arrojo que perpassa a peça inteira. No dia em que tive a oportunidade de assisti-la, os aplausos pareciam não acabar mais. E, enquanto eu aplaudia, tinha lágrimas nos olhos. Mas é preciso fazer coro com os atores. Então, lá vai: “prefeito, pague o fomento”.

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.