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91ª Leva - 05/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Memória e rasura: a “Pedagogia do Suprimido” de Zeh Gustavo

Por Leonardo D’Avila

 

Um poeta não se forma sozinho. Ao mesmo tempo, não há pedagogia ou maneira de ensino que dê conta dessa tarefa. Não apenas por uma questão de intersubjetividade, mas principalmente porque, paradoxalmente, a poesia não surge das conclusões, porém das passagens, das metamorfoses. Assim, a artimanha poética precisa de algum tipo de fetiche para que alguém se coloque nas fronteiras do funcionamento da linguagem. Quando o poeta não conta mais com alguma aura de heroísmo ou prestígio social, atividades muito mais corriqueiras podem ser o impulso inicial da escrita para o vates contemporâneo. A cena do escritor perante a máquina de escrever para ver o que simplesmente “sai de dentro dela” é clássica, mesmo ao se saber que a máquina em si seja vazia de conteúdo. Suponhamos, pois, que o poeta tenha perdido seu objeto-oráculo, esteja ele no teclado do computador, no papel A4 ou na caneta “bic”. Sim, a poesia é queda, mas que se tente imaginar por um momento o que acontece quando o poeta já não está tão afinado com seu instrumento de trabalho, isto é, toda a sua parafernália, que já era frágil. A “Pedagogia do Suprimido”, livro mais recente de Zeh Gustavo, põe o leitor diante dessa tentativa. Enquanto em seu trabalho anterior, intitulado “A Perspectiva do Quase”, havia uma boa dose de recursos que demonstravam erudição, metaliguagem e experimentalismo, em uma tentativa de evidenciar a potência vazia que tece o fazer poético, em “A pedagogia do Suprimido”, editado pela Verve no final de 2013, o foco não é mais esse. Pelo contrário, nota-se um menor comprometimento formal acompanhado de coloquialismos e pensamentos que fluem de maneira direta até serem violentados com as palavras, a exemplo da proliferação viral de neologismos, e da impressão forçada de sons rompendo com o sentido que seria esperado, como já se anuncia no título.

A supressão que nomeia o livro não cabe na dialética entre oprimido-opressor (com uma alusão clara a Paulo Freire), pois não persiste a esperança de sujeito emancipado, formado, lúcido ou qualquer coisa do gênero para sustentar utopias como a emancipação ou a desalienação. Os prefixos são extremamente significativos para entender essa mudança de sujeito oprimido para suprimido. Na (ob)pressão ainda existe olho no olho, combate frontal no qual um leva a pior. Na (sub)pressão, não existem dois sujeitos de mesmo nível num confronto. Há apenas o resto da tentativa de formação do impossível, um vestígio de sujeito que nunca consegue se estabelecer, que nunca se forma de maneira definitiva. Na verdade, diferentemente da opressão, na supressão já não há nem mesmo confronto, senão uma miríade de pisadas tão vertiginosa que já torna impossível a separação daquilo que pisa daquele que sofre. Em suma: quando o tédio ou a descrença chegaram em palavras e em coisas, “neste giro sem sina / sem sal nem viço”, não há mais um privilegiado: principalmente a função “poeta”, afinal, o artifício já se emancipou. A face daquele que escreve está na perda dos dispositivos (de máquinas de escrever a princípios poéticos) e não mais apenas na do sentido.

 

CONTO FUNESTO

Perdi um som quando ele tava a se encostar
Na ponta da minha língua
Perdi depois a língua.

Perdi uma palavra quando ela pendia já do traseiro
Para a ponta de minha caneta.
Perdi depois a caneta.

Achei um cinzeiro desbarafutado de utilidades.
(Eu que achara tão-cedo as inutilidades!)
Despejei as minhas cinzas
Que não havia visíveis.

Achei minha face.  (p. 47)

 

Zeh Gustavo demonstra que o desespero de um mundo pré-governado por dispositivos só não é maior do que o de um mundo no qual já nem mesmo haja a interação com os dispositivos. A perda da língua, da caneta e da urna funerária para depositar as cinzas chegam a dar um tom nostálgico do momento em que as coisas tinham função, seja a palavra para escrever ou o caixão para sepultar. Contudo, o poeta não quer uma volta à funcionalidade. Apenas constata que, por mais que as coisas continuem a fazer sofrer, pois talvez até não tenham nunca deixado de operar, não é mais possível interagir com elas. Por isso, neste seu último livro já não há um escrever sobre o escrever ou um escrever sobre o não-escrever, como acontecia em “A Perspectiva do Quase”, já que os instrumentos, se não se perderam, estão completamente desafinados. E não há nem corpo, nem linguagem nem inconsciente suficientes para acalentar o suprimido.

O principal gesto que se destaca em “A Pedagogia do Suprimido”, diante dessa condição da supressão, está no fato de que quem perde a sua caneta “bic”, seu mecanismo de escrita, arranha com prego mesmo. A grande força da lírica de Zeh Gustavo está na rasura, procedimento indeterminado, porém teimoso daquilo que descreve como “ânimo-vândalo”. Se são observados traços da inventividade de Paulo Leminski no autor, este, ao brincar concomitantemente com o som e a escrita das palavras, já não causa a mesma liberação de tensão típica do cômico. Neologismos como “teimoazia” ou “autoboicorte” imiscuídos em variações de tons menores, expressam-se na recorrência do grito, do rabisco. Rasuras insistentes de um livro de poemas com um forte teor autobiográfico, sem velar sua ficcionalidade, sendo, possivelmente, “desmemorialístico”, à maneira de Manoel de Barros. Nesse sui-gênero, o autor até consegue prender a atenção do leitor a ponto de fazê-lo acreditar brevemente, como em um sonho, na investida introspectiva, fazendo jus a uma pedagogia apenas por um lapso, em uma prosa-poética de formação. Isso se reforça ainda mais pela coloquialidade e pelo descompromisso de muitos pensamentos, os quais, muitas vezes fazem parecer que há perante o leitor um sábio contador de histórias. Porém, o próprio texto se assume eventualmente como nada mais que um texto, e todo um hermetismo que parecia surgir entre os poemas sem mais nem menos vai ser comparado, de uma hora para outra e sem aviso prévio, por exemplo, a uma tela de pintura, uma justa superfície mais a ser observada do que propriamente lida. Eis que surge para aquele que lê um autoarremeter, uma troca de olhar para destacar a pura tipografia, meros caracteres sobre uma tela, antes de ser um fluir da imaginação proustiano sobre papel A4 ao qual o leitor fora previamente induzido. É o que discretamente se declara no poema “Na gare, com Delirium Tremens”: “Eu me exprimo em papel-tela / Qual prosa já sem contador nem / Personagem / Só fatos tortos jorrados em borro tarde morta / Tetos em desabares sob picotes-edifício do céu / Texto surrupiado”.

Fatos tortos e desafinados porque estão borrados pela superposição de sílabas a surrupiar o texto a todo momento. É bem notável a esse respeito que o título convidativo do livro já na contracapa vem como “Pedagogia do Suprimido”, o que também acontece na subdivisão interna, onde os capítulos aparecem tachados. Essa rasura, também mostra seu incômodo e sua força, desmontando um fluir lírico, nos inúmeros neologismos e paronomásias, através dos quais o poeta é pródigo ao rabiscar sufixos e prefixos constantemente. Como ele mesmo superpõe, a escrita da rasura no “ânimo-vândalo” vem em conjuntos notáveis de experimentação, por exemplo, quando o autor aproxima as palavras descalamento, desrecalcado, dessupressão, desvio, desafogo e desabrigo. O uso do prefixo des-, entre muitos exemplos, prova que aquele que escreve não se interessa mais tanto pela linguagem como promessa de desconstrução (diferença e adiamento), tendo em vista que faz dela um vírus, uma des-qualquer coisa. No vaivém de cair no poema e grifá-lo, para logo acordar do sonho, é provocada uma imersão em uma experiência expressionista que parte de uma autobiografia declaradamente ficcional, mas muito envolvente, que é logo marcada pelas repetições dessas rasuras, em que os sentidos são concentrados até a estafa sem que se consiga fazer uma transubstanciação. Qualquer tentativa de heroísmo se esvai quando Zeh Gustavo arranha o disco com suas repetições de um experimentalismo despretensioso, porém de extrema sensibilidade, algo que se relaciona com o que o autor chama de “alto exaustão”.  Paralelamente ao rumo da introspecção que não chega nunca a formar um personagem, manifesta-se o gesto deformador (mas não formalista) da rasura, como de um vândalo que descobriu que todo objeto à sua volta lhe pode lhe ser útil como projétil quando abre mão de encontrar a marreta perdida. O risco de prego, a escrita que grita com o rabiscar sobre o sentido, é capaz de concentrar toda a dúvida, a agressividade e a impulsão dos que assumem que já perderam a caneta ou o papel, isto é, que há força, mesmo quando se põe em dúvida a formação, esteja ela em entusiasmo ou em procedimentos poéticos.

Doutorando em literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, Leonardo D’Avila é tradutor da poesia latina de Arthur Rimbaud, publicação do editorial Cultura e Barbárie (no prelo).

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91ª Leva - 05/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética III

Zeh Gustavo

 

Arte: Marcantonio

ENCALHES

 

A caravana persistente desvenda
um catálogo de explorados a cada visita.

A coleta sela um compromisso
entre extirpados; só há silêncios
neste varal de desistências.

O calejo revela um contingente
de adormecidos em órbitas de suor.

Nenhuma voz, por enquanto, foi capaz de ceifar
aquilo que sustém novelo tão infame que produz
o costume de costurar-se a si próprio
(bocas olhos ouvidos tripas),
que se impôs e impera, lento no sufocar,
com seu sopro de ar letal a comprimir
todos os ossos. De ecos e fósseis são feitos
os que restam.

Empreendido mais um turno das pedradas;
emparedadas, embora sem termo, as alternativas
de trajeto distinto, ao final só se veem
estilhaços e espatifados, em manutenção de sua
corredeira de negações.

 

 

***

 

 

ANULADO

Ando dizendo
palavras em branco

Meu caminho não permite
pontuação

Minha sintaxe desmanchou-se
nela mesma

Estou desvalido de
ideias formas causas

Só me restam algumas
frases                                       falas

Fragmentos me faturam
(cada pedaço é cada pedaço)

Me encontro meio sem
e sem meios para

Me desalimento
com zeros                                                de dores

Desprovimentos me exageram
me impertinam

A invalidez me doutrina
Conclusões me observam

E eu me escasseio
pelo ralo
da rotina

 

 

***

 

 

A SOCIEDADE DO ESCAPE

 

a Guy Debord

 

Toda a vida atual consiste
em um seminário de distâncias;
a distância é uma semana invisível
num calendário perdurante,
uma estância perdida onde não se há
o que se é, e o que seria também sucumbe;
um instante posta-se noutro
e o próximo desafago é apenas uma porta aberta
para um longe de afetos frustrados;
o dia encosta na noite, de relógio-alarme
em punho, cerrado de rotinas;
a voz imposta-se no grito de uma árvore
presa em tela seca na garganta;
e por fim uma chama fica cega,
quando a cor de tudo em torno é fuga, sem exílio.

 

 

***

 

 

BÊBADO

 

a Fernando Palhaço

 

I

Meu bêbado segue sob forte massacre.
Ele me chega em casa todo dia exausto.
Não dorme, deita rosnando. Fica a acordar
ao longo da madrugada e, quando finalmente
é posto ao despertar, mostra-se ainda mais destruído.
Bebe café, pinga colírio e vai consumar o dia;
sob o forte massacre.

Meu bêbado é fraco. Não sabia que era
tão fraco este bêbado franco que ranqueia dores
no corpo-dó,
qual equilibra seus cabelos raros
pela penumbra velha das horas vagas.

Meu tempo engole meu bêbado.
Tenho dúvida da existência de ambos,
mas confio mais na existência do meu
bêbado fraco franco frágil que na do meu
tempo flácido frenético frígido.

Meu bêbado ogro drena o sangue silencioso
que esse meu tempo oco finge não derramar.
O tempo expira. O bêbado vai tragando.
Seus bens de bêbado são beijos depenados
de um amor sem lugar no tempo. Seu lugar,
biroscas depredadas onde o vento que trabalha
para o tempo não adentra, só cobra à saída as
horas pendidas. Bêbado, envidraçado; posta-se,
debaixo da lua, curtindo trapos e tangos
e troças e tremoços,
ainda preparando transas com o que lhe resta de tempo.

 

II

Vidrado segue o meu bêbado forte sob massacre.
Não sabia que era tão forte, fraco. Não sabia
que se sofria tanto, dentro e fora de si. É de manhã
e ele me sinaliza algo sobre o sol da feira por que
passeamos e eu lhe pago um caldo de cana, o pastel
ele não quer – já não tem gosto, massaroca vaziúda.
Muita gente assim que passa, também.

Doravante é cumprir tabela, com tantas mortes
pesando nas costas rasgadas de lembranças.

Um dia o meu bêbado vai, de vez. Ficará o seu
último chapéu, guardador das suas sentilezas – o seu,
o meu último abrigo, sob forte massacre.

 

 

***

 

 

10 SOLUÇÕES SUBJETIVANDO
O DESCAMINHO DOS SERES

 

1. Buscar uma melhor visualização do chão.
2. Dependendo do público-alvo, obter namoros de uma mulher do tipo nuvem ou de um homem do tipo pássaro.
3. Criar nichos no ralo do banheiro social.
4. Empregar aranhas oriundas do mercado informal de insetos.
5. Gestar pessoas dentro do olho esquerdo, se destro, ou do olho direito, se canhoto.
6. Cheirar os sentimentos para eles adquirirem uma cor mais agradável.
7. Desvirgular as razões no meio de sua sintaxe.
8. Seguir sem preestabelecimentos direcionais.
9. Traçar paralelas de modo a aproveitá-las de referência para encontros amorosos.
10. Dançar deitado na ponta dos pés.

 

 

Zeh Gustavo é escriba de ofícios variados – poeta, ficcionista, compositor, cronista, revisor de textos. Como autor, publicou, entre outros livros, “Pedagogia do Suprimido” (Verve, 2013), “A Perspectiva do Quase” (Arte Paubrasil, 2008) e “Idade do Zero” (Escrituras, 2005), além do conto “Comuna da Harmonia”, presente na antologia “Porto do Rio do Início ao Fim” (Rovelle, 2012). Participou da organização e da curadoria das edições 2012 e 2014 do FIM – Fim de Semana do Livro no Porto.