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94ª Leva - 08/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Simone Teodoro

 

Foto: Luciana Bignardi

 

Dança lunar

 

O vento lambia
O mar em nós.

Eu singrava o mar em ti,
Dilatando os sais
De tuas paredes aquosas.

Cristais de areia
Feneciam
Sob as fibrosas esquinas dos joelhos,
Os meus,
Onde mora, inexpugnável,
Das quedas, a memória.

Sofrer de ausência tua
Em plena noite
De dança
De luas
Recém-descobertas!

Depois que choro
Troco de pele.

 

 

***

 

 

Jardinagem II

 

O jardim era belo
Visto por qualquer passante.
Visto de qualquer ângulo,
era incrivelmente belo.

Tulipas
Gérberas
Miosótis
E cravos.

De qualquer ângulo,
Não havia dúvida.

Mas não para quem
ousasse se deitar
Entre os canteiros.

Não para quem
atraído pelo pulsar das cores
enxergasse o jardim pelo avesso

ao se aproximar demasiado
deixando o olhar escorrer
por um caule
até encontrar
sob a umidade da terra
fixadas
monstruosas raízes.

 

 

***

 

 

Pedra

 

Súbito
um pedaço antigo de tempo
irrompe em meu peito
E transforma
em ruína de ti
meu coração contrafeito

 

 

***

 

 

Profanação na teia

 

Tirar a roupa dela
enquanto vermelha lua arde.

Romper cascas, desfiar casulos.

Contrair-me em
aracnídeo  inseto

Patas e pelos, perfurar
a pele profanada

E ela se contorce toda
presa em minha teia:
Era pétala amputada
tornou-se flor inteira.

 

***    

 

 

Distraídas astronautas

 

O céu sempre me pareceu
tão masculino
todo azul
e com um deus morando  dentro

(segundo as narrativas da mãe
quando eu ainda era o inchaço em seu ventre
e captava sussurros
pelas viscosidades da placenta).

Um deus de barba branca
no trono, ela dizia.
Trovejante voz paterna
ordenando o alternar dos dias
e das estações e dos tons de azul
do céu
que sempre me pareceu tão masculino
Porque lá tinha um trono.
Porque lá tinha uma ordem.
Porque lá tinha um grito.

Mas então vem a lua
e um império inteiro desaba.

Odores de fêmea
umedecem os ares.

A lua, inchada
como a barriga da mãe
quando me contava mentiras

A lua, pálida ou vermelha
ou quando uma sombra ameaça
sua estranha claridade.

E de perto (bem de perto)
-Por dentro-
Uma profusão de chagas escancaradas
Crateras
sobre as quais
distraídas astronautas
de tempos em tempos
vêm pisar
alargando feridas
fincando bandeiras
enlouquecendo
Para, em seguida,
desaparecerem para sempre.

 

Simone Teodoro nasceu em Belo Horizonte em 1981. É leitora compulsiva de poesia. Distraídas Astronautas (Patuá, 2014) é seu livro de estreia.

 

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86ª Leva - 12/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Inês Monguilhott

 

Foto: Bruno Kepper

 

Pedra

 

Na terra
como n’água,
tudo que em mim vibra
quer erguer onde afundo,
fosso,
líquidas muralhas.
Concêntricos,
inúteis labirintos.

 

 

***

 

 

Pomar

ao meu filho

 

À distância de um braço,
sumarento,
o  mundo se oferece
fruta.

Convém não esquecer:
se vai polpa,
vão casca e caroço.

 

 

***

 

 

Brechó

 

Escolho vestidos habitados,
decotes bambos,
curvas desbotadas,
barras invariavelmente puídas.

Recolho na concha dos sapatos, a marca,
outra pisada.

Caminho com fantasmas.

 

 

***

 

 

Tarde

 

Hoje me visitam as cigarras
das folhas verdes de antes.
Bocas sujas de terra,
segredam raspantes fios de facas.

Tardam
os dias no tempo esgotado.
E é só isso, é só isso,
é só.

Ferem
os seres mitológicos exultantes
de sussurros e estrondos que traspassam.
Sangue e raízes, dizem desses dias,
são só esses dias, só esses dias,
conformados.

 

 

***

 

 

A outra face

 

Aprenda a dar-se,
inteiro
feito um tapa,
esgotando-se por completo
a cada safra.
Grãos na mão aberta,
bagas aos insetos fermentando.

Os dias,
todos,
todos os dias,
laudas, vésperas,
e completas.

Assim, dá o mundo a outra face,
dando-se
e perdendo-se.

 

(Inês Monguilhott nasceu em Recife, Pernambuco. Passou grande parte da vida na Paraíba e há mais de vinte anos reside em São Paulo. Publicou “natural” e “de mim”, ambos editados pela Ofício das Palavras