Na transição de um ano para outro, é inevitável a feitura de algumas reflexões. No caso da Diversos Afins, não poderia ser diferente, tendo em vista a grande quantidade de pessoas que caminham por aqui traçando as linhas de suas mais difusas expressões artísticas. De novos a experientes, não foram poucos os autores que compartilharam conosco suas visões de mundo. Seja na construção de palavras, seja na composição e concepção de imagens, vislumbrou-se muito além do que um mero exercício do ato de criar. O que cada um traz em si é a tal perspectiva de despertar em nós lugares adormecidos ou ofuscados pela névoa dos dias. E é tão significativo quando um criador nos surpreende com viagens a espaços inimagináveis e nunca dantes habitados. Por vezes, a racionalidade excessiva ofusca-nos a possibilidade de darmos força aos rumos mais promissores da subjetividade, afastando-nos do mergulho no lago íntimo das coisas que são deveras especiais. Nesse sentido, a arte e a literatura são capazes de nos resgatar do marasmo encerrado na rotina aborrecida do mundo, promovendo encontros e engendrando vias diferenciadas de percepção. Com o findar de 2013, um ciclo importante de publicações se completa e a busca por outros caminhos se torna verdadeiro desafio. A edição atual corrobora com tal sentimento ao procurar mesclar um conjunto de vozes expressivas da seara cultural. Em toda a sua extensão, a 86ª Leva aparece entrecortada pelas imagens do fotógrafo Bruno Kepper, jovem artista que nos apresenta seu traço de leveza ante os densos contornos propostos pela vida. Saberemos também um pouco sobre histórias que nos atravessam ao pisarmos o solo dos contos de Anderson Fonseca, Yara Camillo e Pedro Costa Reis. As paisagens poéticas de Leonardo Mathias, Lou Vilela, Inês Monguilhott, Nydia Bonetti e Marília Miranda Lopes evocam odisseias intimistas. O escritor Marcos Pasche traz à tona algumas observações sobre as Novas Cartas Chilenas de José Paulo Paes. Rogério Coutinho celebra escutas em torno do primeiro disco de Sá, Rodrix e Guarabyra. O olhar inquietante do fotógrafo Silvio Crisóstomo é tema de uma virtuosa entrevista. Larissa Mendes aposta suas fichas em “A Grande Beleza”, novo filme do diretor Paolo Sorrentino. O poeta Jorge Elias Neto reflete sobre alguns lampejos da pós-modernidade. Tomados pelo sentimento de continuidade dos percursos, compartilhamos com você, querido leitor, essa celebração de vida. Que em 2014 outras tantas alamedas se configurem sólidas. Boas leituras!
Canções. As canções de pequeno. O trancelim dourado no qual me pendurava pelos dedos, deslizando e rodando suavemente pelo pulso da mãe. Real ou não. Às vezes era só trancelim. Quando não, era melhor, com as canções, que passeavam detalhadamente por cada assobio meu quando maior, entre os trabalhos na horta e no curral atrás da casa, com Noite, Lobisomem e os outros bichos, padres de minhas confissões. Se falava dentro da casa, era chibata, por isso penso, mais que falo. E ouço. E guardo essa lembrança dentre as meias e panos do meu quarto. O bater das agulhas da minha mãe à janela. Desta vez eu saio, pra não ouvir mais.
“estes xales e colchas eternos que faço. Motivo que seja, pra esquecer-me das horas. Somos somente três nesse fim de mundo pra onde Aurênio me arrastou, puxou e fincou com mais força do que as folhas que ele planta e arranca todo dia atrás de casa, com aquele menino burro. Arranca e liberta. Menino, não serve nem pra modelo das meias que faço pro pai dele, mas mesmo assim divide e gasta pra eu ter que fazer mais, todo dia. Perdi as contas. Tanto faz, sou mais ele que eu mesma.”
Luarina entoa discretamente uma das canções antigas enquanto tricota. Tensiona as bochechas com força pra não chorar, pois era sexta, e Noite já estava pronto pra levar Aurênio. O canto sai rouco e forçado.
Meu pai sai sem falar com ninguém. Entra em meu quarto, talvez para procurar meias. Relógio invisível de ponteiros iguais com os quais meço o tempo lento. Mãe tece a vida eterna entre sonos ocos da madrugada de sexta, entre a revolta e a resignação, espadas de horas, constantemente a estalar. Meu pai deu a volta na casa, ainda dentro da névoa. Só lembro-me da cidade, longe, de dia, quando novo, depois nunca mais ela precisou de mim. Antes era uma infinidade de pernas, lixo, vozes, gritos, pombos e muitos brinquedos. Pendurava-me nas tábuas e via difícil os bonecos que olhavam assustados ao redor, os cavalos olhando assustados para frente. Brisa quente. Olhava para a mãe de olhar sério e queixo forte, como o do pai. Será que sempre foi assim? Nem dava trela para a curiosidade, e não era doido de falar coisa que fosse. Voltava aos pés levando os sacos verdes fedidos, pesados.
Otávio persegue atento a intervalos de janelas os cascos de Noite névoa afora.
Por um momento esqueço dos sons dos ponteiros da mãe atrás de mim. Esqueço da sua presença, por pouco, sei bem. Mas sem acalanto hoje, deixa ela sozinha dormir em paz o sono vazio de canções. Dá saudade. Dava. Pensa bem, Tavito, olha a chibata ali atrás, é doido é? Medo de tudo, pavor de nada. Antes eu ia mais, de dia, até com meu pai. Agora meus amigos sumiram. Antes era correria. Agora também, mas sem sorriso ou gritaria.
Afasta-se da janela, ouve o distanciamento de Aurênio, cujo som dos cascos possantes de Noite emudece a canção que Luarina discretamente entoa.
O estalar novamente. Ela mal me olha de frente, muito menos na sexta. Se esquece no meio desses panos, as bochechas tesas. Sempre novas linhas no sábado, costurando as semanas em meses e anos. Mas essa sexta eu saio. Sete anos costurado nesse meio de nada. O silêncio é dono deles por aqui, mas hoje não. Vou-me em Lobisomem.
Sai da casa por detrás, pega a sela, a chibata e a rédea tateando pelas paredes e usando do costume apronta Lobisomem velho pra seguir. Luarina cochicha a melodia enquanto ouve Otávio por detrás da casa.
“Devia ter levado algo pra agradar as raparigas filhas da puta de sexta-feira, e agora o menino grande quer putariar também. Só pode, de fora tem tudo do pai, o demente. Meia é não era que foi procurar no quarto do menino. Só quero que volte. Essa música sempre, sempre”
Tricota com mais força, estalando forte as agulhas, uma na outra.
Agora não quero saber o porquê de ela nunca sair com meu pai toda sexta. Que fique. Aqui, as pegadas, mas longe, como vou ver? Luz. Sim, pela luz. Não ouvi sequer o som das cobras debaixo dos cascos do velho Lobisomem, perdi a noção e cheguei aos portais da cidade. Um vazio, e suspeitei que fosse o inferno, só dos gritos ao longe que vinham me receber. Das almas loucas ao longe passando bruxuleavam silhuetas na névoa corrente. Um vazio, e os balcões não estavam lá, na rua que senti nos pés ser a dos dias, antigos. Puxei com força Lobisomem e avancei. Segui a música alta, animada, e vi umas pessoas passando cheirando forte. Uma lâmpada fortíssima cobria de verde os passantes e a entrada do bar era ensurdecedora. Mar de gente se debatendo por dentro. Conhecia aqueles rostos velhos e desconhecia os novos. Havia um balcão úmido à frente, onde as pessoas se penduravam esticando as mãos e gritando um não-sei-o-que-de-mel-limão-tangerina-canela-pimenta-troco, e virei de lado numa entrada sem porta com uns dizeres obscenos em volta. Fui empurrado para dentro, olhei para trás e não vi alma que pudesse culpar. Me viro e de um susto pensei ter visto minha mãe sentada com uma puta no colo. Trancelim em pulso falso. Era meu pai que a sentava no colo, dourada com as memórias de criança. Acordei sem lembranças, caído na esquina do bar, entre gritos e o crocitar das sirenes. “Foge, foge, pirralho!”, um mendigo gritava. Corri tropeçando em poças, com o trancelim vermelho no bolso.
De uma das janelas, enquanto não entrava, ela se levantava de um susto, observou-a cruzar a sala até olhar para trás antes de entrar no quarto. Olhou para trás e foi deitar-se. Estava, ouviu? Mas ele não está dançando. Estava. Vai pro quarto, velha, que ele não volta mais. Cadeira de frente à janela e o xale meio acabado com as agulhas no chão. Foi pro quarto, limpou com os dedos o trancelim. Ela se virou, apertando o xale contra o corpo, a outra apoiada no rosto do menino dentro do quarto, que cheirava a velhice, a brisa gelava o suor debaixo dos lençóis. Não dormiu. De um susto levantou, sob a luz: viu o pai no rosto velho da mãe. Tirou a mão da corrente gasta em pulso seco. Virou a cabeça e o riso demente, desaparecendo à medida que calava o riso, desaparecendo de cabeça até embaixo como se subisse a cabeça primeiro e calava para algo que o suprimia como um desenho de giz sendo apagado da lousa.
(Pedro Costa Reis, nascido em 1987 em Recife, formou suas leituras no interior do estado e quando voltou, em 2003, à capital, iniciou sua produção com pequenos poemas escritos em cadernos escolares. Em 2005, lançou seu primeiro conto em uma revista mineira, e depois o mesmo conto foi para o portal Cronópios, bem como a prosa A borboletas do pai (Meu pai e as borboletas). Entrou na Contologia, organizada pela Cronópios e lançada em 2012, e seu conto Midas fez parte de uma antologia de narrativa fantástica da Fliporto de 2012. Enquanto isso, segue escrevendo)
Essa ave fugidia, eu a vejo de longe, na extensão gélida, sobre as montanhas. Minha tribo a chama de Desejo, mas não tentarei explicar por quê. Tente você, meu leitor, descobrir com o arrastar dos anos como montar essa palavra com o quebra-cabeça de peças que somem ao toque. Ela voava, chegava até a ser pretensiosa. Olhava para mim vez ou outra, podia jurar. Mas aterrissou na neve, bem próxima da minha armadilha. Mas não guardo tantas esperanças.
Ilusória, pode muitas vezes dissuadir-nos de sua presença, mesmo a quem tem olhos fixos nela, como, no momento, eu. Salto do meu cavalo bem longe de onde ela está, só para ter uma visão melhor da minha presa. Ajoelho-me lentamente enquanto ela lentamente perambula nas patas à procura de alimento. Bem próxima. Quase lá. Queria saber passar a sensação do suor estacionando no meio do caminho do meu rosto, a fim de não atrapalhar o acontecimento. Isso se chama concentração. Mas vejam, meus leitores, ela parou, me olhou com vista antiga e zombeteira, depositou um bicho qualquer em cima da minha armadilha, cuja reação foi de um estrondoso estalar de ferro e madeira, jogando neve para todos os lados, fazendo subir uma fumaça branca e espessa que despistou meu olhar da fuga do Desejo.
Se pensam que estou frustrado, é por que realmente não conhecem o sentimento pelo qual nomeamos aquele animal. Saberiam a carne magra e escassa que ela tem, quando vista de perto ou tocada, e saberiam que não a caçamos por alimento ou sustento. Ela passa por você muito mais sorrateiramente do que para nós, posto que sabemos que a incerteza é um dos traços mais fortes dessa ave. Mas ela passa por você, tenha certeza, pelo menos disso. Chego até a imaginar que, se me virasse, ela estaria à janela me espreitando…
Sem ela, meu amigo, tudo é mais sofrido. Até essa escrita. Penso agora: e se ela me espreitasse no espelho feito das palavras no papel? E se pousa no vácuo entre os verbos? Talvez se tentasse descrever esta ave para você, conseguisse capturá-la, ao menos por aqui, pelo papel. Mas a ave é feita de caos, e as palavras pesam. O papel não a suportaria.
***
Mosca Diuturna
Esfreguei os olhos e balancei a cabeça com rudeza de um lado para o outro, e franzi o cenho por conta da imensa luminosidade. Estava em um amplo areal branco infindável, completamente desorientado, e tirei os sapatos para poder avançar um pouco. Lembrei que estava de relógio em pulso e também o retirei. Senti debaixo dos meus pés aquela areia fina como pequenas lascas de vidro rasgando meu andar em frente, um andar fluido e quase imperceptível, o que me fez permanecer na dúvida se andava ou estaria somente imaginando o meu andar. Meu delírio começou quando eu vi tudo se modificar a cada passo, o firmamento mutável me trazendo imagens belíssimas medonhas felizes suicidas até eu quase cair de um precipício: o final do meu terreno, e sem forças não conseguia retornar ao ponto de onde comecei.
Daquele limite de terra branca tive outra visão: era um abismo cujo fim não sabia distinguir se era o fim ou o começo do fim, pois também era pálido como o areal. Mas, proeminente daquele cenário pacífico, ao longe, elevava-se uma montanha, e seu cume terminava na linha de minha visão paralisada. No topo desse cume, pude ver que havia uma sereia em seu topo, e olhava para mim.
Seu rosto era brilhante, parecia forjado em silício queimado, e seus cabelos esvoaçavam para o alto por conta de um vento frequente e forte que vinha da respiração daquele monte pálido e enorme – teias brancas brincavam em sua cabeça, se tecendo por si mesmas, em meio ao canto tremeluzente daquela voz etérea. Queriam se tecer para mim, mosca diuturna e oposta da vigília.
Quanta saudade senti quando reconheci-me naquele monstro, e parecia que meus pés tinham se diluído no pó de nuvem. Poderia até tentar avançar. O fim, ou o começo do fim, poderia também ser o começo, e poderia ousar pisar imaginando-o nele um prolongamento do terreno. Desvencilhei meu pé direito e toquei com a ponta do pé o que poderia ser um vazio, e uma pequena série de ondulações circulares percorreram velozmente o espaço entre meu cume e o cume da sereia com rosto de espelho.
Quando o padrão circular tocou o iceberg a minha frente, ele estremeceu e parecia também ser feito de areia branca, e a movimentação das águas poderia levemente destruir e afogar meu objetivo. Não mais tentei ousar percorrer a planície invisível, pois destronando aquele ser de seu espaço, seu por direito e meta, não poderia mais voltar a me reconhecer.
(Pedro Costa Reis, nascido em 1987 em Recife, formou suas leituras no interior do estado e quando voltou, em 2003, à capital, iniciou sua produção com pequenos poemas escritos em cadernos escolares. Em 2005, lançou seu primeiro conto em uma revista mineira, e depois o mesmo conto foi para o portal Cronópios, bem como a prosa A borboletas do pai (Meu pai e as borboletas). Entrou na Contologia, organizada pela Cronópios e lançada em 2012, e seu conto Midas fez parte de uma antologia de narrativa fantástica da Fliporto de 2012. Enquanto isso, segue escrevendo)