Brindemos ao poder de condensação e síntese do espírito poético que ronda o mundo. Saudemos essa capacidade de expansão pela qual as mais variadas formas de expressão artística perfazem seus caminhos mais genuínos. Ousamos levantar uma questão aqui: será a poesia a gênese de todos os campos da criação? Suponhamos que sim. E o que faremos com tal constatação? Levar a cabo a raiz motivacional de cada produto em matéria de arte. Tudo ficaria mais simples ao admitirmos a concepção há pouco proferida? Talvez. Discordâncias à parte, o fato é que não é pela ótica pura e simples da contemplação ou da leveza que iremos conduzir o entendimento, mas pelo caráter da inquietude que perpassa o ânimo poético. Com toda a sua carga de complexidades, estar no mundo nem sempre representa uma boa nova sob o ponto de vista do inventariar de temas. Talvez para evitar a suposta gratuidade do ofício, nalgum ponto imaginada, seja importante entendermos um criador como alguém que se esmera com cuidado e apuro na sua empreitada. Ao harmonizar certo método com os ímpetos intuitivos, o artista pode estar mais próximo de driblar percursos mais escorregadios. Desse modo, a criação de imagens e palavras apoia-se numa perspectiva na qual as coisas não transcorrem deliberadamente. Aos autores, cabe um discernimento crítico a respeito de tal condição, sobretudo para que a falsa ideia de uma obra reluzente não lhes embriague os sentidos e o despertar de outras investidas. No trabalho de pesquisa com a Diversos Afins, as revelações sobre esse íngreme caminho aparecem a todo o momento. Sem pretensões de delimitar classificações estéticas ou estilísticas, seguimos em frente no fomentar de novos encontros. É dessa maneira, com os apelos indescritíveis da poesia, que nos deparamos com as epifanias de gente como Myriam de Carvalho, Charles Marlon, Alessandra Cantero, Marina Tadeu e Simone Teodoro. No território da prosa, os contos de Munique Duarte, Pedro Reis e Anderson Fonseca reproduzem o delicado fio da seara ficcional. O entrevistado da vez é o cantor e compositor pernambucano Ricardo Chacon, que nos conta um pouco da sua trajetória, destacando a atmosfera do seu novo disco. Larissa Mendes fala dos efeitos que o primeiro álbum da Banda do Mar causou aos seus ouvidos. Num mergulho aprofundado no novo livro de poemas de Oleg Almeida, o escritor Marcelo Moraes Caetano constrói sua leitura crítica. “O Grande Hotel Budapeste”, filme de Wes Anderson, é o foco da resenha de Bolívar Landi. Pedro Reis comenta as suas impressões acerca de “Pequod”, romance de Vitor Ramil. Entrecortando as múltiplas vozes aqui presentes, as fotografias de Luciana Bignardi compõem um rico painel de observações de mundo. Seja bem-vindo a nossa 94ª Leva, caro leitor!
O travesseiro estofado de carpos e metacarpos tiritava ao movimento do crânio, me obrigando a levantar o tronco, insone. Como que por costume, viro os olhos, esperando que o breu me oferecesse alguma luz que fosse para ver o relógio a minha esquerda. O ponteiro menor permanecia entre os números 4 e 5, enquanto o maior, algo como no 36. O dos segundos, não havia, ou me despistava em sua velocidade. Esse dia haveria de ser uma segunda-feira, nada antes, nada após.
Sem olhar para o chão, evitando a vertigem, pouso os pés nas ossadas que encarpeteavam meu aposento. Ouço o estalar dos mais frágeis enquanto sacudia-os, cavando o chão por debaixo das mandíbulas a mordiscar meus tornozelos. Dou passadas firmes e lentas para não me ferir, e alcanço por fim a mesa. O relógio agora se atraiçoava atrás da nuca, e, como se não houvesse mesmo o ponteiro dos segundos, a engrenagem – podia jurar – não se ouvia.
O sono ainda ofuscava a fome daquele dia ainda não nascido, mas, sem acender as luzes, tateio as tíbias e rádios amontoados na altura de minhas canelas, à procura de algo com que ocupar os dentes. Encontro um fêmur levemente poroso e chupo um restante de cartilagem que se desprendia de sua extremidade.
Abri a primeira gaveta à direita e iniciei a checagem dos relatórios da noite anterior. Era um sem número de casualidades, anulações, aniquilações, espancamentos, mutilações, depredações e mais um tanto de hipotermias, náuseas, vômitos, tremores, cefaleias, mal estar, cansaços, dores musculares, diarreias e outros sintomas inespecíficos a preencher páginas e páginas lidas com um desconforto causado por aquela restolhada que assomava à minha cintura, me perfurando o tecido das calças, beliscando as coxas.
No intuito de libertar minhas pernas do acúmulo de escápulas, quase derrubo minha caneca de leite deitada à mesa. Era uma caneca longa, resistente e impecável, feita com um tipo de cerâmica incomum. Naquela segunda-feira, ela me era perfeita.
Já não sinto mais meus pés. Afogados naqueles restos extintos, não consegui movê-los e nem imaginar-lhes a situação. Minha cama certamente foi tomada pelo ajuntamento que me anavalhava as axilas, tilintando entre si ao mais leve movimento. Salvei os arquivos dentro das gavetas antes que estes fossem também engolidos, e levantei da mesa a inseparável caneca, prontificado a dar o último gole.
Com muita dificuldade sacrifiquei meu queixo e orelhas aos arranhões dos xifoides e sacros que me feriam o pescoço, e olhei novamente para o relógio escondido na bruma. O ponteiro menor, o das horas, se encontrava entre o 4º e o 5º número, enquanto o dos minutos era afogado por fíbulas, talos e mediais. Tive de cuspir alguns trapezoides para libertar minha boca ao derradeiro gole que me descia aos lábios. Com um rápido movimento dos dedos, pude ao menos limpar meus bigodes. A cor do leite se camuflava na cerração, enquanto me queimava a língua. Era negra, e tinha gosto de cinzas.
***
Matéria Assombrada
Acordo sem abrir os olhos. Aquela mão que me sobrevoa a testa e os cabelos tenta desviar-me do sonho anterior. Há como resgatá-lo, mantendo os olhos fechados. De uma carícia tão leve acima das sobrancelhas, não poderia sequer culpá-la, pois há anos não sonho, ou não lembro. Sigo a contar. Tenho uma vantagem em relação a minutos atrás, enquanto dormia. Meio desperto, acalentado por mãos pacientes, atento com clareza à história que se passava em minha cabeça, e posso controlá-la, controlar-me, com cuidado mover cada cor e gesto.
Havia uma ilha, cuja sinuosidade da costa se esticava de um lado a outro sem ceder à sua curvatura de contornos marítimos comuns às ilhas. E mesmo eu, ali pela primeira vez, a sabia ilha, talvez mais que ela. Sabia de sua cabeleira de folhas imitando com o vento o sussurro do mar, desajeitada, e que de seu topo pendiam pessoas, de lá nativos milenares. E olhando em direção a ela, com sua folhagem, com seus galhos colidindo entre si no balanço constante, guerreando espaço no universo acima da areia, tão úteis contra as chuvas, vejo que não rebatem a luz. Uma floresta espessa, mas tão clara quanto o litoral, refratava perfeitamente o sol. Sobre as árvores, não havia sombra.
Lembro-me intruso nesta ilha. Sim, mas não hostil, nem hostilizado pelos nativos. Quando, há cinquent’anos, cheguei aqui, vi do alto, despencando aos mil, os moradores daquele lugar. Aproximaram-se amigáveis, e de seus corpos, como que libertos do arco solar que acima clareava o dia em que cheguei, não possuíam também sombra alguma.
Mas talvez o mais interessante seja o modo como me olharam pela primeira vez. Seus olhos tinham uma cor chamuscada, não a cor baça dos cegos, mas uma queimada, fogueira morta, pela exposição perene durante o dia. Começavam a passear-me em volta, e contornavam cuidadosos a minha sombra indiferente. Uns mais corajosos chegavam muito perto dela, com os pés e as mãos e os olhos e as crianças, mas por medo não a tocavam. Alguns começaram a brincar com ela, pulavam de um lado a outro, enquanto eu ria. Vi alguns mais velhos reprimirem as brincadeiras, e seus olhos sem expressão se abriam inseguros. Minha sombra doía naqueles olhares.
Diferente das aventuras que li quando criança, não fui feito prisioneiro e muito menos fizeram festa pela minha presença. Puxado pelas duas mãos pelos nativos mais jovens, fui acolhido, sim, mas como um amigo mudado pelos anos, suficientemente distante para que qualquer tipo de rancor ou confiança se tivesse dissolvido no tempo. Para eles eu era um ser virgem, de natureza intocada. Eles me levaram por trilhas entrecruzadas na floresta, necessárias apesar da claridade que tonalizava de esmeralda reluzente o teto sobre nós.
Não havia palavras de agradecimento. Havia descoberto muito cedo que não havia palavra sequer por ali. Tive que adequar meus pensamentos aos gestos com os quais eles me envolviam durante os dias e as noites, enquanto as horas passavam, e eles passeavam a minha volta, numa ciranda lenta, comandada pelo sol, girando a minha sombra e consequentemente, eles. Queria falar para eles sobre o tempo, mas não pude.
Assustavam-se quando ela mudava de tamanho, se afinava e esticava quando o sol nascia ou se punha, e enfraquecia nas noites de lua. Pude jurar uma saudade naqueles olhos, olhando para ela. Via os mais velhos apontando os dedos para a sombra, explicando segredos para os mais novos de olhos curiosos. Perguntas curiosas sobre aqueles assuntos eram constantes, mas não conseguia tradução para os gestos que se seguiam, e permaneci ignorante àquelas histórias. Eu não tinha permissão de entrar nas moradas construídas nas alturas. Eles tinham medo de que minha sombra tocasse seus pertences, e pela primeira vez em vida tive de andar guiando minha sombra pelo tempo e pelo espaço da ilha.
Até o dia em que os mais velhos começaram a ficar sérios. Não frequentavam as histórias que eu gesticulava durante o dia, e começaram a acordar no meio da noite, sobressaltados por visões bizarras e escuras e incômodas. Não durou muito até eles chegarem a alguma resolução em relação a mim, e isto eu já esperava, dada a franqueza daquele povo.
Era final de tarde quando o grupo, representado pelo ancião de nome ingesticulável, iniciou diante de mim um complexo de movimentos, me explicando da forma mais clara e alentadora possível que eu precisava me desfazer da minha sombra. Dei um passo para trás, olhei para ela, para eles, para além das fronteiras de contornos marítimos. E com minhas mãos incipientes à comunicação dos assombrados, perguntei como poderia fazer o que eles me pediam.
Naquele mesmo instante, todos me guiaram até o litoral, de forma que minha sombra me seguia fina e enorme a minha frente, devido ao sol poente às nossas costas. Eles começaram um coro agudo e dissonante que se dissolveu em segundos nos meus ouvidos. O medo me ensurdeceu, meus pés se enterravam na areia, sem querer seguir em frente, a ponta da minha sombra quase a tocar a espuma branca daquele que a engoliria.
Eles colocaram a mão em meus ombros, me olharam enquanto cantavam e minhas lágrimas rolavam e meu peito doía e minhas pernas não mais me obedeciam, automáticas que estavam em direção ao mar. Minha sombra tocou as ondas fracas e calmas que forravam a areia molhada, dispersando os seus limites escuros no abismo. A metade dela já tinha seu destino para além das minhas reflexões, mas não sentia nada senão amor.
Quando senti a água fria nos calcanhares, já era noite, e afora o sopro das ondas e do coro eterno de meus companheiros, um coro que me espantava as memórias, vi centenas de olhos pálidos reluzirem em direção a mim. Todos eles me sorriam com os olhos, em círculo em volta do novo membro.
Mas em incertas manhãs, quando durmo com as marés, distante das árvores, tenho sonhos revestidos de saudade, e chego a sentir uma mão a me acariciar os cabelos, num gesto de calma e segurança. Se esta mão pertence a minha sombra antiga, nunca saberei. Sempre preferi manter os olhos fechados e a dúvida.
Pedro Reis (1987) mora atualmente em São Paulo. Lançou os contos Gorilas e As borboletas de meu pai pelo portal Cronópios, tendo participado também da Contologia, lançada pelo portal em 2012. Os contos Trancelim, Mosca Diuturna e Desejo você encontrará no periódico Diversos Afins. Com o conto Midas, entrou na Antologia de Literatura Fantástica, lançada pela Fliporto no final de 2012.
Manter sob controle a impossibilidade de controlar a vida. Umas das falas do Dr. Fiss, personagem misterioso que guarda uma estreita e não menos misteriosa relação identitária com Ahab, pai do narrador do livro intitulado Pequod, do escritor gaúcho Vitor Ramil, cujo título é também o nome da embarcação do capitão Ahab do livro Moby Dick, de Herman Melville.
Este primeiro emaranhado de relações que pus de início delimita somente algumas das muitas conexões que constroem o emaranhado da pequena novela, guardando uma significação que extrapola suas pouco mais de cem páginas.
A história ocorre de forma fragmentada, em vários episódios que separam o tempo atual – a relação de Ahab e seu filho – do tempo passado, onde se narra a infância de Ahab e a mudança de sua família para o Brasil, saindo do Uruguai. Há outros personagens na trama: os avós, a mãe e os irmãos, o estranho Dr. Fiss e alguns amigos de Ahab. Não há uma separação clara entre os dois tempos, e a descoberta da situação de cada capítulo deve se dar no decorrer da leitura.
Dois intertextos principais têm de ser destacados para o leitor deste livro. O primeiro é sua relação com o livro de Melville citado acima. Não é por coincidência que o nome de um dos principais personagens seja o mesmo do capitão do Pequod, Ahab. Os dois guardam uma obsessão monomaníaca: um, pela baleia branca monstruosa que dá nome ao clássico americano; outro, pela perfeição metafórica que vê nas teias das minúsculas aranhas encontradas em sua casa e sua relação com a linguagem poética.
O Ahab latino-americano tem um comportamento habitual de ajustar sempre um grande relógio em sua casa. Esse hábito, exato como o próprio funcionamento do relógio, por vezes perde o tino quando ele se tranca em um quarto, negligenciando o hábito de dar corda, esquecendo-se do tempo na reclusão do aposento. Ninguém de sua família sabe o que ele faz nessas ocasiões, mas o menino, investigando a relação de seu pai com o Dr. Fiss, entra escondido na casa daquele homem, mas é flagrado, passando pelo momento mais delirante do romance: a noite das oportunidades.
É neste momento que o doutor explica as motivações mais profundas de seu pai, e também um dos momentos mais interessantes do livro. Semelhante às temáticas borgeanas, Dr. Fiss, de posse dos poemas que Ahab escrevia, explica ao pequeno “espião” como cortava cada palavra dos escritos de seu pai, abria um livro qualquer de sua extensa biblioteca, procurava a palavra que havia recortado, e quando a encontrava, no livro, colava a mesma palavra por cima da palavra do livro, anotando de forma cifrada a localização daquela palavra do poema em sua biblioteca. Podemos encontrar uma dessas cifras em meados do livro.
O outro intertexto é com o pintor florentino renascentista Paolo Uccelo. Sua pintura, Relógio com Cabeças de Profetas, ou pelo menos seu esboço, serve de imagem inicial de cada capítulo, tendo no centro a fotografia que, descobre-se durante a leitura, é de seu pai quando pequeno.
A relação do livro com o pintor se colocaria na obsessão que Uccelo teve em vida com a perspectiva, técnica plástica inovadora na época. A novela de Ramil tem relação com esta técnica, pois também é estruturada em perspectiva, tendo como ponto de fuga o conflito entre o pai e o filho, e os acontecimentos que fazem a narrativa ocorrem em constante resgate do passado, que serve de centralização do presente, representado pelo filho.
A narração, apesar de posta na mente da criança, cria cenas ou situações líricas, em uma escrita onde prevalece o cotidiano simples, mas pincelado de visões poéticas. Ramil se arma da inocência infantil para adensar o lirismo das narrações, construindo cenas poéticas belíssimas, como quando ouve seu pai falar espanhol:
“O espanhol era então o idioma da sabedoria e da obscuridade. O espanhol era o idioma do silêncio. Ouvir Ahab falando espanhol era escutá-lo por dentro. Eu não precisava observar seus lábios, suas inflexões de rosto e voz. Não precisava escutá-lo. No fundo daquela poltrona, naquele saguão sombrio, eu estava no fundo dele, no fundo de Ahab em sua poltrona sob o relógio. O espanhol era então o idioma do pensamento e do tempo. Eu estava no fundo do tempo.”
Ou quando, em sonho, o menino chama ao pai, mas este não o ouve, e ocorre a pergunta fundamental:
“’Não ouviste eu te chamar?’ ‘Não. Talvez o ruído das ondas não tenha me deixado ouvir’, responde. Eu paro. E pergunto então como nunca em tempo algum: ‘Por que não gostas que eu te chame de pai?’ Ele para, me olha e diz: ‘Porque eu não quero que haja distância entre nós.”
Os dois personagens fisgam o leitor, por sua relação de poder, cumplicidade e fantasia. O narrador se vê como satélite de Ahab, mas também se vê como um semelhante, e vai carregar o legado vazio construído pelo seu pai para o futuro. Como dá por si ao final do livro: tratava-se, agora, de seu tempo.
Pequod é um livro sobre revelações, sobre descobertas. A descoberta da fotografia de seu pai, escondida pela avó. A descoberta da semelhança entre aquele ser enorme e admirável que é seu pai. A descoberta dos mistérios que cercam seu pai e o Dr. Fiss. O passado de sua família em Montevideo. Todas essas descobertas formam a narração do livro, bem como são parte importante da formação do pequeno narrador.
Pícaro é um dos termos que mais se repete no início do livro, quase um xingamento atirado pelos familiares ao infante narrador. Não pude deixar de notar que o adjetivo, que significa matreiro, malicioso e astuto, tem uma importância exemplar na história da literatura. Desde Homero, criando o Ulisses de mil ardis, costurando sua narrativa épica por meio das façanhas ladinas deste herói, nesta novela, Vitor Ramil, no papel do pequeno pícaro, trava sua batalha contra o caos incontrolável da vida, tecendo as palavras de seu passado, mantendo-as sob controle, sob a forma de literatura.
Pedro Reis (1987) mora atualmente em São Paulo. Lançou os contos Gorilas e As borboletas de meu pai pelo portal Cronópios, tendo participado também da Contologia, lançada pelo portal em 2012. Os contos Trancelim, Mosca Diuturna e Desejo você encontrará no periódico Diversos Afins. Com o conto Midas, entrou na Antologia de Literatura Fantástica, lançada pela Fliporto no final de 2012.
Em que medida a porção do sonho funda a matéria de que somos feitos? Onde o vigor da abstração quando necessitamos de um mergulho mais profundo rumo a nós mesmos? Refletir sobre o quanto estamos enraizados pelas nossas questões mais delicadas é algo desafiador ao ser humano. As motivações para se trilhar a jornada são intermináveis e, por isso, continuar é imperativo. Nesse trajeto, as revelações nem sempre são as melhores. Seja no confronto com a dor ou a beleza, o ato de criar teima em procurar abrigo de modo, algumas vezes, desavisado. A arte, enquanto instrumento de transformação, registra as marcas de nossa passagem pelo mundo. É como se houvesse uma necessidade curiosa de também fazer ecoar aquilo que guardamos a sete chaves. Inquietação, espanto, busca, vaidade, regozijo, melancolia e efusão aparecem como alguns dos mais prováveis ingredientes duma humana mistura guiada ora por lucidez, ora pela mais crônica cegueira. E isso apenas explica em parte certos propósitos da criação. O interessante mesmo é quando somos levados pela fluidez sugerida pelas mais diferentes mentes, cada uma delas compondo uma ordenação própria e feita de lugares que frequentemente relutamos em visitar. Assim, saborear tais caminhos é um se deixar levar, permitindo que o efeito duma provocação se faça cativo. A cada um é dado saber o quanto o chamado importa num processo que traz à tona espelhamentos ou negações. Imbuídos um pouco desse espírito, perfazemos 77 edições com a revista. Em meio a nossa trajetória, nos acostumamos a tatear as paredes do indizível, embora entre palavras e imagens possam aparentemente brotar significados que se explicam pela força que lhes é peculiar. É muito pouco tentar definir, por exemplo, o que se encerra nas epifanias contidas na arte de gente como Thaís Arcangelo, nossa expositora da vez. Nela, lidamos com o momento de harmonizar realidade e fantasia, o vivido e o inventado, tudo exalando uma aura de delicadeza a partir do prisma especialmente feminino. Também é tempo de acolhermos as investidas dos poetas Jorge de Souza Araújo, Ana Pérola, Alberto Boco, Raquel Gaio e Nestor Lampros. Compondo as janelas poéticas, a escritora Viviane de Santana Paulo traduz alguns poemas do autor alemão Dirk von Petersdorff. A partir de um conto de Myriam Campello, o escritor Héber Sales reflete sobre alguns caminhos da criação. Larissa Mendes percorre duas frentes: o filme “Hitchcock” e o disco de estreia do cantor e compositor capixaba SILVA. Falando sobre literatura e de toda uma especial relação com os livros, o escritor e editor Eduardo Lacerda é o entrevistado da vez. Há, ainda, a presença marcante das imagens contidas nos contos de Sérgio Tavares, Maria Lindgren e Pedro Reis. Um novo coletivo de expressões está em rota, caro leitor. Boas incursões!