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149ª Leva - 04/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Marcelo Benini

 

Ilustração: Drika Prates

 

Flores de Kafka

 

As cores sequestradas
Mistificadas em jardins
Ciano, magenta, amarelo e preto
Adesivos, banners, catálogos, prospectos
Brindes, camisetas, painéis
Uniformes anunciam a impossibilidade
De não estar mais dentro daquelas cores
De viver além do azul ou do vermelho
De fugir da identidade
De jogar o corpo fora da escala.

 

 

 

***

 

 

 

Passarinho

 

Só sei fazer poemas com passarinho
Todas as palavras cabem em passarinho
Dor, por exemplo, é uma palavra que
A gente não pensa em passarinho
Mas dor é passarinho
Na palavra gaiola
Saudade é uma palavra passarinho
Que procura terras distantes
Deus é passarinho no mamão
Amor é a palavra passarinho disfarçada
De passarinho.

 

 

 

***

 

 

 

Degredo

 

Deste país nada sei
Nele não respiro
Moro no país das árvores caídas
Dos banheiros sujos
Das escolas que enganam
Tropeço nas manhãs sóbrias
E infames deste lugar
Que não reconheço
Quero as noites sem pátria
Dos copos vazios
Do país de ontem.

 

 

 

***

 

 

 

A visão iletrada

 

Leio meu país
Com a visão iletrada
E o sorriso envergonhado
Faltando dentes

O país onde só as solidões
Grandes podem existir

A dos meninos
Das estatísticas
E a das fronteiras
Distantes
Em territórios vazios
De país

Leio meu país
Com o coração dos que
Nada sabem
Trancados neste lugar
Imaginário

De montanhas para baixo
E cidades desabitadas

Na posta-restante dos extravios humanos
Nasci neste país
Imenso e imerso
Em mim.

 

 

 

***

 

 

 

Palíndromo

 

Encontro sombras nos olhos negros
Sob a copa da árvore
No fundo do rio
Posso sair do rio
Mas estaria sob a copa da árvore
Posso cortar as árvores
Lá estariam os olhos negros
Posso fechar os olhos
Só restariam sombras.

 

 

 

***

 

 

 

Retrato com abelha no cabelo

 

Escrevo o lado oposto de quem me lê
Nunca pensei ser compreendido
Senão por passarinhos e saguis
As frutas me ajudaram mais que os
Dicionários de verbos e regimes
E as gramáticas
As palavras com as quais me importo
Ciscam
O vento que escrevo está nas folhas
Dos buritis
Só faço versos que têm sopro
No coração.

 

Marcelo Benini nasceu em 1970, na cidade de Cataguases, Minas Gerais. Publicou “O Capim Sobre o Coleiro” (poesia/2010/edição do autor); “O Homem Interdito” (crônica/2012/Intermeios); Fazenda de Cacos (poesia/2014/Intermeios); “Currais Concretos” (poesia/2018/Intermeios); “Poemas do Núcleo Rural” (poesia/2022/Penalux). Vive em uma área rural próxima a Brasília/DF.

 

 

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147ª Leva - 02/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Kleber Lima

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Os cavalos começam a correr.
Balançam minha cabeça.
Sacodem meu coração.
Em seus fortes lombos,
a doce bagagem extraviada,
segue terrestre e profundamente,
despachada na corrente sanguínea
até para fora da realidade.
– caem sobre dois olhos que brilham –
brilham como duas velinhas obstinadas
acesas por dentro da mais ampla escuridão.

 

 

 

***

 

 

 

agora me sento e penso em você.
penso sobre teus pés e tuas mãos.
no teu sorriso milésimos de segundos antes
de atravessar a linha de chegada até o meu.
nesta pequena dosagem de teus dedos angulares
que por onde passam
deixam um legado de lírios
como se iniciassem pássaros
a caligrafia dos teus cílios.

– me aquieto
afixado entre teus olhos
organizado como horóscopo
na estante do teu olhar –
aberto como livro em suas mãos,
páginas à tona num deserto,
hóspede da direção incerta
do ascendente do teu beijo,
que por detrás da cortina,
à espreita,
arranha meu peito.

 

 

 

***

 

 

 

Lá está você
uma janela por onde se vê os próprios olhos
um mar cujas águas mais fundas desembocam em si mesmas
uma flor que tanto mais desabrocha quanto mais entranhada do próprio perfume
um sol que por dentro irradia outros sóis
uma casa que é o único caminho para o próprio lar
um livro de páginas tais lidas com a língua embrulhada pelo silêncio
um alimento que cultiva a fome assim como a luz talha a sombra
uma oração que religa, dedo a dedo, as próprias mãos.

 

 

 

***

 

 

 

Veja
são todos leões
soltos na savana do sangue –
pesadas pedras que se carrega até ao mais alto.
Parecem com relâmpagos
arqueados pelos parapeitos do céu
prestes a eletrocutarem o ar que já não existe no peito.
Muito semelhante a trens desgovernados
cujos trilhos dependem de pedaços dos nossos corpos para não envergar.
Não se engane
são todos templos dinamitados
cujas crenças permanecem por séculos vivas
trabalhando em segredo por esse vínculo inquebrantável.
Eu havia falado: são leões, todos leões
rugem mais alto ou mais baixo –
depende da dose.
eu acabei de dizer:
são antídoto e veneno.

 

 

 

***

 

 

 

Meu deserto é um animal selvagem –
ao encontrar uma sombra
desiste da caça
e move-se contra si mesmo –
da própria carne tira os nacos
que endurecem o movediço terreno
fincado debaixo de si.

por onde quer que se olhe –
areia areia areia.
nada sobrevive nada
à fome de se devorar
dentro
o lugar de onde veio
esse coração dependurado
que rasga como um olho
a escuridão que teima em acender.

 

 

 

***

 

 

 

Depois que você devorou a si mesmo
mastigou sua orelha
a ponta dos seus dedos
folheou seu coração
encheu de tufos de cílios
páginas com os melhores trechos –
inaugurou uma plateia com suas vísceras
pôs cadeiras cativas para
sua inadequação
suas conjunções malignas
seus monstros
sua má companhia –
depois que seus dentes molares
começaram a balançar
do tanto de violentas mordidas
nos maciços tijolos da lida –
enfim aprendeu que a vida
com seu adubo de feridas
é que nos engraça.

 

Kleber Lima. Bibliotecário. Teresina (PI). 1984. Publicou “Poemas I” pela Ed. Penalux em 2016.

 

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129ª Leva - 01/2019 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

A Literatura que não economiza no humor e na fantasia

Por Geraldo Lima

 

 

Claudio Parreira é desses escritores que enxergam a realidade pela ótica da zombaria, do humor, do escracho. Sua crítica aos poderosos ou ao comportamento humano passa sempre pelo rebaixamento ou pela ação de despir qualquer gesto grandioso da sua aura de importância. Na sua narrativa não cabem a sisudez, a dramaticidade ou o discurso grandiloquente. Não que ela seja marcada pela frivolidade, muito pelo contrário: esse seu caráter de desconstrução do que se determina como sério aponta exatamente para a descrença do autor na ideia de redenção do ser humano por intermédio de um discurso edificante. Claudio Parreira é, nesse sentido, um pessimista. Daí o modo zombeteiro com que trata literariamente as aflições humanas. É esse modo de narrar irreverente que o leitor encontra em A Lua é um grande queijo suspenso no céu, romance que o autor publicou, em 2017, pela Editora Penalux.

Para os que leram Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, fica mais fácil entrar no clima fantástico e irreverente desse romance de Parreira. Não que isso se imponha como exigência para se entender a história contada por ele, mas, com certeza, os que leram a referida obra de Machado vão sacar de imediato que o romance A Lua é um grande queijo suspenso no céu dialoga diretamente com ela. Não só dialoga, como traz, para dentro da sua narrativa, a figura do Bruxo do Cosme Velho.

“Sem considerar o absurdo de estar conversando com alguém, digamos, tecnicamente morto, mandei uma pergunta:

– O que é que você, senhor…

– Assis. M. Assis ao seu dispor – ele respondeu, o cigarro lançando uma fumaça preguiçosa para o alto” [pág. 35].

À semelhança do livro de Machado de Assis, o romance de Parreira traz também um defunto-autor [que faz constante uso da metalinguagem e da intertextualidade]. Só que, neste caso, um defunto-autor que está escrevendo um diário, cujos eventos dão-se entre os muros de um cemitério. O livro abre, na verdade, com um prólogo narrado em terceira pessoa. Nesse prólogo, sabemos que um corpo está sendo levado para o IML, numa ambulância, acompanhado por um médico e um enfermeiro.  Junto ao corpo encontra-se um caderno. E é através da leitura, feita pelo médico, do que está escrito nesse caderno que somos conduzidos à história que se passa no interior de um cemitério. Essa história, para espanto do leitor, ainda está sendo escrita pelo protagonista, que, inicialmente, denomina-se Pafúncio [a questão do duplo é uma das tensões presentes na narrativa]: “– Admiro a sua determinação. Não é nada fácil viver uma aventura e escrevê-la ao mesmo tempo” (pág. 109). Essa trama pode parecer absurda e inverossímil num primeiro momento, mas, durante o desenrolar da narrativa, somos constantemente alertados de que, ali, no reino dos mortos [e no reino da fantasia, também!], tudo é possível. O engraçado é que, assim como a protagonista da peça Valsa nº 6, de Nelson Rodrigues, o tal Pafúncio não se reconhece como morto. E vai levar um bom tempo até reconhecer a sua nova condição, apesar de todas as evidências de que já não se encontra no mundo dos vivos.

Se Brás Cubas, no além-túmulo, decide escrever suas memórias com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, o personagem de Parreira não fará muito diferente: com a caneta da galhofa e da fantasia, ele, instigado por outro personagem, o misterioso Bernabé, dá início às suas idas e vindas em busca da panaceia, neste caso, pela cura do grande mal que aflige a humanidade: a Miséria. A partir daí, o que se vê é o nonsense, o fantástico, a irreverência, num universo em que se misturam vivos e mortos. Esse jogo entre vida e morte, entre o anseio pelo conhecimento e a dúvida de que se vale a pena mesmo buscá-lo, cria uma certa tensão entre o protagonista e aquele que o instigou a procurar a panaceia. Mas nada aí se propõe a criar discussões muito engajadas ou climas dramáticos. Quando a narrativa se encaminha nessa direção, o defunto-autor trata logo de desconstruí-la, apelando, até mesmo, para o juízo crítico do autor de Memórias póstumas de Brás Cubas:

“Poucos fatos, é verdade, mas ainda assim. Esta seria, portanto, a minha salvação (e a de Bernabé também) e, paradoxalmente, a minha maldição. Ó!

– Larga mão de ser dramático!

O forte cheiro de cigarro não deixou dúvidas: era o tal M. Assis de novo…” (pág. 107).

No esforço de afastar o discurso de qualquer tom solene, o autor procura manter a linguagem num nível menos elevado, apelando, às vezes, para a linguagem chula, coloquial. “Em busca da fórmula de porra nenhuma, de uma panaceia tão concreta quanto um unicórnio” (pág. 53). “Estava sobre uma laje de mármore fria pacarái” (pág. 99).  Assim, qualquer palavra mais sofisticada ou expressão mais poética da linguagem que apareçam, como que por descuido do narrador, eis que são logo sacaneadas, rebaixadas, usando-se, para isso, divertidas notas de rodapé. “– Bobagem – pensei enquanto o vento chicoteava meu rosto e cabelos com a fúria das suas carícias.”²9 E a nota de rodapé: “29. Deusolivre! Que expressão…” (pág. 81).

O tom da narrativa de Claudio Parreira é esse. E nessa narrativa marcada pelo gracejo impera a constante desconstrução do sentido elevado da linguagem. Cabe então ao leitor desconstruir-se também e entregar-se ao clima de gozação que a permeia. Muitas vezes, somos alertados pelos autores sobre os riscos ou consequências da leitura da sua obra [o que só nos instiga mais ainda a lê-la].  Assim o faz Lautréamont [ou o eu lírico/narrador dos seus Cantos de Maldoror] logo no Canto Primeiro: “Não convém que qualquer um leia as páginas a seguir; só alguns conseguirão saborear este fruto amargo sem maiores riscos. (…) Ouve bem o que te digo: dirige teus passos para trás e não para frente, assim como os olhos de um filho que se afasta respeitosamente da contemplação augusta do rosto materno” (pág. 31). Ou o próprio Brás Cubas, em tom bem debochado: “A obra em si mesma é tudo; se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus” (pág. 12).  Parreira, ou seu defunto-autor, só vai se dirigir ao leitor, nesses termos, lá para a página 41, quando percebe que a sua narrativa circular, ou seu eterno retorno ao ponto de partida, pode enfastiar o leitor mais impaciente: “Mas aqui, cá entre nós, já percebi uma coisa: esta narrativa vai e volta, se enrola sobre si mesma, não fode nem sai de cima. Acho que é bom dar logo um norte a esse negócio, senão vocês aí podem ficar entediados e fechar o livro, o que não é bom pra mim e muito menos para a editora. Sigamos então!” (pág. 41).

Então, caro leitor, mergulhe sem medo nas páginas fúnebres e delirantes dessa obra de Claudio Parreira e se divirta um bocado.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista.