Com quantas credenciais se faz um escritor? De pronto, a resposta pode apresentar perspectivas das mais variadas e, sem dúvida alguma, o caráter pessoal que cada criador carrega em si é quem dá a melhor tônica. A singularidade das experiências individuais parece mesmo apontar arejadas direções e, por assim dizer, configurar estratégias que derivam dos universos essencialmente particulares. Eis então o ponto de grande relevância: saber que um autor reproduz em sua obra toda a sorte de imagens e sensações que o atravessam de forma pungente.
Apartados das viciosas comparações, seguiremos pensando que aquele que escreve constrói rotas e saídas fundamentais para que seus textos digam respeito a uma espécie de traçado próprio da imaginação. Ainda que sejamos tentados a considerar que não existe nada de novo sob o sol, a matéria criativa sofre um fluxo de transformação capaz de conferir outras possibilidades de se contar a história do mundo. Daí que escrever é cruzar um deserto através do qual muitas imagens se turvam dada a imensa quantidade de referências em que mergulhamos nas nossas fugidias trajetórias de vida. E qual a solução mais adequada para não se perder em meio a esse turbilhão de informações e signos múltiplos?
Suspeito que um autor como Paulo Bono nos dê indicativos consistentes de que é possível erguer pontes e outras dimensões quando o tema é fazer das palavras aliadas de uma obra literária. Ao dizer isso, refiro-me ao fato de que ele encara seu engenho criativo como alguém que se lança para a literatura com o desejo genuíno de não se aprisionar aos ruídos impostos por certas limitações. Pelo contrário, Bono tem sido capaz de desacomodar pudores ao nos mostrar suas investidas literárias repletas de vida. E falar disso é reconhecer que o trunfo aqui está em desencavar e fazer desfilar ante nossos olhos de leitores toda uma sorte de cenários e personagens que encontram correspondência com aquilo que somos.
É esse Paulo Bono que agora entrevisto noutro momento de sua carreira, tempo que remonta aos efeitos do seu mais recente livro, Pepperoni (contos), lançado pela P55 Edição em 2024. Nunca é demais lembrar que a qualidade literária dele já vinha se delineando com os contos de Espalitando (Ed. Cousa, 2023) e o romance Sexy Ugly (Ed. Mondrongo, 2019). De posse de seu novo livro, Bono reafirma o compromisso de fazer de seu ofício de escritor uma representação coerente da vida que já mais podemos esconder, pois é ela que inalienavelmente nos constitui, seja lá quem formos. As provocações estão aqui postas nesta breve conversa, e delas ele não foge.
Paulo Bono / Foto: Vinicius Xavier
DA – Depois de Espalitando e Sexy Ugly, dois livros que são de fundamental importância para termos em conta as suas credenciais de autor, você agora nos oferta Pepperoni. No mais novo rebento, sua escrita está cada vez mais apurada e certeira, cujas narrativas revelam fragmentos instigantes de mundo, o mesmo mundo que às vezes tenta nos impor limites e pudores. Como foi estar nesse lugar de ver um outro livro surgir?
PAULO BONO – Costumo dizer que Espalitando foi um livro de blogueiro. A maioria dos textos já estavam prontos. E Sexy Ugly era uma história antiga que eu já tinha na cabeça. Pepperoni foi diferente. Só havia mato. Me senti um pedreiro a levantar uma obra. Acordava cedo pra trabalhar nas histórias, nem que fosse uma página ou um parágrafo ou uma linha. Digo, antes da labuta que paga as contas, eu tinha esse cartão pra bater. E como hoje leio um pouco mais, acho que eu era um pedreiro com mais ferramentas. Temas, personagens, diálogos, palavras proibidas. Levantei cada parede do jeito que eu queria (ou tentei), mesmo que ninguém quisesse entrar nessa casa. Me diverti escrevendo, mas também suei bastante. Então o bacana é que eu não vi o Pepperoni surgir. Sinto que trabalhei pra isso.
DA – Esse seu processo com o livro novo remete também àquela ideia de que a criação literária é algo que envolve certa labuta e constância, inclusive para além da tão batida inspiração. Escrever, para você, sugere algum tipo de embate consigo mesmo até que as coisas aconteçam de fato?
PAULO BONO – Altos embates. É antes de sentar a bunda pra escrever que a peleja acontece. Quando passo dia e noite pensando pra onde vai a história, o que quero dizer, como dizer e se vale a pena escrever. Será que tenho apenas uma ideia estúpida? Será que sou incapaz de escrever algo que preste? Pra que diabo nasci? Isso pode levar um dia, meses ou anos. A história pode até morrer pelo caminho. Já sofri mais com isso. Hoje, até porque não tenho pressa de publicar, vejo esses embates como parte da maturação da ideia. Numa dessas, levou uns quatro anos pro Pepperoni sair do forno.
DA – Nesse tempo que o livro levou para ficar pronto, como se deu a construção dele em termos de estrutura e escolha das narrativas e suas temáticas?
PAULO BONO – Depois do Sexy Ugly, eu só queria voltar aos contos, às possibilidades das histórias curtas. Não tinha em mente um livro, muito menos um tema que amarrasse tudo. Era só meu bloquinho de notas no celular com rabiscos e ideias de motes e personagens. Aí é interessante que o primeiro conto do livro foi exatamente o primeiro que escrevi – “Dr. Gori, o criador de monstros”. A coisa do garoto não ser o herói que desejava. Achei que a última frase dava pano pra manga. A partir dali, garimpei histórias de personagens que lutavam para ser alguma coisa. Surgiram ideias como o jovem que queria ser escritor, a mulher que não queria ser amada, o olheiro que queria voltar a ser bom, o cara que queria voltar a ser criança, o assassino que queria se sentir pleno e por aí vai. Cada conto com seu desafio de encontrar o próprio norte. Acontece que depois do livro finalizado, das releituras e tempo de maturação, achei que o que saltava daquelas páginas eram as falhas dos personagens. Como se o livrofosse uma timeline de traumas, medos, defeitos, egoísmo, machismo, estupidez, inveja, preconceitos, pecados, inabilidades, fragilidades diante do mundo e falta de sorte. Só que não como uma crítica ou num tom acusatório. Mas como um espelho de quem somos e a turma por aí tenta negar ou proibir de falar. Lembra do garoto que não conseguiu ser herói? Pepperoni é uma homenagem às nossas kriptonitas.
DA – Um dos pontos de relevância de Pepperoni é justamente esse elenco de personagens que de fato compõem nosso tempo. E você não se furta a colocar ali as mazelas derivadas dos comportamentos que atravessam essa gente, mesmo que expor tais feridas seja algo ruidoso nos dias atuais. Como é que se equaciona tudo isso em favor da literatura?
PAULO BONO – O ponto é perceber que essa gente sou eu, você, a vizinha, seu dentista, o padeiro, o presidente, sua cantora favorita ou o peixeiro da esquina. Quem vomita tais mazelas somos nós. Alguns apenas disfarçam mais, nem que seja apontando pro focinho do outro. É muito louco não poder falar sobre quem somos. Chega a ser uma ingenuidade suspeita achar que suprimir palavras e polir personagens vai curar as feridas do mundo. Há uma gincana de virtudes por aí que serve apenas pra ganhar likes e novos contratos. Esquecem que nossa riqueza é feita de luz e sombra. Esquecem que o que torna o super-homem mais próximo do ser humano é a kriptonita. É aí que rola um ponto a favor da literatura. Se o Instagram não faz o serviço sujo, abre-se essa lacuna. A literatura, como outro tipo de arte, está aí pra botar o dedo na ferida e mostrar como somos completos humanos.
DA – É interessante perceber que a figura de Deco Ramone, personagem que também está presente em Sexy Ugly, reaparece agora num dos contos de Pepperoni. Diria que essa escolha envolve a ideia de que sua obra está aberta a uma dinâmica que não se prende ao espaço e ao tempo?
PAULO BONO – O bacana é que o retorno de Deco Ramone era um pedido dos leitores do Sexy Ugly. A turma vinha com a ideia do personagem ser o meu Mandrake, o meu Bandini. Eu achava interessante. E um prequel que mostrasse Ramone no seu auge encarando figuras escrotas e dilemas morais caía como uma luva em Pepperoni. Trazer Ramone de volta é como revisitar a Lapinha ou Feira de Santana nas histórias. Como Gabo e Ubaldo tanto faziam com Macondo e Itaparica. Vai além de uma repetição temática. Ninguém é o mesmo ao longo do tempo. Nem as pessoas nem os lugares. Então abre-se mais uma oportunidade pra literatura. Reencontrar personagens e cenários, enxergar histórias por ângulos diferentes e por aí vai. É uma dinâmica divertida.
DA – Por falar em leitores, o quanto a recepção de sua literatura influencia nos seus processos de escrita?
PAULO BONO – É bacana quando alguém chega e diz que um conto fez rir ou chorar. Funciona como um empurrão pra gente seguir escrevendo. É o tipo de influência que dá um gás. Mas, durante o processo de escrita, tento não me preocupar com a receptividade. Tem uma turma que espera que eu escreva sempre a mesma coisa e outra que jamais lerá minhas histórias. Se eu pensar em qualquer uma delas, não saio do lugar.
Foto: Vinicius Xavier
DA – Há quem lhe considere como sendo uma espécie de imitador de Bukowski. O que acha disso?
PAULO BONO – É uma impressão acertada. Tem até um conto em Pepperoni que canta essa pedra. O que lamento é a razão de afirmarem isso. A impressão que dá é que pinçam alguns sinais na superfície e pronto. Qualquer texto que tenha pau, xota e bebida recebe o diagnóstico automático de imitação de Bukowski. Uma visão reducionista sobre um autor gigante que escrevia com humor e ternura histórias cheias de humanidade. Quero dizer, eu apenas tento imitá-lo, mas não sou feliz na missão. Porém, conheço escritores de mão cheia que têm Buk como patrono — ou se preferir — imitadores de Bukowski. Imitação pode ser um ponto de partida natural. A gente tem por aí tantos imitadores de Machado, Clarice, Roth, Kerouac e Veríssimo. Imagine quantos Itamares Vieiras pipocaram como gremlins nos últimos anos. Já no meu bolso, vai a carteirinha do clube dos imitadores do Velho. Mas devo dizer que minha pseudo-imitação é promíscua e ordinária. Quando não tem paus e xotas, talvez seja difícil perceber. Mas em Pepperoni, tentei imitar também Vonnegut, Bradbury, Salinger e Rubão. Como obviamente não consegui, o resultado é Paulo Bono.
DA – A Literatura pode realmente tudo, inclusive não se deixar afetar por tentativas de controle ideológico ou toda sorte de censuras?
PAULO BONO – Não acho que ela esteja acima do bem e do mal. Mas, assim como qualquer tipo de arte, a literatura está aí pra controverter o que é o mal e o bem, subverter a ordem das coisas e chutar as fuças de qualquer tipo de controle ou censura.
DA – Nossa contemporaneidade tem mostrado uma atenção maior a temas que antes normalizavam desrespeitos e invisibilidades, sobretudo com relação a minorias. E isso parece ter ecoado também de forma significativa no terreno literário. Acredita que estamos um pouco melhores?
PAULO BONO – Estou com Chico Science. “Um passo à frente e não estamos mais no mesmo lugar”. O aumento da representatividade nas artes, mesmo quando a fórceps, ajuda bastante. Uma turma que estava fora do jogo ganhando a vez, ganhando voz, ganhando as páginas. Não sei, talvez o passo seguinte seja vencer as mesas nichadas. Que tenhamos essas minorias escrevendo mais humor, noir, romance, terror, ficção científica, imitando Bukowski ou quem quiser. É bom pra todo mundo e a literatura agradece.
DA – Trazer Pepperoni ao mundo simboliza qual momento de sua jornada como escritor?
PAULO BONO – Primeiro, acho que simboliza um amadurecimento como leitor. Li bastante durante a escrita. Não foi um lance de quantidade, mas de constância, releituras e descobertas de autores. Pepperoni é consequência dessa ingestão de nutrientes, de um tesão pelas possibilidades literárias. É também um livro que configura um senso de liberdade como autor. Não tenho rabo preso com temas nem curtidas. Não tenho uma caralhada de seguidores, nem quero ter. Não corro atrás de prêmios nem convites. Não vivo disso e nem vou ganhar dinheiro com isso. Só sobra a vontade de escrever. Escrever o que eu quiser. E isso é uma puta sensação de liberdade.
DA – Já lhe ocorreu a ideia do que de fato buscamos com a Literatura, sejamos leitores ou vestindo a pele de escritores?
PAULO BONO – Acho que é muito pessoal. Alguns buscam na literatura o que outros encontram na música, no surf, no bar, numa mesa de pôquer ou num pagode todo fim de semana. Uma espécie de preenchimento, alívio, sei lá. Aquela coisa de não viver sem isso. E talvez mais foda do que o que a gente busca é o que a literatura entrega. De repente, você abre um livro pra se divertir e leva um soco na cara. Você busca mistério e ele diz o que o jornal vai falar mais tarde ou por que toda reunião de condomínio é um inferno ou joga na cara que o problema é você. Nunca se sabe. Acho que a tal busca também varia na pele do escritor. Tem gente que escreve pra ganhar dinheiro, outros pra botar pra fora, outros pra matar o tempo e outros pra não enlouquecer. E estão todos certos.
Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.
O roteirista e escritor Victor Mascarenhas costuma dizer que “Sete dias em setembro” era para ter sido o seu segundo livro. Autor de vários livros, com destaque para “Cafeína”, ganhador do Prêmio Braskem Cultura e Arte, da Fundação Casa de Jorge Amado, livro prefaciado por ninguém menos que Fausto Fawcett, esse feirense nos surpreendeu ano passado com o lançamento de um romance histórico em que, baseado em pesquisas criteriosas, ele criou uma história envolvente, tendo como escolha principal a visão de dois protagonistas quase anônimos – Paulo Bregaro e Antônio Ramos Cordeiro; o primeiro, oficial do Supremo Tribunal Militar e correio-geral da Corte, e o segundo, major.
Lançado pela P55 edições, em parceria com o selo do próprio autor, a Cafeína – Produção de Conteúdo, “Sete dias em setembro” parece trazer uma nova abordagem quanto aos fatos ocorridos há 200 anos. Fatos que culminaram com a Independência do Brasil. No livro, além de optar por uma bem elaborada ficção para preencher “lacunas”, Mascarenhas nos conduz por uma viagem em que, além das pesquisas, da preocupação histórica e da vontade de se publicar um bom livro, o que prevalece é o gosto pela literatura e por uma ficção de qualidade.
Abaixo, segue uma breve, mas enriquecedora conversa que tivemos sobre o seu romance.
Victor Mascarenhas / Foto: Ari Capela
DA – Duas coisas me chamaram a atenção em seu livro: a forma escolhida para se contar a história, em que o narrador se utiliza de uma “oralidade”, tal como Cervantes em Quixote, e o fato de que a Independência do Brasil foi um processo mais lento do que o ensinado nas escolas. Você concorda que essa forma “oral” serviu para nos mostrar de maneira mais ampla esse momento histórico, já que ela permitiu que fossem relatados outros fatos que extrapolam, em tese, o enredo, mas que são fundamentais para o desenvolvimento do livro, incluindo aí seu viés ficcional?
VICTOR MASCARENHAS – A gente tende a minimizar nossa história quando não enxerga a Independência como resultado de um processo complexo e de muita luta dos brasileiros. É um desserviço reduzir tudo a um arroubo de D. Pedro, ignorando o cenário internacional, onde o liberalismo estava derrubando o velho absolutismo, ou minimizando a luta do povo brasileiro que se uniu para vencer o exército português e na defesa do então príncipe regente contra os desmandos de Lisboa. Um exemplo que traduz bem a mobilização popular e o papel do futuro imperador está no nome do batalhão onde Maria Quitéria lutou durante a guerra na Bahia: Batalhão de Voluntários do Príncipe D. Pedro. Diante de tudo isso, o desafio era levar o leitor para esse cenário sem ser didático ou redundante e eu queria fazer isso num livro de aventura a la Alexandre Dumas, com o humor e a coloquialidade do “Memórias de um sargento de milícias”. A oralidade que você apontou, que tem como ancestral infinitamente superior o “Dom Quixote” de Cervantes, vem dessa escolha e permeia o livro através do seu narrador, que tem como tarefa principal relatar a viagem dos protagonistas – os dois mensageiros que levam as cartas do Rio até Pedro nas margens do Ipiranga – mas que vai traçando o panorama de um país convulsionado através da história de vários outros personagens, passando por cidades diferentes, comentando os fatos, conversando com o leitor e fazendo paralelos da época com o presente. Mas o que era mais importante era fazer tudo isso mantendo o rigor histórico, enquanto operava com personagens reais em situações fictícias. Por isso, tratei logo de avisar na epígrafe: “Esta é uma obra de ficção, mas qualquer semelhança com nomes, pessoas ou acontecimentos reais não terá sido mera coincidência”.
DA – Além dos acontecimentos reais que lastreiam o enredo, temos aí um delicioso rol de histórias também reais e no mínimo curiosas, envolvendo D. Pedro e outras figuras, conforme você vem divulgando em entrevistas. Conte-nos um pouco sobre elas. E de como foi escolher algumas, dentre tantas, visando dar um direcionamento ao livro.
VICTOR MASCARENHAS – D. Pedro é um personagem tão extraordinário que parece até inventado. Era um tipo complexo e com um humor absolutamente instável, dividido entre suas responsabilidades políticas e uma compulsão pela vida mundana que rendeu muitas histórias, digamos assim, inusitadas. O critério para seleção de algumas dessas histórias e personagens foi ter ligação direta ou indireta com o processo e o período da Independência. O curioso é que mesmo usando apenas fatos documentados, tem coisas que estão no livro que parecem ficção, como no trecho em que os protagonistas se hospedam em um puteiro em Taubaté e são informados que D. Pedro havia dormido lá. Parece mentira, mas a estadia do futuro imperador no bordel realmente aconteceu. Outro exemplo: Pedro, quando criança, costumava se entediar durante a cerimônia do beija-mão no palácio e se divertia dando petelecos no nariz das pessoas. Usei essa informação para explicar a razão do ódio de um dos personagens por ele. Outra informação real que parece mentira é a história da dívida de 12 contos de D. Pedro com um bodegueiro chamado Pilotinho, que surge no livro num encontro entre o agiota e Plácido, um amigo picareta do príncipe, que renegocia o débito e revela que sua origem está nos gastos de Pedro com uma amante francesa, a atriz Noely. Todos os personagens envolvidos nessa história são reais, assim como a dívida, mas a situação que vemos no livro é totalmente fictícia. Esse processo se repete em toda a obra, até na célebre diarreia que acomete Pedro às margens do Ipiranga, quando o leitor descobre que ele parou oito vezes para se aliviar e que tomou um chá de goiabeira numa estalagem em Cubatão para tentar conter a dor de barriga. Tanto as oito paradas quanto o chá estão documentados em relatos da época, mas é algo tão inusitado para um vulto histórico que até parece invenção.
DA –Daí que você pareceu se apegar a alguns outros acontecimentos marcantes, fartamente documentados, menos pitorescos e, até então, incontestáveis – a participação popular e heroica de alguns personagens, por exemplo, além da grandeza dos quase anônimos, habilmente convertida em ficção de qualidade em suas mãos. Em algum momento, você temeu ser tachado de ufanista, considerando que a Independência também está sujeita aos tais revisionismos?
VICTOR MASCARENHAS – Apesar de ser o recorte de um período histórico e ter como motor da ação os atos de vários personagens reais, o livro é uma obra de ficção. Meu trabalho como escritor foi atuar nas lacunas deixadas pelos documentos históricos, mantendo a coerência com os fatos. Os personagens e acontecimentos são narrados sob o ponto de vista mais humano possível, o que afasta qualquer leitura ufanista ou heroica ao apresentar razões bem pouco nobres para atos que sempre nos foram apresentados como algo grandioso. O que melhor exemplifica como o livro foi construído é a história da viagem dos mensageiros, que é o eixo central da trama. O único registro sobre ela é que durou cinco dias, que era menos da metade do tempo usual. Esse dado, somado ao fato deles irem sozinhos e sem uma escolta, já mostra que havia uma urgência e uma tentativa de passar despercebidos, o que já remete a uma missão secreta. O clima belicoso entre defensores de Portugal e da Independência adiciona perigo à receita e os relatos da mesma viagem, feita por D. Pedro semanas antes e que foi fartamente documentada, serviu de roteiro para a jornada dos mensageiros, assim como o impacto da passagem do príncipe por várias cidades forneceu as histórias que eles foram ouvindo pelo caminho. Esse mecanismo que cria situações fictícias a partir de fatos e personagens reais está presente no livro todo.
DA – Em algumas entrevistas, você já falou que recorreu a outros livros para trabalhar a linguagem dos personagens. E essa pesquisa pareceu extrapolar um pouco a linguagem em si, influenciando também a técnica usada na sua escrita. Dessa forma, podemos dizer que seu livro possui também algumas características clássicas do folhetim, sem, contudo, perder a complexidade comum ao romance, ainda mais sendo o seu um romance histórico e fiel ao rigor dos fatos ocorridos?
VICTOR MASCARENHAS – A questão da linguagem dos personagens foi um grande desafio. Não podia construir os diálogos com o português contemporâneo e nem escrever como se falava 200 anos atrás, sob o risco de tornar o livro chato ou até incompreensível para o leitor. A solução que encontrei foi recorrer à literatura do século XIX em busca de expressões, palavras, gestos e comportamentos que ajudassem a criar uma linguagem estilizada para os personagens, que fosse crível como o português falado há 200 anos e compreensível hoje. Nessa pesquisa, acabei por revisitar vários clássicos da literatura brasileira que foram publicados em formato de folhetim, um formato que casaria perfeitamente com a estrutura do “Sete dias em setembro”, que é dividido em sete partes, uma para cada dia entre 2 e 8 de setembro de 1822. Então, esse ritmo de folhetim foi algo que a estrutura do livro já impunha de certa forma e que utilizei de forma estilizada, como fiz com a linguagem, para que o leitor tivesse a experiência de curtir a leitura como se estivesse na época dos eventos do livro, participando daquilo tudo.
DA – Essa pesquisa deve ter ajudado também na construção dos protagonistas, Bregaro e Cordeiro, imagino. Já que sobre eles pouquíssimos registros foram encontrados por você em suas investigações.
VICTOR MASCARENHAS – Tudo que encontrei na pesquisa sobre os mensageiros Paulo Bregaro e Antônio Ramos Cordeiro foi que o primeiro era oficial do Supremo Tribunal Militar e correio-geral da Corte, e o segundo era major. Ou seja: eram personagens reais, mas suas biografias eram páginas em branco, o que abria espaço para a ficção. Como o ambiente da época estava polarizado entre liberais defensores da independência de um lado e absolutistas defensores de Portugal do outro, tive a ideia de colocá-los em lados ideológicos opostos. Bregaro, por ter um emprego no palácio e ser mais próximo da corte, pendia para o lado liberal e, como o exército era majoritariamente leal a Portugal, o militar Cordeiro seria um absolutista contra a Independência e um moralista que não gostava de D. Pedro pelo seu comportamento que desrespeitava a “moral e a família”. Essas diferenças entre eles criaram um conflito que permitiu dar maior profundidade aos personagens e também abriram espaço para estabelecer um paralelo com a polarização que vivemos no presente, dando um tom contemporâneo ao livro. A viagem da dupla, que vai descobrindo mais sobre o Brasil, sendo impactada pelas notícias e vendo o cenário se alterando ao redor deles, também se assemelha à clássica Jornada do Herói e serve de metáfora para a própria formação do nosso país que, aos trancos e barrancos, vai se entendendo e se ajeitando como pode para seguir em frente.
DA –Aliás, isso fica bem evidente no decorrer do livro: os personagens vão mudando diante dos conflitos e das descobertas ao longo dessa “jornada de heróis” (já pedindo perdão ao espírito do Campbell pelo trocadilho). Outra coisa é a aparição de alguns personagens, como o Baltazar por exemplo. Creio que sua aparição carrega um forte significado.
VICTOR MASCARENHAS – Baltazar é um dos personagens fictícios do livro e tem um papel fundamental na trama. Ele é um ex-escravizado que trabalha como ferreiro e auxilia Bregaro e Cordeiro numa das paradas da viagem em que eles são atacados por militares contrários à Independência. A construção do personagem traz algo de mítico e místico para a história. Baltazar é um trabalhador altivo e um homem de fé, que traz na sua religiosidade uma marca genuinamente brasileira: o sincretismo religioso do candomblé. Baltazar entra na história para simbolizar o papel do povo brasileiro no processo da Independência, que foi para o campo de batalha em vários pontos do país e conseguiu derrotar um exército organizado e profissional, como era o português. O que veio depois disso pode não ter sido grandes coisas, mas o processo da Independência foi uma grande conquista.
Victor Mascarenhas / Foto: Ari Capela
DA – A atitude do Baltazar tem muito de coragem e nobreza, decerto. Mas o fato de ele ter sido libertado a pedido do D. Pedro não tiraria um pouco da beleza dessa metáfora, na medida em que, dessa forma, me pareceu algo concedido e não conquistado? Ou isso também foi intencional. Um tipo de simbolismo a nos mostrar que a liberdade sempre passou pelas decisões e conveniências de um governo ou de um Estado?
VICTOR MASCARENHAS – Há duas abordagens para responder essa questão. A primeira é que o ato de D. Pedro interceder para conceder a alforria a Baltazar entrou no livro para reforçar a informação histórica de que Pedro era contrário à escravidão. Há vários exemplos e citações sobre isso no livro, como a informação que ele concedeu alforria e terras para escravizados que viviam nas propriedades reais ou a transcrição de uma frase em que ele diz: “Eu sei que o meu sangue é da mesma cor que o dos negros”, por exemplo. Infelizmente, o fim da escravidão, que também era defendido por José Bonifácio, não veio com a Independência e esperou muitas décadas para ocorrer, mas como o meu livro termina antes mesmo da entronização de D. Pedro, acabo não abordando essa questão, embora deixe pistas sobre o que viria pela frente. A outra abordagem – sobre a liberdade passar por decisões e conveniências de um governo ou de um Estado – é mais pragmática. Há 200 anos, a única maneira de um escravizado ser libertado era se o seu proprietário concedesse a sua liberdade, assim como a única maneira do Brasil se emancipar de Portugal era apostar suas fichas em D. Pedro. A metáfora pode até perder um pouco da sua beleza com essa leitura que você aponta, mas era a realidade que o Brasil vivia naquela época e, mesmo sendo uma obra de ficção, não seria verossímil explicar o fato de Baltazar ser um homem livre de outra maneira.
DA – Seus livros anteriores prezam por temáticas mais, contemporâneas, digamos. E você já disse algumas vezes que “Sete dias em setembro” era para ter sido o seu segundo livro. Considerando que o seu primeiro foi no ano de 2008, e que os seguintes mantiveram essa linha “urbana”, pergunto: por que só tanto tempo depois você resolveu trabalhar nesse romance histórico e por que a escolha por esse tema?
VICTOR MASCARENHAS – A ideia do “Sete dias em setembro” é decorrente da minha obsessão por tentar entender o Brasil, o que me faz ser um leitor compulsivo de livros de história, ciência política, sociologia e o que me passar pela frente e possa ajudar. Cheguei a iniciar a pesquisa para o livro por volta de 2010, mas a história era um pouco diferente. O que me fez parar foram as dificuldades do processo, que exigia muito tempo, dedicação, pesquisa e uma maturidade que talvez eu não tivesse naquele momento. Sobre essa pegada mais urbana, acho que isso está mais forte nos meus livros de contos (“Cafeína”, “A insuportável família feliz” e “Um certo mal-estar”) do que nas narrativas mais longas, onde acabei construindo uma trajetória mais heterogênea. Meu primeiro romance, o “Xing ling”, é uma ficção científica distópica e meio farsesca, onde uma empresa chinesa compra o centro histórico de Salvador para fazer um parque temático. O segundo, “O som do tempo passando”, é mais intimista e se passa praticamente todo numa oficina onde uma banda de quarentões se reúne para tocar, alternando com flashbacks da vida dos personagens. Por fim, veio o “Sete dias em setembro”, que teve dois gatilhos fundamentais para ser escrito: o aniversário dos 200 anos da Independência em 2022, que forneceu o prazo, e a pandemia, que me trancou em casa e deu o tempo necessário para a pesquisa e a escrita.
DA –Agora, gostaria que você nos falasse sobre projetos e planos futuros: o que podemos esperar do escritor e/ou do roteirista (incluindo audiovisual e quadrinhos) Victor Mascarenhas?
VICTOR MASCARENHAS – Quero seguir trabalhando o “Sete dias em setembro” para levar o livro para mais pessoas, aproximar a obra dos estudantes e tentar ajudar a pensar mais sobre o Brasil. Outro objetivo é retomar projetos audiovisuais que foram interrompidos pelo governo anterior, que praticamente parou tudo no setor, e também começar a trabalhar em novos. Para a literatura, tenho uns contos na gaveta e muitas ideias rabiscadas que podem virar livro em algum momento nos próximos anos. A ideia é seguir escrevendo sempre.
Gustavo Rios é baiano e autor do livro Céu Ausente (Cepe Editora, 2023), dentre outros.
O exercício da literatura é feito de atravessamentos de toda ordem. E sabemos que a escrita é também marcada pelo gesto espantado que é a existência, esta senhora cujos domínios não cessam de revelar mais e mais inquietudes. Quem escreve não passa impune pelas múltiplas imagens mundanas e seus inalienáveis efeitos, pois é variada a oferta de cenários através dos quais tanto prosas quanto versos podem se deixar engendrar.
É preciso certa dose de ousadia para enxergar além do horizonte das coisas acostumadas. Se somos, enquanto matéria humana, uma amálgama de saberes e sabores é porque também temos a prerrogativa de desbravar sentidos, sejam eles inaugurais ou não, sobretudo quando o tema é cotejar as experiências vividas ou imaginadas. No compasso do tempo, escrever pode ser também o ato de maquinar a matéria intangível da vida. Nesse ponto, complexos serão os caminhos trilhados, os resultados colhidos, demonstrando o fascínio que determinadas escrituras podem causar.
Vivian Pizzinga é uma autora que sabe percorrer territórios onde a palavra se faz possuidora dos sentidos. Em seu engenho literário, ela demonstra transitar com personalidade pelos caminhos vacilantes do ser, ímpeto que faz de sua obra um recorte vigoroso dos mergulhos humanos contemporâneos. Refletir um pouco sobre o que somos hoje e o que fizemos de nós também é a tônica das investidas dessa carioca cujas escrituras desacomodam pretensas convicções.
Além de se dedicar ao ofício com a literatura, com trabalhos em prosa e poesia, Vivian atua na psicanálise. Sua obra abarca os livros de contos “Dias Roucos e Vontades Absurdas” (2013) e “A primavera entra pelos pés” (2015), ambos lançados pela Editora Oito e meio, bem como as coletâneas “Escriptonita” (Editora Patuá, 2016) e “Cada um por si e Deus contra todos” (Tinta Negra, 2016). E mais recentemente, em 2022, publicou “Ruído nos Dentes” pela Editora Urutau, livro de poemas que inaugura os trajetos atuais da escritora.
Na entrevista que segue agora, Vivian Pizzinga fala sobre seu mais novo livro, além de alguns aspectos fundamentais que mobilizam o seu especial envolvimento com o fazer literário. Atenta às questões do seu tempo, revela-se também alguém desperta para refletir criticamente sobre condições que demandam um olhar aprofundado sobre nossas humanidades. Marcada por acenos inquietos, mostra-se uma autora cujos sentidos estão abertos ao mundo e seus movimentos, atitude que não afasta certo ensaio contemplativo da vida.
Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes
DA – “Ruído nos Dentes” traz em seu conjunto um mosaico de interioridades reveladas. São paisagens existenciais visitadas e que não se furtam em dialogar com o externo, esse outro que se detém na leitura. O que dizer desses mergulhos?
VIVIAN PIZZINGA – É interessante você pontuar esse diálogo com o externo dessas interioridades reveladas nos textos de “Ruído nos Dentes”. A leitura que fiz deles quando estava fazendo a curadoria do livro – uma das leituras possíveis – me fez compreender três conjuntos de textos, e assim separei o livro em três partes: uma delas onde há menos diálogo com o externo; a segunda parte, onde há um contato com o externo em que este é mais íntimo, digamos assim, talvez até mesmo personalizado, ainda que isso não fique tão claro; e uma última parte em que esse externo seria mais coletivo, mais amplo e também mais difuso, em alguns sentidos. De algum modo, compreendi uma espécie de percurso que parte de algo mais interior – e muito ligado a experiências sensórias também – para um contexto mais exterior.
DA – Nesse trajeto, onde as dimensões interna e externa do ser se comunicam, quais desafios se delinearam mais evidentes na construção do seu livro?
VIVIAN PIZZINGA – Na verdade, apesar desses itinerários que mencionei, não acho que haja possibilidade de as dimensões interna e externa não se comunicarem, suponho que elas estão sempre se comunicando e às vezes enxergamos melhor isso, outras vezes isso nos parece menos nítido. Não acho que haja qualquer possibilidade de uma dimensão existir sem a outra, não é possível saber nem mesmo se há uma precedência do interno sobre o externo ou vice-versa, realmente trabalho com a noção de interseção em tudo. Quando uso essas ideias de externo e interno, mesmo para falar de como separei os textos e os arranjei nesse percurso de três partes, é muito mais uma maneira de conseguir se exprimir sobre sensações e vivências, porque é difícil lançar mão de uma linguagem, de um léxico, em que se possa unir essas coisas que não são separadas. Então, quando faço uma leitura dos meus próprios textos e identifico ali, naquele momento, textos mais internos, mais introspectivos, mais ligados ao sensorial, na verdade estou identificando uma predominância, mas não uma separação. E por isso mesmo a própria separação nessas partes também foi um desafio, pois essa localização não é tão nítida. Ainda assim, naquele momento, eu sentia que precisava conferir alguma organização, talvez como forma de me organizar e de me situar nesses escritos. Mas outro grande desafio, na verdade o maior, foi em relação ao próprio fato de eu estar escrevendo algo com uma inclinação mais poética, uma vez que minha experiência anterior é toda da prosa. Embora eu viesse escrevendo esses textos há alguns anos e eles estivessem se tornando mais frequentes, havia uma dúvida se aquilo que eu reconhecia como poético seria mesmo.
DA – De fato, é possível ver em “Ruído nos Dentes” um flerte seu com a chamada prosa poética. Como é que você vislumbra essa espécie de fronteira que às vezes chega a parecer tão tênue entre os gêneros?
VIVIAN PIZZINGA – No segundo livro de contos que escrevi, “A primavera entra pelos pés”, havia já alguns textos com essa inclinação mais para a prosa poética, então essa fronteira, se muito rígida, ao menos pra mim não funciona. Por outro lado, não sou uma pessoa que estuda literatura no sentido acadêmico, não tenho leitura sistemática desses debates, venho de outra área, talvez eu pudesse ser criticada em questionar um pouco essas fronteiras. Fato é que, ao enviar a proposta de livro para a chamada, o gênero em que se encaixaria seria a poesia. Precisamos lançar mão de outras nomenclaturas para dar conta de uma certa complexidade da realidade, porque as caixas muito bem amarradas e indiscerníveis não dão conta dos múltiplos recados da vida. Acho isso pra tudo, acho que com uma seriedade e uma responsabilidade nos trabalhos, estudos e atribuições (falando de profissões) é possível rearranjar classificações muito prontas, que têm uma historicidade, não são naturais, logo, podem ser compreendidas de outra forma. Acho isso pra tudo, então não teria como eu não achar o mesmo no que se refere à escrita: os textos de “Ruído nos Dentes” talvez não sejam poesia, talvez sejam, talvez em parte. Depende da página.
Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes
DA – A segunda parte do livro é introduzida por “diatribe”, texto que parece bem emblemático se pensarmos os diferentes deslizamentos identitários presentes na contemporaneidade. Na sua opinião, o que o atual território das subjetividades tem a nos dizer de mais significativo?
VIVIAN PIZZINGA – De mais significativo, não saberia dizer, mas algo que me chama a atenção é o fato de que, se por um lado estamos tendo uma ampla oportunidade de debates que há dez, quinze anos não tínhamos nesse nível, com discussões importantes referentes às pautas identitárias em seus múltiplos aspectos, ou seja, ao mesmo tempo em que estamos nos dando conta cada vez mais de vivências e atravessamentos históricos, sociais, econômicos que moldam, guiam, constituem nosso estar no mundo, por assim dizer, estamos, por outro lado, um pouco perdidos no que se refere à nossa autonomia face àquilo que concorre para a produção de subjetividade hoje, século XXI, 2023, para ser bem específica. Refiro-me a toda a problemática, a meu ver urgente, referente às redes sociais e ao chamado capitalismo de vigilância, temática que inclusive está sendo debatida atualmente no congresso no que se refere à regulamentação de plataformas digitais, o chamado PL das fake news. O que quero dizer é que estamos sendo muito moldados por aquilo que vemos nas redes, nossos comportamentos estão sendo direcionados, como nos têm alertado os pesquisadores desse campo de estudos, e não nos damos conta disso. Subjetividade e comportamento estão intrinsecamente ligados, para falar de modo corriqueiro. Vou dar um pequeno exemplo: ouvi outro dia alguém falando que o aplicativo de fotos do google enviou a essa pessoa umas fotos suas de alguns anos antes, aquelas típicas lembranças que acabam direcionando o rumo da memória. Essa pessoa, que não estava pensando em determinada situação, passou a pensar muito nela, o que direcionou um dado comportamento naquele momento. Será que se essa foto não fosse vista, à revelia dessa pessoa, o que se desencadeou depois teria acontecido? Será que ela teria pensado naquilo? Claro que estamos sempre sujeitos a fazer uma associação de ideias com algo que vemos no mundo, mas, quando isso acontece a torto e a direito, de modo acachapante, nas redes sociais, nos trocentos aplicativos que acabamos sendo obrigados a usar, como pensar o rumo dado à produção de subjetividades nessa conjuntura? Sendo que é sempre bom reforçar que tudo isso avança muito mais velozmente do que os debates e as regulamentações jurídicas voltadas a essas situações. O mesmo podemos dizer desses filtros de redes sociais que tiram todos os supostos “defeitos” do rosto de uma pessoa ou ainda as clássicas comparações que podemos fazer com as vidas dos outros, mesmo que saibamos que o que é mostrado numa rede social é uma edição de si (isso quando o sabemos). Tudo isso é produção de subjetividade o tempo inteiro, de modo acrítico, o que é uma contradição se pensarmos no que falei no início quanto aos debates que têm nos permitido nos dar conta das forças históricas que nos constituem.
DA – Por falar no universo digital, há algum tempo temos nos deparado com a superexposição do eu nas múltiplas plataformas de produção de conteúdos. Do corpo ao texto, há uma expansão do campo autobiográfico que gera mais e mais narrativas performatizadas e que também orbitam em torno da vida ordinária, sugerindo que pessoas comuns, e não somente famosos, são protagonistas desse processo no qual as existências parecem reinventadas. Nossa sociedade se acostumou com a espetacularização e, com isso, perdeu a capacidade de lidar com seus próprios dilemas e dores?
VIVIAN PIZZINGA – Pois é, é uma excelente pergunta, porque já não sei mais se há um habituar-se à espetacularização ou se estamos precisando muito nos dirigir a um outro, a alguém, se é uma necessidade de interlocução que tem a ver com esse encapsulamento das nossas vidas, o que também me parece outra contradição, porque, mais uma vez, parece – sempre parece – que estamos muito mais conectados, mas talvez a forma como isso se dê não contemple nossas necessidades mais profundas de intimidade, de trocas significativas. Talvez seja uma hiperconexão que implique alguma desconexão em outras esferas, e ficamos desesperadamente correndo atrás de alguma coisa por esse caminho do espetáculo de si, de nós mesmos, o glamour da nossa intimidade mais corriqueira. Ou pode ser que seja isso e mais um monte de outras coisas. Acho que o que você aponta na sua pergunta está relacionado com o que abordei na pergunta anterior, uma vez que parece que estamos mais cientes de tudo o que pode operar em nós, estamos talvez menos ingênuos, discutindo mais algumas coisas, e, por outro lado, parece que estamos menos conscientes do quanto seguimos de forma um tanto quanto autômata nessa avalanche de ter que mostrar tudo o tempo todo, como se a coisa não tivesse acontecido caso não a mostrássemos. São muitas as hipóteses, sempre lembrando que, ao falar disso, não estou apontando o dedo pro outro sem olhar a minha parte nesse latifúndio, eu também sou aquela que, junto com todo mundo, posta, dialoga (ou pensa que o faz), dá um tom confessional a dizeres abertos a sei lá quem e por aí vai. Não sei se é uma necessidade de se comunicar que tem assumido outras formas, mas certamente o componente da espetacularização – e isso não sou nem eu quem fala, sigo outros – está presente.
DA – Em tempos da expansão da chamada inteligência artificial, muito se tem discutido sobre o quanto isso poderia afetar a questão da autoria na contemporaneidade. O quão problemático seria admitir uma obra literária produzida inteiramente a partir da máquina?
VIVIAN PIZZINGA – Eu realmente acho isso tudo muito estranho. Ainda não amadureci dentro de mim os encaminhamentos disso, os desdobramentos do que isso pode gerar, uma obra literária ser produzida inteiramente a partir da máquina, e nem tenho certeza se isso é efetivamente possível. Apesar de já terem me mostrado uns testes corriqueiros, do tipo pedir para a inteligência artificial escrever um conto sobre isso ou aquilo e ver o resultado, não tenho certeza se se pode dizer que uma obra literária poderia ser produzida efetivamente a partir daí. Onde fica o estilo, por exemplo? Mas vamos que fosse possível? A questão da autoria já também não é um assunto simples, porque ela evoca uma suposta coesão de quem escreve um texto, quando, na verdade, somos atravessados por mil e uma coisas que lemos, vemos e ouvimos, muitas delas sem percebermos que lemos, vemos e ouvimos, mas, ao mesmo tempo, em algum momento, conseguimos concatenar aquilo em alguma produção, no caso, escrita. A autoria seria da inteligência artificial? Por outro lado, o debate sobre os direitos autorais, sobre a profissão do/a escritor/a, essas problemáticas antigas, tensas e nunca concluídas, estão também envolvidas nisso. Tudo o que tenho dentro de mim, no momento atual, é um grande estranhamento.
Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes
DA – De que maneira a sua vivência com a psicanálise cruza seus caminhos com a literatura?
VIVIAN PIZZINGA – Apesar de eu não deliberar enredos ou textos a partir da minha trajetória na psicanálise, a experiência profissional e os estudos, além da minha vivência pessoal, acabam fazendo parte da minha produção, quando vejo já aconteceu. Na época em que trabalhava em ambulatório de saúde mental, e que eu estava escrevendo muitos contos, naturalmente as ideias tomadas por essa pegada da psicanálise vinham para essas narrativas curtas. Alguns contos que escrevi – “Eletroconvulsoterapia”, “A loucura é uma sensação térmica”, “Uma ciência do atraso”, “Haldol Decanoato”, cujos títulos já indicam territórios de interesse do campo da saúde mental e da psicanálise, ou ainda “Término”, cujo título não dá sinal de nada mas que também traz essa influência – são exemplos de textos que acabam muito influenciados por essas vivências profissionais no campo da saúde mental e nas reflexões que a psicanálise impulsiona. “Haldol Decanoato”, por exemplo, título de um dos contos que integra “Dias Roucos e Vontades Absurdas”, é o nome de uma medicação psiquiátrica. Medicação psiquiátrica não é psicanálise, mas as coisas vão se entrelaçando em muitos dos textos que escrevi durante vários anos. Como eu estava muito imersa nessas vivências, trabalhando no Instituto Municipal Nise da Silveira (que existe ainda mas que foi um hospital psiquiátrico de referência na Zona Norte do Rio de Janeiro e que atravessou um processo de desinstitucionalização na luta antimanicomial), atendendo muitos pacientes no ambulatório, além de pacientes no consultório, esse era meu universo, e isso aparecia espontaneamente no que eu escrevia. Agora acredito que isso está menos urgente no que escrevo, menos à flor da pele, mas me constitui em muitas medidas, então não deixa de estar presente.
DA – O que lhe parece mais urgente nos tempos atuais?
VIVIAN PIZZINGA – Difícil, mas eu diria que me parece muito urgente a gente relembrar e reforçar os laços coletivos e sociais. A consciência de classe, a preocupação com o comum, o bem comum, a coisa pública. A lembrança ou o aprendizado de que não estamos isolados, de que nossos interesses não podem estar desvinculados dos interesses sociais, coletivos, que estamos imersos em culturas e que a nossa não é nem a única nem a melhor. E que, nisso, tudo o que defendemos tem sua historicidade, que precisa ser resgatada ao menos em parte, porque aí não nos prendemos tanto em rótulos, diagnósticos, etiquetas, estereótipos, formas de leitura de pessoas e processos estanques, enfim, autoenganos. Acho urgente que estejamos atentos e atentas a isso. Fico achando às vezes que a pandemia teve um lado de reforçar um certo individualismo. É difícil resumir, mas eu iria por esse caminho, que acho, a princípio, que abriria outros.
DA – O quanto Vivian Pizzinga conhece Vivian Pizzinga?
VIVIAN PIZZINGA – Eu tenho construído uma Vivian Pizzinga e tenho descoberto reações de uma Vivian Pizzinga que têm a ver com circunstâncias, porque acho que é isso, a gente só sabe se há uma Vivian Pizzinga, e o que seria isso, diante das circunstâncias, externas, internas e as que estão no meio de ambas (talvez só essas existam). Ou seja, o que a gente é ou tenta ser e faz ou tenta fazer é algo sempre relacional, é sempre um movimento oscilatório, e não garante nada, tampouco é linear. Há uma Vivian a ser conhecida? O quanto essa que está aí escrevendo é resultado de uma interseção de humores, afetos, coisas variadas de muitas espécies? São muitas, não é nenhuma? Freud já nos tirou do eixo ao apontar o inconsciente, mas certamente eu poderia dizer que Vivian tem um hábito de olhar para si e suas ações/reações/interações e se espantar.
DA – Afinal, por que escrever?
VIVIAN PIZZINGA – Não tenho resposta melhor a dar que não a de Blanchot: Escrever para não morrer.
Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes
Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.
A trajetória de um artista não se mede apenas pela quantidade de feitos construídos em sua caminhada, mas principalmente pela capacidade que seu trabalho tem de impactar a audiência que lhe interessa. Ao longo dos anos, as vivências pela arte vão engendrando saberes e sabores, moldando os ímpetos criativos, impulsionando novas ideias. E quando falamos especialmente de teatro, supomos de imediato a força que se estabelece na relação entre obras e o público.
A arte teatral prima pela captura do instante, momento em que as atenções do espectador se voltam para todo o conjunto que lhes é ofertado. Seu efeito é instantâneo, um gozo do efêmero em quem está experimentando a recepção da mescla entre texto e encenação. Assim, o legado maior desse múltiplo território de sensações busca abrigo na memória, sua relevante aliada. Sobretudo agora, no período pandêmico que nos acomete, nunca fez tanta falta vivenciar o ato de estar diante de um espetáculo teatral.
Não são poucos os nomes que historicamente edificaram o teatro brasileiro, fizeram desta nobre arte um território rico em possibilidades e, acima de tudo, ideias que movimentam sensações das mais diversas. No contexto baiano, é impossível falar de teatro sem lembrar de alguém como Paulo Atto. E falar desse dramaturgo é reverberar sua potência criativa para além dos espaços regionais e brasileiros, posto que sua contribuição para a arte cênica encontra também abrigo em paragens internacionais.
Mas o teatro a que Paulo Atto se propõe fazer perpassa a reflexão pungente sobre a condição humana em suas variadas formas de acepção. Interessa ao artista apresentar em seu trabalho a visão multifacetada que a humanidade pode sugerir. Combinando elementos oriundos da poesia a um forte eixo filosófico, Paulo marca sua obra com o signo da inquietude diante de um mundo que nos oferta mais dúvidas que certezas. Para mencionar apenas alguns aspectos, vemos brotar em seu ofício o traçado da sofisticação textual, a agilidade e inteligência dos diálogos de seus personagens.
Seja como diretor, dramaturgo e produtor cultural, dentre outras atribuições, Paulo trilha seu caminho na seara artística há quase 40 anos. Em sua trajetória, dirigiu mais de 30 espetáculos, muitos deles também apresentados nos Estados Unidos, América Latina e Europa, além de ter participado de inúmeros festivais, seminários e programas em vários países. São de sua autoria os livros “Até Delirar”, “Desmontando Shakespeare” e, mais recentemente, “Atto em 3 atos & memórias da censura”, este último assinalando pontos marcantes de sua carreira. Pelo texto dramático “A Travessia do Grão Profundo”, foi agraciado com o Prêmio Selo João Ubaldo Ribeiro – Ano III. Seu engajamento como diretor artístico do Núcleo Caatinga da Cia de Teatro Avatar e do Festival Internacional de Teatro da Caatinga revela um espírito incansável em seus propósitos. E é este personagem mobilizador quem protagoniza agora uma conversa com a Diversos Afins. Nela, fica registrado um recorte sensível e inteligente sobre a caminhada de Paulo, esse artífice que, principalmente a partir das exposições contidas no seu mais recente livro, fala de suas experiências, percepções do presente, além de dar sentido renovado ao ato de resistir através da arte.
Foto: Waldson Alves
DA – Para além de uma nuance autobiográfica, “Atto em 3 atos & memórias da censura” é um verdadeiro recorte histórico do teatro baiano. Ali estão relatos pessoais, matérias jornalísticas e três peças fundamentais de sua carreira. A predileção pelo registro dessa memória vem também marcada por um impulso de sobrevivência da arte?
PAULO ATTO – O teatro é uma arte milenar, que já sobreviveu a revoluções tecnológicas, a guerras, a pestes, mesmo com seu caráter eminentemente fugaz e efêmero. Em parte, pela força do encontro essencialmente humano que promove tocando em muitos aspectos da vida e da alma humanas; por outro lado, pelo registro que dele ficou, primeiro em livros, os textos dramáticos gregos são um grande exemplo disso; também pelos registros e memórias que muitos artistas de teatro nos legaram. Acredito que tudo isso me mova no sentido de produzir esse registro num país que despreza a memória em geral e a arte em particular, sobretudo neste momento constrangedor, obscurantista, no qual a ignorância ganha espaço. É um projeto ambicioso de, nos próximos anos, quando completarei 40 de ofício, poder deixar registrada toda a memória do meu trabalho e o contexto no qual ele aconteceu, na medida do possível. No Brasil estamos passando por um momento terrível para os artistas. Em geral, é necessário primeiro que os artistas sobrevivam para que a arte seja produzida e permaneça. Então, nesse sentido, sim, é também um impulso para a permanência da arte.
DA – Um aspecto importante do seu livro é a reprodução integral do texto de algumas de suas peças, produções naturalmente marcadas por um determinado contexto criativo e temporal. Em que medida esse gesto pode ser entendido como um estímulo à produção de sentidos por parte do leitor de hoje?
PAULO ATTO – Totalmente. E esse é o meu desejo como autor, que o leitor desempenhe um papel ativo com suas inferências e percepções, com seu entendimento sobre a obra. Portanto, cada leitor tem um papel relevante na ampliação de seus significados, gerando novos sentidos no momento desta interação leitor/autor. Considerando ainda que juntamente com os textos, que por si só já representam um universo a ser desvendado com seus personagens e enredos, eu publico um memorial de imprensa, todo o material gráfico das montagens com os programas, convites, cartazes e diversos outros registros que denomino de memorial afetivo. Onde também se encontram uma carta que Paulo Autran me escreveu sobre “A Confissão”, certificados de censura, um bilhete da atriz Andreia Elia no encerramento de uma temporada, um texto que escrevi para a Diversos Afins quando Paulo Autran morreu, anotações sobre minhas ideias e vivências sobre as montagens. Acredito que o leitor fica ainda mais estimulado a construir novos sentidos sobre os aspectos relacionais entre a obra literária, a montagem produzida naquele tempo/lugar e a memória que trago através de todos estes registros. Além de oferecer a minha contribuição para a construção de uma memória do teatro na Bahia, acredito que levo o leitor a entender estas produções no seu tempo e a imaginá-las com todos estes estímulos e registros, produzindo significados para si mesmo neste nosso momento, nessa nossa atualidade. Assim, falamos de hoje através do registro sobre a nossa vivência naquele tempo. Nossa, digo, minha como dramaturgo/diretor, com meus atores e equipes de criação.
DA – Por falar em produção de sentidos pelo leitor, ao lermos, por exemplo, o texto de “A Confissão”, sentimos que o eixo temático da peça não se desbota, pois vemos ali assuntos que se perpetuam no tempo. Um deles é perceber os aparatos de poder atuando para limitar as liberdades individuais no nível do corpo e dos desejos. O fato é que nossa sociedade não deixou de efetuar tais controles e não tem como não pensar em Foucault numa hora dessas. O que dizer sobre essa atmosfera? Alguma vez passou pela sua cabeça remontar esse espetáculo e ofertá-lo ao público dos dias atuais?
PAULO ATTO – Acredito que “A Confissão” seja um texto atemporal pois toca exatamente na questão do Poder e seus mecanismos de controle, seus aparatos de vigilância e punição, afinal a última fronteira que o poder quer chegar é ao nível dos corpos, do controle da relação dos corpos na interação social, cultural, biológica, com uma profunda carga de sexualidade e religião. “A Confissão” é o resultado de uma imensa pesquisa, de muitas leituras, de muitas fontes. Foucault foi, sem dúvida, de fundamental importância, fizemos também uma leitura psicanalítica do texto norteada pelas ideias e visões de Freud e Lacan. Há uma influência, ainda que em segundo plano, do chamado Teatro do Absurdo em sua linguagem. A atmosfera do espetáculo traduziu a claustrofobia do texto, o jogo de espelhos dos personagens, o vazio da retórica dos discursos de dominação, a tortura como estratégia da verdade a qualquer preço, a desumanização das relações e a morte como destino inescapável para todos. Eu tinha 24 anos quando escrevi, e hoje, lendo o texto, às vezes penso: “O que se passava na cabeça deste jovem?” (risos). É um texto muito forte com um traço clássico, o que inclusive foi apontado na época pelo jornalista e crítico Marcelo Dantas. Jamais pensei em remontá-lo. Na verdade, chegamos a trabalhar num projeto audiovisual com nossa saudosa atriz Regina Dourado, no papel de A Morta, e um elenco maravilhoso. Infelizmente, por uma série de razões de produção e recursos o projeto não avançou apesar de termos gravado praticamente 70% das cenas no Castelo Garcia D’Ávila à noite. Agora pensando no nosso momento, percebo como este texto é atual, ele não envelheceu mesmo depois de 34 anos. Acredito que ele possa falar da realidade brasileira hoje e toda a sua estupidez, seu atraso, essa pretensa moral tenebrosa, essa postura retrógada e obscurantista. Acredito que hoje ele teria uma repercussão imensa. Acho que “A Confissão” hoje causaria muito mais incômodo porque tocaria fundo na essência do nosso engano.
Foto: Waldson Alves
DA – Esse mesmo jovem que foi capaz de criar um trabalho importante em “A Confissão” também era reconhecido num determinado momento como alguém dedicado à poesia. Diga-se de passagem, o texto de “Até Delirar” e “O Banquete” evidencia esse caráter poético de sua escrita. Há ainda um Paulo poeta em torno do qual podemos esperar algo em matéria de versos?
PAULO ATTO – Realmente eu comecei a minha aventura com as palavras pela poesia. Eu continuo cometendo poemas embora não os venha publicando. Digo que o dramaturgo é um poeta ao avesso. A poesia exige síntese e a dramaturgia o excesso. Mas o dramaturgo não deixa de ser um construtor de poéticas. Tenho vontade de voltar a publicar poemas depois de tantos anos, na verdade essa vontade me perseguiu durante todo esse tempo e acho que o canal da poesia verteu no oceano do drama, mas continuo sim experimentando a poesia na construção de poemas sempre. Acredito que avançando nesse projeto editorial de lançar toda a minha obra dramática, que já é um esforço imenso, haverá espaço para publicar sim um novo livro de poemas, quem sabe até mais de um (risos). Na verdade, foi o meu primeiro livro de poemas chamado “Até delirar” que originou um roteiro cênico que veio a se constituir no espetáculo “Até delirar” e também na obra teatral “O Banquete”, como está apresentado no livro.
DA – Um outro ponto importante de seu novo livro são os relatos das suas experiências com a censura. Na sua impressão, os censores eram figuras totalmente apartadas do conhecimento sobre a arte ou pairava alguma espécie de cinismo ideológico que correspondia meramente aos ditames do regime vigente?
PAULO ATTO – A censura de que eu falo no livro é uma censura institucional onde funcionários públicos eram pagos com o dinheiro dos nossos impostos para cercear a liberdade de expressão, impedir a realização de qualquer atividade artística ou cultural que, na cabeça dos censores, fosse uma ameaça ao regime, à ordem instituída ou a algum valor moral. Os critérios eram muito nebulosos porque, quando você tinha uma censura ou um corte, os censores explicitavam os motivos e quando você examina as razões dessas ações de censura verifica que são muito difusas, que não são critérios objetivos, ao contrário, depende muito da impressão daquele indivíduo, então são as razões mais disparatadas e absurdas. De um lado, você tem uma falta de critérios objetivos e do outro tem a extrema ignorância desse corpo de censores, que eram pessoas sem absolutamente nenhum conhecimento nem de cultura nem de arte, nem de nada. Eram às vezes funcionários de carreira colocados naquela função ou mesmo contratados para exercer o papel de censor. Portanto, você tinha a união de dois fatores muito ruins: de um lado, um temor infundado e quase sempre paranóico e, do outro, a total falta de conhecimento, chegando muitas vezes à incapacidade de interpretação de texto. O que de outro modo às vezes era positivo, porque como eles não conseguiam entender o que se apresentava, passavam coisas que, pela sofisticação da construção poética ou da linguagem empregada na cena, eles não conseguiam apreender o sentido real do que se queria dizer, e em alguns casos era uma crítica direta ao regime ou à situação política daquele momento. Acho que para as novas gerações de artistas do teatro essa seja uma experiência que eles não consigam nem mensurar, embora nós vejamos nesse momento uma volta, um ensaio de retorno de uma censura, ainda que não seja totalmente institucional, digo claramente institucional, mas uma censura velada com orientações sobre programações. Isso tem acontecido e tem sido noticiado pela imprensa, inclusive espetáculos de teatro que haviam sido programados para espaços geridos por órgãos ligados ao governo e que foram impedidos de entrar em cartaz por causa de alguma temática. Isso é censura. Vemos também o movimento de algumas pessoas da sociedade, cidadãos que se arvoram em defensores da moral e dos bons costumes. Isso é um asco. E justamente empregam os mesmos termos que foram muito utilizados nas alegações dos censores daquele período. Sem dúvida, nós temos aí um retrocesso imenso.
Foi quase impossível para mim falar desse período de início da minha trajetória teatral sem tocar no ponto da censura, porque ela esteve muito presente. As peças eram submetidas à Polícia Federal, pois existia dentro do ministério da justiça uma divisão de censura de diversões públicas, o famigerado DCDP, e nós tínhamos que enviar com muita antecedência o texto que era lido por algum censor, que já poderia determinar cortes ou mesmo a proibição do texto.
Depois eles iam assistir ao ensaio antes da estreia, e novamente poderiam decidir por novos cortes ou mesmo a proibição daquela peça em todo território nacional. É uma coisa inconcebível para os artistas de hoje, os jovens sobretudo, imaginar que você teria que fazer um ensaio para um censor ou uma dupla de censores que poderiam decidir que isso aqui não vai poder ser apresentado ou que você tem que cortar uma cena inteira. Eu não cheguei a ter peças proibidas, mas tive entraves e narro isso no livro, os problemas que enfrentei com a censura que foram complicados de administrar. Pense que eu estou falando no período de redemocratização. Em 1988, foi promulgada uma nova constituição onde a censura institucional foi extinta com todos os seus departamentos. Por isso, mesmo falando de algo que aconteceu há mais de 30 anos, eu termino falando do nosso momento atual, como um alerta para essa situação de obscurantismo imenso que a gente está vivendo e de uma tentativa de censurar os meios de comunicação e a expressão artística. Então, infelizmente o meu discurso foi atualizado pelos fatos que estamos passando, a realidade brasileira atualizou o meu discurso de 30 anos atrás. O que é lamentável e extremamente perigoso. Inclusive porque conta com o apoio e a anuência de uma parcela significativa da nossa sociedade que se sente representada em sua ignorância, em seu atraso e em sua estupidez. Poderia ser apenas um documento histórico, um retrato daquele momento, mas infelizmente estou falando também da nossa realidade hoje.
DA – Nosso teatro também carece de uma atenção para o quesito formação de plateia?
PAULO ATTO – Aí está uma pergunta simples de resposta complexa. O teatro enquanto linguagem precisa de uma aprendizagem, de uma vivência, de ser experienciado. Há gente que diz que não gosta de teatro sem jamais ter visto uma peça (risos). Eu trabalhei em algumas oportunidades com crianças, tanto ministrando oficinas, em projetos infanto-juvenis como em espetáculos infantis que dirigi, não foram muitos, acredito que uns sete espetáculos. Escrevi três textos para crianças: Colombo, A incrível viagem do Curupira e a Aventura da Descoberta. As crianças naturalmente se expressam através da mimesis, constroem muito de sua expressividade através de jogos teatrais, ainda que sem perceber. Falando tudo isso, deveríamos pensar que o teatro teria um público imenso. Entretanto, isso não acontece. Acredito mesmo que nas últimas décadas houve uma perda substantiva deste público que incluía o teatro naturalmente em seu cardápio cultural, devido a uma série de fatores: a violência nos centros urbanos gerou uma insegurança, o enfraquecimento da imprensa escrita que sempre foi o principal veículo de nossa divulgação e diálogo com o público; por outro lado, a perda de espaço para divulgação nas redes de televisão, os serviços de streaming cada vez mais sofisticados e disponíveis a preços baixos, o fechamento de vários teatros, a migração de artistas para fora do estado, que é um fenômeno que, acredito, ainda não foi totalmente compreendido e mensurado. E ainda temos um tripé perverso que vem do distanciamento do teatro do público, a qualidade do que é apresentado, o amadorismo de diversas produções e os editais públicos em que houve e há um certo dirigismo cultural, onde muitas vezes o resultado do trabalho está muito aquém do discurso e da proposta do projeto. São espetáculos de qualidade bem questionável com um discurso lindo. Em todo este processo houve uma dissociação do espetáculo teatral com o seu público. Tudo isso como introdução para responder a sua pergunta “Nosso teatro carece de uma atenção para o quesito formação de plateia?” A resposta é sim. Mas não podemos imaginar que um programa de formação de plateia, ainda que seja amplo e bem construído, será suficiente para fazer o público retornar aos teatros. Sem ser saudosista, sou de um tempo em que ficávamos em cartaz de quarta a domingo, na temporada de Morangos Mofados na Sala do Coro do TCA, em 1988, tínhamos filas para comprar ingresso e cambistas, um espetáculo baiano com cambistas, a direção do TCA chegou a limitar a venda de ingressos por pessoa. Ficamos três anos em cartaz, realizamos uma turnê nacional por Belém do Pará, Fortaleza, Goiânia, Aracaju, Recife, Maceió e ainda uma temporada de um mês em São Paulo com casa cheia todos os dias, na última semana foram duas sessões por noite para dar conta do público. Não tínhamos edital e nem financiamento público, a bilheteria nos mantinha. Fiz outros espetáculos com propostas para um público mais restrito como KAO, mas o espetáculo nos levou para o mundo em sucessivas turnês e apresentações em festivais em mais de 10 países por 16 anos. Foram muitas outras questões que deixaram esta relação teatro x público extremamente complexa.
Nós temos uma experiência incrível de formação de plateia com a realização, desde o ano de 2012, do Festival de Teatro da Caatinga, na cidade de Irecê, sertão baiano. Cidade onde existe um movimento teatral pequeno, mas significativo, cidade que não possui teatros, e está distante da capital (500 km). Nosso festival é realizado através do edital setorial de Teatro da Funceb há seis edições e conta com apoio da Prefeitura Municipal de Irecê. Em 2018, tornou-se internacional e tem um público cativo, que foi sendo construído ao longo dos anos. É uma mostra de teatro a portas abertas que tem superlotação todos os dias com imensas filas na porta do Auditório do Colégio Modelo, adaptado para converter-se numa sala de teatro. A repercussão é tão grande que o prefeito Elmo Vaz, atualmente no segundo mandato, em 2018 anunciou no palco do festival que iria solicitar junto ao governo do Estado da Bahia a construção de um teatro. Este ano o governador Rui Costa assinou a ordem de serviço para construção e provavelmente em 2022 teremos um teatro na cidade. Outro lado é o investimento na formação e qualificação profissional dos atores e técnicos. Muitos dos atores que participaram dos projetos de formação do festival buscaram se aprimorar em cursos acadêmicos de teatro na UFBA e na UNEB e mesmo em outros estados. Nosso programa de formação de plateia está consolidado e apresenta resultados. Acredito que este seja um bom exemplo, mas muitas outras iniciativas vêm acontecendo neste sentido em outras regiões da Bahia. Formar o público é fundamental, mas oferecer um trabalho de qualidade também.
Foto: Waldson Alves
DA – Agora nesse período de pandemia, testemunhamos experiências de espetáculos online, sem público nos espaços. Até certo ponto esse gesto é compreensível, pois estamos falando também de formas de sobrevivência para artistas e suas companhias. Há quem veja essa alternativa se perpetuando mesmo após as restrições pandêmicas. Não seria nocivo ao fazer teatral, em condições de normalidade, ter isso como alternativa já que a arte é feita muito fortemente da proximidade com sua audiência?
PAULO ATTO – O chamado teatro online, telepresença, web encenação, teatro digital ou qualquer nome que se queira dar, dada a falsa importância de um rótulo na nossa “desmodernidade”, não é Teatro. Não foi uma opção que nós, realizadores, tivemos dentre outras, foi a única possível. Não havia outra saída. Há quem defenda que sim, apenas pelo gosto de dizer que é Teatro e ponto. Vi coisas interessantes e lamentavelmente produções pavorosas, recheadas de antigas ideias modernosas. Temos um audiovisual com uma linguagem teatral, porém há uma câmera por intermédio, direcionando nosso olhar, temos as edições, a seleção de cenas, os cortes, algo que não existe no Teatro, ainda que se alegue que a montagem teatral e a iluminação possam de alguma forma dirigir o olhar do espectador. E isso pode realmente acontecer. Entretanto, a liberdade do espectador no teatro é total para estabelecer os focos e os centros de sua atenção. E ainda poder ler os diversos planos, camadas, signos e sentidos que coexistem no palco, sem mediação nenhuma a não ser a sua, ainda que tentemos fazer isso, nada supera a presença e o encontro de dois seres humanos, máquina nenhuma, tecnologia nenhuma, pode suplantar ou oferecer isso. Falta a sensorialidade. Aqueles que defendem o tal “teatro digital” estão sem saber desejando o seu fim, a perda de sua autonomia e de sua essência. Pode ser que esta “defesa” seja por interesse próprio, para promover algo que possa parecer uma moda, ou pela incompetência em realizar o teatro de fato. Já ouvi com muita arrogância a frase: “é teatro porque eu estou dizendo”. Sim, mas quem é o interlocutor para dizer isso ignorando mais de 2 mil anos de história? Ignorando o que é a linguagem do teatro. Cada linguagem foi sedimentada por séculos, possui cânones, possui memória e técnica especifica. No final é muito barulho por nada. Eles serão superados pelo próprio Teatro, que não sucumbiu ao cinema, nem a TV, nem às guerras, e nem sucumbirá à tecnologia. Se não se encaixam em nada disso, é apenas imbecilidade pueril (risos). Os perdoo: eles não sabem nem o que fazem, e fazem mal. Não pretendo desenvolver este tipo de proposta como teatro. Como audiovisual, acho interessante. Porém, é certo que ganhamos uma ferramenta de divulgação, de interação com o público, de novas possibilidades de reunião, de estudo, de comunicação. Devemos aproveitar isso ao máximo, mas o que mais fez falta neste período pandêmico é justamente a ausência do humano, do contato entre as pessoas, e é sobre isso, em sua essência, que trata o Teatro.
DA – Voltando a seu livro, o texto de “As Máquinas” parece dialogar muito com o que notamos hoje nessa era de excesso de informações e também de reprodução padronizada de comportamentos. Podemos perceber muito disso a partir do “eu” espetacularizado que brota das redes sociais, por exemplo. Como é que você observa esse sujeito contemporâneo?
PAULO ATTO – Quando eu escrevi o texto de As Máquinas ou A Tragédia em desenvolvimento, era aluno do curso de Filosofia da UFBA e estava profundamente influenciado por temas ligados à Lógica da linguagem. Meu professor João Salles, atual reitor da Universidade, além de professor excepcional, era um amigo com o qual repartia tardes em animadas conversas, das quais também participavam o meu querido e saudoso mestre professor Ubirajara Rebouças e meus colegas e alunos Sandrinha Santana e Ricardo. Eram papos interessantíssimos regados à cerveja num boteco ali da Federação. Tenho muitas saudades dessas conversas. Ali foi gerada a semente desse texto. Quando fui convidado para abrir o projeto de leituras dramáticas da Escola de Teatro da UFBA, o Contexto Cênico, escrevi o texto muito rápido quase como se fosse um ensaio sobre aquelas ideias. Outra influência foi novamente o chamado Teatro do Absurdo, por excelência um teatro sobre a incomunicabilidade humana. Certamente me assombra a atualidade do texto, é atualíssimo. Muitos leitores do livro já apontaram isso para mim. O filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman, o qual admiro muito as ideias e reflexões, fala de uma “náusea da informação” e acredito que estamos vivendo isso de maneira muito profunda. Os algoritmos, as chamadas “fake news”, o grau de desinformação com o paradoxo de tanta informação disponível, o obscurantismo, os retrocessos políticos, talvez tenham como raiz essa náusea e o perverso jogo dos algoritmos dominando as nossas escolhas. Outra ideia muito interessante está presente no livro de Bauman “Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria”. É incrível como ele nos traduz nesta obra. Chegamos ao ponto em que a principal mercadoria, diria até a mais comum disponível no mercado agora, são as pessoas. Nos tornamos o principal produto do mercado de consumo, somos enfim a mercadoria. Isso vai desde os sites de encontros, de grupos, até as redes sociais onde as pessoas vendem a farsa de uma vida ideal, utópica, irreal. Fonte de angústia e de frustração. A cultura das artes também sofre muito com isso. Tudo é cultura, há uma vulgarização das artes, Arte e indústria cultural de massas estão perigosamente sendo confundidas. Enfim, estamos vivendo apenas para o consumo. Acho que no texto essas ideias vão se desenhando a partir da falência da comunicação, dos modelos repetitivos e sem sentido do trabalho, das convenções mais absurdas, do sectarismo generalizado e da dissociação entre a vida e a sociedade.
DA – O fazer teatral em que você acredita tem algum compromisso?
PAULO ATTO – O Teatro, sempre digo, é a vida mesma, é um ensaio vivo sobre o humano por excelência. Existem muitos teatros. O teatro no qual acredito, aquele que me dá prazer em fazer e justifica a existência dele nas minhas trajetórias pessoal e profissional, é aquele em que eu possa falar para as pessoas do meu tempo, para esta humanidade, para este momento histórico e social. Nada para mim está dissociado deste mundo no qual vivemos. Quando encenei Shakespeare, nos espetáculos “A Tempestade”, logo depois “A Terra de Caliban” (inspirado na mesma peça), “A Herança de Macbeth” (a partir de Macbeth), com a Cia de Teatro Avatar, e ainda “Antônio e Cleópatra: o desencontro do olhar”, na Espanha, com a Cia Quasar Teatro de Astúrias, em todos esses espetáculos estava dialogando com meu tempo através das histórias de Shakespeare. Me nego a fazer um teatro museológico, desligado da nossa realidade. Quando escrevi e dirigi “A Travessia do Grão Profundo”, meu último espetáculo, mergulhei no sertão e sua realidade, sua simbologia, sua riqueza, seu imaginário, para falar de nossa diversidade cultural, da riqueza que a caatinga apresenta e esta história de perda do pai, também ainda presente nessa dimensão sertaneja. Apresentar o humano em suas múltiplas faces é o que me interessa, e é com isso que estou comprometido.
Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.
A Literatura é esse território repleto de vivências, cenários e impressões sobre o mundo. Ao mesmo tempo, é atividade que ultrapassa o real e, algumas vezes, não se rende a necessárias relações com ele. O mister de um autor é também algo que não se digna a maiores explicações, a tentativas exaustivas de classificação. Se definir é limitar, cobrar de um escritor as exatas diretrizes de seu engenho com as palavras não parece ser nem um pouco um gesto razoável.
No panorama das narrativas ficcionais, há quem seja profundamente estimulado a criar tendo como norte a necessidade de contar uma história. Mas não é apenas isso. É construir um texto cuja consistência narrativa confira qualidade ao que se está dizendo, sobretudo através da consciência de que aspectos técnicos também são imprescindíveis para quem pretende dizer algo através dos conteúdos elaborados. E quando encontramos alguém movido pelo intuito de trazer ao mundo uma boa história, supomos de pronto que os primeiros indícios de um trabalho digno de ser apreciado estão se delineando. É o caso de Paulo Bono, escritor cuja obra merece especial atenção em razão dos empenhos exitosos com a construção narrativa.
Baiano de Salvador, Bono é um escritor cujos textos prendem a atenção do leitor pela sua fluidez, ritmo e potencial imagético. Some-se a tais atributos a peculiar capacidade que o autor tem de elaborar diálogos que acabam funcionando como verdadeiros atrativos. Diga-se de passagem, muitos desses diálogos têm por virtude maior dar sustentação às expressões dos personagens. E aqui é preciso mencionar que os tipos humanos engendrados por ele encontram correspondência com personalidades que transitam aos montes no nosso cotidiano. O xis da questão é que o autor os molda com habilidade dentro de um universo de cenários e possibilidades comuns a tantas existências diluídas no conjunto dos dias.
Autor do livro de contos e crônicas “Espalitando” (Ed. Cousa, 2013), dentre participações em antologias e coletâneas, Paulo Bono foi também roteirista do curta-metragem “O Garoto”, lançado em 2014. Mas o seu momento atual está voltado para os desdobramentos tidos a partir de seu primeiro romance, “Sexy Ugly”, lançado em 2019 pela Editora Mondrongo. O livro mostra Bono cada vez mais à vontade em sua lida com as palavras, tecendo uma narrativa que subverte expectativas e que tem como um de seus motes o protagonismo de pessoas costumeiramente não aceitas nos padrões de beleza socialmente impostos. E para falar da experiência com seu novo rebento e de outros temas relacionados às vias literárias e mundanas, Paulo Bono recebeu a Diversos Afins para uma conversa marcada por opiniões diretas e certeiras, prova inconteste de que a objetividade é uma das valiosas ferramentas de expressão do pensamento.
Foto: Vinicius Xavier
DA – Seu mais recente livro, “Sexy Ugly”, tem um olhar aguçado sobre cenas contemporâneas, pois há nele também uma crítica sutil sobre o sujeito mergulhado em dilemas pessoais que envolvem a luta pela sobrevivência, os desejos sexuais e os afetos. Como foi arquitetar a construção narrativa nesse território cheio de tensões tão nossas?
PAULO BONO – Foi uma arquitetura de idas e vindas. Aquela coisa de levantar e derrubar pilastras o tempo todo. Na primeira versão do livro o protagonismo era da Propaganda. A história era sobre os bastidores das agências. Com muito mais casos e entrelinhas desse ambiente. Mas achei que estava se tornando um livro de gueto. Joguei tudo fora e recomecei com uma história tipicamente noir. Com mais peso nos crimes, no sexo e no mistério. Mas veio uma necessidade de conhecer melhor o detetive. Foi então que Deco Ramone virou o mestre de obras dessa construção. Descobri que a história era sobre ele. Os bandidos, a femme fatale, os amigos bizarros, a filha, as agências e o puteiro eram na verdade um espelho de Deco. Assim os crimes perderam peso, o noir virou linguagem e a propaganda passou para pano de fundo. O livro seria sobre um publicitário falido que precisava descobrir como vender um puteiro para pessoas feias enquanto lidava com bandidos, com o futuro incerto e com o distanciamento de sua filha. Uma história sobre sobrevivência, expectativas frustradas, autodecepção, sobre a beleza da feiura e a feiura da beleza. Acredito que desta forma a investigação de Deco se tornou mais universal e ele descobriu que somos todos sexy ugly. Ah, e preferi pintar as paredes com humor. De drama já basta a vida.
DA – O personagem Deco Ramone é, assim como você, alguém envolvido com publicidade. Em “Espalitando”, seu livro anterior, as narrativas remontam ao bairro da Lapinha, lugar de Salvador que marcou a sua trajetória pessoal. Não há como não observar, na sua obra, essa recorrência a referências que falam de você em alguma instância. De que modo você reflete sobre isso?
PAULO BONO – É como disse o Hemingway, você tem que escrever sobre o que conhece. O roteirista Charlie Kaufman também comentou uma vez que só podia escrever sobre ele mesmo, pois era o único assunto que escreveria sem errar. E olha que as histórias do Kaufman são bem loucas e inventivas. Acho que é por aí. O “Espalitando” era uma parada mais pessoal até porque veio de um blog que funcionava quase como um diário. Já o “Sexy Ugly” não é sobre mim, estou longe de ser o Deco Ramone. Mas acrescentei muita coisa do que vivi em 20 anos de propaganda. Fante, Bukowski, Céline e muitos outros também iam por esse caminho. Alguns dizem que é um recurso menor, uma limitação. Foda-se. Não acho que há certo ou errado. O importante é o texto. Se ficar bom e verdadeiro, será universal, alguém vai se identificar e não será mais uma história sobre Bono. Recorrer às nossas referências é como dar um pulo num porto seguro só pra pegar uma arma secreta. Se um dia eu escrever sobre uma guerra intergaláctica, acredite, a Lapinha também estará presente.
DA – De fato, ainda há muita controvérsia, inclusive, sobre o próprio conceito de autoficção, algo até subestimado por alguns. Não lhe parece mais genuíno saber aliar o texto ao que vivemos, pois tudo sempre esteve no mundo e apenas transformamos as coisas ao nosso modo?
PAULO BONO – Por aí. Mas nem acho que exista um modo mais ou menos genuíno. Cada um faz o que acredita. Genuíno tem que ser o texto. Pra isso é legal saber o que está escrevendo. Claro que é mais difícil o cara fazer um conto sobre futebol de rua se ele nunca fudeu o joelho num baba no asfalto. As palavras acabam soando artificiais. Isso afeta a qualidade do texto. Mas um autor pode descrever bem uma mãe dando à luz sozinha num quarto escuro, se conheceu de perto e aprendeu alguma coisa sobre medos, dores e angústias das mulheres. Não sei se é questão de aliar o texto ao que vivemos. Mas talvez de usar o que vivemos como recurso. Sobre os que subestimam a autoficção, prefiro subestimar as histórias mal contadas.
Foto: Vinicius Xavier
DA –“Sexy Ugly” tem uma narrativa de forte apelo imagético, além de apresentar diálogos muito bem construídos e que prendem a atenção do leitor. São dois elementos constituintes, por exemplo, do cinema. Como é que você percebe essa aproximação?
PAULO BONO – O lance é que até os 20 anos li muito pouco. Minhas primeiras referências vieram do cinema. E antes de pegar em literatura eu já era roteirista de audiovisual. Não sei se isso é bom ou ruim, mas acho que qualquer coisa que eu escreva vai levar certa dose imagética. Apesar de serem linguagens bem diferentes, a depender do gênero, acredito que alguns recursos transitam bem entre a tela e a página. É o caso do universo noir do “Sexy Ugly”. O noir que levou o Dashiell Hammett pro cinema e equilibrou o Raymond Chandler entre livros e roteiros. Eu queria aquela estética na descrição das cenas, queria aquele ritmo tão específico e queria os diálogos rápidos e cínicos. Os diálogos do Sexy foram minha zona de segurança e meu parque de diversões. Ainda quero um dia ser dialoguista de filmes.
DA – “Sexy Ugly” tem, de fato, uma agilidade narrativa, um modo muito peculiar de contar a história, que muito se aproxima com a instantaneidade da própria vida contemporânea. Nestes tempos de excesso de informações, mídias sociais e tudo o mais, comunicar algo através da literatura é um desafio?
PAULO BONO – Em tempos de radicalismos, dificuldades de interpretação, quando tudo é tudo, e opinião é verdade, eu diria que é um puta desafio. Hoje, por exemplo, é difícil escrever um personagem escroto, machista, mesquinho e com pensamentos assassinos sem aparecer alguém pra achar que aquilo é seu ponto de vista. E se colocam isso nas redes, fudeu, vira a verdade. Tem autor que hoje escreve segurando dicionário, bíblia e constituição. O tempo todo julgando previamente seus personagens para não ser ele o condenado. Acho que o perigo está aí. Quando o autor, para ser aceito e por medo de ser mal interpretado, acaba matando a própria arte. Não deixa de ser também um suicídio. Não sei, é difícil. Ritmo, linguagem, estrutura, construção de personagens. As ferramentas estão aí pra vencer esse desafio. Não vai sair legal algumas vezes. Se a comunicação falha até num “bom dia” de elevador, imagina na literatura. Só não pode desistir.
DA – Longe de recursos panfletários, como é que os escritores podem se posicionar diante desse estado de coisas em que vivemos?
PAULO BONO – É complicado dizer como cada um deve se posicionar. Já temos muitos heróis, juízes e vigilantes por aí. Escritor patrulhando escritor é foda. Acho assim, acredita numa bandeira? Vai lá, parceiro. Acha que tal caminho é o melhor pra sua escrita? Jogue duro. Quer escrever tal coisa pra ficar bem na fita? Vale também. Mas faça bem feito, conte uma boa história. Só não venha explanar uma cartilha de posturas. Não venha me dizer que eu deveria colocar uma gravata borboleta no meu texto. Isso complica ainda mais esse estado em que vivemos. Acho que é isso. Fazer o que acredita e deixar o outro em paz.
DA – O bom mocismo é um desserviço à Literatura?
PAULO BONO – Para mim desserviço são as regrinhas implícitas, os manuais de bom comportamento da escrita, como se a boa literatura fosse produzida de itens de editais. Não é questão de bom mocismo. Existem milhares de livros sensacionais com histórias transformadoras, personagens grandiosos, mensagens bonitas e temas ligados a causas importantes. Problema é elevar esse bom mocismo ao patamar de pedra fundamental deixando a literatura em segundo plano. Não curto muito esse papo de livro necessário. Necessário é contar bem uma boa história.
Foto: Vinicius Xavier
DA – Como é que você avalia o papel das editoras independentes na cena literária brasileira atual?
PAULO BONO – Se fosse no futebol, acho que a editora independente seria como um jogador da lateral. Precisa defender lá atrás sua sobrevivência todos os dias e ainda ter fôlego e agilidade pra chegar na linha de fundo e cruzar bem a bola para os autores tentarem marcar um golzinho. Tudo isso jogando contra uma seleção de impostos, altos custos, comissões extorsivas das livrarias, falta de incentivos e um estádio lotado torcendo contra. Porque estamos falando de um país que não lê. Quando você trabalha com uma editora pequena, claro que terá dificuldades em distribuição, por exemplo. Mas autor e editor independente jogam no mesmo time. Se jogarem limpo com diálogo e honestidade, já é uma boa parceria.
DA – Somos um país de leitores subestimados?
PAULO BONO – Acho que o último dado que saiu foi que brasileiro lê menos que dois livros por ano. Eu conheço muita gente que afirma com certo orgulho que não gosta de ler. Filmes com legenda? Esquece. Por aqui só se lê manchetes, memes e textos de WhatsApp quando convém. E duvide da interpretação correta dos mesmos. Se somos um país de leitores subestimados? Acho que nem leitores somos. Adoraria que alguém argumentasse o contrário e mostrasse que sou apenas um pessimista falando bobagem.
DA – Agora estamos vivendo um período nefasto de pandemia mundial, fato talvez imaginável apenas nos livros de ficção. De que modo você observa esse momento que estamos testemunhando? Estamos em xeque sob vários aspectos?
PAULO BONO – Claro que estamos em xeque. Estou no maior cagaço. Tenho conversado com muitos amigos e todos eles também estão com muito medo. Medo do vírus, medo da morte de pessoas queridas, medo do futuro. Ninguém sabe ao certo o que está por vir. Só não acredito que sairemos dessa pessoas melhores. Existe aí uma pandemia paralela de gente egoísta, mesquinha, exploradora, hipócrita, ignorante, oportunista e cheia de ódio que piora tudo. Com ou sem diminuição de curva, essas pessoas não vão mudar. Pra não achar que sou apenas pessimismo, acho que salvar o dia de hoje já ajuda. Leiam um livro, assistam a séries, escrevam, brinquem com seus filhos, façam suas lives, faça um bolo, ligue prum amigo, ouçam música, durmam até mais tarde. É normal despirocar de vez em quando. Mas não adianta muito pensar no futuro agora. É salvar o dia de hoje.
DA – Esse presente perturbador tem te desafiado a desenvolver algo específico em relação à literatura?
PAULO BONO – Não costumo escrever sobre algo recente. As coisas ficam muito embaralhadas, uma mistura de impressões. Não consigo focar em nada. Até porque sempre tento trabalhar com o humor, mas agora não está rolando. Tenho escrito algumas coisas nas redes, mas são apenas arrotos do cotidiano dessa loucura. Talvez no futuro apareça alguma história sobre um gordo apaixonado por uma prostituta em meio a uma pandemia mortal. Mas os planos para o futuro estão temporariamente fechados.
DA – Afinal, por que escrever?
PAULO BONO – Acho que não tenho um motivo nobre. Não escrevo para transformar as pessoas, contribuir pra uma sociedade melhor, defender causas ou despertar reflexões. Só sei que na primeira vez que consegui escrever um conto, acho que isso tem uns 18 anos, eu me senti muito bem. Estava na pior, sem grana e sem muitas perspectivas. Mas pensar na história, no que dizer e labutar aquilo no computador fazia eu me sentir vivo. Até hoje é assim. Pode estar tudo certo, pagando as contas, todos com saúde, mas se eu não estiver com um projeto ou texto engatilhado ou dialogando com um personagem, fico mal humorado, criando problema em casa e me sentindo a pior das criaturas. Então é isso. Escrevo pra salvar minha cabeça e não ser um pé no saco.
Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.
Não calar a voz diante da vida, seus desígnios, chamados, imperativos e desafios. Não se curvar a toda sorte de vaticínios propalados pelo pensamento autoritário e totalizante. Não deixar de ser parte nos processos que compreendem o entendimento de nossas humanas idades. Tomadas assim, em doses contínuas de arremessos, tais negativas resumem em si o gesto mobilizador de uma existência que não se furta a travar inalienáveis combates com o Tempo. Ah, o Tempo, este senhor de domínios difusos, majestoso disseminador dos mistérios nos trajetos que cada ser experimenta. Se saber e sabor caminham juntos, o ato performativo de viver parece se perder na amplidão do mundo, arranca deste a marca poética do sopro vital.
De todo o acima dito, o agregar de tenacidade, vivacidade, paixão e intensidade serve bem para apresentar uma pessoa como Rita Santana, Mulher, Poeta, Professora, Atriz e Artista. Todos esses atributos, assinalados aqui em iniciais maiúsculas, são mera tentativa de enfatizar atuações de relevância diante da constatação de que os papéis desempenhados pela artista em questão são feitos com a vivência apaixonada da verdade. Mas o exercício da verdade aqui é, dentro dos mergulhos pessoais, a noção de que uma pessoa como Rita pensa para além dos seus domínios, engendrando em seu ofício de escritora a manifestação ativa da preocupação com o coletivo, com o Outro. São percursos reflexivos que denunciam violências e tiranias, mas que também sabem ofertar, sobretudo em versos e opiniões, proposições necessárias de delicadeza e sensibilidade.
Autora de obras impactantes como “Tratado das Veias” (Letras da Bahia, 2006) e “Alforrias” (Editus, 2015), dentre outras, Rita Santana compartilha agora conosco toda a pungência lírica que habita seu mais novo livro de poemas, o emblemático “Cortesanias” (Caramurê, 2019), cujos versos desnudam significativas tensões e encantamentos da condição humana. Na conversa que agora segue, Rita acolhe a Diversos Afins para manifestar não somente confissões em torno do impacto de seu novo rebento, mas principalmente para falar de si, dos processos individuais que desaguam na sua criação de modo determinante. Perseguidora da Beleza, estamos diante de uma artista profundamente marcada pelos desatinos que testemunhamos no presente. São reflexões que fazem com que cada recanto desta entrevista contenha em si demonstrações de lucidez e entrega.
Rita Santana / Foto: arquivo pessoal
DA – Seu mais novo livro, “Cortesanias”, mostra uma Rita Santana no apogeu de sua maturidade poética. E dizer isso não significa que todos os aprendizados estejam postos e encerrados em si mesmos, mas refletem uma consciência de mundo bastante expandida. Como você percebe esse momento?
RITA SANTANA – É um momento de muita liberdade, mais ousadia, menos freios. O Tempo tem sido generoso comigo, pois ando mais feliz, mais disposta aos erros, aos desafios, às alegrias. Busca! Sou uma mulher de buscas! Hoje, quero alegrias, curto alegrias, vivo as alegrias. Menos preocupada com aquela felicidade idealizada de outrora. Vivo uma Solidão prazerosíssima! Quando tenho tempo livre, estou sempre assistindo coisas, lendo, ouvindo música. Sinto falta do Mar. Sinto uma falta tremenda do Mar! Vivo a minha maturidade, ainda povoada de pequenos equívocos, mas com uma consciência maior sobre tudo que me atinge, tudo que atinge o outro. Dou um foda-se muito mais intenso a qualquer um que tente atropelar minhas opções, meu caminho, meu estilo, meu jeito, minha obra, minha vida. O mundo exterior, as opiniões importam cada vez menos. Gosto de mim pra caralho e de tudo que construí, o meu universo. Assim, chega Cortesanias, em plena maturidade! A proximidade da velhice me permite ser com uma fluidez deliciosa. Ser com mais verdade. Ando mais disposta à vida, enquanto envelheço. Completei 50 anos! Não sei se o livro revela ou não uma maturidade poética, mas revela certamente a minha disposição para ousar, para ser fiel ao meu desejo de expressão. Tudo convergia para uma situação de plenitude e de felicidade. Arrisquei assumir minhas paixões que fervilhavam naquele momento: a pintura, as artes plásticas, a Música – de maneira sub-reptícia, pois não entendo tecnicamente nada de música, sofro com uma desafinação congênita e constrangedora, mas amo a Música! Não vivo sem Ela. É ela quem busco quando escrevo prosa ou verso. Cortesanias reflete esse momento de assunção dos desejos. Sou uma escritora comprometida com o meu Tempo e tento acompanhar suas demandas, mesmo que de uma forma às vezes anacrônica, com a minha linguagem arcaica, modos arcaicos, estilo distante desse Tempo que eu persigo. Ideologicamente, abordo no livro questões que me afetam profundamente e que sacolejam meu equilíbrio no mundo. Vivemos tempos de desmoronamento absoluto de todas as certezas. O que você chama de expansão talvez seja um momento de muita contemplação que vivi de forma intensa naquele período que antecedeu e encontrou a feitura do livro. Me sentia drogada, como se estivesse alterada o tempo inteiro. Uma sensação sinestésica que me atravessava – e ainda atravessa de outra forma – a minha vida, o meu olhar. Calhou de receber minha licença-prêmio e ter tempo para viver com mais intensidade aquele momento. Há algo muito especial que influencia o livro: o plantio e a espera da germinação das sementes. Compro sementes e aguardo a surpresa das flores, acompanho o processo e essa atividade me dá um prazer terrível! O livro é fruto dessa paixão pela beleza! Persigo a Beleza! Durmo com as cortinas abertas e observo o movimento dos astros! Fotografo os amanheceres e os versos expressam essas experiências. Sou louca! Eclipses, planetas, o Cosmos, tudo isso me atinge em cheio e o livro é a revelação dessas paixões, obsessões. Talvez daí essa sua afirmação de expansão, pois Cortesanias é fruto desse processo de observação, descoberta, pesquisas. Cortesanias é o meu olhar e a minha oferenda à Beleza.
DA – “Cortesanias” abarca também um sentimento de partilha social, do envolvimento com as questões vividas coletivamente. Isso, por exemplo, aparece com força num poema como “As Comedoras de Batatas”, o qual também exorta uma comunhão do feminino, traço forte de sua caminhada enquanto poeta. Que tipo de reflexões essa atmosfera movimenta em você?
RITA SANTANA – Eu sou uma artista de esquerda e sempre convivi com petistas e comunistas. Tenho um sentimento de que precisamos tornar o Brasil menos excludente, mais justo, melhor. A tela de Van Gogh toca essa sensibilidade, pois estamos diante da miséria, da pobreza e da exploração, no entanto, há uma mesa em torno da qual se compartilha o alimento, comem batatas. Van Gogh fez-se um deles, viveu como eles para experimentar a alteridade com mais verdade. Isso trouxe para mim, diante da tela, a consciência de que, mesmo na Literatura, travamos embates de gênero, de classe, racismo, intolerância, pensamentos excludentes. Vivenciei um conflito coletivo com mulheres no qual essas questões explodiram de forma danosa para o coletivo ou os coletivos envolvidos, forjaram rupturas irremediáveis dentro de mim, mas, principalmente, possibilitaram um olhar ainda mais arguto para uma multiplicidade de interesses, omissões, posicionamentos e posturas nesse meio literário especificamente – éramos mulheres e escritoras! Daí, convoco as mulheres escritoras que comem batatas comigo, que compartilham o pão – como companheiras, camaradas. Mas também resolvo a querela real, através do recado simbólico que deixo ali, também para mim que sofri reformulações e aprendizagens. Faço uma analogia com o MST, o lado em que estou e o outro lado, o lado de mulheres que são donas de vastas terras improdutivas e não estão dispostas à empatia! Apesar do discurso pomposo de coletividade, de igualdade, permanecem alheias ao outro, às outras e suas idiossincrasias, sua realidade de exclusão, invisibilidade. Na hora H o que preponderará será o pensamento das brancas, classe média, legitimadas como escritoras. O momento é de deslocamento. Saio desse embate mais forte, mais combativa e mais corajosa. Com perdas, muitas perdas. Às vezes, também sofro de prepotência e julgo o meu discurso perfeito, corretíssimo, sem observar o lugar de fala; sem atentar que há um discurso muito mais pertinente que o meu, o discurso de quem sofre na pele a dor. Estou muito disposta a aprender e essa disposição é indispensável para a transformação que almejamos. Hoje, sofremos a morte de Ágatha Vitória Sales Félix, fuzilada no Rio de Janeiro, hoje foi o seu sepultamento. O poema me conecta com uma coletividade de mulheres negras que perdem seus filhos, filhas; com uma gente que teme o retrocesso político que vivemos com censuras impensadas na arte, na cultura, através de discursos absolutamente deploráveis que foram legitimados pelo povo brasileiro nas urnas. Os coletivos são difíceis! A minha forma de atuar no coletivo é através da minha atitude pedagógica como professora, promovendo sonhos, reflexões e transformações sociais e como escritora denunciando injustiças, criando imagens e delírios, fazendo arte. Sou cada vez mais combativa! Estou entre todos, todas e todes que sonham um mundo melhor. Aprendendo com Malala, Greta. O diálogo com Van Gogh é um sonho porque como artista também sou vulnerável, confusa, desejosa, débil, o oposto do que acredito, contraditória, insana e sonhadora. Uma feminista aprendiz cheia de conflitos com a velha Rita. Mas tenho 50 anos e estou mais disposta aos enfrentamentos comigo mesma e com esse mundo escroto que temos que enfrentar diariamente. Um mundo velho demais para tantos desejos lindos!
DA – Estamos vivendo um processo de desumanização, através do qual também perdemos esperanças, seja aqui ou em outras partes do mundo?
RITA SANTANA – Desumanização plena! As máscaras caíram. Falar em direitos humanos hoje virou uma piada, é preciso ter coragem, inclusive na escola, espaço que sempre foi de respeito aos direitos humanos, à Democracia. É preciso exercer uma verdade muito plena interna para se dispor a Ser e exercer a liberdade de cátedra, expondo e revelando a sua formação humanista, humanitária, respeitosa às leis. O discurso das armas venceu as eleições no Brasil, no Rio de Janeiro. Vivemos um pós-golpe, onde uma mulher foi destituída do poder por crápulas, alguns presos, com discursos absolutamente ridículos, violentos, desumanos. A sociedade se mostra violenta, homofóbica, racista. A elite brasileira se sentiu ameaçada com a nossa ascensão em universidades, em ministérios, em espaços de poder: mulheres, negros, gays, lésbicas, indígenas. As elites não suportaram! Aqui, vivemos ainda uma sociedade colonial, com pensamento escravocrata, excludente. No entanto, tenho esperanças! Sempre terei esperanças! Ainda temos leis que respaldam a sociedade e temos a nossa voz. Há artistas! Ainda temos muitos professores e professoras decentes em nosso País. Retomaremos o nosso País! Retomaremos o caminho da busca por uma justiça social, sim. Sou das Utopias! Cresci ouvindo os tropicalistas e nasci em 1969, um ano de transformações e sonhos. Convivo com muitos alunos e alunas que sonham e que mantêm um olhar crítico e sensível, portanto, há Esperança! Aqui e acolá temos decisões judiciais que retomam a Democracia. O Intercept revelou o que já supúnhamos e transformou o olhar de muita gente sobre Moro e sua turma. É óbvio que meu coração anda susceptível e a tristeza diante desse quadro político é perturbadora. Óbvio que tudo é desalentador diante do retrocesso que vivemos. Estamos adoecendo! Mas há a Poesia, a Arte e jovens atentos. Há Glenn e suas denúncias! Há reações contundentes contra os fascistas. Somos muitos! O mundo está conosco contra o discurso misógino de Bolsonaro e sua família! Há Resistência! Há a Literatura e ela humaniza.
DA – Avançamos um pouco no que se refere à participação dos segmentos minoritários na literatura brasileira?
RITA SANTANA – O Brasil é racista! A Literatura não é uma ilha alheia ao País. Nossas vozes hoje são mais ouvidas, indubitavelmente. Entretanto, é como se estivéssemos em compartimentos específicos, em gavetas que são abertas em horas apropriadas para razões específicas, interesses. Durante os eventos, sinto que nos apartam das escritoras e dos escritores consagrados, como se um abismo nos separasse dessa camada olímpica. Quando há mesas de escritores, geralmente são os mesmos nomes de sempre. Nossas mesas são dedicadas às mulheres, às mulheres negras, às vozes divergentes. Acho ótimo participar e estar entre os meus, entre as minhas, mas constato também que o confronto de vozes e experiências tão absolutamente diversas seria ainda muito mais rico para os eventos, para os possíveis e futuros leitores. Sempre que posso, denuncio e registro esse incômodo. Durante uma edição da Flica, Aidil Araújo Lima esteve numa mesa com Julián Fuks, sou apaixonada pela escrita de ambos e só perdi aquele encontro porque a minha mãe adoeceu. Essa possibilidade de diálogo me interessa muito. Fiz o prefácio do livro de Aidil , “Mulheres Sagradas”, e li “A Resistência” de Fuks. Imagino como deve ter sido lindo o instante em que ambas as delicadezas se tocaram. Não importa a disparidade midiática que corta e separa seus nomes e suas vivências. Espero que esse seja o novo momento: o momento dos encontros improváveis, dentro da velha perspectiva canônica. Assim, os abismos culturais são atenuados. Ou não?! Há um movimento de Leitoras de mulheres, Leitoras de mulheres negras que mobiliza muita gente por todo o país e, principalmente, leitoras qualificadas, envolvidas, politizadas. Além disso, as universidades se abrem – mesmo que com alguma resistência – às vozes que destoam/diferem/ou não são canônicas/ do canônico, para eventos importantes, tradicionais, com reconhecimento histórico; há uma divulgação das nossas poéticas nas graduações e se torna cada vez mais frequente o estudo de nossas obras na academia, o que considero uma das maiores riquezas que o Universo nos proporciona, pois, simbolicamente, é preciosa demais a dedicação em torno de nossa escrita, o registro permanente nas faculdades, ou seja, a inserção de nossos nomes em um dos mecanismos canonizadores mais vigorosos da sociedade. Legitimidade! Apesar dos avanços, percebo que são poucos e poucas os eleitos negros para que se destaquem no mundo literário e as razões me parecem quase sempre extraliterárias! Não sei! As pesquisas revelam e observo uma preponderância branca, classe média, masculina entre os escolhidos. Mulheres e homens do eixo Rio/São Paulo, quase sempre. O resto do Brasil parece resistir em reconhecer os nomes que temos, como se não houvesse talento ou vida literária no Nordeste e no Norte! São minhas impressões, minhas inquietações, observações. Elegem alguns escritores negros e algumas escritoras negras para que o abismo não se torne um vexame ainda mais explícito. O desconhecimento, a falta de circulação de nossas obras não significa que não tenhamos tesouros preciosos em nosso território. Portanto, vivemos uma segregação! Nossos textos ainda são medidos com referências pautadas nos preconceitos arraigados numa sociedade com padrões eurocêntricos, com referenciais projetados por processos midiáticos, e razões que nem sempre passam apenas por critérios literários. São muitos os dados que movimentam o universo literário, o mercado. É um campo que reflete tantas de nossas exclusões. As minorias sociais ainda precisamos de muita luta, resistência e insistência para que um dia a História seja outra e tenha muitas faces, reflita a nossa diversidade em gênero, etnias, classes, origens… A inserção dessas minorias nas universidades brasileiras certamente será e é um agente de profundas transformações em todos os campos e esse movimento é irreversível e pungente. Há revoluções no cinema negro, no cinema de mulheres negras e tudo isso é fruto de um projeto político de inserção social que tomou conta do País e transtornou a elite brasileira. A revolução está em curso e é poderosa!
DA – Você é bastante ativa nas mídias sociais, sobretudo no que se refere a divulgar sua obra e aspectos de seu processo criativo. Vivemos na contemporaneidade uma tendência de que o autor cuide de sua produção e também a faça circular, espécie de curadoria de si mesmo. Como equilibrar as ações num tempo em que a superexposição da vida privada, nalguns casos, parece adquirir mais relevância do que a obra?
RITA SANTANA – As redes sociais são utilizadas por mim primeiramente porque, como professora, preciso me atualizar e fiz alguns cursos pelo estado em que aprendíamos a utilizar algumas ferramentas. Uma necessidade de acompanhar o meu tempo e, desde sempre, divulgo a minha escrita, a escrita de outras escritoras. O próprio blog surge assim, após aprender o básico, criei Barcaças com o propósito de divulgar meus interesses, de forma tosca, amadora, e acabei gerando uma rede de conhecimentos e trocas que se tornaram importantes para a escritora. O blog está desativado por algumas razões: escassez de tempo para alimentar suas páginas e completa incompetência para resolver problemas técnicos. Nunca paguei a um profissional para alimentar minhas páginas, infelizmente. O Facebook promove uma série de prazeres e satisfaz algumas necessidades. Além das trocas intensas entre escritoras e escritores, leitura de textos e oportunidade de conhecer muita coisa e autores bons que circulam na rede, muitas vezes facilita contatos profissionais importantes que seriam abortados, caso eu não estivesse lá, exposta. Há o aspecto político, fundamental, da informação que circula por lá. É uma ferramenta de militância política, onde explicito opiniões e posicionamentos, e faço camaradagem virtual com intelectuais de esquerda. Há divergências e convergências importantes para resistir aos tempos atuais. É fortalecedor saber que há muitos de nós no mundo dispostos ao Belo e à Justiça. Há uma teia de notícias que circulam na rede e que têm uma qualidade que não constatamos em velhas estruturas midiáticas. Há embates, perdas. Serve também como uma peneira ideológica que me guia sobre confiança, admiração e respeito. Exercito generosidades e aprendo com as generosidades alheias. Faço alguns filtros para não adoecer com tanta gente violenta e perversa. Não exponho minhas dores ou pelo menos não o faço de forma escancarada. Não sinto necessidade de que a rede se torne um confessionário, tento apenas dividir beleza, quando possível, literatura ou impressões políticas. Não estou no mercado e não sou uma criatura midiática; sempre me assusto quando alguém me diz: estou te seguindo! Sou velha demais para certa semântica. A entrada no instagram se deu primordialmente por causa de Cortesanias, do seu lançamento. Sempre tenho uma responsabilidade com os meus livros, principalmente no período de lançamento e, como sou tosca, muito ilhada no meu universo pessoal, torno-me uma senhora que busca se atualizar para acompanhar tantas mudanças e não me sentir – como me sinto – tão incapaz de vivenciar tantas experiências, linguagens e ferramentas que se tornam obsoletas a cada segundo. Faço reflexões sobre a exposição excessiva e ainda não cheguei a um termo, mas sinto necessidade de um certo afastamento, às vezes, sem fazer alarde, sem proclamar a minha ausência futura, enfim! Quando preciso de férias, eu busco férias. Há também o aspecto lúdico! As redes são um jogo interativo, de trocas, perdas, duelos, guerras, máscaras, egos, ilhas paradisíacas onde encontramos conhecimento e beleza, aprendizagem. A sua revista é uma prova disso e há outras tantas possibilidades de experiências profundas assim. Não sou uma celebridade, por isso me sinto tranquila no que exponho; número de seguidores ínfimos e completamente incompetente e indiferente às disputas. O que realmente me faz feliz é tocar sensibilidades com o que escrevo. É o sentido maior. Resisti ao instagram, mas estou gostando da coisa: moda, arquitetura, designers, notícias de artistas que gosto, imagens. Quando me sentir adoecida com tudo isso, procurarei – e talvez já seja a hora – a cura, o afastamento ou um equilíbrio maior.
DA – E a porção atriz de Rita Santana? Algum retorno pensado ou em curso?
RITA SANTANA – A atriz é cada vez mais um retrato na parede. Hoje, estou cheia de vontade mesmo é de me aposentar e ter mais tempo vago para mim e meus projetos, prazeres. Estou afastada do universo do teatro e isso é muito sério, quase irrevogável. Às vezes, penso que, após a aposentadoria, farei oficinas de voz, dança, dramaturgia e assim me aproximarei da atriz. Mas não sei. Quero Tempo para o sossego, a paz. Pretendo evitar o trânsito, pois ele é infernal e me adoece. Quero ler os livros que me esperam, retomar velhos projetos de escrita e criar novos. Quero ver o mar mais vezes, ir muito à praia. Tudo, hoje, requer muita coragem. Até ir à praia requer coragem. Cheguei aos 50 anos e sou muito fiel ao que eu sinto. Não sei o que sentirei nesse processo de construção de novas identidades, novos desejos, novos lugares, deslocamentos. Recentemente, vivi uma tragédia familiar e isso também macula os projetos futuros, macula um pouco o brilho dos desejos. As perdas profanam os desejos, os sonhos. A vida é muito séria, assustadora. Quero ir mais ao cinema, frequentar exposições. Tudo isso é tão caro e me dá tanto prazer, que talvez a atriz deva ir mais ao teatro, simplesmente. Ler mais dramaturgia, escrever talvez, peças de teatro. O estado sombrio do país também causa um pânico interior, um medo, um estado de insegurança. Todo o cotidiano está muito feroz, selvagem. Os projetos pessoais perdem a importância diante do risco que corre toda uma coletividade. Sem exageros! O país me afeta! O país me afeta muito. Sou essencialmente política. Enfim, há uma melancolia pairando no ar.
DA – A Literatura tem algum compromisso?
RITA SANTANA – O professor Antônio Cândido escreveu “Direito à Literatura”, onde ele explora o caráter imprescindível da Literatura para o ser humano. Ele diz: incompressível! Outro dia, li que um país inseriu o livro entre os direitos básicos do cidadão, como mais um dos itens de uma lista que envolve alimento, moradia, água, educação. E é isso! A Literatura é essencial para o processo de humanização, de sensibilização. A Arte é libertadora! Quem faz Literatura deve ter um compromisso com a sua Arte, com a sua expressão, a expressão dos seus sentimentos, das suas inquietações, do que deseja revelar ao mundo ou decifrar com o mundo, compartilhar. A partir desse compromisso com sua própria verdade interna, outros compromissos se firmam com as pessoas, com a sociedade, com a transformação do outro. Se o artista tem compromisso social, responsabilidades políticas com a sociedade, ele vive esse compromisso sempre, portanto, sua literatura terá esse teor de engajamento, sendo ou não panfletário. Caso não tenha um compromisso político ou social, a sua obra cumprirá o seu papel de reflexão e transformação, provavelmente, porque o tecido da obra é sempre o humano, a humanidade. Como somos seres políticos, aprecio obras críticas, perturbadoras, que me inquietam. A Beleza é transformadora! A Arte provoca – mesmo sem que haja uma militância política da sua autora, do seu autor – transformações: ela modela a alma, lapida a nossa rudeza, nosso lado animalesco, nossa selvageria aniquiladora. Em Cortesanias, dedico muitas páginas à contemplação da Arte, mas sinto a necessidade de olhar para o mundo de hoje, suas conturbações sociais, as injustiças, movimentos migratórios, a onda obscurantista que vivemos hoje. Não poderia deixar de olhar para o Brasil sombrio dos tempos atuais. Censura, perseguições, exílios, prisões políticas e arbitrárias, cortes, perseguição às pesquisas, tudo é muito terrível para que eu permaneça contemplando apenas – e isso já é grandioso! – a beleza das telas, da música. As grandes autoras que li e os grandes autores são artistas que me provocaram emancipações, portanto, o compromisso social, político, crítico é necessário para mexer com as estruturas dos homens, das mulheres, dos jovens. Às vezes, não há esse engajamento, mas a beleza provoca uma sensibilização, um olhar mais delicado para o mundo, e isso também é libertador.
DA – Que tipo de relação você estabelece com o silêncio?
RITA SANTANA – Outro dia, ouvi um cara dizendo que o silêncio não existe! É física acústica! (risos) Eu tenho uma relação muito íntima com o silêncio, mas sempre um silêncio que tem som. Antigamente eu tinha um sonho – um sonho primordial – que se repetia: umas esferas que levitavam, gigantes, e o ruído eu sempre associei ao barulho do útero. Nunca mais tive esse sonho, mas ele me acompanha na memória. Moro sozinha! Passo muito tempo só e isso me liga à possibilidade de ficar muito livre comigo mesma, num solilóquio profundo e divertido. Sim, eu me divirto muito comigo e com minhas loucuras! Ouço muito música clássica, e fico muito tempo envolta no silêncio da música, no silêncio da Casa, em meu silêncio interior. Sofro com o barulho dos ventiladores em todas as salas em que leciono; acho perturbador; acho que parte do cansaço e stress do cotidiano vem daí; os alunos ficam excitados demais, enfim. Professores gritam na hora do intervalo, enquanto conversam, e isso me perturba profundamente. Nós, professoras, falamos muito alto! Então, estar em silêncio, em Casa, é como estar num santuário, num monastério ou recolhida num terreiro de Candomblé, que também deve ser assim, imagino, com muitos momentos de silêncio, silêncio interior. Os livros são fonte de silêncio! Ler é mergulhar em silêncios; escrever é imergir em silêncio! O meu silêncio conversa muito com o silêncio das minhas plantas, com o silêncio das minhas paredes, o silêncio dos meus botões. Isso, esse contato com os silêncios, aprofunda a consciência e a crítica, a exigência sobre mim mesma. Mas isso não me torna uma pessoa melhor! Aliás, isso aprofunda a crítica sobre mim mesma e minhas ações! Hoje, por exemplo, descobri que não sou uma heroína! Não sou uma mulher de atitudes diante das injustiças que tanto proclamo detestar! Vivo o tempo inteiro num jogo de acusações, investigações e perdões comigo mesma! Não tenho paciência com quem perturba a minha Paz e o meu Silêncio! Busco equilíbrio! Há pessoas muito perversas, barulhentas e desequilibradas que podem desestruturar toda a construção perene em que vivo para não enlouquecer. É possível enlouquecer, diante desse ruído político, diante da masculinidade tóxica agressiva que nos cerca, diante da falta de caráter das pessoas. A busca pelo silêncio é também uma forma de permanecer com uma sanidade mínima para se manter viva, em convívio social. A loucura anda à espreita! Eu rezo! Rezar é também se conectar com o Silêncio! Dormir e sonhar me ajudam muito a resolver os eloquentes dramas da existência! Apesar de tudo ser tão dramático, eu rio muito e sou muito leve – acho! (gargalhadas)
DA – Enquanto mulher e escritora, que tipo de reflexões a passagem do tempo apresenta para você?
RITA SANTANA – Cheguei aos 50 anos! Como escritora, permaneço em processo de aprendizagem e leitura, carecendo de organização para ter tempo de escrita, mas sem exasperações. Respeito muito o meu Tempo. A leitora anda mais sequiosa de Tempo: quero ler os livros que me aguardam, minhas preciosidades, meus tesouros. Sinto algumas inquietações em relação a minha escrita, mas essa situação agônica sempre me acompanhou e talvez esteja sempre comigo. Inquietação que me faz crescer, promove deslocamentos. Peso muito a minha realidade, minhas circunstâncias quando pondero acerca da minha escrita no mundo. Trabalho 40 horas como professora, assim sobrevivo e não gosto de sacrifícios ainda maiores, não gosto de sofreguidão e esgotamentos, além dos que já tenho. Gosto de respirar, ter tempo para o nada, descansar. Espero que a aposentadoria seja produtiva para a escrita, para a leitura. Espero também fazer bastante sexo durante a aposentadoria e, quem sabe amar com mais leveza; encontrar parceiros mais leves e resolvidos, enfim, mais maduros. Exercitar orgasmos. Quem sabe encontrar parceiros mais amorosos… e continuar, principalmente isso, no meu caminho muito particular de paz, de serenidade, de equilíbrio. Nada nem ninguém poderá desequilibrar essa minha busca, minha conquista! Sou muito feliz sozinha! A mulher de 50 me encontra mais disposta a dar um foda-se para os impertinentes, os tóxicos! Não temo as perdas porque já vivi grandes perdas e estou preparada para continuar vivenciando essas situações, onde a minha sobrevivência deve falar mais alto; a minha dignidade e a minha paz interior. A minha verdade sobrepõe-se a qualquer tirania! A escritora pretende retomar velhos projetos, mas se sabe cada vez mais fiel a si mesma, quase indiferente ao anonimato, ao silenciamento. Fico feliz em ter pesquisadoras lendo e aprofundando a minha obra; fico feliz com as mesas especiais em que dialogo com meus pares, minhas companheiras de escrita. Estou muito mais tranquila como Mulher e como Escritora. Sou uma pessoa muito mais livre, mais corajosa para ser, para assumir minhas vontades. Observo, experimento, vivencio e – após pesar – decido por aquilo que não me fira, não me atinja. Sou nobre demais, deusa demais para aceitar situações indignas, ultrajantes, mesquinhas. Sou inteireza e só posso viver inteirezas, em todos os planos. Gosto muito da construção que fiz de mim mesma; gosto muito de conviver com uma Rita que eu admiro muito. Estou em processo, em crescimento. Pela escritora e pela mulher, pretendo viajar, conhecer lugares e situações, namorar homens que me façam rir bastante, adoro rir bastante. Ver exposições, ouvir orquestras, ver o Grupo Corpo mais vezes, o Balé do TCA, ver o Balé Folclórico da Bahia, ir às feiras literárias como escritora e como leitora, turista. Quero reler e ler livros fascinantes, participar de festivais gastronômicos, visitar museus. Pretendo ter disciplina para aprender idiomas, coisa que nunca tive. Pretendo continuar conhecendo poetas latino-americanos, países da nossa América, enfim! Conhecer pessoas da minha tribo, que amem esse universo que eu amo. Estou muito disposta à Vida! Cinema! Ir mais ao Cinema! Dançar! Quero dançar mais! Quero continuar aprendendo, conhecendo! Triste demais com o derramamento do óleo nos mares do Nordeste! Quero passar muitas tardes e manhãs vendo o mar e andando nas praias. A escrita vem desse movimento! Quero ter disciplina para caminhar. A Mulher e a Escritora estão de mãos dadas.
DA – Qual o sentido da vida para você?
RITA SANTANA – Não sei! Não tenho uma religião, mas acredito na fé, acredito em deuses e deusas. Acredito que a Ciência se cruza e dialoga com os mistérios espirituais, cada vez mais. Acredito nos mistérios. Há metafísica bastante em não pensar em nada! “O Guardador de Rebanhos” toca ou desperta a minha necessidade de ver, tocar, observar, contemplar o mundo. Aprendi muito cedo a perceber a divindade que há nas árvores, nas flores. Os poetas e as Poetas são faróis que nos guiam no caminho. Os grandes artistas são guias! “O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!” Busco um sentido para a minha vida! Já que estamos aqui e expostos ao mundo, precisamos construir sentidos; eu preciso construir sentidos. Fico tentando me modelar, me aprimorar. Vivemos num período de recrudescimento das liberdades, um tempo perigoso, tempo de homens partidos! Sinto a responsabilidade que tenho com o agora. Sinto que posso interferir. Isso é construção de sentido: ter responsabilidade com seus alunos, seus amores, com os meninos da Síria, com todo o processo migratório que está matando a nossa gente da África. Também vivemos – paradoxalmente – um período de pensamentos e ações coletivas em torno de um bem comum: a proteção ao meio ambiente, a busca por medidas que reduzam o aquecimento global, um presidente ameaçado por retaliações internacionais devido ao seu discurso e suas ações retrógradas em relação às liberdades e ao meio ambiente, aos nossos povos originais, à Amazônia. Temos Malala, Greta e o Nobel da Paz – Abiy Ahmed – que luta por diálogos em territórios inimigos na África, pois tenta solucionar conflitos na Etiópia, o próprio Papa se posiciona como um dos nossos, em muitos momentos. Vivemos um período bonito de assunção da diversidade dos gêneros, onde o feminino, tão fortemente atacado, é assumido por corpos e vozes que o desejam, o sentem e o assumem. “E quem irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?!” O sentido da vida é ser melhor! Amar mais e expandir os horizontes, pois a vida pede amplidões. As certezas já não são. Estar sintonizada com a dignidade humana e com valores nobres, humanistas. Estar sempre ao lado de uma evolução do pensamento, do sentimento. O que não descarta o ser absolutamente humana e explosiva, arrogante, e ter sentimentos vis. Estou em processo! Aprender sobre Solidariedade. Assisti o “Coringa”! Completamente apaixonada pela interpretação de Joaquim Phoenix. A Arte é esse lugar da reflexão, da emancipação! É parte desse capital simbólico que temos e precisamos para refletir e aprender. O “Coringa” nos põe diante de uma sociedade midiática que expõe o sem voz, o sem poder e a audiência aplaude a ridicularização de si mesmo, do pobre, do desprovido de voz e de lugar. O “Coringa” expõe o quão a nossa sociedade é perversa, abusiva, violenta e indiferente às dores alheias. Estarei sempre, como educadora e como artista, atenta para minhas atitudes e para o outro, que também sou eu. Tenho refletido muito sobre alteridades. A nossa televisão é tão podre quanto aquela exposta na tela. A exposição de homens e mulheres e crianças e jovens negros pela TV brasileira é acintosa; é como se vivêssemos num país sem lei, vivêssemos na barbárie. Tenho responsabilidade com tudo isso. Somos grosseiros demais! Professores arrastam cadeiras como os alunos e não se sentem deseducados por isso. Arrastamos um ignóbil à presidência e um homem tentou matá-lo. Não é fácil ter saúde mental num mundo tão dantesco. Os Coringas existem. O presidente acaba de vetar psicólogos nas escolas públicas, o que permitiria assistência a inúmeros jovens deprimidos que estão cometendo mutilações, cortes, suicídios. O presidente diz que não assinará o diploma do nosso prêmio Camões – Chico Buarque – e isso é aviltante num país de homens e mulheres que primam pelo respeito, pelos acordos, pela palavra, afinal, viver em sociedade requer atitudes assim. Num país que possui Chico Buarque não se pode admitir ações tão indignas dos nossos representantes. Viver pra mim é continuar a busca interior para ser melhor, ser menos arrogante, menos distante das pessoas, menos ególatra, menos radical talvez! Ao mesmo tempo em que me sei humana e odeio me atropelar, por isso, assumo rudezas, desinteligências, deselegâncias às vezes. Busco errar menos! Sou muito intuitiva, muito observadora por causa da professora, da atriz, da escritora. Mas isso me leva a certezas absurdas que preciso evitar. Sentido: ser feliz com minhas conquistas, meu universo. Contribuir com a construção de uma sociedade melhor. Continuar na luta! Eu me sinto muito rica, muito privilegiada no lugar onde estou. Não busco grana! Ao contrário! Quando a grana significa sacrifício do meu tempo, sacrifício da minha paz, abdico facilmente! Odeio burocracias burras! Não preciso de muito para viver e acho isso sábio. Música, livros, silêncio. Não perturbar os vizinhos, tentar ouvir música e cantar mais baixo por respeito às paredes alheias. O sentido final é cuidar das pessoas, da vida em sociedade, dos direitos humanos e da Democracia. Nesse difícil diálogo com o mundo, ouvir música boa, ler livros, escrever, cuidar de plantas, organizar a casa e o universo pessoal, evitar o contato ou a permanência do contato com pessoas abusivas, tóxicas. Ler mulheres, ler mulheres negras, ler feministas, ler bons autores. Buscar equilíbrio. Ler colabora com o encontro de sentido, a vida fica mais plena. Ser uma artista é a busca de sentido da vida. É o desejo de transcendência, de deixar marcas da sua Existência. Mas, principalmente, é buscar sentidos para a vida que é tão sumariamente cotidianizada, vulgarizada em regras, rituais, exigências que não acreditamos. Daí, questionar através da Arte. Ser artista é ser uma espécie que desvia, que contraria e tem afinidade com os estranhos aos olhos da normalidade porque também se sabe e se reconhece estranho. Por isso, ficamos tão felizes quando estamos entre os nossos, os da nossa tribo. A busca por uma vida mais ética! Talvez resida aí todo o sentido. Mirar-se sempre ao espelho para perceber os desvios e buscar novamente o caminho da dignidade. Conversar com você e ler a sua revista, construída com Leila Andrade, é construir sentido para a Existência. O sentido da vida seria então encontrar sentidos. Sair do cinema e trazer o “Coringa” pra casa para dialogar com você porque você é responsável por tantos coringas sociais. Sair do cinema e saber-se Coringa. Quem busca sentido para a vida nunca está em paz, pois é responsável pelo mundo e isso é terrível e imprescindível.
Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.
Mirar a vida, observar seus fenômenos mais detidamente. Deparar-se com os territórios do humano sem deixar de levar em conta o olhar reflexivo e transformador, esse algo capaz de movimentar rotas sem se perder no campo limitador das retóricas. Frases, quando ditas ao léu, não demarcam a substância das ideias, posto que sequer ensaiam mudanças ou vislumbram auroras. No meio disso tudo, um poeta rasura os postulados disfarçados de razão, engendra nos seus versos a tradução de um estado de espírito que transcende a materialidade das coisas. Tudo isso sem se embriagar pela fácil sedução das travessias meramente contemplativas ou daquelas que se limitam a ver tudo como um jogo puramente estético.
Não existe poesia fora do humano: eis a impressão que arrisco em colocar quando o artífice das palavras é um alguém como Alberto Bresciani. É ele um autor não somente envolvido com a construção textual dos seus versos, mas especialmente com o impacto que tais escritos terão em quem os lê. Não se trata aqui de uma preocupação com a adesão de simpatias, e sim de um diálogo vivo sobre o qual estão apoiadas bases de nossas tenras e complexas existências. Acima de tudo, Alberto nos incita ao enfrentamento de questões cruciais à nossa percepção enquanto humanos, erigindo um universo poético que se fundamenta em doses de emoção, lucidez e estranhamento.
Autor de livros como Incompleto movimento (2011) e Sem passagem para Barcelona (2015), ambos editados pela José Olympio Editora, o carioca Alberto Bresciani vive hoje em Brasília. E o momento atual desse escritor aponta para os desdobramentos em torno de sua mais recente obra: Fundamentos de ventilação e apneia, lançada este ano pela Editora Patuá. O livro apresenta um sofisticado emprego da linguagem, denotando profunda sensibilidade e entrega a temas que correm imbricados a tudo o que vivemos. As incursões do poeta por elementos que constituem certa dinâmica do mundo animal correm paralelas ao que somos enquanto espécie dita racional. Dentro do delicado mecanismo que descreve os fenômenos de outros tantos seres vivos, Alberto nos conclama a mergulhar intensamente em nossos próprios percalços como se necessitássemos de um resgate.
Para falar um pouco sobre seu novo momento com as palavras, o poeta, de modo extremamente gentil e atencioso, concede a entrevista que agora segue. Na conversa, abordou-se de um tudo: os impactos do novo livro, reflexões sobre o papel da arte, o fazer literário e seus desafios, entre outros temas. De todo o dito, nada é mais valioso do que perceber, pulsando com vivacidade, o aflorar de uma sensível consciência de mundo, notadamente preocupada com uma ampla noção de humanidade.
Alberto Bresciani / Foto: arquivo pessoal
DA – “Fundamentos de ventilação e apneia” faz uso de mecanismos pertencentes ao mundo animal, uma sensível construção poética cuja linguagem corre paralela às questões humanas. Diante do que somos hoje enquanto espécie, seu livro pode ser tomado também como um grito de alerta?
ALBERTO BRESCIANI – Observar animais e estudá-los, na medida do possível, sempre foram atividades interessantes para mim. Observá-los com prazer e, ainda, com assombro. Tive animais de estimação de todos os tipos e, quando criança, gostava de os tornar personagens de histórias que inventava. Em regra, é difícil resistir à tendência de antropomorfizar o comportamento dos animais. Fazemos isso quase involuntariamente. Embora diferentes enquanto espécies, partilhamos, todos os seres vivos, um mesmo mundo e, em situações várias, a luta pela sobrevivência na natureza se iguala ao esforço que, entre homens, fazemos para enfrentar os dias. Há momentos em que os animais parecem saídos de um Éden criacionista. Também temos nossos espaços de paz. No entanto, a violência está à solta. O ritmo é assustador. E isto remete à violência presente nos enredos naturais. Perceber e sentir as injustiças da contemporaneidade, as ameaças de retrocessos civilizatórios, a devastação que causamos no meio ambiente e traduzi-los, como conceito, pelo instante, por exemplo, em que o predador impiedosamente abate sua presa apavorada, foi um dos recursos metafóricos que utilizei. A poesia é, a todo tempo, um sinal de alerta. Alerta que vai desde as situações mais íntimas que afligem o poeta até as questões maiores que sacodem o planeta. Os poemas de Fundamentos de ventilação e apneia surgem nesse contexto.
DA – Caberia, então, dizer que a arte, sobretudo pelos caminhos da palavra, seria capaz de operar em nós alguma possibilidade de transformação ou reinvenção?
ALBERTO BRESCIANI – Sim. Não tenho dúvidas. A arte estimula a reflexão sobre o mundo em que vivemos, dialoga com a filosofia. E se habilita a fazê-lo, em sua essência, para além dos círculos das regras, da ética e da moral, dos paradigmas vigentes em um dado momento da história e dos preconceitos. Era o que dizia Adorno. O artista está – e deve estar – livre para se expressar, para entender o que acontece e pregar suas denúncias, noites e luzes em cada porta. No caminho das palavras, como diz, encontramos, individualmente, quando lemos ou ouvimos, possibilidades de habitar outros eus e corpos, de outras vidas e experiências. Podemos perceber os erros de circunstâncias históricas e de falsas verdades impostas pelos interesses de plantão. Podemos também alcançar nossas verdades. Há livros que nunca acabam, personagens que nunca nos deixam, frases tatuadas na lembrança, poemas que nos alimentam e advertem. Do ponto de vista do artista, a descoberta de sua vocação pode construir uma vida nova, uma vida plena, reconstruir o que parecia ruína. É importante, no entanto, ressaltar que, antes de tudo, é necessário que se tenha acesso à arte. E isto só é possível com a educação. Com alimentos na mesa e cidadania. Não somos um povo ilustrado. Poucas mudanças favorecem imensa parte da população, que se mantém dentro de uma bolha isolante da cultura – e de tanto mais – desde o período colonial. Alguns projetos pioneiros, sabemos, têm grande sucesso, levando livros, música e dança a comunidades carentes. Que se multipliquem, prosperem. Seremos assim, um dia, quem sabe, uma sociedade melhor e mais feliz.
DA – Esse tema do acesso à arte é deveras interessante quando pensamos que, na contemporaneidade, a contribuição de autores e artistas contra-hegemônicos vem ganhando cada vez mais relevância. Muitos desses criadores, periféricos ao mainstream, encampam, através de suas obras, uma defesa afirmativa de suas identidades, de suas visões de mundo. Como você vislumbra a força que emana de tais subjetividades?
ALBERTO BRESCIANI – Com interesse, reconhecimento e muita simpatia. Somos diferentes em múltiplos sentidos. Infelizmente, a intolerância e o desrespeito sempre desaguaram na edificação de nichos e no aprisionamento, nesses nichos, de diferentes grupos, recusados pela compreensão dominante. São porções de matizes variados, separadas por hemisférios, circunstâncias históricas e sociais, gêneros, etnias, crenças. Todas têm legitimidade e direito à sobrevivência e ao acatamento pelas demais. Há também aquelas violências que a sociedade, como um todo, prefere ocultar. A literatura é o espaço da denúncia. Autores que não se moldam àquela compreensão dominante ou ao protótipo consagrado traduzem, com a força de sua escrita, experiências de vida muitas vezes desconhecidas ou nunca pensadas com atenção. Por alienação, pelo impacto da grande mídia ou por lacunas de vivências, verdades são esquecidas. Ao pronunciá-las, esses autores permitem a tomada ou a renovação de consciência, com a possibilidade, após alguma decantação, de construção de novas regras de convívio, de alargamento da razão. Se há liberdade de expressão, é de valor extremo toda contribuição que permita a evolução do que se compreende como “o humano”. Mesmo que a prática da literatura, dentro do mainstream, não seja, necessariamente, condenação eterna ao último círculo da desqualificação, romper seus limites, como efeito da forma ou da temática, por si, já é coisa boa.
DA – Voltando ao seu novo livro, é possível perceber nele a ideia de que sua poética está mergulhada nos imperativos colocados pelo presente em que nossas humanidades estão mergulhadas. Enquanto escritor, em que medida você assume a condição de dar um testemunho de seu tempo?
ALBERTO BRESCIANI – A literatura fotografa o momento histórico em que acontece. Aliás, é uma fonte de pesquisa histórica fabulosa. É impossível não reagir ao que o mundo nos oferece ou empurra garganta abaixo. Vivemos em um país de diferenças sociais inimagináveis. Isto me incomoda a vida inteira. Sou juiz do trabalho já há muito tempo. Não direi que, entre erros e acertos, o trabalhador sempre está com a razão. Mas também não posso ignorar a enormidade de horrores que a experiência me apresenta. São humilhações impostas a quem não vende a quantidade de produtos desejada pelo empregador, com castigos que ultrapassam o absurdo, acidentes do trabalho em volume trágico, com perdas de vidas e mutilações, crianças trabalhando e longe dos estudos, pessoas escravizadas, a miséria que nos assola desde tempos coloniais. Além da bagagem profissional, um caminhar pelas ruas das grandes cidades, conhecer zonas de extrema pobreza de nosso país-continente trazem marcas desoladoras. Ao lado disso, o noticiário nos abarrota de visões catastróficas da fome, dos abusos, da falta de compaixão no mundo inteiro. Somos testemunhas de uma época terrível. Algumas dessas situações transparecem em Fundamentos de ventilação e apneia e tendem a estar ainda mais presentes em meus próximos livros.
DA – Qual o seu maior incômodo diante do cenário de retrocesso que experimentamos hoje no nosso país, sobretudo nos matizes culturais?
ALBERTO BRESCIANI – Sinto espanto, sobressalto. O pasmo segue em uma escadaria de Escher, pelo que está mais próximo e pelo que acontece em tantas partes do Globo. Circum-navegação do espanto e pela conivência. Uma amiga de muita inteligência diz que a humanidade e o país já passaram por provações tão diversificadas e, ao final, tudo foi superado. É preciso, nem que seja no fundo da alma, manter alguma esperança de ressurreição dos valores.
DA – Atualmente, é possível perceber que o mercado editorial vem se reconfigurando no que se refere às possibilidades de participação. No cerne desse processo, está a atuação das editoras independentes, as quais inauguraram modelos alternativos de negócio, oportunizando espaços para novos e anônimos escritores. Na sua avaliação, acredita que esse novo panorama veio para permanecer e transformar efetivamente as práticas de publicação e circulação das obras?
ALBERTO BRESCIANI – Percebo essa democratização da possibilidade de publicação com muita alegria. A realidade da internet, com seus portais e blogues, e das redes sociais, com a comunicação em tempo real, já fez muita diferença. Não consigo enxergar mérito nenhum em um sistema no qual somente grandes editoras podem consagrar vozes ou em que apenas determinados autores são os escolhidos. Todos que escrevem merecem espaço e algum crédito. Quem decidirá se terão direito à leitura e à permanência serão os leitores. E, aqui, vale lembrar que há públicos diferentes, que elegem seus estilos e gêneros. Pensando em poesia, há quem prefira textos fáceis, doces. Há quem prefira os que desafiam um pouco mais. As pequenas editoras têm permitido o acesso de autores e leitores à boa literatura, que, de outro modo, estaria condenada à gaveta eterna. Editoras como a Patuá – e não posso deixar de me referir ao Eduardo Lacerda, com seu heroísmo todo -, como a Penalux, de Tonho França e Wilson Gorj, tantas outras, são vias maravilhosas para a publicação de novos escritores de qualquer idade. Os livros têm qualidade editorial e circulam o suficiente para concorrerem aos maiores prêmios literários do país. Sei de jovens escritores acantonando editores e se esfalfando para merecer atenção das grandes editoras, e não vejo sentido. É muito bom ser publicado. É muito bom ser publicado por uma grande editora. No entanto, uma editora menor, com toda certeza, será mais atenciosa para com o autor e lhe poderá trazer muita sorte. Penso que, no momento, é um modelo que veio para ficar. Digo “no momento”, porque o mundo se tornou uma metamorfose permanente, com tecnologias que nos atropelam quando menos se espera.
Alberto Bresciani / Foto: arquivo pessoal
DA – O curioso, dentro dessas tecnologias que nos atropelam, é perceber que alguns papéis se modificam nesse contexto de aparições digitais. Com certa frequência, autores deixam de ter a sua importância atrelada à obra e passam a ser incensados como celebridades apenas pelo que representam em matéria de performance pública. À reboque disso tudo, também há o fenômeno da superexposição da intimidade, no qual aspectos da vida privada dos escritores assumem um lugar de destaque, sobretudo em mídias sociais. De que modo esse estado de coisas pode comprometer as práticas literárias?
ALBERTO BRESCIANI – A chegada da internet e das redes sociais trouxe uma quantidade muito grande de questionamentos e alterações sensíveis no comportamento das pessoas. Há muitos estudiosos, como Castells, que se dedicam ao tema. Não sou especialista e respondo como expectador interessado. A performance como meio de promoção pessoal não é um fenômeno contemporâneo às redes sociais e peculiar aos escritores. Existia antes. Existia e existe em outras áreas de atuação. Convenhamos que já não há tanto espaço para o escritor recolhido, misterioso, recluso. Ou há, mas o alcance de sua literatura será, muito provavelmente, restrito. As editoras não têm tempo ou energia para a divulgação de todos os autores que publicam. Vale para as grandes editoras também. É necessário que o autor se ocupe com a sua própria divulgação, com a divulgação de seu trabalho. Isto, porque, exatamente pela quantidade de autores no mercado, outro feito do presente é colocar maior foco no leitor e no que lê do que nos autores propriamente ditos. As redes sociais facilitam aquele trabalho. Também é preciso considerar que o conceito ou o valor da privacidade não tem o mesmo feitio para as gerações mais jovens. Assim, há quem transforme sua vida em um livro aberto, um relato ou uma autoficção online. E com sucesso. Conquistam milhares de seguidores e vendem milhares de livros. Há quem adoeça nesse processo e adquira obsessão pelo monitoramento de seus perfis nas redes sociais e deixe de produzir ou, então, rebaixe a qualidade de sua produção ao que é mais palatável para as redes. A performance – e é preciso ter talento para isso –, como eu dizia, por si, não é necessariamente má, quando busca a divulgação de obra de qualidade. Causará algum prejuízo quando representar o exemplo de trabalho sem qualidade literária. Como o exemplo arrasta, notaremos – e notamos – outros escritores, com grande potencial artístico, tentados a reproduzir o comportamento e aquele formato menor em sua produção. De qualquer modo, a literatura ainda é maior e mais do que tudo isso. Ainda.
DA – Há quem sustente que a crítica literária perdeu sua força no Brasil, a ponto de praticamente não mais existir. Concorda com essa percepção?
ALBERTO BRESCIANI – Pelo viés tradicional e canônico, concordo. Com a quase extinção dos cadernos especializados e com as dificuldades por que passam jornais impressos, os espaços até então reservados aos críticos desse molde diminuíram. A crítica, com características mais convencionais, migrou, de certo modo e em parte, para a academia, com menor alcance em termos de público e sob formato mais técnico e, assim, hermético. A própria natureza e as exigências do trabalho acadêmico, ao lado do extenso número de livros hoje publicados, também impedem a velocidade, a atualidade e, em consequência, o debate mais vivo. É evidente que os trabalhos assim produzidos têm qualidade e importância. Em contrapartida, um novo modelo de crítica surge com a atuação contemporânea de jornalistas, de escritores, pela via da resenha, de matérias e da concessão de visibilidade às obras que esses formadores de opinião – e também o mercado – decidem que merecem destaque. Ressalvados poucos jornais literários e revistas impressas que ainda resistem bravamente, a avaliação, que se poderia talvez dizer mais suave, é publicada em periódicos virtuais, o que, apesar de limitar seu alcance a usuários habituados a endereços eletrônicos e às redes sociais, repele filtros que a grande mídia costuma impor. Torna-se mais democrática.
DA – Somos apenas um corpo com finitude decretada?
ALBERTO BRESCIANI – Pergunta delicada. A sobrevivência (e a morte em paralelo) é um dos temas centrais de Fundamentos de ventilação e apneia. A compreensão da morte tem movimentado mentes privilegiadas. De Platão a Todd May, passando por Schopenhauer, Montaigne, Sartre e tantos outros. Vejo a morte como parte da vida. Mas não, não somos apenas um corpo com a finitude decretada. Todos os seres vivos morrem. Não há dúvidas. Nisso, irmanamo-nos. Os outros animais, no entanto, enxergam a morte somente quando ela os ameaça, como o meu porco-espinho, acantonado pelas feras. Os humanos, diferentemente, são capazes de pensar a respeito, mesmo que saudáveis e protegidos. A morte dá sentido à vida, nubla o tédio da eternidade física ainda impossível, faz com que desafiemos o destino, como antílopes que atravessam rios repletos de crocodilos, buscando o futuro, um novo presente, logo ali na outra margem. A morte amplifica o valor do presente. Assim como killifishes, nunca teremos a certeza de uma nova chuva que nos permita (sobre)viver. Somos, assim, corpos destinados às experiências e repletos de possibilidades enquanto conservarmos a consciência. Se a perdermos, o fim antecederá o perecimento do corpo. De maneira sincrética, acredito em Deus. Do mesmo modo, sinto que a morte do corpo não representa absoluta finitude.
DA – O quanto Alberto Bresciani conhece Alberto Bresciani?
ALBERTO BRESCIANI – Eu pediria alguns anos para responder melhor. Sei ou tento saber do que se passou comigo, do que testemunho agora. Para o futuro, insistir é o que posso. Sou, normalmente, silencioso, melhor com a escrita do que com a voz. Verbalizar é sempre um risco de exageros. O silêncio me obriga à minha companhia com intensidade, a conviver com toda a perplexidade do que não consigo compreender, com o maravilhamento das coisas belas que alcanço, com todas as boas e más memórias, erros e acertos. Tenho o vício da busca de informação, com o desassossego que vem no estojo. Sou um “olhador”, um contemplativo. Posso me esquecer do mundo e da vida diante de uma planta que desafia o cimento da calçada. Gosto da eloquência silenciosa dos livros. Gosto das palavras e dos livros, do poder da música, de ficar em casa, de chocolate, terra, vegetais e animais, de abusar do conforto e do abrigo da minha família.
DA – Afinal, por que escrever?
ALBERTO BRESCIANI – Catarse, coragem ou covardia, justificativa? Copio René Char, é como se houvesse um atraso em relação à vida, que compele à superação. Porque é preciso dizer mais do que a voz permite.
Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e Mestre em Letras: Linguagens e Representações (UESC), aliando Literatura, Comunicação e Cultura.
Bruno Ribeiro não é um autor dado a temas fáceis e convencionais. “Febre de enxofre”, sua primeira incursão no romance, é protagonizado por Yuri Quirino, um poeta desiludido com a literatura e com o amor, que recebe uma proposta bizarra de escrever a biografia de um tal Manuel di Paula, um sujeito soturno, que o arrasta para uma jornada de assombros pelas vielas de Buenos Aires. O enredo é livremente inspirado no clássico “Fausto”, do alemão Wolfgang von Goethe, sobre um homem que negocia a alma com o diabo em troca de um tipo de eternidade, mas também pode ser lido como uma investigação sobre vampirismo. Em suma, um terror vestido por um escopo mais complexo.
“Glitter”, que acaba de ser lançado, também margeia a fronteira da literatura de gênero. É um romance pop, de certo modo; ou melhor, uma antiutopia pop. Vinte modelos com sérios desvios são contratadas pelo estilista e escritor Guilherme de Boaventura para atuarem no experimento La Poésie Vivant. Uma espécie de reality show, no qual as participantes ficarão confinadas dentro de um shopping center durante um ano, encerrando o exílio com um desfile em que irão se suicidar diante de um público selecionado. É um livro crítico, provocativo, que expõe as dissimulações e os delírios que (des)governam a sociedade contemporânea.
Com o mesmo tom afiado e repleto de personalidade, o autor mineiro radicado na Paraíba responde a esta entrevista exclusiva para a Diversos Afins. Ribeiro mira seu olhar sobre sua produção e o mercado do livro, observa a geração de novos escritores em que está inserido, fala sobre prêmios literários, oficinas de criação, editoras independentes e o tempo em que morou na Argentina, por conta de um período acadêmico. Uma posição que não se exime de tomar partido, sem artificialismo ou disfarce, e até certo ponto provocativa. “Assim como uma modelo com a bunda grande demais pode perder um trabalho, um escritor que passou do ponto ou não respeita as regras do bom mocismo literário pode perder sua chance de publicar numa editora “importante” ou até de participar de um evento badalado”, dispara.
Bruno Ribeiro / Foto: arquivo pessoal
DA – Seu primeiro romance, “Febre de enxofre”, pode ser lido como uma revisão portenha do “Fausto”, de Goethe, no qual o diabo figura entre os personagens centrais. “Glitter”, que acaba de sair, trata de um experimento no qual vinte modelos problemáticas são confinadas num shopping, focalizando em seus desmoronamentos psicológicos que resultam em atos de violência repletos de grafismo e baldes de sangue. De maneira involuntária ou não, seus livros têm a intenção de se estabelecerem como literatura de gênero?
BRUNO RIBEIRO – A pergunta é muito pertinente, porque adoro me debruçar nos procedimentos da literatura de gênero e creio que eles atuem como um espelho distorcido no meu trabalho. Faço uma literatura de gênero que nega seus próprios mecanismos, uma espécie de anti-gênero. “Febre de Enxofre” pode ser lido como um romance de terror, mas tenho consciência de que transgrido algumas regras deste tipo de livro, assim como injeto diversas referências pouco comuns ao estilo. Já “Glitter”, tem uma chave policial em certos momentos, mas também nunca se entrega totalmente ao que podemos chamar de romance policial. E isso também ocorre em outros textos, como nos contos de “Arranhando Paredes” e nos meus inéditos. Eu abraço o gênero em toda sua complexidade no cinema, pois os projetos em que trabalhei como roteirista foram todos de policial, thriller ou terror. Na literatura, utilizo-os como uma sombra que a qualquer momento pode sumir e aparecer no texto, por isso talvez seja difícil me estabelecer como autor de gênero, pois estou sempre por perto, entretanto me esquivando da responsabilidade de ser, de fato, um autor de literatura de gênero. Neste sentido me inspiro na forma como a literatura latino-americana, especificamente a argentina, lida com essa questão; cito aqui Ricardo Piglia e Borges, que conseguiam brincar e subverter com os procedimentos do policial como ninguém.
DA – O escritor norte-americano Chuck Palahniuk, autor de “Clube da luta”, trafega entre vários planos temáticos – o terror, a distopia, o consumismo, a pornografia, a fábula – para acertar sempre num alvo: a sociedade de seu país. Com uma forte carga crítica, que causa do choque ao riso nervoso, qual é o verdadeiro alvo de “Glitter”?
BRUNO RIBEIRO – A escritora francesa Christine Angot disse que “escrever é sempre violar uma intimidade”. Acredito nessa frase e quando não estou violando a minha, busco violar a de outros ou até a de certas estruturas e campos, como foi o caso de “Glitter”. A indústria da moda é duramente criticada e “violada” no meu romance, mas ela é uma cortina de fumaça. O principal alvo de “Glitter” – pois existem vários – e no qual busco as entranhas é a religião e o capitalismo. Giorgio Agamben disse que “o capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua”. Este conceito serviu bastante de inspiração para a construção do livro: uma religião sem fome, pura voragem, glamour e sangue. Pensar que o shopping é um sinônimo de igreja do capital, aonde a sociedade vai diariamente pagar seus dízimos e se ajoelhar perante as infindáveis lojas de departamento é assustador. Outra coisa terrível é pensar que tudo pode e é devorado pelo capitalismo, coisa que acontece numa chave distópica em “Glitter”. Pense que alucinado é ver diversas obras de arte, desde o mictório de Duchamp até os grafites, estampados em museus e sendo vendidos a preços absurdos para ricões que desejam lavar dinheiro e afagar seus egos. Impossível? Com o capitalismo isso acontece: tudo é absorvido, até aquilo que nasceu para bater de frente com ele. Em “Glitter”, a própria morte se torna tendência; a tortura de modelos, no futuro remoto que criei, vira purpurina, publicidade, padronização coletiva, novas formas de se vender roupa e encantar os olhos alheios. Por isso que a moda e todos seus melindres, profundezas e superficialidades, belezas e feiuras, sublime e profano, clássico e vanguarda, – toda a dicotomia que a envolve – representa a sociedade e a forma como o capitalismo a atinge: um treco que se molda a qualquer coisa para lucrar, da sarjeta ao luxo, da vida à morte.
DA – Você consegue traçar um paralelo entre a experiência de confinamento das modelos e o processo de escrita? Ou, porventura, com o mercado literário?
BRUNO RIBEIRO – Sem dúvida. Por isso o livro brinca ao colocar as modelos para escreverem poemas e especificamente isso fica mais claro no trecho em que elas estão numa livraria do shopping buscando inspiração. Todos os meus textos ficcionais lidam com o processo criativo. Tento fugir ao máximo dos clichês ao falar deste tema, que é extremamente batido, mas tanto o poeta seduzido por um demônio em “Febre de Enxofre” como as vinte modelos seduzidas pelo estilista ermitão em “Glitter” estão sendo puxadas para um inferno vasto e que pode ser lido como o demônio da criação e as diversas dificuldades que nos rodeiam enquanto artistas; no caso do meu poeta: as dificuldades para sobreviver e escrever uma biografia; no caso das minhas modelos: as dificuldades para sobreviverem e escreverem um poema. Esses personagens precisam lidar com seus problemas e principalmente em manter a sanidade na hora da criação. Ambos romances, “Febre de Enxofre” e “Glitter”, mantêm um diálogo forte com a literatura do século XIX; os românticos, os duplos, a decadência, a perda da beleza e da pureza, frustrações, o lirismo carregado na linguagem, a dor do poeta ou do criador em lidar com sua obra, vida, entorno; minha mente ao criar tramas e personagens vai de Mary Shelley e sua criatura arrebatadoramente poética e monstruosa, vindoura da mente do doutor Victor Frankenstein, à Charlotte Brontë, Goethe, Baudelaire, Rimbaud, Stevenson, Edith Wharton, Oscar Wilde, Poe, Bram Stoker, Huysmans, e por aí vai. Todos esses autores, à sua maneira e de diversas formas, lidaram com o mesmo que lido em meu projeto literário. Quanto ao mercado é possível, sim, fazer comparações entre o literário e o fashionista. O jovem escritor sofre tanto quanto o jovem modelo, a diferença é que o meio literário esconde sua escrotidão por meio da intelectualidade e das etiquetas, o mundo fashion não esconde tanto, o abuso é mais explícito e visceral. No livro, pergunto se “a morte não é a melhor metáfora da eternidade?”, e a frase se encaixa em moda e literatura. Autor morto não vende mais livros? Modelo ou estilista morto não vende mais roupa? Quando Alexander McQueen se matou, suas roupas e looks esgotaram ao redor do mundo. E isso tudo é reflexo da alucinação midiática que vivemos, o que me faz pensar que toda distopia, por mais bizarra que seja, acaba se tornando palpável. Basta ver o que vivemos ultimamente no Brasil: nada é tão absurdo que não possa se tornar realidade.
DA – Há poucos meses, o meio literário foi sacudido pela aparição de um prêmio internacional para livros inéditos, cujo vencedor levaria a bagatela de 200 mil euros. Passado o furor inicial, descobriu-se que era uma grande fraude, criada para sustentar uma performance artística realizada durante a última Festa Literária de Paraty – Flip. Ao investigar com agudeza os interstícios do universo da moda, você também intenciona expor um mecanismo de artificialidades que movimenta o mercado literário?
BRUNO RIBEIRO – A literatura ainda é muito conservadora e isso me inquieta bastante, pois como disse César Aira, ela é a “rainha das artes”, tudo cabe dentro dela, e mesmo assim nossa amada ainda é a mais tímida nas transgressões de forma e conteúdo. Sobre o prêmio internacional que você fala, o Babel Book Award, eu o achei bem instigante. Tenho algumas críticas? Obviamente, mas pelo menos estremeceu um meio que é movido por faíscas fracas demais, sabe? É tudo muito morno no meio literário. E quando algo pega “fogo”, sempre é de forma burlesca, tosca, sem noção, realizada por meninos birrentos e ególatras. Por isso sou fã do Kenneth Goldsmith, poeta americano que criou a Escrita Não-Criativa e causa arrepio nos arcaicos da literatura. E no Brasil, claro, sou fã do Ricardo Lísias, que escreveu a orelha de “Glitter” e é um dos escritores contemporâneos brasileiros que mais admiro, exatamente porque seu projeto literário sai da zona de conforto e não fica só na repetição. O artificial em “Glitter” pode ser comparado com o mercado literário no sentido da plasticidade deste meio: as falsidades, risadinhas, panelinhas… E assim como uma modelo com a bunda grande demais pode perder um trabalho, um escritor que passou do ponto ou não respeita as regras do bom mocismo literário pode perder sua chance de publicar numa editora “importante” ou até de participar de um evento badalado.
DA – Um dos aspectos curiosos de seu livro é que muitas de suas modelos não têm nomes comuns, sendo denominadas por atos de linguagem que misturam características físicas, adjetivos, estados emocionais e designações parentais, a exemplo de Netinha Abusada. Lembrou-me, de imediato, o romance “O Todo-ouvidos”, do búlgaro Elias Canetti, que é, de fato, um estudo de caracteres, previsto como uma forma de protesto contra a importância que o personagem assumiu, ao longo do tempo na literatura, tornando-se maior que a própria narrativa em que está inserido. No caso de “Glitter”, qual foi sua motivação ao criar esses nomes bizarros?
BRUNO RIBEIRO – Gosto muito de fábulas e a ideia partiu muito dessa referência. Fora isso, eu queria criar arquétipos da moda, por isso pensei em nomes que pudessem representar não só uma modelo, mas um nicho. A “punk” que poderia ser colocada no nicho de uma Kate Moss da vida, a “netinha” mimada, a noiva que foge do casamento e tenta a sorte no mundo da moda, a princesinha do Projac, representando as modelos que trabalham na TV, a negra que é taxada de louca, a miss universo, a polêmica, a maconheira, a suicida, a fofinha, a que morou fora, a da cidade pequena, e enfim, cada nome parte deste pressuposto de causar um estranhamento e tentar resumir um perfil estereotipado de top model.
DA – Ao longo do livro, além de sobreviver ao confinamento, as modelos têm de protagonizar um grande desfile final e escrever um poema. Obviamente que está aí inserido uma ironia crítica, mas a quem ela se dirige? Ao mercado que despreza a poesia? Às editoras pequenas que revelam poetas a cada semana? Ao gênero em si?
BRUNO RIBEIRO – A frase que conduz meus trabalhos literários vem do Charles Baudelaire: “seja poeta, mesmo na prosa”. No meu mestrado de Escrita Criativa, meu tutor foi um poeta, o Guillermo Saavedra, e quando ele terminou de ler “Febre de Enxofre”, disse enfaticamente que eu era um poeta escondido no corpo de romancista. Eu amo poesia e ela me influencia muito. Matar poetas e torturá-los em meus livros é uma forma de botar para fora minha frustração por não ser um poeta. Quanto à crítica, ela vem do mesmo lugar que partiu a do “Febre de Enxofre”: o excesso de poetas e a falsa glamourização em cima deles, o mercado que não sabe onde colocá-los, os bons poetas que morrem sem ser publicados, a estranheza deste gênero que parece não se encaixar em nenhum lugar. A poesia é a liberdade total, sem ressalvas, é o mais perto que temos dos procedimentos das vanguardas na literatura, e por isso sempre a levo comigo, pois a poesia é o não-lugar, e essa posição de incômodo em que ela reside, de não fazer parte nem do mercado nem daquilo que está fora dele, me interessa muito enquanto escritor. A poesia é repleta de técnicas e regras e, paradoxalmente, também é indomável e libertária, e é essa pegada dicotômica que busco na minha literatura.
DA – “Glitter” foi finalista do Prêmio Kindle de Literatura. Anteriormente, você tinha sido revelado entre os vencedores do Prêmio Brasil em Prosa, promovido numa parceria entre o jornal O Globo e a Amazon. O que significa isso, afinal? Qual o resultado prático para a carreira de um jovem autor ganhar um prêmio? Olhando para trás, você percebe que lhe ajudou de alguma forma ou é, no fim das contas, apenas uma informação boa para constar na biografia?
BRUNO RIBEIRO – Ajuda a ganhar alguns leitores e espaços, mas acredito que pesa mais na biografia do que numa alavanca rumo ao sucesso. Assim, consegui entrada em alguns eventos, como a Flinksampa e FLIP, mas não é algo que tento levar tanto em consideração quando estou escrevendo. É bom? Sim. É essencial para mim? Não. A escritura sempre vence, pois já nasceu derrotada e não tem mais nada a perder: seja com troféu ou com sarjeta.
DA – Falando em biografia, apesar do holofote dos prêmios, seus dois livros (e, aqui, falo sem qualquer ideia de desmerecimento) foram publicados por editoras com circulação mais restrita. Você chegou a tentar um contato com os grandes grupos editorias; utilizar da repercussão dos prêmios para chamar atenção para seus livros? Ou foi mesmo uma opção, pois enxerga a literatura brasileira sendo produzida dentro de uma nova configuração? Qual é a sua relação com as editoras?
BRUNO RIBEIRO – Vivemos no tempo do autor, onde somos zagueiro, meio de campo, atacante e goleiro ao mesmo tempo. Neste novo tempo, a editora surge mais como uma parceira a meu ver do que alguém extremamente decisivo na minha vida literária. Atualmente ando tentando uma aproximação com editoras maiores, mas porque o livro que pretendo apresentar para elas seria interessante que tivesse uma maior distribuição. Cada livro tem sua demanda e é assim que penso quando vou tentar publicá-los. Sobre a minha relação com os editores e editoras, afirmo que sempre foi ótima; sou amigo do pessoal da Penalux, Pátua, Moinhos, Escaleiras, Cousa, Bartlebee, Mondrongo, e acho muito gratificante que assim seja. Juntos somos mais.
DA – Você também tem publicado o livro de contos “Arranhando paredes”, que foi traduzido para o espanhol e lançado pelo selo argentino Outsider. Essa aproximação vem de um período em que você estudou literatura em Buenos Aires. Dessa experiência, você consegue opinar se os caminhos para um autor iniciante são menos pedregosos na Argentina que no Brasil? O que tem de diferente na maneira de se compreender a nova literatura entre esses dois países?
BRUNO RIBEIRO – É pedregoso também. Escritor se fode em todo canto. As diferenças começam com a forma que o mercado lida com a literatura, vejo que lá a coisa funciona de uma maneira mais justa, principalmente a aproximação das editoras com livrarias, que me parece menos predatória. Outra coisa que muda é o grande número de editoras independentes de qualidade, fenômeno que estamos começando a ver brotar no Brasil. Outro ponto é que na Argentina há mais leitores e formas de se destacar no meio literário. No Brasil ainda estamos muito ligados a isso de ganhar prêmios, por exemplo, como forma de chancelar sua obra. Não vi isso por lá. É importante faturar um prêmiozinho? É, mas pelo tempo em que vivi lá, notei que não é isso que fará você alcançar um status mais interessante no meio literário ou sequer receber alguns aplausos. Existem outros processos e maneiras para ser lido e conseguir se destacar, e essa pluralidade de caminhos é uma das coisas mais interessantes na vida literária argentina. Mas tirando esses pontos, muitos autores argentinos que conheci reclamavam tanto quanto nós aqui do Brasil. A dor é a mesma, mas talvez a deles seja mais doce. Culpa do tango e de Borges.
Bruno Ribeiro / Foto: arquivo pessoal
DA – Assim como no cinema, a literatura argentina é melhor que a brasileira?
BRUNO RIBEIRO – É um pouco complexo dizer que uma literatura é melhor do que a outra. O Brasil vive um momento de eclosão, anda se publicando muito e tem gente boa pra caramba à solta, assim como o mercado argentino também está pipocando. Tem coisas boas e ruins em ambos cenários. O cinema argentino mesmo chegou aonde chegou por causa de anos e mais anos de investimentos, coisa que só começamos a ter recentemente, e os louros disso já estão surgindo: muitos filmes brasileiros começaram a aparecer nos principais festivais de cinema do mundo e estão se multiplicando por aí: não só em quantidade, mas em qualidade. Com a literatura a coisa não muda muito de figura, o mercado argentino – apesar dos pesares – investiu mais no decorrer do tempo, distribuiu melhor também, tanto que isso de autor argentino sair vendendo livro pelo inbox de Facebook é algo raríssimo; em Buenos Aires mesmo, onde vivi, estudei e convivi com escritores por quatro anos, acho que dá pra contar no dedo de uma mão as vezes que vi isso acontecer; geralmente o autor lança seu livro e o divulga nas redes, mas falando para o pessoal ir comprar nas livrarias. Ou seja, a distribuição e o número de tiragem são melhores do que no Brasil, onde colocar um livro pra vender na livraria é praticamente pedir para falir. Fora ver livros de editoras pequenas sendo vendidos em livrarias grandes, é preciso ressaltar também a tremenda força das livrarias pequenas e independentes; lá tem muitas e elas conseguem sobreviver e aquecer o mercado. Fora aquilo que todos já sabem: na Argentina tem mais leitores. Então, a questão de melhor ou pior acaba se tornando pequena quando comparamos com esses termos que são tão importantes quando tratamos de distribuição e produção de literatura e arte.
DA – Ainda no universo do conto, além do seu livro, você é muito ativo na participação e na organização de antologias de narrativas breves. Percebendo a dificuldade do mercado literário de lançar novos autores, você considera que participar de antologias, de coletivos literários, é uma forma eficaz de apresentar os primeiros textos? É possível ter uma carreira independente e ter relevância dentro do meio literário?
BRUNO RIBEIRO – Eu organizo antologias por acreditar de verdade no projeto e principalmente nos autores que convido. “Cem anos de amor, loucura & morte”, “Língua Rara”, “Estamos aqui”, “Um Jardim de Promessas”, todas foram antologias que organizei mais pela paixão do que pelo retorno. Publicar em antologias é uma boa maneira de começar a publicar, de apresentar um primeiro texto, mas convenhamos que pouquíssimas pessoas leem antologias. Pra vender é extremamente difícil e quando você vende raramente alguém lê. Mas estamos aí, na luta e organizando antologias, fazer o quê? O meio literário ainda tem suas resistências com os escritores independentes. Muitos insistem em dizer que não, mas é visível essa resistência e preconceito. Seja como for, sou mais integrado do que apocalíptico, pois vejo que a abertura para os independentes, seja em prêmio, festas, publicações, espaços ou eventos, está aumentando e isso é ótimo. Pode melhorar? Pode, mas pelo menos o barco está andando e aos poucos vamos quebrando a roda.
DA – Você também é muito ativo nas novas plataformas de publicação e nas redes sociais. Para um autor que não conta com o aparato de divulgação que envolve os livros lançados pelos grandes grupos editoriais, tais ferramentas são fundamentais para apresentar, anunciar e badalar um livro e a própria carreira. No entanto, a larga exposição acabou constituindo um espaço também favorável a vaidades, rixas, cabotinices e quebra-paus. Há um limite para o bom-senso nas redes? Ou é cada um por si mesmo?
BRUNO RIBEIRO – É preciso ter bom senso na vida como um todo, não só na internet. Infelizmente, muitos autores pensam que estão em seus banheiros e saem vomitando merda pra caramba por aí. Mas essas presepadas fazem parte do processo, pois as redes sociais democratizam de forma grandiloquente seus espaços, então temos acesso a coisas incríveis e, logo em seguida, a coisas escrotas. São as dores e amores da democracia e eu prefiro isso a uma rede que censure discursos e diga o que pode ou não pode. A internet ajuda bastante na divulgação dos meus textos, sem dúvidas. Se não fossem as redes sociais, uma boa porcentagem da literatura contemporânea brasileira estaria sem meios de se divulgar. A web veio para ficar e é uma ferramenta extremamente válida e útil para romper com a diáspora existente no mundo literário.
DA – Já que estamos na seara da crítica, recentemente a Folha de São Paulo publicou um artigo em defesa da crítica negativa, na qual a autora do texto reclamava o direito de tratar o livro (e consequentemente o autor) “a chibatadas”. Seus livros, pelo que eu me recordo, foram bem recebidos pela crítica, sendo um deles, inclusive, selecionado por um renomado crítico como um dos melhores lançamentos do ano. Mas se fosse de outra forma: como reagiria se algum de seus romances fosse defenestrado? E como funciona sua relação com a crítica literária: acha importante, não lhe interessa ou entende como um tipo de conceito de avaliação ultrapassado?
BRUNO RIBEIRO – A crítica é essencial. O sentido de uma obra passa pela mão do leitor e os grandes livros são aqueles com uma ambiguidade potente o bastante para conseguir se reinventar durante os séculos. Vide Madame Bovary ou Dom Casmurro: um leitor acha isso, outro acha aquilo, e essa pluralidade de leituras é o que enriquece um livro. A importância do crítico passa neste ponto: é um escritor – pois vejo o crítico como um escritor – que disseca uma obra e a amplia, nunca fecha. Críticos que fecham livros dentro de conceitos restritos e predeterminados me incomodam. Ou seja, acho válido um livro ser duramente criticado, mas que isso seja explicado tecnicamente e que o crítico não isole o livro e suas possibilidades, que deixe algo em aberto, que jogue as vísceras do livro no palco, mas que não o resuma a adjetivos banais e reducionistas. Fora os críticos que fecham ao invés de abrir as obras, outra coisa que me incomoda é a agenda de muitos deles. O meu incômodo surge ao ver certos críticos descendo o pau em livros de editoras pequenas e exaltando os de editora grande e, só vez ou outra, descendo o pau em um livro das grandes. É sério que editora pequena só publica porcaria? Não tem unzinho que preste? Aparentemente é muito fácil jorrar verdades absolutas sobre um meio literário que você só conhece um pedaço. De metonímias e bocas grandes o mundo tá cheio, mas se debruçar de fato sobre um universo para assim, e só assim, dar uma opinião relevante sobre um mundo tão complexo e vasto como o literário nacional é mais difícil e poucos o fazem. Nesses casos, o que vejo é a boa e velha torre de marfim reinando, pois impor uma agenda claramente conservadora e que só elogia um lado… Não vale é de nada para mim. Um crítico literário deve ter uma agenda ampla, sem conservadorismos e preconceitos, e caso não seja assim, acredito que deva ser honesto sobre suas intenções pelo menos, porque senão passa uma imagem errada e totalmente ultrajante a meu ver. Se o crítico tem uma responsabilidade, essa é a de ser transparente.
DA – Além de autor de ficção, você também ministra cursos e oficinas literárias. Muito se discute sobre a capacidade desses laboratórios de escrita de formarem um escritor em contrapartida ao que é considerado, por alguns, como uma aptidão, uma qualidade inata. Da sua experiência, o que de fato uma oficina pode oferecer para quem pretende ingressar na literatura? Um escritor, afinal, pode ser “ensinado” a escrever bem?
BRUNO RIBEIRO – Inicialmente, a experiência me inquietou. Hoje, sinto-me realizado nesta posição de professor de escrita criativa. Acompanhar e ler textos de diversos gêneros e estilos é um verdadeiro aprendizado. Aprendi a ler de tudo, pois um professor de escrita criativa precisa estar aberto para todos os tipos de literatura, afinal, só assim é possível avaliar tecnicamente uma obra que fuja do seu agrado. Não é fácil, mas aprendi. Uma oficina pode entregar técnicas, procedimentos literários e principalmente leituras. Uma indicação de livro pode mudar a vida de um aluno. Outra coisa importante é aprender a ler, esmiuçar de verdade um texto, a linguagem, trama, personagens. Ler o amigo de oficina é mais importante do que escrever, pois ao julgar o texto alheio você indiretamente está aprendendo a avaliar o seu texto também. Aprender a escrever é algo estranho e que sempre me soa pesado, apesar de achar que uma pessoa pode aprender a escrever bem, obviamente. A diretora do meu mestrado de escrita criativa, a poeta argentina Maria Negroni, no primeiro dia de aula disse que o objetivo da pós-graduação não era de formar escritores e sim de criar espaços para encorajar as dúvidas e perguntas, pois a verdadeira escritura sempre é uma arte subjetiva, acima inclusive da matéria que esteja sendo estudada. Assino embaixo disso aí. Ricardo Piglia disse que “a literatura é a experiência mais intensa que existe”. Até hoje, essa frase é o meu lema neste ofício tão árduo. E tento passá-la para os meus alunos, pois, sem processo, confronto, intensidade e pulsão, não há escritura. Seja sacra ou profana, sem gana, não rende. Resumindo: é possível sair mais “enriquecido” literariamente de uma oficina, curso ou pós-graduação de escrita criativa, mas se a pessoa vai se tornar ou não um escritor, isso é algo que só as suas obras poderão dizer.
DA – Nesse mesmo campo, a sua convivência com jovens que pretendem se tornar escritores lhe mostra que há neles a formação de leitor. Os jovens estão preocupados em ler bem, investigar com afinco o que está acontecendo na literatura contemporânea brasileira, ou sofrem do mesmo mal que acomete os leitores em geral?
BRUNO RIBEIRO – Uma professora de Campina Grande, Anna Giovanna, passou o meu romance “Febre de Enxofre” para os seus alunos lerem. O resultado foi sensacional: os alunos se vestiram como os personagens do livro, criaram cartazes e banner, e eles fizeram uma sabatina incrível comigo. Muitos ali leram muito bem o meu livro e tascaram perguntas instigantes e profundas. Eram alunos do segundo ano e, veja bem, essa é uma época da vida onde dizem que a garotada quer saber de tudo, menos ler. Claro que não vou pegar este recorte da minha vida para falar que os jovens amam ler, mas o utilizo para falar que quando um professor luta para colocar na mão dos seus alunos obras mais desafiantes, instigantes, e, melhor ainda, botam o autor dessa obra na sala de aula, a coisa muda um pouco. Porque muitos alunos ainda veem escritores como seres arcaicos, corcundas, velhos chatos, mortos. Logo, apresentar um escritor local para eles e o livro dessa pessoa, mostrar que é possível fazer uma literatura distinta daquilo que eles precisam ler para passar do ENEM, pode sim mudar suas vidas. Enquanto professor, eu sempre apresento trechos de livros de escritores independentes. Quando leio o começo do romance “Palavras que devoram lágrimas”, do Roberto Menezes, a galera vibra, adora, assim como quando leio o começo visceral e lírico de “Nossa Teresa: vida e morte de uma santa suicida”, da Micheliny Verunschk. O mesmo ocorre quando leio trechos de “Modos inacabados de morrer”, do André Timm. “É sério que pode fazer isso na literatura?”, muitos alunos perguntam. São obras que dificilmente cairiam na mão da galera, então é bacana falar que esses livros estão sendo lançados atualmente e por autores vivos. Quando ministro oficinas em colégios, um ou outro tem interesse em se aprofundar no que apresento, e é nisso que creio: nos pequenos atos e revoluções. Não penso em mudar o todo, mas se conseguir impactar uma pessoa ali, pra mim já tá valendo. Formação de leitores é isso: um trabalho de formiguinha, que deve ser feito com paciência e paixão, sem esperar grandes e imediatos retornos.
DA – Hoje há um consenso desanimador de que quem realmente lê os livros dos autores nacionais são os próprios autores nacionais. Isso, ao meu ver, configura-se em razão de algumas circunstâncias: a falta de distribuição, as baixas tiragens, a crise do mercado editorial e o baixo consumo dos leitores. Publicar um livro diante de todos esses obstáculos, portanto, não seria mais um capricho? Literatura, no Brasil, é mais paixão e resistência que a construção de uma carreira?
BRUNO RIBEIRO – Já parei pra pensar sobre isso: por que eu publico um livro? É difícil pensar em que estado eu estou na minha “carreira”. Tanto que nem uso o termo carreira literária, e sim vida literária. Nem é para pagar de diferentão, mas é por pensar de verdade que a literatura atravessa mais a minha vida do que uma carreira. Fora o blá blá blá de só recebermos 10% do livro e tudo isso, o que mais ferra nossa vida é a distribuição. O pessoal do cinema sofre o mesmo. Se houvesse uma distribuição melhor, a coisa mudava. Basta ver o caso do Giovanni Martins e o seu “O sol na cabeça”. Um livro de literatura e não um best-seller exportado ou um livro de youtuber vendendo pra caramba? Como pode isso? Distribuição, boa tiragem e investimento. Sem dinheiro, é complicado de chegar, por isso mesmo que a internet e os diversos meios alternativos de publicação, divulgação e distribuição são tão importantes. Bater de frente com o mercado é dar soco em ponta de faca, a verdade é que precisamos estar em outros lugares e driblar as imposições do capitalismo. Por isso participo de todos os eventos que me chamam, vou para as escolas, feiras, puteiros, igrejas, até pra livraria eu vou se me chamar, porque é importante ocupar os espaços e jorrar sua palavra – literatura – no ouvido alheio. No final das contas, o que me importa é tentar estar nesses lugares sem fazer tantas concessões também, sabe? Sigo o lema do Zagallo: “vocês vão ter que me engolir”. Minha literatura é isso e fim de papo. E é uma luta tremenda seguir essa linha intransigente, vez ou outra até penso se publicar é tudo isso mesmo, até porque vou continuar escrevendo, publicando ou não, mas aí penso um bocado e decido entrar no jogo, afinal de contas, apesar das desgraças, pelo menos eu me divirto um pouco e consigo um ou outro leitor.
DA – Voltando ao seu primeiro romance, “Febre de enxofre”, temos um vínculo entre dois personagens que se conforma uma relação de vampirismo. Logo no início de “Anos de formação”, Emilio Renzi, alter ego do escritor argentino Ricardo Piglia, tenta definir o que é a escrita para si; “seria uma mania, um hábito, um vício”, ele se pergunta, sem chegar a uma conclusão. O que é essa necessidade de escrever? Tornar-se escritor é, de fato, um pacto vampiresco? Algo que se aloja dentro de si e cresce na dependência?
BRUNO RIBEIRO – Amo essa ideia do pacto vampiresco, provavelmente por me sentir como um escritor do século XIX vivendo no XXI: a criação pra mim bebe bastante do romantismo, decadentismo e simbolismo. A diferença é que eu sugo essa inspiração e injeto uma boa carga de humor e deboche nela, pois a transgressão pra mim só funciona se houver riso e certa desconstrução, ou seja: um não se levar tão a sério. Quanto a isso, admiro e me inspiro muito no Michel Houellebecq; ele também bebe de influências românticas e decadentistas do século XIX, mas consegue reinventar os lugares comuns e seriedades dos autores deste período com sua linguagem e olhar repletos de contemporaneidade e humor ácido. No excelente texto “Permanecer Vivo: um método”, ele diz que “um poeta morto não escreve. Daí a importância de permanecer vivo”. Acho que essa frase consegue condensar tudo o que penso enquanto projeto literário: há humor, poesia, absurdo, cinismo, profundeza. O humor – aquele debochado que critica e fala verdades afiadas – é uma ferramenta essencial nos meus livros, assim como a própria descrença nos procedimentos que utilizo. E por isso que nego o gênero e tudo que devoro para escrever um livro também… Às vezes nego até a linguagem. A dependência à escrita, aquele velho jargão compatível comigo e vários comparsas: “escrevo para sobreviver”, por exemplo, é muito tosco. Não há como falar uma frase dessas sem colocar uma gargalhada em seguida; é meio sofrível ver gente levando a sério a desgraça que é escrever. O vício pra mim, o pacto vampiresco e infindável do escritor que aloja e não sai mais, é como um bobo da corte flutuando em abismos de mentirinha, mas que se o cara pular no negrume se tornam reais e ele afunda; é o sorriso e o susto, o grotesco inserido numa grande gargalhada, e é neste campo tão conflitante que estou na literatura, mergulhado em um pacto que causa dependência e risos nervosos.
DA – Seria possível recriar o mesmo experimento de “Glitter”, porém com escritores? Qual seria a dinâmica e quem você acha que deveria participar?
BRUNO RIBEIRO – Seria possível, claro! O Manuel da Costa Pinto faria as vezes do estilista ermitão de “Glitter” e selecionaria vinte e um escritores para participar do “A Literatura Viva”: uma espécie de grande sarau que seria finalizado com o fuzilamento dos escritores. O assassino que estaria responsável pela chacina lírica seria o franco-atirador Marcelino Freire; segue a lista dos vinte e um: eu, Roberto Menezes, você (Sérgio Tavares), Aline Bei, Bernardo Carvalho, Tiago Germano, Cláudia Lemes, Débora Gil Pantaleão, Adriane Garcia, Cristina Judar, Noemi Jaffe, Mike Sullivan, Ricardo Lísias, Adriana Brunstein, Tadeu Sarmento, Eduardo Sabino, Irka Barrios, Micheliny Verunschk, Ana Paula Maia, Mariana Basílio e André Timm. Mas, assim como todos os conflitos que ocorrem dentro da nossa bolha literária, a plateia descobriria rapidamente que as balas eram de mentira e que os vinte e um escritores só estavam simulando suas mortes: era uma performance para divulgar uma antologia de contos e poemas sobre o tema: A MORTE DO AUTOR. Todos aplaudiriam e se abraçariam no final do ato; tiraríamos muitas fotos para o Facebook e, enquanto um escritor bravo dava um soco murcho no peito de um escritor chorão, iríamos pra casa rastejando e carregando nossas vitórias e louros nas costas cansadas de tanto escrever e tirar fotos.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.
Copa do Mundo de Futebol na Rússia, 06 de julho de 2018. Nas quartas de final, o Brasil é eliminado pela Bélgica, pelo placar de 2 a 1. Agora imagine uma outra situação. Aos 48 minutos do segundo tempo, a atacante Roberto Firmino é derrubado na pequena área. Com o auxílio do VAR, o árbitro sérvio marca a falta. Neymar, então, pega a bola e se encaminha para a marca do pênalti. Se fizer o gol, a seleção brasileira empata e segue viva na prorrogação. Se perder, o Brasil volta para casa, desmoralizado. O craque do PSG se concentra, mas antes de decidir em qual canto chutar a bola, vem à sua mente as intermináveis chacotas, as memes escarnecedores, o apelido de eterno cai-cai. Será que vale a pena fazer o gol para o país que o trata com tamanha zombaria ou agora é o momento de dar o troco?
Tomando as devidas proporções, Saúva, o protagonista de “A cobrança”, primeiro romance do pernambucano Mário Rodrigues, passa por um dilema parecido. O cenário é o mesmo: a Copa do Mundo de Futebol na Rússia. Na final entre Brasil e Alemanha, o capitão da seleção brasileira está diante da marca do pênalti, que poderá dar o hexacampeonato ao escrete canarinho. Ocorre que o jogador, de origem humilde, com a infância marcada pela pobreza extrema e por traumas familiares, nunca foi bem tratado por esse país que agora depende de apenas um chute certeiro para alcançar a glória. Está aí, portanto, a chance de ele se vingar da pátria (nada) amada, Brasil.
Ao contrário do que se disse por aí, Mário Rodrigues, sim, usa do futebol para se falar de política. Mostra os efeitos da corrupção no alto escalão e nas profundezas mais ordinárias. Os governos que se alternam sem nunca, de fato, mudar o quadro das mazelas sociais, dos marginalizados, dos abandonados de tudo. Dividido em três eixos narrativos, o romance se constrói dentro da história mental de seu protagonista. O menino moldado pela miséria, por abusos e ausências, que acompanhou o pai ser quebrado pela Era Collor e, agora, enquanto aguarda o árbitro autorizar a cobrança do pênalti, avalia se conceder a vitória seria justo ante tudo que passou, ante o que ainda passam milhares de brasileiros.
Na entrevista a seguir, o autor, cuja obra de estreia conquistou o Prêmio Sesc de Literatura, revela os bastidores de seu livro. O processo criativo, as motivações, a influência do famigerado 7 a 1 e o interesse em tratar o futebol em sua vocação metafórica e como instrumento para se deslindar os contrastes que configuram a sociedade brasileira. Com mesma incisão e clareza, Mário Rodrigues ainda fala sobre mercado literário, prêmios, educação, leitores, literatura nordestina e o ofício da escrita. “Em países periféricos como o nosso, ser escritor é uma afronta. Uma excrescência. Uma aberração”. Pelo visto, não só Saúva vive um dilema.
Mário Rodrigues / Foto: arquivo pessoal
DIVERSOS AFINS – “A cobrança” se passa durante a partida final de uma Copa do Mundo, na Rússia; exatamente como acabamos de presenciar nos últimos dias. Como nasceu a ideia para a construção do livro? Houve um planejamento para que estivesse pronto e fosse lançado juntamente ao mundial?
MÁRIO RODRIGUES – Sempre apreciei o esporte. É também do meu interesse a relação do futebol com a sociedade brasileira, como marca relevante de nossa construção social e cultural. Após a Copa do Mundo de 2014, a mim ficou patente que uma página significativa foi virada nessa relação entre a seleção, como herança cultural, e o povo brasileiro. Era algo gestado já há um bom tempo com a expatriação muito cedo de nossos bons jogadores, criando um abismo de interesse entre os torcedores e os atletas. Uma torcida sem empatia, sem reconhecimentos. Porém, o que aconteceu em 2014, com os 7 a 1, foi mais profundo. Há duas rupturas ali: a seleção brasileira se afastou em definitivo (não do torcedor iniciado, com este isso já ocorrera), mas, sobretudo, se alienou daquele torcedor ocasional, o típico torcedor de Copa do Mundo. Nossas avós, que só assistiam aos jogos da Copa, mesmo elas perderam a sintonia com a equipe. Além disso, o próprio jogo mostrou que, sim, éramos vulneráveis, vencíveis – e vencíveis com grau de humilhação inédito. A Copa de 2014 partiu a relação entre povo e a seleção. O futebol saiu do campo cultural e social para ser um fator meramente esportivo: isso é significativo em excesso como dado histórico. “A cobrança” tem a pretensão de capturar esse momento. Com uma diferença: como se fosse um movimento de dentro para fora. Que a ruptura ficasse latente a partir do campo de jogo e se dispersasse pela vida pública. E que no ponto mais sensível do esporte – uma disputa de pênaltis na grande final – nós pudéssemos refletir sobre o aspecto mais íntimo desta relação: querer cortá-la. O livro ficou pronto em meados de 2017, o que tornou viável sua publicação em 2018, no primeiro semestre. Claro que comercialmente seria interessante essa data, pois aproveitaria o fluxo da Copa. Foi isso que fizemos. Obviamente, porém, há o desejo de que a força dessa história extrapole esse período. As leituras que vêm sendo feitas me deixam muito feliz. Percebo que o livro levanta várias questões pertinentes e aponta para inúmeros destinos – o que provavelmente lhe dará uma vida útil para além do período de Copa.
DA – No seu livro, temos um jogador de futebol brasileiro diante de um dilema. Se fizer o gol de pênalti, ele dará o hexacampeonato ao Brasil; se perder o pênalti, ele se vingará do país que virou as costas para ele durante toda a vida. Na sua opinião, qual a melhor leitura para esse drama? A maneira realista ou a alegórica?
MÁRIO RODRIGUES – É de Nelson Rodrigues a famosa tirada: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”. Imaginemos, portanto, a final de uma Copa do Mundo disputada com penalidades máximas – seria o auge dessa dramaticidade. O livro trabalha com um olhar muito próximo, sobretudo na caminhada do jogador até a marca do pênalti. Cada detalhe – gramado, braçadeira, bola – vai ganhando ressonância. Detalhes trabalhados, às vezes, de modo claustrofóbico. Isso, pretendo, dá uma dimensão quase palpável e real daqueles passos. Mas, como se espera da literatura, a alta, esse cenário é feito para acessar outras instâncias da história de Saúva e da experiência do leitor. No fundo, o jogador que tem que tomar a decisão de se vingar do seu país ou não. É metáfora sobre cada um de nós e sobre todos nós. Dentre as várias caminhadas, como humanos e cidadãos, essa alegoria nos é oferecida: o prazer egoísta da vingança – mesmo justificada – está acima do bem estar coletivo (mesmo que este seja ilusório e não reconhecido)? No país que herdamos, é justo basearmos nossas escolhas e nossas éticas pessoais na vantagem individual ou ainda há espaço para pensarmos na coletividade? Um único momento de glória pode justificar a vida de um homem e um único momento de vingança poderia ter o mesmo efeito?
E um último reflexo: não estamos nós, a cada dia, diante deste mesmo pênalti? É no meio dessas angústias que encontramos Saúva. Diferente dele, porém, não estamos acompanhados por bilhões de espectadores. Estamos sozinhos.
DA – A partida em que se ambienta a história é uma final de campeonato mundial entre Brasil e Alemanha. A escolha do adversário tem a ver com o famigerado 7 a 1, que tomamos na Copa de 2014? E como você desconstrói aquele resultado, sabendo hoje de toda a corrupção que envolveu a preparação daquele evento?
MÁRIO RODRIGUES – Na verdade, vejo a Alemanha como o grande rival futebolístico do Brasil (mais do que a Itália – e nem cito a rivalidade com a Argentina tão artificialmente forjada pela Rede Globo). Em números de conquistas e participações, em quantidade de gols marcados, em história, em peso de camisa, são essas as grandes potências. Mas há algo além: a espécie de jogo, a forma como se pratica o futebol. As escolas. Mesmo os alemães tendo nos últimos anos se aproximado de um futebol mais suave, é impossível fugir do próprio DNA. Sintetizando: o futebol alemão é o método; o nosso, improviso. São opções estéticas, as duas melhores já feitas nesse esporte. Mas é impossível fugir do 7 a 1. A maior vergonha da história do futebol. A possibilidade de uma catarse não poderia ser descartada. Como tudo no livro, todavia, é uma catarse módica, nos pênaltis. Mas só teria sentido contra a Alemanha, nosso algoz. Para o bem e para o mal, o esporte espelha a vida. Por mais que, com o tempo, os aspectos extracampo possam contribuir para certas explicações, é o resultado que fica para a história. Podemos pensar no acaso que foi o Brasil de 1982 perder para a Itália com três gols do corrupto Paolo Rossi; podemos pensar no craque Zico perdendo um pênalti em 1986, porque não estava plenamente recuperado de contusão; podemos pensar na água batizada que os argentinos deram a Branco na copa de 1990; e na misteriosa convulsão do “Fenômeno”, em 1998. Tudo isso, porém, orbita sem relevância diante do astro significativo: o placar e a eliminação. Por mais que o negócio futebol tenha se corrompido – e se corrompeu de modo imperdoável em todos os seus patamares –, o esporte continuará. E será efetivamente o que foi feito em campo que será lembrado. De modo que para sempre o 7 a 1 representará uma vergonha inapagável.
DA – O protagonista do seu livro é um jogador de futebol que teve uma infância miserável, como é comum a milhares de jogadores brasileiros que vieram dos espaços marginalizados das grandes cidades. Um menino ruivo, de apelido Saúva, com um drama familiar bem pesado, que encontrou na bola um instrumento de salvação. Como foi dar vida a este protagonista? Foi inspirado em aspectos da realidade ou é produto estritamente da ficção?
MÁRIO RODRIGUES – É preciso antes uma nota técnica. Em ficção, acredito que o personagem é essencial, tudo emana dele. É o personagem que dá vida à narrativa. Para que o argumento de “A cobrança” funcionasse, seria preciso um protagonista com várias especificidades. Não poderia ser um zagueiro-brucutu que daria um bico para fora na hora do pênalti nem tampouco o craque-instagram que daria uma cavadinha humilhando o goleiro desesperado. Deveria ser um volante: o elo entre a defesa e o ataque. A mais ambígua das posições do futebol: aquele que pode ser a síntese do que de mais fino já foi apresentado no futebol (Beckenbauer) com o que mais bruto foi apresentado (Dunga). Depois, entra a composição física: Saúva é ruivo. É um alienígena, um estranho no futebol brasileiro. Quantos atletas ruivos defenderam a seleção brasileira? Esse aspecto físico deixam inseguras nossas conclusões. Esse sujeito seria capaz de tudo. Além disso, Saúva é o capitão do time (a formiga que trabalha pela coletividade). A bússola moral. Guarda em si uma obrigação: ele é farol não pela técnica, mas pela seriedade, pela entrega que demonstra em campo. E é exatamente essa entrega que justifica qualquer atitude tomada por ele. Fiquei muito feliz com a maneira com que esse personagem descambou para as páginas. É difícil esquecê-lo e esquecer seu drama depois de habitar sua mente naqueles segundos que o levam ao pênalti, naquelas páginas que levam à cobrança. Porém, seria necessário que Saúva tivesse uma história que oferecesse verossimilhança às suas possíveis escolhas diante do goleiro alemão. Então, colocamos aquele menino em seu processo de formação – como dito: nem um pouco fácil. Entram aí a fabulação e a invenção, o caráter mesmo da literatura. Manusear como títeres aqueles infelizes personagens, o pai e a mãe, para que eles fornecessem a matéria humana complexa que gerou nosso capitão, Saúva. E, claro, minha posição preferida em campo, até hoje, é a de volante.
DA – A literatura ficcional brasileira tem um histórico de bons livros sobre futebol. Eu cito Nelson Rodrigues, Moacyr Scliar e Sérgio Sant’Anna, por exemplo, como grandes autores que se debruçaram sobre o tema. No caso da preparação de “A cobrança”, você chegou a criar uma bagagem bibliográfica para estruturar seu livro ou não precisou, pois imaginou o futebol mais como um dispositivo para dar forma ao seu enredo?
MÁRIO RODRIGUES – Minha relação com o futebol sempre foi muito próxima, tanto praticando quanto assistindo. Acho mesmo que há algo de especial, de superior, neste esporte. As mesmas palavras e impressões podem ser aplicadas à literatura. Acho mesmo que há algo especial nesta arte. De modo que livros sobre futebol – sobretudo de grandes autores – foram sempre um interesse meu. Além dos citados, ainda lembro com destaque de contos do Marcelo Moutinho, do Rubem Fonseca, o livro do Laub, os ensaios do Wisnik e do Hilário Franco. Assim, naturalmente, ao longo da minha formação de leitor, essa bagagem, de modo natural, vinha sendo montada. Essas leituras – embora prazerosas – pouco influenciaram na escrita efetiva de “A cobrança”. As maneiras como as engrenagens do livro foram dialogando pediam certas escolhas técnicas e formais muito específicas, exclusivas desta história.
Mário Rodrigues / Foto: arquivo pessoal
DA – No seu livro anterior, “Receita para se fazer um monstro”, os contos também tratam de personagens com infâncias fraturadas, convertidas numa fase de desarranjo emocional, de falhas e de crueldades sofridas e infligidas. Você consegue estabelecer uma ligação entre seus dois livros? E há, em seu estímulo criativo, uma preocupação permanente em dar voz a personagens marginalizados?
MÁRIO RODRIGUES – É do Paulo Mendes Campos aquele belo verso: “Sou restos do menino que passou”. Há também aquela frase-clichê do Brás Cubas: “O menino é o pai do homem.” É impossível fugir da infância – e lá estão receptáculos de boa parte da ficção que foi produzida. É para mim um espaço essencial à criação. Na minha biografia, há um dado que é importante. Tive infância sem traumas: família estruturada, lar sem violência, financeiramente sem pobreza extrema e sem riqueza ostentosa. Isso me deu, creio, o distanciamento necessário para pensar e refletir sobre as outras infâncias, alheias a minha. E que tipo de repercussão infâncias disfuncionais gerariam na alma e na índole e nas ações desses personagens quando na vida adulta. Tanto o protagonista sem nome do “Receita…” como o Saúva de “A cobrança” são resultados diretos de suas infâncias torpes – e que, agora, estão diante de momentos crucias de suas trajetórias. Há algo neles, contudo, que é muito caro a mim. Longe de qualquer tipo inescapável de determinismo, eles seguram as rédeas de suas vidas, de suas escolhas. Eles próprios asseguram que têm o poder de escolher, o prazer e o ódio lhes pertencem, a responsabilidade é deles – e não fogem disso. Esses seres humanos no limiar de suas decisões me interessam. E acho que devem interessar à literatura. Nesse ponto, os livros dialogam muito. A literatura é a maior lente de aumento que existe: não dá para desperdiçar essa ferramenta – mesmo, como se sabe, tendo ela perdido relevância social no último século. Acho enfadonha essa literatura ensimesmada que vem sendo feita no Brasil (uma ressalva: feita e incensada; porque há outra literatura, fortíssima, pujante e original – e que passa ao largo desse patético mainstream literário brasileiro). Então, realmente, não me ocupo com escritores-personagens que passam uma temporada macambúzia em Paris e acham que isso é matéria de interesse para a literatura e leitores. O abismo é o que me interessa.
DA – Embora tenha esse apelo do futebol, seu livro problematiza alguns assuntos sempre atuais acerca do contexto social brasileiro, como a pobreza, o descaso total do Estado, a corrupção, a ineficiência dos mecanismos de serviço público. Você é a favor do uso da literatura como veículo de denúncia? Acredita que, por fatores que estão além do pendor artístico-criativo, falta engajamento para grande parte dos autores brasileiros?
MÁRIO RODRIGUES – Em primeiro lugar devo dizer que não há nada de errado em um autor ter consciência política. Aliás, o ideal é que ele a tenha e seja ético e coerente com a defesa da mesma. Militante até, se for o caso. O Rubem Figueiredo diz taxativo: “A literatura é política”, algo que endosso. E mais: uma obra literária pode mudar (antes mais do que hoje, em virtude do esvaziamento social do discurso literário) os paradigmas de um povo. Vejamos a obra de Graciliano Ramos, meu escritor favorito. Vejamos a foto do García Lorca recitando poemas contra os fascistas que o fuzilariam: é das coisas mais forte feitas por um ser humano. Porém, é preciso cuidado: uma vez eu (escritor) descobrindo uma demanda social, a necessidade de um determinado grupo de pressão, uma vez determinada uma pauta politicamente correta, então eu (escritor) montaria uma obra ficcional para afagar esses nichos e por eles ser aceito e endeusado e reconhecido e a partir daí ter minha literatura (duvidosa) apreciada e circulante. Isso é falho. Já o é do ponto de vista estético, do ponto de vista ético é um acinte. Ocorre que, na minha concepção de arte, a literatura está acima, não necessariamente dissociada, mas acima de discussões e contingências políticas. A literatura é maior, simples assim. Como Goya, na Espanha deflagrada, que colocou sua arte acima da politicagem. E, no entanto, será “Os desastres da guerra” o testemunho mais visceral e pungente de sua época e a crítica interminável dos desmandos dos poderosos. “A cobrança” não é um livro pusilânime. É livro corajoso. Que não se esconde do zeitgeist em que vivemos. Mas eu não aponto caminhos em minha literatura. Proselitismos. Não há didatismo, beletrismo e autoajuda. Minha obra é labirinto. Joga o leitor nos canais e corredores. Há a direita e há a esquerda e há o centro. E, neste labirinto, está Astério, o minotauro. Se você vai escapar dali com um fio de ouro na mão e a lâmina banhada pelo sangue antropobovino ou se terá seus fatos eviscerados pelos chifres pontudos do boi-real é, mais do que escolha, competência de cada leitor.
DA – Estamos num ano interessante, em que tivemos uma Copa do Mundo de Futebol seguida de uma eleição para a presidência do Brasil. Nos anos 70, no auge da ditadura, a conquista do campeonato mundial foi intensamente utilizada como peça de propaganda pelos militares. Traçando um paralelo com seu livro, qual o perigo que o futebol pode oferecer quando visto sob o prisma político? E parafraseando Nelson Rodrigues, futebol é mesmo o ópio do povo brasileiro?
MÁRIO RODRIGUES – O poder de penetração emotiva na alma coletiva de um povo que o esporte possui já foi inúmeras vezes aventado e aplicado. Vejamos, por exemplo, Mandela e o rúgbi na África do Sul pós-apartheid, os panteras negras nas Olimpíadas de 1968 e ainda Muhammad Ali. É dado da natureza, também, que autoridades se apropriem disso para adaptá-lo a seus discursos, sejam eles nacionalistas, partidárias, xenofóbicos etc. Capitalizar em cima de vitórias esportivas é algo a sempre ficarmos atentos. A Copa de 1970 foi emblemática nesse sentido, sobretudo quando lembramos que Médici realmente gostava de futebol e entendia de seus meandros. Porém, esse perigo já foi mais real. Hoje, como disse, a relação do brasileiro comum com o futebol mudou sobremaneira. Durante a Copa da Rússia, poucas ruas foram decoradas com as cores da seleção; houve alunos meus (portanto, a nova geração) que perguntaram por que não haver aula durante o jogo da seleção brasileira? O número de pessoas realmente apaixonadas pelo futebol, aquele futebol do dia a dia, no Brasil, é relativamente pequeno. Mesmo um hexacampeonato terá pouca influência nos caminhos políticos da nação. Como Saúva, será a revolta íntima e individual, somada às revoltas de cada um, a única força transformadora deste país, se a apatia não nos vencer a todos. A metáfora do Nelson envelheceu. Assim como o ópio e a heroína deram lugar a outras drogas, o que nos aliena hoje, como povo, já não é mais o esporte.
DA – Com o seu primeiro livro, você conquistou o Prêmio Sesc de Literatura, na categoria Contos. Diante da realidade do mercado literário brasileiro, qual o maior benefício de se ganhar um prêmio de literatura e qual a maior ilusão que um autor premiado pode ter?
MÁRIO RODRIGUES – Sou um defensor e admirador ferrenho do Prêmio Sesc, antes mesmo de tê-lo conquistado. É a maior iniciativa para os escritores iniciantes da literatura brasileira. O Henrique Rodrigues e o Fred Girauta, que encabeçam o projeto, são dois sujeitos que tenho na mais alta admiração pelo belo trabalho que fazem, pelos nomes que têm revelado, pelos livros que surgiram a partir desse prêmio. E, claro, faço menção à Editora Record, que acreditou no projeto lá nos idos de 2003. O prêmio se bifurca em dois grandes benefícios. Primeiro, o selo de uma grande editora. Embora isso não chancele sua obra em relação a você mesmo (afinal, subtende-se que um escritor deva ter a autocrítica necessária para saber quando seu trabalho tem força ou quando é franco, sem necessidade de chancelas externas), impressiona a maneira diferenciada como o mercado, os leitores e a mídia veem um livro publicado por uma grande editora. E inevitavelmente isso abra portas – falando de maneira madura, é uma mudança de patamar para o escritor (volto a dizer: não uma mudança de seu talento, mas da visibilidade que esse possível talento recebe). O outro benefício: o circuito que o Sesc faz com os ganhadores, estes participando de palestras e mesas pelo Brasil afora: a quantidade de pessoas com quem você dialoga neste ano que compreende o prêmio é incrível. Aprende-se muito. Alguns funcionários do Sesc são artistas brilhantes e o convívio com eles é muito interessante. E há o contato com os leitores. Pessoas que efetivamente leram seu livro, sem o ranço intelectualóide de certas leituras. Leram pelo prazer da imersão em um personagem e em um mundo, seu mundo e seu personagem. É sempre uma troca muito rica. Por exemplo: tive a honra de participar em Paraty de um clube de leitores – pessoas que leram e debateram meu livro durante um mês e, no final do período, fui até eles para conversarmos sobre a obra. Imagine-se a quantidade de coisas que descobri sobre meu próprio livro… além disso, fizeram aqui em Pernambuco uma amostra de teatro onde as histórias do “Receita…” foram encenadas e então vi o personagem pular das páginas – sem dúvida, experiências que não têm preço. Sem o Prêmio Sesc, simplesmente elas não iriam existir. Quanto à principal ilusão: acredito que tudo decorre de uma visão equivocada sobre o ofício de escrever e sobre o mercado literário. Alguns escritores colocam o ofício no mundo do showbizz, encarando a si mesmo como popstar, uma diva. Esperam camarotes com infinitas toalhas brancas, paparazzi, contas milionárias: é a paulo-coelhização da literatura. Não é por aí que a escrita caminha. A literatura é a confecção lenta e silenciosa de uma obra. É o principal patrimônio de um escritor. O prêmio, seja ele pecuniário e de outra ordem (dar visibilidade), é apenas um incentivo, por vezes módico, para que essa obra seja construída. Aparecer na TV, ser popular no Facebook, frequentar certa cena literária, coisas que prêmios proporcionam, não devem ser nunca a razão de ser de um escritor. E não é. A vela do escritório de Flaubert servindo na madrugada de pequeno farol para os barcos de Rouen é o melhor símbolo para um escritor.
DIVERSOS AFINS – Ainda em relação ao prêmio, você é um autor do Nordeste do país, que atingiu visibilidade nacional em razão de o seu livro ter sido publicado por um grande grupo editorial. Olhando com distância essa realidade, você acredita que teria chance de publicação com tamanha amplitude, caso não tivesse sido premiado? Ainda é necessário o autor estar no eixo Rio-São Paulo para que seu trabalho consiga ser enxergado?
MÁRIO RODRIGUES – Não. Não haveria a menor chance de publicar por uma grande casa editorial sem o caminho aberto pelo Prêmio Sesc. Não é que o mercado literário brasileiro seja fechado. É simples: não existe efetivamente o mercado literário no Brasil. Ninguém está interessado em descobrir o grande romance brasileiro. Naturalmente, existem os autores estabelecidos que interessam às casas editoriais (mesmo que seus livros atuais não tenham nenhum valor efetivo) e outros autores novos que, por um motivo ou outro (um agente literário mais influente ou se enquadram em certos nichos de cor, opção sexual e classificação social-financeira), fazem parte desses portfólios. Mas uma política de fomento à nova literatura não existe. Tornou-se muito fácil no Brasil imprimir um livro, mas publicar um livro é das coisas mais difíceis. Explico: contratar um serviço de uma gráfica ou de uma gráfica camuflada de editora é fácil. Mas o escoamento desse material é sempre muito angustiante. É o momento em que se percebe que você não tornou pública sua obra, não houve a publicação. Você apenas imprimiu seu texto. Estar no eixo Rio-São Paulo também não ajuda muito. Com minha personalidade, se eu morasse em Ipanema ou nos Jardins, no Complexo do Alemão ou em Itaquera, não publicaria meus livros senão através de um prêmio como o Sesc. A mera situação geográfica não ajudaria em nada. O que ajuda – e agora nós entraremos num terreno mais capcioso – é o que chamam, termo horrível, de network, sua rede de trabalho. É você estar disposto a fazer o jogo. Como se diz no esporte: “Jogo é jogado, lambari é pescado.” Se o sujeito estiver disposto a mendigar amizade de grupelhos de escritores com certa influência sobre certos grupelhos de editores, paparicá-los em oficinas literárias pagas ou acompanhá-los em eventos esvaziados de público nos quais eles participam e ser aquele seguidor ferrenho em suas redes sociais, forjar talvez uma amizade artificial (ambos sabendo dessa artificialidade), o sujeito assim pode receber, um belo dia, algum tipo de convite, uma inserção no famigerado mundo literário. Mas é preciso ter a índole necessária para isso. Nem todos têm. Eu não tenho. Grupelhos autorreferentes são aquela imagem do Paul Auster: a fachada bonita de um castelo, mas quando você se aproxima é de papelão. Ao atravessar a fachada, não há nada lá.
Mário Rodrigues / Foto: arquivo pessoal
DA – Você trabalha com escrita e literatura, ensinando redação para adolescentes. Constantemente, pesquisas dão conta de um número ainda inexpressivo de brasileiros que leem ou mesmo que se envolvem com a literatura na condição de hábito e de lazer. Da sua experiência diária, como enxerga esse panorama? Os jovens estão lendo de fato, demonstrando interesse pela literatura, ou ainda estamos longe de uma geração efetivamente de leitores?
MÁRIO RODRIGUES – A resposta varia. Meus alunos são bons leitores. É comum vê-los com livros nas mãos – mas é preciso fazer um recorte específico. Acabo dando aula, na maioria das vezes, para alunos de certa classe social mais privilegiada, onde o acesso ao livro não é algo exótico, poderia dizer que é algo natural. Há livros no seu cursinho em abundância e disponibilidade, há livros em casa. Os pais têm condições, se os meninos assim quiserem, de bancar a aquisição de livros para que seus filhos os leiam. Porém, mesmo nesse caso raro, a literatura consumida é muito específica. Não há aí nenhuma crítica, mas são séries superficiais e há pouquíssima transição dessa literatura para algo mais apurado artisticamente ou temas mais sofisticados e camadas mais profundas. Em resumo, há um momento em que o jovem perde esse ímpeto leitor. O papel do professor é fazer essa ponte. Muitas vezes, contudo, os josés de alencar inviabilizam o diálogo e a sensibilidade dos jovens leitores com o potencial da literatura. O professor atento faz a mediação, ganha leitores. Mas há poucos desses professores. Saindo desse nicho socialmente privilegiado, a situação é díspar. É deprimente. Não teremos uma geração de leitores. O livro é inacessível para a maioria dos jovens brasileiros. Os poucos que têm acessos a eles não têm o nível de leitura capaz de lhes fornecer a abstração. Não há leitura: há decodificação de letras e fonemas, apenas. Existe uma luta, em boa parte da nossa sociedade, pela sobrevivência imediata. Nesse mundo, o livro e a literatura não são realidades distantes, são realidades inexistentes.
DA – A educação está na literatura na mesma proporção que a literatura está na educação?
MÁRIO RODRIGUES – Infelizmente, não. Há muito pouca literatura na educação. De modo geral, as aulas de literatura são sucateadas, mecânicas, decorebas. O currículo escolar é anacrônico, e não adaptado às necessidades etárias e de maturidade dos alunos. Parece mesmo que a literatura na educação, na escola, é forjada de tal modo a afastar leitores. Nos vestibulares e no Enem, que poderiam servir como farol para o que é feito em sala de aula, cada vez mais a literatura se encontra subalterna – mesmo em provas essencialmente de interpretação de texto. Nestas, textos técnicos, científicos e jornalísticos predominam. É realidade: a literatura está esvaziada – e a escola reflete a sociedade (não o contrário). A visão jesuítica de educação, que não estimulava a criatividade e apenas a apreensão nos fez muito mal. E literatura é criatividade. Por outro lado, quanta educação e quanto ensinamento guarda um bom texto literário! Quanto a literatura nos educa! Como pessoas, como cidadãos, como críticos. Como transformadores de uma realidade individual e, quiçá, social. Milton Hatoum: “Se não fosse a literatura, eu seria um bobalhão” – é uma verdade. Não há forma melhor de aprender sobre o Norte deste país do que num livro como “Eu receberia a pior notícias dos seus lindos lábios”, de Marçal Aquino, nem sobre o Nordeste num livro como “Emissários do Diabo”, de Gilvan Lemos. Como não aprender tudo sobre a sombra do nazismo depois de ler Bruno Schulz e sobre a colonização da África depois de “O coração das trevas”? O paraíso é uma espécie de biblioteca, diz o poeta. Mas não podemos obrigar ninguém a entrar nele.
DA – Muito se fala do esporte, entre os quais o futebol, como ferramenta elementar para oferecer um futuro melhor para crianças oriundas de comunidades de baixa renda, em muitos casos dominadas pelo crime. Na sua opinião, a literatura pode ter ou tem esse mesmo poder de transformação social?
MÁRIO RODRIGUES – Em teoria, sim; na prática, não. A literatura perdeu sua função social (não quer dizer que um dia, no futuro, não possa ser reconquistada, embora não acredite nisso). Ela interessará cada vez mais a um grupo menor de pessoas. Imaginemos a matemática e o xadrez, ramos do conhecimento apaixonantes, mas deslocados da realidade, embora sideradores de grupos específicos. Este é o futuro da literatura: tornar-se cada vez mais o conhecimento de um grupo, uma seita de iniciados. Há, inclusive, quem defenda que a literatura só sobreviverá assim. Se arvorar a um papel de transformadora dos hábitos sociais e culturais, é erro. O viço estaria exatamente em sua introspecção. Não há lamento nessa visão. Perdemos muitas oportunidades. Afunilando para o Brasil, em vários anos de relativa estabilidade econômica e política, não soubemos transferir para a educação o protagonismo. Preferimos consumir celulares em vez de cultura, bibelôs em lugar de livros… Poderíamos estar vendo, agora, a aurora de uma nova geração leitora, crítica e consciente, mas observamos o nascer de pensamentos ainda mais retrógrados. É o preço que pagamos. Há livros transformadores. Mas estão lacrados, perdidos em alguma prateleira empoeirada de raríssimas bibliotecas públicas – que nunca estão abertas.
DA – No Brasil, é mais fácil ser escritor ou jogador de futebol?
MÁRIO RODRIGUES – Houve tempo em que ser jogador de futebol era coisa de malandro, de vagabundo, de quem não queria trabalhar. Hoje, essa visão mudou radicalmente. Há pais que fazem disso a meta de vida de seus filhos, mesmo antes destes aprenderem a caminhar direito. O irmão do Ronaldinho e o pai do Neymar são prova disso. De modo que difícil mesmo é ser escritor. Em países periféricos como o nosso (mas isso acontece em menor grau em várias partes do mundo), ser escritor é uma afronta. Uma excrescência. Uma aberração. Meu amigo (e um dos melhores contistas em atividade no país), Nivaldo Tenório, tem uma imagem perfeita: o escritor está em seu escritório compondo o livro que vai mudar a literatura brasileira, então a mulher o recorda de que é preciso limpar as bostas do cachorro no quintal. A literatura é menos importante do que as fezes a serem recolhidas. Ser escritor, no Brasil, é tentar compor uma obra, mesmo rodeado de fezes.
DA – Se você estivesse no lugar de Saúva, marcaria ou perderia o pênalti? Por quê?
MÁRIO RODRIGUES – Eu perderia o pênalti. Pois quem não reage, rasteja.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.
Qual sentindo poético terá a vida para alguém cujo existir exige re-existir, a todo o momento? Resistir ao ódio, ao preconceito, às múltiplas violências, e, por uma espécie de catarse, encher o mundo com beleza, movimento e poesia. Com quais cores tinge-se a face dessa artista, que joga com a sua não-existência, com o seu não-lugar no universo das representações binárias? De quantas performances se constitui o cotidiano dessa poeta multifacetada? Entender o artista como este ‘ser no mundo’, que reflete, dialoga e problematiza a realidade, nos possibilita definir o fazer artístico, enquanto ferramenta social. No caso da poesia, por mais intuitivo que seja o ato de escrever, nesta atividade estão imbricadas todas as questões que permeiam a existência concreta daquele que escreve.
Atraídos por seus escritos, começamos a entrevistar JeisiEkê de Lundu. Mas, para nossa surpresa, nos deparamos com um delírio de artista. Uma angústia criativa capaz de animar mil corpos e deslumbrar todos os olhares de quem topar pela frente. É multi, tem mil facetas, não há como colocá-la no singular. JeisiEkê de Lundu é plural. Artista visual, performer, poeta, costureira, artesã e criatura de si mesma, a monxtra não-binária nascida na fronteira de Minas\Bahia, vive em Salvador, onde realiza performances nas ruas, em festivais de música eletrônica e na Terça Mais Estranha do Mundo, em que atua como Dramaqueen, e em saraus poéticos. Estuda Artes na UFBA, já produziu desde saraus a exposições, viradas culturais e shows espetáculos. Atualmente, flerta com o cinema e com o design de joias. Com poemas publicados na coletânea online Profundanças 2, JeisiEkê de Lundu fala de suas existências, enquanto artista transexual fora da representação binária homem/mulher, por meio do seus escritos e acaba por realizar uma militância poética cujos efeitos já se notam.
JeisiEkê de Lundu /Foto: Levi Mendes
DA – No processo criativo da escrita, é profunda a relação entre a geografia interior e o local onde nascemos. Em seu poema intitulado Enquanto meus pés balançam, publicado na coletânea Profundanças 2, você faz uma analogia entre seu local de nascimento “fronteira entre Bahia e Mina Gerais” e o seu “não-lugar” entre as categorias de gênero configuradas unicamente a partir do binarismo homem/mulher. Discorra a respeito do modo como ocorrem as relações entre as suas vivências e o processo criativo em sua poesia.
JeisiEkê de Lundu – Para pensar no que você chama de geografia interior busco o deslocamento. Nasci em uma família cristã tradicional, fui educada dentro desses preceitos, esse corpo que desde a primeira infância já percebe que não faz parte daquele território. Dentro de si cresce uma imensa vontade de buscar novas experiências para desvendar o seu interior, essa viagem emancipatória, não só de lugar – tornando o não-lugar um habitat – mas também de identidade, vagar por territórios outros me permitiu entender a transitoriedade, que é como enxergo tanto minha criação, quanto minha identidade de gênero. E a escrita encontra o lugar de cartografia, como alfinetes em um mapa na parede, marcando tanto o tempo-espaço, quanto o corpo e a experiência. Hoje, sou artista visual, trabalho com a imagem, com a forma, as linhas e a cor, e é interessante que até pouco tempo atrás eu tinha a escrita como uma ferramenta de registro do tempo e das minhas relações. Colocava esses escritos na gaveta, guardava esses restos de papel, meados de letras e encontros de palavras para futuras meditações. No rio dos encontros fui despertada.
DA – Profundanças 2, obra colaborativa lançada em plataforma online pela Voo Audiovisual, em 2017, é descrita por sua organizadora, a professora mestra e performer Daniela Galdino, como “resultado de uma desobediência à dinâmica do mercado literário marcada pela hierarquia”. Nesse sentido, qual a sua opinião acerca do significado desta coletânea para o contexto do sul baiano? E, em maior escala, no contexto brasileiro atual? Fazer parte do conjunto de dezesseis escritoras inéditas (em sua maioria) e dezenove fotógrafes, oriundas de diversas cidades baianas e de outros estados brasileiros, que compõe esta coletânea, gerou frutos em seu fazer criativo e na sua visão de si, enquanto escritora?
JeisiEkê de Lundu – É sempre dito pela mídia que nós – pessoas que vivem nesse ‘continente’ que chamamos Brasil – lemos muito pouco. Mas o que nunca é colocado em reflexão é o acesso à produção literária. Onde ela se concentra? Quem são os protagonistas da produção e difusão? Quem tem lugar de destaque nas feiras literárias? É uma resposta difícil? Eu diria que não, já que ela é a mesma se realocarmos a pergunta para outros campos da arte e da própria construção da sociedade. Uma pesquisa coordenada pela professora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB), revela esses dados: os autores, na maioria, são brancos (93,9%), homens (72,7%), moram no Rio de Janeiro e em São Paulo (47,3% e 21,2%). O que vivemos na arte de escrever está ligado a quem pode falar – escrever nesse caso – contar sua história e se fazer visível nessa mata fechada e espinhosa que é a literatura. Eu passava por um período bem difícil, quando recebi uma mensagem de Daniela Galdino me convidando para fazer parte da antologia. De início, me questionei se eu escrevia. Rabisco frases há muito tempo, mas contava minhas histórias para eu mesma, sempre enxerguei como diário, cartografias que guardava em uma gaveta. Selecionei alguns textos que estavam mais próximos e enviei. Não sei bem ao certo o que passou na cabeça daquela criatura, me selecionou e hoje estou publicada junto com Lanmi Carolina, minha irmã travesti que fez fotografias incríveis para a mesma coletânea. Perceber que o que eu escrevia podia dialogar com outras pessoas, que aquelas palavras poderiam servir de flecha, chamar para reflexão foi um dos primeiros impactos que tive com a antologia. Encontrar escritoras, perceber pessoas próximas abrindo suas gavetas e revelando seus escritos em recitais ou nas redes sociais, mostra que já existe fruto desse trabalho nessas ações. Hoje escrevo mais do que antes, entendo melhor o que é essa visceralidade, que vem e só nos deixa quieta quando o papel está borrado de tinta. Escrevo pra respirar, para que as palavras não me sufoquem, para que um suspiro novo venha. Não sou a primeira pessoa trans a publicar, tiveram várias outras, não é algo novo, mas ainda existe pouca visibilidade. Profundanças 2 causou muita coisa dentro de mim e sei que o mesmo aconteceu com as várias escritoras e fotografes, que publicaram junto comigo. Reunir escritoras, em sua maioria nordestinas, que não têm a escrita como profissão, mas que têm potência e existência como discurso é uma desobediência, como fala a própria organizadora. Profundanças é um ato de guerrilha e na mão da cada combatente tem uma vara de cansanção esperando o momento certo para o ataque.
DA – No poema Enquanto meus pés balançam, ao declarar seu não-lugar no mundo das representações, como nos versos “nem menino nem menina”/ sempre do lado de fora, sempre à margem”, você demarca, ao mesmo tempo, seu lugar de luta. Os lugares da invisibilidade, da não representação, o “não lugar”, expostos no poema, denotam total consonância entre uma poesia quase autobiográfica e sua postura combativa. Conte-nos como ocorreu o processo criativo desta poesia, em especial, na qual a pulsação dos desejos conduz a fluidez dos corpos para longe de qualquer categorização estanque do gênero.
JeisiEkê de Lundu – Enquanto meus pés balançam começou a ser desenhada na rua, depois de uma ofensa, fui atacada e estava voltando para casa com a mente cheia de questionamentos, do tipo: ‘quem eu sou no mundo e de como isso interfere em como as pessoas em volta me leem’, e de ‘como minha postura pode interferir nas minhas relações’. Naquele momento, foi como um manifesto pra mim mesma, foi escrita no início de 2016, estava voltando de um tour pelo nordeste, onde me aproximei de pessoas com posicionamentos políticos, que me trouxeram várias reflexões importantes. Essa viagem também me trouxe à tona questões geopolíticas, entender esse trânsito que fiz da fronteira de Bahia-Minas para a capital baiana. Tudo isso influenciou, criei um vídeo-art para trabalhar a poesia em outra linguagem. Agora, eu acredito que o poema fala por si. É de longe uma das coisas mais potentes que já criei, no nível que dá conta de si, é a poesia por ela mesma. Ela conta de mim, sem que eu me apresente. Ou ela me apresenta, sem que eu conte de mim. Diferente dos outros escritos é a poesia que recitei logo, em poucos dias soltei-a na rua. Foi como uma resposta ao ataque, e um grito (sabe?) que não era pedido de socorro, Isso é um grito de alerta, não de socorro. É anúncio de guerra, como um: tenha cuidado! O que vem depois de mim pode te confundir ainda mais. Por mais que a categorização dos corpos seja rápida, a fuga e a desobediência às normativas são ainda mais velozes. Os corpos estão nascendo cada vez mais desprogramados – e aqui eu não tô falando de biologia – longe de mim. Estamos reprogramando as culturas, culturas que oprimem e dilaceram desejos são, sim, alvo dessa reprogramação. Que é o sentido no qual termino o poema: criando leitos para que outres deságuem.– abriram espaço para que eu pudesse escrever e caminhar sem medo, é essa também uma das minhas funções no campo do desejo, ser rio para que outres naveguem e naveguem com segurança. Eu tenho certeza que não escrevo sozinha, que escrevo com muitas e para muitas, que as palavras que marcam esse papel não são só minhas.
DA – São tempos de problemas políticos e sociais graves no Brasil. As minorias que, no decorrer da história, foram subalternizadas convivem com um perigo constante. Neste contexto, como você compreende o papel da arte, enquanto ferramenta de crítica social? No que toca a violência contra transexuais, a sua poesia pode ser entendida como um espelho de denúncia, por exemplo? Em quais outros campos da crítica social sua escritura perpassa?
JeisiEkê de Lundu – É bem verdade que os problemas sociais que dizem respeito à população dissidente vivem momentos de ebulição, tanto no que tange às lutas, visibilidade e conquistas, quanto a resistência. Nós não morremos agora mais do que antes, mas também o número de pessoas trans que são cruelmente assassinadas ou se suicidam ainda é alarmante, e ainda falamos muito pouco sobre isso. A arte sempre teve em suas características a crítica como um ponto muito forte. Em tempos turbulentos, isso se torna quase que uma obrigação, quase que um dever do artista analisar o tempo em que vive e falar sobre ele, usando códigos e linguagens. Por outro lado, a arte também se apropria de pautas emergentes para criar poéticas e fomentar a criação, o que eu não vejo como um problema por si só, desde que o sujeito, que se apropria, saiba realmente o que está acontecendo. Um exemplo disso são espetáculos de teatro retratando a vida e a luta de pessoas trans, protagonizados por artistas cisgêneros que não têm elementos em suas vivências para tratar de um assunto tão vasto e potente. Ignoradas a existência e arte de pessoas trans, que são varridos dos espaços de criação, divulgação e fomento de seu fazer artístico. E aqui cito o MONART, Movimento Nacional de Artistas Trans, que recentemente lançou um manifesto sobre esse assunto, acredito que é de suma importância ler e acompanhar essa pauta.
Eu entendo que, enquanto biografia, o meu trabalho, se denuncia ou critica, é porque vai de encontro a uma norma, ao binarismo, ao mundo encaixotado em identidades fixas e castradoras. Acredito que, quando lançada, a palavra pode atingir não sei ao certo qual a estaca que segura essa estrutura toda, mas sei que existe potência nesse lançamento. Se atingirá um alvo, ou não, o importante é que houve o deslocamento e o percurso em que isso acontece. Seria prepotência uma artista traçar a rota de sua arte e ter plena certeza do que/onde ela vai atingir. A arte é muito mais ampla e viva. Nós estamos morrendo. Se levarmos em conta as estatísticas, meu corpo tem menos de 10 anos de vida, posso ser atacada a qualquer momento, ainda mais com a força da onda do conservadorismo querendo nos arrastar e nos lançar contra as pedras. Criar, ver meu trabalho publicado em uma antologia tão forte, que reúne artistas com uma representatividade tão ampla, como a Profundanças 2, já é, por si só, uma crítica. No entanto, minha principal crítica é continuar viva, é subir no palco, empunhar o pincel ou caneta, minha crítica é rasgar o véu da arte elitista e privilegiada e dizer que nós, apesar das pedradas, continuamos vivas!
DA – Além de poeta, você é também artista visual e performer. O que nos faz pensar uma existência multifacetada de Jeisiekê de Lundu, enquanto artista. Quais as relações estabelecidas entre estes vários lugares de atuação artística, aos quais você disponibiliza seu tempo e dá vazão a sua criatividade? As questões de gênero são postas em discussão em suas performances. Com relação às artes visuais, existe alguma conexão entre a poesia e sua produção neste campo?
JeisiEkê de Lundu – Tenho me considerado uma artista visual, não que eu atue somente nessa área. Viajo no audiovisual com certa frequência, mas a arte visual me dá possibilidades para flertar com temas que acredito terem maior importância para a criação que desenvolvo. Dentro dessa caixa de multifaces da linguagem, consigo transitar pelo tridimensional, trazendo estruturas e subvertendo no corpo, nesse sentido, entendo o corpo como suporte – tanto de ação quanto de discurso. E, para isso, eu recorro à performance art, uma linguagem que bebe muito de outras linguagens da arte, se apropria de ferramentas e subverte conceitos, ressignificando os sentidos, para, nesse lugar, conseguir falar sobre o que é minha existência, sobre minha visão de resistência, de coletividade, de construção social, de normativas sociais.
Dizer o que se pensa em arte é um trabalho muito doloroso. Falar sobre assuntos emergentes é mais complicado ainda. Quando você constrói uma célula artística falando sobre “o vento que passou e arrancou a flor do jardim”, pode até ser que nenhum questionamento ocorra, ou que venham aplausos, contratos ou coisas do tipo. Mas, quando se tem trabalhos que questionam atitudes e performam lugares, que a estrutura não quer que seja visível, o questionamento nem sempre é feito baseado na obra em si, mas no sujeito que cria. Ou seja, no sujeito que se apropria da linguagem para questionar. Eu trago isso, nesse momento, porque meu lugar enquanto artista é questionado, minha arte é poucas vezes vista como ela é de fato. Meu corpo é questionado, minha validade enquanto artista é questionada pelo simples fato de não corresponder a uma expectativa hegemônica. E isso não acontece somente comigo, várias artistas do meu círculo mais próximo sofrem com atitudes parecidas. Corpos que deveriam – segundo a lógica higienista – nem existir, quanto mais se afirmar enquanto artista. Isso acontece com várias amigas da Casa Monxtra – coletivo de arte dragg formado por artistas negras, não binárias, mulheres, periféricas – do qual faço parte aqui em Salvador. Vários ataques e questionamentos acontecem não pela qualidade ou pela estética abordadas no trabalho, mas sim por quem protagoniza o trabalho e usa o discurso para enfiar o dedo nas feridas da sociedade. Agora sim, respondendo à pergunta, eu não consigo deslocar a escrita da visualidade porque de certa forma uma linguagem nutre a outra, a escrita compõe a imagem e o contrário também acontece. Boa parte dos textos publicados em Profundanças 2 fizeram parte de uma performance que fiz com Lanmi Carolina, em 2016, denominada “Rapina – ou a metamorfose do ser”. Os escritos eram parte da bagagem que carregamos na criação e na execução da obra. A escrita em algumas obras é como o registro fotográfico, só que em grafia, não em luz.
JeisiEkê de Lundu / Foto: Lanmitripoli com retouch de Juan Pablo Gutierez
DA – Haja vista a quantidade de colaboradores, podemos dizer que a obra Profundanças 2 se desdobrou em um coletivo, que tem desenvolvido o evento chamado Roda de Conversas em Profundanças. Tendo circulado por cidades da Bahia e Pernambuco, a roda intenciona conversar com o público, entre outros temas, a respeito das formas de ativismo literário, circulação alternativa, sentidos da criação artística em tempos de golpe(s). Como foi e está sendo participar destas rodas de conversa? Há algo de provocador nas plateias que têm frequentado? Como ocorrem essas trocas?
JeisiEkê de Lundu – Na época da publicação, eu não achava que tinha feito pacto de sangue com Daniela Galdino (risos). Mas se configurou em coisa parecida, viu? (mais risos). Brincadeiras à parte ou não, eu participei de uma roda de conversa e estou indo pra segunda agora. A primeira foi no campus do IFBA, em Ilhéus, o público de secundaristas, funcionários e professores do campus, dentro de uma semana de atividades bem intensa. Eu cheguei um dia antes e tive o prazer enorme de conhecer Aildil Araújo Lima (escritora cachoeirana), ganhei dela o livro Mulheres Sagradas, passamos boa parte da noite e da manhã sentadas na varanda conversando, fumando e bebendo café. Já havia começado a roda de conversa ali e não tinha me dado conta. Conversávamos sobre a “escrevinhência”, sobre a palavra – como encontramos com ela. Foi um momento único, marcou muito minha trajetória. De manhã encontramos Daniela e seguimos para o IFBA. Eu estava super nervosa, falar sobre minha escrita (coisa há pouco revelada), mesmo tendo experiência com palco, ali na frente de vários adolescentes me gerou um frio na barriga de primeira vez assim. Foi interessante, a dinâmica da roda aconteceu e li um texto sobre uma agressão, não é bem uma narrativa, eu criei alguma coisa, unindo experiências negativas com agressões e como isso se fixou em meu inconsciente. Como a sensação de ser agredida sempre volta e como ações do cotidiano podem se tornar disparadores para essas lembranças ruins. Eu estava lendo de cabeça baixa, quando terminei, várias pessoas estavam chorando, em prantos mesmo, nunca havia lido um texto meu em público pra tanta gente, e, quando termino, tem lágrimas – aquilo foi desconcertante. Eu não sabia se tentava sair dali, ou se chorava junto, mas eu não queria chorar, minha mente começou a pensar mil coisas. No fim da roda, fui almoçar no restaurante do campus e me sentei com alguns adolescentes, que fizeram parte da plateia. Ouvi histórias muito parecidas com as que eu vivi, foi reconfortante ouvir deles uma resposta e saber que as palavras, de certa forma, tocaram.
DA – A internet se constituiu numa importante plataforma de divulgação artística deste século. Esta entrevista, por exemplo, será divulgada no universo do www, seus poemas também foram publicados na coletânea Profundanças 2, que tem disponibilização online. Qual sua relação artística com as redes? Tem pensado em algum projeto artístico voltado para internet ou já utiliza as redes como maneira de divulgar sua produção artística?
JeisiEkê de Lundu – Minha vida na arte começou e a internet já não era mais “mato”. Eu não conheci o tempo em que a divulgação e a promoção da arte estavam fora do campo virtual. De certa forma, o virtual interfere no modo como fazemos arte, de como formatamos nosso trabalho para caber nesse suporte. Existe certa preocupação, eu diria, mais com o mundo virtual do que com o dito real, se é que ele existe! Não sei, talvez esse mundo dos bits e do www seja o real. Em Profundanças, isso se tornou uma coisa interessante, o lance do livro digital, publicado em uma plataforma, o que gera uma certa democratização da linguagem, aí volta para o que eu já havia dito antes, sobre “quem pode ler?”, “quem pode escrever?”, sobre o quão inacessível é publicar escritos no mercado editorial no Brasil e na mão de quem isso está. A internet possibilita trazer para a luz pessoas anônimas, escondidas pelo véu da invisibilidade, guardadas na “escrotidão” das máquinas. O simples ato de postar um texto em uma plataforma pode transformar toda uma cadeia, alterar várias rotas. Atualmente, eu trabalho muito com visualidades, usando meu corpo como plataforma para a criação artística, e a internet é sim a maneira mais fácil de divulgar esse trabalho e ter um retorno e um contato maior com o público.
DA – É bastante estreita a relação entre referências e reverências, seja em qual campo de trabalho estivermos falando. Sem reverências, quase impossível ter referências. E o contrário também poder ser verdadeiro. No fazer artístico, esta conexão aparece de maneira ainda mais intuitiva e forte. Comente sobre as reverências que norteiam o seu conjunto de referências, na constituição de seu leque de memórias enquanto poeta e performer.
JeisiEkê de Lundu – Não se escreve sozinha, por mais que o ritual de escrita seja solitário. No próprio ato de empunhar a caneta e rabiscar o papel, várias mãos fazem essa ação em conjunto, seja de forma consciente ou não. Eu estou falando sobre aquelas que não podem escrever ou sobre aquelas que escreveram antes de mim, e aqui trago minha referência, Simone Portugal, escritora baiana, que publicou, artesanalmente, seu primeiro livro, Filosofia do esgoto, e vende de forma autônoma e independente – traz em suas linhas a revolta e o escárnio como poética. Eu reverencio também Suzernagle Bento, poeta sertaneja, residente em Salvador, que carrega a seca e as memórias do sertão para enaltecer as bravas mulheres do semi-árido brasileiro. Enalteço e trago pra esse panteão de mulheres Michelli Mattiuzzi, performer e escritora negra, que trava uma imensa guerra para ser artista, nessa parte colonizada do planeta, jogando contra a branquitude e denunciando o racismo. Enalteço Annie Ganzala – grafiteira e aquarelista – que carrega a poética sapatão em seus murais e aquarelas. Enalteço Negrindia – Gabi – poeta, sapatão, mãe, cartoneira, distribuidora de zines e cadernos artesanais, que luta bravamente para construir novas distopias. Hija del Perra, Gisberta Kali, Vanusa Alves, Tieta do Agresta, Lanmi Carolina, Aranda Sousa, Frutífera Ilha. É bem mais que um leque, é uma arvore que dá frutos muito grandes, nessa revolta que é fazer poesia, façamos poesia, os fascistas odeiam poesia.
DA – Ao escrever, brincamos com as linhas do tempo. Passado e futuro podem se entrelaçar numa dança jamais imaginada. Como sua poesia lida com o tempo? Como a mente criativa de JeisieKê de Lundu trabalha os acontecimentos do passado? Sublimando-os? E como são as projeções de futuro? Há alguma bandeira de re-existência hasteada com desejos de mudanças?
JeisiEkê de Lundu – Às vezes, o sentimento de revolta é tão grande que não sentimos o tempo, a escrita às vezes fica estagnada, parada, feito água barrenta, o sentimento de paralisia causa pessimismo. Você não consegue enxergar quais ações podem mover e causar transformações. As utopias desaparecem da mente, o que sente é que tudo se petrificou e só existe o regresso como caminho. Eu tenho certo receio com a linearidade do tempo. Às vezes, minha mente da um bug e começo a pensar que vivemos em círculos, que o tempo é um círculo e não uma linha – como ditam por aí. Quando escrevo, estou sempre pensando sobre isso, de como podemos projetar passado no futuro e presente no passado, de como essas noções de tempo estão imbricadas e são complementares e divergentes. Seria determinista entender o passado como ponto fundante para o futuro, seria aceitar a linha do tempo simplesmente, acreditar em predestinação, talvez, que tudo está escrito ou pronto pra ser vivido, sem a necessidade da mudança. Aqui, eu quero retornar ao pessimismo, pensar a mudança nos tempos que estamos vivendo, pode ser revolução, mas em meu caso é um tanto pessimista. Hastear bandeiras e lutar tem se tornado cada dia mais impossível. As forças estão cada vez mais miúdas, eu tenho sido pessimista. Meu desejo tem sido acordar e continuar viva, como aquela frase pichada em muro: “A gente combinou de não morrer’”. Aí mora a mudança, talvez quando os corpos dissidentes tiverem o direito de viver, simplesmente, continuar existindo, aí sim, possivelmente, alguma mudança pode ocorrer; antes disso, não acredito em nada.
DA – Falando em futuro, terminamos esta entrevista com votos de ainda mais progressos em sua multifacetada carreira e perguntando a cerca dos planos subsequentes. Há algo em mente que possa ser contado à Diversos Afins? Quais seus planos mais imediatos? E, a longo prazo, quais suas metas artísticas?
JeisiEkê de Lundu – Sempre digo que sou uma artista multilinguagem, atuo na performance, no vídeo, na tela, na escultura, na costura e a música sempre foi um desejo e uma vontade. Agora, estou trabalhando num projeto muito lindo, não cantando, que ainda não desenvolvi isso, mas na direção de visualidade da banda Saramandaia, um grupo de artistas residentes em Salvador, falando sobre dissidências, política, arte, inclusão e temas emergentes. Tem sido um trabalho muito forte e lindo. Para além disso, a Casa Monxtra com A terca mais estranha do mundo, no bar Âncora do marujo, todas as terças-feiras, e estou rabiscando e enchendo uma gaveta para editar um livro(digital) que espero lançar esse ano ainda – uma mistura de contos, poemas e textos sobre dissidência, corpo ciborg e existências à margem. Várias ideias na mente e a tentativa que ela mesma não se sabote, porque a própria estrutura já faz esse trabalho bem feito. Mas vamos seguindo o baile e fazendo o que tem que ser feito. Ai, estou super empolgada com tudo isso que Profundanças me proporcionou! Foi lindo demais! Aproveito para agradecer a Daniela pelo convite sempre, a todas as pessoas que compõem esse projeto mais que maravilhoso, a todas que leram e compartilharam a ideia, e por mais agregadoras e engrandecedoras como esta. Gratidão sempre.
Elis Matos é “cria” da Universidade Estadual de Santa Cruz, licenciada em Filosofia e bacharela em Comunicação Social, especialista em Gestão Cultural e mestranda em Linguagens e Representações. Trabalhou enquanto Coordenadora de oficinas, workshop e mesa do Festival de Cinema Baiano, nas suas IV, V e VI edições. Pesquisadora, cronista e palestrante feminista, lançou a tag #ondeofeminismomechamaeuvou e vai! Aprendeu a sonhar uma vida justa até as últimas consequências…