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Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O meu entrevistado é sabidamente uma figura prolífica no campo literário. E dizer isso não se alinha a uma ideia de que há em seu modus operandi uma busca desenfreada pelo volume das coisas, ou seja, por uma maquinação que, a qualquer custo, grafe palavras no corpo dos livros. Há nele o interesse aguçado na matéria que emana da vida, vislumbrando cenários, objetos e personagens diluídos naquilo que tanto denominamos de realidade. Acima de tudo, é um alguém confessadamente imbuído de confeccionar seus escritos através de um engenho esmeradamente arquitetado, mesclando estudo e pesquisa, dentre outros importantes atributos.

Falar de Marcus Vinícius Rodrigues, a quem já entrevistei noutras oportunidades, é também pensar o quanto sua obra, largamente situada no terreno da prosa, reflete uma predileção criativa que trata a própria Literatura como uma entidade organizadora de tudo, quiçá o que ele mesmo chama de mistério da criação, esse algo que provavelmente convoca autores a lidarem com os chamados do mundo que os abraça e constitui. É assim que esse autor vai nos envolvendo em livros como 3 vestidos e meu corpo nu (2009), Cada dia sobre a terra (2010), Café molotov (2018), A eternidade da maçã (2016),  O mar que nos abraça (2019), dentre outros que engendram sinais de nossas humanas idades.

Mas a conversa que travamos agora para a Diversos Afins, em meio a uma entusiasmada troca epistolar de e-mails, coloca no centro o mais recente rebento de Marcus, o instigante Motel Mustang (2024), livro de contos que elabora, a seu modo, narrativas marcadas pelos efeitos de uma tragédia ocorrida em Salvador no fim da década de 1980. Nesta entrevista, é possível perceber o quão compromissado está o escritor em estruturar o seu ofício a partir de um projeto literário consciente e maduro, revelando pormenorizadamente ao leitor algumas estratégias que mobilizam e formulam suas criações. Mostra-se, pois, um alguém profunda e gentilmente disposto a compartilhar o universo que o faz seguir adiante, cultivando não somente palavras, mas também inquietudes.

 

Foto: Danilo Alves

 

DA – Partindo de uma tragédia real, você constrói o seu Motel Mustang. E é interessante perceber ali que a ficção ocupa um espaço privilegiado quando oferta aos leitores visões sobre personagens que perfeitamente poderiam ter existido, todas elas com trajetórias singulares, mas entrelaçadas pelo destino comum e fatídico. Na sua perspectiva de autor, a realidade também clama por alguma espécie de reinvenção?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Você inicia sua pergunta assumindo que eu parti de uma tragédia real para produzir um livro que privilegia a ficção. Na verdade, o processo foi o inverso e talvez eu possa dizer que tenha sido um acidente, um acaso, ou, quem sabe, um sopro de uma musa em meus ouvidos. Espíritos? Apenas o mistério da criação. Em maio de 2023, eu me dirigia à sede da Editora P55 para uma reunião. Já há algum tempo eu dizia a André Portugal e Marcelo Portugal, os editores, que eles deveriam fazer um livro coletivo (antologia ou coletânea). Vários escritores. Propus um livro erótico, que acabou sendo lançado e se chama Eros sobre os abismos, com Clarissa Macedo, Dênisson Padilha Filho, Kátia Borges, Rita Santana, Suênio Campos de Lucena, Victor Mascarenhas e eu. No caminho, no carro, me veio a ideia de fazer um livro sobre o Motel Mustang. Cada autor escreveria um conto que se passasse na noite da tragédia. Imediatamente, achei a ideia muito boa e resolvi escrever. Na reunião, apresentei os dois projetos. Na semana seguinte eu estava no centro de documentação do Jornal A tarde fazendo pesquisa.

Eu lembrava da tragédia ocorrida em 1989. É uma lembrança de ouvir dizer, de conversas das pessoas. Não lembro de ter visto as matérias nos telejornais. Devo ter visto, mas não lembro. Era uma lembrança sem imagens. A partir de 1991, eu passei a trabalhar na Avenida Suburbana. No trajeto, eu sempre lembrava do motel. Eu não sabia onde exatamente tinha sido e ficava imaginando onde ele ficava. Outra lembrança marcante foi que uma professora minha do ensino médio tinha perdido o marido na tragédia. Evidentemente, ele estava com uma amante. Essa é uma lembrança que também ficou enevoada. Não lembro se foi ela mesma quem falou ou se alguém falou dela. Com o tempo, eu passei a duvidar da história porque outras histórias semelhantes surgiram. Se todo mundo que dizem ter morrido no motel em situação de adultério tivesse mesmo morrido, teria sido muito mais que nove vítimas. Essa história de minha professora inspirou o último conto do livro (“O que se vê do alto”), primeira história pensada, já com a ideia de ir limpar a igreja para vender. Enfim, respondendo a sua pergunta: desde o começo eu pensei em usar a ficção para me aproximar dos acontecimentos. A minha pergunta íntima era: como as pessoas se sentiram. Eu quis entender o que é viver uma tragédia dessas; como é descobrir uma traição nessas circunstâncias; como é ver gente morrendo, como é morrer… e o que buscavam os clientes, quais suas histórias. Ao longo do processo de escrita e pesquisa, eu fui me aproximando mais e mais da realidade. Falo escrita e pesquisa, e não pesquisa e escrita porque, sim, comecei com ficção e fui adentrando aos poucos na realidade. Eu só consegui achar o inquérito policial no meio do processo. Mas eu já tinha o livro planejado e já sabia que a realidade, a tragédia em si, seria retratada no conto “O peso de tudo”. O livro foi escrito na ordem em que foi publicado, embora as duas histórias finais tenham sido as primeiras a serem pensadas. Na primeira pesquisa em jornal, eu li a frase “toalhas foram encontradas nas casas da vizinhança”, e essa notícia gerou o penúltimo conto, “A maciez da vida”.

 

DA – Interessante saber desses detalhes do processo de criação de Motel Mustang, pois eu já ia lhe indagar sobre como foi exatamente a pesquisa histórica que ele evoca, ainda mais em razão da obra apresentar trecho do inquérito policial, bem como o recorte de jornal que noticiava, em matéria de capa, a tragédia. Isso confere também certo reforço documental ao livro, uma sinalização ao leitor do seu embasamento na realidade. Ao mesmo tempo, é libertador saber que a Literatura não precisa ter compromisso com uma ideia de verdade comprovável?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Como você pôde ver, minha aproximação com o fato real foi quase por acaso. Ela não começa com uma pretensão de lidar com a realidade. Apenas aconteceu. Eu estava vasculhando na minha cabeça uma ideia sobre erotismo. A lembrança do motel foi um acidente. Uma pedra no meio do caminho. Peguei a pedra e transformei em uma direção a seguir. A escrita deste livro foi um processo único. Lá estava eu diante de um material real a ser trabalhado com minhas próprias realidades internas. Eu digo na orelha que é um livro escrito sob o signo da compaixão. É verdade. Aos poucos, eu fui me aproximando das pessoas reais que morreram, dos sobreviventes, das histórias íntimas vislumbradas nos depoimentos. Isso me fez olhar para minhas personagens com compaixão porque elas representam aquelas pessoas reais e todos sabemos o final trágico. É isso: eu tinha uma moldura trágica, ou seja, um destino inexorável, o desabamento. Quem entra no livro sabe disso. Então, coube a mim ficcionalizar, não a tragédia, mas os dramas particulares de cada um. Trabalhei muitos anos naquela região de Salvador, o Subúrbio ferroviário, como advogado de empresas de transporte coletivo. Naqueles anos, aprendi que, quando a tragédia chega, ela é obrigada a dividir espaço com dramas anteriores. Uma pessoa atropelada não é uma pessoa que vivia feliz e foi atropelada, é uma pessoa que antes já tinha seus dramas e suas infelicidades. Eu queria, no Motel Mustang, mostrar esses vários universos particulares que foram atingidos por aquele soterramento: o jovem e sua primeira vez; a mulher insegura do amor de seu namorado; o homem que quer ser aceito no trabalho; o casal gay que enfrenta a homofobia e o medo da AIDS; a mulher com seus conflitos religiosos; o menino que deseja se impor aos colegas; a mulher que redescobre sua libido; a mulher que descobre a hipocrisia da religião. Em meio a tudo isso, vislumbres da realidade: o garçom que ia se casar; o motorista e seu desamparo; o heroísmo do faz tudo; a camareira que não consegue salvar os hóspedes; o gerente que se sente impotente para resistir à opressão econômica. Até mesmo a dona do motel e sua crença em seres extraterrestres me interessa.

Eu fiz uma pesquisa extensa. Há muitos fatos reais interessantes e há, também, muitos fatos ficcionais. Eu lidei com aqueles que se me apresentaram inteiros, aqueles que acenderam primeiro, as primeiras cintilações de ideias. Ah! Se eu tivesse tendência à mistificação, diria que as personagens me escolheram. Muitas histórias reais e inventadas ficaram de fora. O fato de serem seis contos naturalmente exercia uma pressão para mais um, o sétimo, o tal número cabalístico. Resisti porque, desde o começo, tinha um desenho claro, uma partitura: a chegada ao motel, sua apresentação; os casais nos quartos na busca do amor no sexo; o momento do desabamento com todos os seus problemas reais e todos os sentimentos de morrer ou ver a morte; os saques do dia seguinte e o luto dos que perderam alguém. Não caberia mais nada além disso.

 

DA – Qual foi a sua maior sensação depois do livro ficar pronto?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Nossa! Deixa eu pensar. Vou elaborando enquanto escrevo. Sabe, tem uma coisa que estão falando ultimamente. As pessoas criticam quem diz que o filme ou o livro é baseado em fatos reais porque todo fato é real. Eu discordo e já mencionei isso acima. Existem fatos ficcionais, eventos inventados que são tão fortes que jamais poderão ser mudados em uma adaptação. Capitu tinha olhos de ressaca. Isso é um fato. Quando eu terminei o livro, eu tive essa sensação. Tudo que estava ali inventado era fato. Ou seja, eram pessoas e acontecimentos imutáveis. Alguns morreram outros sobreviveram. Eu sei quem são, embora não conte. E isso é um fato.

Essas personagens eu as vou descobrindo durante a escrita.  Esta semana eu estava numa oficina de escrita para romance de Davi Boaventura e o exercício era dizer tudo da personagem, criar a personagem. Eu me dei conta que a personagem vai me aparecendo com o tempo de escrita. O próprio ato de narrar é quem me faz entender a personagem. Quando tudo dá certo, a personagem fica completa e viva. Elói, Iranice, Marta, Torres, Jackson, Terêncio, Luciane, Dinho, os pais de Dinho, Dona Mira, o pastor, Janaína… todos são reais para mim. As pessoas reais também se cristalizaram. Eu tive muito cuidado em retratá-las. Omiti os nomes e as mencionei pela função. Ao mesmo tempo, fiz um tratamento ficcional. Eu queria que o leitor sentisse a dor que eu senti com a morte do motorista e do garçom, por exemplo. Eu queria que houvesse uma conexão com eles. A dona do motel era uma personagem pronta. Sua crença em ETs declarada à imprensa jamais poderia ser inventada. Soaria inverossímil, mas a realidade é assim, não é?

As pessoas reais: sei que familiares do motorista compraram o livro. Foram à editora pessoalmente para isso. Não tive contato. Localizei um filho de minha professora. Ele não quis falar sobre. Foi educado e distante. Ouvi muitas histórias de pessoas que frequentaram o motel, tive notícias dos donos. Até meu irmão conhecia o dono porque as contas do motel eram da agência bancária em que trabalhava. É um evento conhecido pela cidade. Muita gente lembra. É estranho lidar com um material tão sensível, uma responsabilidade ainda maior.

Do ponto de vista literário, Motel Mustang é um livro que resume minha escrita. Estão lá todos os temas, todas as preocupações, os meus modos de fazer e algumas descobertas. É um livro com tantos assuntos: sexo, amor, morte, descobertas da juventude, a pobreza de Salvador, as crianças, o homoerotismo, a AIDS dos anos 1980. Há um olhar a respeito da mulher; há a crítica à religião, assunto que me interessa. E há os assuntos que interessam às caixinhas das pautas atuais. O livro já foi resenhado a partir do ponto de vista da catástrofe ambiental. As pessoas falam da crítica social. Enfim, tem de tudo.  Mas para mim são pessoas.

 

Foto: Danilo Alves

 

DA – Essa sua última resposta é de uma profundidade significativa, pois trata dos seus mergulhos genuínos no engenho criativo. E não há como deixar de falar do modo como as suas personagens ganham vida ali no livro especialmente pela construção dos diálogos, pois você poderia apenas escolher ter narrado as histórias. Qual a dimensão do potencial que essas interações produzem na sua escrita na medida em que os protagonistas falam?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – É tão bom falar de literatura assim: os modos de fazer, os truques de escrita. Gosto de falar truques e não técnicas, concepções, poéticas. Apenas truques. Hoje em dia as falas de escritores ou são o marketing do livro ou são os grandes temas da pauta contemporânea: a emergência climática, o racismo, a violência contra as mulheres, os lugares para as mulheres pretas, a visibilidade trans, a visibilidade lésbica (homens gays estão fora de moda), a periferia, “O tal Brasil profundo”, a discussão se existe “O tal Brasil profundo”. Dei muitas entrevistas no lançamento do Motel Mustang. O soterramento é um evento que desperta a atenção. Um bom marketing. Mas eu não pensei nisso quando tive a ideia. Já disse acima que eu estava vasculhando a cabeça atrás de uma ideia para livro erótico e acabei tropeçando na lembrança da tragédia.

Depois do lançamento, o livro encontrou a caixinha da tragédia climática e está ali perto da onda de histórias reais que vem junto com a autoficção. As histórias particulares reais. Toda a indústria da narrativa está voltada para histórias com um tempero de real. Eu chamo isso de “Literatura Gourmet”. Explico. Cozinha gourmet é assim: o cozinheiro (ou chef) diz no cardápio que aquela é a receita de sua avó italiana, que está na família há gerações, ou que aprendeu com sei lá quem. O caderno de receitas de minha mãe tem isso: umas receitas que levam o nome da amiga que lhe passou. Aí eu aprendi que tinha a Torta de Dona Nereida e sei lá mais o quê. Um dia a gente descobre que aquela receita é só um pavê igual a tantos e que não tem nada de especial. Mas ser de Dona Nereida, ser da avó italiana do cozinheiro “agrega valor”. A avó italiana é um clichê clássico e, claro, ser descendente de italiano nesse país parece ser alguma coisa. Ai, meu Deus, estou aqui arrumando inimigos. Deixa eu arrumar mais alguns: pra competir com a avó italiana, temos agora a avó filha de escravizados ou ela mesma escravizada. É importante uma memória mais palpável da escravidão. Acho justíssimo. Se os italianos e os judeus podem, por que não os descendentes de povos africanos? E são histórias nunca contadas.

Um parêntesis: acho que toda essa onda de literatura não urbana está ligada, também, a essa reconstrução da história perdida das pessoas descendentes de africanos. São histórias apagadas. Dou um exemplo da minha família: minha mãe, negra, sabe muito pouco de sua família biológica; sobre a família de meu pai branco tem um livro caseiro de um primo que recupera a história a partir do final século XIX. Acho muito estranho ser a partir do final, já depois da abolição. Como há muita lacuna, as narrativas de escritores negros e negras acabam se voltando para gêneros que estavam esquecidos. Não é por acaso os romances de sagas e de formação que passam por histórias rurais com ar de romance de 30. São essas narrativas construtoras que são necessárias agora. No futuro, os escritores negros também vão entrar na desconstrução. Antes que alguém me aponte o dedo, eu sei que há literatura desconstruída agora. O tempo todo tem de tudo acontecendo. Estou falando do que está em evidência. Só para que não me acusem de coisas, repito que são literaturas necessárias e de excelente qualidade. O que estou falando é outra coisa. Estou falando da recepção dessa literatura que leva em conta elementos externos ao livro. É isso que chamo de “literatura gourmet”.

O Motel Mustang caiu nessa. Ele interessa por fatos externos ao livro. A tragédia real agrega valor. Ainda são poucas as pessoas que querem conversar comigo sobre literatura, sobre a linguagem que eu usei… essas coisas que escritores gostam de falar, mas que pouco falam em público porque nas festas literárias querem que a gente fale das pautas do dia, com o agravante de falarmos — nós os escritores não tão conhecidos — para pessoas que não nos leram e jamais lerão. Eu quero falar das personagens falando. Os diálogos. Eu tinha narradores mais distantes, mais neutros, e acho que minhas personagens também eram mais introspectivas. Falavam pouco. Com o tempo, fomos ficando mais extrovertidos, eu, os narradores e as personagens. Se antes o jeito lacônico dos narradores contaminava as personagens, acho que agora são as personagens que, extrovertidas, contaminam o narrador.

O livro tem narradores em terceira pessoa. Ou melhor, tem um narrador em terceira pessoa que vai se contaminado pelas personagens. No primeiro conto, “O sol no meio da noite”, o narrador Elói e Miguel se misturam, às vezes na mesma linha de texto. Tudo muito coloquial. Há um vai e vem no tempo. Elói e Iranice, estão no presente, na entrada do motel. Miguel está com Elói no passado e em sua cabeça o tempo todo. Há quem diga que são três pessoas naquele casal. Enfim, tudo misturado e nervoso como é próprio da juventude das personagens. No lado oposto do livro, no final, o conto “O que se vê do alto”, tem personagens evangélicas. A linguagem, do meio para o final, é muito contaminada por isso. Quem cita trechos inteiros da Bíblia? O narrador, Dona Mira ou Dona Neide? É um conto com um final melodramático. Sofri muito para escrever a cena da vassoura. Na primeira versão ela batia no pastor com o cabo. Achei demais. Estava muito Walcyr Carrasco. Limpei, limpei, mas ela precisava varrer a cara do homem. Ainda acho muito melodramático, mas Dona Mira é assim. Esse é outro momento em que o escritor diz que a personagem tomou as rédeas. Na verdade, é a constatação de uma lógica interna da personagem. Dona Antônia, personagem do conto “A fresta”, que eu escrevi para a Diversos Afins, também é evangélica, cita a Bíblia, mas não faria esse gesto tão largo de varrer a cara de alguém. Bem, ela não perdeu o marido no soterramento de um motel. Ele está dormindo em sua cama com a barriga ocupando todo o espaço.

Outro conto que merece destaque é “O peso de tudo”, em que o narrador está próximo a Luciene, uma funcionária do motel muito católica e que tem aversão ao pecado do lugar. É a partir do ponto de vista dela que vemos a tragédia. Quando é preciso mostrar a encosta desabando, o conto é interrompido e entram alguns minicontos que mostram o desabamento por um ponto de vista objetivo, além de detalhes que aconteceram com as pessoas reais. Depois, o conto retorna de onde parou. Neste momento, o livro assume que não é um mero livro de contos, mas, sim, uma grande narrativa fragmentada em que o motel é o protagonista. Ainda sobre diálogos: o terceiro conto, “A face encoberta”, com o casal de homens, é todo em diálogos com um narrador quase inexistente para que o leitor descanse. Ele vem de dois contos de estilo muito enrodilhado e vai, depois, ler o conto sobre o desabamento, o mais pesado. Então, um conto em estilo simples dá um descanso. E ainda tem humor, apesar do tema ser homofobia, AIDS, morte. Pensei o livro como uma unidade. Por isso o terceiro e o quinto conto são mais suaves; o terceiro, suave na forma; o quinto, suave no tema. “A maciez da vida” é um conto esperançoso, um amortecedor entre “O peso de tudo”, com sua tragédia, seu horror, e “O que se vê do alto”, que é sobre luto e decepção.

 

DA – Bem sabemos que um motel é também um lugar de vivências clandestinas, tanto na questão do adultério quanto no explorar de horizontes libertários do desejo sexual, dentre outras possibilidades. Como é que você lidou com essa perspectiva na sua criação?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Neste momento em que escrevo, Salvador acaba de passar por três dias de chuvas muito fortes. Ontem uma pessoa morreu num deslizamento de encosta. Imediatamente, algumas pessoas próximas lembraram do Motel Mustang. Um repórter da TV lembrou do episódio ao vivo. Digo isso como quem prova que a camada de tragédia climática e social é bem evidente no livro. Mas, como já dito, é um livro de muitos temas, dentre eles, também como já dito, o sexo. O sexo é aquela centelha, aquele grão de areia que entrou na ostra e em torno do qual, camada por camada, se formou a pérola. Afinal, trata-se de um motel. Motel leva a sexo; ou melhor, sexo leva a motel, literalmente e do campo das ideias. Eu investigava sexo e a memória do motel se acendeu na minha cabeça.

Você falou de vivências clandestinas, do adultério e de outras. Sim. Há um adultério no livro e na história real. Ele não chega a ser encenado na página. O leitor é exposto apenas às suas consequências. Há um casal de homens gays que evidentemente se encontram às escondidas. Um deles, pelo menos, tem uma vida sexual hétero. Mas há outras dimensões de clandestinidade ligadas ao sexo. Escondemos nossos reais desejos dos parceiros e de nós mesmos. O sexo é soterrado pela religião, pelo moralismo, pelos traumas particulares da infância, pelo descompasso do que se é e do que se pensa ser… e, às vezes, apenas a clandestinidade objetiva do motel é que é capaz de revelar a real forma de uma pessoa viver sua sexualidade. Motel Mustang é sobre sexo e talvez seja o aquilo que ele mais é. Vamos por partes.

A primeira personagem masculina que que me ocorreu foi Torres, do conto “O amor movediço”. Vi no jornal que, no sábado posterior ao acidente, haveria uma Corrida da Infantaria. Foi assim que me ocorreu a personagem. Um homem que vai correr e não quer transar antes, mas precisa ir para o motel com a namorada. E o que ele faz? Aquilo que nunca fez. Dedica-se a dar prazer à mulher até que ela fique satisfeita. E quem é essa mulher? Marta está acostumada a não sentir tanto prazer, está acostumada à frustração, acha que a transa acaba quando o homem goza. Quando ela se vê recebendo sexo oral de uma maneira tão intensa, todas as suas inseguranças afloram. Eu queria que o momento de perplexidade e insegurança de Marta fosse durante o sexo. Eu queria uma cena de sexo absolutamente necessária. Normalmente, as cenas de sexo aparecem simplesmente por seu apelo. Os conflitos que as envolvem geralmente ocorrem antes ou depois. A maioria das cenas de sexo podem ser uma mera elipse. Mas a verdade é que, quando a gente está transando, a gente pensa em mil coisas, outros problemas, os sentimentos contraditórios sobre o parceiro. Acontece muita coisa durante. Eu queria Marta assim, conflituada enquanto tem prazer.

Outras mulheres do livro vivem seus conflitos. Luciene, de “O peso de tudo”, é muito católica e se incomoda de trabalhar em um motel, que considera um antro de pecado. Ela está dividida entre, na semana seguinte, assistir missa de Corpus Christi celebrada pelo Cardeal Primaz ou viajar com o namorado para Pojuca. Ela sabe que o namorado pretende transar com ela na viagem. O que decidir?

Em “O que se vê do alto”, Dona Mira, viúva do marido adúltero, relembra como ele a reprimiu quando ousou revelar desejo. “Ele disse que não gostava de mulher oferecida”. Submissa ao marido pastor, Dona Mira se recolheu. Na cama, esperava a iniciativa dele. Agradar o homem, sentir-se aceita por ele, esses são conflitos que as mulheres ainda vivem.

A mãe de Dinho, no conto “A maciez da vida”, tem um momento mais feliz. A chegada de uma toalha resgatada dos escombros do motel reacende sua libido. É ela quem toma a iniciativa de seduzir o marido novamente. Ele se deixa conduzir.

Em “O sol no meio da noite”, Elói é o jovem inexperiente que leva a namorada pela primeira vez ao motel. O conto não foca nela, mas é possível perceber como Iranice está mais segura que o namorado. Os leitores veem alguma atmosfera homoafetiva entre Elói e o amigo Miguel, principalmente na cena do carro. Eu acho que, se houver algo, isso aparece mais forte no fato de a voz de Miguel estar o tempo todo na cabeça de Elói.

Por fim, Jackson e Terêncio, em “A face encoberta”. O casal vive os problemas dos homens gays da década de 1980, o que não é muito deferente do que é hoje, a não ser por um aspecto. A Aids acabara de surgir e, exatamente naqueles dias, a Revista Veja publicou a famigerada capa com Cazuza: “CAZUZA, uma vítima da Aids agoniza em praça pública”.  A presença da doença é o que provoca o afastamento do casal. O medo. O zíper emperrado é o símbolo óbvio. Há muita reflexão sobre sexo em Motel Mustang, sexo e morte, Eros e Tanatos. Pulsão de vida e pulsão de morte. No meio, toda a experiência humana. O livro se faz nessa tensão.

 

DA – Diria que, observando o conjunto da sua obra, você é uma espécie de “cronista” do cotidiano, escavador dessas minúcias que nos tornam demasiadamente humanos. É sempre desafiadora essa perspectiva?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Já algumas vezes, nos últimos anos, quiseram me relacionar com escritores cronistas da Bahia. Menções vagas. Isso ocorreu por causa de O mar que nos abraça. As pessoas se contentam em ver o que está mais aparente. No caso desse livro, havia uma Bahia na superfície. Para mim, entretanto, um aspecto menos importante que as pessoas retratadas. Serem baianas para mim foi um acaso. Aliás, no caso desse livro, a encomenda exigia que as histórias se passassem em bairros de Salvador. Acontece que, vencido esse requisito, eu quis mergulhar no íntimo daqueles adolescentes. Eu me aproximo das histórias a partir do que entendo que as pessoas estão sentindo. Foi assim que, em A eternidade da maçã, cheguei ao tema da ditadura. Ouvindo a música In the Hot Sun of a Christmas Day, de Caetano Veloso, eu me deparei com um eu poético que dizia que estava sendo perseguido, que eles já tinham matado outra pessoa. Foi essa sensação que me fez entrar neste universo. Aí eu fui tratar da ditadura, pesquisei, puxei pela minha memória, mas sempre para retratar aquelas pessoas que eu vislumbrei nas músicas de Caetano. Esse é meu método.

Eu tenho muita dificuldade de me explicar para as pessoas (ou de ser entendido por elas). Esses grandes temas sociais, políticos (que aparecem muito nos meus textos), eu não entre neles pela porta da frente, mas pela dos fundos, pelas janelas, pelas frestas. Eu não sou um escritor que se diz: oh, precisamos falar da ditadura, precisamos falar da violência, precisamos atacar a homofobia! Não. Eu miro na pessoa, na história íntima, no potencial romanesco do tal grande tema. Eu procuro a boa história e a boa personagem. Os grandes temas aparecem naturalmente, afinal não sou nenhum cretino. Mas — olha só que legal — os cretinos dão personagens incríveis. Eu não sou óbvio.

Me cobraram em Motel Mustang uma menção ao Candomblé. Eu respondi que não era o caso porque não é uma religião que tem problemas com sexo. Falei de cristianismos católico e neopentecostal. Sobre o Candomblé, acho que o nome da filha de Dona Mira foi suficiente. É um nome que aparece e se torna o estopim de uma cena forte no final do conto. Dona Mira não teria reagido como reagiu se o pastor não tivesse feito uma insinuação racista religiosa contra o nome da menina Janaína. É um livro inteiro com várias personagens negras e pretas e em apenas um ponto há um comentário sobre racismo, no caso, racismo religioso. Quem poderá saber por que um pastor chamaria sua filha de Janaína e não por um nome da Bíblia? Eu até sei, mas o leitor não precisa saber. É uma história íntima de Dona Mira.

Mais uma vez parece que não respondo sua pergunta. Respondo. Você fala de “cronista” do cotidiano, eu concordo. Cronista do particular e não da cidade. Eu olho para os pequenos acontecimentos, os pequenos gestos. Outro dia, falando na FLICA sobre algo próximo disso, dei um exemplo: “aqui desta cena, os escritores no palco e a plateia de estudantes, se eu fosse criar uma história, eu escolheria a intérprete de Libras, que está ali no canto fazendo a tradução. O que ela pensa? O que ela sente? Os braços doem? Ela tem alguém esperando? Ela acha essa conversa chata? Será que ela se atrapalhou em um gesto e disse para si mesma que não importa porque não tem nenhum surdo aqui? Ela certamente fala deficiente auditivo, mas nos próprios pensamentos deve dizer surdo, ‘os meus surdinhos’, ela dirá.” É claro que não usei essas palavras, contar uma história já é inventar. Mas que personagem rica pode ser uma intérprete de Libras, melhor que escolher um escritor. Escritores como personagens para mim são chatos. Cronista do cotidiano? Sim, talvez. Cronista do sentimento, quem sabe. Eu quero saber o que as pessoas pensam e sentem sobre o que vivem. Cronista de mentalidades.

 

Foto: Danilo Alves

 

DA – A Literatura pode ser o engenho em que o autor está para além dos domínios de certas especialidades, ou seja, ele pode discorrer sobre campos diversos do conhecimento, até mesmo inventando uma teoria a ser defendida por seus personagens. Tal prerrogativa lhe soa atraente em alguma medida?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – No meu livro Cada dia sobre a terra, no conto “Segunda-feira”, a personagem protagonista, uma jornalista branca já com alguma idade, tem um discurso em que se pode perceber o seu racismo; em “A alma do diabo”, do livro A eternidade da maçã, o Major Andrade fala da necessidade de torturar subversivos e de como entregou sua alma a Deus. São personagens com pontos de vista bem definidos. Eles defendem suas posições racistas e ditatoriais, enquanto os contos existem justamente para criticar seus comportamentos. Não aparece ninguém com uma fala antirracista ou com um discurso contra a ditadura militar. São as histórias e os jeitos como são contadas que permitem que o leitor, no processo de interpretação, perceba o quanto aquelas condutas e formas de pensar são deploráveis.

A palavra tem um poder muito interessante. A gente consegue colocar uma imagem dentro da cabeça de uma pessoa. A fotografia mostra e o observador tem de aceitar aquela imagem. A palavra faz diferente. Ela inocula uma semente na cabeça do leitor, que criará a imagem a partir de seu repertório. O mesmo acontece com a ideia, a teoria, a ideologia. A história semeia e o leitor cultiva seu pensamento. É preciso repertório. É preciso confiar no leitor. Aqueles livros de ficção que produzem discurso pronto entregam para o leitor a árvore inteira sem opção de um pensamento a ser cultivado. Ok, a pessoa aprende. Pode funcionar. Mas é como se deslocar levado por um carro. Você chega ao ponto final, mas não desenvolve músculos. Melhor é que a história faça o leitor refletir. É como andar de bicicleta. Você chega ao ponto final com mais dificuldade, mas ganha musculatura.

Na maior parte das vezes, minhas personagens são incapazes de produzir um discurso organizado sobre qualquer coisa. Elas estão experimentando a perplexidade de viver. Estão perdidas. Elas não poderiam ajudar ninguém. Não sabem as respostas e, às vezes, nem a pergunta. Eu até quero dizer certas coisas, mas entre mim e o leitor tem um narrador e suas personagens. E meu processo de escrita é um processo de sedimentação. Eu vou colocando camadas em cima da ideia inicial. É um meticuloso processo de recalque. Eu vou empurrando as coisas para baixo e amassando com os pés. Tem de cavar muito para chegar àquilo que era antes de o conto ser o que se tornou.

 

DA – A quantas anda o Marcus Vinícius poeta?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Eita, uma reviravolta na trama. A resposta é: não sei. Deve estar adormecido. A última vez que escrevi poemas foi há alguns anos. Era uma encomenda para uma antologia. Escrevi e gosto muito do que fiz, mas, na hora de publicar, me mandaram um contrato em que, praticamente, eu cedia os direitos dos poemas definitivamente. Me tiraram da antologia, amizades se desfizeram e eu escrevi um poema chamado “Quiseram roubar o poema”. Alguns desses poemas foram publicados na revista Poesia sempre, da Biblioteca Nacional. Há um livrinho pronto. Um dia lanço. Meu último livro de poesia foi o Manual para composição de vitrais, que foi escolhido para sair pelo Selo João Ubaldo Ribeiro. Eu não penso muito sobre poesia. Ela não me ocorre do nada como acontece com a prosa. O tempo todo eu tenho ideias de livros de contos e romances. Poesia, não. Se me encomendarem alguma coisa, eu acho que sai. Em algum momento vou me debruçar novamente sobre a poesia. Ou não. Ou talvez. Quem sabe?

 

DA – Nos últimos anos, você tem experimentado a faceta de entrevistador, conversando com autores de diferentes estilos, e parece estar bem à vontade com isso. Essa escuta e troca de ideias lhe ajuda a pensar também sobre sua própria trajetória?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Quem me levou à função de entrevistador foi minha amiga roteirista Carollini Assis. Ela me convidou para mediar algumas mesas do Festival SSA-ADAPTA e as pessoas gostaram muito, e eu gostei muito. Não fiz meras mediações, fiz entrevistas. O formato do festival ajudou porque era um evento sobre adaptação literária para o audiovisual. Então, estavam ali, por exemplo, dois entrevistados falando da mesma obra: o escritor e o adaptador. Entrevistei Milton Hatoum e Maria Camargo sobre o livro e a série Dois Irmãos; Marcelo Quintanilha e Heitor Dhalia sobre o quadrinho e o filme Tungstênio, entre outras entrevistas com escritores. Depois dessa experiência, peguei gosto. Fiz e faço o programa Palavra & ponto, no YouTube da Academia de Letras da Bahia; o programa Letras da Bahia, na Rádio Excelsior. Atualmente, além do Palavra & ponto, apresento o programa Livros à mão cheia, na TV ALBA.

Sobre pensar a minha trajetória a partir das entrevistas com outros escritores, a resposta é: não pensei. São posturas muito diferentes. Opostas. O escritor acaba se voltando para si mesmo. Não porque fale de si, nada disso, ainda que ocorra bastante. Vou dizer melhor. O escritor acaba se isolando na própria literatura. Ainda não está claro. É que o escritor, aos poucos, vai criando um espaço em torno de si. A cada livro, um mundo de coisas. Um mundo de mundos. Mitologias particulares, recorrências, autorreferências, estilo… essas coisas terminam por isolar o escritor. Ele vive lá dentro da própria loucura e nós, leitores e entrevistadores, os visitamos.

O entrevistador, já adiantei, é aquele que deixa o próprio mundo para olhar o do outro. Ele quer entender as leis daquele novo lugar. Claro que o entrevistador tem uma história, um repertório, mas sua postura é antinarcísica. Ele quer ver o outro, e não um reflexo. É só assim que funciona. Entrevistar é ouvir, ouvir ativamente, ajudando o entrevistado a se organizar na fala. A gente procura entender e embarca na loucura do outro. Eu estou falando de entrevistar escritores, não políticos. Com políticos a gente não pode embarcar na loucura, é preciso denunciar as incoerências. Do escritor o que se quer são justamente as incoerências e os atos falhos, senão como é que os teóricos da literatura vão ganhar pontos no Lattes? Tem de dar trabalho pra esse povo.

Eu gosto muito de ouvir. Não por acaso, no começo da vida, dos 20 aos 28 anos, fui voluntário do CVV, Centro de valorização da vida, uma instituição de prevenção ao suicídio, que se baseia na escuta. A pessoa liga e fala. O plantonista escuta sem julgar, sem aconselhar, apenas se fixando na emoção da pessoa. É um trabalho de apoio emocional. Já faço a propaganda. O número nacional é 188. Basta ligar. Minhas entrevistas têm um pouquinho desse jeito de voluntário do CVV. Só um pouquinho porque eu provoco, brinco, direciono a conversa aqui e ali, mas sempre ouço atentamente. Uma vez, um entrevistado usou uma palavra típica de uma religião e, depois que ele acabou o raciocínio, eu voltei à palavra de maneira bem discreta para ver se ele queria falar daquilo. Ele falou e isso ajudou muito a entendê-lo. Ele não falaria se eu não tivesse percebido o tipo de discurso.

Minhas entrevistas não têm um roteiro exato, fechado. É como faço na minha escrita. Eu chamo de estrutura de corrida de rally. Eu tenho uns pontos de controle, locais por onde quero passar, mas o caminho até eles é incerto, depende de muitas variáveis. Hoje, no Livros à mão cheia, esses pontos são os livros do entrevistado. O programa pretende passar por todos os livros para entender obra e autor. Às vezes, há desvios enormes e alguns livros não são tão explorados. É um programa de televisão com tempo certo. No Palavra & ponto, a conversa pode ser mais verticalizada. É isso: O Livros à mão cheia, panorâmico, visa o horizonte; o Palavra & ponto é um mergulho. Eu os concebi assim desde o título.

O que essa experiência contribui para eu pensar minha literatura? Acho que conheço ainda mais o que se produz hoje porque li livros que eu não teria lido se não fossem as entrevistas. Deve haver consequências, mas não sei dizer quais.

 

Foto: Danilo Alves

 

DA – De todo o seu tempo com a carreira literária, qual percepção você tem hoje de como ela se construiu? O autor e a pessoa mudaram muito em tal caminhada?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Agora vou ter de cair no clichê e dizer que é um processo de aprendizado. Eu queria ser escritor e não sabia nada. Não estou dizendo “hoje eu olho para trás e vejo que não sabia nada”. Não é isso. Eu sabia que não sabia. Na poesia, talvez não. Talvez eu tivesse essa sensação de saber. Poesia é tão abstrato. Quando eu escrevia poemas eu tinha certeza do que estava fazendo. Talvez não seja um acaso minha poesia ser irregular. Foi o que me fez estrear, é verdade, mas, olhando retroativamente, aquele não é um grande livro. Ingênuo. Na prosa é diferente. Eu sempre tive dificuldade de escrever. Escrevi poucos contos antes dos trinta. Nenhum foi publicado. Escrevi pouco porque era difícil — uma dificuldade de não saber como e uma dificuldade física, é cansativo. Eu brinco que, se não tivessem inventado o computador, eu não seria prosador. Continuaria nos poemas curtos.

O fato é que efetivamente eu estudei para ser escritor. Fiz todo tipo de oficina. Hoje noto que, embora eu seja fascinado por Lygia Fagundes Telles, meus primeiros contos publicados — e os anteriores — pareciam mais influenciados por Clarice Lispector. E falo isso no mau sentido da expressão. Sabe essas pessoas que não sabem contar uma história e ficam emulando Clarice com filosofices? Contos curtos. Eu não tinha uma noção de como fabular, inventar histórias e personagens. Acho que, aos poucos, fui melhorando. Eu não sabia fazer diálogos e não fazia porque tinha medo de fazer diálogos ruins. O conto “A omoplata”, todo em diálogos, surgiu de um exercício a que me obriguei. Eu me disse: vou fazer um conto só com diálogos.  E deu certo. O conto ganhou um prêmio nacional e fez as pessoas me notarem. Outro grande momento para mim foi o conto se tua mão te ofende, que foi publicado como uma novela. Em arquivo word tem apenas trinta e três páginas. Levei quatro anos para escrever. Eu queria que ele tivesse uma extensão suficiente para figurar sozinho num livro da Coleção Cartas Bahianas (livrinhos de 48 páginas em forma de envelope). Foram quatro anos tentando ampliar a história e construir as motivações da personagem para a cena final melodramática. Tenho voltado para esta cena ultimamente porque Dona Mira, de Motel Mustang, age de maneira melodramática contra o pastor do mesmo modo que Lúcio agiu contra a imagem de Jesus.  Não é por acaso que tema e forma reapareçam juntos. Deve ter algo aí que não me cabe investigar. Os contos, as personagens, eu, estamos todos nos abrindo mais.

A um contista sempre fazem a pergunta: e o romance? Aliás, não. As pessoas não perguntam assim de maneira sintética. Só um contista pergunta assim. Quem dá mais valor ao romance pergunta: quando você vai escrever um romance?

A eternidade da maçã e Motel Mustang são livros de contos que cumprem a função de romance. Eles estabelecem um painel social como os romances fazem. E numa época em que os romances estão sendo desconstruídos até virarem fragmentos, eu posso ser confundido com romancistas descontruídos. Talvez estejamos no mesmo lugar, mas os movimentos são no sentido inverso. Eu estou caminhando para um romance e os outros estão se afastando. Mas eu acho que meu romance, se vier, vai ser um romance de contista. A narrativa longa de quem só escreve romances é diferente de quem escreve contos. Eu não sei explicar com muitos exemplos, nem quero me comprometer. Mas há livros de contos que a gente lê e pensa: isso devia ser ampliado para um romance. E há romances que têm uns detalhes e umas estratégias que só o conto nos ensina. Não estou fazendo juízo de valor (qual o melhor). São características que eu percebo. Posso estar enganado, mas é esse engano que está na base da minha escrita.

O autor e a pessoa mudaram muito em tal caminhada? Mudei, estou mudando, tentando me parecer cada vez mais com o que sou.

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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150ª Leva - 05/2022 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Marcelo Frazão

 

A arte de fotografar não se resume a clicar e registrar um momento de uma pessoa ou objeto. Todo e qualquer registro artístico envolve, além do olhar, percepção e sensibilidade. A técnica é importante, mas deve passar despercebida como em qualquer outra arte. Fotografar é uma arte solitária.

Profundo conhecedor do ofício, Edgard é doutor em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ, mestre em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFBA, onde leciona na Graduação e Pós-Graduação e desenvolve pesquisas sobre a imagem. Participou de eventos culturais e expositivos no Brasil, Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Estados Unidos e Portugal, bem como de uma residência artística na Escola Superior de Artes Visuais da Ilha da Reunião (FR) em 2008. Entre 1994 e 2004, trabalhou como instrutor/professor de pintura na Oficina de Artes Visuais do Museu de Arte Moderna da Bahia.

Edgard Oliva é um fotógrafo que incorpora o aparelho fotográfico ao próprio corpo para revelar o oculto. A técnica não é percebida até o observador se dar conta que está envolvido e preso na fruição da imagem. Este é o mistério: saber definir toda uma paisagem que aprisiona num único click. É como olhar um pensamento. E isto é mágico. Fotografar não é apenas clicar. É inspiração. É a arte e a paixão de quem congela o tempo, deixando muito de si no registro da imagem.

 

Edgard Oliva / Foto: Alex Simões

 

DA – Qual seu primeiro contato com a fotografia?

EDGARD OLIVA – Desde a minha infância, adolescência. Meu pais gostavam e minha mãe era a fotógrafa da família desde quando meu avô a presenteou com uma câmera fotográfica nos anos 1940, por aí. Nos anos 1970, ela teve uma Kodak Instamatic e foi com esta câmera que eu iniciei os primeiros cliques na adolescência, entrando pela vida universitária, no final do anos 1970.

 

DA – Nos tempos de hoje, a fotografia ainda é possível como profissão?

EDGARD OLIVA – Sim. A fotografia digital proporcionou que muitos “novos” fotógrafos, e fotógrafas, tivessem a oportunidade de realizar com mais rapidez o aprendizado da fotografia. O autoaprendizado através dos tutoriais facilitou muito o interesse pela profissão de fotógrafo/a, além dos cursos particulares possíveis de serem realizados, pois o custo do material deixou de existir. Contudo, os equipamentos ficaram mais caros, mas o fator custo benefício compensa.

 

DA – Fotografia: analógica ou digital?

EDGARD OLIVA – Analógica para os apaixonados pela química, a fotografia arte, a imagem manual e mais racional, pensada e que não podemos “deletar”.

A digital para os apaixonados pela imagem, a imagem instantânea, a imagem eletrônica, mas que não perde seu valor estético conquanto imagem e arte, naturalmente. Contudo, penso que, tanto na categoria arte quanto no documentário e no jornalismo, todas as categorias se beneficiam muito bem da tecnologia atual.

 

DA – Qual o seu maior prazer em relação à fotografia?

EDGARD OLIVA – Alcançar na captura da imagem o que meu olhar consegue perceber e capturar a partir da luz não premeditada, pré-definida, mas a luz que se apresenta para o fotógrafo. São as melhores imagens, pois elas nos dão sensações diferentes, são emoções pós objeto iluminado e capturado pelo olhar mecânico/eletrônico do equipamento.

 

DA – Possui alguma mania quando fotografa?

EDGARD OLIVA –  Não, somente estar só e “escutar” o que a luz me ensina. A qualidade da luz/imagem é o mais importante.

 

Edgard Oliva / Foto: Alex Simões

 

DA – O que é imprescindível para se obter uma boa fotografia?

EDGARD OLIVA –  O imprescindível: sensações e emoções. Previsão do resultado, dominar a luz a partir do uso correto do equipamento.

 

DA – Como você avalia a leitura da imagem fotográfica hoje?

EDGARD OLIVA – Se você tem um grupo de aprendizes de fotografia é importante iniciar pela leitura de textos para que o texto te traga à imagem. A imagem, para nós humanos, não existe sem o texto porque, ela própria, a imagem, já é um texto. Se a lemos visualmente é porque ela nos proporcionou interpretá-la. Sendo assim, é importante compreender a imagem para que possamos lê-la corretamente. Ela, a imagem, é o que foi em um passado recente ou outrora existente como sujeito registrado como fotografia.

 

DA – Em relação ao ensino da fotografia, quais os principais desafios a se enfrentar?

EDGARD OLIVA – Educar o olhar, avaliar qual o equipamento a ser utilizado, entender por que eu quero me aproximar dessa tecnologia tão desejada pelo homem no passado, e somente lembrando que a imagem fixada em um suporte a partir da luz foi pensada por Aristóteles em 350 a. C. Por aí, vejamos, relatando esse início da produção imagética aos alunos ou a aprendizes individuais, o desejo em desfrutar desse poderoso invento aumenta. Nesse sentido, colocar o aluno no laboratório de fotografia e ele perceber, aprender como foi o início de todo o processo, a aluna ou aluno logo quer saber mais sobre o continuum da formação da imagem. Entretanto, seguir adiante na carreira, fica à luz de cada uma/um. Assim, o desafio está como fazer a pessoa se apaixonar e desejar mais.

 

DA – Qual deveria ser o foco de um fotógrafo iniciante para aprimorar seu trabalho?

EDGARD OLIVA – O próprio ser humano. As expressões, os ambientes que os representam, as identidades pessoais, a busca por uma luz própria. A luz é a assinatura de cada fotógrafo.

 

DA – Como você vê a produção acadêmica? Ela difere da fotografia do dia a dia?

EDGARD OLIVA – A fotografia acadêmica se fecha dentro de um reduto acadêmico e científico, teórico ou teórico-prático. É preciso ter muito cuidado para não perder o lado pessoal de identidade própria conquanto fotógrafo artista ou documental. A fotografia acadêmica é muito importante do ponto de vista da compreensão e interpretação das imagens. Por isso eu fui por este caminho, a universidade, como pesquisador e professor. Não bastava fotografar, mas entender melhor meu objeto a partir do meu olhar.

A fotografia autoral e independente da estrutura acadêmica proporciona uma outra experiência, a experiência do livre árbitro, de um poder de decisão imenso e importante para a carreira do fotógrafo. O processo dá-se como o voo da águia: é solitário, mas com o olhar preciso.

 

Edgard Oliva / Foto: arquivo pessoal

 

DA – A imagem tornou-se banal com o advento dos celulares ou essa tecnologia foi um ganho?

EDGARD OLIVA – Ela banalizou. Contudo, ocorre hoje o que ocorreu quando, em 1888, o George Eastman criou a primeira câmera fotográfica em pequeno formato e, com isso, ele permitiu popularizar a fotografia ainda no século XIX. Incrível, mas ele fez isso numa época em que somente quem poderia pagar para um fotógrafo a reprodução de uma cena de família teria chances de ter uma imagem da nova tecnologia à época: a imagem mecânica, não mais a pintura como documento, a luz e a química se complementando através do sistema negativo positivo, elementos os quais ressignificavam os processos de obtenção da “nova imagem”. No presente, os equipamentos eletrônicos dominam nosso cotidiano. A câmera fotográfica digital miniatura, que não existe mais, substituída pelos aparelhos de telefone celulares. Com esse advento, a imagem sim, banalizou, mas a arte e o documental ganharam. A fidelidade ou a abstração da imagem adquiriram valor de Fine Art, valor monetário e cultural no sentido de possibilitar maior acessibilidade em todos os aspectos.

 

DA – Qual o maior inimigo da fotografia enquanto arte?

EDGARD OLIVA – Como eu disse anteriormente, a fotografia deve ser vista como imagem do cotidiano, aquela em que se registra o dia a dia da/do cidadã/cidadão (Facebook, Instagram e Twitter, etc.), a imagem para a imprensa ou a imagem dedicada à arte. São três níveis de imagens os quais devemos observá-las com cuidado. Elas nos revelam estratos do olhar e do modus operandi do sujeito que a produz. Não podemos nos dissociar mais desses três níveis de produção imagética. Nesse sentido, é preciso estar de olhos abertos para a fotografia arte porque ela nos coloca em outro patamar, nos tira de uma visualidade simples para uma visualidade interna, para uma reflexão da nossa própria existência e como percebemos a presença do outro no nosso contexto social.

 

DA – Existe uma fotografia baiana?

EDGARD OLIVA – Existe sim, e ela está impregnada em cada um que aqui na Bahia fotografa. Eu diria que mesmo para quem não é baiana/baiano, chegando na Bahia e tomando a nossa paisagem visível, em todos os sentidos, e realizando imagens para o documental ou para o viés artístico, é uma fotografia baiana, pois ela está impregnada de elementos nativos da Bahia. Então, eu acho que a fotografia ganha identidades a partir do local onde elas são capturadas, e não porque tal e tal fotógrafo ou fotógrafa utilizou do equipamento para isso. Há nomes em nosso estado sim, são genuinamente baianos que preservam a identidade cultural da Bahia, uma Bahia de múltiplas facetas, e isso nos garante uma particularidade.

 

DA – Qual considera o seu trabalho (ou trabalhos) mais icônico?

EDGARD OLIVA – Todos os trabalhos que eu pude realizar até o presente considero icônicos. Contudo, os registros sobre a estética dos presépios na Chapada Diamantina foram os registros mais importantes para minha carreira conquanto fotógrafo artista. Da orientação do olhar para a leitura a partir da semiótica da imagem e compreendê-la não somente como fotografia, mas como objeto de estudo para entender o homem e as história pessoais a partir do contexto de oralidade regional, foi muito importante. Os demais projetos que realizei, e que ainda realizo, estão dentro de uma perspectiva da subjetividade da imagem, a imagem conquanto paisagem interna, as paisagens que nos fazem sofrer ou repensar nosso passado e presente. São paisagens interiores transferidas de modo subjetivo para o olhar do espectador. Daí, necessitamos expô-las e abrir diálogos com o espectador para satisfazê-lo, compreender a partir de um olhar “estrangeiro”. É o olhar de fora para dentro, contrário à percepção do artista fotógrafo que olha de si para o exterior.

 

Presépio de Maria da Natividade Souza, Iramaia-BA, Brasil, 2002 / Foto: Edgard Oliva

 

DA – Existe algum tema que jamais abordaria no seu trabalho?

EDGARD OLIVA – Não, nenhum desde que seja possível realizá-lo e mostrar. Cada ideia pode se transformar em um projeto importante, mas nem todo projeto poderá se tornar importante.

 

DA – Um livro imprescindível para o fotógrafo.

EDGARD OLIVA – Bem, existem vários. Desde os de conteúdo técnico/tecnológico até os livros autorais que tratam da imagem fenomenológica, da fotografia conquanto documento, da fotografia arte, enfim, se você quer saber qual me orientaria melhor no aprendizado sobre como obter uma boa imagem, eu indicaria “A câmera” de Ansel Adams, assim como “O filme” e “O negativo” do mesmo autor, um renomado fotógrafo norte-americano que investiu muito na qualidade da imagem, a imagem em preto e branco e com todas as gamas de cinzas indo do preto total ao branco total, ou seja, luz e não luz. Mas, se você me pergunta sobre a imagem tecnológica e numa linha filosófica, eu indico o título “Filosofia da Caixa Preta” de Vilém Flusser. Mas, se se trata da imagem conceito, da imagem reflexiva, podemos ter autores como Gaston Bachelard, Henrri Bergson, Jacques Rancière, George Didi-Huberman, Boris Kossoy com uma abordagem fundamentada na história da fotografia e sua temporalidade, e o próprio Sebastião Salgado com o título “Da minha terra à terra”, entre outros, pois nos beneficiam com novas reflexões a partir das imagens, pontuando o que somos neste bioma terrestre.

 

DA – Qual o fotógrafo ou artista, vivo ou morto, gostaria de convidar para um bate-papo ou um café?

EDGARD OLIVA – Pensando bem, o Hiroshi Sugimoto. Na minha opinião, ele consegue nos mostrar o que não conseguimos perceber com nossa sensibilidade tão conturbada e modificada pela modernidade. São olhares sobre o contínuo do processo da existência, e sobre nós mesmos, para com o outro e a natureza das coisas presentes. A partir desse princípio, eu tomaria um café ou um chá com ele, mesmo sem falar nada da língua japonesa.

 

Marcelo Frazão é artista plástico, poeta e editor. Publicou Haikai (1996) e Homo Sapiens Sexualis (2015). Ganhou o Premio APCA em parceria com Olga Savary. Atualmente trabalha como editor da Villa Olívia e ilustra para o Jornal Rascunho.

 

 

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148ª Leva - 03/2022 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Larissa Mendes

 

Árdua tarefa tentar descrever um ser peculiar como Juvenil Silva. Aura despretensiosa de artista, veia de poeta, prosa (boa) de trovador. É alma pernambucana, carne de Carnaval, casca rachada de caranguejo. E por falar em prosa, como é bom debruçar-se sobre as reflexões nada juvenis do “compositor, tocador e cantante”, como define a bio de sua conta no Instagram. É bom ouvi-lo filosofar sobre os efeitos da pandemia em nós mesmos e sobre seus discos, ou melhor, sobre seus “álbuns de fotografias abstratas”.

Juvenil nasceu autodidata e já trocou uma bicicleta por um contrabaixo, quando criança. Iniciou sua trajetória na banda Canivetes, foi agitador cultural por uma década no A Noite do Desbunde Elétrico (conhecido como “o festival anual de rock independente ou a noite mais doida do ano”, em Recife) e atualmente concilia três projetos paralelos (Avoada, Dunas do Barato e A Banda dos Corações Selvagens). Além de seu trabalho solo, ainda comanda seu próprio selo musical e é idealizador de projetos como o Discos Offline ou Vende-se Música. É um acumulador de funções artísticas e um aglutinador nato.

Não é fácil também seguir trilhando um caminho musical há mais de duas décadas pela cena independente. E se tem uma coisa que Juvenil sabe, é ser livre, seguir como um pássaro seus próprios fluxos estéticos e não se dobrar a nenhuma tendência migratória. Talvez o artifício sejam as “canções coracionais” desse eterno psicodélico. Por ora, seus próximos voos reservam o lançamento do primeiro disco de seu projeto coletivo Avoada e de seu quinto álbum solo.

Esta conversa sem pressa, “sem relógios”, como o nome de seu single mais recente, reflete algumas considerações da mente criativa e do coração generoso desse sujeito consciente e engajado, amante das plantas, dos gatos e da arte – no sentido mais genuíno da palavra. Um encontro do Juvenil menino com o Juvenil maduro celebrado em nossa Pequena Sabatina ao Artista.

 

Juvenil Silva / Foto: Raissa Vila Nova

 

DA – Praticamente 9 meses (uma gestação inteira) separam o lançamento de Lonjura (2021), seu álbum mais recente, do seu retorno “oficial” aos palcos. Qual o impacto dessa distância (ou dessa “lonjura”) entre o lançamento do disco e a retomada dos shows com público?

JUVENIL SILVA – Pra ser franco, ainda não me sinto de volta. Não sinto esse “retorno oficial aos palcos”. Não como antes, talvez nunca seja como antes, talvez seja melhor algum dia, ou mesmo parecido. Mas no momento ainda me sinto dentro dessa “Lonjura”. Por exemplo, o EP foi lançado, mas nunca executado ao vivo. Nunca houve show de lançamento. De algumas pequenas apresentações que tenho feito, ainda não sinto algo forte, real, presente. Acredito que isso se deve mais a mim mesmo. Às vezes, a gente vai tão longe lá dentro que fica sem saber por onde, nem como voltar. Mas por ora, tô mais interessado em ir, seguir. Só pra ver no que vai dar.

 

DA – Apesar do isolamento social no qual foi concebido, o Lonjura teve inúmeras parcerias. Você ainda pretende fazer um show/turnê de lançamento? Ou você acredita que este EP em particular funcionou como uma espécie de registro, um recorte desse momento introspectivo pelo qual todos nós passamos (e ainda carregamos sequelas)? Qual o significado desse disco para você?

JUVENIL SILVA – Sim, meus discos são recortes do tempo, álbuns de fotografias abstratas. Espelhos emocionais do subconsciente. Sobre a produção do EP, é mais sobre um mergulho prazeroso nas possibilidades do que um aperreio com as dificuldades que o isolamento trouxe. Explorei ao máximo isso de gravar com vários músicos, cada faixa traz uma galera diferente e de lugares distintos. Algo que antes era mais resumido a ensaiar com uma banda e gravar. No período de isolamento eu me reconectei com pessoas que estavam perdidas nessa “lonjura”, que mais existe dentro de nós mesmos. Pois perdidos ficamos em nosso emaranhado universo de afazeres, demandas e péssima utilização de nosso tempo.

 

DA – Como você avalia o atual papel da arte e do artista diante dessa “poluição midiática”, calcada em excesso de informação e escassez de conteúdo, e ancorada em algoritmos, militância e inquisição virtual?

JUVENIL SILVA – Em relação ao papel da arte, acredito que é algo que deve ser livre de qualquer coisa. Por mais que na mídia a gente tem visto ela sendo explorada de modo tão engessado. É triste, o capitalismo sempre fez esse joguinho sujo. Se apropria de culturas, discursos, bandeiras… A qualquer custo. Mas a arte em si, (r)existe para além disso. Eu não tenho muita paciência para seguir tendências, só sigo um próprio fluxo de ciclos estéticos que vão deslanchando naturalmente. Por mais que, na maioria das vezes, aparentemente, eu esteja de ré na contra mão (risos). Sinto que vivemos numa espécie de saturação dos sentidos em relação à arte. Um tedioso fast food cultural. A gente come tão rápido que nem sente o gosto e depois vem outra coisa e depois outra, não se degusta e nem se absorve direito. Essa entrevista, por exemplo, a maioria das pessoas vai ler apenas a chamada da matéria, algumas vão até compartilhar mesmo sem ler, outras vão ler pelo menos o começo… (Oi pra você que leu até aqui!). Infelizmente, toda essa avalanche de informação não nos torna mais sábios e sim pelo contrário, é tudo tão ligeiro que nem temos tempo pra pensar direito.  E a festa continua, seja lá como a coisa esteja.

 

Juvenil Silva / Foto: Raissa Vila Nova

 

DA – O que nos reserva o próximo fluxo de Juvenil Silva? Um novo álbum, uma nova produção?

JUVENIL SILVA – Faz tempo que não lanço um álbum cheio, né? O “Suspenso” é de 2018. Talvez eu ande meio desacreditado desse formato. Não por ele em si, pois amo ouvir álbuns, mas pelo modo que as pessoas vêm consumindo música. Bem, tenho um disco guardado e pode ser lançado a qualquer momento. Em janeiro lancei um single dele, a faixa “Sem Relógios”. Na verdade, são 7 canções, daí existe uma dúvida em deixar como EP ou pôr mais músicas e fechar um álbum completo. Também estou imerso nas gravações do primeiro álbum do projeto coletivo “Avoada”. Ambas as produções serão lançadas ainda este ano. Acredito que o meu sai ainda este semestre e se chamará “Um Belo Dia Nesse Inferno”. Nome que seria do meu primeiro disco, lá em 2013. Não só o nome, mas também a estética. Pois desde o início eu queria lançar um disco de folk psicodélico, acabou que fiz algo mais rock psicodélico, folk rock… Mas agora vai. Recomeçando da maneira que eu iria começar.

 

DA – Por falar em Avoada, esse não é o único projeto coletivo que você participa. Você ainda integra o Dunas do Barato e A Banda dos Corações Selvagens. Quais as peculiaridades de cada projeto e como você consegue conciliá-los com sua carreira solo?

JUVENIL SILVA – Esses projetos coletivos requerem um pouco mais de disciplina e compromisso do que meu trabalho solo, pois envolvem outras pessoas. São vários fluxos alinhados para que se possa fazer algo. Mas também é onde posso aproveitar minha versatilidade no exercício de compor. Na Dunas do Barato, eu trago um material mais voltado pra música brasileira, a banda tem bastante influência dos Tropicalistas. Na Avoada, usamos a canção como veículo de luta. O coletivo foi praticamente formado pra meter o pau nesse desgoverno e fazer isso usando a canção numa estética mais rural, regional, folk. Além desses projetos, que são autorais, tem A Banda dos Corações Selvagens, que faz uma releitura ácida e psicodélica da obra do Belchior, e também o trabalho com o selo Plurivox, com Tonho Nolasco, onde além de gravar e produzir nossas coisas, estamos fazendo a produção fonográfica de outros artistas. De alguma forma, minha carreira solo permeia tranquilamente entre tudo isso e mais um pouco.

 

DA – Como surgiu a ideia do selo Plurivox? Como funciona a captação de novos artistas para a gravadora? O estúdio já está finalizado?

JUVENIL SILVA – A Plurivox surgiu quando na pandemia comecei a aprender a gravar para fazer meus “Discos off line”, álbuns que gravei e não lancei, apenas vendi. Com a construção do estúdio, que ainda não terminou, e com a troca constante e experimentos com o músico e produtor Tonho Nolasco e a designer Natália Amorim, a coisa foi surgindo naturalmente. Além de gravar nossas coisas, começamos a produzir artistas próximos que admiramos. Até então lançamos alguns singles da Flor de Jacinto e Marcionílio. Outros artistas e propostas estão sendo avaliadas. Ainda esse ano teremos vários lançamentos.

 

Juvenil Silva / Foto: Raissa Vila Nova

 

DA – Seu projeto Discos Off-line funciona como um chapéu virtual enquanto o artista toca na rua e já rendeu 8 EPs. Como tem sido a receptividade do público ao projeto? Você pretende continuar com esses lançamentos ou, de repente, lançá-los em outra plataforma?

JUVENIL SILVA – Os Discos Off-line foram 8 ao todo, “Isolamento Acústico”, “Isolamento Acústico Vol 2”, “Não Amolem os Canivetes”, “Cinzas de um Ano Morto”, esses de 2020. Em 2021, teve “Calendário dos Sonhos”, “Farol das Esperanças”, “Coracionalismo” e uma versão diferente do “Lonjura”, com arte diferente e mais músicas do que o EP lançado. Esse projeto foi algo de guerrilha mesmo, algo emergencial e cumpriu bem o seu papel. Teve uma ótima recepção da mídia e do público. Saíram várias matérias sobre e muita gente comprou. O valor era espontâneo, às vezes compravam um disco por 10, 20 reais, mas, às vezes, 50, 100 ou até mais. Não penso em seguir com esse projeto, pois foi algo estratégico para esse período de isolamento em que não havia possibilidade para shows e outros trabalhos mais. Os Discos Off-line e editais, como o Aldir Blanc, me ajudaram a segurar a barra financeira desses dias impossíveis. Agora, mesmo ainda sentindo que não voltamos por completo com os shows, pelo menos existem possibilidades. Vamos a elas. Saudade da estrada… Cheguei até a fazer alguns shows em São Paulo, mas tenho tocado mais pelo Nordeste. Mas vamos em frente, seguindo e passando de acordo com abrir das porteiras.

 

DA – Qual a diferença do Juvenil do A Noite do Desbunde Elétrico (festival de rock underground de Recife) para o Juvenil de hoje?

JUVENIL SILVA – O Desbunde Elétrico era um festival que eu e uma turma de outras bandas fazíamos, começou em 2007 e foi até 2016, se não me engano… Ao passar dos anos, ficou sendo produzido mais por mim mesmo. Naquela época, eu tocava com a Canivetes, banda de rock sessentista e psicodélico, com a Dunas do Barato, que fazia um som mais tropicalista e, depois, meu trampo solo. A diferença de hoje em dia, além de mais de uma década de juventude (risos), é que eu era ainda mais maluco e despreocupado, com o tempo a gente vai ficando mais sério mesmo, percebendo o tanto de coisa que acontece ao nosso redor e dentro de nós mesmos. Isso dá pra ver bem nas letras que escrevo. Se comparar as de hoje em dia com as primeiras composições gravadas nas bandas e na carreira solo… Depois do golpe, Bolsonaro, pandemia, términos de relacionamentos e outros tantos traumas, ninguém é mais o mesmo.

 

DA – Entre lonjuras e avoadas, suspenso ou no meio de lugar algum, o que mais o estimula a seguir trilhando sua estrada musical?

JUVENIL SILVA – Desde que me entendo por gente, me sinto artista, desde os rabiscos mais bobos nos caderninhos… Depois do primeiro violão, pronto. Não tenho, nem quero saída. É o que amo e sei fazer… Esse foi o caminho que escolhi, mesmo com todos e tudo na vida tentando me afunilar para um outro caminho. Àquele que dizem ser o correto: estudar, ter um emprego fixo, casar, ter filhos e morrer temente a Deus. Pois é, fui criado em família evangélica. Temores, hipocrisia e promessas de um paraíso pós-vida, no qual toquei o foda-se e fui atrás do meu próprio paraíso, no aqui e no agora. E não existe outra forma de viver isso, sem o tesão e amor naquilo que se faz. Sejamos plenos, triunfantes e nada menos que isso.

 

Larissa Mendes já viveu dias impossíveis, mas hoje, na medida do possível, se considera feliz.

 

 

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147ª Leva - 02/2022 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Ser um criador é sentir-se atravessado pelos movimentos do mundo. É percorrer a condição humana retendo dela os estímulos necessários para o olhar crítico sobre a realidade. Pode ser também o gesto de compreender as mudanças pelas quais somos incessantemente desafiados. É potência manifesta. Ato de insubmissão. Ser e não ser no território das palavras e imagens.

Talvez as ideias evocadas no parágrafo acima sirvam para situar um pouco a presença de um alguém como Alex Simões entre nós. Suas feições de poeta e performer dizem muito sobre esse ato espantado que é o estar no mundo, colossal ambiente onde reconhecer-se humano é colocar-se o tempo todo à prova. E o poeta em comento não nos entrega versos de mão beijada, posto que nos convida a extrair do caminho poético ímpetos de diálogo constante com esse Outro que, ao fim e ao cabo, somos todos nós, leitores.

Aceitar o diálogo com Alex significa também acolher a partilha sensível de todo o assombro que está no mundo, como nos revela aqui o próprio autor. Tal gesto propositivo denota um movimento que chama atenção não pelo ato em si, mas pela perspectiva que este encerra, qual seja a de que o artista, despindo-se de qualquer afetação pela aura que o ofício supostamente poderia sugerir, opta por caminhar com simplicidade no meio de seus iguais: eu, você, todos nós.

Para ficar nos exemplos mais recentes, as vias poéticas de Alex foram capazes de nos ofertar obras do quilate de “Contrassonetos: catados & via vândala” (Ed. Mondrongo, 2015) e “trans formas são” (Ed. Organismo, 2018), todas elas a demarcar a importância desse autor na cena literária brasileira dos últimos anos. Conhecedor da tradição, o poeta sabe transgredir as formas a favor de um engenho criativo que, sem negar referências de outrora, aponta para o reconhecimento da presença de outros modos canônicos no horizonte da poesia.

A partir de reflexões sobre seu novo livro, “assim na terra como no selfie” (paraLeLo13S, 2021), lançado em pleno contexto pandêmico que nos assola, Alex Simões acolhe a Diversos Afins para mais uma entrevista, pontuando impressões sobre o turbilhão contemporâneo em que vivemos, além de descortinar trajetos ligados à literatura e à arte. E é preciso ressaltar o quanto o artista está imerso nas questões de seu tempo, não se furtando a abordar também os matizes políticos e sociais sobre os quais a atualidade de nossos dias orbita.

 

Alex Simões / Foto: Edgard Oliva

 

DA – “Assim na terra como no selfie”, seu mais recente livro, traz algo que é uma marca registrada de sua produção poética, qual seja a capacidade de olhar para nossa contemporaneidade com movimentos de inquietude e provocação. É importante para você ser um poeta que desacomoda as coisas diante do confronto com o seu tempo?

ALEX SIMÕES – “assim na terra como no selfie” é um livro que tem também outra marca registrada de minha produção poética: o trabalho artístico relacional, dialógico. É o resultado de uma conversa com as editoras Milena Britto e Sarah Kersley, que fizeram uma seleção de poemas com o objetivo de mostrar as muitas facetas dessa produção. Eu tendo a reconhecer mais a inquietude do que a provocação no que faço. Creio que provoco, sim, mas menos no sentido de desacomodar do que no de demandar retornos, leituras, respostas, resultantes de estratégias que ao fim e ao cabo querem estabelecer diálogo. Diálogo explicitado nas muitas dedicatórias e referências nos poemas/paródias/pastiches. Esse olhar para a nossa contemporaneidade é inquieto porque parte da constatação de como as coisas são e estão desacomodadas  e quer compartilhar esse assombro diante do mundo, diante deste tempo, que é o nosso tempo. É um olhar que, lembrando Agamben, adere a, e ao mesmo tempo toma distância deste tempo. Quando tomo distância não por nostalgia senão para entender melhor este tempo em que vivo, vejo as coisas desacomodadas e passeio por elas escrevendo poemas, fazendo poemas visuais e performances.

 

DA – O nosso presente traz todo um contexto pandêmico que nos atravessa. E seu livro também está marcado por esse estado de coisas. Enquanto poeta e artista, como tem sido a experiência de lidar com uma atmosfera que impacta nossa condição humana de forma tão avassaladora?

ALEX SIMÕES – Sim, uma parte significativa do livro foi produzida em plena pandemia e em contexto de isolamento bem restrito, o que inevitavelmente aparece em alguns poemas. Tive o privilégio de poder ficar em casa, trabalhar e receber delivery sem precisar sair, sem precisar usar transporte público. Mesmo Uber eu levei um ano para usar, porque nas poucas vezes que me desloquei no primeiro ano foi de bicicleta. O impacto foi muito forte porque perdi alguns amigos queridos e a sensação de que a morte estava me rondando era muito nítida, embora seja uma rara exceção de quem não teve perda na família por causa da COVID. Pessoalmente, foi um momento em que me vi com mais privilégios do que supunha e me redescobri menos sociável do que supunha. Tive a sorte de ter remuneração como artista/agente de cultura, em boa parte por meio de editais financiados pela Lei Aldir Blanc, resultado de mobilização nacional nossa, apesar desse horror de desgoverno que espero esteja no fim do mandato. Além das atividades como profissional de Letras, que revisa textos, dá aulas particulares e atua em projetos que permitiram que eu tivesse alguma tranquilidade para seguir. Faço todas essas ressalvas para dizer que, apesar de tudo isso, não foi nada fácil, não está sendo fácil. O luto não cessa e a sensação de viver à deriva, sob um governo que performa o descontrole e a incompetência enquanto deixa passar a boiada de agenda neoliberal, genocida e ecocida não cessa. Continuo sem saber como lidar, mas muito desconfiado que precisamos reaprender formas de fazer junto, de dialogar e tornar nossos discursos e ações mais acessíveis e factíveis. Ou aprendemos a saber distinguir com quem de fato podemos contar e a flutuar no bote salva-vidas nos acomodando de modo a não desequilibrar ou mesmo rasgar a embarcação, ou afundamos todas, todos e todes.

 

DA – Em 2016, quando você nos concedeu outra entrevista, estávamos vivendo os efeitos de um golpe, consequências estas que nos arrastaram até o cenário de destruição atual. E vimos muita gente saindo do armário e mostrando sua face truculenta, reacionária e fascista em praça pública. O Brasil sempre foi isso e nós que fingíamos não ver?

ALEX SIMÕES – O Brasil foi sempre isso, aquilo e aquilo outro. Somos um país fundado no genocídio e na exploração dos povos originários e dos povos forçosamente transplantados de África para cá. E que desde que virou República, não num passe de mágica, mas em um golpe militar,  tem tido alguns intervalos de (re)democratização em um moto contínuo de um devir que nos prometem desde sempre: Brasil, o país do futuro. Mas somos um país de resistência desses povos, de seus descendentes e de contradições nesses processos que intercalam ditadura e acenos para a democracia, para processos radicais de transformação social também. E tem beleza nessas contradições, tem possibilidades. De fato, para alguns de nós nunca foi possível não ver o fascismo que nos circunda, que nos habita, que nos funda. Não foi no golpe contra Dilma Roussef nem no governo Bolsonaro que o racismo, a lgbtfobia, o machismo e o classismo apareceram para nos assustar. Mullheres, lgbtqiap+, pessoas em situação de rua, negros, ciganos, pessoas com deficiência e alguns de nós que trazemos mais de uma dessas marcas identitárias sabemos bem que se o gigante acordou, alguns de nós nunca pudemos nem sequer dormir sossegados. Mas de fato houve um empoderamento dos que trazem marcas identitárias hegemônicas, e fingem não ter, para se afirmar, para reagir a qualquer possibilidade de mudança.  E é muito sintomático que reajam atribuindo aos outros o que são e o que fazem. Houve uma quebra do pacto do silenciamento e isso não tem mais como voltar. O mito da democracia racial teve que se reinventar e chamar os negros de racistas. Os defensores da ditadura militar justificam a lgbtfobia como reação à ditadura gay. Os machistas justificam suas falhas trágicas com o poder que atribuem à mulher de lhes provocar. Os extremistas religiosos usam sua fé para justificar o ódio que precisam externar. E o politicamente correto é um problema maior que o fato de 84,9 milhões de pessoas no Brasil não terem comida e/ou não saberem se vão comer amanhã. Esse empoderamento foi uma reação a alguns tímidos avanços que não tem como segurar. Você mencionou 2016 e eu preciso lembrar que em 2013 foram gestados alguns incômodos que ainda não fomos capazes de entender e que resultaram em parte no golpe de 2016. As contradições nos constituem e precisamos conversar com/sobre elas. E decidir que projeto de país queremos, se é que queremos um país. Eu quero, com as contradições e com as possibilidades de conversar com sobre elas. E é importante lembrar: o nosso país não está sozinho nessa, o planeta está precisando fazer DR.

 

DA – Há um quê de memória afetiva permeando “assim na terra como no selfie”. Na sua visão, qual o papel que os afetos têm diante de um mundo que parece não se importar muito com a singularidade das experiências de vida?

ALEX SIMÕES – Sim, tem muito de memória afetiva nesse livro. E mesmo em alguns poemas em que lanço mão de recursos da escrita não-criativa, buscando povoar a lírica com polifonia, com outras vozes que não a minha, tem afeto e tem memória envolvidos. Por exemplo, no poema ready-made “sessão de poesia para a tropa”, em que transcrevo uma parte do depoimento à Comissão da Verdade por Gilberto Natalini, que foi barbaramente torturado pelo Comandante Ustra na ditadura militar,  eu trago a memória de um outro permeada de dores para um poema porque é o meu modo de agir no mundo, de demonstrar empatia e me posicionar sobre o horror. T.S. Eliot, no ensaio “A função social da poesia”, defende que o poeta tem um compromisso radical com a língua,  porque a poesia trata de nossa capacidade de sentir numa língua, que é  mais do que expressar sentimentos numa língua. Se temos afeto, afeição, se afetamos e nos sentimos afetados por coisas e pessoas, é porque temos um repertório que nos foi ofertado pela poesia. E claro que quando me refiro à poesia, estou tratando da mãe das artes. As artes nos ensinam a sentir. Quanto mais limitado for o nosso repertório artístico, menos capazes somos de nos sentir afetados e de sentir numa língua. E não pense alguém que não me conhece e esteja lendo esta entrevista que falo de um repertório canônico, da alta cultura, para os eleitos. A amplitude de repertório artístico passa pelo popular e pelo erudito, pelas linguagens artísticas e por tudo aquilo que estiver fora da minha bolha. Um país que dá as costas para a sua riqueza cultural, o faz porque esse gesto acompanha um desdém para tudo o que promove essa riqueza, que é a pluralidade. O papel dos afetos diante desse mundo insensibilizado me remete ao Padre Julio Lancelotti pegando uma marreta e quebrando as pedras que colocaram embaixo do viaduto para impedir que as pessoas em situação de rua pudessem se deitar.  Ele, que não é um artista, mas um sacerdote, performou um gesto de quem se sente afetado e afeta na ação. Uma parte do país que não percebe a importância e a urgência desse gesto não tem repertório artístico que lhe permita  acessar essa grandeza. Este país precisa ouvir mais Rap, mais pontos de candomblé e umbanda, precisa voltar a escutar os provérbios (lembro aqui do conceito de literatura-terreiro, de Henrique Freitas), ler mais autoras negras e LGBTQIAP+, frequentar mais museus como quem anda nas ruas e aprender a olhar as ruas como quem visita um museu, transitar pelas diferenças, tendo as artes como bússola.

 

DA – Numa resenha publicada aqui na Diversos Afins, Sandro Ornellas vislumbra seu livro também como um labirinto de hesitações. No seu engenho com as palavras, lhe soa atraente a ideia de um se deixar ir, mergulhar fundo, estar perdido, voltar ou até mesmo desdizer o ontem?

ALEX SIMÕES – O autor do fabuloso “dói-me este mundo de violentas esperanças” é um grande poeta e conhecedor de poesia e, para a minha sorte, conhecedor também das coisas que eu escrevo-faço. Sandro Ornellas vem fazendo, entre muitas outras coisas lindas, um trabalho de leitura crítica de seus conterrâneos-contemporâneos, que é digno de nota. E quando ele evoca a ideia de Valery da hesitação entre som e sentido, ele aponta numa direção que cai muito bem para definir o que tenho tentado fazer.  Ter o controle para perdê-lo, cartografar por não saber ler mapas, apoiar-me em formas fixas para implodi-las, ter como estilo a falta de estilo, “ser superficial, no fundo”. Eu cada vez menos sei escrever poemas e fazer livros. E vou fazendo, porque “é mais difícil do que não fazer”. Por um lado, tem a síndrome de impostor envolvida porque, de fato, tem muita poesia incrível já feita e que está se fazendo e eu leio sempre muito menos do que deveria e estou sempre me perguntando se vale mesmo a pena escrever e gastar papel e tinta para publicar o que escrevo. Por outro lado, tem uma alegria em abandonar o desejo de abandonar o barco e seguir navegando à deriva, sem remos. Tem um gosto pelo fazer sem saber aonde vai dar, que com muita frequência não dá em nada mesmo, mas que de vez em quando vira poema, livro, performance, poema-objeto, derivas. No poema “a mulher de Lot é um artista”, falo um pouco de um dos meus fascínios, que é observar a relação do músico com o seu instrumento, uma relação concreta entre o corpo e um objeto, que se amalgamam a ponto de nos parecer sem esforço, intuitivo. Eu não sei se consigo, mas tento me relacionar com a vida, com a arte-vida, assim. Assim como? Do que mesmo eu estava falando?

 

Alex Simões / Foto: Edgard Oliva

 

DA – Autores escrevem para os outros ou para si mesmos?

ALEX SIMÕES – Não saberia dizer para quem as autoras e os autores escrevem. Mas desconfio que os textos que são escritos por elas e eles e ilus se comunicam entre si e não se bastam porque demandam que outras pessoas os leiam para que existam, para que façam sentido. João Cabral vai aparecer de novo nessa conversa porque ele escreveu para o leitor Ninguém, com quem me identifico. As autoras e os autores que me interessam  costumam escrever com muitos outros e consigo mesmos. Por exemplo, Luciany Aparecida e Itamar Vieira Júnior, cada um(a) a seu modo, trazem muitos outros e outras em seus textos sem se perder.

 

DA – Sobretudo nos últimos anos, com o avanço do digital, mais e mais autores se lançaram ao desafio de expor seus textos. Ao lado disso, vimos também o surgimento de editoras independentes por todos os cantos do país, oportunizando vozes das mais diversas. Está todo mundo certo no desejo voraz de ser publicado ou, na sua visão, a maturação das obras é algo que anda se dissolvendo no meio da pressa contemporânea?

ALEX SIMÕES – A Internet sem dúvida promoveu o “escribicionismo”, sobretudo com o advento dos blogs, que um pouco antes das redes sociais deram voz e vez a pessoas que queriam expor seus textos para o mundo. Bastava ter computador e ideias para compartilhar em forma de textos. Claro está que vivemos no Brasil e que o acesso às tecnologias digitais e mesmo às tecnologias da escrita ainda são muito restritas. Dentro dessa bolha que vivemos, os blogs e as redes sociais possibilitaram novas formas de divulgar e distribuir seus textos, o que por si é incrível. Eu confesso que ainda hoje tenho um certo deslumbramento diante da web, no que ela significa em termos de acesso às e compartilhamento das informações. Milton Santos já havia apontado, por exemplo, sobre o impacto que as lan houses provocaram nas comunidades periféricas. A internet mudou nosso modo de olhar o mundo e por consequência nosso modo de olhar e ler os livros. Esse boom de editoras independentes está relacionado com este tempo. Neste país que historicamente sempre teve uma faixa muito restrita da população com amplo acesso ao livro e à leitura, as possibilidades que a internet e as editoras independentes oferecem são motivos de celebração por si só. As pessoas estão mais expostas a situações de letramento e mais expostas aos livros, que não podem mais ser entendidos apenas em sua configuração física. Mas esse acesso à internet também impactou o modo como nos relacionamos com os livros. A  experiência da leitura, do contato com os autores e com o objeto-livro tem sido mais que nunca valorizada, especialmente no contexto da pandemia. Ninguém fala mais em morte do livro físico e isso se deve em boa parte ao trabalho incrível promovido por editoras independentes em todo o Brasil, que não só através de redes sociais e sites, como também em feiras e eventos de publicação. Temos círculos de leituras e redes de leitores em diversas ações que valorizam escritoras, literatura negra e periférica, literatura lgbtqiap+, há uma revalorização da literatura de cordel ao mesmo tempo que há uma intensa produção de poesia/literatura contemporânea. E temos também uma rede de bibliotecas comunitárias que vêm fazendo uma revolução silenciosa no processo de formação de leitores. Eu prefiro olhar pra essas cenas que despontam e que parecem estar mais vinculadas a esforços coletivos e de formação do que pensar na maturação necessária das obras. O tempo urge e mais que nunca precisamos pensar em formar leitores desde a tenra infância, preparando-os para ler livros e telas, aprendendo a filtrar informações para desenvolver senso crítico. Aliás, essa deveria ser a tônica de políticas públicas para o livro e o leitor, mas no momento não temos governo federal. O que as editoras e os círculos de formação e todas as iniciativas de promoção do livro e da leitura vêm fazendo é muito e precisa ser valorizado.

 

DA – Salvador lhe deu régua e compasso? 

ALEX SIMÕES – A Cidade da Bahia me deu régua e compasso, sim. Não por acaso meu novo livro se chama “minha terra tem ladeiras” (Caramurê, no prelo), que é uma referência explícita a essa cidade. Nesse livro e no penúltimo (no meu corpo o canto: #experimentoscomletrasurbanas) a cidade de Salvador é mais que tema, é moldura dos poemas discursivos e visuais. Para o bem e para o mal, meu modo de ser está sempre georreferenciado nessa origem. É a cidade que me pôs no mundo, que me ensinou um modo de circular pelas ruas, de relacionar com as pessoas e que passa muito pelas artes. A minha criança cresceu ouvindo os tropicalistas e foi apresentado aos modernistas, aos pós-modernistas, a uma miríade de poetas com Caetano, Gil, Bethânia e Gal, que se escutava muito na minha casa. Quando li Gregório de Matos na escola, eu já sabia “Triste Bahia” de cor. Ter nascido e criado em um bairro de periferia, de configuração urbana, foi definitivo também para entender desde muito cedo que eu precisava me mover naquele folclore que tentavam me vender como Bahia terra da alegria. É um habitat de contradições que odeio amar e amo odiar. Dá muita raiva de viver numa cidade racista, classista, misógina, mas eu olho a Baía de Todos os Santos e passa. A imagem que projeto de Salvador quando estou fora e tenho saudades diz muito dessa contradição: é vista da Bahia com a Ilha de Itaparica ao fundo. Quando nado na baía, me sinto em casa.

 

DA – Apesar das coisas que lhe afetam e incomodam, Alex Simões olha para a vida hoje com mais serenidade e esperança?

ALEX SIMÕES – Há uma paciência revolucionária que estou aprendendo a cultivar. Tenho tido mais consciência do que não sei, do que não posso e principalmente do que não quero fazer. A paciência revolucionária já traz em si a esperança, que nunca deixei de ter. Acho que o que tem mudado é que estou mais paciente comigo mesmo e mais atento para ler os nãos, os silêncios, os desvios de rota, as rupturas, as derivas. E eu adoro derivas, o que também traz embutida uma esperança. As muitas coisas horríveis que acontecem neste país e neste mundo não são novas. Talvez a novidade esteja no modo como alguns de nós as estamos vendo e como estamos nos vendo em relação a essas coisas.

 

DA – Afinal, por que escrever?

ALEX SIMÕES – Esta resposta está no poema “O artista inconfessável”, de João Cabral. Todos os dias me faço esta pergunta e escrevo, mesmo quando não escrevo, porque nos dias “não” me pergunto por que não estou escrevendo e me sinto mais desconfortável do que quando leio com algum desconforto o que escrevo e penso que poderia ser muito melhor daquilo que pude escrever. Porque tem um ritmo, uma imagem, uma ideia que eu persigo e que eventualmente consigo dar uma forma, uma possibilidade de existência, e porque sou atravessado por ritmos, imagens e ideias que muitas outras e outres e outros criaram e criam e me provocam a seguir atravessado e atravessando. Porque ainda não sei escrever e, por isso, escrevo.

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual.

 

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145ª Leva - 05/2021 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O ofício poético é esse debruçar sobre a vida que acontece, constatação dos instantes, explosão de sentidos e mistérios. É dado ao poeta pensar sobre seu tempo, sua realidade, seus desvarios. É dado ao poeta, também, esculpir em palavras o espanto e o estranhamento que perpassam o ato de existir. Quem escreve sabe que o tempo impõe desafios, modulando cargas que se equilibram ou não na dinâmica das emoções, ora fugidias ora permanentes.

Por mais que especulemos sobre as razões do engenho com os versos, empreendendo toda sorte de análises particulares sobre uma determinada obra, nada substitui o diálogo direto com o autor. Nesse gesto de escuta, talvez o melhor resultado seja aquele que opera dentro da lógica da provocação. E o que seria isso? É um deixar que o escritor transite livre pelas suas ideias, mas não sem antes ser estimulado a movimentar territórios inquietantes em matéria de pensamento.

Aquele que entrevistamos por agora na revista não tem o perfil de fugir às provocações e parece estar bem à vontade quando um eixo filosófico se desenha no horizonte das falas. Trata-se do poeta capixaba Jorge Elias Neto, a quem poderíamos definir como uma espécie de artífice da palavra. E dizer isso do autor é ir além da ideia de que nele está o cálculo arquitetado para fazer eclodir a forma em seus versos. Um olhar para sua obra nos permite dizer que seus poemas emanam epifanias abundantes da vida.

Jorge é, de fato, um poeta de inquietações. Quando um tema o assola, é capaz de mergulhar fundo em toda sorte de leituras adicionais que o façam movimentar compreensões mais robustas. Está atento aos sinais da existência e, tanto em suas falas aqui presentes quanto em seus poemas, notamos um caminho de busca: sentir a experiência humana como um protagonista face aos cenários. Dessa maneira, ele é um alguém que não se furta em saborear os enfrentamentos da vida, refletindo sobre nossa condição de seres que interferem a todo tempo no transcurso da história.

Dono de uma trajetória que contempla a escritura de livros como “Verdes Versos” (Flor&Cultura, 2007), “Rascunhos do absurdo” (Flor&Cultura, 2010), “Glacial” (Patuá, 2014), “Sonetos em crise” (Mondrongo, 2020), dentre outros, Jorge Elias Neto atravessa agora nossos sentidos com o seu pungente e provocador “Manual para estilhaçar vidraças”, recentemente lançado pela Editora Cousa. Seu novo rebento poético é verdadeiro roteiro para cutucar uma coleção de sobressaltos da contemporaneidade com vara curta. Ou, como o próprio poeta nos diz, “uma alternativa de salvação”. De todo o dito, a entrevista serviu, sobretudo, para também mostrar um autor que presentifica o seu lugar no mundo.

 

Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

 

DA – “Manual para estilhaçar vidraças” é uma verdadeira reunião de modos de existir. Sob o manto da provocação, a obra desfila cenários distintos da experiência humana. O que dizer de tais caminhos?

JORGE ELIAS NETO – Fabrício, esta nova oportunidade de ser entrevistado por você, para publicação nesta que foi a primeira revista eletrônica que divulgou minha obra e uma entrevista, isso no ano de 2009, quando eu me encontrava finalizando o meu segundo livro, ”Rascunhos do absurdo”, me despertou a necessidade de reler a nossa conversa da época. Foram poucas as entrevistas que dei nestes quase 20 anos de produção poética e a releitura que ora acabo de fazer me causou algumas surpresas. A primeira foi descobrir o momento no qual iniciei a abordar um tema específico para escrever poemas e, como no caso do “Manual para estilhaçar vidraças”, um livro. Naquela época, após a finalização do livro, ocorreram os eventos em Gaza e o poeta, e atualmente editor da Mondrongo, Gustavo Felicíssimo, me propôs um desafio: escrever uma trilogia sobre o tema. Foi algo que fiz com muito prazer e se transformou no embrião para algo que se mostra recorrente em minha obra. Depois veio o convite do saudoso Pipol, editor do Portal Eletrônico Cronópios, que resolveu convidar 50 poetas brasileiros para escrever um poema para um livro em homenagem ao Éder Jofre. Sentei, estudei o tema e, de impulso, escrevi 43 poemas. Enviei para o Pipol, que me propôs incluir como um caderno especial dentro do livro. Infelizmente ele faleceu. Mas Eduardo Lacerda, editor da Patuá, resolveu publicá-lo com o título de “Breve dicionário (poético) do boxe”. Depois vieram “Glacial”, “Cabotagem” e agora o “Manual”… Trago para o “Manual para estilhaçar vidraças” questões rotineiras, irrelevantes, executadas, muitas das vezes, de forma mecânica por todos nós. Já alguns poemas lidam com conflitos existenciais, abordam as questões que norteiam e creio permanecerão ao longo dos meus escritos. Boa parte dos poemas foram escritos em um curto espaço de tempo; escrevi 11 poemas em uma noite.  Alguns temas foram enumerados antes da escrita. Outros partiram de imagens que me ocorreram ao longo das horas que fiquei imerso na busca da estruturação dos poemas. Quando escrevo tenho como primeiro objetivo o leitor que sou. Desta forma, o intrincado das imagens, um certo grau de hermetismo involuntário  (e que, creio, afasta muitos leitores de minha escrita) e a proposta de trabalhar muito com as ideias acabam prevalecendo. Como “tenho uma ideia” do local que cada palavra ocupa em meu inconsciente, sinto-me confortável quando revisito os poemas. Já o leitor, e isto aprendemos com o tempo, tem suas leituras particulares e muitas vezes, com convicção (e isso já é sabido de todos), nos sinaliza interpretação imensamente distantes do que busquei no poema. E é isso, no “Manual”, ora falando sério, ora com ironia, proponho uma reflexão sobre o cotidiano, tento usar da palavra para dizer da irrelevância dos nossos atos, da insignificância relativa de nossa vida e, como nos diz o poeta e psicanalista Ítalo Campos no posfácio do livro:   Para ler bem o Manual Para Estilhaçar Vidraças é preciso fazê-lo sem pressa e com cuidado. Em muitos casos ele apenas “prega uma peça”. Ele é ora um espanto, ora um acalanto, mas em ambos os casos seu propósito último é o de estilhaçar sentidos. O leitor se surpreende ora com o inusitado, ora com o humor, deixando-se flagrar pela trapaça que o poeta faz com o senso comum, embora nada esteja desarticulado. O poema é minha forma de rebeldia contra o cotidiano. Este livro é uma proposta alternativa que somente o olhar poético para a vida é capaz de nos dar, uma alternativa de salvação.

 

DA – Rebelar-se contra o cotidiano através do engenho poético é desacomodar certezas?

JORGE ELIAS NETO – Aqui se impõe discutir duas questões fundamentais: o papel da arte em minha vida e algo muito mais prático neste momento histórico, a relação entre certeza e dúvida. Costumo dizer que cumpro com os pés o que é devido e cubro com sonhos o desmedido. Penso que todo percurso é uma ilusão necessária, e a arte é meu ato, sim, de rebeldia; a arte é o cosseno, o obsceno e outras peripécias. A minha experiência como médico ao longo dos últimos 30 anos me fez ver e ouvir muito e construir uma certa paz no remendar das imagens e das palavras. Eu vou apreendendo as palavras e guardando-as no silêncio. E chega o dia que o poema se faz dos fiapos destas recordações, ajeitadas aqui e ali com algum enchimento, com algum artifício adquirido, ou mesmo com algum vício repetido. Talvez  este “Manual para estilhaçar vidraças” seja a tradução deste meu “ato de rebeldia”, como você bem diz. Por isso digo que primeiramente escrevo para mim. Sei que serei um dos poucos, talvez o único, que terá o interesse em folhear o manual no futuro. Nada como uma cartilha para iluminar e evitar que nos desgarremos ainda mais neste cotidiano de ilusões multimidiáticas. Passando já para o segundo ponto, acho que você foi muito feliz quando utilizou a expressão “desacomodar certezas”. Quando jovem, sempre me senti inferior aos demais por não ter certeza de nada. Hoje digo que a dúvida é o alicerce de minhas convicções. Penso ser necessário resgatar o valor da dúvida… Mas isso valeria se a dúvida não fosse algo anacrônico para a sociedade atual. Existe uma suposta razão, uma “verdade” que encobre as dúvidas dos homens. Vivemos um tempo de desperdícios e de bandeiras. No meu caso, aprendi que a ciência é um divino manancial de  verdades fluidas e dúvidas eternas. Também aprendi que a certeza é estática e a dúvida é dinâmica. Fico então com a dúvida. E como “desacomodo a certeza”? Convivendo com a ideia que, do útero à morte, seguimos renascendo. Afinal, o principal conflito humano é mediado pelo nada. A morte é parteira dos desesperados e desespero dos inocentes. E a paz é um corte na carne da convicção, o osso aparente na trincheira criada pela força da humildade. Tento, com os meus poemas, como no caso do “Manual”, lembrar ao homem que ele é um deus que se perde na encruzilhada da ausência. Daí o poema que dá nome ao livro dizer da sombra e da escuridão. Proponho ao leitor o confronto com a sombra, pois ela é a experiência diária da morte, o ato introdutório do homem no esquecimento. A sombra sinaliza ao homem o poder da luz que não nos deixa esquecer que estar de pé é uma circunstância, uma transitoriedade. A sombra é a seta que o céu projeta sobre a soberba da consciência bípede.

 

DA – Ao que parece, temos alguma dificuldade em nos compreendermos como sendo simultaneamente luz e sombra. Seguimos engendrando verdades e inventando versões para narrar nosso imperfeito trajeto no mundo. Na sua visão, quem é esse sujeito contemporâneo? 

JORGE ELIAS NETO – Há alguns anos li um livro que me intrigou muito, “A negação da morte”, parecia que eu conseguia estabelecer uma ligação tão procurada com minhas leituras da obra de Nietzsche, Camus e Emil Cioran.  Nele, o antropólogo Ernest Becker me apresentava a obra de um dos grandes discípulos de Freud, Otto Rank. Busquei os livros de Rank e encontrei uma interessante descrição do papel da sombra na história da humanidade. E a sombra passou a ser tão importante que me ocorreu escrever um livro que denominei “XXI – Diálogo das sombras”, ainda inédito. Nele trato especificamente do sujeito contemporâneo e este diálogo com a sua sombra, esse duplo Rankiano. E para estabelecer uma ligação entre sua pergunta e minha opinião deixo aqui um aforismo poético que escrevi: Não identifiquei entre os destroços nenhuma sombra de dúvidas. No meu entendimento, mantendo sempre como lastro a dúvida, tem sido fundamental a leitura das obras produzidas a partir da segunda metade do século XVIII e, principalmente, a obra do século XIX. E não posso deixar de sinalizar a minha admiração pessoal pelos autores russos. Ler Gogol, Turguêniev, Tolstoi e Dostoiévski tem sido fundamental para entender a transição para o século XX e fazer uma ligação com a produção da obra de Marx, Engels, Feuerbach, com a efervescência de Darwin, as proposições de Freud e por aí em diante. Foi a partir daí que busquei entender toda a frustação quando ficou claro que, por detrás de todas as propostas de uma sociedade mais justa, existia o homem, e que os “leões” insanos rugem mais forte… Adoro reticências… Elas dizem do inacabado das dúvidas… Nesse momento, muitos, como Octávio Paz, indagaram se adiantavam essas pedras empilhadas apoiando precipícios? De que vale a rosca e o parafuso no vazio? Entenderam perfeitamente que o ódio não é fonte, é desperdício. Era o momento do homem medir os seus fantasmas pela hora do dia que admirava a sua própria sombra. E esta sombra tornou-se imensa. Só que a visita das sombras tem um pio ingrato, é a cor branca da culpa nos delatando por nossas atrocidades, nossa vaidade, nossa hipocrisia. É difícil aceitar que existe um lado obscuro na fronteira imposta pelos que buscam o paraíso terrestre. Mas, no meu entendimento, na volta devemos percorrer o caminho da sombra. Mas a mentira seguiu sendo um tônico revigorante… Um assunto tão denso tomaria muito tempo do leitor, por isto prefiro deixar aqui um poema inédito que talvez sintetize meu olhar sobre este “sujeito contemporâneo” e sua sombra. Afinal, o poema é o um esforço de silêncio de meus olhos cansados.

 

Retorno ao rascunho do mundo

Eis o inerte,
o sucumbido,
aquele antes do instante
em que se dissipou a paz.

Desperta homem,
vê a grandeza do seu nome
e o Não, imposto ao seu destino.

A página leve não tem a tessitura do seu caminho
e o que lhe resta é o estampido
ou um pilar qualquer que te convide ao abismo.

 

Madeixas das sombras

O Eu apagado, descrente,
o crucifixo do outro
e toda nudez
do medo.

Meu martírio:
esta fogueira que não vesti.

Se restam fagulhas,
são versos roubados,
pés trocados
de outros passos
no silêncio das cinzas.

 

Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

 

DA – No atual estado de hiperconexão em que estamos mergulhados, talvez tenhamos perdido a capacidade de nos recolhermos em nós mesmos, de sermos silêncio para  fruição das coisas e sentimentos. Em que medida tamanha absorção com consequente efeito de dispersão interfere, por exemplo, na prática literária de leitores e escritores? 

JORGE ELIAS NETO – Nos últimos anos tenho escrito alguns pequenos ensaios abordando, dentre outros temas, este “tempo sem tempo” que permeia a realidade das relações interpessoais e consigo mesmo do homem contemporâneo. Sempre digo de minha condição de alternância entre um pessimismo e um realismo entusiasmado (uma migração que faço entre um olhar mais cético de Cioran e do brasilianíssimo Suassuna). Isto me levou ao “Ornitorrinco do pau oco”, nome do meu livro publicado pela editora Cousa em 2018. Tomo a liberdade de incluir aqui alguns esclarecimentos sobre esse ser inusitado:

 

Há que se entender ou não o ornitorrinco do pau oco?

É chegado o tempo em que o silêncio e a contemplação passaram a fazer parte do comportamento de um transgressor. É o que conclama a balbúrdia multimidiática de nossos dias.

………………………..Na verdade, nada mais efêmero que o conceito numérico dos dias: um ou dois dígitos não preenchem o vazio do homem pós-moderno.

………………………..E os “vencedores” propõem: Falemos do caos binário, já que se tornou “feio” falar do Sol e da Lua.

……………………….O choque. O homem e o tempo, com seus instantes vendidos em módulos. Uma overdose de estímulos de duração efêmera. Eis a droga que carece ser discutida, esta que alimenta o corpo fluido e seus receptores cerebrais carentes de imagens.

 

Ou seja, se faz necessário estender o conceito de silêncio para a visão. E isso serve para os leitores e, infelizmente,  também para muitos escritores. O homem se esqueceu que o silêncio é o ponto de partida e de chegada. É o nosso “buraco negro” individual. E imerso neste caos se incluem também escritores e leitores. Tenho a sensação de uma “bolha” literária. Algo como grupos de whatsapp, de Facebook, onde se posta e se aguarda, com urgência, o reconhecimento de nossa obra. Uma busca constante de feedback positivo. Mas conviver com os homens é a forma mais popular de isolar-se de si mesmo. Somos indivíduos comuns ambicionando a glória do instante. Mas este tempo desperdiçado hoje, essa busca da glória diária, é o tempero da fome de amanhã. É uma “verdade” requentada dia após dia. Perdemos muitas vezes o senso crítico, maximizamos nossos desejos e potencializamos nossas frustações. Entretanto, o Mundo é regido de tal forma que ficou fácil estender as coisas no sem tamanho da ambição humana. O mutilado se satisfaz com uma miragem da perfeição. Vejo uma linha do tempo que já teme o rastilho do fogo, um presente como uma presença perdida no instante, um sufocamento da poesia. Mas a palavra tem seu tempo e as horas sorriem durante o sono dos homens. Acredito que o nada resplandece no silêncio e que há de se buscar a paz em algum ponto impreciso entre a contemplação e a convicção da conquista. À paz da inércia sou mais o atropelo do silêncio. E o que pode fazer um ornitorrinco nestas circunstâncias? Trabalhar, silencioso, o naufrágio do homem.

 

DA – Seria apocalíptico demais dizer que, em escala global, estamos experimentando um processo de desumanização?

JORGE ELIAS NETO – Não tenho pretensão de conseguir com palavras dizer de minha visão apocalíptica para o futuro da humanidade. Por mais que eu insista, os dias são mais irônicos que as palavras. Mas agradeço que assim seja e que eu perceba a limitação de que elas, as palavras, reproduzam a realidade humana. Trabalho com tecnologia, realizo procedimentos em minha profissão que utilizam recursos altamente sedutores, com imagens impressionantes e, principalmente, com alto grau de resolutividade e de segurança. Ora, então eu deveria ser um porta-voz incondicional dos avanços científicos. Outro ponto, não tenho religião. Então eu deveria ser um herdeiro natural da visão positivista e materialista. Devia acreditar, em termos sociais, na morte de Deus. Mas a necessidade me fez ambidestro. Hoje mantenho o hábito de usar ambas as mãos para escrevinhar minhas dúvidas. E, como disse acima, elas me levaram a buscar entender esta transição fundamental do século XIX para o século XX. E antes de falar minha impressão sobre o mundo atual, gostaria apenas de dizer o nome de um poeta que me ajudou a ver toda angústia contida na dicotomia inserida naquele momento histórico: Augusto dos Anjos. Não. O punhal tem duas faces: a que brota e a que geme. Não vou recorrer às minhas anotações, às minhas leituras, vou recorrer ao meu descontentamento. Como ambientalista e como defensor dos preceitos da responsabilidade propagados por Hannah Arendt e Vaclav Havel, só consigo ver com muita tristeza o futuro, não só do homem, mas, principalmente, para o Planeta. Onde começa o fio? No novelo ou na farsa dos dias? A farsa cuidadosamente lapidada pelos ditos “engenheiros do caos” já se desgarrou do novelo da história e estes veem crescer, exponencialmente, o seu poder, e já ocupam o lugar vago deixado por Deus e pelo Estado. Muitos já escreveram sobre a terceira revolução industrial. Outros, neste momento de pandemia, sinalizam para a quarta revolução. Informação, imagem, consumo, efêmero, que palavras dúbias. É por isto que penso que um retorno ao triplo transcendental (o bem, o belo e a verdade), uma retomada da religiosidade, seria uma possibilidade, uma alternativa mais realista, mais acessível aos homens, em geral, de evitar um futuro distópico para a humanidade. Da mesma forma não creio que o pós-humanismo ou mesmo o neo-animismo sejam uma visão aglutinadora. Não acredito que o “big-data” seja uma panaceia para a humanidade. Fosse o pó o essencial da escultura, a matéria valeria mais que a arte e o vazio seria a verdade celebrada por todos. Mas essa visão míope aliciou uma parte significativa da humanidade. É preciso entender que dentro do absurdo existe um reino de perdas.

 

DA – No que se refere a pensar o escritor como leitor de seus próprios poemas, haveria uma espécie de margem para, numa mirada autocrítica, mudar aquilo que já foi publicado? A atitude revisionista não causaria certa instabilidade à obra do autor?

JORGE ELIAS NETO – Sabe, Fabrício, a palavra tem seu tempo, tem seu espaço na vida das pessoas. E no poema, quando ela se instala de forma definitiva em um livro, seja com perfeição ou meio impositiva, empurrando para os lados as demais, o poeta deve respeitar esta disposição como definitiva. Publicado o livro, passo a ser leitor. E mesmo, como acontece muitas vezes, ao me deparar com uma palavra ou mesmo versos que me pareçam imperfeitos e desagradem, raramente os altero. Pois já é outro o poeta, já é “outra” a palavra. Se a ordem, os versos, não se alteram, prevalece o impulso criativo do momento da criação do poema; ou o de sua lapidação. Em suma, eu me sentiria desonesto alterando um poema. Posso roubar um verso antigo, ou usá-lo como epígrafe, isto faço sem pudor, mas respeito as palavras. Alterar o poema seria, no meu entendimento, uma tentativa artificial de torná-lo atemporal. Talvez tudo seja uma busca de estetização da vida  ̶   retorno aqui ao que disse acima sobre a urgência de resultado  ̶ , um superdimensionamento de nossa obra, o que traduziria o quão brilhante e singulares somos enquanto indivíduos. Mas o meu sentimento é que o poder da flor está no voo da pétala. É neste desgarrar da beleza que se atinge a amplidão do infinito, é um distanciamento que tento alcançar. É esse voo, que independe de nós, que dará alguma relevância a nossa obra. As pedras marroadas sempre guardam um espaço para os nossos pés. Segue abaixo um poema que trata da relação obra e autor. Coloca, em verso, como tento entender esta questão.

 

A obra

Do artista
……………– a obra,
o todo
…………..– da obra.

Mesmo que um segundo
apenas, seja o tempo
para a derrocada do homem,
cabe o feito
…………..definitivo,
traduzindo o gesto, o
desfecho do combate.

Não se apegue
ao herói erguido aos céus
na glória do instante,
reafirmo:
………….– veja a obra.

A arte,
as mãos,
também se expressam
fechadas, sufocando
o ar no exíguo espaço
da tensão dos dedos.

O artista do palco,
do ringue,
persiste na imagem
que desaba
e se rasga.

Atenha-se ao diálogo
……….– com a obra.

 

Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Há limites para o autobiográfico no horizonte da poesia?

JORGE ELIAS NETO – É na prosa que o autobiográfico habitualmente se apresenta. O poema é território do “eu lírico”, um rebelde, fingidor, um subversor da sintaxe (como sempre diz o linguista e amigo José Augusto Carvalho). Mas toda grafia tem um recorte da alma de quem escreve e não me cabe julgar os poetas que se mantenham na primeira pessoa em seus poemas. Afinal, cada ilhéu traz uma concha guardada a sussurrar saudades. De início, para discutir essa questão como leitor de poesia, deixo de lado aqueles poetas que se confundem com a sua obra. Autor e obra não coexistem em equilíbrio de perfeição, quando o autor não se apercebe disso, geralmente a obra perde. Brinco com meus amigos que a biografia mais fiel deveria ser escrita pelo psicanalista… Agora, quando o poeta consegue dizer do “eu universal”, equilibrando entre os versos todos os recursos de linguagens que tem a sua disposição, é possível resgatar no seu passado memórias que permitam um diálogo com o leitor. Os grandes poetas podem tudo em seu “eu lírico” – esse “ser de papel”. O que podemos dizer no “Eu” de Augusto dos Anjos, e na obra imensa de Fernando Pessoa e seus heterônimos. Drummond e Minas Gerais, Adélia Prado e a religiosidade, Ferreira Gullar e o seu retorno ao mercadinho no Maranhão… Como nos diz o Antônio Miranda citando Lejeune:

 

Pode haver uma coexistência da biografia do autor na medida em que o poeta faz do “eu” da poesia lírica o “eu” da autobiografia. Por outro lado, ainda diz Lejeune, a poesia torna-se uma escritura segunda, isto é, aquela na qual o escritor reconverteu, ao voltá-la para si mesmo, a escritura que ele havia anteriormente elaborado para “dizer o mundo”. Não haveria, por isso, a possibilidade de a experiência poética ser contraditória com o projeto de uma “narrativa” autobiográfica.

 

Quando falo de minha produção poética, este diálogo com o passado está mais presente nos meus dois primeiros livros: “Verdes versos” e “Rascunhos do absurdo”. Em “Glacial”, o “eu” que se apresenta é uma caminhante que atravessa os Andes em uma busca pelo sentido da existência. Já em “Cabotagem” resgato a cidade de Vitória de minha infância e adolescência. Mas se eu tivesse de escolher um poema no qual vejo um equilíbrio entre a palavra, o passado e o Universal, é o poema “Cristo de pão”. Um evento ocorrido na mais tenra infância que ficou guardado e serviu como uma metáfora de minha, da nossa, relação com Deus.

 

Cristo de pão

Herdei de meu pai
esse Cristo forjado em miolo de pão.

Esse crucifixo que, pacientemente,
foi moldado no almoço de domingo;
em seus dedos, amassado,
em seus lábios umedecido.

Um Deus criado
pelo provedor de minha casa
durante o eterno silêncio
comigo repartido.

E eu aprendi que da bolinha de massa
se forja um ídolo.

Ao final da refeição, meu pai me estendeu
o Cristo na cruz.

Eu o peguei
e ele se partiu.

Foi duro para mim
ver Deus quebrar-se em minhas mãos.

 

DA – A Literatura é um perfeito território de ilusões?

JORGE ELIAS NETO – Guimarães Rosa escreveu que “… livro, a ser certo, devia de se confeiçoar da parte de Deus, depor paz para todos, virtude de enganar com um clareado a fantasia da gente, empuxar a coragens”. Sempre senti na arte a possibilidade de um legado sem tragédia; o mais próximo que posso chegar, talvez com menor risco, do legado humano e do porvir. Uma perspectiva de alguma sanidade. A grande literatura é uma das grandes fontes possíveis de ilusão. E com as suas coirmãs: música e artes plásticas são a maior possibilidade de nos levar próximos à perfeição da Natureza. Sabemos que, em graus variáveis, o disfarce da órbita é desviar-se do óbvio. E que “a arte existe pois a vida não basta”.  Afinal, em que pernas poderíamos apoiar esta existência no sem sentido? Como disse em um ensaio que escrevi sobre Augusto dos Anjos, “(…) hoje, faço parte dos poetas que procura este olhar insubornável, perdido na ausência. Procuro a nobreza desse olhar entardecido de uma ilusão”.

 

O que se arrepende é o avesso do nome

A morte é zelosa em sua força,
e aprecia a fragilidade no arremate do erro,
no estampido do verbo,
no testemunho do assombro,
no lento embuste dos passos catados.

Digital falsa
no contorno das letras
que se desprendem nas entrelinhas.

O flerte do verso com o abismo,
o encantamento da bruma sobre os lençóis,

……………………o suborno do medo.

 

DA – Afinal, por que escrever?

JORGE ELIAS NETO – Eu poderia usar da escrita como um lamento, parodiando o grande poeta, dizendo do drama existencialista pós-moderno, mostrando assim uma das facetas do por que escrever:

 

De que vale a vida se a tela é pequena, e de que vale o Mundo se não para viajar e registrar em um Smartphone a minha felicidade fluida e postar no Instagram, no Facebook e nos meus grupos de zap…

 

O exercício crítico da vida é uma das minhas justificativas para escrever. Poderia dizer que, por vezes, escrever é um ato de desespero, um vício que assombra. Na verdade, ao longo de minha vida, a escrita paira, e sua razão de existir se apresenta de várias formas. E confesso que tenho um ghost-writer, o hemisfério cerebral direito com suas pinguelas sobre a maré alta vazante… Escrever é um refugiar-se na síntese contornando a sintaxe, é uma terapia, é um jogo de videogame com possibilidades infinitas. A eternidade é uma metáfora que já não me ilude. Mas como me disse certa vez um psicanalista e amigo “há de se relativizar a morte, de tangenciá-la”. E embora saiba que a esperança é uma simples questão de instinto de sobrevivência, todo artista persiste vasculhando sua particular caixa de pandora. Em 2013, ingressei na Academia Espírito-santense de Letras. Naquela oportunidade, em meu discurso de posse, tentei trazer o porquê da escrita e a questão da imortalidade para o centro de minha fala. Tomo a liberdade de reproduzir aqui alguns trechos.

 

……….Digam-me, com a experiência humana no século XX, quanto nos afastamos deste deslumbramento com a capacidade humana de criar, descobrir – desse potencial do homem para atingir os céus com seu gênio, tornando-se o centro do Universo. Um deus a servir-se do inesgotável entornado em seus pés?

……….É certo que muito ocorreu ‒ perdemos a inocência ‒ , mas nada foi capaz de alterar a condição primeira da existência consciente: o desejo de transcendência da alma.

………E como reagir quando Albert Camus nos lança na face que “A razão não explica tudo, mas não existe nada além da razão”. Isto atordoa. E resplandece perante os nossos olhos – a Morte. O que faz a consciência com sua extrema maleabilidade, sua capacidade de se moldar perante o abismo? O que faz, como se justifica o indivíduo, em especial aquele mais cético e realista, aquele que se intitula um homem do absurdo, com sua existência lançada no rosto?

……. E o poeta responde a Albert Camus:

Parte-se do esquecimento.
Caminha-se para o esquecimento.
Disso dou testemunho.

Tamanha consciência da morte vindoura
nomeia encantamentos
em cada trecho de aurora.

E, se, em algum momento,
falta ao punho o sustento,
recolho-me ao verso que apoia.

Eis a dura lida que ao poeta condena.
Mas apesar do tormento da finitude certa,
tem no poema – pulsão de vida – rumo ao esquecimento.

 

É possível, trabalhar e sonhar. É possível a convivência do cientista com o poeta. Afinal, a quanto dista o zelo do cientista do abuso apaixonado do poeta com a palavra? Pois a poesia começa assim:

 

Emprenhar-se de miudezas;
deixando as mãos rendidas aos gestos costumeiros.

E quando a luz se aperceber, desmembrada
pelo estalo da palavra,
jogar-se nos trilhos
para salvar a flor.

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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144ª Leva - 04/2021 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Elis Matos

 

Artistas como Tereza Sá nos fazem compreender que algumas almas expandem a vida imaginativa em várias nuances, porque desde muito cedo foram expostas ao máximo de realidade possível. Entendendo os atravessamentos dos que vieram antes, bem como a importância das referências que lhe foram apresentadas durante a infância, ela se declara resultado da força de gerações anteriores, em sua família. Mulher negra, professora, poeta e atriz, filha do professor e poeta Eléus Leonardo de Sá e de Tereza Soares de Sá, mãe de Èbano Bencos e de Luan Bencos, a entrevistada da Pequena sabatina ao artista é ilheense, Graduada em Letras/Espanhol e Pedagogia (UESC), Especialista em Leitura e Produção Textual e Educação e Relações Étnico-raciais (UESC), Mestranda em Ensino e Relações Étnico-raciais (UFSB). Atualmente, Tereza Sá faz parte da Cia Trapizonga de Teatro e do Coletivo Afro em Cena (UFSB), que trabalha na perspectiva do teatro negro, tendo o corpo negro também como protagonista da cena. Além disso, ela integra a Coletânea Literária e Fotográfica de mulheres: Profundanças 3. Seja com expressões faciais fortes, em performances marcantes; ou versos intrigantes, em poemas bastante atuais, Tereza Sá mostra que há mais para se ver e interpretar em suas expressões artísticas. Com uma carreira que inclui o concurso de poesia da Revista Brasília, que lhe rendeu o prêmio da categoria “destaque” e a publicação coletiva no livro Valores Literários do Brasil, Volume XV(1992), a artista conta à Diversos Afins sobre sua trajetória artística, suas experiência de vida e como tem pensado a arte no atual cenário pandêmico, no Brasil.

 

Tereza Sá / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Mulher negra, ilheense, professora, poeta e atriz. Co-autora do Projeto “Mulher Negra: a força que se explica”, na Escola Municipal Themístocles Andrade, no Teotônio Vilela, em Ilhéus. Tereza Sá, a sua biografia em constantes transformações e atravessamentos, em alguma medida, se explica pela sua árvore genealógica? Quais influências, dos que a antecederam, você consegue identificar em seus percursos individuais e coletivos? Mais, quais as divergências e desconstruções?

TEREZA SÁ – Sim. Eu posso afirmar que a constituição do que eu sou é inteiramente atravessada pela força dos que me antecederam. Sempre me vi fortalecida pela referência individual e também coletiva de pessoas que muito contribuíram e contribuem para a formação da mulher que me constitui. Como criança negra, conheci desde muito cedo os percalços que o racismo nos coloca. Foram justamente essas referências que me encorajaram no processo de enfrentamento ao racismo, sexismo e tantos dilemas que envolvem o ser mulher negra. Sinto-me uma mulher múltipla, intensa, cheia de sonhos e projetos. Minha influência primeira acontece dentro de casa. Meu pai, intelectual negro, professor de Esperanto, sempre nos possibilitou contato com a cultura e a arte. Fomos expostos ainda crianças a ambientes onde o poético e o estético se estabeleciam, mesmo diante das dificuldades que a vida nos impunha. Cresci ouvindo meu pai tocando bandolim, recitando poesias, escrevendo artigos em jornais e participando de coletâneas poéticas. Minha mãe sempre precisa em cobrar, de nós, leituras.  Era certo que em algum momento eu enveredaria pelos caminhos das artes para além do lugar de expectadora. Essas referências iniciais foram decisivas para as minhas projeções, a curto e longo prazo, e com o passar do tempo foram somadas a novas experiências, novos contatos com pessoas, em sua maioria mulheres negras, que influenciaram e me encorajaram a seguir na composição das coisas que acredito. Certamente seria muito mais difícil para eu caminhar e crescer sem os diálogos que se estabeleceram, o exemplo e principalmente os ensinamentos dessas pessoas para que eu persistisse nos sonhos e na coragem de ser feliz. As divergências encontradas se deram mais precisamente no campo da raça e do gênero. Ainda que não fosse dito com palavras, desde a infância já esbarrava na imposição de um lugar para a mulher negra na sociedade e, por mais que meu ambiente familiar me desse suporte de superação, eu me vi por diversas vezes afetada por impedimentos do sistema de opressão e violência que me colocaram em condição de silenciamento e inércia, em diversas situações. A escrita literária foi uma delas. Por muito tempo me tranquei para o ato da escrita acreditando não ser esse meu lugar. Mas a minha trajetória é de lutas e a força da ancestralidade sempre me colocou no trilho da história, renovando as águas da minha existência. Tenho caminhado e seguido os passos de nossos antepassados que resistiram para que pudéssemos (re)existir e ocupar todos os espaços que nos foram negados. Os desafios são muitos e as redes de apoio estabelecidas entre as mulheres negras vêm fortalecendo nossa consciência ancestral, nos fazendo revisitar memórias, que nos encorajam a um constante movimento em busca de estabelecer nossas trajetórias enquanto mulheres negras.

 

DA – “Sinto-me uma mulher múltipla”, esta é uma afirmação sua sobre a composição contínua de sua identidade, no mundo. Outro dado importante de sua biografia é o fato de ter sido criada em ambientes onde o poético e o estético se comunicavam. Como é possível, em retrospecto, identificar os contornos estéticos construídos na e a partir de seus escritos? Quais as referências visuais e literárias ganham sentido e materialidade nas suas construções artísticas?

TEREZA SÁ – A palavra realmente se fez a força motriz no que me constituí. Minha memória remota aos sons impactantes, seja vinda dos provérbios proferidos por minha mãe, seja através das músicas que meus irmãos ouviam na “radiola”. Eu gostava de ouvir os discos de vinil lendo os encartes que acompanhavam as músicas. Lembro de um disco de Raimundo Fagner intitulado Eu canto (quem viver chorará) e, dentre todas que gostava, uma me chamava atenção e dizia: “Eu canto porque o instante existe/e a minha vida está completa. / Não sou alegre nem sou triste:/sou poeta.” Eu deveria ter uns dez anos. Essa canção me consumia os instantes. Não sei se por conta da letra ou da interpretação do cantor. Só mais tarde tomei conhecimento de Cecília Meireles como poeta. E assim eu cresci consumida pela palavra cantada e reconhecendo também essa força na escrita. A minha consciência da escrita veio muito sutilmente e não era nada compulsório. Aconteceu ainda na infância, justamente nessa época em que era afetada por canções e bordões de minha mãe. Já na fase adulta eu compreendi que o que eu escrevia era poesia, mas uma poesia que não se atrelava a uma estética especifica. Meu pai, que era trovador, ao perceber que eu escrevia, passou a me orientar sobre a métrica da trova. Arrisquei os versos rimados dentro da métrica, mas confesso que sempre tive dificuldade com aquele processo matemático e, ao tentar encaixar pensamento/sentimento na métrica, sempre fracassava. Isso foi um dos fatores também que me travaram no processo do escrever, pois papai me dizia que a forma com que eu escrevia era coisa da modernidade e deixava transparecer que não era muito “elegante”. Mais adiante, aprendi sobre versos livres, poesia concreta, entre outras coisas da “modernidade” que me permitiram mais liberdade. E eu continuei a escrever da forma que os poemas me vinham e registrava. Apenas isso. Registrava, guardava e muitas vezes os revisitava, da mesma forma que revisitava os poemas de Cecilia Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira… Note que a literatura que eu consumia era majoritariamente masculina. Posso garantir que muito do que escrevi inicialmente (e muitas vezes atualmente) foi afetada por essa literatura. Atualmente reconheço a riqueza da escrita de mulheres, principalmente das escritoras negras e fico triste com o tempo em que essa literatura esteve tão distante do alcance de minhas mãos. Hoje sou afetada pela escrita de Mirian Alves, Esmeralda Ribeiro, Conceição Evaristo, entre tantas que os Cadernos Negros me apresentaram.

O teatro me chegou paulatinamente e sei que seu prenúncio se deu na infância quando ainda na pré-escola eu decorava os versos para o dia das mães e outros eventos. Sentia prazer naquilo, mas não sabia que me acompanharia para a vida toda. Foi no Ensino Fundamental, nas atividades para as Feiras de Ciências que eu compreendi o quanto o palco me tornava imensa e que queria muito aquilo. Busquei cursos de teatro na cidade, que só fortaleceram a certeza de que representar era algo fundamental pra mim. Tive poucas experiências com teatro clássico.  As oportunidades me levaram às técnicas de Boal e ao teatro de rua. Poder atuar ao lado de Jorge Batista, Mônica Franco, Telma Sá, Rita Santana, Val Kakau, Tereza Damásio, Justino Viana, Ester Santana e João Marcelino, no Grupo Caras e Máscaras nos finais dos anos 80 em Ilhéus, foi algo imenso e revelou em mim a atriz. Nosso repertório textual era referendado pela música popular e a literatura brasileira, fortes dispositivos para nossa atuação enquanto teatro de/na rua, de direção coletiva. Os artistas da região foram grandes influenciadores na arte em que me propus navegar. Os grupos Macuco, de Buerarema, Arte em cena, de Itabuna, e os atores e atrizes, como Carlos Betão, Ramon Vane, Marcos Cristiano, Alba Cristina, Eva Lima, são figuras que introjetaram o gosto e a possibilidade de fazer teatro no Sul da Bahia e são as referências mais marcantes, pois reverberam até hoje em minhas construções artísticas.

 

DA – Interessante pensar que sua biografia transita por várias artes, como uma espécie de tessitura que desenha um conjunto muito singular. No fazer teatral, temos uma infinidade de formas de atuação e composição de cena, a performance é uma delas. O teatro de rua, digo a performance realizada na rua – encontra sempre o contingente, o inesperado, tal qual a vida. Como você descreveria a relação entre este espetáculo de rua, seu percurso de vida e a troca com o público espectador? Esta relação sempre foi a mesma sempre? Quais as variantes?

TEREZA SÁ – O teatro de rua foi um grande divisor de águas para mim e acredito que para todos os integrantes do Grupo Caras e Máscaras, pois vivíamos em um processo decisivo no que se refere à entrega de sermos atores/atrizes, mas nos deparávamos com a dificuldade de não termos diretor e, por estarmos frequentemente ausentes do palco, já não éramos convidades a atuar em espetáculos. Acreditamos por muito tempo que para um grupo existir de fato deveria contar com a presença de um diretor para desempenhar única e exclusivamente essa função. Só quando passamos a entender que o teatro poderia acontecer em espaço não convencional e que poderíamos dinamizá-lo em uma direção coletiva, foi que realizamos nosso sonho de atuar. Isso foi engrandecedor. Fizemos da rua nosso palco e essa relação se estabeleceu por muitos anos, movimentando a cidade e nossas vidas. Esse teatro foi para mim uma escola e o aprendizado se estende até hoje. Aprendi a reinventar-me sempre. No teatro de rua eu aprendi a perseguir sonhos, criar meu próprio jogo de cena, superar obstáculos. Sinto a vida como um verdadeiro espetáculo, no qual estamos constantemente performando as diversas versões de nós. Eu, por exemplo, tenho a sala de aula, o teatro, a poesia, entre tantos papéis sociais a desempenhar. A vida tem me surpreendido ultimamente com situações de desafios. Tenho vencido esses desafios como quem entra em cena naquele teatro de rua de outrora, na certeza de que nem todos que cruzam meus caminhos são meros transeuntes. Muitos aparecem justamente para formar a rede de apoio, idêntico como acontecia naquela época com o Caras e Máscaras, que sempre contava com uma plateia que colaborava com silêncios, risos, gargalhadas e até lágrimas. Ela aparecia em determinada praça ou rua porque sabia que nossa trupe estaria lá.  Erámos impelidos/as por esse encorajamento e sempre foi fortalecedor contar com o apoio de tanta gente boa naquela época em que fazer teatro sempre foi muito desafiador pra nós. Com isso eu acabei aprendendo a ser múltipla e a desempenhar papeis distintos que exigiriam de mim muita dedicação num mesmo tempo/espaço. Como no teatro, aprendi a ser intensa em todos eles. Lembro-me de um fato em minhas experiências teatrais em que eu, ainda em resguardo do parto do meu primeiro filho, já estava em cena ensaiando a peça “O fiscal e a Fateira”, sob a direção de Équio Reis. Em determinados momentos, parava para amamentar e retomava os ensaios. Isso porque eu nunca consegui fragmentar em mim a mãe, poeta, atriz e professora. Esses papeis sociais são a minha motricidade e um fortalece o outro. Tenho buscado intensidade em tudo o que me proponho e agora com uma certa dose de suavidade. A sala de aula sempre foi para mim espaço de reconstrução e de poéticas. As trocas que comumente estabeleço ali estão para além da grade curricular e, por conta disso, a professora exigiu mais permanência em cena. Aliás, a sala de aula consumiu a poeta e a atriz (na ordem apontada) desproporcionalmente. Sempre foi difícil viver de arte em nossa cidade. Sair em busca de novas possibilidades quando já se tem dois filhos era algo bem longe de minhas expectativas. Agarrei a carreira docente, mas de certa forma fui vivendo “tudo ao mesmo tempo agora”, como canta a banda Titãs. Assim, eu vivi intensamente a gravidez/maternidade imbricada na aprovação do vestibular e também na atuação como professora da educação Básica; a segunda graduação conectada ao Mestrado, este, por sua vez, integrado à participação no Coletivo de teatro negro Afro (en) Cena e paralelo à Cia Trapizonga de Teatro. Sem contar essas últimas atuações, concomitante com a participação como poeta no livro virtual Profundanças 3. Ufa! Parece que falta folego, né? Às vezes, falta. Mas “me recomponho/ feito rabo de lagartixa”, como afirma a cantora e compositora ilheense Eloah Monteiro. Minha trajetória é assim: pulsa num emaranhado de variantes que reforçam meu existir. São minhas escolhas e não deu para escolher uma em detrimento de outra. E assim, sigo intensa, sendo acolhida e fortalecia por uma rede de mulheres negras que me revigoram e seguram em minha mão o tempo todo para que eu tenha certeza de que a vida continua e o espetáculo não pode parar. Como diz Arlindo Cruz: “o show tem que continuar”.

 

Tereza Sá / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Quando você diz que nunca conseguiu fragmentar em sua identidade a mãe, a poeta, a atriz e a professora, sinto que há uma integridade na expressão, que é corroborada pelos relatos que se seguem na sua narrativa. Você poderia falar um pouco dos atravessamentos que o ser “mulher” na contemporaneidade impõe? Partindo de suas experiências, desde o seu lócus social, conte um pouco para a Diversos Afins sobre estas intersecções que atravessam sua existência.

TEREZA SÁ – Historicamente, a condição do feminino sempre foi marcada sem o mínimo de dignidade humana, excluída de todo e qualquer processo político, sociocultural, em ambiente violento, predominantemente racista e machista. O espaço que lhe fora reservado foi o da marginalidade, amarga herança da dominação colonial que espoliou a condição dos colonizados de se colocarem como sujeitos e autores de pensamento e de conhecimento.  Mas as mulheres vêm assumindo uma postura de ruptura frente a essa imposição histórica que por tanto tempo nos colocou em condições de subalternidade. Estamos assumindo postura de enfretamento às desigualdades, reinventando nosso lugar histórico e criando a cada dia condições para garantir participação ativa em todas as esferas da sociedade. Isso tem exigido de nós muito enfrentamento no combate às desigualdades e resistência para garantir conquistas e validação de nossas escolhas. Mas não nos intimidamos, ao contrário, temos marcado fortemente nossas presenças em movimentos de diferentes lutas pelo fim de opressões e conquistas de direitos. Sabemos que toda a conjuntura de nossa sociedade se estruturou com base no patriarcado e consequentemente sustentou-se em ideologias heteronormativas, sexistas, racistas, profundamente segregacionistas. Mesmo com tantas lutas já conquistadas pelas mulheres, muitas desigualdades ainda precisam ser superadas, dentre elas a mais urgente é justamente a desigualdade racial. As mazelas da escravidão ainda nos atingem em cheio e a presença negra no movimento de mulheres é de grande importância, pois exige amplitudes nas lutas, traz para evidência a necessidade de combate às mais variadas formas de opressão, além de impulsionar a mobilização de uma sociedade mais equânime. Ser mulher negra nesse contexto demarca situação muito mais desafiadora, pois exige a defesa de território do ser mulher e negra, condições extremamente marginalizadas socialmente. Eu, como mulher negra, o tempo inteiro vivi os atravessamentos dessas marginalizações. Desde a infância até os dias atuais. E, como toda preta, aprendi desde muito cedo que nossa luta é muito mais complexa, fazendo com que estejamos em militância o tempo todo, em constante alerta para diariamente nos defendermos contra todo tipo de discriminação e assédio. Tenho me comprometido com lutas antirracistas em sala de aula e através do teatro. A minha poesia também se apresenta como uma forma de combate e tenho feito uso dela como dispositivo para contribuir nas reflexões das questões de gênero/raça, somando minha voz a de muitas mulheres em um grande movimento que marca a inserção de nossas presenças em espaços tidos no passado como inacessíveis para nós.

 

DA – Por falar em poesia, no poema Profundeza, você encerra da seguinte maneira: “Já não possuo superfície/Sou toda profundeza”. O fazer poético envolve inspiração, mas também técnica e processos variados. Conte-nos um pouco sobre seus processos criativos, suas inspirações semânticas e, caso queira, fale um pouco sobre este poema em específico.

TEREZA SÁ – Eu sempre percebi o fazer poético como um movimento antecipado de imagens, cores, sons, desvelo criativo, entre tantas subjetividades que podem ser tecidas por quem escreve. Antes de se consubstanciar-se em poema, a poesia já é movimento na essência do/a poeta e a sua corporificação é o resultado da cumplicidade entre o sentir e a decisão de externar. O processo de escrita é um poço profundo e secreto que nutre todos os atravessamentos e inquietações que povoam o existir. Já mencionei que não sigo uma linha técnica específica no processo de escrita, mas certamente quando a poesia em mim se apresenta, traz em sua configuração uma roupagem entrelaçada com linguagem literária e a carga emocional. De certa forma, percebo que embora não haja, até então, uma escolha consciente com determinada técnica literária, essa escrita é bastante influenciada pelas autoras e autores que leio. Por ter contato constante com vários textos poéticos, na condição de leitora e também de professora, sou afetada intimamente pelas diversas estéticas literárias dos/as autores/as que devoro. Isso certamente influencia em minhas subjetividades. Escrever é também aprendizado. Tenho aprendido muito nessa construção de aceitar-me como poeta. Sinto que a técnica vai se apresentando, mas não quero que ela represente limitação para minhas enunciações criativas. Quero seguir no registro de minhas inspirações, me comprometendo mais e mais na cumplicidade com o estético, me permitir ser atravessada pela palavra sem tantas cobranças. Escrevo por prazer, por impulso, mas noto também que em muitos discursos narrativos certas estruturas textuais aos poucos acabam se manifestando, sendo utilizadas porque cabem melhor em determinados poemas que em outros. Isso tem se apresentado naturalmente com a presença de metáforas, metonímias, sonoridade, sinestesia, que dão fluxo aos versos que arrisco. Ultimamente, tenho me dedicado mais a apropriação da palavra escrita, como registro de sentimentos, me permitido brincar mais com essas palavras num jogo de escolhas e adequação das mesmas na disposição do processo criativo que tem insistido em se apresentar.   Em Profundeza eu trago o caráter intimista de encorajamento e desprendimento da poética. Um poema em primeira pessoa, que traz um traço bem característico de minha escrita: muitas vezes uso a palavra com brevidade, como na capoeira regional, que ataca e defende em golpes precisos, que crescem, dilatam-se, destrincham-se, até se concluírem como um só fôlego, ou um trago.

 

DA – (…) Há lugares que se instalam e me adentram como ostra na pedra fi(n)cam mesmo quando não estou. Há lugares que em mim habitam e me povoam do que já sou. Em Pertença, você se refere à influência que a localização geográfica tem na (des)construção da identidade do seu eu poético. Como este processo de identificação se deu em sua biografia?

TEREZA SÁ – Na verdade, tudo é muito um processo de construção. Como falei, não dá para fragmentar a multiplicidade do que sou. O mesmo ocorre com o processo de escrita. Tenho feito muitas andanças e elas têm me conectado a dimensões cartográficas que têm interferido de forma ativa em minha construção identitária e consequentemente em meu processo criativo. Elas me fortalecem à medida que revelam pessoas e lugares que traçam os paralelos e meridianos que me constituem. Trazem-me os campos históricos da minha essência de mulher afrodescendente. É um rico processo de (re)afirmação que se completa com o sentimento de pertença que adentra as narrativas justamente porque me atravessa. Sinto que vivo um momento abundante, de águas cujos rios confluem e se completam. A força ancestral que determinados lugares e determinadas pessoas me transmitem, me conduz ao engajamento com essas forças que são/estão em mim, fortalecendo a memória coletiva que muitas vezes é ressignificada em minha inteireza.

 

Tereza Sá / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Tenho feito muitas andanças e elas têm me conectado a dimensões cartográficas, isso antes da pandemia ou mesmo neste momento? Sabemos que o artista, o criador tem as experiências do cotidiano como respiros para a vida, de maneira geral, e memória criativa de forma específica para as artes. Como têm sido lidar com este momento tão delicado? Há alguma criação poética deste período, em seu repertório? E mais: criticamente, como você visualiza as dificuldades oriundas do momento pandêmico para a classe artística? 

TEREZA SÁ – Infelizmente, esse tempo pandêmico fez uma ruptura nessas andanças. As rotas foram interditadas, mas boa parte das trocas permaneceu e até se fortaleceu. Realmente é um momento de extrema delicadeza e não tínhamos proporção do quanto ele remexeria nossas vidas. Eu fui extremamente afetada por essa situação. Passei momentos difíceis, inclusive precisei de ajuda profissional para superar. É triste perceber que o momento de crise, incertezas e instabilidades em vários setores do país estão atrelados a falta de ação efetiva e seriedade política no enfretamento à Covid-19 por parte de nosso governante, em esfera federal. A classe artística foi bastante prejudicada, pois foi atingida em cheio por conta do isolamento social. As casas de espetáculos e os espaços ligados à cultura foram os primeiros a serem interditados, possivelmente serão os últimos a retomarem. Muitos trabalhos foram interrompidos, projetos adiados. Tem uma frase que é atribuída a Che Guevara, mas não sei se realmente é dele, que diz: “hay que endurecerse pero sin perder la ternura”. De certa forma, isso nos descreve, nessa catástrofe. Nós não perdemos a capacidade de sonhar. Fomos verdadeiramente golpeados pela pandemia e toda sua conjuntura nos deixou um tanto endurecidos/as diante de tanto caos. Mas percebi também que em certo momento foram acontecendo determinadas atitudes isoladas e, aos poucos, como onda, foi-se ampliando e contagiando o coletivo. A classe começou a se mobilizar para fazer atuar como dava. Todo mundo se virando, usando a internet a seu favor. Isso nos trouxe novas e desafiadoras possibilidades de fazer arte. Não retomamos o fôlego ainda, pois o processo se estende e não temos a real dimensão de como/quando tudo vai se resolver, mas os artistas se reinventaram nesse cenário, o que foi muito bom. Aprendemos muito com tudo isso, principalmente a não desistir. Sabemos que o auxílio emergencial contribuiu em alguns aspectos, mas faltam políticas públicas mais eficazes nesse setor. Eu sempre afirmo que produzo no caos. Sempre tive dificuldade em afirmar-me como poeta, principalmente por não ter uma disciplina rígida com a escrita. Não sou das que organiza tempo/ambiente. Geralmente, sou arrebatada pela poesia e me flagro criando em momentos inusitados de bastante ebulição de atividades. A pandemia me pegou em um momento de conclusão de escrita de mestrado, o que gerou em mim ansiedade descontrolada. Ainda assim produzi alguns poemas. Um deles, inclusive, foi postado como vídeo-poema na página do Profundanças: Influxo. Além disso, junto com um grupo de visionários, fomos contemplados com Edital emergencial do Calendário das Artes, que resultou no trabalho Corpos Negros Insurgentes. E mais, produzi outros vídeo-poemas para @amataode e Teatro Popular de Ilhéus, em 2020. Sigo viva sonhando com novos momentos de encontros, abraços e aplausos.

 

DA – Pensando neste momento delicado que requer de nós fortaleza e lucidez, mas também capacidade de olhar além de si, em direção ao outro, como você concebe o valor das palavras humanidade e futuro, na sua criação artística e, de forma mais ampla, no sentimento do mundo?  A arte pode ser motriz de mudanças necessárias neste e em outros cenários? Se sim, de que forma?

TEREZA SÁ – A arte tem nos dado respostas, “régua e compasso”, não apenas para esse momento, mas em todas as circunstâncias de crise tem oportunizado condições de superação tanto para quem produz, quanto para quem consome. Nessa situação atual, ela vem, sim, como motriz da vida e do sonho. Dessa forma, edifica e liberta a alma do artista e de quem aprecia e a valoriza. O momento delicado, como disse, fez com que a arte se reinventasse para se fazer chegar ao público, já que a aglomeração de afetos, talentos e aplausos está restrita. Mas o poder criativo não está. A humanidade experimentou o medo, a angústia e de fato a morte. Mas a arte vem como alternativa de vida, fazendo aflorar não apenas sensibilidade do artista, aumentando seu poder criador, mas ascende o sentido da esperança. Esperança no futuro para o público em geral. A arte afeta de forma demasiada. Leva a refletir, entretém, eleva… O amanhã se viu ameaçado, mas o presente se viu validado e isso é bom. A arte é motriz de mudanças quando ela mesma muda sua configuração para chegar ao público sem perder a forma e a estética, quando aborda temas atualizados aumentando perspectivas e dando vazão às neuroses que aumentaram muito nesses tempos. A arte alerta que o que se externa pela privação é uma essência que pode ser melhorada. A arte sinaliza que o belo pode florir e libertar mentes e corações. Não está fácil para ninguém, mas o artista consegue renascer das cinzas. Aliás, Mateus Aleluia nos afirma que “o amor há de renascer das cinzas”. Eu acredito nisso.

 

Elis Matos é doutoranda em Linguagens e Representações, mestra em Linguagens e Representações (2019), especialista em Gestão Cultural (2017), bacharela em Comunicação Social (2013), licenciada em Filosofia (2009), pela UESC. Com pesquisa voltada à guerrilha literária empreendida pela escrita de mulheres em obras produzidas colaborativamente, a partir da perspectiva da Análise de Discurso materialista. Pesquisadora, professora, produtora, feminista, antifascista, acredita na construção coletiva de um mundo justo e livre.

 

 

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143ª Leva - 03/2021 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Rogério Coutinho

 

Não é de hoje que estudiosos e autores de ficção discorrem sobre o impacto da tecnologia sobre nossa sociedade, seu uso para o bem ou para o mal. Seremos capazes de evoluir a ponto de erradicar guerras, miséria e mortes desnecessárias ou a tecnologia nos escravizará, difundirá ainda mais a estupidez e potencializará nossos instintos de autodestruição? O estado de coisas atual não nos dá muitos motivos para otimismo. Imerso em questionamentos como esse, o autor Rodolfo Guimarães Neves lança suas preocupações sobre nosso futuro e nossa democracia, sem se esquecer de onde veio e das peculiaridades do cotidiano do presente.

Conheço Rodolfo desde que éramos adolescentes, nos anos noventa, quando ambos morávamos no Espírito Santo. Desde aquela época, já era perceptível sua tendência para a erudição, sua sensibilidade e seu amor por Pernambuco, sua terra natal, e pelo Brasil. Através dele, foi a primeira vez que ouvi falar de Chico Science, de quem não tardei a ouvir e me tornar um fã, assim como de todo o movimento Mangue Beat. Lembro de nossas conversas sobre história e sociedade na biblioteca da escola na hora do intervalo, quando a maior parte da turma se entupia de refrigerante e salgadinho ou jogava futebol.

Cada um seguiu o seu caminho e, para Rodolfo, veio o curso de Direito, os empregos na Universidade Federal e no Tribunal de Justiça. Mas havia um autor dormente, um observador de costumes e um poeta que gradualmente emergiu, além de uma história épica que pedia para ser contada, se insinuando através da leitura das páginas de Asimov, das sessões de filmes que expandiam a imaginação sobre o futuro e de uma formação humanista e, sobretudo, curiosa sobre o mundo e suas instâncias.

Alguns de seus contos apareceram em antologias divididas com outros autores: “Conto Brasil” (volume 1, 2018 e volume 2, 2019), ambos pela Editora Trevo; “Veraneio”, da Editora Jogo de Palavras (2019); “Paraty”, da Editora Gaya (2019) e “23 Formas de Morrer”, da Editora Amélie (2020). Sua poesia já foi publicada em “Poesia Agora – Edição Inverno 2018”, da Editora Trevo e em “Concurso Nacional Novos Poetas 2018 – Antologia Poética”, da Editora Vivara.

Seus maiores voos literários, agora solo, aconteceram recentemente. Em 2020, a coletânea “Eles, Outros Contos e Poemas” e o romance “A Dinâmica Orgânica”, incursão na ficção científica, foram publicados pela Editora IGP, do Recife. Enquanto os contos e poemas mostram uma visão mais pessoal e cotidiana, mas sempre oferecendo uma sensação desconcertante ao leitor, é nas páginas do romance que a imaginação de Rodolfo alcança um nível poucas vezes visto. Por trás da sua ficção científica, com direito a viagens no tempo e o protagonismo de Pernambuco, quase um personagem por si só, há uma preocupação sincera com os rumos da democracia e com o uso da tecnologia contra o interesse público. “Eu me orgulho muito do livro. Foi uma conquista na minha vida, uma das coisas mais alegres, uma realização”, festeja Rodolfo, e com motivos para tanto.

Já em 2021, mais duas publicações: a adaptação para quadrinhos de “A Dinâmica Orgânica”, feita em parceria com o quadrinista Pedro Ponzo, um dos grandes nomes da cena pernambucana atual dos quadrinhos, e a peça teatral “Ressentimento”, na qual as experiências de Rodolfo no mundo do serviço público serviram de grande inspiração.

Para minha grande satisfação, Rodolfo aceitou conversar com Diversos Afins sobre sua obra. Sentindo-se com um alto nível de satisfação pessoal e autorrealização, ele manifesta seu grande agradecimento “à minha atual namorada, a Maria Luciene, que me dá todo o apoio para escrever mais coisas”. Uma longa conversa que passa não apenas pela literatura, mas também pela filosofia, administração pública, cinema e política.

 

Rodolfo Guimarães Neves / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Sua obra transita entre o texto em prosa e a poesia. Há alguma hierarquia entre essas formas de escrita no seu processo de criação literária? Você se considera um poeta que também escreve em prosa ou um ficcionista que eventualmente usa o verso?

RODOLFO G. NEVES – Eu me considero, antes de tudo, um escritor iniciante. Fiz alguns cursos, três deles ministrado por Rodrigo Gurgel, um escritor do Rio de Janeiro, e outro de Pedro Bial, “O ato de escrever”. Eu comecei escrevendo poesia para um site chamado Luso-Poemas. Os poemas em “Eles, Outros Contos e Poemas” são mais antigos do que os contos. Já participei de alguns saraus em Olinda, mas não é habitual. Mesmo tendo começado com poesia, a prosa também me atrai muito, pela fluidez das ideias e pela necessidade de escrever. Participei de alguns concursos literários com poemas que foram selecionados para compor antologias, acabei mandando contos também, alguns dos quais estão no livro. O conto “O mal iluminado” me deu maior visibilidade, pois foi selecionado para a antologia “23 Formas de Morrer”, da Editora Amélie. Nessa questão de transitar entre prosa e poesia, fico dividido. Também escrevo peças teatrais, uma delas se chama “Ressentimento” e teve uma resposta muito positiva de membros da Academia Espírito-Santense de Letras. Outra peça, que deve sair em breve, chama-se “Resignação”. Eu transito entre a dramaturgia, a poesia e a prosa, não me considero nem melhor, nem pior em nenhum dos três. Ainda me considero alguém que está aprendendo. Mas pretendo sempre evoluir e aprimorar meu texto.

 

DA – Em seus contos do livro “Eles, Outros Contos e Poemas”, há a descrição de situações, cenários e emoções que pertencem ao cotidiano do meio urbano, narrando episódios insólitos ou até mesmo banais. Ao mesmo tempo, “A Dinâmica Orgânica” traz uma organização urbana completamente diferente, com uma proposta radical. Como é transitar por essas duas dimensões narrativas? O que há de uma na outra?

RODOLFO G. NEVES – Todo escritor tem a necessidade de contar histórias. No livro “Eles, Outros Contos e Poemas”, retrato as coisas que vejo no cotidiano. Seja um podcast, a vida de um amigo, as relações interpessoais, a vida urbana… há até um conto um tanto quanto zen-budista que destoa do restante. Tento fazer tramas, aventuras curtas, são contos muito curtos, o maior deles é “O Império de Momo”, que fala do carnaval de Olinda, o qual conheço bem, e também de questões morais. São coisas que eu vivencio e que outros vivenciaram e cada vez mais surgem ideias para escrever sobre coisas novas. Sobre “A Dinâmica Orgânica”, é algo mais escapista. Eu procuro ver um futuro mais utópico, mais justo do que a realidade que a gente vive. Enquanto em “Eles…” o mundo é como eu o enxergo, há as relações entre as pessoas, relações de poder, relações de amor, coisas banais como, por exemplo, o concurso público. A ficção científica é uma paixão pessoal. Uma das maiores alegrias era quando, aos doze anos, meu pai chegava em casa com uma fita VHS de “Jornada nas Estrelas: A Nova Geração”. Era uma alegria aquele mundo de naves e planetas. Ver a sociedade como um organismo é uma espécie de “tara” que eu tenho desde criança. Peguei um avião uma vez e vi a cidade de cima, parecia um organismo, aqueles prédios públicos e particulares. Ver o mundo de forma diferente foi algo muito estimulado pela ficção científica. E eu a vejo como um escapismo meu diante de tanta miséria e corrupção, para imaginar um mundo melhor. Até a ficção científica mais distópica, como “Mad Max” (1979), nos faz pensar no que pode se tornar a humanidade. Então, eu quis eu mesmo escrever a minha própria ficção científica, de tanta paixão que eu tenho pelo gênero.

 

DA – “A Dinâmica Orgânica” traz uma história futurista num ambiente muito brasileiro e muito pernambucano, o que não é algo tão comum na produção cultural mainstream nacional. Você acompanha a produção brasileira de ficção científica?

RODOLFO G. NEVES – Eu acompanho o blog de Alexander Meirelles da Silva, um dos maiores especialistas de fantasia, ficção científica e terror do Brasil, tenho contato com ele e com outras pessoas do meio através do Facebook. Mas não acompanho tanto assim a ficção científica nacional, procurei “Fractais Tropicais” (2018), uma coletânea de contos brasileiros de ficção científica, mas não encontrei para venda. Eu escrevi “A Dinâmica Orgânica” porque eu tinha esse impulso. E fiz de uma forma regional porque eu sou apaixonado por Pernambuco. Em uma ocasião, comentei com amigos da minha então esposa que eu estava escrevendo um livro de ficção científica. Me perguntaram: “e onde vai se passar?” “Em Recife”, respondi. A reação foi de um riso abafado. Fiquei indignado. Aí pensei comigo: “agora que essa porra vai se se passar toda em Recife, não quero saber” (risos). É bem regional, mas também bem brasileiro, tem passagens na Ilha de Marajó, menciona São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. Tem personagens da Paraíba, de Mato Grosso… Na minha concepção, o Brasil seria um baluarte do mundo livre contra as nações que decidiram seguir o processo da Dinâmica Orgânica e se tornarem um organismo vivo.

 

DA – Há citações de Philip K. Dick e de Isaac Asimov na epígrafe de “A Dinâmica Orgânica”, sendo que uma das personagens leva o sobrenome de Asimov, numa clara homenagem. Quais suas outras influências dentro da ficção científica?

RODOLFO G. NEVES – Eu consumo muita ficção científica, mas não sou um grande leitor do gênero, li “Admirável Mundo Novo” (1932), de Aldous Huxley; “Fundação” (1951) e “O Fim da Eternidade” (1955) de Asimov, “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” (1949) de George Orwell… Mas sou um ávido consumidor de cinema de ficção científica, até de filmes mais antigos dos anos 60 e 70, como “Colossus 1980” (1970) e “Solaris” (1972), de Andrei Tarkovski. Impossível não falar de “Blade Runner” (1982), “Matrix” (1999), das irmãs Lily e Lana Wachowski e “Interstellar” (2014), de Christopher Nolan, que me chamaram muito a atenção; e também da franquia “Star Trek”, inclusive os mais recentes. “THX 1138” (1971), de George Lucas, que é baseado num curta anterior do próprio diretor. A animação “Æon Flux”, cuja adaptação em filme não é muito boa, mas a série é excelente, tem uma abordagem filosófica subliminar bem interessante. Filmes surreais como “Cubo” (1997), “O Poço” (2019). Tenho uma pilha de livros aqui em casa esperando para serem lidos, mas meu tempo é ocupado por várias atividades diferentes, estudo economia e lógica da argumentação, faço parte de organizações filantrópicas, tenho que dar atenção a membros mais idosos e fragilizados de minha família. Também leio outras coisas como misticismo, rosacrucianismo, a sincronicidade de Carl Gustav Jung, que é um tema que me interessa muito, estou lendo “Jung, o Místico” (2010), de Gary Lachman, que foi membro da banda Blondie, de quem li também “A História Secreta da Política Ocidental” (2008). Tudo isso influencia você e, como disse Chico Science, “enche a imaginação de domínio”. Eu fui criando aos poucos, tinha um caderno de notas e ia anotando. Um dia, fui rever “Blade Runner” com minha ex-esposa. Depois do filme, contei para ela a premissa de “A Dinâmica Orgânica” e ela me incentivou muito a escrever e publicar. Hoje sou grato a ela, foi uma grande incentivadora. Passei quatro anos escrevendo o livro.

 

DA – A meu ver, a melhor produção de ficção científica parte de assuntos sócio-políticos-filosóficos relevantes no tempo do autor e os projeta em um contexto tecnológico e/ou futurista, propondo um desenvolvimento que pode ser utópico ou distópico.  “A Dinâmica Orgânica” parece transitar simultaneamente entre ambos. Quais as questões atuais que serviram de mote para a criação desse universo?

RODOLFO G. NEVES – Boa pergunta. A nanotecnologia, a hiperconsciência, esses conceitos científicos mais novos. A Brainet, uma internet cerebral, que é abordada pelo Miguel Nicolelis. Isso me leva ao seguinte: o fascismo tem muitas faces. Ou melhor dizendo, o totalitarismo, já que o stalinismo não é algo que me agrade. Essas tecnologias em mãos erradas podem transformar um país em um monstro, literalmente. Isso vem me preocupando. Li o livro de Yuval Noah Harari, “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade” (2014) e estou lendo do mesmo autor “21 Lições para o Século XXI” (2018)  e “Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã” (2016), que aborda os desafios atuais da humanidade com a disponibilidade de recursos tecnológicos. Quem imagina que o totalitarismo é algo afastado na história, está muito enganado, o que é reforçado pelo contexto atual, pelo que estamos passando. Não vou citar nomes, mas estamos em uma situação em que o fascismo não foi obliterado. Meu medo é a ascensão do totalitarismo com esses recursos tecnológicos, seria algo muito mais brutal do que o nazismo de Hitler. Pode se ter o controle total de uma população, de uma nação inteira através de algoritmos do Google ou do Facebook. Isso nas mãos erradas, sem controle, sem liberdade, sem o garantismo do poder judiciário… me fez pensar muito sobre o futuro. Em contrapartida, imaginei como seria um mundo melhor, com uma internet chamada de Mindnet, que tem um lado místico, de energia vital, não seria idêntica à Brainet de Nicolelis, mas que seria usada para o bem. Então tem os dois lados: um quando a tecnologia ajuda a fazer uma sociedade mais justa e outro quando é usada para a opressão. Há um conceito no livro chamado “economia por energia” que eu levo tão a sério, detalho tanto como funciona, que passei a estudar economia com um certo sonho de explicar isso para a linguagem econômica, propor uma economia sem dinheiro.

 

Rodolfo Guimarães Neves / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Você já adiantou esse próximo tema um pouco, mas eu pergunto: com a recente escalada neo-autoritária em várias partes do mundo e a “algoritmização” do indivíduo do século XXI, com manipulação de dados e disseminação de informações falsas para fins comerciais e políticos, você acredita que a sociedade atual caminha para algo similar ao “organicismo” descrito em “A Dinâmica Orgânica”?

RODOLFO G. NEVES – O risco do ”organicismo”, da maneira em que está no livro, é real. É como numa passarela de desfiles de moda, onde são exibidas roupas extravagantes. Não quer dizer que as pessoas vão usar aquelas vestimentas, o estilista aponta as tendências, um salto maior, um chapéu com uma aba diferente. A ficção científica funciona assim, se exagera um pouco para dizer onde podemos chegar, como em “Mad Max”. Talvez nunca iremos chegar a esse cenário, mas é um futuro plausível. Se acabarem os recursos naturais, vamos nos matar uns aos outros por água, por petróleo. O que eu quis mostrar é um lado onde a tecnologia oprime e os seres humanos são aperfeiçoados geneticamente, inclusive intelectualmente, criando uma casta. Talvez o fosso entre ricos e pobres se torne totalmente intransponível, como os estamentos da Idade Média, porque os pobres não conseguiriam pagar por essas intervenções médicas. A ignorância e o obscurantismo são direcionados para as classes mais baixas. Isso, de certa forma, já foi abordado em outras obras, como no livro de H. G. Wells, “A Máquina do Tempo” (1892). É algo ainda distante, mas é uma ameaça real. “A Dinâmica Orgânica” é minha contribuição para despertar esse alerta no público. Eu quis fazer um livro regionalizado por ser apaixonado por Recife, mas também porque sonho com que o Brasil seja esse baluarte do mundo livre, eu não sonho com o Brasil de Bolsonaro, eu sonho com um Brasil livre, democrático. Eu sou um democrata e o totalitarismo, tanto com os expurgos de Stalin quanto com o nazismo de Hitler, já provou que não presta. Sou um democrata ferrenho, na verdade, um social-democrata, algo que seria um meio termo. Muita gente não gosta desse termo por causa do PSDB. Eu não sou do PSDB, sou filiado ao PDT, do espectro trabalhista, do espectro social-democrata, de Leonel Brizola. Enfim, meu medo é esse, de ser criada essa casta super evoluída e se degenerar. Como coloca a “Política” de Aristóteles, os sistemas políticos podem se degenerar. Com o uso da tecnologia, a tirania talvez se converta em um ser vivo. Por isso eu faço um trocadilho na divulgação dos quadrinhos de “A Dinâmica Orgânica”: é a história da luta contra a pior “espécie” de totalitarismo. “Espécie” aqui serve tanto como “tipo” quanto como ser vivo.

 

DA – Você falou sobre a economia por energia, me pareceu um conceito com alguma influência de princípios orientais, como o Chi, por exemplo. Você chegou a estudar algo dessas filosofias?

RODOLFO G. NEVES – Eu li “Tao Te Ching” de Lao-Tze e “O Tao da Física” (1975), de Fritjof Capra, mas li sobretudo literatura espírita. No Nordeste, há muitos nomes de origem eslava. Há uma certa profecia espírita que fala que o nordeste brasileiro iria acolher os eslavos. Peguei isso como mote e coloquei nomes eslavos para várias personagens: Asimov, Sokolov, Dmitri. E outras leituras como experiências de quase-morte, anjos, literatura rosacruz. Embora tenha lido vários livros, eu não sou um grande pesquisador, sou alguém que vive bastante da imaginação. Dentre todas essas referências, seleciono aquilo que serve à minha tese. Nos crimes de ordem energética, que estão no livro, tive muita influência do espiritismo.

 

DA – Sua formação acadêmica é em Direito e Gestão Pública. O que foi incorporado desses saberes na sua produção literária?

RODOLFO G. NEVES – Em “Eles, Outros Contos e Poemas”, há um conto bem antigo sobre concurseiros, onde acontecem coisas um pouco surreais quando a luz apaga durante uma aula noturna de revisão, um “madrugadão”. É algo que não existe, mas que poderia existir. Eu mesmo estudei muito para concurso e fui aprovado em alguns. Minha vida de servidor público influenciou o conto “Talentos Entre Escaninhos”, a partir de uma observação da estrutura de poder numa estrutura burocrática. Em “A Dinâmica Orgânica”, aproveitei minha formação em Direito para tipificar os crimes daquela sociedade do futuro. Também me inspirei na estrutura hierárquica de um órgão público, tendo um Diretor, um Supervisor, um Supervisor Assistente e o “peão” que vai fazer o trabalho. Eu trabalho em um Tribunal, então tem o Desembargador, o Juiz… uma hierarquia muito forte. Eu nem conheço nenhum Desembargador porque sou alguém da baixa burocracia, não sou nem do segundo escalão. Já fui Diretor por um ano e nove meses, no núcleo de auditoria e prestação de contas.  Fiquei doente por um período e pedi para sair. Voltei como Supervisor de licitações e contratos. Você já viu “The Corporation”? É um documentário sobre o comportamento de organizações, como empresas. Há uma comparação entre os traços de uma empresa que só visa o lucro com os de uma pessoa. E essa empresa, se fosse uma pessoa, seria um psicopata. Cita empresas que geram danos ao meio ambiente, empresas cujos produtos causam câncer. Fazem seus cálculos e decidem que é melhor gastar com indenizações do que fazer um recall do produto, por exemplo. A sociedade luta contra isso, tem a figura do garantismo do poder judiciário, que com defeitos ou não, é o último recurso que nós temos contra essas forças. O constitucionalismo, os direitos, o garantismo, todas essas coisas, não podemos abrir mão de jeito nenhum. Se não houver controle, o check-and-balance, se entregar o controle a uma casta de pessoas, não vai dar certo. Eu trabalho com controles internos na administração pública, eu sei como funciona. Isso também me inspirou. Se não houver controle, as coisas degeneram, começam a falhar, vira uma luta contra a entropia. No livro, tem uma fala dos habitantes do mundo livre: “nós já somos um organismo, mas os alemães levaram a sério demais” [Nota: na trama, a atual Alemanha é um dos países que passaram pelo processo de Dinâmica Orgânica]. São como glóbulos brancos em nosso organismo, temos instituições como o Judiciário, o Ministério Público, a Polícia, as ONGs… temos órgãos de defesa da sociedade lutando contra um impulso natural de acumulação, de destruição, um impulso predatório do capitalismo, uma força entrópica do ser humano. Infelizmente, chamam o servidor público de “parasita”. Parece que não sabem o que o mercado financeiro faz com a sociedade, muitas vezes gera riqueza sem produzir nada e fica na mão de poucos, concentra. É um parasitismo danado.

 

DA – Como se os especuladores não fossem parasitas…

RODOLFO G. NEVES – Especulador, um cara que está com dinheiro em Xangai, depois manda para Nova Iorque, trocando dinheiro, não produziu nada. Como no filme “Wall Street” (1987), em que o pai, que era dono de uma empresa pequena, fala para o filho: “Eu produzo, não vivo trabalhando com isso de mercado financeiro”. Existe um impulso natural de as pessoas quererem acumular, tem coisas muito mais complexas em jogo. Esses instintos primitivos, se não forem domados, podem acarretar em algo muito sério no futuro. Tem exemplos na história em que não se podia contestar. Eu não quero viver em uma sociedade em que não se pode falar mal do Presidente. Claro que respeitando a integridade moral. Mas eu quero ter o direito de dizer: “Meu amigo, você está equivocado. Estamos numa pandemia, se reporte decentemente, você é um Chefe de Estado, tem que prestar contas”.  Então, esses sistemas de defesas que nós temos, como auditorias, servem para frear esse impulso.

 

DA – No prefácio, você relata que a ideia central de “A Dinâmica Orgânica” nasceu de um debate com um professor de filosofia. No que a filosofia influencia a sua escrita? Quais as suas leituras nessa área?

RODOLFO G. NEVES – Nesse prefácio, eu relato que durante uma conversa com esse meu amigo professor aqui de Pernambuco, fazíamos um jogo de palavras sobre as ideias de Platão sobre o bom, o belo, o justo e o verdadeiro. Se tudo o que é bom é belo, verdadeiro e justo, o que seria uma sociedade boa? Seria uma sociedade em que uma minoria extremamente culta e inteligente domina uma casta de ignorantes e brutos? Em “A Máquina do Tempo” há o questionamento: “quem é você para questionar oitocentos mil anos de evolução?” Será que é nisso que vamos nos transformar? Em seres brutos trabalhando para seres ultra desenvolvidos? Eu quis mostrar os dois lados que a tecnologia pode nos oferecer, um bom e outro ruim. Isso é algo pouco mostrado na ficção científica, uma luta entre utopia e distopia. Dentre os autores que já li, tem Nietzsche, Schopenhauer, a Fenomenologia de Edmund Husserl, algo de Giovanni Reale.

 

DA – Quais as suas principais influências no romance, no conto e na poesia?

RODOLFO G. NEVES – No romance, Fiódor Dostoiévski, “Crime e Castigo” (1866). “O Castelo” (1926), de Franz Kafka, é fantástico. Um livro que me encantou muito foi “A Morte de Ivan Ilitch” (1886), de Liév Tolstói, até chorei com o livro. Confesso que já li livros de Dan Brown, não tenho preconceito com livros de aventura. “As Aventuras de Tom Sawyer” (1876), de Mark Twain. “O Grande Gatsby” (1925), de F. Scott Fitzgerald. “O Apanhador no Campo de Centeio” (1951), de J. D. Salinger. Machado de Assis com “Quincas Borba” (1892) e “O Alienista” (1882). Me influenciaram e me ajudaram a contar minhas histórias. Na poesia, o que eu li mais recentemente foi Hilda Hilst. Mas não tenho exatamente um poeta favorito. Estou lendo João Cabral de Melo Neto, “Morte e Vida Severina” (1955)  e Ferreira Gullar, “Poema Sujo” (1976). São meus livros de cabeceira, chego em casa morto, mas leio alguma coisa antes de dormir. Paulo Leminski, acho muito interessante, li a antologia “Toda Poesia” (2013). Augusto dos Anjos, li toda a poesia dele. Aquilo me chocou bastante, é misterioso, é sinistro, eu gosto bastante. Lembrei de “Notas do Subterrâneo” (1864), de Dostoiévski, outro livro fantástico.

 

Rodolfo Guimarães Neves/ Foto: arquivo pessoal

 

DA – Cujo protagonista, aliás, havia sido um servidor público…

RODOLFO G. NEVES – Exatamente, ele é mesquinho, todo preocupado com o que os outros pensam. Olha, minha peça “Ressentimento” é sobre coisas que vi no mundo do serviço público. Há muito ressentimento no serviço público. Tem muita gente cuja vida se resume àquela função, só faz aquilo. Você precisa se realizar em outros meios. Eu já fui um pouco ressentido também, mas isso só me deu mais vontade de sair desse ciclo. Eu vi pessoas de órgãos que eu já trabalhei muito entristecidas, deprimidas, e não se sabe por que estão deprimidas. Deveriam fazer dança de salão, escrever poesia, participar de saraus… a vida não é só aquele meio burocrático.

 

DA – É muito alienante…

RODOLFO G. NEVES – Não me refiro ao meu setor, tem um pessoal maravilhoso lá. Mas as coisas a que a gente assiste, as notícias que chegam…  uma mulher que se suicida porque não cumpriu a meta… um técnico que briga com um analista por causa de salário… Por que essas pessoas estão adoecendo no serviço público? Por que tanto ressentimento? Na minha peça eu abordo isso, esses ressentimentos e a forma de lidar com isso, de maneira um tanto ilusória.

 

DA – Você trabalhou em uma adaptação em quadrinhos de “A Dinâmica Orgânica”. Para (re)contar sua história e produzir um roteiro de HQ, quais os principais desafios em fazer essa transição entre a linguagem literária e a dos quadrinhos?

RODOLFO G. NEVES – É difícil. É um livro de trezentas páginas e chamei um dos melhores quadrinistas de Pernambuco, Pedro Ponzo. Eu acreditei tanto na história que pensei: “isso vai ser escrito e desenhado para que as pessoas entedam”. Essa transição foi difícil porque tivemos que fazer todo o roteiro da HQ, pegando as principais partes do roteiro do livro e verificando o que realmente valia a pena ser contado, concatenando os principais pontos. Muitas coisas foram cortadas, a revista acaba sendo bem mais pobre do que o livro, mas há um ganho no desenho, na arte. Eu participei desse processo de roteiro, além de escritor da história original também sou co-roteirista dos quadrinhos junto com Ponzo, que desenhou maravilhosamente bem.

 

DA – Em “Eles, Outros Contos e Poemas”, há uma epígrafe com citação de Clarice Lispector no qual ela se pergunta “para que escrevo?” Para que escreve Rodolfo Guimarães Neves?

RODOLFO G. NEVES – É uma necessidade. Uma vontade de contar uma história. Vem na sua cabeça uma história tão interessante que você pensa: “eu preciso cristalizar isso em um escrito”. Eu escrevo para me autorrealizar, fazer uma obra que impacte, que tenha potencial para transformar. Fazer, quem sabe, uma pessoa ver o mundo de uma forma diferente. Fazer as pessoas conhecerem a minha forma de ver o mundo, uma forma de comunicação. É um impulso que não consigo controlar, a vontade de contar uma história é muito grande. Pedro Bial fala que todo escritor deveria se perguntar se a história vale a pena ser contada. Todas as histórias que eu contei, eu considerei que valem a pena ser contadas, senão não teria escrito. Eu fiz o meu melhor e espero que o público goste.

 

* O romance “A Dinâmica Orgânica” e sua adaptação em HQ, a coletânea “Eles, Outros Contos e Poemas” e a peça “Ressentimento”, todos da Editora IGP, estão disponíveis na Livraria Imperatriz do Shopping Recife ou direto com o autor pelo e-mail rodolfogn@hotmail.com

 

Rogério Coutinho é oficial de comunicações de alguma nave estelar, de onde colabora eventualmente com Diversos Afins, transmite o Podcast Gramofone e emite notas sobre aleatoriedades no Twitter.

                    

                                                     

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140ª Leva - 07/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Clarissa Macedo

 

Neste ano em que a pandemia instaurou uma nova operacionalização da existência, a leitura e a escrita tornaram-se ferramentas de possível manutenção da sanidade. Publicado em março, o livro As solas dos pés de meu avô, de Tiago D. Oliveira, vem construindo um percurso de alegria para um escritor cujo zelo com a palavra é notório. Para mapear alguns trajetos, entre o Tejo, o Tororó, o Paraguaçu e outras paisagens, sondei linhas de acesso ao livro mencionado, além de projetos em movimento e futuros, a conquista do Selo João Ubaldo Ribeiro e a sensação que o isolamento social impôs à face literária do autor.

Celebradas pela posição de finalista do Oceanos, um dos marcadores do campo literário atual, As solas… possibilitam uma pausa para a territorialização dos fios invisíveis cibernéticos e um chamado à memória-ancestralidade na figura de um avô desencarnado que enseja uma profunda contemplação do mundo. A memória, essa construção imprecisa de sensações e acontecimentos, exige um afastamento da imposição do agora para a passagem de um outro instante, um instante passado. Em As solas…, além do que pude desvelar no prefácio do volume, interessa-me, neste momento, a cisão que a obra provoca ao abordar um lócus que transcende as cibermalhas, pois a elas resiste: o espaço fora dos centros. Nesse aspecto, são dois os móbiles de insurgência que me intrigam, modulados, por sua vez, através da fratura do tempo e da abertura ao exterior da tela, desencadeando uma narrativa poética que ilustra uma saga a partir dos pés, da ancestralidade e do amor.

Guy Debord afirma que a espetacularização comporta uma mediação de imagens e aparências. As redes sociais, o apego à digitalização de tudo e a própria internet contêm o fetichismo do espetacularizado que reveste, no contemporâneo, todas as zonas do humano. A urdidura do digital, como interfere na condição humana e quais as formas de vivenciar o toque na tela que nos toca são questões que se impõem. A literatura é um terreno aberto para isso, um domínio de resistência onde o digital é sangrado e desvelado. Por isso, ler Tiago D. Oliveira, hoje, em que a pandemia permanece muito por conta de notícias inverídicas a respeito do vírus que a move, parece-me necessário. Desde Distraído, passando por Contações, até o livro mais recente, a qualidade estética, as referências textuais (Tiago é um leitor voraz) e a reterritorialização conformam uma obra cuja matriz é a da beleza.

Abaixo, segue a conversa que tive com o autor. Desde já, agradeço a Tiago D. Oliveira, por ter cedido um pouco de seu tempo para nós, e ao editorial da Diversos Afins pelo crédito do espaço. Abraços e boa leitura.

 

Tiago D, Oliveira / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Em As solas dos pés de meu avô, difícil não notar a figura de um patriarca a marcar o percurso narrativo-poético. Há um movimento catártico e/ou de expurgação (independentemente se factual ou mais propriamente ficcional)?

TIAGO D. OLIVEIRA – O primeiro pensamento sobre a escrita desses poemas foi na direção de um resgate. Ele nasceu de uma necessidade, a de tentar entender o muito além dos deslocamentos dos corpos, o que fica quando não há mais a chance de um abraço. Eu, que já havia me distanciado geograficamente, pois vivia em Portugal na época, agora via a distância girar em seu próprio eixo como faz tão naturalmente a natureza. A distância não seria só material e seguiria o rio de nossas existências para outro lugar. Coloquei para fora o primeiro e segundo poema da sequência que se tornaria um livro bem depois. Inicialmente não havia uma vontade de livro. O que existia era a necessidade de colocar na mesa as minhas armas para gerir o desconhecido que me limitava, já que não podia largar o emprego em Lisboa nem tinha condições financeiras para voltar ao Brasil e beijar a testa de meu avô. Escreveria. Os poemas foram nascendo deste momento, mas só escrevi o terceiro quando já estava no Brasil, alguns poucos anos depois. Os versos foram ganhando especulações, leituras, rememorações, recriações, tatuagem que se desenhava em minha carne ao passo em que as geografias do afeto afloravam em mim paulatinamente. O sentimento de saudade em Portugal é uma experiência muito especial e única, aqui no Brasil ele se tornou mais pesado quando caminhei na terra com os pés descalços. Refletir sobre o método catártico que Freud aponta e no fim concluir que estes versos são uma voz que procura o equilíbrio saudável a partir da linguagem, uma voz que busca substituir o sentimento da impossibilidade do ato por um movimento realizado pela linguagem, pela escrita em si, foi o que entendi nesse caminho. Aqui o patriarca exerce a continuação de sua caminhada impondo à morte a vitalidade da escrita a partir de quem ficou. E já não há ficção nem realidade, tudo é transpassado continuamente pelos revérberos e arrepios que acontecem após cada leitura destes versos, destes caminhos, em cada leitor.

 

DA – Como você estava em Portugal, mais precisamente em Lisboa, a distância do Brasil, e, logo, de seu avô, funcionou como parte do processo de construção do livro. Além disso, como foi experienciar a terra de Fernando Pessoa também na condição de escritor – e brasileiro? A cisão, ao menos em parte, com a pátria, sob o signo do estrangeiro, o corte tátil com a geografia da Bahia: tudo isso impactou sua literatura de algum modo?

TIAGO D. OLIVEIRA – Andar pelas ruas de Lisboa produz um sentimento familiar, é a mesma sensação da folha em branco diante de mim. A cidade oferece uma intimidade maior com os versos que lia na UNL ou no meu quarto. A sensação que tinha era a de viver constantemente no trânsito das leituras, só que tocando, caminhando sobre as palavras, os versos. Um amigo de infância, que também morava em Lisboa na época, teve a sorte de morar ao lado de uma das casas em que viveu Fernando Pessoa e nunca percebeu aquela sorte, o que mudou quando fui visitá-lo pela primeira vez e depois disso aquela imagem não saiu mais de minha cabeça. Outros episódios como esse foram somados durante os anos, mas o que ainda é forte no emaranhado das imagens de minhas lembranças é o desenho afetivo que a cidade constrói em nós. As ruas, a arquitetura, o movimento da carris durante o dia, o tejo, tudo figura como a construção de uma literatura em face de sua realização a qualquer momento. E assim aconteceu um convite para participar de uma antologia de poemas, depois de contos e lá estava eu usando a cidade para recriar a própria cidade, pois era esse o sentimento quando escrevia sobre minhas impressões ao mergulhar cada vez mais na cultura do lugar, era um brasileiro vivendo em outra cultura e reproduzindo aquelas influências a partir de uma escrita em constante transformação. Penso que a minha poesia começou a entender que a transformação é a melhor linguagem exatamente nesse momento. O corte com a minha Bahia começava a se desfazer ali, diante da saudade a escrita, já envolvida pela cultura lusitana, pelos poetas todos, acontecia como instrumento funcional para re/criar, re/viver. Comecei a pensar e sentir novamente a minha terra, agora de uma maneira muito mais profunda e real, depois que percebi que por mais que viajasse, a natureza de meu olhar, mesmo estrangeiro, carregaria sempre o Brasil, a Bahia em mim. O impacto sempre foi o de elevação, sempre olhei e senti assim, para frente.

 

DA – Muito produtiva a relação reterritorializada com os espaços Portugal-Brasil e que, aliás, é bastante cortejada pela crítica lusófona. Interessante mencionar, nesse aspecto, o prêmio Oceanos, de literaturas de língua portuguesa, em que você é finalista este ano com As solas dos pés de meu avô. Como tem sido essa experiência?

TIAGO D. OLIVEIRA – Bacana você tocar nesse ponto, pois há aqui um lugar imenso de afeto, de reencontro. Ao passo que caminho pelas solas de meu avô nesse livro, conecto-me também com Portugal e percebo a cada dia que somos, nesta minha perspectiva, uma só experiência, a poesia. Estou vivendo um momento muito especial com o reconhecimento do meu trabalho, que geralmente é muito solitário e sem pretensão alguma. Há anos longe de Portugal, mas toda vez que escuto aquele sotaque, sinto como se tivesse retornado ontem para o Brasil, que o tempo não passou. A possibilidade do prêmio me fez acessar novamente um velho sentimento de pertencimento, um chamado híbrido diante do Tejo ou do Dique do Tororó, sua soma. O conforto é que somos todos filhos de uma mesma língua, mesmo com inúmeros mecanismos internos de reconfigurações constantes, somos todos saídos de uma mesma boca. Mas o coração anda apertado com essa reconexão com um tempo muito feliz de além mar. Um lugar re/encontrado. A parte funcional de todo esse movimento chegado com a indicação de finalista para o Prêmio Oceanos 2020 é que a alegria é imensa, servir de exemplo para outros meninos de periferia, como eu fui, é uma chance de fazer algo bom, motivador. Mas o que fica depois do vento ainda é a página em branco e eu confesso sem medo que essa é a imutável realidade de quem escreve, é o chão de todo autor, é a certeira paz que me recebe de volta. Que bom! Mesmo sabendo da natureza passageira dos prêmios, confesso que é bom sentir as mensagens das pessoas, o carinho, o brilho nos olhos. Penso que As solas dos pés de meu avô ainda vão me levar para lugares diversos.

 

DA – O “velho sentimento de pertencimento, um chamado híbrido diante do Tejo ou do Dique do Tororó, sua soma” remete à fragmentação tão incensada do indivíduo contemporâneo. Isso interfere noutros trabalhos, a exemplo de projetos anteriores ou mesmo inéditos? Ou o “chão de todo autor”, a página em branco, resvala em mistérios diferentes a cada livro? Consegue identificar tais aspectos na própria obra?

TIAGO D. OLIVEIRA – Essa fragmentação é realmente um traço contemporâneo que compõe o olhar de quem escreve. As nossas horas são invadidas por diversos tempos e espaços e muitas vezes já nem notamos, acostumados com o ritmo normal da vida imediata. Mas há a palavra escrita, a literatura. Assim são os dias, entre a memória e o tato. Penso que quanto mais o tempo passa, mais aumenta essa nossa busca por um pertencimento que se faz na fragmentação. E agora digo pensando também nas vidas criadas no papel. O meu trabalho está mergulhado nessas águas, a do Tejo e a do Dique. Estou inteiramente atravessado por essa chance do sentir, do criar, do referenciar, assim aconteceu com um livro que escrevi, Contações, que bebe de um lugar que não existe mais, de criaturas reimaginadas e grafadas como partes de um mural construído para essa ideia de pertencimento. Personagens inventados, rememorados, todos abraçados por essa fragmentação, cada um representa um lugar perdido de geografias e eras distintas. Quando escrevo, junto todas as naturezas sob a minha, paulatinamente a preencher a folha em branco com palavras. O chão que piso é feito de possibilidades, a cada livro que realizo pertenço um pouco mais a essa multiplicidade e ao mesmo tempo, sendo todos eles, fragmento-me um pouco mais. Talvez seja essa a ideia de modernidade que merecemos, a que não conseguiremos tão cedo nos livrar. Quando escrevi As solas dos pés de meu avô, novamente não consegui fugir dessa fragmentação que me faz. Lá estão o sertão profundo, a urbe e um outro país distante. Lá estão o avô, o pai e o neto. Três tempos e espaços distintos que são acessados pelo corpo da fragmentação intuído pelo sangue do autor, que escreve justamente por conseguir pertencer, mesmo sem nunca ter vivido. Estou a escrever um novo livro sobre Saveiros, o que me corre pelas mãos são as águas novamente, não as do Tejo nem as do Dique, mas as do Paraguaçu. Novamente escrevo com o sentimento de pertencimento, mesmo sem nunca ter vivido, o que me faz alcançar essa atmosfera de um recôncavo histórico que abastecia a capital é a fragmentação que me acolhe enquanto pesquisa, enquanto ato de talhar o verso. Os mistérios costurados na derme da escrita de cada livro são consequências de um caminho em que pertencer e não pertencer são faces de uma mesma moeda. O jogo da escrita possibilita também essa imagem. Agora olho para a janela e o silêncio da noite me faz ouvir o barulho do relógio, lembro de Pessoa diante do mundo e a heteronímia de sua criação. Lembro também de Drummond, em a Máquina do mundo, quando o poeta nega aquela imagem e vai embora. Sigo em posse dessa herança e gozo agora do silêncio que antecede o sono. Fim. Amanhã já não sei, pode ser tudo diferente.

 

Tiago D. Oliveira / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Acima, você traça um pequeno tratado sobre os desdobramentos do ato de escrever, além de citar um livro inédito, Saveiros. Muitos autores, em meio à pandemia em curso, têm alegado que a escrita funciona como salvação. Como tem sido para você? Muitos projetos novos? Saveiros nasceu com a quarentena?

TIAGO D. OLIVEIRA – Com a pandemia vieram muitas mudanças rapidamente, tivemos que aceitar e transformar o que nos foi imposto com tanta força. A única realidade que não sofreu foi a leitura, a escrita. Aliás, finalmente havia tempo para a leitura, para a organização de algum projeto de escrita. E assim, mesmo continuando a dar aulas via internet, de alguma forma ficamos mais disponíveis para o sol se pondo, para o barulho do vento entrando em casa. Há tempos venho acumulando leituras sobre os saveiros para um futuro, o que nunca acontecia por causa da implacável falta de tempo, e nesses meses consegui ler muito do que desejava, dissertações, artigos, livros, reportagens, o que alimentou mais ainda a minha vontade de conviver com todo aquele universo. Então eu tinha tempo e uma vontade de escrever que só crescia. Iniciei os versos mesmo sem ter colocado nada no papel. Os poemas começaram a ser escritos em mim enquanto a liberdade reinventava um livro como rio para que aqueles saveiros, que criava como versos em minha cabeça, pudessem navegar novamente. Escrevo com os dias atravessando as palavras, tudo o que sei é medido por versos que repito biblicamente e tento aceitar o que não posso mudar e tomar o que me cabe. Os saveiros são mais uma ferramenta de resistência ao duro tempo que vivemos, assim como os acordes do violão, as contas amarradas na ponta do lápis, as lives ou as receitas de pão. A quarentena trouxe-me uma chance de desacelerar, mas também me possibilitou a construção de um projeto que vai muito mais além da minha condição de isolamento.

 

DA – Você ganhou este ano o Selo João Ubaldo Ribeiro. Pode comentar um pouco sobre?

TIAGO D. OLIVEIRA – Recebi uma ligação da rádio educadora me pedindo para falar sobre o selo João Ubaldo, que meu inédito, Soprando o vento, tinha sido contemplado neste ano de 2020. Fiquei muito feliz e acabou passando um pequeno filme em minha cabeça. Quando comecei a escrever poesia tinha a idade perfeita para sonhar, sem o coração calejado por alguns movimentos naturais da vida. Acho que aquele menino de Sete de Abril vibrou dentro de mim com a notícia. Ganhar um prêmio em minha cidade sempre foi uma imagem distante, mas algo brilhava ainda em mim e depois que a ficha caiu entendi que sou a melhor propaganda de que é possível nascer na periferia, sonhar com um mundo distante e um dia realizar. Esse prêmio do Selo João Ubaldo Ribeiro representa para mim uma semente plantada em tantos corações, tantos meninos e meninas de periferia que vão  perceber  que com leitura, estudo, fé, tudo acontece. Sigo acreditando na poesia e nas pessoas.

 

DA – Gostaria de deixar alguma mensagem para as suas leitoras e leitores?

TIAGO D. OLIVEIRA – Queria deixar aqui a alegria que sinto quando abro um livro.  A paz que me toma quando termino de escrever algum projeto, quando os poemas estão dialogando. Queria deixar aqui a minha fé em um mundo feito por pessoas que acreditam nos livros, que se encantam com as pequenas alegrias. Queria dizer que a escrita se tornou uma maneira de entendimento e localização do mundo, cada livro escrito é um universo que re/descubro e aceito caminhar. Queria agradecer por uma troca tão agradável que foi essa entrevista. Estar aqui é acreditar na palavra, é seguir. Leiam. Leiam. A leitura é a grande riqueza nos dias.

 

Clarissa Macedo (Salvador – BA), mestra, doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora e pesquisadora. Publicou a plaquete O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra, 2014) e os livros Na pata do cavalo há sete abismos (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014; traduzido ao espanhol) e O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição (Ofícios Terrestres, 2019).

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Escrever pode ser algo parecido com uma tentativa de agarrar o mundo com as mãos. Ou com a cabeça. A mente que fervilha ideias em busca da criação atravessa, em grande instância, os lampejos da natureza humana, esse grande caldeirão de imagens, atos e investidas. Achar-se pronto para demarcar uma obra que se queira definitiva talvez não passe de uma quimera, flerte com o inatingível. Para alguns, a angústia da criação é motor de soluções; para outros, é penoso caminho que jamais se resolve.

Comunicar bem através de uma obra literária é, sem dúvida, um dos requisitos que conferem sentido ao trabalho do autor. Assim, leva-se em consideração que não estamos sós a engendrar os escritos, pois estes um dia tendem a encontrar amparo nas recepções mais diversas possíveis. Nesse sentido, a ideia de escrever para ninguém mais parece uma falácia ou tentativa de distração do debate. Divisões à parte, é preferível ficar com quem advoga pela melhor forma de se contar uma boa história.

No eixo que transita entre obra e leitor, há muita gente interessada em apurar seu trabalho com as palavras, fazendo com que o texto, em suas múltiplas estratégias narrativas, alcance pessoas. Tal processo jamais pode ser confundido como um esforço do autor para agradar quem quer que seja. Pelo contrário, traduz a busca de quem escreve por modos de instigar a atenção do leitor, ofertando-lhe possibilidades para o mergulho pessoal.

Rodrigo Melo é um desses escritores que sempre está à cata de algo consistente para dizer e nos apresentar. E sua obra está na ordem do dia quando o propósito é sondar o traçado cotidiano das nossas vidas em suspensão. O autor é hábil nos arremates, engendra meticulosamente a arquitetura de seus personagens e os faz produtos do meio em que vivem ou vice-versa. Seu estilo de narrar abarca diálogos certeiros, ágeis e que recorrentemente mostram-se provocantes.

O momento atual desse escritor baiano nos leva ao seu romance “Riviera” (Ed. Mondrongo, 2020), livro que apresenta uma ótica muito peculiar quando o tema é o amor. Longe dos ardis tradicionais do assunto, Rodrigo movimenta seus personagens dentro de um contexto que sabe a idealizações, devaneios e a crueza dos dias mundanos. Tudo isso somado a sacadas inteligentes e a recursos narrativos dotados de simplicidade no manejo da linguagem.

Trazendo em sua bagagem obras como “O Sangue que corre nas veias” (Ed. Mondrongo, contos, 2013), “Jogando dardos sem mirar o alvo” (Ed. Mondrongo, contos, 2016), dentre outros livros e participações em antologias, Rodrigo Melo concede uma nova entrevista para a Diversos Afins. Desta feita, além de mencionar os trajetos que o levaram ao seu novo livro, o autor dividiu conosco suas impressões sobre o fazer literário, refletindo especialmente acerca da contemporaneidade, esse estado de coisas que tanto nos tem tirado do sério.

 

Foto: arquivo pessoal

 

DA – “Riviera” é um livro que transita pelas paisagens urbanas tendo como mote os atravessamentos da paixão. Nesse sentido, Michel Rodrigues, o protagonista, é aquele que busca por alguém na sua construção própria sobre o amor. Com tanta dispersão e desencontros a que estamos submetidos na contemporaneidade, o que resta para a literatura quando o desafio é falar desse desejo pelo outro?

RODRIGO MELO – Acho que o amor sempre foi uma fonte generosa para a literatura, e continuará a ser, mesmo nesses tempos tão puxados, porque ele simplesmente precisa existir. Amar é se movimentar. Em Riviera, ele também está lá: um tanto inocente, mas também derramado, exagerado e sofrido como nas velhas canções. Porque a história pedia que fosse assim. Quando o protagonista abandona toda a sua antiga vida e parte, feito num jogo de azar, para o Rio de Janeiro em busca de sua amada, ele está apenas fazendo a roda girar. Há quem acorde todos os dias por causa de dinheiro, outros por poder. Michel Rodrigues sentia amor ou qualquer coisa parecida com isso. E foi esse sentimento, universal e atemporal, que o fez deixar tudo para trás.

 

DA – O Rio de Janeiro é essa cidade evocada em canções, misto de “maravilhosa” com o tal “purgatório da beleza e do caos”. E você tem uma trajetória pessoal de vivência na metrópole confusa e difusa. Em que medida foi importante ter a cidade como pano de fundo para o livro?

RODRIGO MELO – Mais que importante, foi necessário. Não conseguiria escrever sobre algo que não conheço e que, consequentemente, não me alcança. Foi Kurt Vonnegut quem disse que é preciso falar do próprio umbigo, porque ninguém mais o fará, e ele tinha razão. Fazer literatura talvez seja, por vezes, simplesmente mostrar o nosso prisma dos acontecimentos e das coisas. Claro, tem que se buscar o lirismo, a propriedade, mas falando sobre o mundo ao nosso redor. Eu morava no Rio quando nasceu a ideia de escrever essa história, e desde o início ela tinha a energia da cidade, de tudo o que eu pensava, sentia e fazia diariamente. Fui corretor em uma imobiliária na Zona Sul e também trabalhei em uma empresa de caminhões munck, lá em Ramos, como o personagem, e, embora uma boa parte do que está no livro tenha sido inventada, foram essas experiências reais que deram a base para que eu pudesse escrever todo o resto. A cidade como fundo e, ao mesmo tempo, como mais um personagem.

 

DA – De certa forma, a luta pela sobrevivência também é um tema presente no seu romance. E Michel Rodrigues personifica isso na odisseia que empreende pela cidade, quando precisa ter condições financeiras de continuar sua jornada pessoal. Entre o sonho e a realidade, paga-se um preço para poder suportar humilhações e outros fardos. Como pensar essa questão dos cenários de exploração em que a própria condição humana é precarizada?

RODRIGO MELO – Faz um bom tempo que o homem circula por aí, centenas, milhares de anos, a subjugar o próprio homem. Quem tem grana e poder segue aumentando essa grana e esse poder, e quem não tem segue enxergando pouquíssimas chances de sair de sua situação. Há diferenças mais que gritantes entre determinadas vidas e dessas diferenças é que brotam as explorações. Uns dizem que sempre foi assim, outros dizem que todos passam pelas mesmas atribulações. A verdade, no entanto, é que entre uma quadra e outra há alguém morrendo de fome e alguém ostentando um carro de meio milhão. Lembro de ler Germinal, de Zola, e ficar impactado com a forma de trabalho que aquelas pessoas eram obrigadas a encarar. Aquilo não era viver, apenas sobreviver. A literatura tem essa força, ela nos puxa sem cerimônia e nos faz pensar nas coisas que passam despercebidas porque, de uma forma ou de outra, não fazem parte do nosso dia a dia. Os vendedores de balas no sinal, as prostitutas nas esquinas, os guardadores de carro, os moleques que fazem avião, sempre foram esses os personagens do meu Germinal. Assim como Michel Rodrigues, que vive entre o feijão e o sonho, a necessidade de comer e de continuar a sonhar. Como muitos, ele descobre da pior forma que às vezes é melhor depender do acaso do que da justiça ou da benevolência dos homens.

 

DA – O mundo é um lugar cada vez mais distópico?

RODRIGO MELO – Parece que sim. Não que caminhemos para a distopia, porque já estamos nela há bastante tempo. Entre o céu e o inferno, entre a evolução e a perpetuação dos defeitos, seguimos alimentando os defeitos. É mais fácil e cômodo, pelo menos para quem não passa apertos. Os escolhidos para cuidar dos outros, os eleitos, acabam por cuidar de si mesmos e daqueles que lhes compram a alma, e dessa forma vivemos em uma espécie de looping em que os mais favorecidos ampliam seus domínios e os menos favorecidos são apartados do rebanho e vistos como não merecedores. A banalização das diferenças. A aceitação de que tudo sempre caminhou dessa mesma maneira. Porque toda luta, em essência, é em causa própria, mas poucos têm armas para lutar. Bendito seja o dia em que se descortine a verdade de que todos que nascem têm direito a tudo o que o planeta dá. Bendito seja o dia em que os eleitos, quem quer que sejam, passem a ser mais cobrados do que idolatrados. Mas hoje, analisando o que acontece com o mundo, e sobretudo com o nosso país, a constatação é de que as coisas evoluem muito mais rápido que as pessoas. Os carros têm computadores de bordo, os elevadores são mais rápidos, os celulares servem para tudo, mas ainda se vende um copo de água, ainda se morre de doença ou de fome, os corredores dos hospitais lotados, os desabamentos nos morros. A distopia, antes de ser algo para o qual precisamos nos preparar, é, por fim, a injusta realidade ao nosso redor. E um coro de gente a afirmar que a vida é mesmo assim.

 

DA – Você é daqueles que depositam fé na humanidade?

RODRIGO MELO – Deposito muita fé, porque estou no meio dessa humanidade. Talvez seja uma obrigação acreditar nela. Há muito perigo, mas ao mesmo tempo também há muito encanto nas pessoas, sobretudo quando se mostram verdadeiramente, e é bem possível que venha daí a nossa salvação. O pão que se faz pela vigésima vez é melhor do que aquele feito na primeira vez, pois o destino de tudo é melhorar. Vive-se, sonha-se, sofre-se, aprende-se – se tivermos sorte. Não é raro escutar alguém dizer que hoje há mais violência, mais injustiças, mais diferenças e separações. Por meu lado, penso que há menos, mas tudo tem ficado, aos poucos, mais à vista, mais à tona, e isso nos traz essa sensação de que o mundo nunca foi tão ruim. Ele sempre foi muito parecido com o que é hoje, posto que o ser humano mudou muito pouco, mas consigo mesmo enxergar uma caminhada rumo a uma evolução, ao bem comum, a uma chamada de consciência maior. Ainda há casos de pedofilia? Sim, centenas. Ainda se mata em nome de Deus? Sim. Mas a transparência é maior, as cobranças são maiores, sobre quase tudo pode se colocar um foco de luz. É o que vejo. Ou, pelo menos, imagino ver.

 

Foto: arquivo pessoal

 

DA – A Literatura é motor de transformação de alguma coisa?

RODRIGO MELO – Tudo o que o mundo é tem ligação direta com a literatura, sobretudo se levarmos em conta que ela existe desde as primeiras narrativas, mesmo orais, e influenciou decisões e caminhos. Literatura, afinal, é contar histórias, passar mensagens, e essas coisas não estão apenas nos livros.   Um quadro tem a sua parte de literatura, assim como uma música ou uma peça de teatro. Por esse prisma, ela pode ser considerada uma geradora de muitas outras expressões artísticas e o seu poder de transformação passa a ser ainda maior.

 

DA – Antes de ganhar as ruas, os impressos e as redes sociais, estas últimas lugares de aplausos fáceis, os textos literários não mereceriam certa maturação e tratamento?

RODRIGO MELO – Há uma grande diferença entre textos publicados em livros daqueles compartilhados em redes sociais. O texto publicado em livro deve sempre passar pelos processos de revisão e maturação. É preciso, como se diz, dar um tratamento para que, enfim publicado, represente a sua melhor versão. Os textos compartilhados em redes sociais, por sua vez, variam de acordo com quem os compartilha. Autores com mais experiência certamente terão um cuidado maior com seus escritos. Mas há ali gente de todo jeito, movida por todo tipo de combustível, em diferentes estágios. Tem a turma do aplauso fácil, tem aqueles que, pelo pouco tempo no ofício da escrita, querem simplesmente uma resposta, e tem aqueles outros que só têm o espaço das redes sociais para se externar. E muitas vezes não é só a questão da pressa que os faz compartilhar seu material em grande quantidade, sem precaução: é a limitação das técnicas, ou das manhas, que vêm com a prática. Fazendo uma analogia, é como pegar uma porção desses novos cantores de arrocha ou de novas bandas de death metal, há centenas deles e delas por aí. Muitos produzirão e jogarão seus trabalhos no mercado sem cuidado algum. Mas, no meio de todas as tentativas, alguns vão perseverar, aprimorar suas técnicas e ser muito bons naquilo a que se propuseram fazer. O talento não vinga sem coragem, disciplina, que se torna algo automático com o tempo, e dedicação. E, claro, às vezes também com um pouco de cara de pau.

 

DA – O que podem os escritores nesses tempos de pós-verdade, fake news e guerras de narrativas?

RODRIGO MELO – Alguém disse, e agora realmente não lembro quem, que a literatura não tem dado conta da realidade. Nós ainda falamos de amores frustrados, enquanto Flor de Lis, com a ajuda de alguns filhos, mata o marido e depois vai até o enterro, encharcada de lágrimas; ainda tentamos desvendar os pecados, enquanto João de Deus estupra fiéis em seu doce charlatanismo, e padres, em um acobertamento que viola tudo o que a sua pretensa crença defende, seguem a se satisfazer e a fazer vítimas sem nunca serem responsabilizados pelo rastro de terror que deixam atrás de si; ainda escrevemos sobre a liberdade, quando grande parte do país, informada ou não, idolatra políticos e os defende como se fossem advogados de defesa, como se realmente tivessem certeza de tudo o que se passa na alma de quem leva os dias a se propagandear. Vivemos em uma espécie de anestesia coletiva, sem entender muito bem o que está acontecendo, seguindo no piloto automático, tentando nos legitimar socialmente e nos dando conta da realidade anos depois, quando nada mais pode ser feito e, o pior, quando não se pode mais voltar atrás. A literatura, bem como outras expressões artísticas, precisa estar acima disso, olhar a tudo com os olhos do distanciamento para, assim, absorver e analisar com limpidez e propriedade. E então dar conta do seu tempo. Antes de entretenimento e cultura, os livros são ainda o registro de uma época.

 

DA – Afinal, por que escrever?

RODRIGO MELO – Acho que pelo mesmo motivo que um cineasta começa a fazer os seus filmes ou um rapper a compor as suas músicas: dar seu testemunho, tentar pegar o mundo todo num ouvido só. Toda pessoa tem um recado a dar, uma análise particular da vida e das coisas, um grito, uma bronca, um louvor, e a arte é um caminho para despejar isso. O motivo de ser a literatura, especificamente, é que sempre gostei de boas histórias. Meu pai é um grande narrador e lembro de que quando viajávamos juntos, eu passava todo o tempo escutando ele falar. Isso certamente contou. Como nunca tive um leque tão grande de boas histórias, comecei a inventar algumas.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.