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116ª Leva - 01/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

A primeira correspondência que Paula Dip recebeu de Caio Fernando Abreu foi um bilhetinho insolente, com ares de intimação. Prenunciavam-se os anos 80, e ambos trabalhavam na editora Abril, em redações convizinhas. À época, Paula organizava uma festa de comemoração de seu aniversário e Caio não figurava na lista de convidados. Foi então que aterrissou sobre a mesa da jovem jornalista a seguinte mensagem: “Todos já receberam o convite para o seu aniversário; por acaso você teria se esquecido de mim ou ainda posso ter esperanças de ser convidado? Sei que a festa é amanhã e prefiro pensar que foi uma distração de sua parte; detestaria imaginar que foi proposital”.

Conhecido pelo temperamento forte (e volátil), essa era, na verdade, a maneira de Caio dizer para Paula que queria ser seu amigo. Ele foi convidado para a festa, naturalmente, e a amizade se configurou por vinte anos. Paula viu, de muito perto, o jornalista se tornar escritor, dramaturgo, roteirista; ganhar prêmios; morar fora do país; retornar; sofrer por amor; sobreviver à ditadura militar; descobrir-se portador do vírus HIV; morrer. Durante esse período, eles trocavam inúmeras cartas, que ficaram guardadas por uma década, esperando que o intolerável da ausência desse trégua e os amigos pudessem se reencontrar naquele tempo retido no papel.

A volta às cartas, afinal, deu forma ao livro “Para sempre teu, Caio F. – Cartas, conversas, memórias de Caio Fernando Abreu”, lançado em 2009. Sucesso de público e de crítica, o misto de memórias e correspondências inspirou um premiado documentário de mesmo nome. Agora, uma nova compilação de cartas vem a público, outra vez organizada por Paula Dip. Em “Numa hora assim escura”, a jornalista se debruça sobre as missivas trocadas entre Caio F. e a escritora Hilda Hilst, entre os anos 70 e 90. O lote, até então inédito (alguns envelopes ainda se mantinham lacrados), revela duas pessoas que, através de um vigoroso laço afetivo, completaram-se artisticamente e forneceram, ainda que de maneira incidental, um panorama precioso de suas épocas, sobretudo no que diz respeito à literatura.

Os textos epistolares remontam a um Caio recém ingressado na vida adulta, com a cabeça tomada pelos cabelos compridos e um tanto de ideais, que se muda para a mística Casa do Sol, em Campinas, onde Hilda havia se refugiado para se dedicar à literatura, após uma vida de luxo e matrimônio. A relação dos dois, a princípio de pupilo e mentora, pouco a pouco se fortifica num pacto de amizade, que durou por toda a vida, e que foi inestimável para a formação literária de Caio. Prova disso é que nunca se desligaram, fosse qual fosse a distância geográfica, fosse qual fosse a gravidade das circunstâncias. As cartas os uniram na vida e na morte.

Em entrevista exclusiva à Diversos Afins, Paula Dip expõe detalhes sobre esse encontro incomparável entre dois de nossos principais autores contemporâneos, rememora sua própria convivência com o amigo, revela particularidades do escritor e reflete sobre seu papel de proteger e dimensionar o legado de Caio Fernando Abreu. Além disso, fala sobre novos autores, literatura feminina, o reconhecimento da obra de Caio F. por parte de uma nova geração de leitores e a experiência de se reconstituir parte de uma existência através de relatos contidos no secreto da troca de cartas. “Reorganizei a obra de ambos de um novo ponto de vista: a amizade que os uniu, confidências, afinidades, as brigas, as gargalhadas. Desenhando uma linha do tempo com suas cartas, contos, gritos e sussurros. Foi uma viagem deliciosa”.

Paula Dip / Foto: Johnes Mattos

DA – O Caio era alguém que acreditava no esotérico, em planos astrais, na incidência do sobrenatural no dia a dia. No prólogo do novo livro, você escreve que esse volume de cartas chegou a você “como num passe de mágica”. Depois da ótima repercussão de “Para sempre teu, Caio F.”, livro seu que serviu de matéria para um premiado documentário, acredita que, de alguma forma, ele queria que esse pacote terminasse contigo? Que você continuasse protetora do legado dele?

PAULA DIP – Caio dizia que, além de ser escritor, sempre quis ser um mago “como Cortázar”, em quem se espelhava. Desde muito jovem estudou astrologia, espiritismo, foi Rosacruz, aproximou-se do candomblé, do Santo Daime, consultava cartomantes, videntes, jogava I Ching e Tarô. Quando conheceu Hilda Hilst, desenvolveu ainda mais seu lado místico. Assim que ficamos amigos, ele leu minha carta astral e analisou minhas revoluções solares algumas vezes, fez o mapa da minha filha quando ela nasceu, de tal forma que, com a convivência, aprendi a entender e a respeitar os sinais que, segundo Caio, o universo nos envia; basta estarmos atentos e fortes, ele dizia, citando Caetano e Gil. Visitava sempre sua mãe de santo no Rio, Sonia de Oxum Apará, e aqui em São Paulo certa vez me levou a um terreiro para visitar um pai de santo. Quando chegamos ele ficou muito à vontade, participou da roda, cantou, dançou e pediu a benção aos orixás. Eu assisti de longe, não tive desenvoltura para participar da festa e nem para me entregar ao ritual que ele parecia conhecer bem. Sempre fui cética. Depois disso ele não me convidou de novo para tais atividades, mas eu sempre respeitei seus credos. “Yo no creo em brujas pero que las hay, las hay”, diz o ditado, e por tudo isso, passei a prestar atenção aos sinais. Nos anos 80, eu e Caio fizemos um pacto que respeito até hoje de escrever nossa história e tornar públicas suas cartas. Quando Caio morreu, em fevereiro de 1996, por exemplo, eu morava fora, não havia internet ou celular, só fui saber da morte dele alguns dias depois. Eu vivia em Boston, era inverno, uma madrugada houve um acidente de carro na frente da minha casa, um rapaz morreu dentro de um carro que pegou fogo. Eu nunca havia visto nada tão impressionante e quando soube que Caio havia falecido justamente naqueles dias, fiquei muito sensibilizada. Aquilo parecia uma premonição, um aviso. Outro exemplo: quando esse pacote de cartas dele para Hilda veio parar em minhas mãos, pensei até em fazer uma tese de mestrado a partir delas, mas acabei decidindo publicar o livro. Logo no início do trabalho fui atrás da bibliografia de Hilda e encontrei um livro dela, “Tu não te moves de ti”, que ele me presenteou em 1980, com um bilhete/dedicatória, que estava perdido há 30 anos na minha biblioteca, outro sinal. Falo disso no meu livro novo, publico um fac símile do bilhete. Hilda combinou com Caio que ele viria visitá-la depois de morto para garantir que havia vida após a morte, e ela contou que ele esteve na Casa do Sol algumas horas depois de morto, para lhe mostrar que estava bem, conforme haviam combinado. Ele era um cara que cumpria suas promessas, um amigo muito leal. Não estou sozinha nisso, muitos outros amigos de Caio se sentem assim, ligados e atentos aos seus sinais. Tudo isso faz parte da lenda de Caio Fernando Abreu, mas acima de todos os mitos e mistérios sobre sua pessoa, o que importa é que ele foi um escritor talentoso que merece ser lido e cultuado. Finalmente respondendo à sua pergunta, não sei se ele queria que o pacote de cartas terminasse comigo, ou se desejava que eu protegesse seu legado, mas acredito em seguir minha intuição no sentido de levar a publico cartas, textos, conversas, memórias, e todos os inéditos de Caio que chegarem às minhas mãos.

DA – Você conta, no livro, que conheceu o Caio na redação da editora Abril, onde firmaram uma amizade que durou 20 anos. Ainda assim, há algo nessas novas cartas que a surpreendeu durante a leitura? Há, em algum aspecto ali, um Caio que não conhecia ou não sabia que existiu?

PAULA DIP – O que mais me impressionou nesse pacote com parte da correspondência entre Caio e Hilda é a juventude, o frescor do texto. Quando o conheci, entre as redações das revistas Pop e Nova, Caio estava com 30 anos, já morara dois anos na Europa, tinha livros publicados e premiados. À época, ele escrevia os primeiros contos do livro “Morangos mofados”, lançado em 1982, pela Brasiliense. Até hoje guardo um bilhete dele se convidando para minha festa de aniversário, o início de nossa amizade. Aos 17, Caio escrevia o romance “Limite branco”, quando decide se mudar para São Paulo e depois para a Casa do Sol, em 1968. Hilda é autora da epígrafe e editora do texto final desse romance. As cartas falam exatamente desse momento. Fiquei encantada com aquelas confissões de menino, sonhos e perrengues de final de adolescência; a vocação do escritor, o precoce amor às palavras. Nas primeiras cartas que envia a ela do Rio, em 1970, Caio menciona Caetano Veloso, Antonio Bivar, Luiz Carlos Maciel, ídolos no nosso tempo, como sendo os papas da contracultura. É o deslumbramento de uma geração. Caio diz a Hilda que “é uma loucura a lucidez e a abertura espiritual que eles têm”. Eu que só fui ver Caetano rebolando no palco do TUCA, em São Paulo, com os Tropicalistas, fiquei encantada. Caio, assim como Caetano, era artista plástico, desenhava, fazia colagens que às vezes transformava em cartas, com estrelinhas, entrelinhas, anúncios, desenhos, detalhes. Cartas lindas, apaixonantes. Não é por acaso que o livro fala de uma paixão literária.

Caio Fernando Abreu e Paula Dip em 1982 / Foto: Arquivo pessoal

DA – O conteúdo das cartas é marcado por uma sobrecarga de afeto, em especial a admiração e o carinho que Caio demonstrava pela Hilda. Muito mais que uma confidente ou uma amiga, a figura da grande escritora que já era, quando se conheceram, mostra-se fundamental para a formação da escrita do jovem autor. Obviamente que havia nele um talento nato, contudo o quanto acredita que o convívio, naquele exato período de sua vida, tornou a Hilda imprescindível para a literatura de Caio?

PAULA DIP – Mais do que imprescindível, Hilda foi um bálsamo na vida de Caio F. A vivência de quase dois anos, que tiveram na Casa do Sol e continuou por toda a vida, foi troca fundamental para a formação literária dele. Afinal ele era um garoto de 19 anos! Teve acesso à biblioteca completíssima e principalmente aos escritos dela, às suas ideias. Eles se reconheceram imediatamente no amor à palavra. Caio virou assistente, ela ditava textos num gravador que ele depois datilografava numa operação crucial que o fez ouvir a própria voz desafinada e fazer exercícios para encorpá-la. A voz engrossou e o milagre foi atribuído à figueira mágica, claro.  Caio aprendeu com Hilda a ler seus textos em voz alta, e a dedicar muitas horas de seu dia à escrita e à leitura. Buscar na palavra a sua superação. Assim nasceu a lenda esotérica que até hoje envolve os dois. Hilda era educada, culta, levava uma vida original, reclusa e ao mesmo tempo cercada de mil pessoas interessantes. Foi uma moça bonita, rica e badalada na capital paulista, onde estudou direito no largo de São Francisco. Namorou Deus e o mundo. E fugiu do carrossel de paixões e viagens ao redor do mundo, aos 35 anos, quando largou tudo para viver numa casa de campo, para escrever seus poemas e focou em sua obra genial durante o resto de seus dias. A Casa do Sol tornou-se um espaço de reflexão, estudo, até hoje referência para artistas, poetas, escritores, cineastas. Acredito que ele foi muito influenciado por ela, e vive versa; Hilda aprendeu muito com Caio. Ela foi o mestre e ele o aprendiz, mas é dos grandes encontros praticar a alteridade, e certamente eles trocavam de lugar. O rapaz trouxe o frescor da juventude, enquanto ela o confortou com a sabedoria da maturidade. Até conhecer Caio, Hilda só havia escrito poesia. Em 1970, publica “Fluxo-Floema”, seu primeiro mergulho na ficção, e dedica a ele um conto, “Lázaro”, para mim um dos mais belos da língua portuguesa. Logo depois, Caio publicou “Limite Branco”, seu romance de formação, cujos capítulos ela editou, escreveu título e epígrafe. Um verdadeiro encontro de almas.

DA – Numa das cartas que escreveu em Londres, Caio faz um comentário bem mordaz sobre um livro póstumo da Clarice Lispector: “Acho que ela morreu na hora certa, porque tava repetindo demais a receita”. Um pouco antes, você relata que Caio trazia, da juventude, uma obsessão literária por Clarice que, depois de se relacionar com Hilda, veio ao chão. O que se tornou essa paixão, afinal, para Caio, a ponto de ele trocar até de musa?

PAULA DIP – Caio se encantou com Clarice na adolescência, quando as paixões são fortes, platônicas e eternas. Eles viveram coup de foudre, tipo um romance muito avassalador que não existe mais, irmão do amor à primeira vista, que é mais como um soco no peito. Clarice o convidou para se sentar ao seu lado e o chamou de “meu Quixote”, numa noite de autógrafos em Porto Alegre, e, embora tenham trocado telefones, nunca se viram. Ele deu sorte na escolha da musa, dona de uma energia tão mágica e misteriosa que alguns a chamavam de bruxa. Como não amar tal musa? Caio se apaixonava perdidamente por suas musas. Seu texto foi marcado pela profundidade abissal de Clarice. E o amor pela musa nunca morre, amores e musas se acrescentam. Clarice era distante, calada; Hilda, um turbilhão. E Caio não esteve perto da Lispector no cotidiano, como aconteceu com Hilda. Bastou ele chegar à Casa do Sol e outro coup de foudre. Eles imediatamente diziam tudo, riam de tudo, brigavam por tudo, duas crianças. Quanto ao comentário ferino que você cita, é a cara dele! Caio perdia um amigo, mas não perdia a piada. Exercia um humor ferino, era witty como poucos. Para ele, poder zombar por escrito de Clarice, numa carta para Hilda, era como provar a si mesmo que a fila andava e que o futuro ainda lhe reservaria muitas musas, graças a Deus.

DA – Por outro lado, apesar da quantidade de missivas que remetia dentro e fora do país, Caio chegava a ficar meses sem receber uma resposta de Hilda. Proporcionalmente, aliás, as cartas enviadas pela escritora parecem bilhetes diante dos textos de várias páginas escritos pelo autor. Qual a relação que faz disso? Ainda que trocassem impressões e laços fortes de sensibilidade, percebe que existia nele um interesse mais grave, um apreço que não era correspondido à mesma altura por ela?

PAULA DIP – Hilda morava no campo, raramente checava a Caixa Postal que ficava longe, no Correio da cidade. E as cartas já estavam velhas, talvez não achasse necessário responder. Era uma vida reclusa, mas bem cheia a que Hilda Hilst levava na sua Casa do Sol (e também tinha a Casa da Lua, na praia. Dona de terras, grande dama do interland paulistano, nascida Almeida Prado por parte do pai poeta. Sabia receber comme il faut aos inúmeros cães, amigos, artistas, amores. Tudo isso dava trabalho a essa taurina com lua em Aquário, que escrevia sem parar uma literatura genial, tresloucada, comparada a de James Joyce, não menos. Caio viajava pelo mundo, essa era sua paixão. Mudava de cidade e de emprego como respirava, naquele seu ritmo budista. Voz mansa, profunda, muitos silêncios. As cartas eram um respiro, uma forma de manter a pouca sanidade mental. Escrever cartas era como manter um diário; havia dias que escrevia cinco ou seis cartas para amigos, amores e familiares. Hilda foi uma destinatária privilegiada, assim como eu. Caio escrevia para si mesmo, como desabafa na epígrafe do “Numa hora assim escura”, para organizar a cabeça, fazer planos, registrar um memorial. Escrevendo, eu falo pra caralho, era seu mote. Quanto à reciprocidade do amor, dura falácia. Como se sabe, não é a quantidade e nem o tamanho que revela o teor do afeto. Eles foram platônicos perfeitos: viviam conectados em outro plano, praticavam telepatia entre outras formas de comunicação. Apesar das poucas cartas que Hilda enviou a ele, a afeição entre ambos sempre foi correspondida e eterna enquanto durou. Foram amigos e irmãos até o fim. Quando Caio morria em Porto Alegre, Hilda era uma das poucas que telefonavam todos os dias. Ela chorava e ele a consolava. Amor de amizade, diziam.

Estrelas, carta de Caio a Hilda Hilst (1975)

 

DA – Embora tenha as cartas como ponto de partida, o livro apresenta uma estrutura coesa, cuja narrativa remonta passagens tanto de Caio quanto de Hilda que antecedem e sucedem as situações abordadas nas cartas. Obviamente que, pelo seu livro anterior e pelo próprio convívio com o Caio, você já detinha desse material do autor. Porém como foi reconstruir os momentos de Hilda? Já havia uma aproximação com a vida e com a obra da autora, ou ocorreu um processo inverso, no qual as cartas a levaram a pesquisar sobre o passado dela, inclusive com o recurso de entrevistas?

PAULA DIP – Conceber um livro de cartas é revelar a passagem do tempo, o movimento social, o pensamento coletivo, o processo histórico. Sem falar nas emoções etéreas e aéreas que só as cartas contêm. É fascinante ver as pessoas dessa forma, tudo se encaixa. Antes de jornalista e escritora, sou formada em História na PUCSP, em 1970, e desde então procurei ver as coisas a partir do processo dialético. Cheguei a considerar seriamente a possibilidade de ser professora, ter uma carreira acadêmica, mas naquele tempo as pessoas viviam sendo presas na faculdade: ter lido Marx era uma condenação. Foi uma orientadora, a Zilda Zerbini, que me sugeriu ir trabalhar nos fascículos de História da Abril. Caio havia trabalhado, antes de mim, deixado pistas invisíveis. Pois foi assim que descobri a escrita. Estudiosa em Português, criava histórias que lia para a classe, trocava poemas com colegas de redação, escrevi poemas desde menina. Mas foi ali na Abril Cultural, que senti que eu poderia ser uma escritora. Com esses olhos, fui atrás da mulher de quem Caio sempre me falou muito: poetisa vivendo na Casa do Sol e amiga do meu amigo, Hilda era personagem frequente de nossos papos. E, sim, parti de um extenso memorial da nossa geração, que virou meu primeiro livro. Mas os livros atraem gente que gosta deles e chegaram outras pessoas que conviveram com a dupla, entrevistei dezenas delas. Reorganizei a obra de ambos de um novo ponto de vista: a amizade que os uniu, confidências, afinidades, as brigas, as gargalhadas. Desenhando uma linha do tempo com suas cartas, contos, gritos e sussurros. Foi uma viagem deliciosa.

DA – As cartas, além de serem registros de uma relação bem particular, estão carregadas de retratos de suas épocas, por meio de olhares deliberados, de comentários incidentais. Você consegue identificar um valor histórico na mesma proporção que literário nessas missivas?

PAULA DIP – Com certeza. É isso que me fascina nesse tipo de livro: as cartas são fontes primárias da experiência existencial de uma determinada geração. Elas revelam o cotidiano, o desenrolar da cena histórica em que viveram o autor e seus contemporâneos, cada um fazendo sua arte, levando sua vida. É um flashback de um determinado momento, como o depoimento de uma testemunha ocular revelando tudo. Nesse sentido as cartas que publico são documentos sociais e políticos de um período muito conturbado da vida brasileira. Entre 70 e 90 (data da primeira e da última carta desse pacote) vivíamos às voltas com uma ditadura cruel, e embora os dois escritores não fossem exatamente militantes, foram vítimas da Censura e da repressão. Hilda hospedou e preservou vários amigos procurados pelo DOPS, e Caio foi um deles. Além de registrarem uma relação bem particular, as cartas são lindas e seu valor literário é inestimável. O professor de literatura gaúcho Luis Augusto Fischer acredita que, se olhadas com o devido distanciamento, essas cartas têm a mesma importância literária dos contos, crônicas e romances dele. Concordo inteiramente.

DA – Algo que fica explícito nas cartas é a voltagem emocional de Caio, sobretudo suas variações. É curioso quando ele aconselha Hilda a não se importar com as críticas, sendo que ele próprio fica extremamente melancólico diante de uma leitura negativa de seu livro. Dentro de uma mesma carta, por exemplo, há notícias de alegria e trechos em que se mostra introspectivo, desencantado quanto à vida que levava. Quem era esse Caio, afinal? De alguma forma, ele escrevia essas cartas também endereçadas a ele?

PAULA DIP – Esse Caio era muitos, como aliás, todos nós somos, mas ele não fazia disso segredo. Escrevia suas cartas como se fossem páginas de um diário, registros em alta voltagem de seus altos e baixos cotidianos. Ele usava a literatura e a correspondência como uma forma de estar em contato com as pessoas que ele amava, fazer uma espécie de auto reflexão. Pensar a vida. Era uma pessoa muito transparente; quando estava triste, revelava sem pudor o motivo de seu desespero, às vezes acordava achando que a vida não valia a pena e me ligava de madrugada, dizendo que queria morrer. Nos textos, despedia-se da vida num parágrafo e, no outro, já estava rindo da própria tristeza. Ele vivia numa gangorra emocional, porque tinha coragem de se jogar nos abismos da dor nu e sem medo, como diziam alguns que testemunharam esses mergulhos. Isso fica muito claro em sua obra; ele se jogava lá no fundo das emoções, das mais sutis às mais despudoradas. É disso que vive um escritor. E quando ele estava feliz, não havia ninguém mais feliz que ele. Era engraçadíssimo, queria sair, dançar, fazer festas, jantares, adorava rir, dançar e namorar muito. Hoje ele seria considerado bipolar. Caio sempre fez análise, frequentou um psicanalista até o final da vida.

 

DA – Outro aspecto, dentro desse mesmo contexto, é o fato de que, nas cartas mais antigas de Caio, as palavras “suicídio” e “morte” aparecem com alguma frequência, diferente das mais breves, datadas nos anos 90, quando já estava infectado com o vírus HIV, que iria matá-lo. Você acredita que, diante da finitude, ele se deu conta de que a literatura era o que sempre o manteve vivo e, portanto, tornou-se mais determinado a escrever?

PAULA DIP – Sem dúvida foi isso mesmo que aconteceu. Caio era um insatisfeito, sempre reclamou da vida e ameaçou acabar com ela muitas vezes, até descobrir, em 1994, que era portador do vírus da AIDS. Quando o exame deu positivo, e isso naquele tempo significava uma sentença de morte, em vez de se matar, ele decidiu viver intensamente e “positivar” sua relação com o mundo. Voltou para a casa da família, no bairro do Menino Deus, em Porto Alegre, e nunca mais reclamou de nada. Começou a cuidar do jardim com o pai, velhinho, com quem havia se desentendido na juventude.  Aproveitou todos os minutos de sua sobrevida para finalizar a obra, revirou gavetas, reeditou textos, publicou um livro póstumo, o “Ovelhas negras”. Antes mesmo de morrer, fez projetos, planejou, viajou, despediu-se da vida de forma gloriosa. É claro que teve momentos difíceis que dividiu com Deus e com poucos e íntimos amigos, e todos se encantaram com sua aceitação Zen e sua decisão de sair da vida de uma forma suave. “Que seja doce”, dizia.

DA – Um trecho marcante é de uma entrevista da Hilda na qual ela denuncia que o então editor de Caio havia dado um bom adiantamento para o livro de uma atriz, enquanto o autor, já com reconhecidos livros publicados, lavava pratos em Londres para sobreviver. Penso que isso, de certa maneira, é um dos fatores que contribuíram para sua obra ter ganhado o devido respeito somente anos depois de sua morte. Na condição de amiga – e também de fã -, como lida com essa questão? É inevitável conter um resquício de mágoa ou parte do princípio de que melhor o reconhecimento tardio que reconhecimento algum?

PAULA DIP – Não acho que a falta de reconhecimento, por parte do público ou do editor, seja um fator para que a obra dele tenha ganhado o devido respeito somente anos após sua morte. Caio sempre viveu adiante do seu tempo, é mais compreendido hoje do que foi então. Ele estudava seu próprio mapa astral e dizia, com sabedoria pontuada de ironia, que só seria famoso depois de morto. Até nesse sentido ele e Hilda eram parecidos, pois ela também não teve uma fortuna crítica enquanto vivia e nunca vendeu muitos livros. Ambos nunca se deram bem com alguns de seus editores, que chamavam de “cornos”, e ela tomou as dores do amigo quando o editor da Cia das Letras preferiu publicar um livro de Bruna Lombardi (que Caio adorava, diga-se de passagem), sem se lembrar de que o escritor pudesse passar por dificuldades financeiras em Londres. Nesse caso específico, que ocorreu nos anos 90, ele lavava pratos para sobreviver, no restaurante L’ Ecluse, em Camden Town, enquanto, na livraria ao lado, seus livros, com a tradução para o inglês de “Os dragões não conhecem o paraíso”, vendiam bem e enfeitavam a vitrine. Ironias do destino. Na verdade, Caio havia recebido um adiantamento de autor em parcelas mensais para escrever seu novo livro, que seria “Onde andará Dulce Veiga?”, mas o adiantamento acabou e ele ainda não terminara o livro. Quando ficou pronto, o editor cumpriu o prometido e o livro foi publicado. Mas nada disso o impediu de viajar pela Europa inúmeras vezes para lançar traduções de seus livros em alemão, italiano, francês e holandês, entre 1990 e 1996, quando morreu, justamente no momento em que sua obra começava a ficar mais conhecida fora daqui.

DA – Você coloca que os contos de Caio eram mobilizados por uma energia cuja fonte estava além da literatura; vinha de um pendor crítico social, de uma necessidade indispensável de usar a máquina de escrever como arma contra toda forma de poder, de ser um antídoto contra qualquer manifestação de tirania. Diante do quadro da literatura brasileira construído nos dias de hoje, acredita que falta um pouco dessa energia aos novos autores?

PAULA DIP – A palavra é uma arma contra a tirania. Foi assim antes, durante e depois dos tempos da ditadura, e continua sendo assim. O texto é um instrumento de expressão e de luta, e escritores, pensadores, filósofos, poetas, compositores sempre enfrentam censura, incompreensão, muitos são perseguidos, torturados e às vezes mortos. Mas a obra deles permanece viva. É bom lembrar que naquele tempo não havia redes sociais, celulares, essas tecnologias que banalizam e embaçam as relações, roubam nosso tempo, mas por outro lado aceleram e ampliam as possibilidades de comunicação. Dizer que a literatura das máquinas de escrever era mais pura, mais autêntica e mais inspirada que a de hoje soa como nostalgia, acho que a boa literatura não tem data, a força da palavra sobrepuja tudo. O século 21 é um momento histórico em que vivemos mais, morremos mais tarde, a longevidade nos dá o tempo e os instrumentos para fazer ao vivo, em cores e em tempo real uma autocrítica de nossa passagem pelo planeta. Quer coisa mais excitante? Só virar jovem de novo. Os temas estão todos aí. Não falta assunto para que os escritores criem bons livros e, aos bons autores, não falta energia. Por incrível que pareça, acredito que, quanto mais a situação piora, mais material os escritores terão para contar nossa história. Escrever é inevitável.

DA – Ao reconstituir a trajetória de Hilda, você ressalta a dificuldade que era para uma mulher, nos anos 60, tomar a carreira de escritora. Nos últimos anos, um debate de mesmo centro tem chamado atenção para a presença de mais autoras no mercado. Acredita que, meio século depois, pouco mudou em relação às mulheres na literatura?

PAULA DIP – As mulheres foram e continuam sendo menos valorizadas que os homens em todas as áreas, vivemos num mundo machista. Não faz muito tempo as mulheres não votavam, sequer frequentavam as universidades. É como se as mulheres existissem apenas para procriar e cuidar da casa e dos filhos. Hilda, que se casou apenas para atender a um pedido da mãe, vivia delatando o “engodo” do casamento; sempre lutou contra essa situação de inferioridade da mulher. Ela foi uma guerrilheira à sua maneira, viveu muito adiante de seu tempo, assim como Caio também o fez. Não quero entrar nesse assunto, que considero vital e altamente inflamável, digno de outra entrevista tão ou mais longa que essa. A literatura dita “feminina”, independente e bem antes do viés de gênero, sempre foi de resistência. Escrever é uma luta árdua, diária, e como disse Virginia Woolf, em 1928: “É preciso ter um teto só seu para poder se dedicar à escrita”. Continua igual, ou pior.

Bilhetinho de Caio F. a Paula Dip (1980)

 

DA – No prólogo do seu livro anterior, “Para sempre teu, Caio F.”, você relata que um jovem atendente de videolocadora reconheceu o seu nome como o da amiga de Caio, em razão de um conto dedicado a você. É muito interessante notar essa redescoberta da obra dele por uma geração que, na ocasião da sua morte, sequer existia. A que atribui essa conexão, num mundo comandado por outros valores, por outras realidades além daquela em que morangos mofam?

PAULA DIP – Como não amar e viver a redescobrir Shakespeare, Dante, Clarice, Pessoa, Machado? Os bons textos atravessam gerações. Tenho certeza de que, quando estudarem a literatura do final do século 20, o escritor Caio Fernando Abreu será considerado um clássico. Morangos continuam mofando e os dragões ainda não conhecem o paraíso. Para mim é muito natural que as novas gerações se encantem com o trabalho dele. Ele começou a escrever muito cedo, sua linguagem, embora singela e irretocável, revela uma originalidade enorme e um perene apelo jovem.

DA – Se Caio seguisse escrevendo hoje, quais temas, supõe, que seriam os de interesse dele?

PAULA DIP – Caio estava sempre muito atento a tudo. Era um escritor político, no sentido largo da palavra, via a vida como um todo, nunca deixou de criticar os problemas da nossa geração; lutou à sua maneira contra a ditadura e todos os seus males. O mais incrível é que parece que o Brasil não mudou. Costumo dizer que ele era meio vidente por ter sido um dos primeiros a falar de ecologia, dos venenos do capitalismo, das questões de gênero, temas que hoje são muito presentes em nosso cotidiano. Vários assuntos que ele abordava ainda estão aí, a serem resolvidos. Crise econômica, corrupção, descuido com a vida no planeta, poluição, desmatamento, o eterno retorno, o desencanto da juventude diante de tudo isso. Ele tinha um olhar agudo e muito focado em relação a esses problemas e acredito que continuasse assim. E como seu trabalho era autobiográfico, de sorte que ele era o herói de suas próprias fábulas, certamente estaria falando da velhice, da maturidade, ainda buscando o amor e sofrendo com a falta dele, em tempos conturbados e escuros como os que vivemos. Daí o título do meu livro. “Numa hora assim escura” é uma frase que encontrei numa carta dele à Hilda escrita nos anos 70, ainda tão atual. É isso que faz dele um clássico: seus textos se referem a questões humanas que não têm prazo de validade, são eternas.

DA – Ao fim, você conclui que Hilda estava sempre à procura de Deus, e Caio escrevendo sobre amor. O que lhe conduziu a esse pensamento?

PAULA DIP – Essa busca por Deus e pelo amor é universal, e está bem evidente na obra deles. E tanto em relação ao amor quanto a Deus, Caio e Hilda tinham sentimentos semelhantes: acreditavam duvidando. Dizem isso em muitas entrevistas. Caio adorava muitos deuses e pedia a eles: quero porque quero me casar. Perseguiu até o fim um amor realizado, mas zombava do próprio desejo garantindo que, se o tivesse encontrado, teria parado de escrever. No caso de Hilda, creio que desenvolveu como poucos uma linguagem extremamente coloquial com Deus e, nesse sentido, eu a comparo a Saramago, especialmente no conto que já citei, “Lázaro”, do” Fluxo-Floema”. Adoro esses versos dela, em “Mula de Deus”, do livro “Estar sendo, Ter sido”, cujo início é assim:

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.

Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada[…]

 

DA – Talvez a pergunta mais difícil tenha ficado por último: qual o seu texto preferido de Caio Fernando Abreu?

PAULA DIP – Quando a gente convive de perto com um artista e desenvolve certa intimidade com a obra dele, fica difícil pinçar favoritos. É claro que, pelo fato de ter visto nascer os contos de “Morangos mofados”, eu tenho um xodó por esse livro (que, aliás, é sua obra mais conhecida), e um carinho especial pelo conto “Pela passagem de uma grande dor”, que ele me dedicou. Amém. Trata-se do relato poético de uma conversa telefônica entre dois amigos, que realmente aconteceu. Caio fazia uma literatura de autoficção, contou nossa história a partir de fatos e pessoas reais, posso nos ver e a muitos de nossos amigos naquelas histórias. Foi um cronista fiel da nossa geração de baby boomers, hippies, yuppies, punks, revolucionários, loucos, criativos; mudamos o mundo e estamos envelhecendo. Ele construiu uma obra coesa e muito representativa daqueles anos loucos que temos o privilégio de rever. Somos a primeira geração realmente vintage.  Aos poucos, a partir do nosso encontro, ele foi me presenteando com seus primeiros livros, dos anos 60 e 70, como o “Inventário do irremediável”, “Pedras de Calcutá”, “O ovo apunhalado”. Caio era um escritor generoso, dividia com os amigos suas dúvidas sobre o trabalho, nos mostrava rascunhos, alguns textos nos entregava em mãos, tenho até hoje originais que ele me deu e já reli milhares de vezes. Li tudo o que Caio escreveu, desde as cartas e as crônicas, passando pelos contos, os textos teatrais e os dois romances, “Limite Branco” e “Onde andará Dulce Veiga?”; o primeiro, seu romance de formação dos anos 70, e o último, dos anos 90, sua despedida do gênero. Adoro “Pequenas epifanias”, “Cartas para além dos muros”, “Os dragões não conhecem o paraíso”. Quanto à dramaturgia, meu texto favorito é “Pode ser que seja só o leiteiro lá fora”, peça escrita em Londres, em 1973.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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115ª Leva - 09/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

A relação do escritor Alexandre Staut com a França não tem início com a literatura. Nasce da memória afetiva de “O garoto selvagem”, longa dirigido por François Truffaut, que assistiu, pela primeira vez, numa madrugada dos anos 80, na célebre Sessão Coruja. Na história, um menino achado na floresta é preso e levado para um vilarejo, onde passa a viver sob os cuidados de um médico. Aparentemente surda-muda, a criança reage à presença alheia com grunhidos, logo sendo tratada, pelos locais, como um animal de entretenimento. A missão do médico é justamente estancar essa bestialidade e incutir no menino o comportamento civilizado, através do exercício repetitivo da comunicação. O que ele resiste, a princípio, em fugas de retorno à natureza, até que a força da razão o domestica para a sociedade.

Foi a lembrança do filme de 1970 a primeira imagem que ocorreu a Staut, ao descer na estação de L’Aber Wrach, um vilarejo francês a oeste do país. Ele se percebeu um selvagem ali, no sentido de desconhecer os costumes, o comportamento e, sobretudo, a língua nativa. Passava o ano de 2002, e o então jornalista tinha viajado à França a convite do amigo Yann Danjou, que estava prestes a abrir um restaurante. Staut e Danjou haviam se conhecido, alguns anos antes, em Londres, onde o brasileiro viveu um período, e passou de lavador de pratos a ajudante de cozinha em restaurantes refinados. Foi ali que aprendeu a cozinhar bem.

A proposta, então, era usar essa experiência no modesto restaurante na cidade litorânea de Brest. O desdobrar dos fatos é o que movimenta a trama de “Paris-Brest”, publicação recente de Staut. Misto de romance de formação e diário de viagem, o livro apresenta, de maneira muito original, o gênero da auto-ficção. O autor manipula, com perícia e envolvimento, as próprias memórias a favor de uma narrativa que reconstitui o passado no adesivo de expressões artísticas: a música, a literatura e, predominantemente, a gastronomia. Prova disso é que muitas iguarias são descritas em seus modos de preparo, revelando outra característica do livro: ser também um volume de receitas.

Acima dessa estrutura compósita, porém, flui um texto coeso, um relato íntimo marcado pela sensação de não pertencimento ao mesmo tempo que por uma gana de que as coisas deem certo, mesmo que tudo aponte para o fracasso. A cozinha do restaurante é seu pináculo particular, de onde enxerga o Brasil através de pratos típicos que encantam os franceses, a exemplo do frango a passarinho e da indefectível coxinha, mas também onde orbitam suas frustrações, seus anseios e suas saídas; é onde se dá conta de que, de omeletes a terrine de foie gras de ganso, a arte da culinária não consegue sobrepor, em si, a arte da escrita.

Em entrevista de opiniões diretas e reveladoras, Staut refaz os passos que o levaram até o romance, partindo da própria literatura para debater sobre o meio e o mercado literário. Criador e editor da conceituada São Paulo Review, seu olhar agudo descortina a realidade brasileira de livros e de autores que, inexplicavelmente, está mais clara para os franceses que para nós mesmos. Educação, literatura de gênero, festivais. Uma ficção que tem o tamanho da própria altura. “Sou um sujeito triste que escreve para tentar ser feliz”.

Alexandre Staut / Foto: Giuliana Nogueira

DA – O seu novo livro tem uma concepção, digamos, sui generis. Há momentos em que é um diário de viagem; noutros, um livro de receitas; e, de maneira geral, um romance de formação. Entre a memória e o processo de composição, qual foi o ponto de partida para escrevê-lo? E como fez para trabalhar com esses três gêneros bem distintos num único texto, sem que a narrativa perdesse a coesão?

ALEXANDRE STAUT – Inicialmente, cinco anos após voltar da França para o Brasil, tentei escrever um romance em que um personagem de um país distante e não identificado chega numa pequena comunidade francesa, longe dos grandes centros culturais do país. O mote tinha a ver com minha viagem, mas principalmente com o filme “O garoto selvagem”, de Truffaut, um filme que amo e que assisti a diversas vezes, desde os anos 80, na Sessão Coruja, da TV, em DVD e num cinema obscuro de Paris. Passei uns dois anos com essa história, mas o livro estava emperrado. Quando já estava quase desistindo, meu amigo Yann (que me levou para a experiência na França, e para quem “Paris-Brest” é dedicado), disse que eu devia escrever sobre minha experiência de vida em L’Aber Wrach, cidadela ao lado de Brest, o primeiro lugar onde morei na França. Porém ainda demorei uns anos para começar a escrita do livro. Morei lá entre 2002 e 2006. Parece que precisava esperar a história decantar de alguma maneira, para que eu conseguisse observar o colosso de coisas que vivi como imigrante no país de uma forma pouco sentimental, com olhar crítico, ora engraçado. Às vezes é engraçado e patético ser estrangeiro num lugar. Me lembro que, já há um bom tempo no lugar, numa mesa de refeição, uma senhora me pediu para passar a baguete. Disse que eu tinha “braços longos”. Como em francês, vezenquando, uma palavra se junta a outra, na hora da fala, não entendi o que queria dizer quando falou “bras longs” (pronúncia: “bralon”). Perguntei o que queria e percebi que meu francês não era tão bom quanto achava que era (risos). Mas voltando à criação do livro em si, houve um dia, dez anos após minha volta, em que acordei e percebi que tinha uma história pronta. Ainda não sabia que o livro ia ser uma mistura de romance de formação, livro de receitas e diário de viagem, algo talvez novo na literatura contemporânea brasileira. Quando estava perto dos dez mil caracteres escritos, percebi que tinha um romance para resolver, nas mãos.

DA – É incrível esse tempo de maturação e, sobretudo, como você bem transferiu uma estadia, que durou anos, de maneira condensada para o livro. O que me leva a pensar sobre a integridade dessas memórias. Durante esse período, você teve algum diário onde anotava sobre os dias, e que serviu de fonte para o romance? Ou foi mesmo um esforço de percorrer essas lembranças, revisitar os lugares, rever as pessoas, sentir os cheiros e os gostos dessa época? A mesma pergunta serve para as receitas. As tinha anotado num caderno ou as escreveu de cabeça? Precisou consultar ou falar com algumas das pessoas daquele tempo?

ALEXANDRE STAUT – Quando Anita Deak, editora do livro, preparava os originais, surgiu a questão sobre os possíveis diários. Ela queria lê-los, talvez publicar parte deles com minha caligrafia. Mas nunca os fiz. Adoro ler diários de escritores, mas nunca escrevi uma linha, a não ser diários terapêuticos, que nunca virão a público (risos). Gosto dos diários da Virginia Woolf, do Lúcio Cardoso, são tantos… Acontece que o período em que vivi na França sempre foi muito presente na minha vida. Quase todos os dias, antes da publicação deste livro, lembrava-me de flashes de memórias, histórias truncadas. Para escrever o livro, quando não conseguia seguir adiante, acionava o trabalho do escritor de ficção que sou, sem me importar muito com a fidelidade dos fatos. Há inclusive alguns nomes trocados no livro, para que assim não comprometesse moralmente pessoas que cruzaram meu caminho na França. “Paris-Brest” é um livro de auto-ficção. É um gênero que gosto. Acabo de ler um livro alucinante da Delphine de Vigan, que se chama “Baseado em fatos reais”. Indico! Sou leitor de auto-ficção, gosto dos livros do Ricardo Lísias e do Julián Fuks, que exploram essa literatura. Falando sobre cheiros, sabores, lembranças, algumas pessoas acham que sou um dândi… faço banquetes para os amigos, participo de festas literárias, criei um site de literatura importante no Brasil (São Paulo Review), escrevo ficção, faço críticas gastronômicas, atuo como ator em peças de teatro e no cinema. Talvez Proust seja a inspiração mais real para este livro… a tiazona dândi mais poderosa que já existiu. Falo dele algumas vezes no texto, cito as suas madeleines, dou a receita original do doce. Bem, queria fazer um livro que despertasse sensações. Por isso, exploro bastante as receitas, o cheiro das feiras livres. Sem contar que de uma receitinha todo mundo gosta. Quando resolvi inseri-las no livro, testei cada uma. Mas minhas receitas não têm medidas certas. Uso punhados, faço medidas na concha da mão. Uma coisa meio bruxo… que sou (risos).

DA – Sim. As referências literárias e as musicais são um tempero à parte no livro, se me permite o trocadilho (risos). Mas já falamos sobre isso. Queria voltar a um momento que é descrito meio en passant, logo no começo, que é sua temporada em Londres, a qual precede os anos na França. Como se encaixa esse tempo em território inglês com sua formação de jornalista, já que viajou para Brest depois de trabalhar um tempo em redações no Brasil, escrevendo sobre gastronomia? Foi em Londres que aprendeu a cozinhar, não? E lá também que conheceu o Yann, um personagem sem o qual o romance não existiria. Como se deu esse encontro?

ALEXANDRE STAUT – Cozinho desde criança. Minha tia Lia fazia bolos de festa. Eu ficava vendo aquele capricho todo. Aos 11 anos, quando queria comer bolo, não pedia para minha mãe. Ia para a cozinha e fazia. Meu pai, que morreu quando eu tinha sete anos, era um grande cozinheiro. Todos os domingos ia para a cozinha, eu acordava com a casa cheirando feijoada, dobradinha. Ele gostava de receber parentes e amigos. Era festeiro. Herdei isso dele. Falo sobre minha família paterna, que é mezzo italiano, mezza judia, e sua relação com a cozinha e a música, no meu primeiro romance, “Jazz band na sala da gente”, de 2010. A Inglaterra aconteceu na minha vida em 1998. Trabalhava num jornal de São Paulo e, ao ser demitido, uma amiga jornalista, Ana Paiva, sugeriu que eu fosse para lá me tratar de tanto álcool e balada. Lá, bebi mais ainda (risos). Mas comecei a trabalhar em cozinhas de hotéis bacanas. Conheci Yann Danjou num desses hotéis e foi identificação à primeira vista. Ou paixão. Uma semana depois, morávamos juntos. Yann foi (e é) meu amor, amigo, irmão, pai, namorado, confidente. Uma amizade que resistiu a três países (moramos juntos na Inglaterra, Brasil, França e depois Brasil, mais uma vez) e a muitas cidades. “Paris-Brest” foi escrito de presente para ele, não é só um livro dedicado ao Yann, é um livro escrito para ele, uma forma de agradecer tanta coisa que vivemos juntos. Hoje, ele mora na França e eu no Brasil, mas nos falamos quase todos os dias. Rimos e choramos muitas vezes juntos. Na mesma semana em que o conheci, em Londres, tive a notícia do suicídio do meu irmão, de vinte e poucos anos, no Brasil. Nunca me esqueço da tarde em que liguei para minha mãe, de uma cabine na Bayswater Road, e recebi a notícia. Sentei no chão da cabine e desmontei. Desliguei o telefone e liguei imediatamente para Yann, que foi me encontrar debaixo de uma árvore no Hyde Park. Chorei até anoitecer e o Yann ficou ao meu lado, calado. Nunca me esqueço dessa árvore. Passava ali depois e via que essa era a árvore da infelicidade. Até hoje essa é a árvore da infelicidade. Achava no suicídio algo chique, via atitude… Ana Cristina Cesar e companhia. Isso até acontecer dentro da minha casa. Enfim, nesse momento, grudei no Yann. Uns meses depois, pedi que me levasse para morar na França. Mas voltando ao livro, ele foi escrito como forma de agradecer ao Yann, pela sua presença nesse momento de dor. E também como forma de levantar seu astral quando o Le Patio Gourmand, restaurante que ganhou dos seus pais, faliu, na França. O livro foi uma coisa pensada como forma de agradecimento. Senti-me um pouco Virgina Woolf ao escrever “Orlando” para Vita Sackville-West. A obra-prima de La Woolf é uma carta de amor, num momento em que a nobre Vita faliu e se viu sem autoestima. Bem, muitos leitores devem conhecer a história da amizade das duas inglesas.

DA – Uma história bonita, afinal, que resiste aos duros golpes da vida. Um fato curioso, que você cita no começo do livro, são os três livros que levou para França. “Como cozinhar um lobo”, da americana M. F. K. Fisher; “O livro das frutas”, da britânica Jane Grigson; e “Jules e Jim”, romance do francês Henri-Pierre Roché. Diante de toda uma bibliografia universal, gostaria que comentasse sobre as escolhas específicas desses livros. E a ausência de uma obra de autor brasileiro deveu-se a uma razão intencional?

ALEXANDRE STAUT – Havia começado a ler livros de gastronomia, e me apaixonei pelo da M. F. K. Fisher. Aliás, este não é só um livro de gastronomia. T.S. Eliot chegou a dizer que Fisher era uma das melhores prosadoras de meado do século XX. E é mesmo. Seu livro mais famoso, “Como cozinhar um lobo”, é sobre guerra e paz, é um manual de sobrevivência em épocas de guerra, é filosofia da mais alta qualidade. O livro de Grigson caiu nas minhas mãos por acaso, dias antes da minha viagem. É de uma beleza sem fim para quem gosta de botânica. Já “Jules e Jim” é um clássico maravilhoso, embora a tradução portuguesa que eu tenha seja lamentável. Único livro de Roché. Adoro autores de obra econômica. E até desconfio daqueles que têm dezenas de livros publicados. Escrever romance é algo muito difícil. Às vezes, o cara escreve um único livro e aquilo é uma obra-prima. Não levei qualquer livro brasileiro para a França. Acho que propositalmente. Mas uns dias antes da viagem lera “Eles eram muitos cavalos”, do Luiz Ruffato, que me deixou transtornado. Ruffato tinha sido meu editor-chefe no Jornal da Tarde. Acompanhei um pouco a criação desse livro que reacendeu em mim a vontade de ser escritor. Ao chegar na França, arrumei um computador e comecei a escrever, a escrever… Tinha um esboço de um romance, nos primeiros tempos lá. Mas era algo muito ruim que joguei no lixo. O mundo está cheio de livros ruins, não queria parir mais um. Falando nisso, não gostaria de ter lançado meu segundo romance, “Um lugar para se perder”. O título é bom, mas, para mim, não é um bom livro. Dois leitores muito especiais gostam dele e o elogiam, Maria Valéria Resende e Leonardo Tonus. Mesmo assim, acho um romance estranho, mal resolvido. Uma vez me encontrei com Sônia Coutinho na Livraria Cultura. Ela tinha lido “Um lugar…” e me disse: “Seu livro é estranhíssimo. Você é escritor” (risos).

DA – Ser estranho também é uma qualidade. Como bem disse, o mundo está cheio de livros ruins que, caso fossem ao menos estranhos, talvez seriam melhores. Mas, à parte a memória e as referências literárias, o livro cede espaço para observações de natureza histórica, a exemplo dos capítulos que se dedicam a desvendar os costumes e os produtos da Idade Média. Como foi o trabalho de pesquisa e por que considerou válido incluir essas informações?

ALEXANDRE STAUT – Ah, sim. Sou apaixonado pela Idade Média, literatura, costumes, alimentação, comércio, comunidades urbanas. Estudo por conta própria o período há muito tempo. Li tudo e vi os filmes sobre Fausto, alquimista, astrólogo e mago, protagonista de uma lenda da Idade Média alemã, que teria feito pacto com o demônio, um arquétipo da alma humana e das nossas aflições. Mas gosto também de livros teóricos sobre o assunto. Na França, há muitos. E é possível sentir a Idade Média bastante presente em diversas cidades do interior. Os cemitérios no centro de alguns vilarejos, na frente da igreja principal do lugar, acho fascinantes.

DA – É marcante também a aparição de canções por todo o livro. Algumas delas, inclusive, apresentam o caráter latente de uma trilha sonora dessa época. Em dado momento, você menciona a participação de Gilberto Gil e Jorge Mautner, num festival em Brest; este último, aliás, de quem você é fã e tentou um encontro, que acabou não acontecendo. Por outro lado, a literatura faz parte de um processo muito mais íntimo que mundano. Há a citação de um encontro com o escritor Humberto Werneck, mas nenhuma outra tentativa de buscar no outro o espírito literário. Nos anos em que passou na França, você mantinha, de alguma forma, contato com a literatura brasileira ou mesmo com jovens autores franceses? Chegou a frequentar feiras literárias, eventos que fossem pautados pela literatura?

ALEXANDRE STAUT – Não tinha pensado nisso. O livro tem, sim, mais música que literatura. Foi um período muito musical da minha vida. Inclusive meu encontro com a música eletrônica. Ia dançar quase semanalmente. Meus encontros com escritores aconteciam por meio de programas de TV e de leituras. Incrível a quantidade de programas de TV na França, com a participação de escritores. Eu assistia a todos. Assim, conheci duas autoras que me acompanham até hoje. Anne F. Garreta, que participa do Oulipo, uma figura bem estranha; e Amelie Nothomb, belga que faz muito sucesso na França com seus romances de títulos esquisitos: “A higiene do assassino”, “Antichrista”, “Cosmética do inimigo”, “Biografia da fome”. Nos três anos e pouco em que estive por lá, basicamente eu li. Li em francês. Ler numa língua estrangeira é uma forma de entrar em contato com as sutilezas de tal língua. Isso requer dedicação. Foram anos em que me dediquei a aprender essa língua que para mim era um tanto desconhecida. Lia autores brasileiros recém-traduzidos lá também. Hilda Hilst, Caio Fernando Abreu. Já conhecia a obra do Caio inteira. Foi bacana lê-lo em francês.

DA – Interessante você citar essa transposição da língua, pois, salvo eventos esporádicos, a exemplo do Ano do Brasil na França, a literatura brasileira parece algo ainda muito limitado a seu próprio território. Você citou Hilda e Caio F., porém, imagino, que deve ter topado com traduções de outros autores contemporâneos. Qual foi sua percepção do interesse da literatura brasileira entre os franceses? Ainda somos vistos pelo viés do exótico, do tropicalismo que exulta suas belezas naturais, seu calor endêmico?

ALEXANDRE STAUT – Estava lá nos tempos anteriores do Ano do Brasil na França, inclusive no momento da festa. O Brasil estava na moda. Traduziram muita coisa boa. Hilda e Caio estavam nessa leva. Era um orgulho chegar às livrarias e ver bancadas de autores brasileiros. Os programas de TV que discutem literatura (são vários, até em canal popular tem!) falavam sobre a gente. Discutiam Guimarães Rosa, liam trechos. Lembro que, em 2005, Lya Luft estava na onda, no Brasil, com os seus livros de autoajuda. Num programa, me lembro, alguém leu um trecho de um desses livros dela, e a apresentadora cortou o entrevistado: “Isso é uma bosta” (risos). Mas não podemos nos esquecer de que, antes da autoajuda, Lya foi uma grande escritora. Hoje em dia, graças ao professor da Sorbonne Leonardo Tonus, a literatura nacional ficou mais em evidência na França. Tudo trabalho do Leonardo! O que ele fez e faz para a literatura nacional por lá já entrou para a história! Há também o trabalho de formiguinha do livreiro e editor Michel Chandeigne, dono de La Librairie Portugaise et Brésilienne, e da Éditions Chandeigne, que já publicou Ferreira Gullar, Affonso Romano de Sant’Anna, Moacyr Scliar, Armando Freitas Filho, Francisco Alvim, Henriqueta Lisboa, Ana Cristina Cesar, Mário Chamie, entre tantos outros.

Alexandre Staut/ Foto: Juliana Carrascoza

DA – Realmente o professor Leonardo Tonus tem feito um trabalho irretocável em prol da literatura brasileira. Mas falaremos disso mais adiante. De volta ao livro, um dos momentos que considero mais tocantes é aquele em que você escala umas pedras à beira mar, onde fica sentado por horas, isolado, escrevendo num caderno. Para mim, essas passagens irradiam toda a narrativa com uma luz de melancolia. O que eram esses momentos para você, afinal? Havia ali mais literatura ou mais autorreflexão?

ALEXANDRE STAUT – Era uma mistura de tudo. Sempre gostei de ficar sozinho, de caminhar, tanto na cidade quando no meio da natureza selvagem. Resolvo cenas de livros em caminhadas, ou então sentado em posição de zazen, principalmente em locais silenciosos. No caso dos momentos de meditação, sentado na falésia do lado esquerdo da cidade de Arromanches-les-Bains, eu olhava os destroços do porto construído pelos ingleses na Segunda Guerra. Havia acabado de ler “Un pedigrée”, do Patrick Modiano (romance sobre os momentos em que seus pais viviam escondidos, por lugares obscuros de Paris, para não serem encontrados pelos nazistas – ainda não traduzido no Brasil). Assim, inspirei-me a escrever um livro sobre meu avô Eduardinho, judeu alemão cuja família migrou para o Brasil. Ele era músico de uma pequena orquestra no interior e dono da funerária da cidade, Pinhal. O livro se chama “Jazz band na sala da gente”. É sua biografia romanceada. Interessante você notar que “Paris-Brest” é um livro melancólico. Você percebeu um traço importante do livro, que também é meu traço. Sou um cara triste. Como Orhan Pamuk, sou um sujeito triste que escreve para tentar ser feliz.

DA – É também nesse instante em que se dá conta de que a escrita é mais forte, em você, que a gastronomia, que o desejo de se tornar um chef. Consegue traçar um paralelo entre o processo de criação e a elaboração de uma receita? Em que a arte culinária e a literatura se aproximam e em que se divergem?

ALEXANDRE STAUT – A escrita sempre foi mais forte em mim do que qualquer outra coisa. É uma necessidade física, real, acho até que só consigo tomar conta do vácuo que vivemos neste planeta por meio da escrita. Talvez ela me distraia da loucura que é estar girando há mais de 700 km por hora, num planeta, sabe-se lá para onde. Quanto a ser chef, nunca o quis. Trabalhei como cozinheiro por uma necessidade momentânea. De qualquer forma, amo cozinhar. Me distrai bastante. Quando estou de saco cheio do mundo literário, vou pra cozinha. Considero a gastronomia uma arte, assim como a literatura. São artes diversas. A gastronomia também é uma coisa mágica. Uma pena que no Brasil muitos intelectuais e até escritores consideram culinária coisa de fresco. Muita gente pensa assim. A gastronomia é um patrimônio da humanidade. É possível relatar a história do planeta Terra por meio dela. Adoro os países em que a gastronomia é tratada como patrimônio; França, Portugal, Espanha, México. Aqui ainda estamos longe disso.

DA – Em compensação, a gastronomia explodiu com um dos carros-chefes de muitos programas de TV. Há canais a cabo, inclusive, que preenchem toda a programação com chefs nacionais e internacionais (e famosos que se acham chefs de cozinha) esbanjando a arte culinária. Esse “fenômeno” acabou por migrar também para a literatura, fazendo com que todas essas celebridades televisivas entrassem na mira das editoras, que abastecem cada vez mais as prateleiras com livros de culinária, de receitas, de viagens relacionadas à gastronomia. Como encara essa fascinação por esse tipo de programa, por livros dessa natureza? E você acredita que, assim como na literatura, há uma banalização da arte culinária; a consolidação de um pensamento de que qualquer um pode cozinhar, assim como qualquer um pode escrever?

ALEXANDRE STAUT – Acho ótima esta explosão do mundo da gastronomia. Acabo de voltar do Piauí, onde fui fazer uma grande reportagem sobre a culinária local. Antes da gastronomia regional entrar na moda, não se bebia cajuína. Disseram-me que hoje tem em todos os bares, vendinhas, restaurantes, supermercados, aeroportos… É a valorização da cultura alimentar.  Por outro lado, as pessoas ainda conhecem mais Nutella do que, por exemplo, o tucupi (caldo da mandioca usado na região Norte, para se fazer vários pratos), ou então dão mais valor ao risoto do que ao baião de dois. Mas, com a popularização da arte gastronômica, espera-se que isso possa mudar um dia. Acho que qualquer um pode cozinhar, como pode escrever. São duas atividades democráticas. A escrita, por exemplo… para escrever basta um pedaço de papel e um lápis. Você pode escrever se nascer rei na Europa ou numa aldeia perdida no Brasil ou na África. Claro que aqui entra a questão do analfabetismo no Brasil, por exemplo. Mas esta já é outra história.

DA – Sinceramente me desagrada essa ideia generalizada de que qualquer um, com papel e caneta, possa escrever. É claro que escrever, sim, mas não fazer literatura. Penso o mesmo da arte culinária. Minha esposa gosta de programas de gastronomia. Certa vez, ela assistia um de competição que, para entrar, o candidato tinha de fritar um ovo; e a maioria não conseguiu. Eu adoro cozinhar, cozinho todos os dias, contudo sei que estou longe de ser um chef. Por outro lado, considero-me um escritor, pois estudo, leio, pratico, entendo as técnicas, os meandros da escrita, e busco, com isso, aperfeiçoar meu texto. Sendo também um crítico literário (escreve para o Valor Econômico), você não acredita que, a despeito de uma importância incontestável, a democracia na literatura tem seu limite na qualidade da narrativa?

ALEXANDRE STAUT – Ah, sim. Também acredito que com papel e caneta não se escreva literatura. É preciso estudar, ler, treinar. Um bailarino, para dar uma pirueta no ar, treina uma vida inteira. Existe uma faísca inicial, que é a inspiração. Depois, o que tem é o trabalho. É preciso trabalhar duro para escrever literatura. Mas ainda acredito que esta é uma arte democrática. O cara precisa de papel, lápis e tempo… além de ler livros, que ele pode comprar por R$ 5, na banca de jornal da esquina, ler de tudo um pouco.

DA – Alguns anos depois de retornar ao Brasil, você lança dois livros: “Jazz band na sala da gente”, de 2010, e “Um lugar para se perder”, de 2012. O primeiro foi uma edição do autor, e o segundo foi publicado por uma editora de pequeno porte. Na ocasião, chegou a procurar um grande selo editorial, mandou o original para a análise de alguns desses? Como avalia essa relação entre um autor inédito e as editoras, no Brasil?

ALEXANDRE STAUT – Não há relação! (risos). Os grandes editores não leem autores em começo de carreira, salvo algumas exceções. Mas até entendo. Editoras recebem 30, 40 originais por dia. Resolvi publicar “Jazz band…” em edição de autor, pois naquele momento tinha uma necessidade quase física de ter um livro lançado. Quando ficou pronto, percebi a importância de uma editora por trás do trabalho. Eu não sabia o que era “preparação de texto”. Para quem não sabe é uma espécie de “direção de arte”, como se faz no cinema. A preparação é essencial. O meu livro saiu com palavras repetidas na mesma página, sem necessidade. Errinhos que só um preparador iria pegar. Quando ficamos muito tempo com um texto, a leitura se torna oração. A gente lê sem se dar conta de cada palavra, da importância de cada palavra no contexto. De qualquer forma, este é um bom livro e merece uma segunda edição, agora caprichada. A dica que dou para quem quer publicar independente: não deixe de contratar dois profissionais antes de imprimir o seu livro, um preparador e um revisor. São trabalhos diferentes, e que só podem ser feitos por pessoas especializadas, que estudaram para isso.

DA – Excelentes dicas, de fato. Outra coisa que você fez, ao voltar ao Brasil, foi criar a São Paulo Review, um dos portais de literatura mais prestigiados nos dias correntes. Como e por que surgiu a ideia de montar a página? E, nesse tempo de existência, a SPR lhe trouxe mais amizades ou inimizades?

ALEXANDRE STAUT – Pois é, sempre li as “Reviews of Books” e percebi a lacuna. O Brasil não tinha nenhuma. Fui com a cara e a coragem e registrei o nome, em 2013. Chamei Viviane Ka, que é do mundo editorial, para ser minha sócia. Em pouco tempo, escritores e leitores perceberam que havia qualidade no trabalho e começaram a nos passar pautas, sugerir resenhas. Surgiu um time muito bom de colaboradores. Nos últimos tempos, a jornalista Ana Weiss se juntou a mim e à Viviane, para fazermos a revista juntos. Ana é uma das jornalistas culturais mais importantes do país. O time está formado e o projeto caminha muito bem. Estamos agora fazendo um plano de negócios para conseguirmos patrocínios, para que possamos ir mais longe ainda. Nunca se sabe, mas acho que consegui mais amigos. Sou contra detonar livros. Sou um jornalista/editor/crítico ecológico. Acho que não vale a pena gastar celulose e energia elétrica para falar mal de escritores e livros ruins. Melhor deixá-los no limbo.

Alexandre Staut / Foto: Macus Steinmeyer

DA – Há pouco você mencionou a questão do analfabetismo no Brasil como um dos principais adversários da literatura. Do tempo em que passou na França, o que trouxe de experiência da relação entre educação e literatura? O que representa a literatura, na vida comum de um francês? E o que poderíamos transferir para nossa realidade?

ALEXANDRE STAUT – Convivi bastante com crianças e adolescentes na França. Eles leem por toda parte, no metrô, andam pelas ruas com livro aberto, na frente da cara. As escolas incentivam a leitura desde muito cedo. Minha enteada, na época uma adolescente, andava com livros para cima e para baixo. Os seus professores passavam tanto obras clássicas quanto contemporâneas. Lembro-me dela comentar com prazer autores que conversam com nosso momento histórico, como Amelie Nothomb. A leitura por lá parece estar incorporada ao modo de vida francês. Talvez seja o país que mais valoriza a literatura. Aqui, falta o trabalho de base. Falta incentivo do governo. É uma questão um tanto complexa, né, não sei se um dia será resolvida. De qualquer forma, não acredito na frase que dizem por aí de que brasileiros não leem.

DA – Falando em professores, quero trazer à conversa o Leonardo Tonus, professor da Universidade Paris-Sorbonne, que tem feito um trabalho inestimável em prol da literatura brasileira na França, em especial no reconhecimento dos escritores contemporâneos. O grande evento que coordena, “Primavera Literária”, no qual autores brasileiros participam de debates na capital francesa, contou com sua participação numa das edições. Como foi voltar à França, desta vez com status formalizado de escritor?

ALEXANDRE STAUT – Participei da “Primavera Literária” em seu primeiro ano, em 2014, junto do Michel Laub, Julián Fuks, Marcelino Freire e Ana Martins Marques. Íamos à Sorbonne e falávamos com os alunos de estudos lusófonos do Leonardo Tonus sobre nossos livros, discutíamos literatura em língua portuguesa, de forma geral. O trabalho do Leonardo na Sorbonne é uma beleza. Ele valoriza cada um dos seus alunos, no que eles têm de mais genuíno. Conheci alguns que não gostavam de estudar e que depois do Leonardo viraram críticos literários, escritores. Mas antes disso, em 2013, ainda a convite do professor e de passagem pela França, dei uma palestra para sua turma, também nas dependências da Sorbonne. Senti um misto de medo, timidez, vaidade. Chegando à sala, todo mundo me deixou super à vontade. Para minha surpresa, estavam na minha palestra Humberto Werneck, Daniel Antônio, ótimo jornalista cultural brasileiro, entre diversos ex-alunos do Leonardo. Tive a sorte de ficar amigo do Tonus, que me chamou para criar o “Outono Literário” ao seu lado, e ao lado da Mirna Queiróz (Revista Pessoa) e Simone Paulino (editora Nós).

DA – Iria perguntar mesmo sobre o “Outono Literário”, realizado este ano em São Paulo, que surgiu como uma derivação da “Primavera Literária”, de Paris. Como foi pegar um evento de sucesso, com suas próprias características, e transportá-lo com mesma relevância para o Brasil? E quanto ao futuro: vocês têm a intenção de torná-lo regular? Buscar parcerias, replicá-lo em outras cidades, ampliar a programação de debates, inclusive com a presença de autores internacionais?

ALEXANDRE STAUT – O “Outono” nasceu no primeiro semestre deste ano, uma união de forças do Leonardo Tonus, da Mirna Queiróz, Simone Paulino e minha. Fizemos eventos na livraria Blooks, com lançamento de livros; numa escola da Zona Leste, onde acontece o Sarau dos Mesquiteiros; na Unibes Cultural; e no Bistrô Ó Chá. Reunimos mais de 20 escritores de todo o país, para falarmos sobre literatura no Brasil. Houve também um evento no Rio de Janeiro. O “Outono” nasceu como proposta de integrar discussões de norte a sul do País, e como evento a se realizar anualmente. Logo mais divulgamos a agenda para 2017.

DA – Desde o ano passado, têm ganhado relevância debates sobre a literatura de gênero, chamando atenção para uma participação mais ampla de mulheres, de negros e de homossexuais tantos nas editoras quanto em festivais literários. Na condição de curador e de autor, como se relaciona com essa discussão?

ALEXANDRE STAUT – No Brasil, o racismo é endêmico e cultural. Por isso, infelizmente, só nos resta uma solução: as cotas. No mais, basta ver os autores e os livros que fazem sucesso, tanto nos cadernos culturais quanto entre o público. A literatura brasileira é branca, heterossexual e “macha”. Com o perdão do trocadilho, acho um saco isso.

DA – Retornando ao livro, há dois momentos bem simbólicos de transição: a sua saída do Brasil para a então desconhecida cidade de Brest, e depois a sua primeira volta ao Brasil, quando se dá conta de que ainda sua estada na França não tinha chegado ao fim, daí você retorna. Mesmo que não tenha qualquer citação, esses momentos me trouxeram à memória o famoso poema de Manuel Bandeira, “Vou-me embora pra Pasárgada”. Consegue traçar um paralelo entre esses anos e os versos de Bandeira?

ALEXANDRE STAUT – Este poema me persegue. Gosto tanto, que incluí um trecho na minha peça de teatro “Marquesa”, encenada pela atriz Paula Cohen, no festival Satyrianas, semanas atrás. Há uma vontade de fugir para encontrar a felicidade, um desejo de percorrer o mundo, como um cigano, ver paisagens. Há também um sarcasmo e uma ternura que são próprios do Bandeira e de muitos autores nacionais. Quando escrevo, tento olhar para o Brasil com essa ternura… mesmo que esteja escrevendo sobre a França, ou qualquer outro lugar do planeta.

DA – Lá, no começo da nossa conversa, falamos sobre os três livros que você levou para França. Se soubesse que algum francês viria passar uma temporada no Brasil, qual dos três livros você recomendaria que ele trouxesse?

ALEXANDRE STAUT – Recomendaria que comprasse três livros aqui… para que entendesse um pouco mais a gente. Para conhecer a vida política brasileira, “Memórias de um sargento de milícias”. Para conhecer a sociedade brasileira, “A hora da estrela”. Para conhecer a alma do brasileiro, “Grande sertão: veredas”.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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114ª Leva - 08/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Lima Trindade

 

Com amplo reconhecimento da crítica especializada, Sidney Rocha é hoje um dos mais expressivos escritores em atividade no Brasil. Ganhou diversos (e importantes) prêmios literários, teve parte de seus livros traduzidos para o espanhol e para o inglês, figurou em uma antologia temática de contos da prestigiada Granta e foi um dos 21 autores que Nelson de Oliveira apostou como os mais representativos surgidos no início deste século em nosso país.

Sua prosa é aguda. O seu campo de interesses não possui limites, restrição de assuntos. É uma prosa que busca representar e apresentar a vida em toda a sua pulsação, toda a sua força. Tornou-se um lugar-comum elogiar o tratamento que ele dá à linguagem. Porém, o seu truque, a sua habilidade maior, como convém aos bons artesãos, está justamente em fazer que a distância entre os signos e os significados seja esquecida. Rocha jamais subestima a inteligência e a capacidade de imaginação de seus leitores. Sua generosidade está na oferta de uma leitura onde prazer e reflexão não precisam vir dissociados.

Às vésperas de lançar Guerra de Ninguém, seu terceiro livro de contos, após os aclamados Matriuska (2009) e O destino das metáforas (2011, vencedor do prêmio Jabuti), o autor faz uma pausa nas comemorações do seu aniversário de 51 anos e, do quarto de um hotel em Maceió, ao lado de sua querida filha, a cineasta Anny Stone, concedeu esta entrevista exclusiva para a Diversos Afins, onde fala do começo de sua carreira de escritor, do amor pela poesia, de problemas culturais e políticos brasileiros, ambições artísticas e do que se trata o seu novo livro.

 

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Sidney Rocha / Foto: Anny Stone

 

DA – Você começou sua trajetória literária com um livro de poemas, Mais que o rei, publicado em 1991. O título é muito provocativo (principalmente ao lembrarmos do “Vou-me embora pra Pasárgada” do Bandeira). Como você avalia esse seu primeiro passo, decorridos mais de 25 anos?

SIDNEY ROCHA – Sua boa pergunta tem uma ótima resposta no Galáxias, de Haroldo de Campos, que escreveu tão bem sobre começos, justo no começo daquele livro: “e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso / e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa / não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever / mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para / começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso / recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é / o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoitesmiluma- / páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas / mesmam ensimesmam onde o fim é o começo onde escrever sobre o escrever / é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo / descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e”…

Acho que todos os autores que nasceram depois do advento do modernismo no Brasil começaram a publicar com aquela ambição de escrever mil páginas para acabar com a escritura, e de que sua obra tenha múltiplos significados. É uma meta ambiciosa e, para ser pleonástico, nada modesta, especialmente se tal começo é pela poesia. Acho que na minha trajetória venho cumprindo, com irônica humildade, aquilo que afirmou William Faulkner: “Talvez todos os romancistas queiram primeiro escrever poesia, e depois descubram que não podem e tentam o conto, que é a forma mais exigente depois da poesia. E depois de fracassar no conto, só então um romancista se dedica a escrever romances.”.

Tenho tentado e mantido a tentativa nos três gêneros, o que mostra algo óbvio demais: o de que sou menos que o rei Faulkner e outros reis. Mas você me pede para avaliar o primeiro passo, depois de tanto tempo, e respondo: foi um começo válido, ou um dos tantos começos que faz um escritor antes da primeira ousadia de fato, que é publicar. A avaliação deve ser não somente literária, mas editorial. Naquela época era muito mais difícil publicar do que agora, e a autocrítica, embora não tão grande, era maior do que agora para a maioria dos autores. A facilidade de meios praticamente nos converteu a todos em escritores, e muitos e muitos se desobrigam de ler, que é o primeiro dever, o primeiro prazer de um escritor autêntico.

DA – Há uma incidência enorme de grandes contistas e romancistas que começaram publicando poesia e, depois do primeiro livro, nunca mais voltaram a ela. Você ainda cultua o gênero, escreve sistematicamente e pensa em sua publicação?

SIDNEY ROCHA – Sim, continuo a escrever poesia. Aqueles do primeiro livro eram poemas imaturos. Os que agora escrevo tenho a ilusão de que sejam mais maduros, e, como um paradoxo, a poesia somente conserva a força se conseguimos aquele vigor inocente da juventude, e, como você citou Manuel Bandeira, na primeira pergunta, termino com os versos dele esta resposta: “Amor total e falho… Puro e impuro…/ Amor de velho adolescente…/ E tão Sabendo a cinza e a pêssego maduro…”

DA – Acompanha a produção dos poetas contemporâneos? Acha relevante esses trabalhos? Atravessamos um bom momento criativo?

SIDNEY ROCHA – Acompanho mais os romancistas, contistas e ensaístas contemporâneos do que os poetas. Quanto a se atravessamos ou não um bom momento criativo, é uma pergunta muito difícil de ser respondida, pois, como nos falta a perspectiva, não é possível que sejamos justos com os contemporâneos, e por isto mesmo comentamos tantas vezes os nossos colegas de modo leviano. Não quero ser apressado na opinião. Não existe um termômetro para avaliar a criatividade, e ainda menos de todo um tempo. Além do mais, publica-se tanto hoje em dia que seria impraticável, mesmo para o leitor mais voraz de poesia, acompanhar o que sai e opinar com justiça.

DA – Sua prosa, por meio de uma sintaxe e evocação de imagens pouco convencionais, costuma apresentar um alto teor de tensão no trabalho de linguagem, exigindo leitura atenta e reflexiva. Essas características não restringem seu alcance? Ou são os autores que subestimam a capacidade dos leitores?

SIDNEY ROCHA – Nunca escrevo pensando em coisas assim, se o texto é mais tenso ou menos tenso, ou mais ou menos denso, nem sobre o que pensará o leitor. É muito interessante e inteligente o que você diz. Mas refletir sobre o alcance da obra e os seus leitores é tarefa mais dos editores e críticos do que dos escritores.

DA – O predomínio da literatura de entretenimento nas gôndolas das livrarias e listas de “mais vendidos” são indicativos da mudança do perfil do leitor brasileiro em relação ao das últimas décadas do século XX?

SIDNEY ROCHA – A mudança de perfil é mundial, não especial no Brasil. O Brasil, como por sinal em praticamente tudo, faz nada mais que seguir a onda global. Mas pode-se dizer que talvez tenhamos contribuído para o início dessa voga, quando exportamos autores como Paulo Coelho. Na atualidade, dá-se a exacerbação do que já vinha antes como tendência.

DA – A política vigente de “democratização” do fazer artístico, que nega a especialização, a profissionalização, e desqualifica a técnica em nome da simples expressão, defendendo que todos são escritores, que todos podem e devem publicar seus livros, independente da relevância do que tenham a dizer, não acaba por se constituir num grave problema de diluição e enfraquecimento da cultura?

SIDNEY ROCHA – Essa é uma questão muito complexa. Não acho que o problema seja a democratização ou a democracia, e sim justamente o contrário. Do baixo nível da educação, do baixo nível dos meios de comunicação. Nunca houve tantos escritores, nunca houve tão poucos escritores, pode ser a máxima paradoxal e óbvia. O excesso de publicação não representa uma vitalidade, e sim um enfraquecimento. Não é pela superabundância de livros que alcançamos nem a quantidade nem a qualidade de leitores. Por outro lado, a cultura não é feita somente da chamada Alta Cultura, e sim de todos os meios de que dispõe o homem. Não cabe a um escritor ser juiz – por sinal, que profissão detestável a de juiz – do seu tempo nem da sua cultura, nem dizer o que vale a pena ou não ser fruído. Mas não devemos nos rebaixar ao mainstream.

DA – Sofia e Matriuska trazem questões em torno da identidade feminina, seu universo de representação, simbologias, condições existenciais e, sem sombra de dúvida, as relações de poder e violências que a cercam. Você se identifica como feminista? Se enxerga como autor engajado em causas de interesse social?

SIDNEY ROCHA – Sim, mas os meus livros de ficção não são obras de ativista nem panfletos ou manifestos a favor da causa A ou da causa B, por mais justas que sejam. A ambição do escritor é a da beleza, não a da verdade, da emoção humana, não das discussões políticas e sociais. Em Matriuska e Sofia há personagens de ficção, não mulheres de carne. As mulheres de verdade sofrem muito mais injustiças e são muito mais inspiradoras e dignas de amor, admiração e enlevo que as modestas figuras que há nesses e noutros livros.

DA – Acho o título de O destino das metáforas sensacional. A capa também é um feliz achado. Sei que você, sendo igualmente editor, se envolve em todos os processos criativos dos próprios livros. Seria arriscado dizer que esse volume de contos recusa com virulência todo e qualquer realismo?

SIDNEY ROCHA – Obrigado pelo elogio ao título e à capa, devo os dois a meu editor e amigo Samuel Leon. Você acertou em cheio no que diz respeito à recusa virulenta. Quem busca reinventar a vida em palavras tem de ser capaz, ou pelo menos, tentar tocar a Realidade, não o realismo, que continua a ser a doença infantil da literatura brasileira.

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Sidney Rocha / Foto: Anny Stone

DA – Ministrar oficinas de escrita criativa e leitura crítica se tornou muito comum entre os escritores. Você abriu um curso recentemente, onde estabelece como um dos objetivos principais o exame da “emoção”. Pode detalhar essa história?

SIDNEY ROCHA – O curso foi uma tentativa mais de estimular leitores que formar escritores. Se a tarefa de um escritor é, por excelência, antiacadêmica, é natural que um curso que se dedique a percorrer os caminhos da escrita se concentre na emoção. Se um arquiteto como Le Corbusier falava de máquinas de morar e mover, um escritor move-se pela emoção, mora na emoção, ela é a sua casa, o seu meio de transporte. Foi isso que tentei despertar nos alunos-escritores-leitores no modesto, rápido e introdutório curso. Um exercício de sensibilização, mais do que a carpintaria da escrita.

DA – Em Fernanflor há a afirmação que “todo retrato é um retrato falado – ou uma imagem que fala”. Nesse jogo, em que o objeto se livra do criador e se torna outro por via da linguagem, é onde se encontra a chave da sua libertação: a experiência direta, sem intermediários?

SIDNEY ROCHA – Que pergunta profunda e, portanto, difícil. Creio até que já contém a resposta, tão rica ela é. O fato é que a linguagem tem muitas dimensões e camadas. Mas não é a própria linguagem um meio? E sendo meio, intermediária? Ainda não chegamos àquele estágio reclamado pelo poeta Rimbaud, de uma linguagem de alma para alma. Talvez não haja chaves nem portas, para prosseguir na metáfora que você usou, e não haja também uma experiência direta e sem intermediários, exceto no misticismo, e literatura não é misticismo, embora, para muitos seja uma forma de mistificação.

DA – Nesse caso, sua afirmação caminha no sentido oposto ao dos estruturalistas, que viam a linguagem como fim e nunca meio. O conteúdo para você é tão importante quanto a forma?

SIDNEY ROCHA – A linguagem é meio, é fim, é princípio. A ambição de todo escritor é que a forma e o conteúdo estejam de tal modo em harmonia que o leitor não note que haja diferença entre uma coisa e outra.

DA – A Lutécia de Cristina e Jeroni Fernanflor evocou em mim a lembrança da estranha e lúgubre cidade de Fernanda, esposa de Aureliano Segundo em Cem anos de solidão. Qual o lugar da literatura hispânica sul-americana na construção do seu imaginário? Crê que o realismo mágico esgotou inteiramente suas possibilidades estéticas?

SIDNEY ROCHA – Todas as cidades podem ser lúgubres e estranhas, e uma das artes das boas leituras, como a que você aponta, é estabelecer correlações que nunca ocorreram ao escritor no momento em que escrevia seu livro, pela simples razão de que ainda não ocorreu a influência desse imaginário da literatura hispânica em mim, a realidade da América, sim; algo diferente do realismo, claro, com magia ou não. Coisas como Realismo Mágico e Autoficção são clichês inventados pelos acadêmicos e a mídia apenas para designar práticas tão comuns na narrativa desde que o primeiro não-escritor contou a primeira história.

DA – Guerra de ninguém será o nome do seu próximo livro de contos? Ele fechará uma trilogia ou não apresentará vínculo com os dois antecessores? O tema central seria o desencanto com a falta de perspectivas para um bem comum coletivo, a falta de horizontes políticos?

SIDNEY ROCHA – Sim, será o terceiro livro de um conjunto publicado pela Iluminuras, mas, como os anteriores, o conteúdo não está necessariamente atrelado a horizontes políticos, nem a regiões ou espaços específicos, e nunca faltarão as viúvas das vidas secas para reclamá-los. É um livro sobre seres humanos de qualquer parte. Os nomes das pessoas e das cidades não são nem simbólicos nem pontos de inflexão ou reflexão, apenas a maneira lúdica que tem um escritor de nominar o que não poucas vezes é inominável.

DA – Mas não há um tema, questão ou ideia comum a atravessar os contos?

SIDNEY ROCHA – Escrevi Guerra de Ninguém sonhando que o livro fosse um imenso campo minado.

DA – Essas indefinições de horizonte político e espaço físico também se estendem ao tempo histórico?

SIDNEY ROCHA – São vários tempos e várias histórias. O modo de tratar tudo isso, e também as vidas dos personagens, está longe de qualquer solenidade ou preocupações com ideologias. Ainda que algumas dessas figuras sejam nomeadas e tenham cenas de suas vidas reais identificadas por algum leitor que conheça suas biografias, vivem mesmo é no espaço literário, este é o seu horizonte.

DA – Pode dar uma pista de qual seria esse conflito sem combatentes insinuado no livro, o que os leitores podem esperar de você?

SIDNEY ROCHA – Os combates são os cotidianos, os dos sonhos de uns, as desilusões de outros, e, como em todas as guerras, os limites, os extremos, as derrotas estão em questão.

 

Lima Trindade é autor de “Todo Sol mais o Espírito Santo” (contos, 2005), “Supermercado da Solidão” (novela, 2007) e, entre outros, “Aceitaria tudo” (contos, 2015). Foi editor da revista eletrônica Verbo21 por mais de quinze anos e é mestre em teoria da literatura pela UFBA.

 

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113ª Leva - 07/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

John Lennon não teve a mesma sorte que Tadeu Sarmento. Em 8 de dezembro de 1980, o ex-Beatle caminhava pelas ruas de Nova Iorque, quando foi abordado por Mark Chapman, um sujeito gordo, de óculos de lentes grandes e cabelo escorrido, que lhe pediu um autógrafo. Horas depois, Lennon retornava ao hotel onde estava hospedado, e Chapman novamente o aguardava, desta vez armado de uma pistola. Alegando ouvir vozes que lhe mandavam matar, o suposto fã disparou contra o músico inglês, atingindo-o fatalmente quatro vezes nas costas.

Sarmento conheceu Chapman, quando trabalhava numa empresa de Call Center, em Recife. Mas as vozes que este ouvia eram as dos telefonemas dos clientes. Com o tempo, nasceu entre eles uma amizade, contudo persistia em Sarmento a sensação de que já conhecia o colega de trabalho de outro lugar. Certa noite, então, veio a revelação: o amigo era o assassino de John Lennon. Não o legítimo, que estava preso fazia décadas, mas um sósia anônimo de Chapman chamado Gabriel Dourado, que sequer sabia quem era o ex-Beatle.

O inusitado da descoberta foi o ponto de partida para o romance “Associação Robert Walser para sósias anônimos”, que venceu o Prêmio Pernambuco de Literatura de 2014. Com tom farsesco e técnica impecável, o autor recifense amalgama registros históricos e referências literárias a uma inventividade burlesca, para estruturar a trama sob duas linhas narrativas que versam sobre a figura do duplo, sendo a primeira a tal associação de sósias cujo desejo é se anularem à imagem de seus originais, num arremedo de seu patrono, o obscuro escritor suíço do título, que escolheu viver seus últimos dias no anonimato.

A outra metade da história se passa numa cidadezinha fictícia, localizada no Paraguai, adotada por fugitivos nazistas como refúgio, em especial pelo país estar sob o punho de um regime ditatorial. Ali, os habitantes, à maneira do comportamento de um rebanho, seguem os imperativos de Immanuel Kant, reprisando os hábitos do filósofo prussiano, inclusive aqueles que dizem respeito à sua vida sexual. Nesse jogo de duplas identidades, o romance rompe sua casca de surrealismo e, por meio de reflexos dos tempos modernos, toca em temas que se referem à apropriação do outro de modo a lograr a relação com o próprio mundo.

Este, de fato, é um dos assuntos recorrentes dessa sabatina: o modo pelo qual a internet, sobretudo com o ingresso das redes sociais, possibilitou a descaracterização do indivíduo em peças de um modo de proceder coletivo, de máscaras que cobrem máscaras numa postura que se tornou aceitável e, por que não?, padrão. Sarmento percebe a literatura neste mesmo contexto, apontando os novos rumos do mercado editorial, com a disseminação das pequenas editoras e dos novos autores, e ainda falando sobre as buscas de seu processo criativo, do novo livro que está por sair, da influência dos autores hispano-americanos e da poesia em sua ficção, da literatura feminina e da importância de ter conquistado um prêmio literário. Uma conversa que revela um escritor maduro, prolífero, atento à qualidade de sua escrita na mesma proporção que preocupado com o leitor. “Não quero me fechar em um mundo particular e escrever histórias ininteligíveis para a adoração de um seleto grupo de jacarés empalhados”, declara.

Tadeu Sarmento
Tadeu Sarmento / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seu romance, “Associação Robert Walser de sósias anônimos”, trata de uma maneira distinta do que se costuma abordar a figura do duplo na literatura universal. Seus personagens não carregam em si a ânsia de substituir (ou exterminar) seus originais, porém introjetam essa condição como uma forma de se apagarem, uma espécie de suicídio em vida. Isso acaba por trazer à memória “O mito de Sísifo”, em que Albert Camus argumenta que “só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”. Diante dessa afirmação, você acredita que, no mundo ultramoderno e expositivo, desejar intensamente ser o outro, negar de modo integral a própria identidade, é uma decisão que está mais ligada à patologia ou à filosofia?

TADEU SARMENTO – Está ligada às duas. Aliás, depois que Nietzsche nos revelou que sistemas de conhecimento dependem mais das paixões dos filósofos do que gostaríamos que dependessem, não podemos mais separá-las. Estou pegando a raiz etimológica do substantivo “patologia”, que segundo a Wikipédia (risos) vem de pathos, paixão. É nesse sentido que faço minhas as palavras do narrador do “Associação…”: “a paixão de querer ser outra pessoa só não é maior que a de esquecer quem você é”. Essa é a tese central do romance, que você coloca muito bem na pergunta. Em tempos de redes sociais, esse desejo de apagar (ou esconder) a si mesmo para construir um outro que você não é, tomou proporções de um surto psicótico sem precedentes. Não é à toa que muitos leitores hoje em dia gostem tanto da chamada “autoficção”. É que todos fazem “autoficção” diariamente em suas timelines. Cada um faz da própria vida uma ficção fantasiosa, colocando os demais como coadjuvantes da grande novela do seu EU fantasioso. Posso citar um exemplo prático, da data corrente (a entrevista foi realizada no fim de agosto): quando o golpe contra a presidente Dilma ainda não havia sido consolidado, vi muitos amigos afirmarem em rede que pegariam em armas caso acontecesse, que usariam de violência, e isso e aquilo. Agora que o golpe se consolidou, o discurso já se deslocou para um viés mais brando, de elogio às qualidades da presidente e da afirmação de que “a história fará justiça”, etc. Quer dizer: muda-se o roteiro, mas não se larga o personagem. É patético, é triste, é risível, mas é profundamente… humano. Por isso é tão bonito. A humanidade é constituída menos de grandezas e bem mais dessas pequenas baixezas mesmo. Não somos grande merda e ter consciência disso torna a vida mais suportável.

DA – Aí está um dos subtextos a que se ocupa o livro: a possibilidade de ser outro através do ingresso nas redes sociais. Mais que uma fuga, essa pode ser uma condição de anestesia, de mentir para si que há um meio (ou meios) de se esquivar dos problemas reais, da vida que existe no espaço-tempo até o acesso ao smartphone ou ao computador. Não caminhamos, desse modo, muito mais para ser um sósia de nós mesmos que de um outro a quem se guarda admiração?

TADEU SARMENTO – Faz sentido. Acredito que a premissa secreta que move os sósias que frequentam a Associação Robert Walser é a ideia de que ninguém escolhe seu modelo de admiração por acaso. Isso Hussein talvez tenha percebido antes de nós, o que fica claro durante aquele exercício em que ele manda os sósias escreverem o próprio nome na borda das meias. Talvez sejamos incapazes de nos apagar por completo, por isso escolhemos modelos que guardem alguma identificação conosco. Modelos através dos quais possamos trazer à luz aquilo que temos de mais guardado. Nesse sentido, ser um sósia de si mesmo ou de um outro termina dando na mesma. O sósia do Chapman é tão retraído e paranóico quanto o Chapman original. Ele apenas encontrou um palco sobre o qual atuar. Podemos dizer que esse nosso palco é a rede social. “Você não pode fugir de sua própria sombra”, diz Jack London na epígrafe do livro. Sou tão fascinado com essa questão da teatralidade nas redes sociais que depois do “Associação…” escrevi outro romance mais específico sobre o assunto. Não posso dar detalhes porque o livro está em análise em um prêmio por aí. Mas em breve teremos notícias dele. Boas notícias, espero.

DA – O curioso é que, diante dessa sensação reinante de absurdo, o romance abre uma segunda linha temporal, na qual um outro grupo de sósias, ocupando uma cidade tropical onde também se refugiam nazistas, seguem monasticamente os preceitos filosóficos de Immanuel Kant. Como a razão consegue se estabelecer nesse universo frequentado justamente pela falta de lógica? E mais, é possível existir sósias de Kant nos dias de hoje?

TADEU SARMENTO – Essa segunda linha temporal é interessante. Ela não existia na primeira versão do “Associação…”. Tive a ideia de incluí-la depois de me lembrar desse obscuro livro que li na época da faculdade de filosofia. “A vida sexual de Immanuel Kant”, de Frederic Pàges, existe. O livro trata dessa colônia de kantianos e na época do seu lançamento causou um escândalo moderado, relativo a questões de autoria. Resolvi colocá-lo no livro, em uma espécie de exercício metaliterário no estilo Vila-Matas, depois que percebi que para por em xeque a questão da identidade, precisava colocar também em xeque a questão da autoria. A pergunta que o escândalo Pàges/Botul suscitou foi a seguinte: até que ponto um texto perde sua validade quando se descobre que seu autor é também uma invenção ficcional? Pois foi essa a acusação que fizeram a Pàges na época, a de ele ter inventado o filósofo Jean-Baptiste Botul. A partir daí, alguns jornais tentaram desmerecer a obra. Só que essa tentativa de desmerecimento ocorreu, em parte, do fato de Pàges ter enganado muitos com a brincadeira. Isso está bem tratado no “Associação…” e a ligação dessa história com a história da associação de sósias é tão orgânica quanto contrapontual. A ideia dos criminosos nazistas veio depois. Não tem nada a ver com o livro de Pàges. Quanto à pergunta em si, creio que a razão consegue se estabelecer bem em um universo, como você disse, frequentado justamente pela falta de lógica, uma vez que o que consideramos “ilógico” é na verdade um outro tipo de lógica ainda não desvendada. Hoje em dia não só é possível haver sósias de Kant como eles existem de fato. Somos todos nós. O homem moderno, que assassinou Deus para colocar em seu altar vazio a própria consciência como único tribunal e único juiz, é uma invenção kantiana. Somos todos sósias de Kant.

DA – Falando em Deus, recordo-me de ter lido que seu próximo romance, que sai em breve pela Confraria do Vento, chama-se justamente “E se Deus for um de nós?”. Não sei a que ponto pode adiantar a trama, mas há também o uso dessa carga filosófica para expor e problematizar comportamentos e valores sociais modernos, a exemplo do que foi feito em “Associação…”?

TADEU SARMENTO – O “E se Deus for um de nós?” é um romance sobre um assassino em série de ruivas virgens que se envolve com uma irlandesa que muitos acreditam ser uma espécie de Joana D’Arc do IRA. Escrevi o “Associação…” em 2013. De lá para cá, escrevi mais três romances, um deles é o “E se Deus for um de nós?”. Os outros dois estão submetidos a prêmios literários de inéditos. Todos os três que vieram depois diferem em tudo do “Associação…”. Gosto bastante do “Associação…”, mas não pretendo ser um escritor para pares, críticos literários e afins. Quero chegar ao leitor comum (leia-se: leitores não especialistas), enquanto eles existirem. De modo que a resposta é não. Meu romance que sai esse ano pela Confraria é enxuto de referências nem tem jogos filosóficos ou literários metalinguísticos. Seu grande trunfo é o enredo, e a maneira como consegui que esse enredo fluísse bem até o final. Mas continuo com o mesmo senso de humor. E os personagens que surgem com a trama são impagáveis, mas absolutamente verossímeis: operadores de Call Center com distúrbios nervosos, gays homofóbicos, policiais canastrões, adeptos de seitas religiosas malucas, metaleiros nazistas, surfistas com pernas amputadas, traficantes de filmes pornôs ilegais, virgens sodomitas, etc. É também um dos livros mais politicamente incorretos que eu já li (risos). Terei sorte se não for preso depois de lançá-lo. Do jeito que as coisas andam…

DA – Mas já há no “Associação…” a ocorrência desse humor cáustico, de uma ironia cortante que, em certos momentos, pode ser gatilho para o desagrado dos mais obtusos, dos patrulheiros mal-humorados ou mal-intencionados. Pela sua resposta anterior, parece-me que isso não lhe tira o sono nem um pouco. Sendo assim, sua intenção, enquanto escritor, é provocar o leitor, testar sempre seus limites? O politicamente correto é mais um estímulo que uma trava ou, menos ainda, uma constante aporrinhação?

TADEU SARMENTO – Não apenas minha intenção, mas acredito que o que caracteriza a boa literatura é justamente sua capacidade de colocar o leitor em contato com sentimentos e pontos de vistas conflitantes ao seu, e não apenas conflitantes, mas em alguns casos até indigestos. O politicamente correto não deve ser empecilho para escritor nenhum. Muitas vezes é tarefa do escritor dizer como a realidade é, e não como ele, enquanto cidadão, gostaria que fosse. Se num romance há um personagem misógino, homofóbico, racista, etc., como construí-lo sem lançar mão de passagens misóginas, homofóbicas ou racistas? Tudo depende se tais passagens funcionam e/ou são essenciais à narrativa. Note que esta é uma pergunta técnica, não moral. Uma literatura que responda a perguntas morais deixa de ser literatura e vira panfleto de igreja. E caso essas passagens sejam necessárias, o escritor deve estar preparado para negociá-las diante de um possível linchamento público. Claro que, como você coloca muito bem na pergunta, sempre haverá algum mal-intencionado pronto a retirar uma citação de contexto para pilhar um escritor nas redes sociais. É que depois que a fogueira está acesa, qualquer um arruma motivos para levar seu graveto seco para alimentar as chamas. Mas é só isso o que eles têm: um graveto seco. A rede social é como Deus: deu voz a muitas jumentas de Balaão.

DA – Voltando ao romance, uma outra leitura que pode ser feita é a respeito da própria literatura contemporânea. Você parece lançar mão de inúmeras referências literárias como uma maneira de trazer à luz a literatura que é feita e consumida hoje em dia, como se nós, novos autores, fôssemos uma cópia mal-acabada do que nos precedeu. Acredita que os escritores de hoje são sósias que estão longe de respeitar o legado de seus originais?

TADEU SARMENTO – Bem, quem usou a expressão “cópia mal-acabada” foi você (risos). Mas acredito que todo escritor, no início, comece sempre como um sósia, no sentido de escolher um modelo (um “original”) para copiar e dar os primeiros passos na escrita. A fase seguinte é a da negação dessa influência, em um esforço de tentar criar um estilo de escrita. Isso é muito natural, e tem mais a ver com o “desrespeito” do legado da tradição que elegeu como sua, que com o “respeito” (como você colocou na pergunta). Todo escritor passa por esse “assassinato simbólico” do pai, numa tentativa de adquirir autonomia como autor. No fundo, o estilo de um escritor vem a reboque, e depois de muitos anos de escrita. Nasce do exercício diário, da fraude bem ensaiada sobre a soma do estilo de tantos escritores que leu. Só que há também o risco de isso nunca acontecer, de o escritor nunca criar um estilo, e não há problema algum nisso. Temos ótimos escritores que nunca desenvolveram um estilo, mas que executam bem suas ideias e conseguem compor um romance que vale a pena ser lido. Falo de romances porque é a minha praia, mas isso serve para poetas ou contistas também (acho). O “E se Deus for um de nós?” é a minha tentativa de superar, por exemplo, a influência de Roberto Bolaño e de Enrique Vila-Matas na minha escrita e criar um estilo. Terei conseguido? Bem, isso cabe ao leitor dizer. O adjetivo deve sempre partir da boca do outro. Elogiar a si mesmo é falta de decoro.

DA – Você citou um chileno e um espanhol, mas, durante a leitura do “Associação…”, senti uma frequência constante da literatura argentina em sua ficção. Autores como Antonio di Benedetto, Mario Levrero e J. Rodolfo Wilcock (sobretudo nas biografias que ocupam o fim) parecem lhe emprestar traços de seus estilos, de seus teores narrativos, de suas predileções temáticas. De maneira geral, a literatura hispano-americana é uma forte referência para você, enquanto autor e também enquanto leitor? E qual é a sedução dos hermanos, que a literatura brasileira não tem?

TADEU SARMENTO – Minhas referências são sazonais. Já tive meu “ano Bolaño”, onde li tudo o que saiu do escritor chileno pela Companhia das Letras. Tentei acompanhar com frequência a coleção Otra Língua, que saiu pela Rocco e foi capitaneada pelo mestre Joca Reiners Terron. A principal sedução da literatura argentina, para mim, é essa desenvoltura que tem em passear pelos gêneros (alguns ditos “menores”, como o romance policial) e sua capacidade para digerir a própria tradição literária. Nossa literatura ainda é um pouco conservadora nesse sentido e está mais ligada a certa tradição realista. Claro, falo de um modo geral, excetuando-se o próprio Terron, Karam, Nelson Oliveira, Rosário Fusco, Campos de Carvalho, Daniel Pellizzari e tantos outros. Mas sobre as biografias inventadas, o pai de todos nós é o francês Marcel Schwob, autor do genial “Vidas imaginárias”. O Wilcock e o Benedetto que você cita, por exemplo, eu ainda não li. O fato de você perceber traços deles no “Associação…” só prova que bebemos na mesma fonte, que é a fonte ocidental da literatura de invenção.

Tadeu Sarmento
Tadeu Sarmento / Foto: arquivo pessoal

DA – Fonte, aliás, com a qual o “Associação…” inunda suas páginas. Faz tempo que não leio um romance que prioriza, mais que o estilo ou a linguagem, sua potência inventiva. De onde nasceu a inusitada (e fantástica) ideia sobre essa associação de sósias? Como foi o processo de composição do livro? Chegou a recorrer a algum trabalho de pesquisa?

TADEU SARMENTO – Fico feliz que tenha gostado, mas apesar de ser um romance inventivo, como você bem colocou, o gatilho para sua ideia partiu de um acontecimento prosaico: em 2012, eu trabalhava como supervisor em uma empresa de Call Center e conheci um colega de trabalho (Gabriel Dourado, que depois se tornou um grande amigo) que é um sósia anônimo do Mark Chapman. O romance, aliás, é dedicado a ele. Quando o vi pela primeira vez, fiquei intrigado, com aquela impressão que temos quando conhecemos alguém que nos lembra outra pessoa, sem que saibamos qual. Fiquei uns bons dias assim, até que certa noite acordei assustado e gritei: “Meu Deus, Gabriel Dourado é o assassino de John Lennon”(risos). Tive que alertá-lo, sobretudo porque ele andava querendo passar férias nos EUA e precisei dissuadi-lo da ideia, alegando que poderia ter problemas por lá, caso cruzasse com algum beatlemaníaco que, ao vê-lo, poderia acreditar que Chapman houvesse saído da cadeia. Esse foi o pontapé inicial para a ideia do romance. Quanto à associação de sósias, em 2010, tive uma crise de depressão que me levou a passar sete dias em uma clínica para doidinhos moderados. Depois que saí, fiz tratamento por um ano e estou bem desde então. O fato é que tanto na clínica quanto na terapia fora dela, participei de grupos de autoajuda para pessoas na mesma condição em que eu estava. Todas as reuniões da Associação Robert Walser são baseadas nessas reuniões. O próprio prédio da Associação, descrito no romance, lembra muito o prédio da clínica. O bacana foi que, apesar de estar sofrendo na época, consegui enxergar algo de muito cômico e de muito teatral naqueles encontros. Essa marca d’água humorística sobre um desespero terrível perpassa todo o meu romance. Basicamente foi essa minha pesquisa.

DA – O resultado foi a conquista do Prêmio Pernambuco de Literatura, em 2015. Na ocasião, você já tinha dois livros lançados, portanto como esse prêmio refletiu na sua carreira literária? Há uma ideia de que uma distinção literária de repercussão nacional, quando não envolve uma boa recompensa financeira, serve para projetar o autor para um público maior, para uma grande editora. Qual foi a sua experiência, nesse caso? Qual o valor real de um prêmio literário? 

TADEU SARMENTO – Refletiu no sentido de que tive oportunidades que não teria se não ganhasse o Prêmio. Conheci pessoas. Fui chamado para lugares. Costumo dizer que o II Prêmio Pernambuco de Literatura me salvou. Já havia disponibilizado 11 livros inéditos na internet e estava prestes a pendurar as chuteiras (leia-se: não querer mais publicar e seguir escrevendo para sempre no anonimato), mas o Prêmio Pernambuco mudou tudo isso. Ganhei um bom dinheiro também, com o qual pude comprar um computador de ponta e um software original do Word. Mas você sabe melhor do que eu, Sérgio, que essa glória dura pouco tempo. Logo vem a próxima edição do prêmio e somos esquecidos tão rápido quanto. O dinheiro acaba também. É assim que a coisa funciona e é bom que funcione assim, pois 99% do principal trabalho do escritor acontece no anonimato e na solidão. Algo que digo em favor do Prêmio Pernambuco de Literatura é que é um prêmio sério. Quando o ganhei, não conhecia ninguém no meio literário, estava enfurnado há quatro anos em uma empresa de Call Center, comendo o pão que o Diabo amassou, cagou e cuspiu em cima. Ganhei pelo texto mesmo, com uso de pseudônimo. Eu e mais meus três (hoje) amigos Helder Herik, Rômulo César e Wander Shirukaya (que levou o prêmio principal)… taí, acho que a amizade desses três caras foi a melhor coisa que o Prêmio me deu. Se for medir o valor real do Prêmio pela amizade deles, eu diria que é um valor inestimável.

DA – Pois é, isso é algo que eu desconhecia e realmente me impressionou: o fato de você ter publicado 11 livros na internet, num espaço de tempo tão curto. Tem autores consagrados que, durante toda a carreira literária, não chegaram a esse número. O que o levou a essa iniciativa: falta de oportunidade por parte das editoras, vontade de ter o controle de todo o processo, ímpeto? E hoje, olhando para trás, faria o mesmo? Não acha que, se tivesse um pouco de paciência, esse material poderia ser mais batalhado e, quem sabe, chegar ao papel, por um selo editorial?

TADEU SARMENTO – Na verdade, são livros incompletos ou mal finalizados, romances em sua maioria, cujas ideias não consegui levar adiante. Na época, pus lá a título de curiosidade mesmo, aproveitando o fato de que estava desencantado com tudo e duvidando até mesmo da minha capacidade de escrever. As únicas exceções foram o livro de contos “Breves Fraturas Portáteis” e o romance “Lautréamont Press”. Destes, eu gosto bastante. O primeiro chegou a ser publicado em 2004. O segundo perdeu merecidamente um Prêmio SESC para o grande André de Leones, cujo romance de estreia, “Hoje está um dia morto”, é infinitamente melhor conduzido que ele. Mas houve um livro que não disponibilizei, uma novela chamada “Matadouro”. Foi escrita na mesma época que os outros, mas é muito bem acabada. O argumento gira em torno de um homem que decide abrir um puteiro só com travestis para juntar grana e fazer uma operação de sexo na mulher que ele ama, que também é travesti. Esse está guardado. O fato é que não me arrependo. Hoje olho para eles e vejo exercícios de estilo que me trouxeram até onde estou. Todos foram escritos entre 1997 e 2007, mais ou menos. E vou te contar: tenho um ritmo de produção acelerado, além de muita disciplina para escrever e quase zero de vida social. Depois do “Associação…”, por exemplo, escrevi o “E se Deus for um de nós?” (que sai pela Confraria esse ano) e tenho mais sete livros inéditos (um romance longo e mais seis novelas de cem páginas, em média). A maioria está pendurada em algum prêmio literário. Não sofro dessa pressa para publicar. Tenho uma primeira leitora exigentíssima (a poeta Adriane Garcia) que supre em parte essa necessidade de comunicação que tenho, que todos os escritores têm, e que é o que nos leva a querer publicar depressa. Acho a pressa a inimiga não da perfeição, mas do escritor. A profusão de gráficas com CNPJ de editoras piora ainda mais a situação. Mas graças a Adriane, posso ficar meses, até mesmo anos, com um livro na gaveta. Enxugando e reescrevendo…

DA – Você está corretíssimo: a Adriane é uma grande escritora, vide a antologia poética “Só, com peixes”. Aliás, você também escreve poesia, mas logo falamos sobre isso. O que gostaria de destacar é o surgimento de uma nova geração de escritores nordestinos que, nos últimos anos, vem abocanhando um tanto de prêmios literários. Para se ter uma ideia, o último Prêmio São Paulo de Literatura teve as suas três categorias vencidas por autores nascidos no Nordeste. O mesmo tem ocorrido com o Prêmio Sesc de Literatura e outros mais. Natural de Recife, como observa esse momento? Há algo realmente de inovador ocorrendo na região? E, para além dos limites territoriais, nota que existe uma resistência dos chamados grandes grupos editoriais do eixo Rio-SP para com os autores nordestinos? 

TADEU SARMENTO – Pergunta difícil, não sei se tenho conhecimento nem segurança suficiente para responder. No meu ponto de vista não se pode mais medir a literatura por essa régua regionalista. De modo que à pergunta sobre se há algo de inovador acontecendo no nordeste em termos literários eu respondo pensando no Brasil como um todo. Há algo de inovador acontecendo com a literatura brasileira contemporânea? Resposta: sim. O quê? A participação das mulheres. O futuro da literatura é das mulheres. Não é à toa que em 2016 elas levaram a quase totalidade dos prêmios literários. E veja bem: não sou um homem feminista, isso não existe. Digo até que sou um machista na condicional. Para nós seria mais cômodo se elas quisessem permanecer na cozinha. Mas elas não quiseram; mérito delas, sorte nossa. O fato é que leitor nenhum aguenta mais o modelo clássico-masculino Bukowski: putinha, álcool, sexo, mimimi. Leitor nenhum aguenta mais a figura do outsider que passou fome e venceu como artista. Leitor nenhum se interessa mais pela vida sexual dos escritores. Isso é coisa de retardado mental, e o escritor que fugir desse modelo poderá dividir espaço com as mulheres. Escritoras como Betzaida Mata, Martha Batalha, Cinthia Kriemler, Carol Bensimon; poetas como Adriane Garcia, Carla Diacov, trazem experiências novas e visões de mundo diversas, até então pouco ou nunca tratadas literariamente. Saindo um pouco do Brasil, a mexicana Valeria Luiselli, por exemplo, com “Rostos na multidão” escreveu um grande romance sobre a difícil relação entre a maternidade e a vida de escritora. Um livro surpreendente. Que escritora fará o próximo? Tenho até um palpite, mas não quero estragar a surpresa. Quanto à outra pergunta, não acredito que exista essa resistência dos grandes grupos editoriais do eixo Rio-SP para com os autores nordestinos. Grandes grupos editoriais querem vender livros e lucrar. Duvido que se importem se seus autores são nordestinos, índios, marcianos ou sacis-pererês.

DA – O que achou de toda aquela polêmica envolvendo o termo “literatura feminina”?

TADEU SARMENTO – Uma bobagem. Voltamos às redes sociais: elas são lentes de aumento que, de um traque de massa, esperam gerar uma grande explosão. É uma espécie de histeria coletiva que se alimenta de polêmicas fabricadas. A sorte (ou má sorte, depende) é que essas discussões “infindáveis” raramente duram mais de vinte e quatro horas. Logo o enxame se agarra ao rabo de cometa de outra polêmica e segue seu caminho rumo ao inevitável nada. Isso que se chama “literatura feminina” não existe. Existe a Literatura. É válida a discussão de uma maior participação das escritoras em espaços públicos antes só ocupados por escritores? Claro que é. Mas para isso não precisamos criar mais um rótulo. Os que já têm já bastam.

DA – Queria voltar, então, a uma observação que você fez lá atrás. Quando colocou que “a profusão de gráficas com CNPJ de editoras piora ainda mais a situação”, você tocou num ponto que sempre trago para minhas discussões com autores e editores, que é a proliferação das oportunidades de publicação. Sei que tem um lado positivo, sobretudo para os autores que não conseguem acesso aos grandes selos, porém me preocupa o fato de termos uma leva de títulos de escritores ainda imaturos, que poderiam ter estreado de uma forma muito mais consistente e na hora certa. O que pensa sobre essas pequenas editoras que, de fato, são fábricas de publicações? Acredita que isso, a longo prazo, terá um efeito incisivo na qualidade da literatura brasileira?

TADEU SARMENTO – Tem uma frase do Kierkegaard que gosto muito: “Há uma impaciência que quer colher antes de semear; deixemos que a ironia a discipline”. As pequenas editoras têm um papel essencial: apostar em novos autores que, por N motivos, não teriam acesso aos grandes selos (como você os chamou). Apresentar esse autor ao mercado de leitores. Fazê-lo circular. Dar visibilidade à sua voz. A única coisa que está faltando, de um modo geral, às pequenas editoras é justamente a figura de um editor (ou editora) que freie essa impaciência supracitada e trabalhe as arestas do manuscrito junto com o escritor até que fique pronto. Precisa ser um editor ou editora comprometido com a Literatura; e que conheça a melhor maneira de fazer com que esse texto chegue aos seus leitores. É isso que está faltando. Editoras como Karla Melo (da Confraria do Vento), que trabalham nesse sentido, são uma raridade. Mas para se chegar nesse nível é preciso ter critérios de qualidade. É preciso ter disposição. Seriedade. Fazer livros não é só meter uma capa, colar as páginas e mandar imprimir. Existe todo um trabalho prévio. Esse trabalho prévio é o que distingue editores de donos de gráfica. Imprimir livros não tem nada a ver com Literatura. Construir um livro, sim. O bom editor ou editora é aquele que redescobre o texto do autor para ele mesmo. Mas não acredito que isso tenha efeito incisivo na qualidade da literatura brasileira de um modo geral. O que tem esse efeito incisivo (e negativo) é a péssima qualidade da educação do nosso país. Se nosso agonizante ex-governo de esquerda tivesse investido maciçamente em educação de base desde 2003, teríamos hoje a primeira geração de adolescentes bem formados. Em vez disso temos… bem, temos o que temos. “Mas a educação de base não é obrigação do governo federal”, dizem alguns. Isso é verdade, mas E DAÍ? Eu quero os CIEPs de Darcy Ribeiro implantados em todo o país. Não aceito nada menos que isso. Dinheiro temos. O que não temos é a educação como prioridade. Daí a fórmula é fácil: sem educação, sem leitores – e uma Bienal do Livro cuja principal atração são os youtubers. Então, diante da escassez de leitores, escritores e escritoras fazem o diabo para chamar a atenção: poetas tiram a roupa na rede; escritores forjam a própria morte ou inventam papinhos de miséria. E a Literatura vai ficando cada vez mais em segundo plano até virar um apêndice, uma nota de rodapé.

DA – Não faz muito tempo, ouvi de uma pessoa do mercado editorial que o escritor, hoje em dia, tem de ter muito mais que talento literário. O seu valor seria determinado pelo quanto de curtidas têm suas postagens no Facebook, o quanto de seguidores atraem suas redes sociais, pelo tanto de pessoas que enchem auditórios para ouvi-lo falar de qualquer coisa, mais a literatura. O escritor, afinal, teria mais importância pelo que é, do que pelo que escreve. O que pensa dessa colocação?

TADEU SARMENTO – É uma colocação realista, de alguém preocupado mais com venda de livros que com a qualidade do texto em si. Acho algo natural. As grandes editoras, afinal de contas, têm um corpo de funcionários considerável e precisam sobreviver e sobrevivem vendendo livros. Mas isso não deve ser preocupação do escritor. Já na própria fonte do texto o escritor submete a palavra, ao mesmo tempo, a um princípio de exclusão e desigualdade. O escritor procura seus iguais, excluindo todos os outros. A linguagem que escolhe e as imagens que utiliza restringem o acesso ao seu estilo de pensamento. Querer ser lido por todos é uma carência de neuróticos. Claro que todo escritor quer vender o máximo de livros possível, a questão é saber até que ponto está disposto a ir para conseguir isso. Só que acrescentar mais água para alimentar a todos é correr o risco de deixar a sopa mais rala. E isso não dá garantia nenhuma. Porque o público que curte e segue um escritor nas redes não é necessariamente um público leitor em potencial. Quase tudo nas redes é fugaz, superficial, volátil e fútil. Mas enxergo a questão sem romantismos. Acho até bom que uma editora mantenha esse tipo de bucha de canhão na linha de frente, para vender milhões de livros durante um surto de pieguices. É uma maneira de capitalizar a editora. Capitalizada, ela pode decidir apostar em outro autor que não venda tanto, mas que tenha um trabalho consistente. Bons autores dão prestígio a uma editora. Editoras não vivem só de dinheiro.

DA – Numa resposta lá atrás, referente ao seu novo livro, você declara que seu objetivo é “chegar ao leitor comum, enquanto eles existirem”. E agora coloca uma fórmula de que “sem educação, sem leitores”. Parece-me, desse modo, uma equação complexa cujo resultado, se não for igual a zero, é potencialmente negativo. O quadro é, de fato, irreversível ou ainda há solução?

TADEU SARMENTO – A única coisa irreversível é a morte. No fundo sou um otimista envergonhado. Também não posso confirmar se, com um nível educacional melhor, teremos mais leitores. Tudo o que eu disse foram conjecturas. É difícil pensar em uma massa de leitores num país como o nosso, que foi inserido na era da cultura das imagens sem cumprir antes seu ciclo de alfabetização. Não sei se a Literatura será capaz de competir com todo o resto (redes sociais, etc.) quando esse nível educacional supostamente subir. Quando digo que meu objetivo é chegar ao leitor comum é por acreditar que o escritor tem um papel individual nisso, que é o de construir histórias cada vez mais bem contadas, que prendam a atenção do leitor até o fim. Não quero me fechar em um mundo particular e escrever histórias ininteligíveis para a adoração de um seleto grupo de jacarés empalhados. Quero escrever um texto cada vez mais fluido e mais simples, com histórias cada vez melhor arquitetadas. Temos (nós, escritores) na ponta da língua várias desculpas para o reduzido número de leitores atuais: desde a não formação de hábitos de leitura até nossos problemas educacionais – e todos estão corretíssimos em apontá-los e querer debatê-los. Só que se não fizermos nosso mea culpa não sairemos do raio de reclamação. O escritor deve pretender se dirigir, tanto quanto possível, para uma plateia cada vez mais ampla, em vez de querer desancá-la com esnobismos. Somos parcialmente culpados por esse êxodo de leitores, afinal, nós os espantamos, depois de anos e anos de hermetismos pós-modernos. Conheço escritores que ficam de fato emburrados quando o leitor compreende seu texto, pois no fundo acreditam que a ininteligibilidade é o mais alto padrão qualitativo. Mas se um escritor não trabalha para ser lido com clareza é para quê então?

DA – Há pouco, falamos rapidamente sobre poesia e agora quero retornar ao assunto. Embora sua ficção se dedique mais à prosa, na forma de contos, novelas e romances, você também escreve poemas. Como se relaciona com a poesia? De que maneira e a que ponto o gênero lhe motiva, em seus encontros com a literatura, em seus processos criativos?

TADEU SARMENTO – Minha relação com a poesia é bissexta. Não sou um grande leitor de poesia também. É uma deficiência cognitiva que tenho e que a Adriane agora está tentando corrigir (me indicando bons poetas para ler, lendo bons poemas para mim). E sempre que escrevo um poema nunca estou seguro de sua qualidade. Não me sinto à vontade no gênero, para ser honesto. Sempre acho meus poemas muito formais, empostados e anacrônicos. E tinha muita birra com poetas antigamente. Agora levo na brincadeira a mania que eles têm de sempre achar uma brecha para recitar poemas em tudo que é canto, lugar ou hora imprópria. Parece até que poetas vêm com um “timing” interno que os avisa quando aquela é a hora mais imprópria para recitar. Então eles se levantam e recitam. Parecem pastores no púlpito. Claro que estou exagerando um pouco. Tenho grandes amigos com esse defeito absolutamente perdoável. A Adriane vai bater em mim quando ler isso. Mas no fundo admiro muito os poetas. Os grandes. Os loucos. Os Papasquiaros da vida. Bolaño diz, em “2666”, que poetas são os únicos que estão fora do jogo. Que não se vendem. E estão mesmo. E não se vendem mesmo. São artistas. Pelo menos os maiores são.

DA – O que é essa necessidade de escrever?

TADEU SARMENTO – É uma vocação. Só de encontrar minha vocação já me sinto um privilegiado. Isso soa até piegas e talvez seja mesmo, mas não há definição mais acertada. É também uma maneira de me relacionar com o mundo, de digerir a realidade pelo viés da imaginação. No fundo sou um moralista que quer dar sentido àquilo que não tem sentido. Escrever um romance é uma forma de reordenar os fatos. Talvez por isso que, com o tempo, eu tenha optado por escrever narrativas longas. Escrever é uma maneira de me manter coeso, funcional, e escrever narrativas longas me mantém assim por mais tempo. Mas, sobretudo, escrever é uma maneira de conquistar um lugar no mundo. Trabalhei em um Call Center por quatro anos e todos sabem que Call Centers são considerados um dos piores lugares para se trabalhar. Suportei toda sorte de cansaço e humilhações porque sabia quem eu era, porque tinha à mão algo pelo que abandonar todas as demais minoridades da vida e me concentrar em um único foco. Quem se livra de bagagens pesadas para seguir um declive deve sentir-se assim como me sinto quando escrevo.

DA – Se você pudesse escolher ser um sósia, de quem seria?

TADEU SARMENTO – De Philip K Dick. Algumas pessoas até me acham parecido com ele.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

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112ª Leva - 06/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

O ano, 1998. O espírito que paira na atmosfera de ações traduz-se numa palavra profundamente motivadora: encantamento. Diante disso, há que se reconhecer que projetos de vida, sobretudo aqueles que são ligados à arte e seus amplos matizes, ganham corpo na medida em que se baseiam num genuíno desejo de transformação. Evidenciar os sentimentos humanos é, sem dúvida alguma, um diferencial de qualquer investida artística. Marcado por tal lema, eis que surge, em Salvador, o Grupo Teatro Griô.

Juntamente com sua parceira na vida e na arte, a atriz Tânia Soares, o também ator Rafael Morais demarca os primeiros passos do que é hoje uma das principais companhias de teatro da Bahia, certamente também do Brasil. Originalmente vindos da arte teatral e circense, Rafael e Tânia voltaram suas atenções para a fabulosa ferramenta da oralidade e seus desdobramentos. Abraçando fundamentalmente o viés da narração de histórias, o Grupo Teatro Griô assinala todo um despertar em torno do que seus fundadores preferem chamar de palavra viva, aquela que une, mobiliza e promove mudanças no ser pensante e pulsante.

Sobretudo depois de testemunhar alguns espetáculos do grupo, os quais mostram o quão viva está a nossa memória diante dos caminhos da expressão oral, veio com vigor o desejo de entrevistar Rafael e saber dele que espécie de sustentáculo mantém acesos tais caminhos da arte. Com suas feições de ator, diretor, professor, Mestre em Artes Cênicas (UFBA), ele fala com a propriedade de quem vive o processo criativo cotidianamente, sem negligenciar seus apelos, chamados e também seus abismos.

Na conversa de agora, fica registrado um breve balanço desses 18 anos de atividade do grupo, através do qual Rafael Morais confessa que ali está também a dinâmica real de sua expressão enquanto ser humano. Suas respostas confirmam que o poder transformador da arte, movimento que se opera principalmente de dentro pra fora, é marcado especialmente pela capacidade de materializar os sonhos.

 

Rafael Morais
Rafael Morais / Foto: arquivo pessoal

 

DA – O Teatro Griô surge como resposta a alguma necessidade em especial?

RAFAEL MORAIS – O surgimento do Teatro Griô não foi algo planejado. Veio de uma necessidade de falar sobre a nossa própria cultura. Na época, estávamos fazendo um trabalho voltado para o circo, para o teatro popular, e fomos realizar algo na Itália e Inglaterra com alguns pesquisadores teatrais e também da área de palhaço. Naquele momento, eu senti uma vontade de criar uma apresentação que falasse das nossas histórias. Logo que chegamos da Europa, fui fazer algumas oficinas a pedido dos professores da Escola de Teatro, e um deles, o querido e saudoso Carlos Petrovich, me convidou para ir a um terreiro de Candomblé em Salvador, o Ilê Axé Opô Afonjá. Fiquei encantado e, logo depois, o mesmo professor nos chamou para fazer um trabalho numa escola municipal de Salvador como pesquisadores do Núcleo de Estudos do Teatro Popular, o NET-POP, da UFBA. Fomos eu e Tânia como pesquisadores bolsistas do CNPq para fazer um trabalho de valorização da cultura oral, das histórias, dos mitos naquela escola a qual me referi e que fica dentro do terreiro. A partir daí, esse universo da tradição foi nos arrebatando. Isso em 1998. Começamos a desenvolver uma metodologia própria para levar essas histórias para as crianças da escola, os professores e também para o pessoal da comunidade, trazendo uma releitura, um universo de transposição dessas narrativas de tradição oral para a cena. Então, encenamos algumas histórias, fizemos cortejos, tentando realizar algo que não fosse o teatro tradicional. Vimos que o que fazíamos naquele momento em termos de teatro não contemplava aquele universo. À medida que íamos fazendo, criamos um jeito nosso de lidar com essas histórias, valorizando a simplicidade, a sinceridade, o contato direto com o público, o envolvimento das pessoas, tudo como se fosse uma festa, um encontro, uma roda de histórias com as pessoas mais velhas, sem tirar o brilho, o encantamento, buscando algo não artificial, mas sim uma palavra viva, que trouxesse essa cultura viva. Acho que foi um encontro mesmo, pois a gente ouviu aquelas histórias e pensou que tinham tudo a ver com o que estávamos querendo, mas nem sabíamos direito o que desejávamos encontrar. Foi a arte de contar histórias.  Percebi que ela contemplava tudo o que buscávamos, um teatro popular, de encontro direto com as pessoas, que valorizasse nossa própria cultura, envolvesse as pessoas e pudesse ir a diferentes espaços. Queria fazer algo que não fosse restrito apenas ao palco italiano. Ir ao encontro do público, nos barracões, escolas, terreiros, praças.

DA – Qual a importância do viés da matriz africana no trabalho de vocês?

RAFAEL MORAIS – Foi desde o início uma grande inspiração. No entanto, o Teatro Griô não se limita às narrativas de tradição oral africanas ou afro-brasileiras. Trabalhamos com a tradição oral que existe no mundo todo em diferentes povos e culturas. Então, narramos histórias da Península Ibérica, da Rússia, Índia, do Oriente, dos árabes. Com a cultura afro-brasileira não poderia ser diferente, pois estamos na Bahia, onde essas histórias, cantigas e narrativas como um todo são predominantes. Ela tem uma importância muito grande por conta até desse contato com o público. A gente trata de histórias do mundo inteiro e temos diversos espetáculos inspirados em histórias de vários lugares. A matriz africana nos inspirou muito. No teatro, já éramos muito ligados a histórias da mitologia grega, nossa formação ocidental. Sempre gostamos de mitologia, e quando nos encontramos com os mitos dos Orixás, por exemplo, foi um encantamento, uma alegria. Acho que pelo encantamento essas histórias nos pegaram. Conseguimos, a partir dessa cultura afro-brasileira, perceber a junção da palavra cantada, essa ligação entre o sagrado, o mítico e o cotidiano. Aprofundando a pesquisa, fomos compreender que existe um mundo vasto de histórias de matriz africana, não somente dos Orixás, mas histórias como os contos de Ananse, a primeira aranha que existiu e que ensinou a arte de contar histórias aos homens. Tem contos muito mirabolantes, epopeias, uma riqueza muito grande do continente africano. Também temos histórias fascinantes em todos os povos, como é o caso dos árabes. Na verdade, a gente, com a cultura afro-brasileira, conseguiu tocar em narrativas que transcendiam as histórias dos irmãos Grimm, os tradicionais contos de fadas. Perceber essa diversidade foi fantástico. E a cultura afro-brasileira teve esse papel de abrir as portas para nós nesse universo da tradição oral.

DA – Há um viciado costume de se olhar a cultura de matriz africana apenas sob um ponto de vista meramente exótico, como se não houvesse um reflexo possível na realidade. O que você acha dessa redução?

RAFAEL MORAIS – Esse não é nosso olhar para com a cultura afro-brasileira. Não tem nada dessa questão do exótico, do que as pessoas chamam de folclórico, de buscar esses elementos que sejam mais histriônicos. A importância dessa cultura é muito grande, ainda mais aqui na Bahia. Mais do que imaginamos, essa cultura é nosso berço de civilização, de humanização e formação. Acho que isso também está muito relacionado à tradição oral, à questão de uma certa importância maior que se dá à palavra escrita como se a oralidade não fosse algo profundo. Acabamos muitas vezes desvalorizando por uma questão cultural, política, ideológica, dessa coisa de achar que tudo o que vem da África não presta ou que vem de um universo menor. Em nossas pesquisas, percebemos isso o tempo inteiro. E vemos o quão equivocada é essa visão de mundo que coloca a tradição oral, as referências africanas como algo menor. Temos alguns avanços acontecendo, algumas leis, como é o caso da Lei 10639 de 2003, que obriga o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas. Mas as pessoas às vezes não sabem como fazer. Alguns professores não têm a formação adequada, não sabem como trabalhar isso, pois a vida inteira tiveram uma formação que privilegia o eurocêntrico, desprestigiando tudo o que vem da África. Mas sinto que isso está mudando. No Teatro Griô, fugimos esteticamente desse campo do exótico. Inclusive, fazemos questão de não levar para a cena essa visão de mundo, tanto que não representamos, por exemplo, Orixás em cena, ou seja, mudamos muitas vezes as melodias das canções, trazemos um universo que coloca o ser humano e os sentimentos das histórias em evidência. Essa dramaturgia é construída não para reforçar o exótico. Temos, por exemplo, o espetáculo “Histórias de Mãe Beata” que é bem simples, mas que é uma festa de samba de roda que acontece e as pessoas vão contando histórias, mas em nenhum momento representamos os Orixás em cena. Não vamos ao terreiro e copiamos o que existe ali. É uma atitude também de respeito e de aprofundar essas questões. Acho que é um perigo muito grande você tratar um universo tão rico como algo simplesmente exótico. É um desserviço e um desrespeito, até uma ofensa a toda e qualquer cultura tradicional você se apropriar dela e não devolvê-la como se deveria. Buscamos valorizar a vivência, que é tão rica da cultura afro-brasileira, e a palavra viva, os grandes narradores que temos, não apenas os griôs, mas os akpalôs, que significam fazedores de histórias. Essa palavra viva que toca nos sentimentos humanos, de pessoas de qualquer lugar do mundo. Recentemente, apresentamos em São Paulo cinco espetáculos no Festival Internacional de Narradores, o Boca do Céu, e tinha gente do mundo inteiro que ouviu essas histórias da cultura afro-brasileira e se encantou, pois contamos e essas pessoas se emocionaram não porque acharam engraçado e se envolveram. Procuramos burilar os sentimentos e tratar isso como a gente sente e vive. Muita gente olha os africanos com a questão das cantigas, com essa coisa do feitiço das palavras, do sagrado com uma condição de se assustar porque eles (os africanos) transcendem a culpa, vão para o prazer no sentido do corpo que dança, está vivo e ligado à magia. Aqui no Ocidente parecemos ter perdido essa magia, mas ela está em todos os povos. Se você for ver as histórias dos nórdicos, dos orientais, o tempo inteiro esse universo de magia está presente nelas. As histórias afro-brasileiras encantam porque mantêm ainda viva essa sabedoria que está muitas vezes mais generalista do que específica, valorizando a vivência, a experiência, o momento aqui e agora, as cantigas, os poemas, os orikis. É muito lindo esse universo. Não tem como reduzir ao exótico. Tratamos essas histórias da mesma maneira como tratamos as demais. Reinventamos aquilo para a cena. Acredito que precisamos ter da cultura afro-brasileira essas referências. As histórias que o Teatro Griô acaba levando para pessoas de diferentes lugares têm um papel muito importante de ser mais uma referência. É muito bacana percebermos as crianças afrodescendentes assistindo o espetáculo e se reconhecendo nele a partir das histórias e não da forma em si, transcendendo inclusive a cor da pele. É a história que passa adiante, o universo do imaginário. Então, é uma riqueza e um poder muito maior do que a própria imagem que está se vendo ali. Uma importância muito grande nesse sentido de formação e de educação. A narração de histórias afro-brasileiras tem esse componente de ser civilizatória, das pessoas reconhecerem a cultura como algo que fala diretamente a elas, os sentimentos humanos, os heróis e anti-heróis. As histórias aproximam as pessoas, não as excluem. É a busca da gente se reconhecer enquanto ser pensante, que sente e vive nesse mundo. Além de uma importância grande de formação e educação, vem desmistificar e revelar a luz que existe nessas histórias e que às vezes está por baixo de um véu de exotismo e de ridicularização do outro. A arte de narrar histórias consegue desvelar esses sentimentos, essas imagens e trazer para nossa vivência cotidiana de ser humano que vive e pensa. Temos as particularidades da cultura de cada um, que são importantes enquanto reconhecimento das diferenças, mas no fundo somos feitos de sonhos e sentimentos.

Rafael Morais
Rafael Morais / Foto: arquivo pessoal

DA – O que dizer da oralidade enquanto essa verdadeira mantenedora da memória?

RAFAEL MORAIS – Interessante essa pergunta porque a gente poderia imaginar justamente o contrário, que aquilo que não escrevemos o vento leva, como diz um ditado popular, ou seja, não conseguimos registrar. A tradição oral, inclusive, faz nascer a escrita. E a memória é viva, o tempo inteiro a gente está reinventando, revendo tudo. A tradição oral tem muitas funções e estratégias mnemotécnicas de fazer permanecer essa memória a partir das suas transformações. Temos muito material de tradição oral que se manteve vivo além da escrita. Hoje a gente consegue ver que os contos, mitos, estão aí nas coletâneas de recontos, histórias, em material escrito. Muitas vezes isso tem sido uma possibilidade muito bacana para pesquisadores, artistas e para o próprio povo conhecer essas histórias que transcendem os tempos. Ao mesmo tempo, a tradição oral mantém essa palavra viva, que não está ali só cristalizada, mantém a magia. A magia você encontra no conto que está escrito, mas é bem diverso de você poder ouvir uma história de boca para ouvido. Essa dinâmica da tradição oral tem sua própria força porque é flexível, se transforma, vai mudando com os tempos, com o saber que a gente já construiu há muitos séculos. É como se fosse uma espiral nesse movimento de memória e de passagem dessa tradição. A própria arte de narrar histórias sempre foi essa mantenedora, a trama da história sempre foi passada do mais velho para o mais novo por sucessivas gerações. Se a gente atentar, vamos perceber no dia a dia a quantidade de histórias nas vivências de cada pessoa. Estamos o tempo todo transformando isso. A escrita passou a ser mais um instrumento de interação, mas esse mecanismo de memória continua vivo o tempo inteiro no ser humano. Nós todos somos seres épicos, narrativos, além de lúdicos e pensantes. Por que será que permanece vivo o encantamento no mundo de hoje? Por que é que hoje em diversos ambientes que chegamos há o interesse de pessoas de todas as idades com as histórias de tradição oral? É algo inexplicável. Todo mundo reclama que os meninos ficam muito ligados na internet, televisão, nos joguinhos, mas quando eles estão diante de uma história que está sendo contada é como se reacendesse um mistério na memória dessas crianças. Essas crianças são de todas as idades, pois em alguns espetáculos nossos, às vezes, vêm adultos sozinhos. Nosso público é bem heterogêneo e é bem bacana perceber esse jogo de memória que há na gente, essa necessidade de ouvir essas histórias e depois sair espalhando elas por aí. No Brasil, acontece uma coisa muito interessante. A cultura popular está viva nas cantigas, não somente naquelas de infância, mas também nas cantigas de trabalho, nos mutirões, cirandas, diversos ritmos espalhados pelo país. Aqui na Bahia temos as cantigas de roda de tirar versos. É uma maneira de se preservar através da música. É interessante que as histórias de matriz africana, a maioria delas, se mantiveram preservadas na África por conta de cantigas, mas aqui no Brasil perdemos muito isso, ficou mesmo a trama se passando. A cantiga traz um momento de lembrar a trama inteira da história. No Teatro Griô, gostamos muito de misturar a palavra cantada com a falada, a palavra poesia, a palavra lírica.

DA – A contação de histórias pode ser melhor abrigada no seio da educação formal?

RAFAEL MORAIS – Com certeza. E não apenas com objetivo explícito de ensinar, pois a história, a narrativa de tradição oral transcende a informação e educação, vai além, para o universo do encantamento, do tocar as pessoas. Nesse universo onde tudo acontece pleno, você está o tempo todo aprendendo. Esse aprendizado que vem de uma sessão de histórias é difícil de descrever no sentido mais amplo porque é muito profundo. Além de tudo o que está sendo ensinado a partir da narrativa, a história ensina por si só nessa experiência de arte. As escolas muitas vezes estão preocupadas apenas com um depósito de informações para uma resolução prática que é fazer provas, o que acaba sacrificando todo o ser que está ali para aprender. Aprender não somente no sentido de conhecer, mas de ser mesmo. A história vem para esse campo da convivência, do aprender a instigar, a correr riscos, sonhar, a você perceber o universo do imaginário, que é tão rico, e de fazer isso se desenvolver cada vez mais em alunos de toda e qualquer idade. A narração de histórias pode acompanhar todos os momentos de nossa vida, do nascimento até nossa despedida aqui dessa experiência de vida. O tempo inteiro estamos contando histórias. O bom professor conta histórias a todo tempo, mesmo quando não acha. Um tema bem narrado é o papel de todo professor, aquele que consegue revelar o que não está acessível ao outro ser. Os excelentes professores têm esse domínio da narrativa, da comunicação. Muitas vezes a gente vê a arte sendo usada como um simples instrumento de aprendizado das disciplinas. Precisamos mesmo ter momentos de apreciação estética nas escolas, pois senão ficamos colocando a arte a serviço de determinados conteúdos. Nesse momento, temos um ganho em todos os sentidos, cognitivo, afetivo, interpessoal, imaginário. Precisamos descobrir isso com urgência para dar um pouco mais de frescor à educação. A arte de contar histórias vai num ponto crucial da educação, que é o pensamento crítico, a formação desse ser que é capaz de encontrar seus caminhos. A arte de contar histórias não entrega tudo de bandeja, ela convida você a enveredar nesse caminho de descoberta de si mesmo. O bom contador sabe que não está ensinando, está ali aprendendo junto. É nesse encontro entre narrador e ouvinte que acontece essa magia, que é a arte de narrar histórias. É muito bonito você perceber o aprendizado que surge daí. E, claro, não tem nada a ver com as lições de moral, como acontece muitas vezes num sentido de podar a criança. Na arte de contar, a história passa à frente e as pessoas vão conseguindo fazer suas próprias interpretações sem que alguém precise impor algo, dizendo que é isso ou aquilo.  É um momento de liberdade artística, no qual as histórias podem ser aliadas da educação com alegria, encantamento, ludicidade e plenitude. Para mim, o valor está no próprio encontro da narração, momentos das pessoas poderem ouvir e contar histórias sem se preocupar com os mecanismos didáticos.

DA – Uma coisa bastante interessante no trabalho do Teatro Griô é a multiplicidade de atuações, ou seja, não apenas a encenação dos espetáculos é o foco, mas também desdobramentos variados sob o ponto de vista da formação, das rodas de conversa, intercâmbios, sem falar na mescla de elementos presentes, tais como o clown, música, dança. Como é atuar dentro dessa intenção multifacetada?

RAFAEL MORAIS – É um presente para o artista. Uma oportunidade de não separar as possibilidades criativas de expressão. Temos tudo ali ao mesmo tempo. Você está ali contando a história, mas de forma plena, com movimento. No sentido da formação, ela é muito ampla, de elementos do cômico, do palhaço, do teatro de rua. O aprendizado para o artista com relação ao espaço cênico da rua é fantástico. Essa possibilidade de ter esses elementos técnicos da voz, da interação com o público, da disposição do espaço. O Teatro Griô é realmente um presente para nós que o integramos porque é nossa morada artística, digamos assim. É a possibilidade de você conviver com tudo aquilo que acredita. É uma fonte que nunca seca. Parece que o tempo inteiro estamos descobrindo coisas novas, pesquisando. É uma obra muito aberta que vamos construindo no contato com o público. Ao mesmo tempo em que é um presente, é também um desafio você lidar com essa metodologia do Teatro Griô, tanto que vira e mexe a gente faz audição, algumas pessoas ingressam e temos uma maneira própria de trabalhar que acaba unindo esses elementos todos que você falou, mas com muita simplicidade. Fugimos um pouco do que é esse mundo do espetáculo, acabamos entrando num encontro com a arte em diversos lugares e matrizes culturais. Buscamos esse momento de convivência do público com os narradores, as histórias. E, claro, tem todo um aprimoramento técnico com diversos profissionais que acabam contribuindo. É um universo muito amplo, que a gente busca dar unidade e simplicidade. No grupo, uma coisa bacana é que os atores não sabiam tocar um pandeiro e hoje a gente já tem os narradores tocando percussão, rabeca, acordeom. É um trabalho que não para nunca. O tempo inteiro estamos aprendendo, exercitando, pesquisando, aprofundando. É muito instigante fazer parte como artista desse núcleo.  Mas a tradição oral, a palavra viva, é o que dá unidade a todo esse trabalho.

DA – O que dizer da resposta do público nesses diferentes ambientes por onde vocês circulam?

RAFAEL MORAIS – Impressionante. Aqui em Salvador a gente vai para diversos ambientes e às vezes quer atingir um público distante. Por exemplo, fizemos um projeto de teatro de rua na Casa da Música, no Abaeté, em Itapuã, e para nossa alegria veio gente da cidade inteira. Temos percebido que o público tem acompanhado a gente. As pessoas vão percebendo o grupo como uma grande família e criam um certo vínculo com a gente, o que acho bacana. Cria uma intimidade e as pessoas encontram a gente na rua e falam conosco como se fossem amigas. Falam das histórias e de como foram tocadas por elas. E a gente percebe uma sinceridade. Acabamos criando uma maneira diferente de narrar as histórias, que não é teatro convencional, um caminho artístico autoral. Seja em comunidades mais distantes como quilombos, comunidades rurais, ou em grandes centros urbanos, a receptividade é ótima. Em São Paulo, por exemplo, a recepção foi fantástica. As pessoas lotavam as apresentações, os ingressos esgotavam em meia hora, elas se interessavam pelas histórias. Engraçado que tem gente que pergunta se as histórias são reais. Então, o vínculo que criamos com o público acaba sendo de cumplicidade. Acho que é o maior presente que o artista pode ter, saber que as pessoas estão se importando. Em São Paulo, conhecemos na plateia alguns artistas de fora do país, tanto que estamos indo pra Buenos Aires por conta disso. Fomos convidados a apresentar três espetáculos nossos num festival internacional de narração oral porque o público assistiu. É um envolvimento que não é frio. A gente acaba de alguma forma passando para o público um pouco do que vivenciamos em nossas salas de ensaio, essa relação de sinceridade, esse mergulho nos sentimentos humanos. E o público percebe.

O Grupo Teatro Griô - Foto - divulgação
O Grupo Teatro Griô / Foto: divulgação

DA – Salvador é uma cidade que abraça verdadeiramente o teatro?

RAFAEL MORAIS – Pergunta complexa (risos), porque há vários públicos e tipos de teatro. Tudo da Bahia é muito paradoxal mesmo. Você não tem um único jeito, mas sim uma infinidade de possibilidades com relação a essa recepção. O teatro pode ser melhor abraçado. Tem um amigo que diz que se amanhã fecharem todos os teatros de Salvador, ninguém vai sentir falta (risos). É uma piada, mas faz a gente refletir, pois se fecharem, as pessoas não vão protestar. O teatro também é algo muito amplo. A Bahia tem uma tradição de teatro muito grande, não só pela primeira faculdade da América Latina, a Escola de Teatro da UFBA, que possui grandes mestres, mas também pelo histórico de teatro popular que influenciou muita gente. O teatro em Salvador é muito forte. Quando cheguei em Salvador há quase 20 anos, senti que a pulsação de espetáculos era realmente muito maior que agora. Alguma coisa se quebrou nesse mecanismo de atração do público, de constância do público buscando os espetáculos. Porém, quando acontecem determinados espetáculos, o público vem. Então, não é algo estático. Tem a coisa do mercado também, não é só questão do público abraçar e gostar. Aqui em Salvador, ao mesmo tempo em que o público ama teatro, a gente percebe que ele poderia abraçar mais. No entanto, quando acontecem os espetáculos de rua, alguns atingem um público imenso. O que tem acontecido com o Teatro Griô é o fato de encontrarmos pessoas que dizem ser aquela a primeira vez em que foram ao teatro. Acho que estratégias, caminhos e possibilidades podem ser buscados para aproximar as pessoas ao teatro. O teatro na Bahia é muito forte, rico e valorizado. Tem uma vanguarda em pesquisa. O público que vai ama o teatro, mas acho que mais pessoas poderiam ser atingidas. Aqui em Salvador, apesar da imensa afeição das pessoas com espetáculos realizados na rua, não há um teatro de rua pulsante. Interessante esse paradoxo. A gente tem uma demanda, digamos assim, muito grande por teatro de rua, pessoas que lotam os espetáculos quando eles acontecem. Fizemos um espetáculo chamado Circo Teatro na Estrada, que saiu por diversos bairros de Salvador, e em todos eles a recepção era imensa, as pessoas ficavam felizes com o que estava acontecendo, querendo que acontecesse novamente. Com relação a isso, o público abraça mesmo. Você conta nos dedos os grupos que fazem teatro de rua em Salvador, e mesmo assim não fazem com aquela constância porque se acredita que não tem tradição, mas tem sim. O público quer abraçar, mas como vai fazer isso se não tem muitas vezes algo que se aproxima dele?

DA – O que o faz continuar naquilo que você definiu como a arte de sonhar acordado?

RAFAEL MORAIS – Essa pergunta é muito difícil. Eu me pergunto muito isso. No entanto, tenho continuado, tenho seguido em frente porque fazer arte aqui, não só na Bahia, mas no Brasil, não é fácil, pois além das dificuldades do ofício, tem todo um mundo de coisas que precisamos superar a cada momento. Durante muito tempo, pensei que não era algo racional, pois se sabia que era essa dureza por que continuava? Tenho continuado e, quando olho para trás, percebo que realmente é meu caminho. Não dá pra explicar muito. Hoje consigo compreender esse desejo de seguir em frente, que ultrapassa o medo, pois a cada projeto novo há um risco muito grande. Hoje se fala muito em crise, mas para quem faz arte é pior ainda, pois a gente vive daquilo que tece, do trabalho cotidiano, dos espetáculos, do processo criativo que por si só já é algo efêmero. Aí, a gente seguindo adiante com isso é muita coragem. Agora, não me vejo fazendo outra coisa. Claro que surgem propostas de seguir por outros caminhos, longe da arte, o que muitas vezes poderia trazer uma segurança no sentido material. Mas acho que é a arte que me mantém vivo, pois abraço um caminho de crescimento e vida, um ofício. É meu lugar no mundo, minha maneira de continuar seguindo em frente, sonhando. O meu trabalho se confunde com meu sonho. Acho que isso é muito profundo. É ao mesmo tempo o meu devaneio no sentido do processo criativo e de tudo o que implica você fazer arte, de mergulhar nos abismos desse processo que não é fácil para ninguém, ainda mais nesse tempo que estamos vivendo. Um outro nome que se dá ao pessoal que segue esse ofício das histórias é Gente das Maravilhas, pois se encantam com a simplicidade e grandeza da vida, com o encontro. Quando entra num processo criativo, nem imagina descobrir coisas que nem sabia que existiam em você. Isso quando experimenta de verdade o processo criativo, pois tem muita gente que executa determinadas funções ditas artísticas, mas não vive ele. Você não consegue largar. Estou aqui hoje pensando em novos projetos, novos caminhos. É também a ideia da missão. Sinto isso muito forte. Tenho vontade de continuar fazendo teatro, mas ao mesmo tempo é maior do que tudo isso, pois arrebata, chama e você não tem saída. E também você acaba se comprometendo. Eu mesmo tenho compromisso com esse grupo, que hoje tem vários artistas que sobrevivem junto com a gente, alguns com outros empregos. Então, você acaba entrelaçando sua missão com as de outros parceiros cúmplices. Eu e Tânia, que fundamos o Teatro Griô, temos uma responsabilidade muito grande. Minha filha também, que desde pequenininha está envolvida no universo artístico do teatro. A gente virou uma grande família que faz isso, meio que vive e respira o tempo inteiro isso com grande responsabilidade, mas também com muita alegria. As dificuldades não são a tônica, pois a gente supera todas elas e vem um ganho imenso que não sabemos dizer o que é.

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes. 

 

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111ª Leva - 05/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

Há duas maneiras de um escritor revisitar o passado: por meio da autobiografia ou através da ficção. Em seu livro mais recente, o volume de contos “Eles não moram mais aqui”, o mineiro Ronaldo Cagiano se posiciona diante do cruzamento entre essas duas vias, acessando os fatos que constituem sua obra ao converter matéria autobiográfica em matéria literária.

O resultado é um diálogo permanente entre invenção e memória, no qual os personagens são agentes de suas próprias histórias, mas também a consciência latente do autor observando a própria vida a uma devida distância. A infância na pequena cidade de Cataguases, a descoberta da leitura, a poesia como faísca elementar para a escrita, as mudanças para Brasília e, anos depois, para São Paulo.

Uma formação humana permeada pela literatura e por uma galeria de autores cujas influências apontam um norte e explicam a própria carreira. “Creio que a criação literária é caudatária de nosso histórico de leituras e não há como afastar-se dessa sintonia, desse beber em outras fontes para enriquecer a nossa, pois somos influenciados, sem dúvida, pelo que acumulamos, e essas pistas nos formam e isso não apenas na literatura”, conclui.

Em entrevista exclusiva, Cagiano esclarece as circunstâncias por trás de alguns dos contos, partindo de assuntos específicos para fazer uma ampla reflexão sobre o ofício da escrita. Com mais de uma dezena de livros publicados, entre novelas, antologias poéticas e infantojuvenis, o autor ainda debate os (des)caminhos do mercado literário, o surgimento de novos autores e editoras, a parceria com a escritora Eltânia André, cujo primeiro romance já está no prelo, e sua atuação como crítico de livros, pelo qual é um dos mais respeitados do país. “A literatura continua sendo o único lugar onde se pode ser livre”, justifica o empenho em prol de um fazer literário que vai além do seu.

Ronaldo Cagiano
Ronaldo Cagiano / Foto: arquivo pessoal

DA – Em seu livro mais recente, o volume de contos “Eles não moram mais aqui”, você utiliza como matéria ficcional a memória, as lembranças de lugares e de pessoas da cidade mineira de Cataguases, onde nasceu. Acredita que todo escritor, em algum momento, invariavelmente volta para casa?

RONALDO CAGIANO – Creio que a literatura é uma ponte entre o passado (com sua carga de memória ancestral: afetiva, geográfica, familiar, psicológica, histórica) e o presente. Estamos sempre dialogando com nossas raízes e experiências remotas. Penso que tanto na prosa quanto na poesia não há escrita puro-sangue, ou seja, tudo que escrevemos é um diálogo entre a invenção e a memória, pois, como dizia Cyro dos Anjos, “a literatura se nutre do real”. Assim, vejo Cataguases como o Capiberibe de “Cão sem plumas”, de João Cabral, pois minha cidade é como aquele rio: “Está na memória; como um cão vivo/ dentro de uma sala”. Vivi até os 18 anos em Cataguases, passei 28 anos em Brasília. Se esta me deu régua e compasso, como na música de Gil, foi Cataguases quem me (in)formou como ser, como leitor e como escritor. A mitologia da cidade é (o) que me alimenta ficcional e poeticamente, pois quando volto os olhos para o vazio ou do escuro do passado, é de lá que retiro matéria e circunstâncias para minha prosa e minha poesia. E a barbearia do meu pai foi a grande escola desse aprendizado de ver e ler o mundo, em seu salão, onde fui engraxate dos 8 aos 14 anos, (re)colhi as histórias da cidade, capt(ur)ei o seu imaginário e chafurdei no seu inconsciente,  uma espécie de vitrine crítica da vida individual, coletiva, social e política. A cidade povoa minha experiência criativa a partir dali, onde circulavam multifários seres, de onde eu mirava, como um promontório, os acontecimentos do dia a dia, as figuras folclóricas e pitorescas, a gente miúda em sua coreografia diária pelas ruas, esses tecelões de mistérios que tanto invocaram nossa imaginação. “Nenhum rosto é tão surrealista quanto o verdadeiro rosto de uma cidade”, disse Walter Benjamin, assim a cada conto, a cada história, a cada poema, tendo desvelar a face de uma cidade que a cada dia, apesar da distância dos anos e do meu asilo em outras plagas, é a mesma e é outra.

DA – O poema de João Cabral, a que se refere, está no conto “Sombras”, possivelmente o mais emotivo da coletânea, um tipo de relato inflexivo no qual você transporta, para o contexto imaginário, o luto que, mesmo com o escorrer dos anos, não se dissolve por completo. Livros, como “Carta a D.”, de André Gorz, e “Altos voos e quedas livres”, de Julian Barnes, tratam igualmente desse sentimento de tristeza profunda pela morte de alguém muito querido. Você acredita que a literatura, de alguma forma, é um canal pelo que esse vazio possa ser confrontado ou, ao menos, compreendido?

RONALDO CAGIANO – Nesse conto, particularmente, (es)corre uma espécie de hidrografia sentimental: no fluxo das lembranças de um acontecimento real, migrei para a ficção a experiência de um luto sofrido por uma família, que teve de purgar a dor de uma perda tão precoce. Creio também na literatura como instância para certas catarses, em que a vivência pessoal (ou a alheia que, muitas vezes também nos servem como fonte literária) nos possibilita um mergulho e uma reflexão sobre as imponderáveis contingências de nosso percurso ou de nosso tempo. Estamos sempre fazendo literatura além das expansões oníricas, transcendendo a realidade por meio de uma (in)tensa tentativa de compreender (ou superar) os vazios, silêncios, perdas e outras dores que vivemos ao longo de nossa fugaz e precária existência. Dessa forma, escrever como exercício permanente de confronto com realidades distintas, é a maneira que encontramos de dialogar com aquilo que nos perturba, desconforta e de, certa forma, nos desestabiliza e nos modifica.

DA – Outro aspecto que salta aos olhos, na coletânea, é um diálogo constante com inúmeros escritores, que se cristaliza no conto “Esboços para a (de)composição do naufrágio”, em que o narrador se lança numa incursão pelo território literário, encontrando-se com nomes como Machado de Assis, Cervantes, Kafka e Plínio Marcos. O quanto desse espelhamento há na sua formação e, por consequência, em seu processo literário? De uma maneira representativa, acredita que o autor, por mais completo que seja, nunca escreve sozinho, que todos os textos decorrem de um impulso de influências e recortes acumulados durante a leitura?

RONALDO CAGIANO – Entendo a escritura como sendo uma experiência-rio: ela carrega (ou transporta) as recolhas de nossa caminhada, seja como ser, leitor ou escritor. Dessa forma, no que escrevo, tudo flui impregnado de outras referências. Aquilo que li, o que vi, ou o que vivências alheias me serviram como exemplo, farol ou lição. Sempre incorporo algo da garimpagem que realizo ao mergulhar no aluvião estético de outros autores. Certa vez, um amigo escritor dizia que, embora gostasse muito de ler meus contos (e até poemas), sentia-se incomodado na maioria das vezes, por ter que pagar pedágio às epígrafes. Argumentei que o uso desse recurso (Murilo Rubião foi um dos que mais o utilizaram em seus contos; da mesma forma o mineiro João Batista Melo), mais que intertextualidade, ou além da homenagem a autores e livros que me marcaram, vejo também como um diálogo temático e afetivo, uma ponte dialética entre o que escrevi e o que li, no sentido não de plágio ou carona, mas com a função análoga e simbiótica de espelhar sentimentos e expressões que, de outra forma, e melhor, disseram a respeito do mesmo tema. No fundo, creio que a criação literária é caudatária de nosso histórico de leituras e não há como afastar-se dessa sintonia, desse beber em outras fontes para enriquecer a nossa, pois somos influenciados, sem dúvida, pelo que acumulamos, e essas pistas nos formam e isso não apenas na literatura.

DA – A poesia, que se faz substância de alguns contos do seu livro mais recente, foi também seu ponto de partida na carreira literária, com o lançamento de “Palavra engajada”, de 1989. Essa predileção de gênero seguiu por alguns anos, até finalmente você se encontrar com a prosa. A que atribui esse movimento? Sua primeira experiência com a leitura parte da poesia? Há com ela uma ligação de cumplicidade afetiva ou foram os versos a maneira pela qual primeiramente compreendeu seu impulso artístico?

RONALDO CAGIANO – Considero-me essencialmente poeta, embora tenha me incursionado pela ficção com mais vigor nos últimos anos. Mas, desde os primeiros livros, leitores e amigos identificaram uma certa predisposição à prosa, por perceberem um fôlego discursivo em meus poemas. Embora, paralelamente, à escrita e publicação de livros de poesia tenha sempre produzido prosa, seja em jornais (desde a adolescência colaborava para um hebdomadário tradicional de minha cidade, com crônicas, pequenos contos e artigos de opinião), seja por meio de histórias que deixava na gaveta, foi somente depois de alguns títulos de poesia que optei por dar à luz meus primeiros textos ficcionais, na esteira da sugestão desses amigos, que insistiam para que eu investisse no gênero. Assim surgiu “Dezembro indigesto”, volume em que reuni alguns contos inéditos, tendo com ele vencido o Concurso Bolsa Brasília de Produção Literária de 2001, com a publicação pela Secretaria de Cultura do Distrito Federal. A partir dessa feliz estreia, dediquei-me mais à confecção ficcional, sem abandonar a paixão pela poesia, para a qual fui despertado aos 11 anos, quando li os versos candentes de “Eu”, de Augusto dos Anjos, livro que representou um divisor de águas na minha vida de leitor, instigando-me a escrever os primeiros poemas. Creio que essa ligação visceral e umbilical com a poesia delineia minha prosa, porque essa ligação afetiva e sensorial com ela pode ser sentida no que escrevo, porque sempre persigo a prosa poética como êmulo a meus projetos ficcionais.

Ronaldo Cagiano
Ronaldo Cagiano / Foto: arquivo pessoal

DA – Há dois pontos, em sua resposta, que eu gostaria de me aprofundar. O primeiro é o que chamou de perseguição da prosa poética, cujo ápice, no meu entendimento, está no conto “Mar de dentro”, que se passa em Teerã. É notável, na sua escrita, essa relação com a cidade, o espaço geográfico, muitas vezes em tom de diálogo, como se este servisse de cenário e, ao mesmo tempo, de interlocutor. Você nasceu em Minas, mas viveu em Brasília por muito tempo e, agora, em São Paulo. Consegue notar uma influência latente de cada um desses lugares em sua literatura, ou acredita que o escritor ocupa um território expatriado, tão vasto dentro de si?

RONALDO CAGIANO – Compartilho uma expressão de Baudelaire para reafirmar isso: “Seja poeta, mesmo em prosa”. Quando li isso, certa vez, percebi que pertencia à família dos que, ao fazerem ficção, não se preocupam apenas – e de forma descarnada – em contar uma história. Penso que o amálgama para uma história, no conto ou romance, é a própria linguagem e ela, muitas vezes, é tão forte e determinante quanto a trama ou a psicologia dos personagens. Essa talvez seja uma peculiaridade no que escrevo, uma espécie de relação íntima com minha gênese literária, a origem primordial do que crio está na poesia que procuro retirar dos pequenos dramas e tragédias, dos conflitos e dilemas individuais ou coletivos, da banalidade ou transitoriedade das coisas. Por outro lado ressalto, ainda, o fato de trabalhar na minha literatura os espaços em que vivi e que me influenciaram, como forja do homem e do escritor: o geográfico, o psicológico, o afetivo, que delineiam meu arcabouço existencial. São pilares que sustentam o meu processo criativo, mergulho no território da infância, nas experiências afetivas, nos apelos históricos, nas invocações sensoriais para compor o painel de minha leitura pessoal e crítica desses universos e atmosferas que me forjaram e me inspiram tantas revisitas. Essa ancestralidade tão referencial nos habita e nos chacoalha, nela estão as fontes de nossa relação com o agora, nas quais a literatura é instância de expansão, catapulta. Certa vez li no livro “Manual Prático de Levitação”, de Agualusa, a fala de um personagem que me parece espelho do que ocorre quando revolvo essas reminiscências: “O passado é como o mar: nunca sossega”. Então, essas águas vivem redemoinhando dentro de mim, as águas do rio Pomba, tão mí(s)tico em minha infância e adolescência, com suas cheias alarmantes nos expulsando de casa; as águas do Lago Paranoá, em Brasília, cidade onde vivi 28 anos e que me deu “régua e compasso”, como diz a música de Gil; e agora nessas novas (c)(t)orrentes, em São Paulo, onde estou há nove anos, levando-me a outros fluxos nesse eterno e imponderável mistério que é o destino. Essa interlocução com o passado remoto ou recente (Cataguases, Brasília), esse diálogo com o presente (São Paulo) é uma maneira de me situar em meio ao cipoal caleidoscópico de realidades distintas (e suas contradições), que vivi e vou experienciando. E a literatura abriga cada um desses pedaços (sentimentais e físicos). Em “Interpretação de dezembro”, Drummond me ajuda reconhecer que “É o menino em nós/ ou fora de nós/recolhendo o mito”.  Esse menino que f(l)ui, pega na minha mão e escreve sobre o que hoje em mim é fluência e desatino. Portanto, não consigo separar o que escrevo do que vivi, tudo se manifesta como uma sinergia de sensações acumuladas, que se atualizam cada vez que a ficção se embebeda do real.  Cada viagem a Minas é um manancial de recorrências afetivas tão fortes e esse caudal sentimental se transformará em matéria literária ou apreensão poética nalguma oportunidade. A cidade que (re)vejo (ou visito) hoje não é aquela cidade que me transformou ou transtornou, a que está intacta na minha percepção, pois hoje sou estrangeiro nesse mundo que lá está transplantado e, para fugir desse exílio compulsório, me asilo no “inexílio” da memória e nela afugento os fantasmas do presente. Como no conto “Da próxima vez”, de Carrascoza, “A cidade da infância, tão outra nos meus olhos se comparada à memória.” Ou algo similar num poema de Ascânio Lopes, poeta modernista da minha cidade, morto precocemente na década de 20, que fala: “Cataguases! Cataguases!/ Vale a pena viver em ti./ Nem inquietude./ Nem peso inútil/ de recordações./ Mas a certeza que nasce/ das coisas/ que não mudam bruscas./ Nem ficam eternas.” No mais, tomando emprestado de Ortega y Gasset a ideia da influência, para o qual “eu sou eu e minhas circunstâncias”, eu diria que eu sou eu e minhas leituras, eu e minhas viagens e relações com o que me cerca.

DA – Bela resposta. Passou-me a frase de Borges que diz que todo autor sempre escreve o mesmo livro. Há uma memória basilar para todos os enredos, e isso que se configura a literatura. Agora voltando ao segundo ponto, você menciona a bolsa de criação literária e, complementando a ideia, alguns dos contos de “Eles não moram mais aqui” foram previamente premiados. Com a extensa carreira que tem, o quanto considera importante para um autor esses dois recursos? Como um financiamento ou uma premiação pode ser producente ou prejudicial?

RONALDO CAGIANO – Sem dúvida, acredito que essas alternativas são a saída, sobretudo num país como o Brasil, em que o sistema editorial é extremamente hegemônico e monopolizado, sem critérios definidos para a recepção, avaliação e publicação de autores, prevalecendo, na maioria das vezes, as relações, as panelinhas, os guetos, as igrejinhas, as amizades e outros sistemas perversos de vasos comunicantes, em detrimento da qualidade da obra, perpetrando-se históricas e abomináveis injustiças (autores de qualidade negligenciados sem pudor, enquanto mediocridades são incensadas sem nenhum constrangimento). Nesse ambiente literário dominado por interesses, percebo também o total descaso de grande parte da crítica que milita na grande mídia impressa e seus cadernos de cultura, salvo raríssimas e honrosas exceções, pois só reconhecem vida inteligente na literatura publicada por grandes editoras. São pernosticamente indiferentes a um bom autor que tenha sido editado por um selo desconhecido, principalmente se fora do eixo Rio-São Paulo.  Então, o que resta aos autores sem “pedigree” são os concursos literários, as bolsas de publicações e outros programas de incentivo e apoio municipais e estaduais, que funcionam como estimulantes para os novos e até mesmo para veteranos sem oportunidades nas grandes casas editoriais. São alternativas concretas para tornar menos injusta a partilha de espaço nesse cenário tão dominado pelos ditames do deus mercado, e na maioria das vezes, esses certames sinalizam uma maior visibilidade, chamando atenção da crítica e proporcionando acesso a edições e distribuição mais amplas. Ressalto que, em meio a esse deserto de possibilidades, um oásis se mostra como interdição desse processo: é o papel das pequenas editoras que, a meu ver, de forma hercúlea e quixotesca, com seus editores matando um leão por dia e nadando contra a maré do mercado editorial, vêm publicando autores e obras de inegável qualidade, inclusive nada devendo às grandes editoras quanto ao esmero gráfico, sendo que muitas delas vêm conquistando prêmios em importantes concursos de nível nacional, entre as quais destaco Patuá, Dobra, Confraria do Vento, LetraSelvagem, Penalux, Oito e Meio, Reformatório, Kazuá, Casarão do Verbo etc.

DA – Essa é uma situação complicada e, em muitos casos, desleal. Há algum tempo, conversava com um escritor superpremiado, com livros traduzidos fora do país, que se encontra sem editora, desmotivado. Um vexame, uma vergonha para o meio literário. Mas gostaria também que enxergasse esse contexto por um outro ângulo. Você não percebe que, com o surgimento de muitas editoras e a escancarada democratização da publicação, temos também autores estreando sem a devida bagagem, com livros que, amadurecidos mais um pouco, teriam muito mais a oferecer em termos de qualidade literária?

RONALDO CAGIANO – Concordo plenamente quanto ao fato de que essa facilidade de acesso aos meios editoriais mais disponíveis (pequenas editoras, plataformas e suportes na internet, como blogs e revistas eletrônicas etc), ainda que possibilite a livre publicação, também impõe o risco do nivelamento por baixo, ao despejarem muitos títulos sofríveis, autores de duvidosa qualidade e obras sem a devida maturidade. Acabam por entupir o mercado, empurrados pelas águas da avidez, açodamento e desespero de escritores que pretendem publicar a qualquer custo e são seduzidos ou cooptados por algumas editores sem escrúpulos, empresas caça-níqueis que se aproveitam da g(r)ana dos incautos. Vale para isso um antigo aforismo popular: “Nem tudo que cai na rede é peixe”. Assim, entendo, ser preci(o)so também ter o discernimento necessário, tanto de editores quanto de leitores, para se separar o joio do trigo, pois as pequenas editoras sérias acabam sofrendo o estigma pela falta de critérios de outras tantas.

DA – Por outro lado, temos os escritores que se colocam num patamar superior, que só participam de coletâneas, eventos e demais expressões artísticas mediante pagamento. Embora renomado, com prêmios e publicações fora do país, você é muito ativo em colaborações em jornais, revistas, sites, além de participar e organizar antologias. O quanto considera essencial, para sua carreira, continuar desbravando novos territórios para sua literatura? E, desdobrando a pergunta, não acredita que, para um jovem autor, o melhor caminho não seria iniciar com colaborações para adquirir um pouco de “casca” e, enfim, publicar o primeiro livro?

RONALDO CAGIANO – Evidentemente, há certos escritores convertidos em sumidades, cuja literatura e nome alçam o patamar de uma grife, que impõem certas condições financeiras para suas participações (entrevistas, colaborações em jornais, seminários, palestras, feiras literárias, resenhas, orelhas, prefácios), gente que não sai de casa sem pagamento, sob o pálio da profissionalização de suas carreiras. Creio que o escritor exerce uma atividade que em nada difere de qualquer outra, portanto deve ser remunerado pelo que produz. No entanto, vivemos num país que, histórica e culturalmente, só acredita naquilo que culmina em produtividade material, aferível sob o ponto de vista da produtividade. Portanto, atividade intelectual e artística, sobretudo a literária, sempre foi vista com menoscabo e indigna de pagamento, porque alcança uma minoria, ainda mais que somos uma nação sem leitores e livro não faz parte da cesta básica. Muitas vezes somos forçados a nos prostituir para ter o mínimo de espaço, ao emprestar o talento e a força de trabalho mental e intelectual sem a devida contraprestação, pois, na maioria dos casos, jornais e revistas já não pagam mais pelas colaborações, assim também alguns convites para palestras em escolas e eventos menos suntuosos ou concorridos em que o autor não pode deixar de comparecer, sob pena de receber a pecha de esnobismo. Lembro-me de que, quando organizei três antologias (“Poetas Mineiros em Brasília”, “Antologia do conto brasiliense” e “Todas as gerações – conto brasiliense contemporâneo”) tive dificuldades em convencer dois ou três escritores para o projeto, porque exigiram remuneração e direitos autorais, o que não acho de todo ilegítimo, não obstante a realidade em que vivemos. Ainda que eu ponderasse que as edições não tinham cunho comercial, mas funcionariam como registro da produção poética e ficcional brasiliense, e o organizador não receberia nada por isso, tendo cada autor, na edição de 1.000 exemplares de cada, a uma quota de 10 livros, mesmo assim esses não aceitaram participar. Entendo que nem sempre devemos atuar de graça, porque em muitos casos há instâncias e organizações que podem e devem remunerar pelo trabalho produzido. Nos países desenvolvidos, a atividade de escritor é devidamente valorizada e qualquer atividade não prescinde do devido pagamento, até mesmo uma modesta aparição com foto numa matéria de jornal é motivo suficiente para pagamento. Enquanto não atingirmos esse estágio ou consciência do valor e a necessidade de se dar a justa contraprestação financeira ao trabalhador literário, é necessário tentar harmonizar os interesses, não fugindo à raia quando determinados espaços nos solicitam ou convocam, justificada a impossibilidade, pela própria precariedade desses meios, de pagamento ao autor, até porque já são tão exíguos os espaços e muitas vezes são estes que nos oferecem alguma janela ou visibilidade, abrindo possibilidades para circulação de textos, poemas, artigos, resenhas, crítica etc, o que, de certa forma, credencia o autor, sobretudo em início de carreira.

DA – Por falar em resenha, um outro ofício que você se firmou como um dos mais respeitados do país é o de crítico literário. Eu, inclusive, já tive a alegria de ter a sua precisa análise de um dos meus livros. Hoje temos centenas de blogs, sites e os chamados booktubers que, de maneira geral, enquadram suas impressões literárias entre o gosto pessoal e a superfície analítica. Como é, para você, atuar como leitor crítico? Como começou esse trabalho? Recorda-se da primeira resenha? Algum crítico o inspirou? Quais as ferramentas fundamentais para se escrever um boa resenha?

RONALDO CAGIANO – Primeiramente, não me considero crítico nem ensaísta, porque minha formação é em Direito (advoguei durante muitos anos, até 2002, paralelamente à minha vida de bancário) e não tenho formação acadêmica em Letras, muito menos, pós ou doutorado, portanto, careço do embasamento teórico-científico, não sou versado em linguística nem em teoria literária, como soi acontecer com os especialistas. Dessa forma, vejo-me exercendo essa atividade apenas de modo intuitivo, emulando minhas impressões mais como um colega de ofício e leitor apaixonado, que só escreve sobre os livros de que gosta, pois não tenho predisposição para a crítica iconoclasta, hepática e demolidora, porque entendo que um livro ruim não merece atenção e ele sucumbirá pelo próprio demérito no desgosto dos leitores ou mesmo da crítica. No máximo, quando percebo que a obra mereça qualquer amparo ou reparo crítico, se tenho alguma intimidade com o escritor, procuro abordá-lo e comentar pontos que parecem relevantes no sentido de dar toques, pistas ou oferecer sugestões ou indicar parâmetros (principalmente leituras) para qualificar melhor seu trabalho. Seria uma crítica pessoal e sincera, sem o espírito desmantelador que uma crítica pública desencadearia, pois entendo que ela poderia abortar uma carreira ou desestimular um escritor ainda em gestação.  Essa necessidade de expressar-me à margem das leituras ao longo da vida surgiu ainda na adolescência, quando comecei a escrever os primeiros textos para um jornal dominical de Cataguases, atividade que foi crescendo ao mudar-me para Brasília, quando tomei contato com a obra de críticos antigos e contemporâneos, cujo mergulho estético, filosófico, exegético, hermenêutico e ensaístico me despertou interesse, principalmente pela forma como incursionavam seus olhares nos diversos meandros de uma construção literária. Entre essas primícias, cito José Guilherme Merquior, Álvaro Lins, Antonio Olinto, Otto Maria Carpeaux, Alceu Amoroso Lima, Antonio Houaiss, Afrânio Coutinho, Antonio Candido, Wilson Martins, Aurélio Buarque de Holanda, Benedito Nunes, Luiz Costa Lima, Antonio Carlos Secchin, exemplos marcantes de críticos literários, independente de suas vinculações ideológicas, mas pela lucidez e coerência de suas postulações. Minhas primeiras opiniões sobre livros recaíram sobre autores do círculo literário de Brasília, quando comecei a publicar no Correio Braziliense, Jornal de Brasília, Revista Literatura, Jornal da ANE e DF Letras, depois ampliando minha participação em outros veículos regionais e nacionais, como o Opção e o Diário da Manhã (Goiânia), O Dia (Teresina), O Estado (Florianópolis), Correio das Artes (PB), Estado de Minas, Hoje em Dia e O Tempo (BH), Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo (SP), Jornal do Brasil e O Globo (RJ), Guia de Livros da Folha, Rascunho, dentre outros, além de incursionar por alguns blogs com frequência, atividade que se viu reduzida há alguns meses, por absoluta falta de tempo. Para mim é uma atividade esteticamente prazerosa, porque além de me proporcionar o contato com novos autores de diversas regiões do país, com inegáveis surpresas, ajuda-me a penetrar no insondável do processo criativo individual e na gênese de cada obra. Para mim, o resenhista tem o dever de ir fundo, ser sincero, fazer crítica não como caridade, não apenas homologatória, para agradar a quem quer que seja, mas com o dever de apontar no trabalho sua qualidade, sem ceder às paixões pessoais ou amizades, mas sempre com uma inflexão dialética, de modo que tenha uma ampla visão da obra e não da vida do autor, permitindo-lhe um percurso capaz de penetrar as filigranas e retirar os palimpsestos de uma arte que está sob seu olhar e bisturi, como se fosse um cirurgião a penetrar as vísceras de um corpo com suas engrenagens e fluxos, como considero ser um texto de ficção ou de poesia. Sempre tive em conta uma lição de Graciliano (que recolhi de uma entrevista sua de 1948) quando vou analisar um livro e tentar perceber se o autor andou nessas águas ou bebeu nessas fontes: “Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”

Ronaldo Cagiano
Ronaldo Cagiano / Foto: arquivo pessoal

DA – Seguindo, então, com as palavras do Graciliano, como analisa o que é “dito” pelos novos autores? Escapando do saudosismo, percebe uma geração detentora de uma literatura inferior a de outros tempos, ou uma apenas distinta, que se comunica com outros meios e, por conseguinte, constitui uma tendência em evolução?

RONALDO CAGIANO – Em termos comparativos, é inegável a profusão de autores e obras atualmente em relação ao que se produzia antigamente, razão pela qual em meio a uma variedade de títulos, a prevalência de literatura ruim é também bem maior, na mesma proporção em que há bons autores em todos os gêneros. Esse fenômeno vem a reboque das facilidades para veiculação de material literário não apenas nos meios tradicionais (livros, revistas, jornais, suplementos), mas também nas plataformas e suportes eletrônicos. Estes, particularmente, exercem um papel preponderante na disseminação desse acervo de criação ficcional e poética que a cada minuto a internet disponibiliza, democratizando o acesso tanto de quem escreve quanto a quem lê.  Acredito que a literatura, como qualquer arte ou ofício, sofre suas metamorfoses, seguindo a ordem natural do próprio processo evolutivo, humano e social, como dos meios que os legitimam. Assim como o mundo mudou, a tecnologia e as facilidades da comunicação trouxeram inexoravelmente suas vantagens em todos os campos, assim também a escritura deu seus saltos (éticos, estéticos, dialéticos) e essa transformação se dá primordialmente pela linguagem, que considero a instância em que essas mudanças se operam e são assimiladas com mais vigor. O leitor e o escritor de hoje não são os mesmos dos tempos de Bilac, Alencar, Machado, Graciliano ou Rosa, nem por isso uma e outra geração se anulam. Antes, se comunicam de forma sinergética.  Hoje, outros são os influxos, referenciais estéticos e culturais. Outras também são as influências do meio, da cultura de massas, da dita civilização movida pela informatização, uma realidade permeabilizada por trocas intensas e profundas, não só internamente como com outras culturas e realidades, e tudo sob o império da velocidade e do rápido escalonamento de valores. A língua e a literatura caminharam nas águas dessa corrente, impregnando a dicção dos novos autores, os quais foram apreendendo novos cenários, realidades, emulações e influências não apenas físicas e geográficas, mas também psicológicas e históricas. Isso é tangível e aferido nos aspectos formais e temáticos de cada autor contemporâneo, cuja literatura é irrigada por novos sentimentos e sentidos, sem, contudo, perder o liame com o passado remoto ou mais recente da nossa história bibliográfica. O mundo e as pessoas que escreviam, liam e se comunicavam na era do telégrafo não são os mesmos que escrevem, leem e se comunicam on time e online, com outros recursos e possibilidades de expressão. E literatura é fruto desses novos tempos, autores e obras antenados com essa emergência inexorável.  Então, não se trata de mensurar ou menoscabar o que se produz hoje em relação aos cânones ou mestres do passado. O mundo que a obra de um autor moldura e modula hoje não é diferente daquele, porém as sensações e olhares diferem no modo de perceber e deslindar questões, conflitos, dramas e situações, sob a perspectiva de uma linguagem que é especular dessa contemporaneidade exigente e avassaladora, atualizando a dicção com que aquela geração distante – com os recursos e limitações da época – dispunha para falar e incursionar pelos universos e atmosferas distintos, o que torna defeso impor a pecha de anacronismo ou supremacia de uma época sobre a outra.

DA – Outro aspecto marcante de sua carreira são as parcerias. Em 2012, por exemplo, você lançou a novela “Moenda de silêncios”, em parceria com Whisner Fraga. Uma outra parceria de longa data é com a escritora Eltânia André, com quem é casado. Como funciona esse relacionamento, que é margeado pela literatura? Vocês compartilham ideias, sugestões e leituras? Há a influência de um no processo criativo do outro?

RONALDO CAGIANO – Foram experiências partilhadas com outros escritores numa interessante simbiose, um exercício de escrita colaborativa, de coautoria ou de obra a quatro mãos. E o primeiro convite surgiu no final dos anos 1990, quando o amigo e escritor alagoano (radicado em Brasília) Joilson Portocalvo, que na época realizava oficinas literárias no Presídio da Papuda, propôs o desafio para que escrevêssemos um livro juntos. Então, nasceu a novela juvenil “Espelho, espelho meu”, projeto encampado e publicado pela Editora Thesaurus, em que tratamos de temas ligados aos conflitos da adolescência, mapeando as tensões dentro de uma família de classe média com a abordagem de situações relacionadas ao relacionamento pais-filhos, ao sexo, à gravidez precoce, drogas etc, numa linguagem que postulasse uma discussão, sem caricaturas ou dissimulações, desses conflitos tão comuns na realidade familiar. Depois, outro convite do escritor Whisner Fraga, que culminou na novela juvenil “Moenda de silêncios” (contemplada com o prêmio de publicação do ProAC/Secretaria de Cultura do Estado de SP), que faz um percurso em outra vertente,  tratando dos encontros e desencantos, dos sonhos e frustrações de dois jovens do interior mineiro perdidos no cipoal de suas expectativas e nas engrenagens da cidade grande, para onde foram em busca de um futuro ou de um sentido para suas vidas, obra que recolheu um pouco dos vestígios de nossas experiências em Cataguases e Ituiutaba. E a mais recente incursão pela escrita conjunta é o romance “Diolindas”, escrito com Eltânia André, minha esposa, obra que estava hibernada há uns seis anos, porém sairá do anonimato em breve, quando será publicada pela Editora Penalux, história que mergulha na vida e revezes e litígios de uma família. Nesse particular, tem sido proveitosa, instigante e complementar à vida afetiva a relação literária do casal, não apenas gerando o fruto de um livro, mas em razão da peculiar e mútua cumplicidade, sintonia e empatia no campo da criação, pois dividimos e comunicamos nossos espaços, nosso modus operandi, idiossincrasias, inquietações e outros aspectos ligados ao ato de “escreviver”. E, não obstante as diferenças de estilo e linguagem, as motivações e interesses distintos, há um canal permanente, um fluxo intenso entre nossos processos e experiências passadas e recentes, tanto da própria escritura individual quanto relativamente ao histórico de leituras, de modo que um torna-se, naturalmente, leitor crítico do outro (e de si) e esse trânsito tem sido extremamente profícuo ao nosso amadurecimento como seres e como autores. De certa forma, a intensidade dessa participação ativa de um na vida do outro, nos afetos e na criação, tem contribuído para uma influência que valoriza e estimula o que vimos construindo.

DA – Uma notícia fantástica essa do novo livro! Contudo, essa não é a primeira parceria de vocês. Em seu recente romance, o formidável ‘Para fugir dos vivos’, Eltânia se apropria de experiências vividas para criar uma ficção particular, não?

RONALDO CAGIANO – Trata-se de um livro de ficção em que Eltânia  recolheu apenas alguns detalhes de nossas experiências pessoais, para esboçar o perfil dos personagens, no entanto a história é outra, não a que vivemos. Fomos criados na mesma rua e durante nossa infância compartilhamos amizade, histórias comuns e relações familiares. Nesse sentido a sua ficção se apropriou de características físicas, de pessoas e ambientes comuns à nossa convivência, para a construção de personagens híbridos, porém, nem a trama nem os protagonistas são recriação de episódios vividos ou acontecimentos presenciados, mas uma realidade inventada a partir de flashes ou flagrantes de realidades distintas, enfim, a autora, na minha ótica de primeiro leitor de seus textos, teve autonomia para juntar os cacos de experiências de terceiros e esboçar um outro painel puramente ficcional. Portanto, não houve, de minha parte, qualquer participação ou intromissão nesse processo criativo, apenas um ou outro detalhe sobre alguma circunstância histórica ou social que nos eram comuns e que pude aclarar.

DA – Agora o personagem real, o menino que se descobriu poeta em Cataguases e atuou, com afinco, em prol da literatura e da própria literatura, qual o saldo que faz da carreira? A literatura lhe proporcionou mais alegrias ou decepções? Atribuindo a você uma das frases mais emblemáticas do novo livro, conseguiu sair de Cataguases para não ficar menor que ela?

RONALDO CAGIANO – Num rápido encontro de contas, o saldo é positivo, no que eu considero literatura para mim não como profissão, mas empenho que se recicla a cada dia, como tentativa de me comunicar, expressar-me diante dos dilemas e inquietações pessoais e coletivos, de vencer o tempo para exorcizar fantasmas ou enganar a morte. E tentar compreender o nosso (des)lugar nesse mundo. Vivo para a literatura – para um ler e “escreviver” em constante renovação – e não da literatura, porque é impossível sobreviver material ou financeiramente tendo-a como atividade principal, sobretudo num país sem leitores, em que o escritor precisa da segurança, da estabilidade e do conforto de uma profissão para ordenar a vida prática, em que essa atividade tão estigmatizada sofre menoscabo e nos faz sentir que o escritor parece mover-se num grande camelódromo, tendo que ser mascate da própria obra. Então, nesse balanço, posso dizer que a literatura deu-me alegrias e encontros. A vida, o sistema e o convívio literários, incontáveis decepções e frustrações. Mas, como literatura não é agitação nem o falso verniz das flips e quejandos, dos holofotes e das re(l)ações oportunistas tão comuns a esse  meio viciado e viciante; nem a busca obsessiva e arrivista das vitrines e da figuração, o que me interessa é o texto e não o contexto, por isso não crio expectativas nem sofro. O que tiver de ser será, fruto da própria peneira do tempo, dos leitores e da crítica honesta. Tomo emprestado de Northrop Frye para amalgamar o que penso sobre o papel da escritura em minha vida: “A literatura continua sendo o único lugar onde se pode ser livre”, reconhecendo, ainda, outro papel fundamental, pois, segundo Borges, “A literatura é revanche de ordem mental contra o caos do mundo”.  E foi ela que me antecipou que existir era bem maior e sempre um movimento contínuo de transformações, permitindo-me sair do isolamento, do provincianismo, da mediocridade e da alienação parasitária que nos afetam na vida interiorana, para que não fiquemos menores que ela.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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110ª Leva - 04/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A voz que não cala diante dos impropérios do mundo também pode ser a mesma que silencia para efeito de necessárias contemplações. Ao poeta, cabe a delicada tarefa de equilibrar imperativos da razão com os apelos do sentimento. Está em jogo a necessidade de que ele se posicione diante do meio que o circunda, fomentando a ideia de que é um ser não dissociado dos fatores notadamente históricos, sociais e políticos.

Quando vemos desfilar ante nossos olhos a trajetória de um autor como Alex Simões, percebemos que estar no mundo não é um ato acidental. Há que se vislumbrar a consciência de dois polos de pretensão: o observar e o agir. Para Alex, observar é olhar detidamente para um tudo que nos abraça mesmo involuntariamente. Num outro eixo, agir é estar consciente de que a arte é ferramenta de mobilização ativa no que tange à construção de uma sociedade sob as suas mais variadas vertentes.

Artífice da palavra, Alex privilegia a forma como mola propulsora da criação para depois demarcar os territórios do conteúdo. O que resulta dessa conjugação é uma obra cujos domínios posicionam seu criador como um dos mais vigorosos representantes da moderna poesia brasileira.

De fato, o poeta a quem entrevistamos agora sabe o que dizer. Seus versos configuram uma representação de que estar no mundo é também uma questão fundamental de defender pontos de vista. E não esperemos dele o esteta que se deslumbra com os elementos plásticos e superficiais de seu ofício, aquele bem distanciado do público em geral, como se habitasse um olimpo da criação. Pelo contrário, a afirmação de uma identidade enquanto sujeito pensante, crítico e lúcido torna suas vias literárias notadamente mundanas, sobretudo porque tem a consciência de sua voz, seu corpo e seu tempo.

Nascido em Salvador, Bahia, Alex Simões é pungentemente poeta e performer. Especialmente, a fusão entre essas duas frentes de atuação desemboca nas assim chamadas poerformances. Nelas, o poeta expõe, pelos trajetos da mente e do corpo, o seu valioso desejo de aproximação com seus semelhantes, quebrando paradigmas, dessacralizando a poesia e tornando-a um instrumento de partilha social. São de sua autoria os livros “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (2013) e “(hai)céufies” (2014). É também professor e tradutor e, desde os anos 90, integrou várias revistas e antologias literárias dentro e fora do Brasil.

Ainda sob o efeito do seu mais recente livro, “Contrassonetos: catados & via vândala” (Ed. Mondrongo – 2015), Alex dialoga conosco sobre uma vasta gama de temas. Uma conversa que perpassa também a sua construção social e política enquanto sujeito que recusa um ideal de poesia que não seja reflexo do mundo no qual vive. Nesse ínterim, há o testemunho do autor diante dos aspectos que atravessam marcantemente sua obra, mas irrompe sobremaneira o olhar de um alguém devotado às questões que o tornam demasiadamente humano.

 

Alex por Ricardo Prado
Alex Simões / Foto: Ricardo Prado

 

DA – Na leitura do seu mais recente livro de poemas, chama atenção a harmonia marcante entre aspectos formais e de conteúdo, uma característica sua. E não há facilidades nesse seu caminho em direção ao leitor, tampouco conduções herméticas. O que dizer desse rumo?

ALEX SIMÕES – De fato, é uma característica. Eu parto fundamentalmente da forma, e é meio complicado dizer isso, mas parto dela. Esteticamente, penso em termos de poesia. Em projetos estéticos em geral, penso a partir de formas. Escrevo coisas muito diferentes de sonetos. Versos livres, haicais, baladas, enfim. Mas eu geralmente penso na forma que vou usar. Essa adequação entre forma e conteúdo é mais do que uma adequação. Existe uma organicidade que foi conquistada. E fico muito lisonjeado quando isso é reconhecido porque, às vezes, quando falam de mim, ressaltam muito essa condição de ser expertise, de ser um bom formalista, mas na verdade não é o que me interessa. É importante, sim, o domínio da linguagem, mas me interessa mesmo é dizer coisas. Eu procuro pensar de modo muito simultâneo, ou seja, que há formas adequadas de dizer certas coisas. Esse livro mais recente é um livro que tem 23 anos de história e você vai encontrar sonetos que dizem coisas lindas, mas que são mais formais, e que havia uma maior facilidade em direção ao leitor, além de trabalhos mais recentes, nos quais eu trago tanto um rigor no sentido de pesquisar e trazer a minha língua cotidiana para essa forma fixa, tradicional, ao mesmo tempo em que há esse respeito ao leitor. Quando você cria, surge um público e você gera uma relação de intimidade com a forma e a linguagem. Essa harmonia que você definiu é reflexo disso, duma relação que é muito antiga com a poesia e que se reflete em diversas formas e relações. A mais antiga e consistente é o soneto, mas também tenho esse outro lado de experimentar e, quando estou muito confortável, buscar outras maneiras de quebrar essa minha intimidade, de criar disrupturas. Não me constituir um poeta de linguagem hermética, ao mesmo tempo em que não facilito, é um equilíbrio que está muito na preocupação em trazer a língua do cotidiano, a mais próxima possível dele. Eu observava que no começo tinha um acento muito lusitano, notando que escrevia de uma forma distinta da minha fala. Passou a ser também uma preocupação, ao mesmo tempo em que venho trazendo temas e questões as quais criam uma tensão nessa busca por uma linguagem mais simples. E, às vezes, certas questões não podem ser ditas com total simplicidade. Acho que essa tensão também é produtiva por isso.

DA – Essa questão toda faz pensar sobre uma certa obsessão que alguns têm em dizer que a elaboração do poema é uma mera construção matemática, uma disposição de arranjos. Ao poeta, há que se deixar transbordar o sentimento?

ALEX SIMÕES – Essa discussão é antiga e, digamos, eu tendo mais para o lado cabralino, nessa coisa entre poeta possesso e poeta cerebral (nunca lembro ao certo quais categorias são mencionadas por João Cabral de Melo Neto). Eu já escrevi do jeito “vou fazer uma coisa movido”, mas no meu caso chegou um momento em que isso parou de funcionar. Geralmente, penso, fico maturando muito o que vou fazer. E tenho, sim, esse lado matemático, e não sei se serve pra mim, pois sou péssimo em matemática (risos). Há uma certa obsessão em ter algum controle sobre o processo e ficar maturando. Por exemplo, eu tenho uma encomenda, que é entregar uns poemas para uma revista, e não quero pegar coisas já prontas. E fico pensando muito em como vai ser. O sentimento está aí. Eu sou uma pessoa controlada por ele. Isso me governa. O sentimento tanto vai atravessar isso, porque ele antecede o planejamento, ele me constitui como pessoa, e também porque é uma construção. Essa capacidade de construir sentimentos através da linguagem é um processo de exercício. Exercitamos a capacidade de dizer coisas. Vou dar um exemplo concreto e relativamente recente. Participei de um processo de seleção, no qual mandei um projeto de poemas, e tirei uma nota muito baixa na minha avaliação pessoal. Foi algo abaixo da média. Foi um poema que escrevi muito puto, chamado “Balada de um poeta ruim para si mesmo”, e ali tem muito de uma frustração, uma chateação, irritação, mas é usando terça rima, fazendo referências a Dante, pensando num mote em que eu desenvolvo, e vou falando nisso ao longo do poema, e que está em “O Demônio da Teoria”, de Antoine Compagnon. Meu sentimento transborda também aí. Também tenho uma formação acadêmica e erudita, algum conhecimento legitimado que me atravessa, e meu sentimento vai através desse repertório. Não concordo com a ideia de que há que se controlar o poeta. A poesia é permeada por sentimentos, sim, mas em matéria de estética e ciência a gente não pode nunca dizer “tem de ser assim”. Tem de se ter liberdade de fazer qualquer coisa, inclusive abrir mão desse negócio de sentimento. No meu caso, não preciso ter controle de tudo. Já sou essa pessoa transbordada na minha vida pessoal. Então, nas minhas produções, eu tenho minimamente que pensar e planejar, senão é muito caos.

DA – Você acolhe o termo contrassonetos também como uma consciência da sua capacidade de transgressão enquanto criador?

ALEX SIMÕES – Totalmente. Eu conto essa história no livro. Esse termo já existia antes do escritor Ronald Augusto usar. Ele falando do meu livro “Quarenta e Uns Sonetos Catados”, que originou o “Contrassonetos: catados & via vândala”, no qual diz que não gosta de sonetos, mas o que aprecia no meu livro está no fato de serem contrassonetos, por eu não encarnar a persona de sonetista. E tem muitos sentidos aí. Eu me assumo como transgressor em termos políticos, identitários. Faz parte da minha vida. Sou contra- hegemônico, negro, homossexual, e essas questões aparecem inevitavelmente no que eu falo, nas minhas posições, na minha poesia e formalmente. Ao contrário do que pode parecer, esse exercício de dominar a língua do colonizador, usando as formas tradicionais, hegemônicas, não é um fim em si, mas um meio de dizer coisas, e dizer para públicos outros, que não são os meus pares apenas. Também para minar essa língua por dentro, essa forma por dentro. O que me interessa é dizer “eu sei fazer um soneto bonitinho, mas isso não é o mais importante”. Eu sou poeta. Assim como digo que sou negro e gay, sou poeta. Poeta que pode fazer um soneto, um haicai. Contrassoneto é nesse sentido de transgressão no qual está tudo misturado: ética, estética, política. Eu uso uma forma tradicional, mas não para conservá-la ou dizer assim “gente, com licença, sei fazer”. Foi em um certo momento, não é mais.

DA – As questões de identidade povoam cada vez mais a literatura. Na medida em que se apoiam em atitudes de afirmação política, ideológica, dentre outras, esses posicionamentos são algo fundamentais?

ALEX SIMÕES – São fundamentais e sempre existiram. Quando se há um silenciamento, e isso é comprovado inclusive através de estudos quantitativos nos quais se fazem levantamentos da etnia, da orientação sexual, do que são personagens literários e as referências da literatura brasileira, quando não se menciona certos lugares, a gente está falando de um lugar branco, heterossexual, masculino, de classe média pra cima. Então, nesse sentido não há uma novidade. O que existe em termos de novidade é que à medida que essas discussões, não só no Brasil, mas internacionalmente, dos anos 60 pra cá vêm ganhando corpo, naturalmente isso vem aparecendo mais e são fundamentais desde que não sejam exclusivas, que não virem uma camisa de força. Quando eu digo e repito que sou negro e poeta, não esperem de mim nenhuma performance ou atitude dentro, encarcerada nessas identidades. Temos identidades e identificações. Qualquer estereótipo, qualquer prisão eu recuso e, nesse sentido, cabe meu aspecto transgressor de quebrar expectativas.  Há situações nas quais é fundamental a gente se posicionar politicamente pra que não nos tomem como homem branco, heterossexual. É importante mapearmos isso porque falar por falar sem ter um domínio de um repertório, sem ter interlocutores dentro de uma linguagem, sem ler outros poetas e não só os poetas que me interessam, sem possuir o mínimo de conhecimento da linguagem em que estou me metendo, vai virar panfleto puro, e isso não tem valor. Se é para dizer às pessoas apenas que sou negro e gay, é melhor eu escrever um panfleto, e não um poema. Mas poder ter alguma relevância dentro de uma cena, um discurso, e poder falar de um lugar de opressão, denunciar que há um genocídio contra a população negra, homossexual, transexual, LGBT, isso é importante. Na medida em que eu puder dizer que existe um investimento violento contra segmentos minoritários, vou dizer. Eu sou uma exceção à regra. Duas vezes. Mas sempre nessa medida de que, enquanto poeta, eu tenho a liberdade de fazer qualquer coisa, inclusive de não querer falar sobre isso. Não considero que seja covarde o poeta ser negro e não querer falar sobre isso. Ele tem que ter liberdade. A poeta ou a escritora que seja mulher e não queira discutir isso em sua literatura. Não se pode abrir mão dessa liberdade. Não se pode usar camisa de força nem ser considerada literatura menor aquela que é produzida por um poeta que discute isso, inclusive na sua poesia e nos eventos em que participa.

Alex por Laura Castro
Alex Simões / Foto: Laura Castro

DA – Na transição entre o mundo fragmentado em que vivemos e o papel, de algum modo sua apreensão das coisas é marcada pelo caos?

ALEX SIMÕES – De todos os modos, o que eu produzo é marcado pelo caos, inclusive nessa necessidade de tentar controlar minimamente esse caos que me constitui. Eu sou nietzschiano. Entendo que o caos, a disrupção e a violência são constitutivos da humanidade, da história. São aspectos que nos constituem, e há um esforço histórico em apagar essas questões que são nossas e que não são necessariamente ruins. Tem duas coisas na sua pergunta que me chamam atenção e que talvez precise demarcar em algum momento. É quando você fala em trazer para o papel. Sou um poeta que também vai para o papel, mas que também, cada vez mais, está buscando formas e suportes que são, a princípio, não tradicionais para a poesia. Esse caos é minimamente controlado na unidade livro. Quando a gente pensa em livro, sumariza, topicaliza, dá uma sequência, reflete em termos de gênero. Eu escrevo poesia e isso tem uma repercussão até na forma como a mancha escrita se impõe no texto. É diferente da prosa. Tem um caos que é constituinte, mas que é minimamente organizável quando se escreve dentro dele. A outra questão com o caos é a que passa por outras linguagens, como eu disse antes, e que passa também por um evento chamado Dominicaos, idealizado por Orlando Pinho e Heitor Dantas, e que eu ajudo a desorganizar. Orlando, que é poeta, diz que o caos opera. Eu assumo esse caos e acho que ele é importante, pois é o caos criativo que possibilita as coisas acontecerem com um mínimo de controle para que justifique o fato de eu assinar as coisas que publico, performo e realizo esteticamente. É essa minha capacidade de lidar organicamente e disciplinadamente (risos) com esse caos que justifica minha assinatura. A gente vai aprendendo a conviver com esse caos. Estou falando como artista, mas isso é a vida, pois ela é caótica. Tenho, como qualquer pessoa com 43 anos de idade, tido experiências com o acaso. Vivemos um momento político caótico, tive mortes de familiares. E assim vem o caos e tomamos a consciência de que nós somos desgovernados por excelência. Somos ocidentalmente condicionados à ideia de que a vida tem uma sequência, que as coisas estão minimamente organizadas. É só uma intenção.

DA – Uma outra linha de expressão sua está nas performances poéticas. Que papel elas assumem, sobretudo na sua relação com o externo?  

ALEX SIMÕES – Digamos que de quatro anos pra cá isso tem aparecido cada vez mais. O que eu chamo disso é o cruzamento com outras linguagens, inclusive a performance, não só ela. Costumo chamar de poerformance por covardia, por não me assumir como performer, pois está num entrelugar entre performance e poesia, além do que convivo o tempo inteiro com performers, com o pessoal da dança, do teatro, das artes visuais. Meu cotidiano está muito permeado pela convivência com pessoas de linguagens diversas. Sempre tive um pouco de vergonha de me assumir como performer. Tem uma relação, claro, com o externo, mas tem um movimento que é muito relacionado com alguns eventos que eu frequento. Falei do Dominicaos, que não só frequento como também integro o núcleo de produção. Tem também o Sarau Bem Black, Pós-Lida, enfim, uma série de eventos aqui em Salvador que frequento e comecei a falar poesia. Esses três que cito são lugares em que eu via uma vibração com relação à poesia, com a performance, com o modo de falar, que tem muito a ver com o cruzamento de linguagens, caso do Pós-Lida e do Dominicaos, algo que apresenta um olhar mais arejado e contemporâneo da poesia. No caso do Sarau Bem Black, também contemporâneo e ligado a essas questões identitárias que falamos, é um movimento mais internacional, que é do Slam Poetry.  Sempre me incomodou muito um certo desinteresse, aquele modo poesia declamatória, como o Wally Salomão gosta de falar ironicamente. A poesia declamatória não desperta, não consigo mais ver uma poesia mais ou menos gritada.  É parte de minha pesquisa ver o trabalho dos performers e me sentir afetado, e ter a necessidade de trazer isso para o corpo. Existiam questões que eu via que não eram resolvidas apenas na poesia e, durante muito tempo, eu sofri muito com isso porque demorei muito a me assumir como poeta e artista. Também não entendia direito como era isso de querer fazer coisas diferentes ao mesmo tempo, pois a gente ainda tem uma formação disciplinar de ver isso como um problema. Com o tempo e convivendo com certos artistas, linguagens e olhares, fui percebendo que isso não é um problema necessariamente. A performance é um modo de se relacionar com o externo. No meu caso, estou muito interessado no cruzamento entre poesia e música. Isso não é invenção minha nem desse tempo, é uma relação milenar, mas que tem ganhado força. Faço performances em que cruzo música popular massiva com poesia canônica, cruzo artes visuais com poesia. Tudo isso tem muito a ver como minhas referências. Tem uma série de pessoas, algumas vivas, outras não, que foram impactantes na minha formação. Para falar de um autor vivo e que está muito nessa pegada e próximo de mim é Ricardo Aleixo. Também Joan Brossa, poeta catalão que morreu na virada dos anos 2000, e alguns artistas visuais. Zé Mário, um performer daqui e que hoje está em Brasília, foi extremamente importante nessa minha formação. No Pós-Lida, tem o James Martins, que possui um modo de dizer poesia que me interessa. Karina Rabinowitz, que tem essa coisa do cruzamento de linguagens. Daqui da Bahia ainda tem Laura Castro. Para completar as referências, tem Daniela Galdino, que é de Itabuna, Morgana Poiesis, de Vitória da Conquista, que são pessoas da performance. Ainda nessa relação com o externo, nesses eventos que tenho participado, dando oficina, sobretudo, tenho tido oportunidade de ver que é um privilégio lidar com o público, que não são públicos típicos de literatura, pois não são de eventos estritamente literários, não são da minha faixa etária. Vejo com muita alegria quando esse esforço de fazer o cruzamento de linguagens e de trazer a poesia para o corpo da gente chega de forma impactante, viva, principalmente em relação a um público que não é típico de literatura. E cada vez mais me interessa estar com esse público porque aí também tem uma questão política de formação. A gente lida com um público muito restrito e tendemos (nós da literatura) a correr o risco de acreditar que não precisamos fazer esse esforço de formação, de chegar junto, de criar estratégias para difundir o que fazemos. Eu estou cada vez mais em outra proposta. O que faço não é só poesia, mas acredito que minha poesia ganhou muito. É uma relação de troca porque é poesia viva. Internacionalmente, é o que o Slam Poetry tem feito e que reverbera nos saraus de periferia. O que tenho feito é muito afetado por essa vibração. Sempre ficava me questionando o que é que o músico popular tem que faz a gente vibrar. A maioria dos poetas não tem. E eu não estou dizendo que eu tenha. O Slam Poetry consegue, os saraus de periferia também. Para ficar nos daqui de Salvador, você vê o Sarau da Onça, no qual percebe as pessoas vidradas no que os artistas dizem. Sempre fiquei numa bronca porque sou super fã de shows de transformistas e pensava como é que a gente faz para em poesia fazer as pessoas ficarem vidradas também. Hilda Hilst deixa as pessoas pulsando, Drummond também. A performance tem sido um lugar onde isso tem se tornado possível.

Alex Simões na performance A Capella de Waly - Foto - Daniel Guerra M
Alex Simões na performance “A Capella de Waly” / Foto: Daniel Guerra

DA – Aproveitando um dos seus arremates, é preciso dessacralizar tanto o poeta quanto a poesia?

ALEX SIMÕES – É fundamental. Temos algumas heranças lindas. Sou um devoto da tradição. Um transgressor disciplinado. Não jogo tudo que está na tradição fora. Mas a gente tem umas heranças complicadas do Arcadismo, do Romantismo, do Neoclassicismo e da poesia moderna também. Uma delas é essa ideia do poeta da Torre de Marfim e do poeta hermético. Isso tem feito muito mal para a poesia porque a gente ficou num lugar solitário, de pouca penetração. Isso se reflete em muitas situações. Eu estava num evento importantíssimo discutindo esse momento político horroroso que estamos vivendo, debatendo a destruição do MinC, essa falsa reintegração desse ministério. E durante duas horas e meia que eu estava lá, praticamente não vi referências de literatura e poesia. Isso não é culpa das pessoas que estão lá. Também não é apenas culpa dos profissionais da palavra do Brasil de hoje. Tem muito a ver com essa perda de penetração que o poeta tem nas massas. O último grande poeta das massas que a gente teve foi Maiakovski, durante a Revolução Russa. No século vinte, a gente perdeu esse lugar. A poesia moderna criou um lugar de hermetismo. Acho que esse lugar foi ocupado. Os músicos populares, e alguns deles são poetas de fato, exercem essa função, mas é preciso dessacralizar, e tem gente fazendo isso. Vou dar um exemplo de dessacralização: os poetas em geral da geração Mimeógrafo têm feito isso. Tem um vivo que continua fazendo isso, o Ricardo Chacal. Dessacralizar, inclusive, em termos de linguagem, de uma preocupação em falar para os que não são seus pares, para os que não apenas estão interessados no exercício de ler poesia, mas também na demonstração daqueles que querem que isso chegue junto deles. Ricardo Chacal tem um livro, “Murundum”, que ele diz que escreveu para estudantes de ensino médio de escola pública. Ali ele se dessacraliza. É importante porque a gente precisa falar de um lugar mais terreno. Poetas e pessoas de literatura. E eu faço essa distinção a la Ezra Pound. É fundamental a gente que faz literatura e poesia no Brasil entender que esse lugar sagrado que alguns de nós falamos é um tiro no pé. Estamos falando para ninguém. Precisamos dessacralizar até pra poder chegarmos nas pessoas. É importante para a sociedade que o que esteja sendo produzido de poesia contemporânea chegue junto das pessoas. Vou dar mais um exemplo que tem a ver com performance. Mais recentemente, eu estava na ocupação do Minc, fiz uma performance, que é  “A Capella de Waly”, e ouvi um depoimento de uma jovem que disse que teve uma oportunidade rara de olhar no olho de um poeta. É uma performance que não digo nada meu, falo coisas de Waly Salomão durante trinta minutos, digo poemas e canto canções com letras dele. Acho que isso diz muito, esse depoimento dela. Ela pôde olhar no olho de um poeta. É um lugar que também me coloco, de olhar no olho das pessoas, de não falar do alto para baixo. Estou trocando coisas e esse é um exercício de dessacralizar esse lugar. Há uma tendência, muito marcada por essas tradições, em falar poesia ainda muito de cima para baixo. Tem gente muito legal fazendo. Por exemplo, Angélica Freitas quando faz um útero do tamanho de um punho, e que pega poemas que são googlados, desmascara o machismo que está presente no inconsciente coletivo e que se reproduz nas nossas formas discursivas contemporâneas, está dessacralizando esse lugar do poeta. Baudelaire falou, há cem anos, sobre a perda da aura do poeta. Infelizmente, parece que alguns e algumas colegas ainda não entenderam que acabou. Nossa aura caiu num lodaçal. Tá na lama e a gente precisa assumir. Nossa única possibilidade de existência, penetração e relevância é assumir a sujeira do cotidiano, do contemporâneo.

DA – Com que olhos o Alex educador vislumbra a formação de leitores?

ALEX SIMÕES – Com olhos de lince (risos). Eu, além de dar aula em instituição formal, faculdade, sempre estou preocupado com essa questão de formação. Acho que isso é muito importante porque dá uma consciência de realidade, uma noção mais pé no chão de como temos poucos leitores porque estou nesse outro front, o da sala de aula. Tenho cada vez mais dado oficina de poesia, que pra mim tem sido uma alegria. Gostaria muito de dar mais e estar menos em sala de aula formal, pois eu me sinto, inclusive, mais efetivo. Essa minha preocupação com a formação de leitores está cada vez mais voltada em criar pontes. Falando de performance, é entender que esse leitor contemporâneo, foi formado e tem menos de 30 anos, com raríssimas exceções, vai se sentir mais conclamado a conhecer a poesia através de outras linguagens. Tenho 43 anos e tive o privilégio de chegar à poesia, sobretudo pela música. Sou de uma geração que via na rede Globo Vinícius de Moraes sendo interpretado em programas especiais para crianças. Ainda tem gente muito massa fazendo isso. Adriana Calcanhoto, por exemplo. Essa ponte é fundamental para formar, e não apenas crianças, claro. Esse meu olhar de educador está muito interessado em buscar pontes não só entre linguagens, mas pontes que vislumbrem pertinências entre as origens das pessoas, pois empurrar qualquer tipo de poesia para qualquer público é estéril. Você tem que entender que há lugares. Daí, a gente volta para aquela questão das expressões identitárias, ou seja, você falar para um público que é majoritariamente negro, adolescente, sem trazer essas questões, e empurrar Baudelaire ou um cânone europeu ou estaduninense goela abaixo, é um olhar não formativo. Falo também de quem fez graduação em Letras e teve muita dificuldade porque passou por alguns professores que não tiveram esse cuidado. Felizmente, tive essa boa experiência de formação de leitura, mas vi muita gente se perder no caminho por conta de educadores que não tiveram esse olhar de entender que a formação de leitor passa pela história da pessoa, seu contexto social. Você tem que criar iscas. Existe um caminho longo a se percorrer. Se não me engano, 8% da população brasileira é proficiente em leitura. Isso é grave. Quando junto música com poesia, estou muito interessado em fisgar o público, fazê-lo se interessar pela leitura.

Alex por Eric Jenkins-Sahlin
Alex Simões / Foto: Eric Jenkins-Sahlin

DA – O que é o seu país hoje?

ALEX SIMÕES – É a pergunta mais difícil e a que menos vou ter certeza. Primeiro, porque preciso dizer que qualquer noção de país e nação é uma noção precária, problemática, pois implica muitos silenciamentos, muitos apagamentos para que exista um país, uma nação, uma bandeira. Mas o Brasil em que a gente vive é um país que passa por um momento muito delicado. Estamos sofrendo um golpe numa democracia que nunca foi muito amadurecida, num contexto político em que a gente ainda não tem maturidade política para discutir, para se colocar e se posicionar, mas que está sofrendo um golpe. A despeito dessa polarização que é construída, que não é inocente nem ingênua, é muito triste ver o silêncio de algumas pessoas. Eu até acredito que, durante certo tempo, algumas delas foram movidas por boa intenção e contra a corrupção, que é constitutiva de qualquer governo (e não estou justificando nenhuma corrupção). Temos provas muito contundentes de que estamos num momento delicado e que se trata, indiscutivelmente, de um golpe. Uma perseguição a uma pessoa, uma estadista, que é travestida de machismo e misoginia. Temos muitos avanços importantes que foram conquistados e que estão sendo ameaçados. Isso me afeta diretamente. Meu corpo, minha história estão sendo ameaçados. Estou num lugar de contestação a isso tudo. Ao mesmo tempo, é um momento de reflexão, de possibilidade, de reversão dessa falta de articulação nossa. Quando falo nossa, trato desses segmentos minoritários, da esquerda (sou uma pessoa de esquerda). Mas não tenho certezas. Acho que é muito importante dizer que não dá pra ter certezas. Sou uma pessoa extremamente politizada, durante toda a minha vida, venho de movimento estudantil e nunca deixei de fazer política. Não tenho certezas. São contingências, circunstâncias nas quais a gente precisa se posicionar. Eu consigo dormir porque estou me posicionando contra um golpe que está acontecendo. O país que vivo é um país que está sendo golpeado por uma corja. E temos um não governo com sete ministros investigados por uma operação que é a mesma que falsamente teria sido motivo para tirarmos uma presidenta. Por outro lado, temos que reconhecer, há erros no governo que foi deposto. Na minha avaliação, erros por não ter se assumido como um governo de esquerda, que radicalmente deveria extirpar ou diminuir ao máximo possível as diferenças, a desigualdade social. Eu vivo num país em que vejo todos os dias na minha rua, em todos os cantos, as pessoas comendo lixo. Morro de vergonha disso. Isso é lamentável. É um país que mata um jovem entre 15 e 25 anos, negro, a cada dois dias. É um país que espanca e comete violência contra a mulher a cada 15 minutos provavelmente. País que estupra, que mata mais de mil mulheres por aborto porque é criminalizado hipocritamente. É o país que mais mata homossexuais e transexuais no mundo. E é o país que eu vivo e amo com todas essas contradições. Mas é um país do qual não tenho muitas certezas. Realmente, é a pergunta mais difícil.

DA – Diante de tantas coisas que nos oprimem, você acha que a arte é um instrumento de libertação?

ALEX SIMÕES – Sim. A arte é um instrumento de libertação, de esclarecimento. Desconfio que se não fosse um artista, não fosse poeta, provavelmente seria um terrorista (risos). A arte pelo menos tem essa função no mundo. Ela evitou um terrorista. Faço guerrilha com a arte. Defendo pacificamente a revolução através da linguagem. Acredito que a arte possibilita nossa transformação. Ela mudou minha vida. Tenho afeto pelo mundo, acredito na possibilidade de transformá-lo. A revolução passa pela estética, por um olhar estético sobre o mundo. A arte liberta porque educa, transforma, cria possibilidades de novos mundos. Ela, com certeza, me livrou de ser um terrorista. Eu poderia estar fazendo coisas terríveis se não fosse a possibilidade de dizer coisas com meu corpo, com meu texto, através da poesia.  Ela me faz ficar nesse mundo e criando essas possibilidades de dizer coisas que não são utópicas porque se concretizam através de palavras e formas.

DA – É possível escrever sem morrer um pouco a cada dia?

ALEX SIMÕES – É impossível viver sem morrer um pouco a cada dia (risos). Sartre ou Kierkegaard, acho, falava que o sentido da vida é a morte, que morremos a cada dia, enfim. Viver antecede, é uma questão maior do que escrever. A gente escreve porque vive, mas talvez quando a gente escreve todo dia, e felizmente é meu caso, criamos a ilusão de dar sentido para essa vida, pois ela não tem sentido. Escrever todo dia é fazer a vida mais possível, mais pulsante. É um modo de enfrentar, pois a morte é inevitável, vai circundando a gente. A escrita, para mim, tem sido cada vez um modo de enfrentar a morte. Não só a minha, mas a morte que está cada vez mais ao meu redor. Tenho cada vez mais pensado nisso. Já vou fazer 43 anos e fico pensando não só na minha, mas no fato de que cada vez mais as pessoas ao meu redor estão ficando mais velhas, adoecendo e morrendo por motivos diversos. Então, escrever é também um modo de enfrentar isso, me deixa mais forte.

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.  

 

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109ª Leva - 03/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

Por trás dum universo de cenários a compor as tramas da literatura, um criador maquina suas investidas. E o faz com o desejo da permanência, urdindo estratégias, escolhendo caminhos, atirando-se no labirinto da palavra. Quem escreve intenta ser alvejado pela percepção do leitor, este ser capaz de reorientar certos roteiros antes traçados. Quem escreve deixa sua marca no mundo na medida em que suas letras efetivamente saiam ao encontro do outro.

No jogo sugerido pela alteridade, o tácito pacto entre emissor e receptor aponta para além de uma suposta cumplicidade quando as coisas orbitam pelo complexo terreno da interpretação. Nesse ínterim, há revoluções internas, guerras contidas, alguns lampejos de êxtase e, sobremaneira, visões postas à prova. Então, seria o leitor uma espécie de destemido desbravador a quem é dado um status de total autonomia?

Acharemos estranho se alguém puder responder a isso com absoluta margem de certeza. Afinal, uma obra não é tão aberta assim na medida em que necessita pontuar rotas que fazem parte naturalmente do contexto estrutural da criação. E é bom poder ouvir escritores, saber deles o motor fundamental de seus ímpetos.

No caso do autor baiano Marcus Vinícius Rodrigues, que transita com preciosa fluidez entre as zonas da poesia e da prosa, as motivações criativas evidenciam uma tentativa de estabelecer um laço com o mundo. Também é, como o próprio escritor confessa, construir a ilusão do eterno.

Autor de obras como “Pequeno inventário das ausências” (poemas – 2001), “3 vestidos e meu corpo nu” (contos – 2009), “Eros Resoluto” (contos – 2010), Cada dia sobre a terra (contos – 2010), e tendo participado de várias antologias, Marcus Vinícius utiliza a memória como valiosa ferramenta de criação. É, na verdade, uma instigante manipulação das lembranças, espécie de distanciamento do real, através da qual o esquecimento protagoniza a elaboração da palavra. Um curioso fluxo de esquecer para escrever.

Na entrevista de agora, testemunhamos um Marcus Vinícius cada vez mais comprometido com o curso natural de seu caminhar literário, algo que se apoia marcantemente por um sentido especial de perenidade. O momento requer que falemos de seu mais novo livro de poemas, “Arquivos de um corpo em viagem” (2015), obra que enaltece a capacidade do autor em demarcar esse verdadeiro receptáculo de epifanias que é o corpo. Também na ótica da dinâmica do corpo, é de sua autoria uma série de poemas criados para o espetáculo de dança “Vous Doux”, cuja plaquete será lançada em Salvador, na Bahia, brevemente. O diálogo presente também visitou outras paisagens, a exemplo da ótica do desejo humano, das inquietudes contemporâneas e das estratégias criativas. Quem divide conosco um pouco de si é um alguém na plena percepção de que sua obra está sendo construída no processar das horas. Tudo isso sem a pretensão das certezas.

 

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Marcus Vinícius Rodrigues / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Tanto na prosa quanto na poesia, seus escritos têm um apelo muito ligado aos percursos do corpo. “Arquivos de um corpo em viagem”, seu mais recente livro de poemas, evidencia tais trajetos. O que dizer do nosso corpo enquanto receptáculo de memórias?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Essa história do corpo começa meio que por acaso mesmo. Olhando pra trás é que dá pra ver que tem essa unidade toda, mas não foi algo pensado. Quando eu comecei a montar o livro “Arquivos de um corpo em viagem”, foi que vi realmente a recorrência e aí organizei a obra toda em cima disso. Eliminei os poemas que não tinham a ver. Acho que o corpo é o lugar de todas as coisas. É onde nós estamos. Então, tudo acontece dentro do corpo, mesmo que seja a experiência mais metafísica. Até a experiência de sair do corpo é uma experiência em relação ao corpo, se você quiser ser místico. Eu continuo fazendo isso. Vou lançar agora um livro, inspirado no espetáculo de dança do meu irmão, “Vous Doux”, e, novamente, há a experiência do corpo, ou seja, os corpos se relacionando com os outros. É uma recorrência, mas não é pensada.

DA – É sedutor pensar que os idiomas do corpo são infinitos?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Não existe isso de infinito tanto em relação às experiências humanas quanto em relação à literatura. Talvez infinitas sejam as formas de fazer sempre as mesmas coisas. O tempo todo encontramos formas de fazer a mesma coisa, de irmos para o mesmo lugar, de conseguirmos as mesmas sensações. O infinito está nos caminhos, pois os lugares aonde chegamos são sempre os mesmos.  Não tenho certeza de nada.

DA – Você acredita que a memória é algo que pode nos trair?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Eu escrevo na esperança desta traição. Escrevo tentando lembrar e já participando dessa noção de que vai haver uma invenção. Isso é um aprendizado com a Lygia Fagundes Telles, com Maria da Conceição Paranhos. Acho muito importante viver, deixar passar o tempo, esquecer, e relembrar para poder inventar. Esse processo, tenho consciente na minha literatura. Eu vivo primeiro as coisas e vou escrever muito depois. Tenho coisas anotadas de 2008, 2009, de uma viagem que fiz, e ainda quero fazer o diário de viagem, mas aí quero esquecer para depois escrever. Não quero fazer um registro real do que aconteceu. Isso para mim é um método. Esqueço para reinventar. E não é nenhuma originalidade. Já aprendi com as duas mestras que mencionei. O que eu escrevo, principalmente na prosa, tem todo um processo de apagamento. Tem uma experiência real, biográfica, lá no fundo, numa das camadas. Na prosa há pelo menos duas camadas obrigatórias: o fundo biográfico e a intertextualidade. Por cima disso, faço todo um processo de apagamento, vou eliminando todas as pistas de biografia e de intertextualidade. Claro que quando a gente apaga uma coisa, outra aparece, muitas delas que a gente nem tem noção, pois entram inconscientemente. O divertido é isso. Apago as pistas do que de fato aconteceu, seja de leitura de outros textos, seja de aspectos biográficos meus.

DA – Diante de um mundo que nos oferta confrontos em abundância, os arremessos são necessários?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Não. Acho o contrário. Penso que temos de mirar um caminho e seguir exatamente ele. O confronto é muito perigoso porque quando você entra em qualquer conflito você se desvia. Tudo bem que as pessoas entrem em conflito com você. O perigoso é quando você quer entrar em conflito com as pessoas, pois terá de ir até onde elas estão e talvez elas não estejam no seu caminho. Caso elas estejam no seu caminho, aí, sim, é possível ter conflitos ideológicos, estéticos, é possível se confrontar. Mas quando as pessoas não estão no seu caminho, o importante é você construir o seu próprio e fazê-lo alargar e alargar. Quando você estiver com o caminho bastante estruturado, certamente surgirá algum conflito, mas é bom que seja o conflito do outro com você e não de você com o outro. As estéticas, políticas e os movimentos afirmativos têm que fazer mais isso: seguir em frente, e não buscar confrontar o outro diretamente. Naturalmente, o outro que se por acaso está nos atravancando o caminho é que se vai confrontar com a gente. Mas aí nós não nos desviamos, porque o perigo do conflito é a gente se perder nesse desvio e viver as ideologias dos outros, sermos reativos a eles. Ser reativo ao outro não é bom nem em arte, nem em estética. Não é mais tempo da gente reagir à forma do outro fazer. Eu faço as minhas coisas, exatamente o que sei, posso e gosto de fazer. E realmente não me interessa como os outros fazem, se fazem bem, se fazem mal. Mas não pretendo discordar, ir contra o outro, porque senão eu paro de fazer o que tenho de fazer, que é de fato o que sei fazer: as minhas coisas, minha escrita, minha vida.

DA – Não te assusta o patrulhamento ideológico ao qual estamos submetidos atualmente?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Estou em relação a isso absolutamente recolhido. Eu me espanto com as opiniões tanto de um lado quanto do outro. E não consigo me sentir parte de nenhum dos dois grupos. É possível conviver muito bem com quem é diferente de você. Tudo isso me assusta. Não me envolvo e não tomo partido porque acho que há coisas ruins dos dois lados, e é preciso refletir muito. Tenho muito medo de pessoas que têm certezas, talvez porque eu não tenha realmente certeza de nada. Já há muito tempo que não tenho certeza de muitas coisas e também não tenho certeza de que devíamos estar todos aqui no planeta, vivendo. Acho tudo muito estranho. Penso tentando encontrar uma solução, mas não há. E há muitas coisas que não sabemos. Aos poucos, fui me acostumando a não saber as coisas, a não ter curiosidade. Por exemplo, em religião, já procurei muitas coisas, quis saber muitas coisas, e hoje em dia me contento em não saber. Aceitei o mistério.

DA – Vez por outra, vem à tona um debate sobre a divisão da literatura em nichos de gênero. É como se as vozes ficassem reduzidas a guetos. O que pensa sobre isso?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – É uma questão que sempre retorna. A má literatura é que fica em guetos. A boa literatura ultrapassa tudo. Tem os guetos óbvios (gays, mulheres, negros), mas tem um gueto muito menos óbvio, que se impõe por causa de uma força política, mas não pela qualidade literária, que é o gueto masculino, macho, heterossexual e branco. Há um tipo de literatura que só interessa a esse tipo de gente e que não escapa disso. A gente não percebe porque esse macho, adulto, branco, como diria Caetano, está no comando. E quem está no comando é quem decide o que é o certo, o standard, o padrão. Mas, se você for reparar, há mesmo uma literatura que não interessa às outras pessoas, que é muito particular porque é má literatura. Quando escapa desse gueto, não interessa a ninguém. As pessoas discutem, veneram porque este gueto é o gueto que está no poder, mas não deixa de ser um gueto. A boa literatura pode discutir questões raciais e interessar a todo mundo. Pode discutir questões gays e interessar a todo mundo. Pode discutir questões femininas e interessar a todo mundo. Pode discutir questões do machão, hétero, branco e também interessar a todo mundo.  Tudo isso porque é boa literatura e se preocupa muito com a estética. A má literatura não interessa a ninguém. Só interessa àquele grupinho e serve para um gozo imediato daquelas pessoas, para uma função fisiológica rápida. Fisiológica não somente nos sentidos básicos, normais, mas também no sentido de servir como uma aceitação, um reforço do que determinada pessoa sente ou quer sentir. São literaturas que lidam com emoções básicas. Veja, por exemplo, a saga “Crepúsculo”, a qual não li, apenas vi os filmes. Ela tem um apelo muito grande com os adolescentes porque mostra a depressão que eles vivem naquela época. É muito chato para quem não está mais naquele período de depressão, de se pensar no que é, no existencialismo, de se viver uma vida sem grandes aventuras sexuais. É tudo tão casto ali porque é isso. Já “Harry Potter” é infantil, mas o tempo todo está lidando com outras questões e há várias camadas de leituras que se pode fazer além de um mero divertimento. Interessa a mais gente do que um “Crepúsculo”, que vai desaparecer em breve. Ninguém mais vai falar sobre isso. “Harry Potter” tem chance de sobreviver por muito tempo e interessar muito mais gente.

DA – No território da prosa, seus trânsitos criativos deixam um legado especial, sobretudo em se tratando de obras como “Eros resoluto” e “Três vestidos e meu corpo nu”. A ótica do desejo humano é uma trincheira de despertar para o mundo?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – O “3 vestidos e meu corpo nu” e o “Eros Resoluto” são livros tirados de um mesmo livro. Era um livro ainda incompleto, que até não tinha alguma unidade. No “3 vestidos”, eu coloquei três contos que têm uma visão feminina, são endereçados na questão feminina e em escritoras e têm uma intertextualidade expressa, flagrante e franca. E o “Eros resoluto” é mais específico de contos homoeróticos. Eles, a princípio, estavam todos num livro. Claro que os contos com a questão feminina não entrarão nesse livro futuro que um dia eu vou reunir, pelo menos com os contos homoeróticos. Talvez eu faça um livro só com os vestidos porque há mais uns três contos esparsos com visões femininas também. Essa vontade de organizar eu tenho muito. E tem, sim, sempre o desejo. Eu sempre estou prestando atenção no desejo que está por se realizar, porque é o momento que realmente importa. Uma vez que se realize, acabou, morreu. Até na minha pesquisa de mestrado o meu interesse era com o surgimento do desejo. Acho que o momento em que surge é o momento em que a gente tem mais plenitude de vida. Depois é ladeira abaixo, degradação, as coisas vão se acabando. É a pulsão de vida. O erotismo mesmo como pulsão de vida. É isso que me interessa tratar. Então, esses dois livros que vão se separar, e vão se chamar “Café Molotov”, trarão contos homoeróticos que tiverem unidade. E o “Três vestidos” também vai se formando aos poucos. Estou o tempo todo escrevendo uns três ou quatro livros temáticos e vou espalhando pelos livrinhos que tenho conseguido publicar. Às vezes, me pedem histórias específicas e vou tentado adequar aqui, ali, vendo onde se encaixa no projeto. Tenho uma planilha com as coisas que pretendo fazer. E vou recebendo os estímulos, produzindo e tentando encaixar. Eventualmente, alguma coisa é descartada ou outra acaba abrindo o caminho para novas possibilidades de livro que vou organizar no futuro. Mas a questão do desejo certamente perpassará todos os livros. Sempre é algo que aparece. Quando vou produzir um conto, eu trabalho sempre com várias unidades para que ele possa se encaixar num livro, em outro, e esses livros ideais estão sendo montados aos poucos. Quanto tiver a oportunidade de lançar um livro inteiro com isso, eu lançarei. Não tenho pressa porque é aos poucos que a gente vai fazendo. Assim que eu tiver oportunidade, sai essa antologia de contos chamada “Café Molotov”. Tenho o blog justamente com esse nome para assegurar o título como meu. Há um conto já escrito que trata disso, o qual permanece inédito para nomear o livro. Então, o meu desejo é de ordem, mais do que qualquer outra coisa. Meu desejo é apolíneo, e não o dionisíaco, que todo mundo busca. Eu quero ser apolíneo porque no caos eu já estou. Quero caminhar até a ordem.

DA – O caos também pode ser uma rota para a libertação assim como o desejo?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Para mim, não. A libertação está na ordem. Eu acho que já estamos no caos, e penso que a tendência da natureza é a ordem. Qualquer desarrumação que você faça na natureza em qualquer nível, seja nos moleculares ou sociais, a tendência depois é as coisas se organizarem, encontrarem um lugar, uma ordem. A pacificação está, para mim, na ordem e não no caos. O caos pode vir para explodir alguma estrutura e depois se buscar uma nova ordem, mas o caminho é a ordem. O fim é a ordem. O caos é uma desorganização momentânea. E ele é efêmero. As pessoas que falam do dionisíaco estão querendo trabalhar no registro do efêmero. Mas isso pode até servir para outras artes, teatro, performance, mas a literatura, stricto sensu, busca a perenidade. Então, você vai produzir alguma coisa que fique. Essa deve ser a intenção, pois o que não fica não é literatura. Literatura é o que vai acontecer depois, na leitura lá no futuro. Se você depende da presença das pessoas para o contato imediato, já não é mais a literatura stricto sensu, é arte cênica, música, performance, qualquer outra coisa. Depois surgiu a palavra escrita que vai comunicar para o futuro, para o distante. E aí você precisa de mais ordem. Hoje, as pessoas com todas as possibilidades de comunicação audiovisual estão dando muita ênfase ao momento da performance, ao contato próximo, ao texto que é dito em voz alta. Mas tudo isso é efêmero. É literatura dramática? É drama? É performance? Ok, mas não é aquela literatura que vai comunicar com o futuro, o distante, aquilo que nós não sabemos o que é ainda. Para essa literatura, precisamos de alguma ordem, de algum parâmetro para que a comunicação possa se estabelecer no futuro. Estou interessado no fato de que uma pessoa que não saiba quem eu sou, pegue um texto meu, até com a autoria apagada, e até se comunique de alguma forma com o que eu disse, sem depender de mim pessoalmente para que isso aconteça. E isso só se faz com ordem. Você não vai conseguir fazer isso com o caos. O caos é um caminho, um processo, uma etapa, mas não é o fim em si das coisas.

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Espetáculo “Vous Doux” / Foto: Aldren Lincoln

DA – Ao longo do tempo, suas estratégias de criação mudaram muito?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Na poesia, eu acho que mudou alguma coisa. Tem um momento em que eu ganho mais consciência da forma. Depois também quero esquecer essas consciências, voltar a ser intuitivo. Na verdade, poesia eu comecei imitando. Em algum momento vou fazendo intuitivamente, aí publico o primeiro livro. Depois não consigo fazer mais nada que acho que seja interessante, paro um tempo e vou para a prosa. Mais adiante, volto a fazer poesia e aí ganho mais consciência. Até estudo métrica, forma, e depois esqueço. O que achei realmente após lançar o primeiro livro foi que, embora não tivesse uma preocupação formal, eu tinha estruturas que se repetiam. Depois, cansei, parei, e comecei a pensar nisso melhor. Acho que hoje em dia eu tenho mais consciência da forma, de como lidar com algumas estruturas. Umas se repetem, mas vejo que ninguém repara e então vou deixando. Tem alguns truques que se repetem, mas ainda está funcionando. Poesia é preciso descansar para depois fazer de novo. Recuperar, esquecer e depois aprender de novo.

Eu demorei muito a escrever prosa. Já tinha um primeiro livro publicado e nunca tinha escrito um conto e queria escrever. Os primeiros são muito intuitivos, muito poéticos e com pouca ação e história. Depois é que acho que fui aprendendo a fazer contos. O romance ainda estou aprendendo a fazer. Qualquer dia sai um, não sei. Mas o conto eu fui aprendendo e o meu modelo de escrever é com muita estrutura por debaixo. Tem sempre muita coisa por debaixo de um conto. Um monte de histórias que não são contadas, de truques. Há estratégias, às vezes até bobas, tipo “eu vou escrever e só vai acontecer a história em determinado lugar ou hora do dia”. Vou criando alguns obstáculos que depois acabam não aparecendo.  Por exemplo, o conto “A omoplata” era um mero exercício, pois o objetivo era fazer um texto apenas com diálogos porque tenho uma repulsa em fazer diálogos. Sempre escolho não fazer. Então, me obriguei a fazer um conto só com diálogos. Agora já faço contos só com diálogos, alterno melhor. Posso eventualmente não escolher fazer diálogo algum ou não deixar as pessoas conversarem. Todas essas estratégias, algumas muito bobas, circunstanciais, tipo escrever sob encomenda, dentro de um determinado tema, são interessantes porque criam camadas de histórias, narrativas e temáticas. Acho que isso melhora um pouco a minha prosa. Isso eu fui aprendendo depois e cada vez faço mais. Vou construindo subtextos, subtramas, coisas escondidas para construir um conto curtinho às vezes. E sempre fazendo com que de alguma forma se relacione com outro conto que eu escrevi para montar uma malha, uma rede em que haja um diálogo entre eles. Toda vez que escrevo um conto, ou penso que ele vai se relacionar com algo que já escrevi ou ele abre um caminho para uma outra vertente, alguma coisa que devo fazer depois. Aí eu prevejo e deixo lá. Vai se montando uma teia. Quero que tudo se relacione de alguma forma. Isso acaba sendo uma estratégia, coisa que eu não fazia antes. Foi acontecendo aos poucos.

DA – O trabalho de resistência das editoras independentes inaugura uma nova era para as publicações?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Acho que todo mundo quer entrar nas garras do mercado tradicional. Ser um produto tão bom que possa ser consumido, circular bem, todo mundo quer isso. Mas isso não vai acontecer mais com todos. Não existe mais esse mercado para a literatura, a não ser aquela de entretenimento. A grande literatura não vai ter esse mercado todo e vai ser mesmo uma coisa pequena. Não vai ter mercado, vai ser arte simplesmente. Uma arte de alcance no momento reduzido, que depois vai esperar um alcance maior no tempo. No momento em que você publica, acho que cada vez menos vai haver circulação, pois mesmo quando circula, a boa literatura, essa literatura preocupada mais com a estética, circula num subterrâneo, num gueto. Não é uma coisa acessível a todo mundo. Por quê? Porque, claro, as pessoas não precisam mais da literatura para se divertirem, a não ser da literatura de entretenimento simplesmente.  As pessoas vão assistir cinema, televisão, internet e não precisam ler. Não precisam gastar quinze, vinte anos aprendendo a ler bem, a interpretar um texto. Então, esse vai sendo um interesse de um número cada vez menor de pessoas. Mesmo que circule, sempre será uma circulação subterrânea, clandestina, que não chega ao grande público. As editoras pequenas, como as da Bahia agora, dão um fôlego. Isso é bom porque essa tribo das pessoas que leem, gostam de literatura e, na maioria, também escrevem acaba consumindo. Vai ser uma coisa pouca. Acho que não tem mais porque ter ansiedade. Todo mundo sonha, algumas pessoas até produzem obras com essa finalidade do grande público, mas você tem que fazer algo específico para esse grande público. E talvez não seja o caso nem de escrever um romance, mas sim um roteiro para cinema, televisão, que também é uma coisa muito interessante. Mas não é pra todo mundo e alguns escritos são para poucos mesmo, pois não há hoje em dia mais tantas pessoas com capacidade para ler e interpretar um texto literário. É um público muito reduzido. Com pouco dinheiro, você publica um livro. A questão das pequenas tiragens é uma saída, um respiro, um tipo de sobrevivência. Mas é só isso, mera sobrevivência. Não vai além.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Pós-modernidade pode ser tudo. Se pode ser tudo, o que faço também é pós-moderno. O que eu não admito é que queiram que pós-moderno seja alguma coisa que ainda continue o Modernismo, as vanguardas lá do começo do século vinte. Isso não me interessa, essa agonia com o novo, essa vontade da novidade. Eventualmente, há coisas muito boas, mas há muitas que já nascem datadas, velhas, e que não se sustentam. Como o que eu acredito, penso e quero é algo que dure, o experimentalismo não me interessa. Claro que faço exercícios, mas não publico querendo que seja algo que vai ficar. Sei que é um exercício, é efêmero e não vai se sustentar. Mas alguma coisa da vontade de novidade fica. Não será tudo. Não tenho ansiedade do novo. Não me preocupo com isso. Quem quer fazer, que faça. A característica da pós-modernidade é a diversidade, a fragmentação. Então, cada um pode fazer o que quer. Eu faço o que eu quero, simplesmente, e pronto. E quem quiser fazer o que se diz como pós-moderno em oposição ao que faço, tranquilo. Não tenho ansiedade pela novidade pura e simplesmente. Tenho ansiedade pelo texto que fique tão bem acabado que não se possa dizer aquilo de outro jeito, a não ser daquele que foi dito. Não estou interessado no efêmero e no que vai se acabar a qualquer tempo. Claro que eu sei que tudo pode se acabar daqui a pouco, mas não trabalho com isso. Sei que tudo é assim, que tudo se acabará, mas o meu movimento de produzir é no sentido da perenidade. É um método. É o meu método.

DA – Por que escrever?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Pelo mesmo motivo que as pessoas bebem, fazem sexo, amam. Não tem motivo, pois ou é isso ou nada. E o que vem depois do nada a gente não sabe. É gostar de se expressar, de criar histórias, de construir um mundo particular, de construir a ilusão do eterno. É pra isso. Se a gente começa a pensar o porquê das coisas, todas elas não têm muita razão de ser, não têm muita necessidade. Nem viver, não é? Mas a gente vive porque não sabe o que vem depois, vamos aproveitando o que se tem. Eu comecei a escrever porque gostava de ler o clássico, o clichê do clichê, e gostava de estar nesse lugar. E tem uma hora que você tem que criar esse próprio lugar. Tem gente que bebe e vive para isso. Tem gente que gosta de futebol. Há pessoas que fazem outras coisas e apenas preenchem o tempo. Acho que pelo menos a literatura ou a arte de um modo geral têm essa sensação de que está se construindo alguma coisa. Esse é o grande lance. É isso que aproxima talvez as artes da religião. A religião também é isso. Ela é a aposta num depois, aposta no que a gente não vê, no sobrenatural. A arte também é uma aposta no sobrenatural. A aposta na comunicação com uma pessoa que você não sabe quem seja é uma esperança. Escrevemos por esperança, simplesmente. Em quê é que é o problema. O bom da esperança é que ela não é em nada. Esperar nesse sentido é intransitivo. Simplesmente, esperamos uma coisa, uma transcendência, um além. Claro que você pode escrever poesia, prosa para objetivos mais específicos, mais circunstanciais, mas quando a gente começa a se perguntar o porquê das coisas, vai dar em nada, que ao findar vai dar em nada, nada, nada do que eu pensava encontrar, como se diz na música do Gil. Mas é isso. Se você começa a pensar, a gente vai acabar no nada. Então, eu escrevo porque me preenche de alguma forma. Se não escrevesse, talvez eu bebesse.

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.  

 

 

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108ª Leva - 02/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Clarissa Macedo

 

Nathan Sousa (Teresina, 1973), é poeta, escritor, professor, tecnólogo em Marketing e letrista. E poeta, mais que qualquer outra coisa, já que é da costura lírica de seu verbo de onde nascem poesia, prosa e música – esta, aliás, que já lhe rendeu mais de 30 composições gravadas em parceria, dentre outros, com o maestro Beetholven Cunha, e que já foram interpretadas em Portugal e na Inglaterra. Radicado em São Gonçalo do Piauí, ele é autor dos livros O percurso das horas (Edições do Autor, 2012), No limiar do absurdo (LiteraCidade, 2013), Sobre a Transcendência do Silêncio (Prêmio LiteraCidade 2013), Um esboço de nudez (Penalux, 2014), Mosteiros (Penalux, 2015) e um romance: Nenhum Aceno Será Esquecido (Penalux, 2015). Mais que títulos exuberantes, que já revelam um pouco do perfume que exala de suas linhas, os livros do autor referido são fortes e bem regados; pois ele tem o cuidado que a palavra exige para os que dela bebem. É Ivan Junqueira quem nos alerta: “Não sou eu que escrevo o meu poema: / ele é que se escreve e que se pensa, / como um polvo a distender-se, lento, / no fundo das águas, entre anêmonas / que nos abismos do mar despencam.”. E é esta a sensação que desabrocha durante a leitura de um livro como Mosteiros, por exemplo: uma autonomia, porque, depois de sentirmos, instância primeira que se despe durante a contemplação de um artefato artístico, mesmo com os protestos da arte conceitual, notamos a palavra erguida de sua própria matéria, sem aquele zelo excessivo que deixa o verso raquítico e o poema sem corpo de tão insosso. O que se desvela é uma literatura sem arestas, mas proeminente de golpes e pétalas:

 

Destilado

 

não mais poderia aquela imagem
flagrar o espanto em que meus olhos
armou suas persianas de água.
e agora que correr é um exercício
de luz e córnea (um desentranhar
de sonho e acervo) aparo as gotas
de meu precipício para destilar
a sede de outras intempéries,
burladas entre o vermelho e o lenço.

 

A identidade de sua escrita é a beleza, em seu sentido mais vivo e carnal; é o lírico destilado, fecundado, cheio de imagens que pescam o leitor de um só arranque.

Integrando 20 antologias e sendo vencedor de 23 prêmios literários, dentre eles o Assis Brasil 2013, o II Prêmio de Literatura da Universidade Federal do Espírito Santo, o Prêmio Machado de Assis 2015, da Confraria Brasil-Portugal, e o Prêmio José de Alencar 2015, da União Brasileira de Escritores – UBE, Nathan tem poemas publicados em algumas das principais revistas de literatura do Brasil, é membro da Academia de Letras do Médio Parnaíba e membro-correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni-MG. Seus livros estão em 36 bibliotecas espalhadas por 12 países. Mosteiros está na lista do projeto de tradução da Universidade de Santiago, no Chile.

Mais que um vasto currículo para um escritor que vem publicando há pouco tempo, Nathan Sousa é poeta. E sua obra sussurra plenitudes e coerências, com o espírito daqueles que elegem a literatura como o percurso das horas.

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Nathan Souza / Foto: arquivo pessoal

                                     

DA – Nathan, iniciando por uma pergunta clichê: como começou isso de escrever literatura?

NATHAN SOUSA – Fiquei realmente encantado com a literatura ainda na adolescência, com os livros de uma tia (Tia Nileide). Depois, aos 14 anos, em Teresina, eu conheci a Biblioteca Desembargador Cronwell de Carvalho e fiquei encantado com todo aquele universo. Acabei me tornando, e digo sem modéstia, um leitor compulsivo. Mas, decidir escrever, alimentando a ideia de um dia ter um livro publicado, isso só me ocorreu em 2010, quando eu já tinha 36 anos.

DA – De onde parte o que você escreve?

NATHAN SOUSA – Parte da combinação entre a minha experiência de vida (meu contato com o mundo real, minhas perspectivas, meus anseios, minhas perdas e ganhos), o acúmulo verbal que eu consegui ao longo de todos esses anos dedicados aos encantos da literatura, somando-se a isso o olhar automatizador que sempre me perseguiu e que está sempre muito afeito ao meu processo de maturidade. Este ímpeto pelo dizer que nós não sabemos mensurar, nem dizer para onde vai.

DA – A literatura é, por excelência, criadora de uma zona discursiva marginal, que trabalha com sentidos mais amplos e imaginários. Como você mencionou, somado a isso, a criação e a própria literatura são um “ímpeto pelo dizer que nós não sabemos mensurar, nem dizer para onde vai.”. Em que medida é possível “utilizar” a literatura? O que ela vale numa sociedade como a que vivemos?

NATHAN SOUSA – Há um “modo continuum” na natureza humana que direciona nossas ações para a satisfação das necessidades em seus avançados graus. Mas, pegando de empréstimo um termo do genial João Cabral de Melo Neto “isso ainda diz pouco.”. A literatura serve, antes de tudo, para nos fazer compreender melhor essa complexidade desenfreada de relações a que chamamos de sociedade. Impulsiona o homem para o mergulho na subjetividade e, de lá, abre seu campo de visão. Há centenas ou talvez milhares de livros, por exemplo, a respeito do sul dos EUA. No entanto, quando o leitor se depara com os romances de Faulkner, passa a ter uma compreensão maior desse amálgama de vidas, de relações econômicas, enfim…. do conjunto que formou aquela região.

DA – E você acha que ela á apontada como “difícil”, “cansativa” por um público por ser um mergulho tão intenso na subjetividade? Por perfurar mais que acolher?

NATHAN SOUSA – Literatura é, antes de tudo, uma devoção. É subir ladeiras sem se importar com as dores. E esse ato, para os verdadeiros escritores e poetas, traz sensações que passam despercebidas, tendo em vista que a leitura e escrita sempre serão atos da mais pura existência. Depois é que vêm a mídia, os holofotes, os prêmios, as badalações… mas se não vierem, a devoção continuará a mesma.

DA – O que significa, em seu íntimo, chegar aos lugares por onde a literatura tem te levado?

NATHAN SOUSA – Significa um reencontro. Sim, eu me reencontro de forma consciente nos momentos de experiências de leitura, de releitura, quando vou aos saraus, quando sou homenageado, quando lanço livros, quando falo, incansavelmente, de literatura, desta necessidade inexplicável de ler, de escrever, de revelar e se deixar levar pelos mistérios que a própria literatura arrasta consigo.

 

DA – O que é para Nathan Sousa ser premiado pela UBE e finalista do Jabuti?

NATHAN SOUSA – Os prêmios ajudam, principalmente, a divulgar a obra. Sabemos que a literatura não recebe um tratamento caloroso aqui no Brasil. Ser premiado, e em romance, pela UBE, seguido de estar entre os finalistas (em poesia) do mais destacado prêmio das nossas letras, o Jabuti, é afirmar que tudo o que eu fiz até aqui, em matéria de arte literária, valeu a pena. Já valeria sem os prêmios. Dá-me também a sensação de que as minhas escolhas (mergulhar nos clássicos e me refrescar com o que há de mais significativo na produção contemporânea) estão me levando para onde eu verdadeiramente quero, ou seja, para aprender a escrever melhor, sempre melhor.

 

DA – E além de escrever melhor, até onde você quer ir com/na literatura?

NATHAN SOUSA – Até onde minhas últimas forças puderem me permitir pensar, debater, ler e escrever, mergulhar nesse universo. Eu não conseguiria fazer outra coisa na vida. Portanto, ainda penso no mundo, na minha razão de viver, no sentido dessa caminhada, como uma grande biblioteca. Sou, assumidamente, borgiano, nesse aspecto. Ainda tenho muitas aspirações como poeta e escritor (a de continuar buscando novas experiências de linguagem com a poesia; a de escrever um grande romance (uma grande novela), a de ler muito, mas muito mais).

Nathan Sousa
Nathan Sousa / Foto: arquivo pessoal

DA – Você fala sobre escrever um grande romance. O romancista e o poeta se encontram em algum momento?

NATHAN SOUSA – Sim, a todo momento. Eu costumo dizer que o que enriquece a minha poesia é a suposta afinação com a prosa de ficção e vice-versa (risos).

DA – Você saberia definir sua obra? Elegeria algum tema central?

NATHAN SOUSA – Certa vez, Garcia Márquez disse que todo escritor está sempre escrevendo o mesmo livro. Ele disse que o dele era o livro da solidão. Seguindo essa concepção do mestre do realismo mágico, eu diria que a minha escrita tem enveredado pela estrada da transcendência e do silêncio. Não sei definir com clareza a minha literatura, mas sei muito bem que eu realizo o ato de escrever para alargar a minha identidade, e não somente para me reconhecer existencialmente.

DA – Conte-nos sobre sua experiência como mais novo membro da Academia Luminescência Brasileira – ALUBRA.  

NATHAN SOUSA – Fui indicado à Academia Luminescência Brasileira – ALUBRA, por dois membros de lá. A instituição tem sede em Araraquara-SP. As academias são clube e não seleção, como quer a maioria. Eu sou membro e atual secretário geral da Academia de Letras do Médio Parnaíba. Entrei aos 39, mais para representar o orgulho de minha mãe, que faleceu um mês antes da minha posse, no começo de 2013. Pelo menos no meu caso, a academia me aproximou de outros escritores e poetas de uma forma mais intensa e harmoniosa. Eu ainda acredito que muito pode e deve ser feio por essas instituições, principalmente no que diz respeito à divulgação da literatura de seus membros e da comunidade que cada uma delas representa. Ainda não vimos isso, mas eu não me sentiria bem em negar o convite e ficar do lado de cá, resmungando. Ainda sou membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni-MG.

Eu digo sempre o seguinte: Assis Brasil, O G Rêgo de Carvalho, H Dobal e Da Costa e Silva, quatro dos mais destacados nomes da literatura piauiense, fazem e faziam parte da Academia Piauiense de Letras. Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Jorge Amado faziam parte da ABL. Por que, então, eu me recusaria a ser membro de uma instituição literária que deseja ter meu humilde nome entre os seus?

DA – A respeito disso, é interessante pontuar a postura de alguns escritores que alegam não sentirem desejo de publicação, mas publicam, ou afirmam sua obra como irrelevante, embora aceitem convites para eventos literários. Como você vê este tipo de postura? Como é a sua relação com a “fama literária”?

NATHAN SOUSA – Com relação aos que se posicionam dessa maneira, a meu ver, querem conservar uma posição de elegância pela ausência, pela despretensão, por uma simplicidade que é típica dos que querem ser lembrados, mas não querem ser vistos. Tenho convivido com certa projeção literária em tempo muito curto de carreira, não nego. Eu tenho procurado aproveitar essa projeção para tentar realizar dupla função: promover a minha escrita/despertar o gosto pela leitura e a coragem para publicar. Tenho me deparado, ao longo dos últimos três anos, com poetas de boa qualidade, enclausurados na redoma do receio. Eu digo a que vim no meu primeiro poema (Combate, vide O percurso das horas – 2012): “Escrever poemas / é como rasgar a camisa / mostrar o peito / se armar com uma faca cega / olhar no olho do mundo / e autorizar: / pode vir”.

DA – Rasgar a camisa exige coragem. E além de coragem, como uma espécie de mensagem, o que mais você gostaria de dizer aos leitores da Diversos Afins? (desde já registro o meu muito obrigada pela sua disposição em responder essas perguntas).

NATHAN SOUSA – Eu agradeço imensamente por essa entrevista tão rica e tão amigável, o que não poderia ser diferente, em se tratando de uma entrevistadora/poeta com a sua competência e afinação com as palavras, e gostaria de dizer aos leitores da Diversos Afins que intensifiquem cada vez mais o gosto pela leitura. Ninguém sairá perdendo com isso.

Clarissa Macedo nasceu em Salvador e vive em Feira de Santana, Bahia. É licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014) e “Na pata do cavalo há sete abismos” (Ed. 7 Letras).

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

O escritor visita o museu da memória. Transita, a princípio, por um corredor de paredes nuas e escuras. Segue um mapa involuntário, aquele que condiciona um caminho, ainda que não exista seta ou placa referencial. Vai a passos firmes, até que se depara com a entrada de uma sala. O escritor estaciona na soleira e vasculha o interior aparentemente vazio, tomado pela mesma textura de desclaridade que cobre os limites exteriores. Reluta, mas decide entrar. Palmeia no ar a distância à frente, imitando um cego, um perdido.

De repente, um facho de luz perfura o breu e projeta, no concreto liso, uma imagem que dá partida a uma sucessão de velhas fotos, retratos em branco e preto. Cenas de outros tempos que irradiam uma familiaridade, um pertencimento latente, sobretudo porque o escritor em estágios preliminares da vida figura em inúmeras delas. Superado o espanto, o escritor se aproveita dos intervalos do flash para divisar uma saída. Junto à porta, há uma caixa de madeira, semelhante a uma caixa de sugestões, com um bilhete ao lado que demanda que o escritor reconte aquela história, a sua história, e a deposite no receptáculo. Ele pondera, mas percebe que qualquer tentativa irá resultar em fracasso, pois as imagens não dispõem de uma integridade sequencial, de uma cola entre si. O escritor irá fracassar, pois toda incursão pela memória é falha.

O escritor Julián Fuks escreve o fracasso, a impossibilidade de recontar a memória. Seu romance recente, “A resistência”, intenta examinar o próprio enredo familiar, a partir da reconciliação com a infância, com o fato de ter um irmão adotivo. Filho de intelectuais argentinos, que nos anos 80 se exilaram no Brasil por conta da perseguição política do regime militar, o autor paulista cria uma duplicidade ao se colocar como agente de duas épocas, narrando e, ao mesmo tempo, participando de um drama que é um eco da história devassada de um país, dos atos de combate à repressão e dos choros incontidos dos que procuram incansavelmente seus desaparecidos.

Esses deslocamentos entre o passado e o presente encontram sintonia na subjetividade, no esforço de resgatar, no movediço da consciência, um rastro de sentimentos que possa atestar que se avance pelo terreno da verdade e não pelo da invenção, que a verdade, ao menos, prevaleça na maior parte. Não é tarefa das mais simples, todavia, pois a memória é também um segredo guardado no mais fundo, uma sala escura que, iluminada espasmodicamente, dará conta de que observar este irmão é também observar a si mesmo, é desvendar os motivos que levaram um jovem, ao se saber adotado, decidir se subverter à lógica da família que o criou, como aqueles que o criaram se subverteram anteriormente à lógica do regime ditatorial.

Da conversão da matéria autobiográfica para matéria literária, Fuks constrói um relato labiríntico, consubstanciado por um rigor com a linguagem, a descoberta de uma prosa potente e delicada, que impacta e comove ao arrastar o leitor para essa busca, esse acerto de conta com uma dúvida, proporcionando um encontro com a literatura superior que captura um espírito do tempo, que compõe uma obra-prima da nossa geração.

Em entrevista exclusiva, Fuks fala sobre o ponto de partida e a construção do romance, a relação entre ficção e realidade, e o processo de lapidação da linguagem, que classifica como “quase obsessivo”. Além disso, o escritor comenta o abismo entre a produção brasileira e a de outros países latino-americanos, o depauperamento da crítica literária, a extinção dos cadernos culturais e o desafio de ser escritor no Brasil. “A carreira de um escritor no Brasil costuma ser feita de acontecimentos pequenos, discretos, que lentamente vão demarcando uma mudança, vão produzindo as condições para que ele continue escrevendo e de fato seja lido”, observa.

Foto: Fernanda Sucupira
Julián Fuks / Foto: Fernanda Sucupira

DA – Seu novo romance tem endereço num território muito frequentado atualmente pelos escritores brasileiros, que é o da autoficção. Porém, como o mesmo denuncia a certa altura, toda memória está suscetível à falha. Sendo assim, o quanto de liberdade inventiva coube na realidade trazida para “A resistência”? Revisar o passado é converter inescapavelmente o relato memorialista em ficção?

JULIÁN FUKS – De fato, enquanto escrevia o livro me via nessa estranha situação que têm vivido muitos dos escritores contemporâneos, me via apegado à realidade, incapaz de tomar distância, infenso à invenção. Há quem encare o fenômeno como uma opção oportunista, mercadológica, uma estratégia escusa dos escritores para atrair o interesse do leitor. Para mim está cada vez mais claro que é uma questão de sensibilidade, uma sensibilidade do tempo, uma certa predisposição a buscar o que há de relevante e verdadeiro nas circunstâncias reais. Em certa medida é um retorno do romance às suas origens, uma busca mais literal da vida comum, da cotidianidade – sem que seja permitido, porém, um retorno àquela crença na representação, àquela ingenuidade.

E está cada vez mais claro, também, que a busca pelo real não exclui em nada a ficção, que a ficção se dá muito mais na seleção dos fatos e em suas interpretações, na construção arbitrária das frases, no transporte sempre falho da memória ao papel. Não vou ser o primeiro a dizer que realidade e ficção não são polos opostos. “Falso”, “inventado”, “falacioso”, esses podem ser antônimos de “real”. Ficcional e real não são antônimos, travam uma relação muito mais íntima do que essa que se quer alegar.

DA – Falando em relação mais íntima, você relata que o livro é sobre seu irmão, mas também sobre seus pais. Inclusive que, durante o processo de composição, seu pai considerou lhe encaminhar um documento que trazia o nome dele relacionado à Operação Condor. O que acaba parecendo que a decisão de escrever o livro, de alguma forma, foi coletiva. Você tinha em mãos o poder de revelar uma história não sua, que, durante anos, por razões de segurança, foi mantida sob sombras. Até que ponto você se permitiu tatear nesse universo impessoal? Quais cuidados tomou no escavar desse terreno denso e movediço da memória alheia?

JULIÁN FUKS – Bom, o livro nasceu a partir de um pedido do meu irmão, se valeu de uma série de relatos íntimos que a memória não apagou, se desenvolveu em inúmeras conversas com meus pais e minha irmã, conversas que eu fui incorporando à narrativa. Nesse sentido, já de partida, se trata sem dúvida de uma construção coletiva; uns quantos discursos confluem ali para contar a história dessa família. Mas é uma construção coletiva também por um motivo mais amplo. Tratando dos temas que trato no livro, a repressão da ditadura, a militância, o exílio, é impossível não passar por uma infinidade de testemunhos há muito escritos, de relatos reais ou ficcionais sobre esse passado sombrio do nosso continente. Ao escrever essa história, por vezes sentia que entrava num espaço densamente habitado, me somava a algo que é quase uma tradição na literatura argentina, algo que poderia ter se tornado tradição na literatura brasileira se soubéssemos trabalhar melhor nossa memória política. Percorrendo um espaço já tão percorrido, acho que o cuidado maior estava em alcançar uma pertinência, em encontrar a sensibilidade necessária para abordar esses temas delicados e ao mesmo tempo narrar a história com força e contundência.

DA – Você acabou adiantando uma discussão que deixaria mais para frente, porém não posso perder o momento oportuno. Sempre me incomodou o fato de não lidarmos com a memória política, como bem fazem nossos vizinhos continentais. Sobretudo na literatura de ficção. Temos estupendos registros paginados sobre o período ditatorial; biografias, coletâneas de ensaios, trabalhos de pesquisa e jornalísticos. Entretanto a ficção, para usar um trecho extraído do seu livro, mostra-se refém “de um pudor antigo adiando cada frase”. A que motivo você atribui esse desinteresse? Por que os autores que nasceram ou foram crianças nos anos de chumbo dificilmente conseguem olhar sobre os ombros e encontrar bons personagens, boas histórias?

JULIÁN FUKS – Acho que a dificuldade não se reduz à literatura, não sei se compartilho dessa premissa. Em inúmeros âmbitos o Brasil tem resistido a encarar de frente a dureza de sua história, a compreender o jogo de forças que levou ao descalabro, a reconhecer as vítimas sem de novo culpabilizá-las, a atribuir devidamente as responsabilidades. Há de fato um pudor antigo adiando cada frase, e o pudor nesse caso tem um nome preciso: é o pudor da anistia. A anistia “ampla, geral e irrestrita” tinha seu sentido na época, permitiu que muitos voltassem do exílio, mas acabou definindo no país uma cultura de esquecimento, de ignorância, de impunidade, de incapacidade de lidar com esses traumas antigos. A historiografia faz o que pode, o cinema faz o que pode, a literatura faz o que pode, mas nenhuma dessas atividades consegue preencher esse vácuo de justiça. Há um movimento recente de lidar com essa história, a Comissão da Verdade foi um produto importante desse movimento, mas é claro que não é suficiente – a anistia não foi revogada, afinal, e isso tem um peso simbólico terrível. Na literatura também há uma nova atenção a esses temas, que se dá também pelo embaralhamento entre realidade e ficção: Bernardo Kucinksi, por exemplo, tem feito um trabalho forte e importante que vai nessa direção.

DA – Fato. Escrevi, há algum tempo, que “K.” foi uma das experiências mais potentes que a literatura me proporcionou. E os contos de “Você vai voltar pra mim” não ficam para trás. Agora jogando luz ainda sobre um trecho da sua resposta anterior, é muito evidente, diria até palpável, o trabalho de busca por uma sensibilidade que proporcione uma leitura de força e de contundência. Na verdade, essa é uma técnica pulsante em seu livro anterior, “Procura do romance”, aplicada também em “A resistência”. Você diria que a sua literatura tem uma preocupação maior com a forma que com o conteúdo? Há um exercício incansável de lapidar as frases?

JULIÁN FUKS – A oposição entre forma e conteúdo é mais uma falácia que nosso tempo, afortunadamente, tem conseguido derrubar. Não sinto que o enredo tenha uma função menor nos meus livros, e neste em particular há uma história forte que eu me obrigo a atravessar, uma história que, ao menos para mim, está carregada de intensidade. O caso é que, muito mais do que as cenas aventurescas e grandiloquentes, me agradam os momentos íntimos, a delicadeza das imagens corriqueiras, o que há de expressivo na aparente banalidade, e assim o enredo parece se desmanchar, ou se dispersar na multiplicidade de cenas menores. Mas, sim, para chegar ao cerne da sua pergunta, por vezes me sinto tomado por um cuidado quase obsessivo em encontrar a palavra exata – como se existisse essa única palavra que completasse a frase exata, o parágrafo exato. Tenho me preocupado cada vez mais com elementos de ritmo e sonoridade, com certa musicalidade do texto, e é inevitável que esse exercício transforme a própria história – ou então que a própria história se transforme, até certo ponto, na história desse exercício.

Fotos do autor Julián Fuks, Companhia das Letras, São Paulo, Agosto de 2015
Julián Fuks / Foto: Renato Parada

DA – Curioso você falar em musicalidade, pois há passagens – e destaco aqui a presença/ausência da Marta Brea -, em que a intimidade do relato ressoa feito um réquiem. É assombrosamente lindo. Mas voltando à construção do livro, você resgata constantemente recortes históricos que se aliam e, às vezes, se sobrepõem ao relato memorialista. O mais recorrente, talvez, seja a menção ao grupo Avós da Praça de Maio, cuja determinação na procura pelos bebês sequestrados e desaparecidos durante a ditadura argentina foi contada no documentário “500”, de Alexandre Valenti. Houve um trabalho de pesquisa para recriar essa época na qual se passa a história? Chegou a recorrer a livros, reportagens ou filmes?

JULIÁN FUKS – Acho que esse assunto sempre esteve no meu campo de interesses, por razões afetivas ou biográficas, sempre ouvi com muita atenção tudo o que se dizia sobre aquele país, aquela cidade, aquele tempo, talvez por sentir que minha identidade passava necessariamente por lá. Mas é claro que, quando decidi escrever sobre esse passado, procurei fazer uma imersão mais sistemática no tema da ditadura militar, da tortura e dos desaparecimentos, dos traumas históricos que reverberam inevitavelmente de uma geração a outra. Li muitos dos jovens autores que hoje têm escrito sobre o que viveram seus pais, no que vem sendo chamado, talvez de forma inadequada, de pós-memória: Alejandro Zambra, Andrés Neuman, Laura Alcoba, Patricio Pron. Em todos eles se vê – e talvez em meu livro também seja assim – uma tentativa de reconstrução da história que não se dá através da reconstituição precisa, de uma austera e jornalística averiguação factual, mas sim de uma investigação muito mais íntima, uma exploração do microcosmo da família, de seus relatos inauditos, um périplo pelos caminhos tortuosos da memória, alheia ou própria.

DA – É bacana como suas respostas vão antecipando questões que eu tinha reservado para o nosso papo. Ao mencionar a tendência da pós-memória, você acaba me sugerindo a ideia de que toda tradução de um livro é, de certa forma, uma pós-publicação. No caso do Brasil, essa condição é muito adequada, dado o longo tempo que muitos autores estrangeiros levam para despertar o interesse de nossas editoras, vide os exemplos recentes de Copi e Juan Emar. Por outro lado, vem ocorrendo um interesse espontâneo por jovens autores de língua hispano-americana. Você citou alguns, mas, para ficarmos com os argentinos, elenco Samanta Schweblin, Selva Almada, Diego Vecchio e o próprio Andrés Neuman. No entanto, o movimento contrário não é tão venturoso. Ainda há, digamos, um desinteresse pela nova literatura brasileira nos países sul-americanos. Com a vivência que traz da Argentina, por que imagina que isso aconteça?

JULIÁN FUKS – Sempre houve um abismo entre a nossa produção literária e a de outros países latino-americanos, não tanto pela diferença de idioma, mas pelo que ela simboliza: a noção de que temos aqui um mundo à parte, um “país continental”, diverso, indevassável, incompreensível, descolado de toda a realidade circundante. E, no entanto, basta observar os processos históricos dessas nações vizinhas, atentar para as estranhas sincronias que se criam tanto em cultura como em política, para perceber quanto esse abismo é ilusório, quanto ganharíamos se o transpuséssemos de vez, urgentemente. Algo desse movimento temos feito, uma parte importante da literatura latino-americana é bem conhecida aqui. O movimento correspondente é que apenas se inicia: a Argentina, por exemplo, ainda tem que conhecer melhor inclusive os nossos clássicos, Machado, Guimarães, Clarice, Graciliano.

Quanto à literatura contemporânea, a literatura deste novo século, talvez haja uma razão a mais para essa dificuldade de reconhecimento no exterior. Percebo uma dificuldade grande também em nós mesmos de reconhecer o valor dos nossos próprios autores, de mensurar obras importantes, estimar trajetórias consistentes, construir, enfim, um novo cânone. Penso que hoje a crise está muito mais na crítica do que na produção literária: a crítica que se submete às veleidades do mercado, que só dá atenção aos lançamentos novíssimos, que a cada ano substitui seus objetos cativos por aqueles que reluzem mais forte nas estantes.

DA – Parte da sua resposta me deu uma deixa para um assunto que gerou um tanto de polêmica na época, porém não posso perder a chance. Dentro desse contexto de reconhecer o valor dos novos autores, tivemos a eleição da revista Granta dos melhores jovens escritores brasileiros como um marco, na falta de um termo melhor. Foram vinte autores, dentre os quais você. Como recebeu essa escolha e encarou as controvérsias? E, mais importante, qual o peso que isso teve para a sua carreira literária?

JULIÁN FUKS – Foram debates intensos os que se produziram na época, e hoje suspeito que o valor maior daquela edição da Granta foi ter suscitado essa polêmica: ao menos assim a literatura jovem brasileira se pôs em questão, se fez objeto de um debate vivo. Ainda que as críticas tenham sido, por vezes, irascíveis demais, diante de algo que não era tão relevante assim, não deixaram de ter sua justiça. Foi um momento importante para denunciar a manutenção de alguns privilégios, a atenção excessiva aos homens, aos brancos, aos héteros, aos habitantes dos grandes centros urbanos, quase todos representantes de uma mesma literatura que se quer séria e cosmopolita. Sim, eu participo desse grupo, mas não é com cinismo que o digo: já passa da hora de abrir os olhos para outras literaturas, de compreender a riqueza que há na diversidade, na multiplicidade, nos projetos que fogem a essa hegemonia. Quando falo da necessidade de construir um cânone contemporâneo, é claro que não é com a repetição dos erros do passado, com a reprodução desse olhar míope e distorcido.

Quanto ao peso que a Granta pôde ter na minha carreira, é algo muito difícil de mensurar. A carreira de um escritor no Brasil costuma ser feita de acontecimentos pequenos, discretos, que lentamente vão demarcando uma mudança, vão produzindo as condições para que ele continue escrevendo e de fato seja lido. Acho que a Granta não se diferenciou muito disso, foi mais um desses acontecimentos.

DA – Justamente essa diversidade não seria um dos motivos – ou o mais latente deles – para que seja hoje tão difícil concentrar essa gama de novas vozes? E trago a lume aqui um debate mais profundo, que inclui a democratização da literatura, com o advento dos blogs e demais plataformas, com o surgimento e a consolidação das pequenas e médias editoras. A questão não seria a facilidade de se publicar também? Temos atualmente tantos autores, produzindo tipos tão distintos de literatura, que me parece um momento de transição o que vivemos agora. Que estamos em meio a uma enxurrada que, apenas após alguns anos, talvez décadas, poderemos discernir o que era apenas fluxo e o que era matéria. Isso, para dizer a verdade, me preocupa sobremaneira em alguns aspectos. O primeiro é não termos leitores para tantos autores, que a literatura se resuma a um círculo fechado de leitura onde autores leiam autores. No entanto, penso que o mais nocivo é começarmos a nivelar a qualidade por baixo, termos um excessivo número de novos títulos, escritos por autores ainda não prontos, que torne a análise difusa e se comece a acreditar que a literatura brasileira está mudando quando, de fato, está piorando. O que pensa sobre esse disparo de novos autores, de autores muito jovens? As editoras independentes, as de pequeno, médio e grande portes não deveriam ter a responsabilidade de selecionar melhor as suas publicações?

JULIÁN FUKS – Seu diagnóstico me parece preciso, sim, mas eu não consigo conceber como negativa a profusão de autores e publicações que vemos hoje. Penso que há algo de muito produtivo nessa vivacidade, nessa democratização do acesso à escrita, nessa multiplicação de editoras, penso que uma literatura consistente se produz a partir dessa riqueza. Nenhum autor surge pronto, a criação literária tem sempre um desenvolvimento lento, e a publicação é parte fundamental desse processo. Quanto mais publicamos no país, creio, maior tende a ser a maturidade da nossa escrita, ainda que essa qualidade só se revele plenamente em poucos autores. Insisto que o problema parece se situar na crítica, cada vez mais escassa, cada vez mais ínfima. É evidente o depauperamento dos nossos cadernos culturais, a cada ano mais exíguos e superficiais – com exceções importantes, é claro. Nesse contexto, talvez coubesse à crítica acadêmica uma aproximação a estas novas produções, e isso tem sido feito com tremenda qualidade por alguns críticos, mas o movimento como um todo ainda se mostra insuficiente.

DA – O caso do depauperamento dos cadernos culturais é um sintoma da crise implantada nos jornais impressos, que minguam seus formatos, reduzem equipes e extinguem seções inteiras. A morte dos suplementos literários é algo nocivo, triste e grave, porém enxergado, por alguns, como um deslocamento irreversível da mídia de papel para a virtual. Lembro-me que, na mesma semana em que um dos principais jornais do Brasil decretou o fim do seu caderno de literatura, uma revista trouxe na capa a celebração dos chamados booktubers, jovens que gravam vídeos discorrendo sobre seus gostos literários e atraindo milhares, milhões de visualizações. Independente de isso ser bom ou ruim, não lhe parece que, hoje, é dado mais valor ao alcance de uma crítica (e incluo as palmas dos editores, dos autores e dos leitores) que à qualidade do texto?

JULIÁN FUKS – É verdade, esse campo do virtual é todo um mundo à parte ainda difícil de estimar. À primeira vista parece de fato muito mais condicionado pelos gostos pessoais, mais distante de uma avaliação fundada num conhecimento da teoria e da história da literatura, algo essencial à crítica desde tempos imemoriais. Mas confesso que sou ignorante demais nesse aspecto para poder aportar um juízo embasado. O que sim posso notar, em todo caso, é que essa crise da crítica é tão aguda que se impõe até no âmago das discussões literárias. Aqui poderíamos estar discutindo os problemas intrínsecos à construção de uma obra, as decisões difíceis que todo autor tem que tomar diante de sua matéria sempre indevassável, os infinitos desafios inerentes à dura lida com as palavras. Em vez disso nos vemos a discutir, tristemente, as vicissitudes do mercado editorial, suas imposições sobre obras que se queiram autorais, seus obstáculos a um exercício mais livre da escrita literária.

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Julián Fuks / Foto: Fernanda Sucupira

DA – O que a literatura argentina – e incluo aqui desde o mercado à produção criativa – pode servir de exemplo para os novos autores brasileiros?

JULIÁN FUKS – O que se costuma chamar de literatura argentina, ainda que caracterize apenas uma parte de tudo o que se produz por lá, é uma ficção feita de jogos cerebrais, ficção engenhosa, autorreflexiva, que se volta sobre si mesma para revelar com inteligência sua maquinaria. É isso, ao menos, o que geralmente se aprecia em Borges, Cortázar, Saer, Piglia. É claro que temos algo disso aqui, mas penso que a literatura brasileira ainda poderia se enriquecer muito com esse exercício, com narrativas que não se limitam à condição de narrativas, que se deixam invadir pela retórica, pela metafísica, pelo ensaio, por formas mais livres. É só uma sugestão, claro, ou um gosto pessoal. Sinto falta em nossa literatura de uma maior liberdade formal, e sinto falta também de um pensamento sobre a própria literatura que não se resuma à crítica usual, crítica jornalística ou acadêmica. Pessoalmente, como leitor, adoraria que os escritores brasileiros se dedicassem também ao ensaísmo, se entregassem mais plenamente ao pensamento sobre o mundo ou sobre a escrita.

DA – Há algo que a literatura brasileira pode oferecer aos novos escritores argentinos?

JULIÁN FUKS – A literatura brasileira, em seus autores principais que já tomamos por clássicos, parece ter um pendor pelo social, uma capacidade de apreender pela ficção algumas das mazelas do país, sua pobreza, sua desigualdade, suas tão evidentes injustiças. Nesse aspecto temos uma tradição consistente e muito consolidada, tanto na ficção quanto numa forte crítica sociológica, aquela que tão bem desenvolveram Antonio Candido, Roberto Schwarz e outros tantos. Arrisco dizer que a literatura argentina, mais marcada por uma postura elitista, poderia se beneficiar muito com esse olhar que se volta para o outro, com essa tentativa de incorporar à narrativa o que nossas sociedades têm de mais abjeto, de mais chocante, de mais nocivo. Podem soar contraditórias estas minhas respostas cruzadas, mas penso que haveria muita potência numa literatura que conciliasse o rigor formal argentino com a relevância social brasileira.

DA – O personagem Sebastián está no seu romance anterior e reaparece em “A resistência”. Quem é Sebastián? Um alter ego, uma encarnação de sentimentos? O quanto de Julián há em Sebastián?

JULIÁN FUKS – Não é disparatado dizer que se trata de um alter ego, o protagonista autoficcional por excelência ainda que não carregue meu nome, mas essas classificações não me parecem muito necessárias. Sebastián foi o personagem que construí minuciosamente, rigorosamente, em “Procura do romance”; ali Sebastián era figura incontornável, onipresente. Quando me pus a escrever “A resistência”, por um longo tempo não me dei conta de que o narrador era ele, pensava um narrador sem nome como todos os outros personagens importantes – ou pensava, por um longo tempo, confesso, que o narrador era eu. Foi só no final do livro que me dei conta da evidência, percebi que aquela voz não podia ser a minha, que escrever distorcia o que eu tinha a dizer, como sempre distorce tudo. Vi que aquele só podia ser um livro que Sebastián encontraria mais tarde, o romance com que se depararia quando já não estivesse tão obcecado com sua procura. Ou brinco, claro, ao falar dessas coisas todas.

DA – Você afirmou que o livro é uma resposta a um pedido do seu irmão, contudo, de maneira prática, qual o futuro que intenciona para ele? Há, em seu farol literário, procura por prêmios, reconhecimento, autoafirmação? A partir de “A resistência”, quais são os seus planos e projetos?

JULIÁN FUKS – Difícil projetar um “futuro prático” para um livro. O livro existe, está lá, é tudo o que eu pude fazer, é tudo o que eu posso fazer com ele. Foi resposta a um pedido do meu irmão, mas foi também uma resposta ainda mais íntima: contar essa história foi algo que exigi de mim, por vezes contra um ímpeto mais imediato, contra uma vontade tangível, contra uma resistência. Costumo sair da escrita de um livro um tanto exaurido, e por um bom tempo me mantenho alheio a outros projetos, deixando que cresçam em mim sub-repticiamente, sem me obrigar a escrever antes da hora. Enquanto isso, vou curtindo as boas conversas que a publicação suscita, vou absorvendo os comentários dos leitores, vou ganhando mais clareza sobre o que eu mesmo fiz, sobre o que ainda tenho a fazer, a dizer. Vagarosamente hão de nascer os novos projetos, ainda incipientes demais para que eu saiba falar sobre eles.

DA – Escrever, no Brasil, é um ato de resistência?

JULIÁN FUKS – Escrever pode ser resistir, pode ser capitular. No Brasil ou onde quer que seja, a mim interessam os escritores que fazem desse ato tão simples, tão corriqueiro, um ato de resistência contra a insignificância da vida, contra a pequenez da existência.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.