Categorias
120ª Leva - 05/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Dheyne de Souza

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Às vezes caminha em mim uma saudade que é um pouco arredia, um pouco insolente.
Ela vem com esses passos de noite como quem acorda um escuro.
Ela toma a mão dos meus sonhos e começa a cerzir metragens curtas.
Como se minha vida fosse uma fita me fita, essa memória meio insalubre, com os seus olhos de carpir montanhas. Com esses olhos de um tema curvo. Com essa displicência do momentâneo. Paisagem que dorme sem leito.
Mas não é sempre que me toca a pele esse vestido leve de sentir o peso.
Muitas vezes querendo que me perca me bato me espanco me ergo me enleio sentindo saudade desse modo específico de sentir falta.
É que ela me espinha o passado.
É que ela me aborta o presente.
É que me faz esquecer de ser para lembrar o que podia se fosse.
É que ela me ensina a ser forte, a ser grosso, a ser firme com seu meio ríspido de me tirar daqui. Com o seu gesto insípido de me lembrar que o instante é tudo o que tenho e deixo. Com o seu freio de desapego. Com o seu jeito, enfim, me devolve praticamente ileso.
Assim. Tem dias, confesso, que me pega bem preparado e eu lhe chamo de nomes bem feios – da forma que eu consigo dizer, que nunca fui muito afeito a maltratos. Mas digo mil coisas vis. Minto que esqueci de todo o berço. Grito que tenho costas limpas. Urro que no meu olho há cílios secos. Corro tanto a lembrar o quanto sou que tropeço e quando me aqueço azulejo já nem ri.
O que eu dizia mesmo?
Que às vezes ela não pisa nos meus medos.
E eu fico assim em vigília.
Eu fico assim dia a dia.
Sabe?
Eu vou ao supermercado e compro uma bala azeda.
Eu corto o cabelo em outra.
Eu rio uma piada negra.
Mudo de endereço. Danço. Corro.
Vou à academia louco a levantar esses pesos.
Bebo.
Mas ela me assiste em uma poltrona macia. Porque sabe que quando sento, quando meu olho esbarra na janela, que pena.
É uma ressaca pelada, sabe?
É quando falo com meu cigarro.
Quando me abro com um café, me banho um blues.
Quando tenho alma feito desmaio.
Olhando buracos.
Catando sílaba.
Medindo o vácuo.
Sentindo uma saudade oca de senti-la.

 

 

 

***

 

 

 

é feito de versos livres meus buracos
é leito de rasgos amargos, bordôs, quinas de alma quitada, muito bem riscadas, rasuras ranhuras alturas vesgas
são feitos de esquinas meus verbos
lânguidos. profanos. paralelepípedos logrados
deitados à rua como deitados à lua como deitados à alma sem tráfego sem traqueia

é feita de poros a língua
à míngua de tatos

 

 

 

***

 

 

 

das frestas

 

tem uma guelra na minha janela
movendo o olhar da paisagem
qual uma folha quando desperta
qual um transeunte quando erra
qual quimera, verbo na língua
quando bate no asfalto um sol a nado
tem uma morada
insone
nas minhas guelras

 

 

 

***

 

 

 

Poiesis

 

enquanto os risos escorriam nos pés
na grama
nos galhos
nos céus
dos outros no tempo
em que sempre voltamos
jamais estaremos

uma criança, longe, muda, exangue, sentada
num canto daquele muro
(como no canto dos outros muros que agora a
derrubam
feito um sino mudo)

nesse canto lhe deram uma rosa
era uma rosa comum, cor-de-rosa, jovem, justa, virgem
não soube o que fazer com tanta verdade
embora sequer soubesse disso
de que agora a memória sabe
do jeito que a memória sabe saber reticente

poderia ter passado a tarde toda
aquela criança
talvez eras
com a rosa nas mãos

poderia dizer do cheiro daquela pétala uma obra aberta
do tônus firme do seu corpo frágil
das inverossimilhanças do contorno
na sua cor silenciosa
dos rosas da rosa

se fosse dizível

mas quando o sol se punha
naquela época

pés sujos
risos suados
cabelos ventados
fôlegos rotos

mas a rosa
intacta
naquelas mãos tão pequenas meu deus e que já sustinham o medo
de ser túmulo

qual teria sido o erro
que cometeram aqueles dedos
incapazes ainda de todo mal que agora teciam tão displicentemente

tomaram-lhe a rosa sem
não foi sequer capaz de

despedaçaram todas as pétalas e sépalas
ouviam-se ranger suas veias
enquanto ensinavam que era assim
que se brincava com as flores

foi a primeira vez para ela
que a poesia
colheu o seu silêncio
humano

 

 

 

***

 

 

 

domingo, 17 de abril de 2016

 

do ódio que derrama dos dentes, independentemente da cor das gengivas, das camisas, das vias
da dor dos direitos lesados
do medo que descama nas mentes, dependentemente de vozes
que não vociferam virtudes
que não zelam
da história adquirida a suores a sangue a pancadas a vidas
ratos em vaginas
leis em latrinas
do absurdo de hastear a morte o golpe o cuspe o lustre
de deus da família dos nomes
instituições todas falidas
enquanto pisam repetidamente nos olhos nos ovos nos seios
do humano
ameaçado de mote
ameaçado de mote
Ameaçado de mote.

 

Dheyne de Souza é poeta. Mora em Goiânia. É membro do grupo de vocalização de poesia Corpo de Voz. Tem, em parceria com Helô Sanvoy, um canal no YouTube de leitura de poemas prosas prosemas, Pequenos Mundos.

 

 

Categorias
105ª Leva - 08/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Dheyne de Souza

 

Arte: Juca Oliveira

 

dos semáforos

 

hoje eu disse que, se sensibilidade fosse pólvora e texto (e não digo qualquer texto, digo daquele que. sabe) fosse fogo, eu explodia. que hoje estou minúsculo e daqui, sabe, as coisas são. obviamente, sim. maiores. eu sei. às vezes fico perdido sem você, ana. sem. caio. hoje eu queria escrever um romance de uma personagem que nasceu esses dias no semáforo. foi quando ela nós ali ante o vermelho que às vezes acho que é o espírito do trânsito tomando aquele fôlego para uma jornada abrupta rumo ao sucesso ao shopping ao dentista ao café ao terapeuta ao sexo a noite amanhã um dia. e ela havia nela um vinco bem no centro da sua testa que era onde o sol se punha naquele fim de tarde. o céu depunha ali nódoas e eu pude, veja, colher muitas cruas nacas de desejos entre, bem entre, assim como se abaixo dos lábios pequenos um pouco à esquerda do caos e eu vi do negro o avesso. que, e também me impressionei, era escuro. mas o que quis dizer dessas montanhas de areias vincadas ali naquele pedaço de face que via do meu vidro fumê a película que a abraçava vinha da sua mão escorrendo como quem não esperasse o verde a ação o futuro em sua parte que é breve. e essa mão de manchas feito a nuvem quando nada no mar. ela puxava assim tão gratuitamente uma mecha do seu cabelo que nem era leve talvez sedoso quando recém-lavado mas ela. ela emaranhada naquele fio suado que me contava do dia da fila do espaço do riso quando criança naquele balanço. eu quase ofereci um cigarro mas eu tive um medo tão grande de romper a sua Verdade. eu tive um medo tão grande de roubar dela e de mim aquela sobra do dia que vinha enquanto uma rima um verso branco mas tão rosa. feito a fresta do sol que dormia na sua testa. feito o vento que arrumava a cama enquanto o seu cotovelo ali despejado na porta do carro, suspeitando do meu olho feito cinema, decerto, tentava me esconder. ou me falar da lama que pousa nos sapatos. ou me contar da trama que sustenta o passo. ou me livrar do assalto que se tem quando. a vida da gente bate no. sinal aberto.

 

 

 

***

 

 

 

às vezes me preocupo tanto com minha memória, sabe, Acaso. é um duto hieroglifado. assim como se as paredes houvessem flâmulas a cada guelra. é uma espécie de nado, Nada, isso de transmutar o tempo, veia memória condão. a cada agora um apocalipse a cada desinência pretérita um epitáfio. e o olho que segue no túnel que era, veja bem, Tudo, era uma era. era uma escada sem step by step. que esse discurso fode-me, se me permite ser um pouco daquilo que vende mais. ouça, Todo, miragem pó e instante é tudo feito de achos. cachos. pedaços. dê-me uma pence de som, Silêncio. dê-me um soneto de escória, Mudez. dê-me uma toalha que não acho a vida líquida porra nenhuma é o meu olho que memora.

 

 

 

***

 

 

 

Um osso do verso

 

O cheiro que acorda a manhã tem raízes ocres.
E se se esquece a palheta?
E se se perde o horário?
E se tragando no tráfego no rádio no atropelamento na lembrança na resposta se se des-cobre o olfato? Digo, praquilo que é da Verdade, o não dito.
Que às vezes aquilo vem feito deus feito orvalho feito o rouco do locutor que erra o erre feito a cor dos pares. A dor dos semblantes. Mas isso tudo é muito pequeno, veja: já não se vê como toca. Como tolhe. Come-se. Sem olhar os dentes. Sem orar os crentes. Sim, senhora. Às vezes, deveras, vê-se sorrateiramente, quando a vida em estado comercial, de esguelha. Vezes se se cura com o sinal, vezes não. Que há o atropelo de som e de líquido e de insípido que é o. Isso. De ver que seja insípido. A sorte é que há sempre outros semáforos, há passos, há laços lassos. Do que se faz alimentar esses ó(s)culos. Pra ver melhor o não.

 

 

 

***

 

 

 

sem título

 

ah a vida e esse cheiro que vela
como um cavalo no escuro no pesadelo da espora
como uma grama que acorda molhada pra ser pisada
como um refém que habita o esconderijo da porta
como uma escolta. paulatina. versando que a vida há

 

Dheyne de Souza é poeta, está em Goiânia-GO, vê o fantasma do verbo bêbado. Tem um canal de leitura de poemas prosas prosemas no YouTube: Pequenos Mundos