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137ª Leva - 04/2020 Gramofone

Gramofone

Por Pérola Mathias

 

MARCOS VALLE – CINZENTO

 

 

Claro que em janeiro não sabíamos o que estávamos prestes a viver pelos próximos 7 meses: uma pandemia. Mas já tínhamos fatos e dados suficientes para saber que, sendo brasileiros, teríamos um ano difícil – ou, no mínimo, desafiador. Ao menos em termos econômicos e políticos. E parece que o disco de Marcos Valle, lançado ainda no primeiro mês do ano, parecia já dar conta desse ar no qual estamos imersos. Seu título é “Cinzento”, e traz na capa uma foto em que Valle aparece sério, envolto por um plástico transparente.

Marcos Valle tem quase 60 anos de carreira. Seus discos marcaram fases e períodos diversos da música brasileira, justificando que um crítico o considerasse, ele mesmo, um gênero musical; caracterizado pelo “estilo valleano”, na qual cabe bossa, cabe experimentação, cabe jazz e cabe pop.

Ao ouvir “Cinzento”, três aspectos parecem saltar aos ouvidos. O primeiro são as letras e os arranjos. Elas soam atuais, urgentes, feitas mesmo com a consciência de que o agora precisa ser transformado para continuar existindo. O segundo é que o disco foi composto por parcerias diversas: a clássica de Marcos com seu irmão Paulo Sérgio e também com uma geração bastante conhecida de músicos cariocas, mais novos que Valle. Entre eles, Moreno Veloso, Domenico Lancellotti, Kassin e Bem Gil. O músico também recuperou uma parceria sua com Zélia Duncan, ainda inédita. Somam-se ao time, ainda, Jorge Vercillo e um dos maiores cancionistas do país, Ronaldo Bastos. A faixa de abertura e a faixa-título do disco são de uma parceria inusitada, porém bem sucedida, entre Valle e o rapper paulistano Emicida. O terceiro aspecto é a leveza com que o disco consegue ir de um retrato da realidade ao tema do amor. O que lembra o feito do músico no seu clássico “Previsão do tempo”, de 1973. E é preciso dizer que essa “leveza” é implícita no som característico de Valle, e não resultado de uma negação da aspereza da vida real.

 

Foto: Jorge Bispo

 

Logo no primeiro minuto, é impossível não se render ao groove de Valle somado aos versos “Se tudo é ciclo, me reciclo e volto mais bonito, ano que vem/Em tudo eu acho graça/Mesmo em meio à desgraça/Entendo e rendo graça/Que a vida ainda é de graça”, que soam como profecia ou mantra.  “Cinzento” também traz o tema do tempo, cita o deus Cronos como um ser de fome voraz. Mas sem o movimento do tempo, não há aprendizado. Admitindo a grandeza do tempo, é possível libertar a alma. E Valle e Emicida deixam o recado: “Pra ciência e outros campos que aciono/Alinhado com cada cromossomo/Grisalhos cabelos dizem bem como somos/Bem tranquila nos aguarda num domo/A cinza sabedoria de cajado e quimono”.

“Se proteja”, parceria com Bem Gil, também parece trazer um recado de como enfrentar dias difíceis: olhando para si mesmo. Diferente das composições que Valle assina com Moreno, Kassin e Domenico, nas quais predomina a temática amorosa. As músicas são “Redescobrir”, “Lugares distantes” e “Pelo Sim, Pelo Não”. Nesta última, a cantora Patrícia Alví, também esposa de Valle, canta junto a ele.

A letra de Jorge Vercillo em “Só penso em Jazz” faz tremer as teses críticas escritas por José Ramos Tinhorão nos idos dos anos de 1960. Nela, o sujeito revela uma completa paixão pelo jazz, que poderia ser completamente sem sentido, já que “cê fica louco” e “cê ganha pouco”, diz. Mas a alegria do som vale a pena e ele termina ligando nomes de diferentes vertentes da música brasileira, não apenas da bossa nova, ao jazz, como Ivone Lara, Capiba e Luiz Gonzaga.

“Cinzento” saiu pelo selo brasileiro Deck Discos, menos de um ano depois do disco “Sempre”, lançado em junho do ano passado pelo britânico Far Out Recordings. Esse último tem uma sonoridade mais ligada à bossa, enquanto o último soava mais funky e pop. O disco pode ser um belo afago para sua quarentena, caso ainda não tenha escutado.

 

 

Pérola Mathias, doutora em sociologia, pesquisa música contemporânea e é autora do blog Poro Aberto.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Gramofone

Gramofone

Por Pérola Mathias

 

ROBERTO MENDES – NA BASE DO CABULA

 

 

“O samba já existia antes do samba?”. A frase é um verso de uma das canções que Roberto Mendes reuniu em seu último disco, Na Base do Cabula, que é mais um passo da construção de uma obra que retoma as raízes do samba do recôncavo da Bahia em seus diversos formatos, como a chula ou a cabula – expresso já no título do disco.

O álbum, que chegou depois de um intervalo de 11 anos desde o último lançamento de Roberto Mendes, reúne diversas músicas que ele já havia gravado em discos anteriores e algumas novidades. A grande diferença aqui é que desta vez ouvimos apenas voz e violão, e todo o ritmo das tradições musicais pesquisadas por Mendes em sua composição vêm trabalhadas no seu instrumento despido de qualquer acompanhamento.

Da parceria de uma vida com Jorge Portugal, escutamos no disco novas versões para as faixas “O samba antes do samba”, “A beira e o mar” e “Baianos Luz”. A primeira, a qual o verso que cito no início deste texto pertence, reivindica o recôncavo baiano como berço do samba, onde supostamente o gênero teria nascido – discussão que é divertida quando se trata de poesia, mas um tanto caduca quando levamos pro lado acadêmico da pesquisa.

 

Roberto Mendes / Foto: divulgação

 

“A beira e o mar” pode ser considerada um clássico. Gravada por Maria Bethânia em 1984, a música também deu nome ao álbum da cantora. Também filha do recôncavo, do clã Viana Teles Veloso, Bethânia gravou diversas músicas de Roberto Mendes, como “Yayá Massemba”, “Olhar Estrangeiro”, dentre outras. É difícil escolher os versos mais bonitos ou marcantes dentre os cantados por Roberto Mendes, mas merece destaque a imagem trazida na poesia de “A beira e o mar”: Mesmo que desamanheça e o mundo possa parar / Nem nada mais me pareça, invento outro lugar / Faço subir à cabeça o meu poder de sonhar / Faço que a mão obedeça o que o coração mandar”. Na versão gravada por Bethânia, Roberto Mendes gravou os violões junto com Toninho Horta, que fez o arranjo. É interessante o exercício de ouvir a versão da cantora; a do próprio Mendes no disco Tradução, de 2000; a versão de Moreno Veloso no disco Solo in Tokyo, de 2011;  e a que é apresentada em Na Base do Cabula.

Por se tratar de uma homenagem, “Baianos Luz”, que vem por último no disco, talvez seja a de menos destaque. Mas não menos carregada de significados, já que a música relembra o legado dos baianos que mudaram a forma de pensar e fazer arte no Brasil – os tropicalistas -, fazendo com que depois deles déssemos um salto para o futuro, em diversos sentidos.

Na Base do Cabula foi produzido pelos dois filhos de Roberto, que também são músicos: Leo Mendes, o mais velho, e João Roberto Caribé Mendes Filho. “Deu foi dó”, inclusive, é uma parceria entre Roberto e João que acrescenta mais novidade ao disco.

 

Roberto Mendes / Foto: divulgação

 

Por fim, o sincretismo religioso do Recôncavo surge em forma de poesia musicada em faixas também anteriormente já gravadas como “Mãe Senhora”, faixa de abertura que pede a benção para começar. Além de “Bom começo, parceria com o poeta José Carlos Capinan, para se cantar em forma de oração a Oxalá e Senhor do Bonfim. Com Na Base do Cabula podemos mentalizar um fim de ano tranquilo e continuar com ele até pelo menos a segunda quinta-feira de janeiro, dia de subir a colina sagrada, sem enjoar.

 

 

Pérola Mathias, doutora em sociologia, pesquisa música contemporânea e é autora do blog Poro Aberto.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Gramofone

Gramofone

Por Pérola Mathias

 

NOMADE ORQUESTRA – VOX POPULI

A Nomade Orquestra chega ao terceiro disco mais entrosada, mais pop e mais coesa, seguindo uma linha ascendente desde seu primeiro álbum de 2014. Sem perder a proposta de mistura de ritmos e estilos musicais que vão do jazz, do fusion, do groove, do hip hop ao afro beat e à música brasileira, Vox Populi, lançado em maio passado, traz ainda um novo e importante elemento: o canto. Por cima de bases instrumentais criadas coletivamente pela big band do ABC paulista, os convidados Edgar, Juçara Marçal, Siba e Russo Passapusso colocaram seus versos e adicionaram sua personalidade às faixas.

Cada convidado está à frente de duas faixas. Aberto por “Ocidentes Acontecem”, com o rapper de Guarulhos Edgar, Vox Populi consolida a longa parceria do grupo com o artista. Edgar participa e performa em vários dos shows da Nomade. E parte da banda também acompanhava Edgar em seus shows antes dele lançar seu disco Ultrassom (2018). Como é típico nas letras e no estilo de Edgar, “Ocidentes Acontecem” e “Constante Mesmice” profetizam verdades relativas, porém suficientemente incômodas e provocativas. Nas músicas, Edgar aponta as doenças da mente, do corpo e da alma que pairam sobre nossa sociedade cada dia mais caótica.

 

Nomade Orquestra / Foto: divulgação

 

O segundo convidado a aparecer no disco é o baiano Russo Passapusso, front man do fenômeno Baiana System. Em “Agente Russo” o baiano faz um trocadilho com o próprio nome para construir a ideia dos versos que canta. Mais otimista que Edgar e pregando o amor e a união como resistência, diz: “eu não troco a luta pra viver no tronco […] câmbio, câmbio, streets, xangô”. Além do ritmo acelerado e suingado, marcado pelos solos do naipe de metais e pela percussão, a faixa é um alívio para as cabeças com febre por causa de séries como Stranger Things, que retoma de maneira superamericanizada o período da guerra fria, e por causa do fascismo político no Brasil atual. “Plena Magia” reforça essa ideia, mas com um ritmo mais calmo e que poderia ser uma balada se fosse mais lento. Sua letra diz: “alegria e resistência: esse é o nosso lema”.

Em contraponto às frases que remetem ao momento político de agora, que estão na boca dos militantes e estampadas em suas camisetas, as faixas de Juçara Marçal e Siba mostram a força da tradição, que é por si só resistência. “Eró Iroko”, saudação a Exu, traz a voz potente e ancestral de Juçara acompanhada pela banda, em que a flauta de madeira tocada por André Calixto se sobressai. Em “Temporada de caça”, talvez a faixa mais longa do disco, Siba canta versos encantados e cheios de sabedoria sobre o mundo, como é comum em suas letras, e faz combinar sua rabeca com o som tirado pelos onze músicos que compõem a Nomade Orquestra.

Cada faixa parece deixar um dos instrumentos da Nomade mais evidente. Ora o sopro, ora o teclado de Marcos Maurício, ora a guitarra de Luiz Galvão, que nunca se perde em meio a tantos instrumentos, ora a percussão. Com Vox Populi, a Nomade Orquestra mostra que vem consolidado uma obra que se sustenta com qualidade, pesquisa e invenção.

 

 

 

Pérola Mathias é doutoranda em sociologia, pesquisadora e crítica musical. Editora da revista Polivox e do site Poro Aberto.

 

 

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129ª Leva - 01/2019 Destaques Gramofone

Gramofone I

Por Pérola Mathias

 

TUZÉ DE ABREU – CONTRADUZINDO

 

 

Tuzé de Abreu é um daqueles nomes que pouco aparecem na mídia ou citado pela crítica, mas cuja atuação e trajetória costuram uma parte importante da música brasileira dos anos de 1960 até hoje. Ele faz parte de uma geração privilegiada, nos anos iniciais da criação da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia pelo reitor Edgar Santos, que levou para ensinar lá mestres da música de vanguarda, como o maestro H. J. Koellreuter. Graduado e mestre em música, foi aprendiz do suíço inventor de sons Walter Smetak, participando da gravação do disco Interregno (1980). Tuzé foi o único músico que vi, até hoje, executar performances com os instrumentos originais de Smetak expostos no Museu Solar Ferrão, em Salvador.  Além disso, é parte da geração de grandes nomes da música popular brasileira nascidos na Bahia: Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Tom Zé, com os quais soma diversos tipos de parcerias, seja tendo suas músicas regravadas ou tocando nos discos.  Tuzé fez parte do grupo Quarto Crescente, com o qual excursionou por diversos países, tocou em grupos de choro, como o de Edson Sete Cordas, grupos de samba de roda e é, até hoje, integrante da Orquestra Sinfônica da UFBA.

Em dezembro de 2018, Tuzé de Abreu lançou seu segundo disco solo, Contraduzindo, pelo Sê-Lo Netlabel. O disco saiu depois de um intervalo de 17 anos em relação ao primeiro, Larrálibus Escumálicos Cujolélibus. Com 15 faixas que mesclam músicas novas e releituras de antigas, o disco foi produzido e arranjado por Gil Camará, que também toca violão de nylon. Contraduzindo traz já no nome a “simples complexidade” sonora e poética de Tuzé, como disse Orlando Pinho.

Tuzé transita pelas diferentes vertentes da música: a erudita, a experimental e a popular, seja ela moderna ou tradicional. Todos os elementos estão presentes em suas composições. Talvez por isso a complexidade dessa sua nova obra esteja colocada logo no título. Se “contradizer” pode ser “afirmar o oposto do que foi dito antes”, – e “traduzir” quer dizer “ser a reprodução”, “a interpretação ou expressão de”, “expressar-se através de” -, “contraduzir” poderia ter, como denominador comum de significado, “expressar o oposto”. É mais profundo do que contradizer. É diferente de não traduzir.

 

Tuzé de Abreu / Foto: arquivo pessoal

 

Na faixa título do disco, a ideia é expressa pelo jogo de apenas dois versos, ora em negativa, ora afirmativo, que se combinam em contraposição ou se sobrepondo: “Eu tenho medo / Significa eu não tenho medo / Eu não tenho medo / Significa eu tenho medo / Eu tenho medo / Significa eu tenho medo / Eu não tenho medo / Significa não tenho medo”. As frases são cantadas por Tuzé e vão crescendo até que um coro assume a faixa que explora a percussão e o sopro, encerradas pelo ritmo característico das palmas que marcam o samba de roda da Bahia.

O jogo de contrários dos versos de Contraduzindo convivem, no disco, com reflexões sobre questões mais profundas da existência. Como a religiosidade presente em “Totem”, uma adoração a Oxóssi. Em “Imensidão”, busca aquele lugar que não alcançamos, o “mistério” que se esconde na “imensidão do eu”. Eu ou o Nós, que existe apenas no presente: junção de vida e morte. Tuzé canta em “Presente”: “o passado é imenso / o futuro infinito”, entoando as vogais dos adjetivos de forma estendida. Sobrepõe a eles os versos: “E nós? E nós? E nós? Nascendo e morrendo / Nascendo e morrendo / Nascendo e morrendo”.

Diferente de Larrálibus, que somava participações das cantoras Jussara Silveira e Gal Costa, Contraduzindo traz apenas a voz do próprio Tuzé na maioria das faixas cantadas. No entanto, em ambos os discos, a impressão é a de que Tuzé vai nos envolvendo em suas canções até que elas se desfaçam e sobre apenas o som, descascado em timbres e cores. Em Contraduzindo, o auge desse movimento se dá em “Suíte Casazul”. Mas depois ele vai retomando aos poucos os fios separados e os enreda.

Talvez pareça estranho que um músico do porte de Tuzé de Abreu tenha apenas dois discos solos, ainda que sua trajetória seja riquíssima. Em uma entrevista ao programa Especial das Seis, da Rádio Educadora de Salvador, em 2015, ele disse que andava descrente do disco, que preferia colocar suas músicas na internet ou dar aos amigos. E agora, em 2019, o público recebe Contraduzindo como presente. Por outro lado, na mesma entrevista, o músico disse que gostava de se concentrar nos ensaios para os shows, deixar os números super bem ensaiados para dar margem às experimentações ao vivo, desconstruindo, assim, o formato da performance.

Tuzé é nossa história viva e acaba de lançar, no auge de seus 70 anos, um dos discos mais inventivos e melódicos da atualidade.

 


 

Pérola Mathias é doutoranda em sociologia, pesquisadora e crítica musical. Editora da revista Polivox e do site Poro Aberto.

 

 

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126ª Leva - 04/2018 Gramofone

Gramofone

Por Pérola Mathias

 

MICROARQUITETURAS – RAFAEL MACEDO & PULANDO O VITRÔ

 

 

“Vou repetir quando for necessário / deixo as vanguardas pra todos vocês” é uma das frases poéticas e provocativas que permeiam o disco “microarquiteturas”, dos mineiros Rafael Macedo e Pulando o Vitrô, lançado no último mês de junho pela gravadora Roncinante, do poeta e músico carioca Sylvio Fraga.  O verso que abre a faixa Moeda é revelador em muitos sentidos e sintetiza um pouco do que parece ser esse disco no contexto da música atual: ao mesmo tempo em que não dá a mínima para qualquer tipo de receita mercadológica ou fórmula popular, também não busca o hermetismo acadêmico. Promove um trânsito entre linguagens e sonoridades, ritmos e tradições, respeitando apenas a criação, a invenção e uma questão muito própria.

“microarquiteturas” é um disco que começou a ser gestado há mais de dez anos. Teve como matéria prima principalmente as harmonias e melodias criadas no violão e nas letras, sobre as quais Rafael Macedo trabalhou e acrescentou os demais instrumentos e as vozes. Seus principais parceiros no disco são Bernardo Caldeira e Rafael Pimenta.

O disco é composto de 11 faixas que têm formatos e durações bem diferentes, que vão dos 2 minutos aos 9 minutos. Suas músicas, às vezes, parecem mais peças do que canções. Noutras são mais canções do que peças. As camadas de vozes, o texto poético, os recortes de noticiários e as referências explícitas a músicas conhecidas de tempos, lugares e ritmos diferentes parecem construir uma narrativa quebrada, típica dos nossos tempos. Porém, a fluidez das harmonias cria uma unidade dentro desta construção pautada por uma soma de detalhes mínimos – ou, nas palavras de Rafael, “esforços ao redor do mínimo”. Assim o músico justifica o nome do projeto: “o título tem a ver com essa coisa de ir e vir, de ouvir várias vezes a mesma coisa ir se modificando, de decidir se um prato de bateria deve ser colcheia ou semicolcheia porque o clarinete tocará um segundo depois; de decidir se o contrabaixo toca mais à esquerda ou à direita do captador para que a sonoridade ideal seja alcançada. Acredito que por ali esteja o ‘micro’. Já as ‘arquiteturas’ são o resultado, de algum modo, da soma de tudo isso, da estrutura final, onde morarão os ouvidos”.

 

Rafael Macedo & Pulando o Vitrô / Foto : Luiza Palhares

 

Um exemplo é a faixa de Lá, a única inteiramente instrumental do disco, que começou a ser composta em 1999, segundo conta Rafael. A composição que inicialmente tinha 02:40 foi finalizada com 8 minutos na versão gravada. É uma faixa que vai “de uma textura homofônica a uma exploração de texturas polifônicas e heterofônicas”. Aqui a voz não chega a pronunciar nenhuma palavra, apenas emite sons. Segundo o próprio Rafael descreve, ela é um exemplo de sua relação com a ideia de “texto” num sentido amplo: “não há qualquer nota ou qualquer ‘passagem’ instrumental criada sem o desejo de discurso, sem algum tipo de necessidade de narrativa, ainda que inspirada pelo absurdo, como Delírio. Para mim, tudo, instrumentos, vozes e letras são texto, são linguagem e querem comunicar algo em comum ou dialogal entre si, cada instância a seu modo”.

Delírios explora ainda um ponto fundamental: o silêncio. Ele permeia da percussão inicial até o final da música, que termina com uma série de respirações fundas e pausadas. As letras das demais faixas do disco vão construindo, junto com as melodias, uma espécie de micro poéticas do cotidiano em seus versos. Como em Outro retrato, em que Rafael canta cenas do dia a dia – “eu só quero ver tu me dizer / de algum lugar melhor / já cansei de ser peão / quase todo dia vou na padaria ali / tomo uma branquinha” – e no fim vem a voz feminina do disco, que é da atriz e poeta Brisa Marques, que sussurra: “Se for algo, prefiro a voz do imponderável”.

Canto Troncho começa com a narração de um noticiário que é atravessado pela música, enquanto a verborragia dos acontecimentos continua soando. Depois, a voz é cortada e a melodia segue até que o canto entre – “esse canto troncho não inventa o que você quer ser” -, e depois ele volta a ser cortado pelas notícias que correm junto da música. No fim, a voz de Brisa entra pedindo “Calma! Calma! Nosso programa acaba daqui a pouco. Ele é sempre do mesmo tamanho: é o seu desejo”.

 

Rafael Macedo & Pulando o Vitrô / Foto: Luiza Palhares

 

“Quem só come sonho morre amargo”, de Vivi, é outro verso marcante do disco. Já a faixa essa não é (assim mesmo em caixa baixa, como frisa Macedo) começa com a voz de Brisa recitando o verso “Capa: um biombo entre o mundo e o livro” e termina com “Homem: um biombo entre o som e o sentido”. Esta é uma das músicas permeadas por citações. Para o ouvido leigo, de cara identificamos Lua de São Jorge, que acaba por desembocar em Alegria, alegria. É uma trama complexa de referências, colagens e experimentalismos que se referenciam também a compositores distantes da música popular, como Messiaen. Essas referências soam como “samples orgânicos”, unindo diferentes linguagens exploradas ao longo do disco. O próprio Rafael descreve essa teia criada: “é, em resumo, a canção que não quer ser canção, sendo; e que não quer – sabendo que não pode – ser única (com colagens de clássicos da MPB e da música pop norte-americana ou de Debussy, Schönberg, uma “pontinha” de Gershwin e Wagner), sendo, de algum modo, ela própria. É um resumo da angústia e da alegria e desejo de compor e criar por aqui, no espantoso século XXI”.

Além do Pulando o Vitrô, formado por Bernardo Caldeira, Rafael Pimenta e Yuri Vellasco, o time de músicos que acompanha “microarquiteturas” é formado por Alexandre Silva (clarinetes); Francisco César (bandoneon, sax e taça); João Paulo Buchecha (trombone); João Paulo Drumond (percussão) e João Paulo Prazeres (saxofones). No disco participam ainda Alexandre Andrés (flauta); Leonora Weissmann (voz); Micael Pancrácio (guitarra flamenca) e Ricardo Passos (voz); além da voz de Brisa Marques, que participa do disco e dos shows. Brisa e Rafael têm trabalhado juntos em experimentações poéticas desde 2012, quando ele participou da Mostra Cantautores em Belo Horizonte.

No show pensado para o disco, há também a participação de Leandro César, pesquisador da linguagem da performance. O show do disco promete inserir no palco uma lógica teatral e uma apresentação mais concentrada, sem falas ou pausas, mesclando cena e som. Por enquanto, os shows estão acontecendo apenas em Belo Horizonte.

 

 

 

Pérola Mathias é doutoranda em sociologia, pesquisadora e crítica musical. Editora da revista Polivox e do site Poro Aberto.

 

 

 

 

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124ª Leva - 02/2018 Gramofone

Gramofone

Por Pérola Mathias

 

ARRETE – SEMPRE COM A FROTA

 

 

Não faltam mulheres protagonizando uma cena e mudando rumos e paradigmas, seja na música, no mundo da arte, na política ou em qualquer área da vida social. Mas quando estas mulheres chegam a ser vistas e reconhecidas, podemos saber que há uma longa trajetória de luta, afirmação e busca por reconhecimento para que chegassem a ocupar este lugar. É a velha história de que as mulheres precisam estudar, pesquisar, se especializar e falar grosso três vezes mais (no mínimo) do que os homens para serem reconhecidas. Se for mulher e da periferia, então, a questão se aprofunda ainda mais.

A trajetória de Ya Juste, Nina Rodrigues e Weedja Lins, que compõem o grupo de hip hop pernambucano Arrete, não é diferente. Vindas de uma longa estrada de criação e produção no hip hop nordestino, o grupo lançou em 2017 o seu primeiro disco: Sempre com a frota. As MCs estão na estrada desde o começo dos anos 2000, tanto como MCs, quanto como pesquisadoras da cultura popular nordestina e, no caso de Weedja, também como dançarina de break.

O Arrete começou em 2012 e leva o nome do primeiro single que lançaram: “Arrete não”. O single foi divulgado através de um clipe, produzido, gravado, editado e locado pelas próprias Ya, Nina e Weedja na comunidade em que moram, Cajueiro Seco, em Jaboatão do Guararapes, município da região metropolitana do Recife. Esse primeiro single foi um anúncio e uma mostra do tom e da estética do grupo, tanto visual, quanto musical.

 

Arrete / Foto: divulgação

 

O disco veio cinco anos depois, gravado entre 2016 e 2017 e lançado em julho deste último ano com o apoio do Funcultura. Segundo as próprias integrantes do grupo, o processo de criação do disco expressou os anseios delas em relação à música que queriam fazer e à forma como equilibrariam a arte com a vida pessoal – as paixões, a família, a maternidade, as amizades, etc. O álbum agrega composições engavetadas e composições novas, que fizeram com que o trabalho tivesse uma coesão entre a estética e a personalidade de cada uma. O nome do disco é o título de uma das composições de Nina, que é também uma das faixas com o instrumental mais pesado e sóbrio. A letra traz os parâmetros de uma ação e existência ética no mundo: “hip hop incendeia no ritmo e poesia/ na filosofia com a frota sem censura/ então assuma agora/ postura, ideologia/ sem hipocrisia, falsa conduta”.

A faixa que abre o álbum, “Poetizar”, dá o tom da mistura sonora que o disco traz aliado à poesia das meninas. Sons tradicionais da música popular nordestina, como o pandeiro e a viola – que são, inclusive, citados na letra -, aliados à guitarra distorcida, compõem essa abertura em que as MCs se identificam e definem seu lugar de fala:  “Somos versos mais que prosa/ somos todas muito caras/ Esse é o projeto Arrete/ poetiza nordestina com orgulho/ pernambucana da terra de Aruanda /trago as guerreiras de lança”. E ao longo da letra outras muitas referências à cultura regional vão sendo invocadas, costurando as influências que as próprias meninas trazem em sua trajetória artística e de vida, que vão do cenário do manguezal e do canavial à influência de Luiz Gonzaga, “trilha sonora do nosso povo”. E definem: “arquitetas de uma grande e intensa batalha […] seguirei sempre com a frota, com as mais finas rosas e com a mais forte prosa”.

“Arrete não”, o single lançado em 2012, vem no disco com uma batida eletrônica que mescla o brega e o hip hop. Na letra, assim como em “Sempre com a Frota”, que dá nome ao disco, há uma espécie de manifesto: “Queimei as pestanas pra fazer o som do bom/ se tem o dom/ prove e mostre o do bom/ não arrudeie/ com fala solta nesse vento/ se for pra provar/ tem que ser só no talento/ tô com a gota serena/ pra esculhambação […] Ideologia/ o que te falta nessa vida”. A letra é recheada de expressões locais e do sotaque regional.  A expressão que dá nome à faixa já é um exemplo. O verbo “arretar” significa fazer voltar; fazer parar; ou parar o movimento. Mas como expressão quer dizer abusar; irritar; tirar do sério. “Arrete não” seria, assim, algo como “não perturbe”: “Arrete não/que o bonde aqui é bravo”, dizem as meninas. O disco todo é permeado por esse vocabulário idiomático, o que pode dificultar o entendimento de algumas letras para um público não nordestino, mas não impede que o resto do Brasil compreenda, mergulhe e escute essa cultura. É uma forma de fazer conviver, inclusive, a riqueza da linguagem que configura nossa formação cultural dentro de um país continental, que não pode ter uma única imagem para se representar.

Já “Le Plaisir” é uma das composições novas, feitas para o disco. A música fala de amor e o som se aproxima de referências do hip hop brasileiro contemporâneo, como o feito por Tássia Reis, por exemplo, explorando ritmo e balanço mais lentos. A faixa é outra que ganhou clipe com roteiro, direção, fotografia e figurino executado pelas próprias MCs, que convidaram estudantes de dança da Universidade Federal do Pernambuco para fazer dialogar o break com a dança contemporânea. O cenário também foi desenhado por elas mesmas e é composto por diversos objetos que remetem às famílias de cada uma. Como os quadros do pai de Yanaya, que é artista plástico, as madeiras que fazem referência ao avô carpinteiro de Nina e os vinis. O título e os versos em francês também vêm da descendência de Ya. Elas falam que se remetem muito à família no trabalho porque a família foi sempre muito presente para elas no processo artístico.

O ragga aparece nas faixas “Faya” e “Bang Bang”, somando no arco de referências sonoras que o Arrete agrupou neste seu primeiro disco: o brega, o eletrônico, o hip hop, os sons de viola nordestina, pandeiro e de guitarras distorcidas (mescla que outrora havia irrompido no movimento manguebeat) etc.

 

Arrete / Foto: divulgação

 

Todo o instrumental do disco foi feito pelos músicos Riva Le Boss e Felipe Maia, que conseguiram traduzir as influências das integrantes do grupo. Ya diz que gosta muito do ragga, do rock dos anos 70; Nina, de música popular nordestina e de música pernambucana; e Weedja soma com o rap old school, gangsta e também com o brega. No leque de influências contemporâneas, elas citam os conterrâneos Flaira Ferro, Juliano Holanda e Johnny Hooker. Além da nova cena do hip hop brasileiro que, felizmente, agrega cada vez mais mulheres, como Flora Matos, Karol Konká e a já citada Tássia Reis.

Por fim, é preciso destacar que o Arrete reúne em seu projeto todas as linguagens da cultura hip hop, acompanhadas nas batidas pelo DJ Rimas.INC e por dançarinas convidadas.

Com pouco mais de seis meses de disco lançado, o Arrete já fez inúmeros shows em Recife e pelo interior. Ao longo do carnaval foram duas apresentações: no som na rural na Cena Peixinhos e no palco do Rec Beat no domingo, dividindo a programação com Larissa Luz, Lucas Estrela, Don L, Javier Díez-Ena e Dj Flavya. Além das músicas do disco, aproveitaram a ocasião para mostrar um novo single, “Não te quero mais mizéra”, feita pelo DJ Rimas.INC, com produção de Patrick Torquato, que pesquisa e defende a música periférica, empoderamento e combate aos preconceitos em seu trabalho. Assim, na expressão, nas linguagens artísticas que agrega, no vocabulário, nas expressões, no sotaque e no timbre, o Arrete é uma amálgama de valores e postura estética, cultural e política.

 

 

Pérola Mathias é doutoranda em sociologia, pesquisadora e crítica musical. Editora da revista Polivox e do site Poro Aberto.