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90ª Leva - 04/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Márcia Abath

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

movimentos ou a chuva

 

cansou-se
das homeopáticas
gentilezas

(não nascera para avarezas)

silenciosa
arrumou-lhe a casa
recolheu suas penas

pé ante pé
sem adeus
partiu sem problemas

(sua única avareza: as despedidas)

no peito lhe inflavam todos os poemas

 

 

***

 

 

bifurcação


não tinha
água
não tinha
irmão

não tinha
rama
não tinha
quinhão

não tinha
ardor
gatilho
no ouvido
ele apertou

cheia
de ardor
flor
no caminho
ela inventou

 

 

***

 

 

goela

 

ah, esse anil que me cega!
não quero falar-te de flores
ou exercer odes poéticas

sequer tecer novenas

basta!

acordei faca de serra

quero cantar-te
circe medusa medeia

*- Ei! procura teu chiqueiro e vá espojar-se com teus amigos.
(Odisseia de Homero )

 

 

***

 

 

na quarta pingo fogo

incendeio versos
encharco esboços

excomungo
jogo graça

que o diabo
neles se quebre

tosco arrefeço

 

 

***

 

 

estima

 

não me amasse
não me demita

dobro palavras
assinalo esquinas

no que deito rolo
não cravo estigma

 

 

***

 

 

pilatos

 

não me impute
o que é teu

eu só escrevo

o traduzir-me
é teu
a(s)cendo !

 

 

***

 

 

delação

 
não a amasse
seria coragem

não a vestisse
seria ultraje

toda palavra (a)trai

 

 

Márcia Abath (Niterói/RJ). Poeta, formada em Relações Públicas pela FACHA/RJ. Publicou “Arqueio – ensaio poético contemporâneo” (poesia, Ed. All Print, 2013). Em março de 2014, lançou “Molho de letras” (poesia, Ed. Literacidade), 2° lugar Prêmio Literacidade, poesia, livro completo.